Mostrar mensagens com a etiqueta Comboios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comboios. Mostrar todas as mensagens

7 de abril de 2018

O comboio das cinco e um quarto

Autor não identificado (6 anos de idade), daqui
As crianças continuam a desenhar casas assim, por muito que vivam em casas muito diferentes e nem sequer tenham tido muito contacto com casas deste tipo. Muito provavelmente, algumas crianças nunca viram uma casa como as que desenham*. A verdade é que, normalmente, não se aprende a desenhar como base no mundo real, mas sim em desenhos.

O mesmo se pode dizer da canção. O que justifica a repetição de versos, motivos, imagens e nomes ao longo do tempo é que, ao criar uma canção nova, quem a escreve não se baseia apenas no vivido ou no observado – mas muito também em canções anteriores. Não há forma artística sem história, claro, e a história de qualquer forma tem sempre duas componentes distintas que se ajustam permanentemente: uma canção inscreve-se sempre numa determinada época, num determinado contexto histórico, em sentido lato; mas inscreve-se também numa linhagem, por assim dizer: na história de um tema ou motivo, na história de um género – e na história da canção, enfim.

A primeira canção chamada “5:15” que ouvi foi a do Quadrophenia, dos The Who (1973). É claro, nunca me passou pela cabeça que estivesse perante um motivo recorrente da música popular. Nem sequer pensei no assunto, mas, se tivesse pensado, teria provavelmente concluído que Pete Townshend tinha escolhido o comboio das cinco e um quarto, porque lhe dava jeito para rimar – ou até porque tinha apanhado muitas vezes um comboio a essa hora, qualquer coisa assim...



Quando conheci a canção “5:15” de Chris Isaak, porém, comecei a suspeitar de que o mesmo título nas duas canções era capaz de ser mais do que apenas coincidência.



Uma busca rápida revelou-me que há mais uns quantos “5:15”, uns mais conhecidos que outros, e um até instrumental**. Não diria que é um motivo muito recorrente. Aliás, nem motivo chega a ser, é só uma designação de um comboio disponível no universo da canção popular de língua inglesa, que foi usado em canções de motivos e temáticas várias.

A canção mais antiga que encontrei que alude ao comboio das 5:15 (não me atrevo a dizer que seja a primeira) é de Stanley Murphy e Henry Marshall e foi composta por volta de 1915. A Wikipedia diz  que é «uma sátira do sistema de comboios suburbanos e do ritmo rápido da vida "moderna" nas grandes cidades, uma situação já perfeitamente estabelecida na altura da Primeira Guerra Mundial».



_____________________

Rato Michey adaptado do cartaz de Get a Horse! (2013);
foto de rato daqui
* A questão é muito interessante, mas não a desenvolverei agora aqui. Da mesma forma, uma criança aprende a reconhecer – e talvez a produzir – como rato ou cão figuras que pouco têm a ver com os animais representados, animais esses que pode até nunca ter visto.

** Também há várias canções chamadas 5:15 que não têm nada a ver com comboios, referem apenas uma hora. E é provável que haja mais referências ao comboio das cinco e um quarto na letra de canções que não incluem 5:15 no título, mas isso é mais difícil de pesquisar.


8 de agosto de 2011

Crónicas de Svendborg # 1: Søren Kanne

O comboio que, à chegada à Dinamarca, apanhámos de Copenhaga para Slagelse chamava-se Søren Kanne. Gosto da ideia de os comboios terem nomes, que são também temas. No Søren Kanne, conta-se, em painéis espalhados pelo comboio, a história do camponês da Jutlândia que lhe deu o nome. Ou melhor, o seu feito heroico, porque é a esse feito heroico que se resume hoje a história do homem. Traduzo o texto da Wikipédia em dinamarquês, que não é muito diferente do texto que se pode ler no comboio:
A 15 de fevereiro de 1835, afundou-se o navio Benthe Marie, de Helsingør, a cerca de 50 metros de Grenå Sønderstrand. Um dos três tripulantes afogou-se e outro nadou para terra, ficando o capitão Ole Jensen Jyde agarrado aos restos do barco. Søren Kanne, que morava na Casa da Praia, em Hessel Hede, a sul de Grenå, foi, com dois cavalos, até ao barco, montou o capitão num dos cavalos e trouxe-o assim para terra, salvando-o.
O acontecimento foi referido em vários jornais, na sequência do artigo de 24 de março do Semanário do Camponês Dinamarquês. Em Århus, na sequência do artigo do jornal Aarhuus Stiftstidende, fez-se uma coleta para uma bandeja de prata para Søren Kanne e o rei Frederico VI condecorou-o com uma Medalha de Salvamento de Afogados e deu-lhe 40 táleres. Steen Steensen Blicher escreveu também um poema, “En ny Vise om en Sømand og en Landmand[1]”, sobre o feito de Søren Kanne. E vejam lá, a poesia, que normalmente não serve para nada, serviu neste caso para preservar e divulgar a história de Søren Kanne. Não fosse o poema de Blicher e não haveria hoje, tenho a certeza, nenhum comboio chamado Søren Kanne.
“O resto da vida de Søren Kanne”, continua o texto da Wikipédia, “foi sem grandes acontecimentos e, ironicamente, veio a morrer afogado no ribeiro de Grenå[2].”
Acabasse aqui o texto da Wikipédia e teríamos, na minha opinião, mais uma prova de que há textos que, sem a isso aspirarem, conseguem maravilhas de literariedade
_______________
[1] “Uma nova canção sobre um marinheiro e um camponês”, aqui em dinamarquês, para quem saiba ler a língua de Blicher… Porque não o traduzo eu? Sinceramente, porque acho que não vale o trabalho...
[2] Na Dinamarca, não sei se os meus leitores o saberão, não há um único rio – só cursos de água muito pequenos. Pequena como esses ribeiros é a palavra que os designa em dinamarquês, å. Juntamente com ø, que significa ilha, é dos substantivos mais curtos das línguas europeias.