12/07/13

[Encerrado para férias]

Se não se tem passado quase nada neste blogue nos últimos tempos, menos ainda há de passar-se até meados de agosto: vamos de férias! Mas prometo mais atividade depois de restauradas as energias, sim?, e, como dizia o outro, agradeço a vossa continuação. Boas férias para vocês também!

02/04/13

Os pensamentos são como as cerejas

Recordação de juventude: tinha um amigo que dizia que, se um marujo vive do mar, quem vive do ar é araújo. Conheço uma pessoa de apelido Araújo que deve estar agora na Bolívia de férias. Talvez em Sucre, que era um dos seus destinos. Em Sucre, veem-se penduradas dos fios telefónicos umas curiosas plantas de que quase se pode dizer que vivem do ar. Mas não é araújas que se chamam quando assim vivem: são aerófitas,que é uma forma específica de serem epífitas

Imagem de Wikimedia Commons: Tillandsias em fios telefónicos em Serrano, Bolívia


Relativismo, diz ele

Conheço um pessoa que, quando quer realçar que mora mesmo ao pé da praia, diz que tem a praia mais próxima a uns 300 metros de casa, se tanto; e que, quando fala do percurso diário de jogging, conta um quilómetro de casa à mesma praia. A praia em questão, tive já oportunidade de o constatar, nunca sai do mesmo lugar, independentemente do que essa pessoa diga da sua situação.

Que tudo é relativo? Que 600 metros de esforço são mais compridos que 600 metros de prazer? Ó filho, deixa-te disso!, como dizia a minha saudosa avó. A questão é antes saber quando é que à despreocupada falta de rigor ‒ ao sabor do sentimento ou da conveniência, é conforme ‒ se pode começar a chamar simplesmente mentira.

