10/07/25

Histórias de ópera, borracha e Amazonas, umas mais fantásticas que outras

 

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As histórias deste texto passam-se nos locais marcados a vermelho.
Aviso: o texto tem spoilers: há resumos (a roxo) de um filme, uma novela, uma BD e uma ópera.

Em 1881, o deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior apresentou à Assembleia Provincial da Amazónia (atualmente Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas) um projeto da sua autoria: a construção do Teatro Amazonas em Manaus, um dos grandes portos fluviais do rio que o teatro celebrava e uma das cidades que floresceu durante o chamado ciclo da borracha. O projeto foi imediatamente aprovado e não tardou a ser licitado. Só em 1884, porém, se iniciou a construção do teatro. A obra foi a princípio lenta, acelerou um pouco na entrada na década de 90, chegou a estar interrompida e só a 31 de dezembro de 1896 se inaugurou finalmente o teatro: lustres de Murano, mármore de Carrara, uma cúpula de cerâmica esmaltada e telha vidrada alsaciana. «Paris dos Trópicos», o furor ostentatório dos barões da borracha. Um trio interessante: ópera, borracha e o rio Amazonas.

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Fitzcarraldo, de Werner Herzog, é um filme sobre ópera, borracha e Amazonas. Começa, aliás, com uma atuação de Caruso em Manaus, onde Caruso nunca atuou, mas isso não interessa.

Em 1982, quando saiu, eu vivia em Genebra. Conhecia alguns exilados políticos sul-americanos que apelavam ao boicote do filme. Segundo eles, era inaceitável a maneira como Herzog tinha tratado as centenas de indígenas que contratara para o filme. Não sei se estas críticas eram bem fundadas, nem se o filme chegou a ser propriamente boicotado, mas lembro-me de ter havido muita polémica relativamente a ele. Se a memória me não falha, a revista francesa Actuel publicou, na altura, uma reportagem sobre a história da filmagem de Fitzcarraldo, em que se fazia uma equivalência entre a obsessão doentia da personagem central do filme de transportar um barco através da floresta amazónica e a obsessão doentia de Werner Herzog de fazer o filme, custasse o que custasse. Equiparar a história da feitura do filme à história que ele conta é hoje comum, ao que vejo por aí escrito na Internet. Olivier Bitoun diz, por exemplo, num excelente texto sobre o filme:

«O filme e a história da sua filmagem são uma e a mesma coisa: o sonho de Fitzcarraldo e o de Herzog estão completamente interligados, e ambos lutarão para levar a bom termo um empreendimento considerado delirante e insensato. O filme Fitzcarraldo não teria sido o mesmo se as filmagens não tivessem sido como foram. Herzog e a sua equipa tiveram de viver eles próprios a aventura de Fitzcarraldo para a contar; o sonho teve de se confrontar com a realidade para se materializar.»

Eis um resumo muito resumido do enredo do filme:

Brian Sweeney Fitzgerald, conhecido como Fitzcarraldo, é um irlandês que vive em Iquitos, no Peru, na época da «febre da borracha» e sonha construir uma ópera na selva e aí apresentar o seu ídolo Caruso. Os seus negócios têm-lhe corrido mal e está falido. Tem de arranjar um negócio que lhe permita arranjar o dinheiro de que precisa para o teatro. Compra então, por tuta e meia, uma concessão considerada inexplorável, porque se encontra num lugar tão inacessível que é impossível de lá transportar a borracha. Fitzcarraldo tem então uma ideia: se conseguir transportar um barco de um rio navegável da rota da borracha até um afluente que passa na concessão, poderá escoar o produto e ganhar muito dinheiro. Só que, para isso, há que transportar o barco por terra, através de uma zona montanhosa da selva. Fitzcarraldo compra um barco barato a precisar de conserto, repara-o e lança-se na aventura.

O filme e as suas personagens são inspirados em acontecimentos e pessoas reais. Houve de facto um Carlos Fitzcarrald na época da borracha, que descobriu, muito mais a sul, um istmo de pouco mais de uma dezena de quilómetros, que permitia ligar, através de vários afluentes, o rio Ucayali e o rio Beni, ambos tributários do Amazonas, e reduzir muito o preço do transporte de borracha do ocidente peruano. E é certo que, quando descobriu esse caminho, Carlos Fitzcarrald organizou o transporte de um barco através do istmo — mas desmontado.

