09/07/25

Edifícios urbanos de habitação: os andares superiores salientes da Idade Média e Renascimento

 

À laia de introdução, quase repito o que aqui escrevi não há muito tempo: as construções antigas que conhecemos são quase sempre castelos, palácios, igrejas, conventos e outros edifícios de grande porte; e, mesmo quando se fala de «casas de habitação antigas» é muitas vezes de palacetes ou solares que se fala e não das casas do povo. Encontram-se às vezes, porém, casas medievais ou renascentistas, sobretudo nas vilas e cidades, que sobreviveram até aos nossos dias, se não completamente inalteradas, pelo menos reconhecíveis, digamos assim. Por muito que muitas delas não sejam, obviamente, das classes mais desfavorecidas e sim de mercadores ou artesãos com mais posses, são, ainda assim, os melhores exemplos de casas de habitação antigas não pertencentes às classes nobres ou eclesiásticas. 

Quando publiquei aqui o artigo sobre as torres fortaleza-armazém que se encontram em várias partes do mundo, comecei a procurar informação sobre casas de habitação antigas e achei curioso que várias das que encontrei, urbanas ou rurais, tivessem em comum terem o primeiro andar, e às vezes os superiores, salientes relativamente ao rés-do chão.

Perguntei a amigos que estudaram arquitetura o porquê dessa forma de construção e as respostas que me deram — conjeturas apenas, disseram-me, porque não conheciam a questão — é que podia ser para obter mais superfície habitável pagando menos impostos, já que estes deviam ser por metro de solo urbano ocupado; ou que talvez fazer recuar os rés-do-chão fosse uma maneira de os proteger das águas sujas lançadas dos andares de cima, numa altura em que não havia sistema de esgotos fechados e só uma sarjeta aberta no meio da rua. E encontrei estas mesmas respostas nalgumas discussões em fóruns online e rede sociais.

Mas não fiquei satisfeito e continuei a pesquisar. E encontrei, no artigo da Wikipédia em francês sobre encorbellement («falso arco», «arco em consolo», «cachorro» ou «mísula», em português), uma secção que extravasa do falso arco em sentido estrito e faz referência às construções típicas das urbes medievais em que os andares superiores são salientes relativamente aos que lhes ficam por baixo. Diz-se nessa secção que «nas cidades europeias, o uso de encorbellement é típico da arquitetura medieval em enxaimel (estruturas de madeira visíveis). Designa o piso superior de um edifício que sobressai sobre uma rua ou praça, de modo que o rés-do-chão tem uma área menor que o primeiro andar, que, por sua vez, tem uma área menor que o segundo, e assim sucessivamente.» Fiquei então a saber que este tipo de construção se designa em francês com o mesmo nome que o falso arco*. Mas não só: o artigo cita uma obra Jean-Marc Larbodière (Le Style des façades. Du Moyen Âge à nos jours, Paris: Massin, 2000), de que se consegue ler online o capítulo respeitante a esta  moda arquitetónica, em que se explicam, precisamente, as suas razões de ser  e o seu desparecimento. O livro é, em princípio, apenas sobre a cidade de Paris, mas creio que o que é dito das casas parisienses se pode também aplicar ao mesmo fenómeno noutras cidades europeias (generalização que o referido artigo da Wikipédia também faz…). Traduzo então a parte que diz respeito a este tipo de construção medieval do capítulo sobre a Idade Média e o século XVI**:

[A] habitação popular medieval ocupa frequentemente toda a largura dos lotes em forma de retângulos estreitos. Esta largura não ultrapassa geralmente a dimensão da divisão única que constitui cada um dos três ou quatro andares. Atrás da casa, virada para o interior do quarteirão, há uma longa horta, se possível com um poço.

O rés-do-chão, também em pedra, tem uma entrada central ladeada por uma ou duas lojas com bancas de pedra para artesãos e comerciantes. Mais acima, embora as paredes laterais sejam muitas vezes de pedra, a pedra desaparece completamente das paredes da empena, viradas para a rua e para o jardim: estas são feitas de placas de madeira sobre uma estrutura de enxaimel à vista, preenchida com pequenas pedras de entulho, ou seja, pedras toscamente cortadas, e massa.

Além disso, pelo menos no final da Idade Média, cada andar fica saliente relativamente ao andar inferior. De tal modo que, quando a rua é estreita, a parte superior do edifício pode ficar muito próxima da do edifício à sua frente do outro lado da rua e situar-se por cima da sarjeta lamacenta que corre no meio da rua.

Geralmente, mas nem sempre, é a empena a fachada principal, virada para a rua […] Isto constitui sem dúvida uma vantagem para os eventuais habitantes dos sótãos, que beneficiam assim de mais luz. Por outro lado, como as casas são construídas perto umas das outras, são as paredes laterais entre os edifícios, que recolhem as águas pluviais, com todos os riscos de humidade persistente e de conflitos entre vizinhos que isso pode gerar.

