9 de fevereiro de 2010

Acordo ortográfico: o mystério do abysmo...

Eu não me queria meter na conversa, não queria, mas acabo por ceder: vou aqui dizer qual é minha posição relativamente ao famigerado acordo ortográfico. Bom, já aqui dei uma vez a minha opinião sobre a questão ortográfica. No post Contradições ou sem elas? (cuja leitura aconselho, porque complementa o presente texto), abordei a questão das diversas opções ortográficas e das vantagens e desvantagens de cada uma. Mas dizia, nesse texto, que não queria discutir o acordo ortográfico proposto, porque não tinha nada interessante a acrescentar ao muito que tinha sido dito e escrito sobre o assunto. E continua a ser verdade: não digo agora nada de novo. O que se alterou não foi a minha capacidade de contribuir para a discussão, mas a vontade de o fazer. «No man is an island entire of itself…», et cætera, et cætera, et cætera

Mas deixemo-nos de circunlocuções! A minha posição é esta: tanto me faz, sinceramente. Sobrevivi bem à reforma ortográfica de Fevereiro de 73, em que foram «eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se [assinalavam] as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente e com os sufixos iniciados por z», embora, como a toda a gente, ao princípio me tivesse custado. Basicamente, há regras de que discordo na actual maneira de escrever (e não só ao nível da escolha das letras e acentos com que escrever as palavras…) e há de continuar a havê-las na nova ortografia* – e posso, a meu bel-prazer, continuar a violá-las ou não, conforme os apetites e as situações (um texto de blogue ou um requerimento, por exemplo…). Aí têm a minha posição.

Evidentemente, posso, na minha qualidade de cidadão de um país de língua oficial portuguesa, propor e defender uma proposta ortográfica que eu considere mais coerente e mais lógica do que as existentes, pois posso, mas para quê? Não há prova nenhuma de que ortografias coerentes e lógicas dêem mais felicidade a ninguém nem saúde a nenhuma língua, nem tenham implicações no ensino. Vejam o caso do inglês, que se expande sem parar, também como língua de ensino, apesar de ter a ortografia menos lógica que é possível imaginar, que reflecte (quando reflecte alguma coisa…) uma pronúncia de há quinhentos anos, perfeitamente incompreensível para os falantes actuais…

A discussão da questão ortográfica assenta sobretudo na paixão e é por isso que, tanto no blogue como na vida quotidiana, quis – até agora… – manter-me fora dela. Acredito em discussões com convicção, mas não acredito em discussões sobretudo apaixonadas. Reconheço, porém, que a abordagem apaixonada da questão, se é vã, é também inevitável. Sempre assim foi e sempre assim será, e é pena que muitas pessoas não tenham consciência de que a ortografia que querem preservar hoje é apenas uma etapa histórica, que, quando foi introduzida, foi criticada por pessoas que queriam conservar a ortografia que tinham – e de que gostavam! Como eu dizia no post que referia atrás, Teixeira de Pascoaes recusava a reforma ortográfica republicana argumentando que abismo não podia alguma vez representar a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo. Alteraram-se mesmo a profundidade e o mistério da palavra, perdão, a sua capacidade de os referir? Aí está uma questão metafísica demais para o meu gosto. Mas posso garantir-vos que a pronúncia não se alterou desde o tempo de Teixeira de Pascoaes – de uns séculos antes dele, de facto.

E tenho aqui uma deixa para o tema da influência da grafia na pronúncia. Não digo que ela seja impossível, mas só se dá em condições muito especiais e, no geral, essa influência é, simplesmente, tão ínfima que se pode desprezar**. Tenho visto, nomeadamente, que há um medo de que, no português europeu, o desaparecimento de certas letras não pronunciadas, mas que serviriam, segundo alguns, para marcar o timbre da vogal que está antes delas, venha a afectar a pronúncia dessa vogal. É um temor infundado. Desde que desapareceram as marcas de abertura das vogais átonas pretónicas dos advérbios em -mente, não se modificou em nada a sua pronúncia, pois não? Ou alguém passou a pronunciar comodamente [kumuða'mẽt] em vez de [kmuða'mẽt]? Uma palavra como esquecer, que, por razões históricas, tem uma abertura anómala do e átono, resiste há séculos à tendência de redução das vogais átonas sem precisar de marcas gráficas a ajudar (evidentemente, podia propor-se *esqueccer…). E podia dar muitos outros exemplos, mas não me quero alongar muito. Por outro lado, a presença do sinal gráfico não impediu que certas vogais se fechassem, seguindo as regras fonéticas normais da língua, como no caso de actuar, que, em Portugal, ninguém pronuncia [àtuar]. Além disso, se a ideia é marcar consequentemente as vogais átonas abertas, porque não propor uma marca outra que não grafemas (p, c) que têm, noutras situações, outro valor? Recuperar, por exemplo, o acento grave... Enfim, mais paixão do que razão, como eu dizia…

Eu sei que custa a muita gente aceitar que um sistema ortográfico seja puramente convencional, no sentido em que se pode alterar por decreto (ao contrário de uma língua, que não há decretos que alterem), e que há um número virtualmente infinito de maneiras de transcrever graficamente uma língua. Mas, por muito que lhes desagrade, é um facto. Tanto que há línguas que se escrevem (de facto!) com mais do que um sistema de escrita. E se se passasse a escrever português com outro alfabeto, hem? Ερα διβερτιδω! Ou Эра дивертиду? (Para ficar pelos mais parecidos com o nosso…)


[Nota a 9 de maio de 2015: Escreveu Pascoaes:
Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» (“A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911.) 
Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.]

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* Mas a supressão do hífen em há-de, que uso neste texto pela primeira vez, a título experimental!, é com certeza uma melhoria, porque aquele hífen é mesmo disparatado!

** Se o problema da influência da grafia na pronúncia não se coloca, no geral, nos países onde o português é língua materna, é provável que não seja de desprezar nos casos em que o contacto com a língua se dá sobretudo na escola e pela primeira vez na escola (como aqui em Moçambique). Mas, quanto a isso, não vislumbro bem o que se possa fazer… Uma escrita mais fonética? Valerá a pena, sobretudo quando, como também já aqui recordei a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas sim fonológica, isto é, a escrita dá mais conta do sistema abstracto que está por baixo da pronúncia do que da pronúncia propriamente dita? Talvez se pudesse começar a escrever com u todos os oo finais, como se escreve noutras línguas latinas onde se deu a mesma redução, porque isso já não tem implicações fonológicas… Mas teriam de se alterar as regras de acentuação, que confusão… Ná, é melhor deixar estar assim…Quer dizer, nos casos onde a escrita pode provavelmente influenciar a pronúncia, vai basicamente dar ao mesmo usar-se a actual norma ortográfica ou a reforma proposta…

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