11 de fevereiro de 2011

A cultura, de novo: uma síntese de ideias dispersas por vários textos do blogue

Cultura (não no sentido de colecção de obras intelectuais, mas no sentido de maneira de ver o mundo e agir sobre ele) é um tema sobre o qual já escrevi vários textos neste blogue. Quero fazer agora um apanhado das ideias principais desses textos. Gostava, como sempre, que elas fossem comentadas e discutidas, mas prevejo já que, como de costume, não o serão...

Argumentava uma vez que se fala muito de cultura sem se saber bem do que se está a falar e listava uns quantos exemplos de questões (ou de tipos de questões) a que falta responder para se poder começar a falar de cultura com um mínimo de rigor. Defendia ainda nesse texto que, ao contrário do que muitas vezes se afirma, a maior parte das componentes indubitavelmente culturais da personalidade da cada um são sem implicações morais:
O que eu digo é que os dados mais “culturais”, no sentido de serem adquiridos cedo e serem pouco alteráveis, são os que menos importância têm na vida das pessoas – em termos morais e de preservação da saúde ou aquisição de poder e riqueza, por exemplo. Dados efectivamente culturais são a influência da pronúncia da sua língua em todas as línguas que se aprende, ou saber cantar joik como deve ser, ou deliciar-se com caracoletas assadas. Ainda assim, o primeiro destes três é o único verdadeiramente impossível de adquirir mais tarde. Os outros são apenas difíceis de adquirir mais tarde. Mas a maior parte dos traços “culturais” que têm alguma importância real na relação de cada um com os outros e com o meio físico adquirem-se e perdem-se com relativa facilidade, ao sabor de circunstâncias variadas.  
Noutro texto, que não era especialmente sobre cultura, mas sim sobre a culpa, aventava, de passagem, a possibilidade de haver, por vezes, vazios culturais:
Pode ser que haja culturas em que o sentimento de culpa seja mais forte que noutras, mas não é de cultura a cultura que tenho observado a maior variação, mas antes de cultura a falta dela. O que eu tenho visto é que o sentimento de culpa diminui quando há uma relaxação das normas de comportamento; quando os valores da sobrevivência começam a contar mais que as regras de relacionamento social; quando o desespero faz de cada um o ser mais importante do mundo; quando a marginalização, seja de que tipo for, leva à revolta e à perda do sentido de pertencer a um grupo determinado.*
Noutro texto ainda, punha a hipótese de que a cultura não fosse apenas um programa ou uma base de dados mental, mas que fosse antes uma relação dinâmica entre o interiorizado e as situações concretas exteriores:
O que parece contar mais do que um padrão de comportamento fortemente interiorizado é a consciência da regra em vigor em determinado local, ou da sua ausência, e o grau de controlo social a que se está sujeito (cujo reconhecimento varia, também é preciso ter isso em conta, de indivíduo para indivíduo…). E isto independentemente de estarmos “em casa” ou não. 
E retomava a ideia da possibilidade de “buracos” culturais em determinadas circunstâncias históricas ou psicológicas:
Parece então que, para muitos dos nossos padrões de comportamento, a regra não está dentro, mas fora de nós. Parece que dentro de nós o que está é um instinto que nos manda avançar, em busca do proveito próprio e da satisfação dos nossos desejos… até onde os outros nos deixarem ir. No outro dia defini esse egoísmo fundamental como o nosso “parâmetro por defeito”. (…) Pois é, é a tal coisa: fala-se muito de cultura, mas sem se saber ao certo de que se está a falar. Como diz a minha amiga Carmo: “Eh pá, agora a tudo o que é mau chama-se cultura… A cultura agora serve de desculpa para tudo.” Independentemente do que se pense sobre a maneira como as culturas existem – mais ou menos dentro de nós, como a pronúncia; mais ou menos fora de nós, como as leis – é obviamente um desrespeito e uma incompreensão de uma cultura considerar que dela fazem parte a ganância, a pilhagem e a desconsideração. De facto, o que se considera cultura não é, muitas vezes cultura, no sentido de forma organizada de relações entre as pessoas e destas com o mundo físico, mas falta dela – rupturas dos sistemas de valores, situações de relaxe do controlo social, o vir ao de cima da nossa imoralidade primordial. Em que as pessoas se permitem coisas que a cultura que dizem que é a sua obviamente não permite. Que nenhuma cultura permite.
Tudo isto pode ser facilmente posto em causa, porque a argumentação está longe de ser conclusiva. Pode-se recusar a possibilidade de vazios na estrutura cultural, defender antes que a cultura tem de ser constantemente um todo coeso, que só pode haver alterações de parte da estrutura e não desaparecimentos. E podem até ser invocadas razões morais para se partir de tal pressuposto. É que a crença contrária (a crença na possibilidade de rasgões no tecido cultural) assentaria forçosamente numa pouco razoável discriminação: então certas pessoas teriam culturas completas e outras culturas esburacadas?

