18 de outubro de 2009

The spirit level*: Recensão

Nunca houve recensões de livros na Travessa, mas, como há para tudo uma primeira vez, eis aqui uma. Por quê? Bom, as razões para aqui pôr uma recensão de um livro são duas e são ambas boas: a primeira é que se trata de um livro cujo tema é, na minha opinião, dos temas mais importantes que um livro pode ter; e a segunda é que foi escrita pelo meu amigo Seth Jenkinson, médico reformado, de Bradford, Reino Unido, que tem a mania de dizer coisas interessantes (e que não se importou de ver arruinada por uma tradução minha a sua prosa…). A recensão é muito britânica, como verão, mas, tratando-se da recensão de um livro de autores britânicos, isso é com certeza uma vantagem – dá-lhe aquela empatia de que costumam falar os críticos de música quando é a Orquestra Filarmónica de Helsínquia a tocar Sibelius…

Wilkinson, Richard & Kate Pickett. The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better. London: Penguin, 2009.
É um livro notabilíssimo. Se a ciência que lhe subjaz é verdadeira, é tese para causar uma mudança de paradigma, como a evolução ou a teoria microbiana. Essencialmente, os autores postulam que há provas de que muitos males das sociedade prósperas modernas, desde a obesidade e da toxicodependência até à violência e às cadeias sobrelotadas, passando pela gravidez precoce, todos eles têm uma causa comum: a desigualdade de rendimentos.
Trata-se aqui de uma afirmação revolucionária, porque torna irrelevantes grandes áreas do discurso político. A “sociedade despedaçada” de [David] Cameron e as mães adolescentes que [Gordon] Brown quer pôr em lares precisam ambas da mesma solução, uma sociedade com mais igualdade. As provas apresentadas são, de facto, tão poderosas que implicam que, se não conseguirmos criar sociedades com mais igualdade, outras panaceias não funcionarão, donde a redundância de muita da discussão política actual.

Há pelo menos 20 anos que conheço o trabalho de Wilkinson sobre desigualdade e saúde, mas a tese estende-se agora a novas medições, entre as quais as dos níveis de confiança, doenças mentais (incluindo alcoolismo e toxicodependência), esperança de vida e mortalidade infantil, obesidade, desempenho das crianças na escola, gravidez precoce, homicídios, taxas de encarceramento e mobilidade social.

Obviamente, em sociedades desiguais são os pobres que sofrem mais, mas outra asserção intrigante, com provas, é que há uma estratificação fina das desvantagens sociais que permeia a sociedade até ao topo. Há muitos anos que isto se sabe no campo restrito da medicina, a partir do conhecido estudo de Whitehall** feito por [Michael] Marmot. Este livro vem agora alargar muito o panorama e mostra que os ricos das sociedades menos igualitárias são menos saudáveis e menos felizes do que as pessoas das classes superiores de países onde há mais igualdade. No século XIX, a cólera espalhou-se a partir dos bairros da lata afectando até as classes médias, de modo que, quando se compreendeu a teoria microbiana, água limpa e bom saneamento foram benéficos para todos. Quem beneficiou mais foram os pobres, porque eram eles que mais morriam, mas todos beneficiaram. A analogia hoje é que, dado que a criminalidade, os comportamentos anti-sociais e os custos da dependência transbordam das zonas mais pobres das cidades, toda a gente veria a sua vida melhorada por mais igualdade.

Isto é uma análise de países ricos. Ninguém duvida de que a vida das pessoas dos países pobres só pode ser melhorada com progresso económico. Há, no entanto, um ponto de inflexão (talvez 20 000 dólares anuais per capita) a partir do qual mais aumento de riqueza não corresponde a uma melhoria das estatísticas sociais. O país mais rico e com mais desigualdade, os EUA, há décadas que passou essa barreira e o aumento de riqueza só produziu uma sociedade violenta com uma enorme quantidade de gente na cadeia, em que as classes médias se escondem atrás de fechaduras de segurança em comunidades muradas. O livro é uma devastadora crítica do fracasso da versão estado-unidense da democracia de mercado que domina o mundo desde 1945. Há outras maneiras de lidar com o capitalismo. Os países escandinavos e o Japão, na ponta igualitária do espectro, são exemplos de duas maneiras diferentes de o fazer. Os investigadores conseguem também demonstrar os efeitos da desigualdade entre vários estados dos EUA. É extraordinário, porque mostra a força que tem de ter este efeito para se o conseguir detectar entre estados cuja cultura e riqueza variam tão pouco. Há de longe menos diferenças entre Nova Yorque e New Hampshire do que entre Portugal e a Suécia, e, ainda assim, o parâmetro da desigualdade continua a prever todos os efeitos malignos.

