13 de dezembro de 2008

As palavras são como as cerejas (2): dinheiro, desenvolvimento, vigarices e literatura fantástica

Segundo um site do governo moçambicano, eis a proposta aprovada de Orçamento Geral do Estado de Moçambique para 2008:
Receitas do Estado: 38 815 956,00 meticais (± 1 574 683 840 USD)
Despesas do Estado: 89 002 643,45 meticais (± 3 610 654 960 USD)
Défice: 50 186 687,45 meticais (± 2 035 971 120 USD)

Não sei até que ponto é que o governo de Moçambique estará de facto a trabalhar com o orçamento previsto, mas, se tiver esse dinheiro para gastar este ano, é quase o dobro daquele que o CIA Factbook apresentava para 2007, 1 822 000 000 (não consigo confirmar este número, porque o link para o orçamento de 2007 no portal do Governo de Moçambique não funciona).
Partamos do princípio de que as despesas do Estado moçambicano são de facto os tais cerca de 3 600 000 000 USD. Isto significa que Moçambique, com os seus mais de 20 milhões de cidadãos, tem um orçamento cerca de 85 vezes mais pequeno do que o dos Países Baixos (que, com 16 milhões e meio de habitantes, tinham, em 2007, cerca de 306 500 000 000 USD para gastar) e cerca de 25 vezes mais baixo do que o de Portugal (que tem cerca de metade da população de Moçambique, e tinha, em 2007, 93 090 000 000 USD para gastar*). E as receitas do Estado moçambicano durante um ano dão para fazer cinco filmes como o Pirates of the Caribean: At World’s End (sem contar despesas de promoção).
Uma ideia que reúne amplo consenso em vários sectores de opinião (tão amplo, aliás, que eu não me atrevo a duvidar dela…) é que uma parte deste dinheiro é mal gasta. O que é interessante verificar é que – sobretudo tendo em conta que faltam em Moçambique muitas infra-estruturas que existem há muito tempo nos Países Baixos ou em Portugal e que Moçambique é cerca de 19 vezes maior do que os Países Baixos e 9 vezes maior do que Portugal – mesmo que o dinheiro público fosse todo ele gerido da melhor maneira possível, continuava a ser muito, muito pouco dinheiro, ou não?
[Tenho um amigo que diz que se devia entregar, durante alguns anos, a gestão de países como Moçambique a uma equipa de gestão considerada das melhores do mundo, para ela provar que é de facto uma grande equipa de gestão…]
Estabelece-se muitas vezes uma relação directa entre “corrupção” e “subdesenvolvimento”, e é provavelmente verdade que a extorsão e os desvios de fundos tendem, por razões óbvias, a ser prática mais generalizada nos países pobres; mas, por outro lado, a dimensão das vigarices talvez se possa também encarar como um bom indicador de desenvolvimento. Num país como Moçambique, por muito que haja muita malta a gamar, ninguém gama o que se gama na Dinamarca, quando lá se gama... Não sei se têm acompanhado a história de Stein Bagger e da empresa IT Factory, incluindo as histórias paralelas de Asger Jensby e da sua esposa Eva Snare. Uma pesquisa rápida em Google diz-me que os meios de informação portugueses não têm dado à história grande destaque, mas é história que vale mesmo a pena seguir. Como isto aqui não é um blogue de notícias, deixo-vos aqui um link para um resumo da história em inglês, já um bocadinho desactualizado, e o conselho de fazerem pesquisa e manterem-se actualizadas/os, porque a história evolui muito todos os dias e de maneira imprevisível. Para vos abrir o apetite: o valor da fraude pode, diz-se, chegar aos 1 000 000 000 USD. A ver vamos…
Um dos episódios engraçado dessa história, e que pode ser contado como anedota independente, é que, quando Stein Bagger (depois de ter desaparecido no Dubai e reaparecido em Nova Iorque, onde pediu emprestado um carro a um amigo sueco para atravessar os Estados Unidos de costa a costa, sabe-se lá por quê…) se entregou à polícia de Los Angeles, dizendo que era perseguido pela Interpol e que tinha roubado mil milhões de coroas, os agentes que o receberam na esquadra não o levarem mesmo nada a sério – porque não têm grande informação sobre os criminosos perseguidos pela Interpol; porque não é todos os dias que ali se vem entregar um criminoso daquele calibre; e, sobretudo, porque, numa zona daquelas, o que não falta é malta a acusar-se de todo o tipo de crimes, só para ter direito a uma sopinha e dormida à borla. Mas adiante…
A história de Stein Bagger não fica nada atrás de nenhum grande romance policial: o enredo central, o crime propriamente dito, é tão inconcebível e tão complexo como o dos thrillers mais sofisticados; e a surpresa que quotidianamente vai criando no leitor o desvendar dos muitos mistérios entrelaçados que constituem a história seria criação digna de qualquer grande autor/a de suspense. Quer dizer, se não fosse mesmo verdade, a história da IT Factory podia bem ter sido inventada, sei lá… dado o contexto escandinavo e a importância da informática na história… por Stieg Larsson, por exemplo…
Um louvor do fantástico, então, para terminar: Vivam os livros de areia de que nunca se pode ler duas vezes a mesma página, os golens, os semideuses, e as viagens no tempo! Se queremos escrever (ou filmar, ou desenhar…) uma história, seja para distrair apenas, seja para dizer coisas que achamos importantes, vale mais inventar personagens, situações e mundos que não existam fora da escrita, do cinema ou do desenho. Para quê fazer arte que conte a realidade?, se a realidade está permanentemente ao nosso alcance, e se não há ficção realista que, em estranheza, horror ou encanto, consiga competir com ela! A sério.
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* Estes números, referidos pela Wikipedia e tirados, ao que parece, do CIA Factbook, podem não ser exactos, mas também não se devem afastar muito da realidade…

1 comentário:

relvas disse...

Estou de acordo. Estou a falar do fantástico, que das contas, aí é preciso paciência para as fazer (mas lá que elas aparecem feitas, lá isso aparecem).

Eu estou agora mesmo de caminho para lá.