Muito mais do que o fogo, a água parece ter sido o principal inimigo das habitações parisienses medievais. Mais tarde, as casas mudam de orientação relativamente à rua e a fachada principal deixa de ser a empena: as águas do telhado estarão agora viradas para a rua e para os pátios interiores até à década de 1930. Antes disso, as empenas medievais eram triangulares, por vezes com um vigamento arredondado, e as coberturas dos edifícios eram de telhas ou de tabuinhas de madeira***. Preferiam-se telhas, porém, por serem mais resistentes.

Porquê andares superiores salientes?

Há muito tempo que estamos habituados a edifícios verticais e é difícil compreender a razão de ser destes andares salientes. As razões são essencialmente técnicas.

De facto, montar pilares da madeira duma altura de três ou quatro andares, havendo, a cada nível, juntas de entalhe onde encaixam as vigas horizontais da fachada e as vigas laterais, enfraquece consideravelmente o conjunto, uma vez que cada um desses pilares é assim transformado numa espécie de queijo suíço, onde se pode acumular humidade, apodrecendo lentamente a madeira e comprometendo a solidez do edifício. Com a construção em andares salientes, os pilares não têm mais de um andar de altura.

Há outra razão técnica importante. Os carpinteiros trabalham andar por andar, pelo que podem assim fazer as juntas de entalhe no chão, antes de içarem toda a estrutura de madeira para o seu lugar.

Por fim, compreende-se que os andares salientes protegem da chuva as madeiras não rebocadas, as juntas de entalhe e as próprias paredes. Estas são aliás, devido à sua construção, extremamente vulneráveis às intempéries se não tiveram nenhuma proteção eficaz contra elas.

Muitas vantagens, portanto. Mas também alguns inconvenientes, que levaram a que este tipo de construção fosse proibido em várias ocasiões […] A razão da proibição prende-se com o facto de contribuírem muito para transformar as ruas da Idade Média numa espécie de fossas escuras e malcheirosas, onde nunca entravam nem aragem nem sol, propícias à fermentação de toda a espécie de dejetos e à rápida propagação de epidemias. Se juntarmos a isto o risco de propagação de incêndios, é fácil compreender porque é que vários reis […] legislaram contra esta tão prática construção com andares salientes.

Parece que temos assim uma explicação mais sólida que as aventadas pelos meus amigos e que eu tinha também encontrado em fóruns na Internet. Que os moradores dos rés-do-chão ficassem mais protegidos dos dejetos lançados dos andares superiores parece ser mais um efeito lateral positivo do que um motivo para se construir dessa maneira. Quanto à hipótese dos impostos, tudo o que consegui encontrar online indica que os impostos sobre a propriedade fundiária só foram instituídos no séc. XVIII. 

Tenho visto na Internet muitas fotografias de casas do fim da Idade Média ou do Renascimento de toda a Europa e há muitas que, com maior ou menor desvio, cabem na descrição de Jean-Marc Larbodière. Evidentemente, os modelos de casa variavam de terra para terra, nalguns sítios com andares superiores mais proeminentes que outros, e talvez nalguns sítios as construções com andares superiores salientes tenham surgido ou desparecido mais tarde que em Paris. Não posso assegurar que as casas das imagens que se seguem (todas elas de licença de publicação Creative Commons) não tenham sido sujeitas a significativas alteração desde a sua construção. A maior parte delas são de praças ou ruas largas e não encontrei exemplares de casas muito antigas em ruas estreitas com esgotos a céu aberto que o texto refere. Há, pois, que fazer algum esforço de imaginação para as visualizar em ruelas suficientemente estreitas para que os andares superiores dos dois lados da rua quase se tocassem. A algumas delas, talvez as razões apresentadas para a maior área dos andares superiores não se apliquem bem, não sei. Creio que dão, ainda assim, uma ideia do que foi a construção de habitação nas cidades europeias e ilustram bem esta maneira, talvez surpreendente para nós hoje, de construir os andares superiores salientes.   

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Uma casa de enxaimel com os dois andares superiores salientes. A casa foi construída em 1543 e está situada em Castle Square, na cidade de  Lincoln, em Inglaterra. Foi sujeita a obras de restauro no séc. XX e é atualmente edifício classificado. (Foto de Brian, daqui)

Na região do Lincolnshire (e em muitas outras regiões do Reino Unido) podem encontrar-se várias casas mais ou da mesma época, com este tipo de construção, umas com a fachada principal na empena e outras no lado dos beirais (ver aqui, por exemplo). Neste caso, a casa parece ter duas entradas principais, mas não sei se será uma alteração mais recente. 




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A Kirchplatz na cidade de Hannoversch Münden, na Baixa Saxónia, na Alemanha. (Foto de Thomas Robbins, daqui.) Aqui já temos casas de mais andares, todos eles salientes relativamente aos inferiores, mas com fachadas principais diferentes: alguns com os lados dos beirais viradas para a rua e águas-furtadas, outros com a empena virada para a rua. 

Ao que consigo ver, as muitas casas de enxaimel de Hann. Münden datam de entre fins do séc. XV e fins do séc. XVI. Podem fazer uma visita guiada pelas casas de enxaimel aqui ou aqui, por exemplo.

