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09/02/22

Moral e mercado

[Este é daqueles textos que está há seis anos (!) para eu lhe dar forma definitiva. Mas eu não sei dar forma definitiva a nada, e isto também é só um blogue, não é verdade? De maneira que aqui vai como está sem mais, meio em esboço. Fala-se de mercado e liberalismo económico numa perspetiva moral.]

Estou em crer que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico defenderia, pelo menos às claras, que todo o comércio é sempre aceitável. Mas, para não se defender essa ideia tão pouco popular, há que ter como critério algo mais que o bom funcionamento da economia. E isto porque, como já uma vez aqui referi, de acordo com a teoria pura dos mercados, qualquer intervenção estatal, nem que para definir, com base nalgum critério moral (ou político, que neste caso é o mesmo), que comércio se pode ou não fazer reduz forçosamente a eficácia da economia. Por exemplo, se houver mercado para escravos não há razão nenhuma, numa perspetiva exclusivamente económica, para não se fazer comércio de escravos. Etc.

A verdade simples, de que nos esquecemos com demasiada frequência, é que o liberalismo económico é uma teoria económica, não uma teoria política, embora, como qualquer teoria económica, possa fazer parte de uma teoria política. É por isso que há uma tão grande divergência no plano propriamente político entre partidos que defendem o liberalismo económico (o grupo liberal do Parlamento Europeu é exemplo disso).

É claro que é perfeitamente possível a defesa de uma versão do liberalismo económico que não passe pela defesa de uma teoria pura dos mercados, avessa a toda e qualquer intervenção exterior e, por isso, completamente imoral. Saindo do louvor apenas do «bom funcionamento» dos mercados, pode definir-se alguma base moral do que é moralmente aceitável comerciar e defender, em seguida, que todas as transações moralmente aceitáveis se processem livremente, sem regulação do estado nem de entidade nenhuma que não sejam os agentes económicos nelas intervenientes*.

É extremamente difícil, porém definir as fronteiras do que é, em termos morais, suficientemente aceitável para poder ser comprado e vendido ou que tipo de transações comerciais devem estar sujeitas apenas à regulação do mercado. Por exemplo, se se aceita pagar muito dinheiro a uma pessoa pelos contactos e pela influência que tem (o valor dos salários de muitos gestores é nisso que assenta), então porque não aceitar o suborno e a corrupção, que são também a compra, num mercado autorregulado, do poder de uma pessoa? A questão dos monopólios é também interessante: uma lei antimonopólio é sempre contra o mercado, até porque, por muito que se afirme que os monopólios implicam o fim da concorrência (e a concorrência seria um motor de aumento da qualidade), o fim último de uma empresa a funcionar num mercado livre com o lucro apenas como telos é conseguir um monopólio.
Este são problemas da definição de mercado livre. Tem sido muitas vezes argumentado que a defesa de um mercado livre é, em última análise, contraditória, porque implica sempre a defesa de uma instância reguladora fora do mercado e não influenciável por ele que assegure o respeito da liberdade de transação e o respeito das regras comerciais. Porque um mercado realmente livre é um mercado em que manda mesmo e só a economia, mas isso é uma abstração do mesmo tipo que «o ser humano anterior à socialização»: é um conceito utilizável em exercícios de reflexão, mas que não corresponde a nada que tenha existido ou possa vir a existir.

Uma solução simples para estes dilemas é assentar que o comércio livre não deve ultrapassar os limites da lei, que a lei em vigor no lugar onde se comercia é a única instância reguladora aceite pelo mercado. Isto é, pelo menos em teoria, aceite pelos liberais, mas essa aceitação das leis vigentes é contraditória com o princípio do mercado livre, porque então devem também aceitar-se, sem protestar, as leis que regulam o mercado, até porque nunca ninguém defendeu a regulação do mercado per se, mas sempre esta regulação se deu para atingir fins políticos, que é outra maneira de dizer que a regulação do mercado se enquadra em programas éticos – pelo menos, quando não é determinada por uma parte poderosa dos participantes no mercado para se protegerem a si próprios**... Ora as forças do mercado não aceitam, precisamente, que as leis sejam como são quando as leis não são como elas as querem e tentam constantemente alterá-las, em função apenas da ideia de que «o mercado não deve ser regulado». O que nos traz de volta ao círculo da definição de limites morais essenciais a que os liberais não querem responder e que podiam resolver-se com a aceitação das leis vigentes, fossem elas quais fossem, porque são todas igualmente inimigas dos mercados – o que os liberais, afinal, não aceitam. E neste círculo giramos.

No fundo, o que não se diz, porque não convém, mas que determina em última análise a pressão do mercado sobre todos os regimes, é que se pretende que não haja mesmo nenhuma lei, nenhuma moral, que limite o funcionamento do mercado. O liberalismo económico acaba sempre por defender, opondo-se a toda a política, que o comércio é o único objetivo aceitável – o que, pelos vistos, é politicamente tão indefensável que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico ousa admiti-lo às claras…

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* Complica um pouco as coisas o poder julgar-se especificamente a moralidade de uma transação comercial enquanto tipo específico de ação – a compra e a venda de sexo, por exemplo, são passíveis de uma análise moral independente da análise moral da prática de sexo não transacionado. Mas deixemos isto para outra conversa.

