2 de junho de 2008

Tolerância e paternalismo: a linha ténue que separa o respeito da falta dele

Por que é que hei‑de aceitar no Outro o que não aceito no Mesmo? Por que hei-de querer preservar no Outro o que não quero preservar no Mesmo?

Conheço pessoas que “desculpam” em pessoas “de outras culturas” atitudes que definitivamente recusariam em gente “da sua cultura”. A ideia que subjaz a essa “desculpa” é que “uma pessoa é como é” ou, numa versão mais intelectual, que “cada qual é moldado pela sua cultura” e paciência, a cultura de cada um, há que a respeitar. Não é o a priori da necessidade de respeito do Outro, com a sua cultura incluída, que me choca. O que me choca nessa atitude é que ela se revela, a final de contas – precisamente pelo excesso de zelo na não imposição de si –, uma falta de respeito pelo Outro que se quer respeitar. Respeito por uma outra cultura é considerá‑la apta a discutir com a minha de igual para igual – e, por isso mesmo, interlocutora digna em caso de confronto.

Quando não aceito alguma coisa na minha cultura, é porque acho que ela está mal; quando rejeito o que está mal, estou automaticamente a procurar melhorar o mundo à minha volta; se procedo dessa maneira apenas relativamente ao Mesmo de mim, isso significa que só quero melhorar o que me pertence, o que, bem vistas as coisas, é uma forma de discriminação e de exclusão como outra qualquer – os outros podem continuar mal, só eu é que não.

A questão não se coloca só em relação aos valores morais, e pode ter aspectos muito mais objectivos, digamos assim. Em abstracto, não tenho nada contra a preservação de aspectos culturais de um determinado grupo de pessoas, mas, na prática, quando se propõem medidas para “preservar” uma determinada cultura, há que distinguir cuidadosamente vários tipos de traços culturais. É preciso ver, numa “cultura” o que é que nela são factores de enfraquecimento (desconhecimentos ou mitos, práticas tecnológicas inadequadas ou pouco produtivas, formas de organização social desaptadas relativamente ao mundo moderno, etc.), e retirar essas eventuais fraquezas da lista de traços a preservar. Senão, o que estamos a fazer de facto é propor que alguém neste mundo conserve uma desvantagem.

Isto não pode ser lido como um apologia da lei do mais forte, mas é antes precisamente o contrário disso, ou seja, uma proposta moral segundo a qual ninguém tem o direito de perpetuar o ascendente de uns sobre os outros com base no seu poder real, que é o que acontecerá inevitavelmente se se preservam as fraquezas dos mais fracos. Se queremos preservar uma cultura, ela tem de ter a oportunidade de mudar o suficiente para se robustecer e ter assim a força suficiente para se autopreservar.

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