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Casa com fachada de madeira na Jan Breidelstraat, em Gante, na Bélgica. (Foto de Marc Ryckaert, daqui.) Mais uma casa com a empena como fachada principal e os andares superiores salientes. O facto de as paredes laterais serem de tijolo não significa que a estrutura da casa não seja de madeira. A casa data do séc. XVI e é considerada monumento. Para mais fotos da Jan Breidelstraat, ver aqui, por exemplo. 

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Duas casas em enxaimel com andares superiores salientes, na Place 1830, em Quintin, França. (Foto de Llann Wé, daqui.) A casa da direita está classificada como monumento histórico de França. A outra, não sei.

De notar, em ambas as casas, uma estrutura de pedra (parede?, só coluna exterior?), que acompanha as saliências do primeiro e segundo andar.

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Uma casa medieval na Rue Daurade, em Cahors, França. (Foto de Krzysztof Golik, daqui.) O edifício é do séc. XIV (algumas fontes dizem até fins do séc. XIII) e é, portanto, o mais antigo que aqui mostro.

O segundo andar é pouco saliente em relação ao primeiro, que é, esse, bastante saliente em relação ao rés-do-chão. O edifício ilustra claramente o método de construção descrito por Larbodière no texto acima referido. Veem-se bem as duas «gaiolas» independentes sobrepostas assentando a inferior em pilares de pedra. Alguns elementos, como as janelas grandes, são seguramente mais modernos e é de notar que o enchimento original das paredes com pedras toscas e argamassa foi aqui e ali substituído por tijolo burro. É difícil perceber, nas dezenas de fotografias que há desta casa na Internet, como é o telhado, mas creio que é piramidal, de quatro águas pouco inclinadas. 




Post scriptum lisboeta: 

Queixava-me a uma amiga, aqui há uns tempos, da dificuldade que tenho em descobrir casas antigas nas cidades portuguesas. «No resto da Europa é fácil», dizia eu, «pelas estruturas de madeira: as casas mais antigas são de enxaimel à vista, saltam aos olhos dos transeuntes. Mas em Portugal, como as casas são todas rebocadas, é mais difícil.»

Isto é muito provavelmente uma simplificação grosseira, até porque vem de alguém que não percebe nada do assunto. É bem capaz de haver casas antigas por toda a Europa sem as estruturas de madeira visíveis, não sei. Aqui na Dinamarca, porém, é certo que as casas todas mais antigas são sempre de enxaimel. (Podem ver aqui algumas delas.) E na minha Lisboa natal?

As casas mais comummente referidas online como as mais antigas de Lisboa são uma da Rua dos Cegos, em Alfama, e várias outras da zona da Achada (Rua, Beco e Largo da Achada...) na Mouraria.

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À esquerda, o número 20-22 da Rua dos Cegos. Lê-se muitas vezes que é do séc. XVI, mas não consegui confirmar essa informação em fontes fiáveis. A foto é de Google maps. Ao centro, a Rua da Achada, e, à direita, o Beco de São Francisco ao Largo da Achada. Estas duas últimas fotos são de Machado e Souza e datam de entre 1898 e 1908 (Arquivo Municipal de Lisboa). No arquivo da CML, diz-se que a casa da Rua da Achada é do séc. XV, sublinhando as portas e janelas ogivais. (Mais sobre a achada no blogue Paixão por Lisboa.)

Não deixa de ser curioso que, nas casas mais antigas de Lisboa, os primeiros andares também sobressaiam em relação ao andar térreo – por muitos os pisos superiores, quando há mais que um, não sobressaiam relativamente ao primeiro andar. Terão estas casas também uma estrutura de madeira escondida ou serão todas de pedra? Talvez alguém que leia este este texto me saiba esclarecer.  


 

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* Não se faz referência a este tipo de edifícios nos artigos sobre falsos arcos noutras línguas, pelo que presumo que é só em francês que se usa uma mesma designação, encorbellement, para o arco falso e este tipo de construção. Não consegui encontrar, em português, a designação para esta construção com andares superiores salientes, pelo que descrevo aqui esta característica arquitetónica sem usar uma designação específica. Agradeço, é claro, qualquer esclarecimento sobre esta questão.

** Não conhecia algum do vocabulário técnico usado (tive de usar dicionários) e nem sempre é fácil encontrar o termo correspondente em português. Seja como for, este texto destina-se a pessoas como eu, sem conhecimentos técnicos de arquitetura, pelo que tentei traduzi-lo de ume forma compreensível para todos e não de uma forma tecnicamente correta, o que, de qualquer forma, não saberia fazer. Mas agradecem-se, naturalmente, todos os esclarecimentos sobre os termos técnicos corretos em português.

*** Estas tábuas, que são talhadas em vez de serem serradas, podem ter muitos nomes em francês (pelo menos, aisseaux, aissendres, aissis, bardeaux, essaules, essaunes e essentes), mas não consegui encontrar nenhum termo em português.


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