A questão é complexa… Já vi esta ideia, que à primeira vista implica uma perspectiva mais universalista do ser humano, ser acusada precisamente daquilo que ela permite criticar em quem a não aceite: de ser discriminatória. Para dar um exemplo que me imoressionou, lembro-me da violenta crítica que um amigo meu moçambicano fazia à passividade dos responsáveis de uma organização de ajuda ao desenvolvimento perante um roubo por parte de um dos seus funcionários (agora, não sei porquê, chama-se “corrupção” a roubos e falcatruas várias).

“Eles não vão fazer nada, não vão levar o ladrão a tribunal, só não lhe renovam o contrato, mas aceitam o roubo”, indignava-se ele. “E não é primeira vez nem a última que isso acontece, é sempre assim. É porque, no fundo, o que eles acham, e até já ouvi mesmo isso da boca de uma pessoa dessa organização, é que isso agora é normal em Moçambique. Acham que existe agora aqui uma cultura de roubar e que, pronto, é assim mesmo, tem de se aceitar... Mas ladrões há em todo o lado e, se se apanham, vão presos. E é isso que devia acontecer aqui a quem rouba. Esses gajos que roubam têm uma cultura assim tão diferente da minha? Nada, eles são moçambicanos como eu. O que é que eles são gatunos e eu não!”

Não vos parece justificada a ira do meu amigo?

Uma coisa é certa: para criticarmos o que achamos mal, não temos de ter nenhuma posição clara sobre se se trata ou não de um traço cultural. Basta que achemos mal. Aliás, mesmo que seja claro para nós que estamos perante um traço cultural (como penso que a maioria das pessoas considerará, por exemplo, a mutilação genital feminina), isso não deve ser razão para deixarmos de o condenar. Se discordamos, temos o direito de criticar. É certo que discordar não nos dá o direito de impor nada a ninguém, mas criticar é apenas participar numa discussão, não é impor, conquanto se respeite que as partes em desacordo estão ao mesmo nível nesse debate. Como também já aqui o disse, a atitude de tolerância acrítica da cultura de cada um é que «se revela, afinal de contas uma falta de respeito pelo Outro que se quer respeitar. Porque o verdadeiro respeito por outra cultura é considerá-la apta a discutir com a minha de igual para igual.»
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* Lembro-me, por exemplo, de que foi assim que expliquei um fenómeno que me surpreendeu quando cheguei a Moçambique, a maneira como vi serem (mal) tratados os mais velhos, o que eu considerava na altura resultado das rupturas sociais causadas pela guerra. É claro, é bem possível que isso me tenha chamado mais a atenção porque tinha a ideia preconcebida de que em África os mais velhos merecem um respeito muito especial. É bem possível que os mesmos maus tratos se possam observar em qualquer lugar. Também é interessante constatar que agora, quase duas décadas volvidas sobre o acordo de paz, esse fenómeno (sobretudo a violência contra as mulheres idosas) tem sido referido algumas vezes em jornais e blogues moçambicanos… Como se deve explicar isto? Ou será que, como muitas vezes acontece, há só um aumento da visibilidade mediática sem que haja aumento efectivo do número destes casos?

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