Este livro merece a mais alargada discussão. Num piscar de olhos ao famoso antepassado de 1859, acho que poderia ter como subtítulo “a origem dos stresses, por meios de desigualdades pouco naturais”. Os autores especulam também de uma forma muito interessante, no fim do livro, sobre a plausibilidade biológica de os seres humanos funcionarem melhor em sociedades mais igualitárias.

A obra não é senão a corroboração científica da política de centro-esquerda. É nisso que reside a sua fraqueza, porque as suas conclusões há mais de um século que vêm sendo reiteradas pelos esquerdistas liberais e poderiam ser irreflectidamente recusadas como sendo “vira o disco e toca o mesmo”. Mas não é. O importante aqui é que há PROVAS. Quando se tem provas de que as andorinhas migram para África no Inverno, já não é necessário especular, como fez o Dr. Johnson, sobre elas hibernarem no fundo dos lagos. Morreu o antigo discurso. Os cépticos podem achar difícil aceitar que não precisemos de outra receita para combater comportamentos anti-sociais que não seja mais igualdade. Pode parecer-lhes tão improvável como um passarinho voar até África – mas por acaso é verdade.
Seth Jenkinson, Outubro de 2009

É claro, já comprei o livro. Só que, como é arriscado fazer encomendas directamente para aqui, mandei entregá-lo em casa de uns amigos dinamarqueses que nos vêm visitar pelo Natal. Até lá, vou-me educando no site do Equality Trust, onde se podem descarregar muitos e muito instrutivos estudos sobre a relação directa entre desigualdade económica e uma série de coisas más que há no mundo (alguns dos estudos também são muito britânicos, mas mesmo esses são instrutivos). E aconselho-vos a que façam o mesmo: que se ofereçam a vocês mesmos The Spirit Level como prenda de Natal e que se instruam no Equality Trust.

Duas mini-notas finais:

1. Podem os defensores da igualdade (eu sou um deles) argumentar que as discussões morais não se podem reduzir a discussões de factos, e que a igualdade é um valor por si, mesmo que não traga melhor saúde ou menos violência. Eu concordo completamente, mas não faz mal nenhum demonstrar-se que esse valor moral de base, nos países desenvolvidos, traz consigo enormes vantagens práticas…

2. Evidentemente, mesmo para quem aceite as conclusões do livro, uma questão propriamente política permanece, a questão estratégica: como se obtém a igualdade? A única contribuição que posso dar imediatamente para uma resposta a essa pergunta é que o primeiro passo para lá chegar é, com toda a certeza, querer a igualdade… É que, ao contrário do que sugere o subtítulo reinadio proposto por Seth Jenkinson para o livro de Wilkinson e Pickett, a igualdade, como tudo o que é moralmente louvável, é essencialmente contra natura e não se chega lá por acaso. Notem que não quero dizer com isto que o igualitarismo não tenha origem em disposições comuns a todos os seres humanos, ou que não haja algumas tendências igualitaristas em todos os comportamentos sociais (há muitas experiências de várias áreas científicas que parecem prová-lo, sobretudo no que diz respeito a uma componente fundamental do igualitarismo que é a reciprocidade), mas parece que o igualitarismo “natural” não o é em quantidade suficiente para produzir “naturalmente” sociedades justas…).
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* Não me atrevo a traduzir o título, fico antes à espera de saber que título terá a edição portuguesa da obra, que, segundo o site do Equality Trust, está prevista para 2010.
** O estudo de Whitehall: Resumo geral aqui e resumos escolhidos aqui.

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