2 de fevereiro de 2008

Sandes, diz ele, com garfo, e batatas fritas com a mão?

A minha proposta é simples: que se deixe de falar de cultura enquanto não se tiver uma ideia, nem que vaga, do que se está a falar. Sim?

As “diferenças culturais” são muitas vezes apresentadas como vedações intransponíveis que foram criadas à nossa volta pelo meio em que vivemos enquanto éramos ainda jovens e que nos hão-de aprisionar toda a vida. A quem achar que a descrição é demasiado caricatural, aconselho a analisar com cuidado os pressupostos em que assentam e as implicações que têm as afirmações normalmente feitas sobre as tais “diferenças” culturais. O facto é que a maior parte das pessoas que as fazem nunca se aventurou fora do que considera a sua “cultura”, atitude esta que não é de modo nenhum ideal para testar o verdadeiro “peso” dessa “cultura” – e ainda menos para pôr em causa o próprio conceito de “cultura”. Ora, as perguntas que nos surgem de imediato mal nos dispomos a questionar a confortável ideia de “cultura” são tão simples como reveladoras – ou atemorizadoras, para alguns. Eis alguns exemplos:

Da lista que se segue, o que é adquirido cedo e está profundamente ancorado em cada um de nós (marque com um X):
a pronúncia do r;
a fé num deus;
a convicção de que quem chega é que tem de cumprimentar quem já está;
a convicção de que há que fazer sempre seguro do recheio da casa;
a convicção de que não há nada na vida que não tenha implicações económicas;
a convicção de que a economia é que determina a nossa vida;
a certeza de que as mulheres devem obedecer aos homens;
o sentimento de que usar meias com sandálias é feio;
a interiorização do ritmo da bourrée da Auvergne como ritmo “normal”;
o sentimento de que a perda de batalhas retóricas diminui uma pessoa;
o sentimento de que é feio falar só por falar;
a ideia de que se deve comer alface com favas guisadas;
o sentimento de que a distância mínima a que se pode estar de desconhecidos é um metro;
o sentimento de estar sujo quando não se toma banho uma vez por dia?

A “cultura” tem como base uma estrutura abstracta inata que é preenchida por convicções e sentimentos, adquiridos com relações precisas e inalteráveis entre eles, ou é como uma acumulação (interminável por definição) de módulos independentes, com pesos e valores diferentes na conduta do seu possuidor? É mais como uma língua ou como a educação escolar?

A informação cultural altera-se muito na passagem de quem a transmite para quem a recebe – por exemplo, de geração para geração?

O que é que alterável e o que é que tem de ser mantido para que uma cultura continue a ser reconhecida como sendo a mesma cultura?

Até que idade tem de ser recebida a informação cultural para ela ficar fortemente ancorada em nós?

Há agentes privilegiados de transmissão cultural – por exemplo, é mais fundo na nossa cultura o que aprendemos com um tio nosso (o copo de vinho sabe melhor bebido de um golo no fim da refeição) ou o que aprendemos na televisão (quem tem a razão do seu lado pode matar à vontade e ganha sempre todas as batalhas)?

Qual é a diferença, se é que ela existe, entre hábito (no sentido forte da palavra) e traço cultural? Se forem coincidentes os dois conceitos, pode considerar-se dormir de meias um traço cultural?

O que eu digo – e todos poderão chegar à mesma conclusão se responderem com honestidade às perguntas acima e a centenas de outras com o mesmo grau de pertinência que inventarão com facilidade – é que os dados mais “culturais”, no sentido de serem adquiridos cedo e serem pouco alteráveis, são os que menos importância têm na vida das pessoas – em termos morais e de preservação da saúde ou aquisição de poder e riqueza, por exemplo. Dados efectivamente culturais são a influência da pronúncia da sua língua em todas as línguas que se aprende, ou saber cantar joik como deve ser, ou deliciar-se com caracoletas assadas. Ainda assim, o primeiro destes três é o único verdadeiramente impossível de adquirir mais tarde. Os outros são apenas difíceis de adquirir mais tarde. Mas a maior parte dos traços “culturais” que têm alguma importância real na relação de cada um com os outros e com o meio físico adquirem-se e perdem-se com relativa facilidade, ao sabor de circunstâncias variadas.

O que é então a cultura? Já o disse várias vezes: São possivelmente maiores as diferenças entre a minha cultura e a cultura de muitos portugueses de Lisboa da minha idade e da minha classe social de origem do que as diferenças entre a minha cultura e a cultura de pessoas de outros países, com outras idades e vindas de outras classes sociais. Isto para não falarmos já das diferenças entre a minha cultura e a cultura de portugueses de outros meios (rurais, por exemplo) e de outras gerações (da geração da minha avó, para não ir muito longe no tempo…), porque essas são com certeza muito maiores do que a diferença entre a minha cultura e a de muitos amigos dinamarqueses que eu tenho. Bem vistas as coisas, a ideia de uma cultura de um país ou de um povo é, no mínimo, pouco razoada – se não mesmo completamente irrazoável…

Quero eu dizer com isto que não há, de sociedade para sociedade, diferenças na maneira de as pessoas pensarem, sentirem e se comportarem? Não, não quero dizer nada disso. O que eu quero dizer é o que disse: enquanto não se fizer uma ideia mínima do que se fala quando se fala de cultura, que não se fale do que não se sonha o que é. Sim?

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