Mostrar mensagens com a etiqueta Picuinhices. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Picuinhices. Mostrar todas as mensagens

30/11/23

Picuinhices 2

Temos tendência a pensar que os picuinhas com as coisa das língua têm uma atitude conservadora, mas, se uma pessoa for mesmo picuinhas, não pode sempre ser conservadora, porque a verdadeira picuinhice linguística leva forçosamente a propostas de reforma da norma. 

Por exemplo, se se insistir que é refrães que se deve dizer, porque é isso que decorre naturalmente da origem da palavra, tem de defender que se diga não só anciãos como também anãos, verãos e chãos. 

Também se compreende mal porque se chama castelhano a um homem de Castela e à sua língua, a não ser por decalque impróprio dessa mesma língua. Para dizer as coisas da maneira natural em português, o picuinhas proporá que, como em galego se diz castelán, em português se deve dizer castelão (plural castelãos, naturalmente, feminino castelã(s)).


Picuinhices 1: uma autocrítica

A história do filme The Moderns (Alan Rudolph, 1988) passa-se em 1926, mas alguém põe a tocar num gira-discos a canção «Parlez-moi d’amour», por Lucienne Boyer, que só foi gravada quatro anos mais tarde.
No romance Les Oubliés du dimanche (Valérie Perrin, 2015), num casamento a 13 de fevereiro de 1985, dança-se ao som do álbum Sign o’ the times, de Prince, que saiu a 30 de março de 1987.
Estes anacronismos não têm importância absolutamente nenhuma, nem para o filme nem para o romance e acho que não devem aborrecer ninguém. O que me devia aborrecer é reparar neles e ficar a pensar nisso, e depois ter de ir verificar se me enganei ou não. O que devia aborrecer-me — e muitas vezes aborrece de facto as pessoas à minha volta — é eu ser assim picuinhas como eu sou. 
Mas, enfim, tenho pelo menos um pretexto para aqui pôr a cantiga de Jean Lenoir, que é uma pequena obra-prima da canção popular do séc. XX.