A filmagem de Fitzcarraldo foi demorada e muito difícil. Foi feita inteiramente na selva amazónica e em condições para que técnicos e atores não estavam preparados. Foram também contratados para as filmagens muitos indígenas peruanos. Para referir alguns dos incidentes e contratempos mais conhecidos: foram postos a circular vários boatos sobre Herzog e a sua equipa, segundo os quais eles queriam eliminar as comunidades locais e o primeiro local de filmagem foi abandonado e queimado no dia seguinte por indígenas locais; a infeção de uma ferida na coluna cervical quase deixou Herzog paraplégico; o diretor de fotografia, para salvar uma máquina, fez um rasgão entre dois dedos até ao pulso e teve de ser operado durante duas horas, em plena selva e sem anestesia, porque as anestesias tinham sido levadas pela equipa médica para tratar dois (ou três, segundo algumas fontes) indígenas trabalhadores do filme que tinham sido atingidos com flechas, num ataque de uma tribo rival; um dos lenhadores que trabalhavam no filme, mordido por uma serpente venenosa, teve de serrar o seu próprio pé com a serra elétrica, para impedir que o veneno se espalhasse… Houve mortes, acidentes, conflitos com atores e trabalhadores indígenas. Mas o filme tinha de continuar, o barco tinha de ser transportado até ao outro lado da montanha, Caruso tinha de cantar na mata amazónica.

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Muito longe de Manaus e de Iquitos, Belém do Pará é outro centro fundamental do ciclo da borracha. Circula agora há mais de um ano, nas redes sociais e na internet em geral, uma história perfeitamente ficcional, mas apresentada como verdadeira, sobre uma cantora de ópera: Camille Monfort, a vampira de Belém. Pesquisando um pouco esta lenda urbana, que é como agora se chama muitas vezes também às patranhas internéticas, conclui-se que Camille Monfort é, afinal, personagem de uma novela fantástica, Após a Chuva da Tarde, de um autor brasileiro, Bosco Chancen (ou Bosco Silva), que assume (ver primeiro comentário aqui) ter divulgado a história no Facebook para publicitar o livro, mas insiste em que o livro «é todo baseado em fatos históricos, pois toda lenda tem sempre um quê de verdade» e «aborda um período importante da Amazônia, 1896, período da venda da borracha, em que capitais como Belém enriquecia [sic], com milhares de estrangeiros vindos para cá, muitos traziam novas crenças europeias ligadas ao ocultismo inglês e francês da época».

A personagem-de-novela-tornada-personagem-histórica-na-Internet é uma cantora de ópera francesa de finais do séc. XIX, de voz e figura deslumbrantes, que vive em Belém e atua no Theatro da Paz — um predecessor, se se pode dizer assim, do Teatro Amazonas em Manaus. A sua extraordinária beleza e um comportamento também algo invulgar granjeiam-lhe paixões doentias dos homens da elite local e a fama de ser sobrenatural: diz-se que, no seu camarim, bebe o sangue de jovens que seduz com a sua voz maravilhosa; que tem o poder de invocar o espírito dos mortos, que saem dela na forma de ectoplasma; que dança seminua sob a chuva tropical e dá longos passeios noturnos ao longo do Rio Guajará em direção ao igarapé das almas, onde aparecem espíritos dos mortos. Camille Monfort morre com a epidemia de cólera de 1896, mas gera-se a lenda de que o seu túmulo no Cemitério da Soledade está de facto vazio e ela continua viva algures na Europa, jovem como sempre foi e será.

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A foto de uma cantora de ópera que nunca existiu,
por fotógrafo desconhecido. Que tem ela na mão? 
A Inteligência Artificial  com que Google nos persegue agora em todas as pesquisas refere Camille Monfort como pessoa histórica e há referências a ela em comentários de visitantes do Cemitério da Soledade ou do Theatro da Paz em Belém. Creio que já nem com estacas no coração, nem balas de prata, se pode acabar com esta vampira. «Personagem histórica» é hoje uma expressão com um significado ainda menos histórico do que às vezes tinha antigamente. E criações desconhecidas de criadores desconhecidos transformam-se em histórias muito mais conhecidas do que os seus criadores alguma vez virão a ser…Não é que fique, com tanta propaganda à figura, com vontade de ler a novela. Gosto muito de literatura fantástica, mas, seguramente por preconceito, não me parece que seja este o meu género de literatura fantástica... A divulgação da «lenda» levanta, no entanto, uma questão interessante: porque ganhou esta história, em tão pouco tempo (foi publicada há cerca de dois anos, mas era já viral o ano passado), as dimensões que tem atualmente?

Deve haver vários fatores a contribuir para o seu sucesso e um dos mais importantes é muito provavelmente a fotografia que a acompanha desde que começou a circular na Internet: uma foto sépia de uma bonita jovem que empunha algo que muitos identificam como um telemóvel e que outros dizem que não pode ser senão um bloco de notas. Não é, vê-se bem, uma foto de finais do séc. XIX, mas antes produto de IA ou foto tratada de outra forma para parecer antiga. E curiosamente, não foi produzida para a história de Bosco Chance, mas para um conto de ficção científica, A mulher do futuro, de outro escritor brasileiro, Philipe Kling David, que se pode ler no site do autor


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Ópera, borracha e Amazonas em banda desenhada: o oitavo capítulo das aventuras de Dieter Lumpen (um conjunto de contos gráficos do argumentista Jorge Zentner e do desenhador Rubén Pellejero) também gira em torno de uma fictícia cantora de ópera francesa, de nome Magda e apelido desconhecido, que teria atuado em 1907 no Teatro Amazonas em Manaus. 