** Isto também dava uma conversa à parte: muitos liberais não se coíbem de defender a regulação do mercado, se esta regulação defender os seus interesses – alguém defende comércio livre com o mundo inteiro, que é o mesmo que dizer a desregulação efetiva do comércio?

26/02/09

Um paraíso liberal

Flora vai ao banco levantar o vencimento. Recebeu um cheque em dólares americanos. Quando chega à caixa, é informada de que o banco, infelizmente, está sem dólares naquele momento, mas que, se ela quiser, pode levantar o cheque em meticais. Flora quer saber qual é a taxa de câmbio do banco e o rapaz da caixa diz-lhe que é cerca de 25 meticais por dólar, e que depois tem de pagar mais uma taxa que o banco cobra pela operação.

“Você acha que eu vou aceitar esse preço, responde Flora, quando é só sair a porta e pagam-me 27 ou mais?”

É a pura verdade. No jardim em frente ao banco estão os rapazes todos que trocam dinheiro no mercado negro. Hoje em dia não há grande diferença entre o valor das divisas no banco e no mercado negro, mas 27 meticais por dólar ela consegue de certeza.

“Iá, tem razão, diz-lhe o caixa, mas se quiser a 27 meticais por dólar eu também lhe troco a esse preço.”

Uma história real e fresquinha, passada hoje. Não sei como não se mudaram para aqui todos os libertarianistas e outros liberais radicais: se há país onde o mercado impera e o estado não existe, como eles acham que deve ser, esse país é Moçambique.

02/06/08

O primado da economia como esvaziamento da política

Não é nada de novo, mas não faz mal nenhum repeti-lo:

Muita gente considera o liberalismo económico uma doutrina política. E há, inclusive, partidos políticos que dizem ter na defesa do mercado livre o cerne da sua ideologia. Não deixa de ser curioso, no entanto, que embora vários partidos em todos os países digam perfilhar o liberalismo económico como fundamento das suas propostas políticas, os partidos propriamente liberais sejam, por um lado, muito poucos, uma percentagem insignificante do espectro político, e, por outro, completamente diferentes uns dos outros nas suas opções propriamente políticas (vejam, por exemplo, as enormes divergências do partido Venstre e do partido Radikale Venstre, na Dinamarca, ambos com assento na pequena bancada liberal europeia).

Aquilo de que se esquecem os que defendem o mercado livre como doutrina política é que o liberalismo económico é, de facto, uma doutrina económica, e uma doutrina económica não é uma doutrina política – exactamente como uma doutrina científica ou religiosa não é uma doutrina política. A política é o debate moral da coisa pública; é a discussão de que normas devem reger uma sociedade; do que deve ser permitido e proibido ao indivíduo enquanto participante da vida de uma comunidade. É claro que não é nula a relação entre a política e a economia, porque diversas propostas de organização social têm custos diferentes, e porque é necessário ter em conta a economia na avaliação estratégica das propostas políticas. Pode dizer-se que a função da política é definir, pelo menos em parte, as condições em que a economia se desenrola, mas isto porque é sua função definir (pelo menos em parte…) as condições em que se desenrolam todas as actividades humanas numa determinada sociedade. A relação entre a política e a economia não é nula, mas uma doutrina política não pode, de modo algum, limitar-se a ser uma doutrina económica ou pode mesmo, em última análise, distanciar-se bastante de qualquer opção económica específica.

O mercado livre tem, aliás, uma relação de certa forma paradoxal com a política: ele precisa que a política defina um número mínimo de regras para ele poder funcionar, mas é, por definição, contra a política. O economista Kenneth Arrow di-lo de uma forma exemplar. Interrogado por Jean-Paul Fitoussi sobre a compatibilidade do mercado com a democracia, Arrow responde: “O mercado não é, teoricamente, compatível com nenhum regime político, com nenhuma forma de governo, nem a democracia, nem a oligarquia, nem a ditadura*.” E isto porque, de acordo com a teoria pura dos mercados, qualquer intervenção estatal reduz forçosamente a eficácia da economia.

Então, não é que a teoria económica liberal seja politicamente insuficiente, não é isso – indo ao fundo da questão, ela é antes antipolítica por definição. Diz Fitoussi que esta “luminosa” resposta de Kenneth Arrow lhe pareceu a posteriori evidente. Pois. Quando se reflecte um pouco sobre a questão, mesmo sem se saber grande coisa de economia, torna-se óbvio que mesmo as mais consensuais limitações políticas à actividade económica – como a proibição do tráfico de escravos ou a proibição da pornografia infantil (para dar exemplos tão extremos como claros) – são, por natureza, contra o funcionamento “ideal” da economia de mercado.

Por outras palavras: O que o liberalismo económico tem em comum com as morais reveladas das doutrinas religiosas e com as doutrinas do determinismo histórico é a despolitização que acarreta a sua aceitação. Admitindo que devem ser as leis do mercado a reger a nossa vida (ou a lei dos deuses ou o rumo “natural” da História…), deixa de fazer sentido uma discussão de como queremos que sejam as nossas sociedades e do que fazer para as tornar como queremos que sejam. Ou seja, é a política que deixa de fazer sentido…

* Fitoussi, Jean-Paul, La démocratie et le marché. Paris: Grasset, 2004, p. 12. Um livro que se aconselha.