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14/11/13

Sobre preconceito e rotinas

Preconceito é uma palavra com conotações negativas, mas não é forçosamente mau ter pré-conceitos sobre as coisas. Depende de que pré-conceitos e sobre o quê. Já aqui o disse uma vez: é-nos muitas vezes apresentado como ideal o despir-se de preconceitos e ver ou pensar constantemente as coisas como se as víssemos ou pensássemos pela primeira vez, mas, da realização desse ideal resultaria, muito provavelmente, mais confusão e cansaço que iluminação ou deslumbramento. É muito útil ir armazenando ideias sobre as coisas, os seres e as categorias de coisas e seres que vamos encontrando – para não termos, precisamente!, de os reanalisar de novo a partir do zero quando os voltamos a encontrar. Os indispensáveis mecanismos que produzem os preconceitos são, em última análise, os que nos permitem, ainda em bebés, aprender a nossa língua materna, por exemplo: fazemos estatísticas sofisticadas de toda a informação que os sentidos recolhem e chegamos a conclusões importantes sobre quais são os sons relevantes para a nossa língua – ou sobre qual o comportamento típicos dos gatos ou das pessoas com quem lidamos, nesta ou naquela situação.

É claro que estes cálculos inconscientes, por úteis que sejam, estão muito longe de ser sempre corretos. Por um lado, a nossa experiência direta do mundo engana-nos amiúde e a verdade é muitas vezes contraintuitiva – sabiam que não é o sol que se desloca no firmamento por cima de nós? Por outro lado, os conceitos prévios nem sempre resultam da nossa experiência, já que na computação da ideia que temos dos outros entram também as ideias e imagens que nos foram transmitidas e que não correspondem ao resultado de nenhuma análise estatística dos seus comportamentos. De maneira que é mesmo necessário ponderar com cuidado o que se aproveita e o que se deita fora dos pré-conceitos. Mas primeiro, e isso é provavelmente ainda mais difícil, é preciso ganhar consciência deles...

Alvo do mesmo tipo de críticas que os preconceitos costumam ser as rotinas: Idealiza-se muitas vezes uma vida em que se faça apenas o que os apetites nos vão pedindo, descartando tudo o que é impensado, mecânico. É certo que deixamos, às vezes, que uma parte demasiado grande da nossa vista seja gasta em atividades automáticas; mas também as rotinas não merecem críticas apenas: às vezes são, como os preconceitos, mecanismos úteis de poupança de tempo e recursos. E podem também facilitar, acho eu, a vida em comum, não só de casais ou de famílias, mas de qualquer grupo de pessoas. Tem sido dito muitas vezes e é bem verdade: deixar que uma relação assente apenas em rotinas é matar essa relação. Passa a ser uma relação aparente, uma coabitação. Por outro lado, uma relação sem rotinas nenhumas pode ser extenuante, pondo demasiadas vezes em confronto vontades diferentes. É bom deixar que se instalem – ou criar – as suas rotinas...

Não me entendam mal: a moral da história não é que o preconceito e a rotina são coisas boas e que se deve por isso cultivá-los – apenas que se pode compreender que utilidades podem ter. Mas não podemos deixar que os pré-conceitos nos ceguem para conceitos novos, que nos impeçam de ver as coisas como são mas não pensávamos que elas fossem. E o mesmo as rotinas: nenhum músico pode improvisar bem se não tiver os dedos rotinados em escalas e fraseados vários, mas será sempre um improvisador desinteressante se se limitar a repetir esses automatismos. Mesmo nas rotinas que fomos nós a decidir para nós próprios, há que deixar espaço para, de repente, as ignorarmos completamente.

12/04/10

Esta parte automática de nós, que age sem nos pedir opinião…

Um ideal relativamente comum é o ideal de desprogramação: «Ai, as cassetes com que nos encheram a cabeça!; ai, a maneira como nos programaram para isto e para aquilo!; ah, como seria bom libertarmo-nos de tudo isso, tomar cada coisa pelo que ela é sem projectar sobre ela nenhuma ideia que dela já tenhamos, ver cada árvore como o primeiro homem viu uma árvore pela primeira vez, deitar fora todo o preconceito e todos os automatismos!»

Pois…

De facto, é um ideal que não faz muito sentido, a não ser que se acredite nalguma parte imutável de nós que constitua a nossa real essência (uma alma...); ou então que se adopte uma posição budista radical e o fim último da desprogramação seja sermos… nada – não sermos nada. Pois o que fica senão nada, se tirarmos de nós o que somos (que, metafísica à parte, não pode ser senão a maneira como o que já vinha dentro de nós à partida se foi depois modelando, aqui e ali, com os jeitinhos que o mundo lhe foi dando)?

Desprogramar-se, deitar fora gestos e pensamentos automáticos? Bom, depende de quais, mas há muitos que é melhor cultivar do que deitar fora. Quando se muda de casa, como eu mudei agora, é que se vê: o tempo que a gente perde a fazer o jantar, por falta de automatismos, de pré-conceitos. Temos de pensar tudo de cada vez, como o primeiro homem que viu uma cozinha pela primeira vez. A faca de legumes, onde estará, e onde estão guardadas as cebolas? Perdoem-me agora dividir em dois cada pessoa, e acabar por cair assim no que criticava ali atrás, mas é só uma força de expressão: dá às vezes muito jeito esta parte automática de nós que age sem nos pedir opinião…