Magda apaixona-se por um homem local, Paulino, e ele por ela, e decidem que ele irá com ela quando ela voltar a França. Em Paris, Paulino é vítima de um ataque racista, por ousar andar com uma branca, e perde todos os dentes. Magda oferece-lhe uma dentadura de ouro. Paulino vive em permanente insegurança e, apesar do seu amor por Magda, decide voltar à Amazónia. Magda, que nunca o esquece, conta a sua história de amor à sua neta, Magda ela também, e, no leito de morte, fá-la prometer que irá a Manaus e procurará Paulino. Magda assim faz e, com a ajuda de um velho aventureiro local chamado Mauro, vai até ao local isolado no meio da mata amazónica onde Paulino mora. Não quis voltar à vida social. Quarenta anos depois de ter deixado Paris, Paulino continua igual. Magda tem fotos dele que a sua avó lhe dera. A dentadura de ouro, símbolo de um grande amor, mantém-no jovem. E Paulino não pode deixar de ver nela, que se parece muito com a avó, a sua amada de há quarenta anos. Quando Magda parte, Paulino deita fora a dentadura de ouro — pode agora envelhecer em paz.

Mauro vive num barco abandonando na selva. O barco chama-se, ao que consigo ler, «Guimarães» e é bem capaz de ter sido inspirado por um dos três barcos usados nas filmagens de Fitzcarraldo. Em baixo, à direita, a foto de outro deles, abandonado na mata (foto de Eugen Lehle, daqui).

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Em 1996, estreou-se a ópera Florencia en el Amazonas, do compositor Daniel Catán. A palavra cauchu não aparece uma única vez no libreto da ópera (de Marcela Fuentes-Beráin, que podem ler aqui – atenção, tem pequenas gralhas), mas nem por isso deixa de ser uma obra sobre ópera, borracha e Amazonas: a personagem principal é uma cantora de ópera a caminho do Teatro Amazonas, onde não se chega a saber se atua ou não. Eis um pequeno resumo da história da peça:

No início do séc. XX, Florencia Grimaldi, uma cantora de ópera, embarca na cidade colombiana de Leticia, na fronteira com o Peru e o Brasil, no vapor El Dorado que ruma a Manaus, onde irá cantar. Não é essa, porém, o mais importante motivo da sua viagem: Florencia está farta da vida de artista famosa na Europa e quer voltar às suas origens na Amazónia — e procurar Cristóbal, o famoso caçador de borboletas, o seu amor de juventude, de quem se separara para seguir a sua carreira de cantora de ópera. Porém, durante a viagem, cheia de perigos e fantásticas peripécias, é-lhe revelado que ninguém sabe de Cristóbal há muitos anos — está desaparecido na mata amazónica. Quando chegam a Manaus, não lhes é dada licença para desembarcar, por causa de um surto de cólera que assola a cidade. Na ária final, Florencia invoca Cristóbal, que teme nunca voltar a ver. E vê-se (em sonho?; na realidade?) transformada numa Musa Esmeralda, a borboleta «única no mundo» que Cristóbal sempre quis encontrar.

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Não consigo encontrar nenhuma borboleta chamada Musa Esmeralda. Encontro, porém, uma borboleta conhecida como borboleta-esmeralda, que se encontra desde o leste da Colômbia até à parte central do Brasil – e, portanto, no estado do Amazonas. A borboleta foi descrita pela primeira vez em 1912, pelo que podemos divertir-nos a imaginar que Cristóbal tinha ouvido falar dela e a procurava, mas que alguém a descobriu antes dele... (Foto de Didier Descouens, daqui


No vídeo abaixo, a ária final («Escúchame, Cristóbal»). Pode ver-se aqui a ópera completa pela Orquesta Sinfónica Mexiquense (mais informação aqui), com legendas com o libreto em castelhano.

Ailyn Pérez com a orquestra da Metropolitan Opera, dirigida por Yannick Nézet-Séguin (ensaio, temporada 2023–24).


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Breve nota sobre cólera: Este texto quase podia ser sobre ópera, borracha, Amazonas... e cólera. Em duas das quatro histórias aqui reunidas, a cólera é um elemento importante – como o foi de facto no Brasil, e em todo o mundo, na época da borracha. Na terceira pandemia (1846–1860), a doença entrou no Brasil por Belém, vinda de Portugal, em 1855. A quarta e quinta pandemias (1863–1875 e 1881–1896, respetivamente) também assolaram o Brasil. A sexta pandemia (1899–1923) não chegou à América, pelo que o surto da história de Florencia há de ser... local. 


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