21/03/13

Amordaçam-nos e atam-nos as mãos

Poul Henningsen (1894‑1967), mais conhecido por PH, era um homem de muitos talentos: foi crítico literário, jornalista, poeta, cineasta, letrista, designer e arquiteto. É, sem dúvida um dos nomes importantes da cultura dinamarquesa no século XX. As suas criações mais conhecidas são provavelmente os candeeiros, que começou a desenhar em 1925 e de que vos apresento aqui dois dos mais famosos, ambos de 1958. A Alcachofra é um candeeiro sofisticado, considerado por muitos uma obra-prima de design. Muito mais simples, o PH5 é, provavelmente, o mais popular candeeiro dinamarquês. Ainda hoje se comercializa e encontra-se em muitas casas (nós temos um).
A Alcachofra, à esquerda, e o PH5, dois famosos candeeiros de Poul Henningsen (imagens de Wikimedia Commons)
Posta esta luminosa introdução, passo agora a apresentar-vos o tema central deste texto: não é da vida e obra de PH em geral que quero falar-vos, nem dos seus candeeiros, mas sim de uma canção de que escreveu a letra e que se tornou um símbolo da contestação e resistência à ocupação da Dinamarca pelos nazis: “Man binder os på mund og hånd”. É não só uma canção histórica, como também uma obra-prima da canção dinamarquesa. E fascina-me que uma canção que, além de ser um ataque relativamente claro à ocupação alemã, critica directamente a própria censura, tenha conseguido contornar essa mesma censura. Talvez isso se deva a que a crítica aos compromissos amorosos, que é o seu tema imediato, fosse, no fundo, muito mais do que apenas um artifício retórico de PH. A canção também é mesmo, afinal, uma crítica sincera do amor como contrato ‒ e a censura não conseguiu deixar de a entender assim. Deixo PH contar-vos a história.
Logo após a ocupação, no verão de 1940, escrevi “Man binder os på mund og hånd” para a Liva Weel, na revista Dyveke, mas para a música de um tango de Kai Normann Andersen, e não se costuma usar tangos para canções patrióticas. As preocupações eram bastante grandes.
Foi também um bocado pérfido da minha parte. Só a última estrofe é que era a canção patriótica, ao passo que a primeira era sobre um amor altamente imoral e a do meio, que não está no disco, era um ataque violento ao sagrado matrimónio.
As pessoas de bem tinham também de ouvir essas coisas desagradáveis ​​para ouvir a estrofe patriótica, que Liva cantava emocionada perante um profundo silêncio do público. Mas foi, em parte, uma boa maneira de enganar os alemães, para eles não proibirem a música, e foi também, de minha parte, um pouco para provocar os burgueses. Não me apetecia dizer apenas o que as pessoas queriam ouvir.
Traduzo a seguir a canção. É uma tradução em prosa e feia, aviso, que vos permite ficar a saber o significado das frases (ou mais ou menos, porque às vezes sou obrigado a fugir à literalidade em demasia), mas não vos dá nenhuma ideia do seu conteúdo estético ‒ não sei traduzir isto como deve ser. Uma nota só sobre o título, que é também a frase que inicia o refrão: traduzo por “amordaçam-nos e atam-nos as mãos”, porque acho que em português não se pode atar a boca às pessoas, mas, literalmente, é isso que o texto diz: atam-nos ou amarram-nos pela boca e pela mão. É esta ambiguidade que funda o texto: atam-nos pela boca (o sim do casamento, as juras de amor) e pela mão (o anel, o gesto de juramento?) podem entender-se também como amordaçam-nos (a censura) e atam-nos as mãos (a prisão literal, a impossibilidade de agir?). 
I. As crianças, gananciosas, querem deitar a mão a tudo o que brilha. As pessoas maduras prendem as outras com um anel. Quantas vezes não parámos com alguém, em frente a uma montra, a dividir as coisas expostas. Eu fico com isto, eu fico com isto! E a vida também é assim.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito e é difícil libertar-se. Jogamos às escondidas com alguém que sabe proteger-nos da solidão. Com doces contratos, deixamo-nos levar. Se fosse proibido dizer “juro”, teríamos uma forma mais honesta de amar. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram um breve momento, até a alegria desaparecer e tudo acabar.
II. Amor e casamento: que tem uma coisa a ver com a outra? O bocejo vazio do tédio, até a boca não abrir mais. O amor é flor selvagem, murcha às mãos do jardineiro. Protegê-lo faz-lhe mal, mas floresce, ardente, na tempestade e na neve.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito, mas ninguém pode ser dono de ninguém. Libertamo-nos. Em cada carícia há uma fuga, os sentidos ao rubro que fogem dos trilhos atarefados e batidos dos deveres. Eu não sou teu, tu não és minha. Os meus beijos não são sim nem não. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram esse estonteado momento, que é precisamente o beijo que me dás tu de quem eu gosto. 
III. Ir ao encontro do que nos espera e ninguém sabe como as coisas correm; carregar o destino sem rejeição, venha o que vier; feliz com os gestos amigos, mas sem acreditar que são para continuar; procurar a paz, porque sabemos que não exigimos a paz.
Amordaçam-nos, atam-nos as mãos, mas não se pode atar o espírito, e ninguém é prisioneiro, quando o pensamento é livre. Temos uma fortaleza interior que se fortalece com o seu próprio valor, quando lutamos por aquilo de que gostamos. Quem mantém a alma aprumada nunca pode ser escravo. Ninguém pode mandar no que nós próprios decidirmos. Isso juramos nós, com palavras e gestos, na escuridão que precede o amanhecer, que o sonho da liberdade nunca acabará.
Depois de tão longa introdução, a canção propriamente dita, que começa ao fim do primeiro minuto, depois da explicação de PH transcrita acima. As partes cantadas são a só a 1ª e a 3ª do texto traduzido. Espero que gostem. Eu gosto muito. E embora até aqui tenha falado só da letra, não é só da letra que gosto: também acho bonita a melodia e acho que Liva Weel a canta muito bem.
No blogue Imagens com texto, J.J.Amarante tem uma série de posts sobre candeeiros dinamarqueses, incluindo os de PH.
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P.S.: O conteúdo político da canção é mais óbvio numa parte que aparece, em certas transcrições da canção, antes da que aqui apresento como terceira. Li algures que só foi descoberta recentemente. Acho curioso que essa parte não seja referida no discurso de PH que se ouve no vídeo e que traduzi acima. Será que é mesmo dele? Na página de blogue onde fui buscar as transcrições que aqui usei, sugere-se que talvez PH tenha feito essa terceira parte de propósito para ser censurada e desviar assim a atenção da censura das outras três partes. O texto do blogue é de 2011, mas tinha ouvido exatamente o mesmo, 10 anos antes, de uma das minhas professoras de dinamarquês. Aqui fica também a tradução da parte em questão:
Mesmo quando os navios se afundam, um após outro, e os países um após outro são arrasados, age-se com honestidade e cada qual reza ao seu deus. Tratados de paz e pactos de amizade são papéis que custam sangue. O fraco arma-se contra o forte, com a desesperada coragem que o medo lhe dá. Vale tanto para o amor como para a guerra: todas as juras são engano e ninguém pode confiar na palavra de ninguém.
O que ajudaram os apertos de mão que deram àquela que ali está junto da sepultura do marido? Uma pessoa não vale nada perante a terra sagrada.
Medo dos nossos inimigos? Sim, mas mais medo da grande potência que nos quer ajudar e nos chama amigos. É assim nas guerras de todos os tempos, as garantias são enganos apenas e ninguém pode confiar na palavra dos Estados.

13/03/13

A neve da Ütopya


Nos últimos meses, tenho visto em vários sítios a imagem acima. Curioso, fui pesquisar no Google images a sua origem. E descobri outras imagens do mesmo lugar. Uma delas tinha neve:
Surpreendeu-me a neve. Por um lado, tinha entretanto descoberto que o painel era da Universidade de Başkent em Ancara[1] e eu não sabia que nevava em Ancara. (Mas fui informar-me e agora já sei que sim, que neva.) Por outro lado, é simplesmente estranho para mim associar neve à Utopia. Preconceito apenas, falta de hábito de ver lado a lado as duas coisas. O painel diz claramente que a Utopia está a uma distância infinita e é claro que há sítios com neve a uma distância infinita de Utopia. A Utopia é que não tem neve, não são os sítios onde ela é indicada.
A Utopia não tem neve? A Utopia não tem neve porquê?, há de haver quem pergunte. Não é até comum elevar-se a ideal os países do Norte, com a sua riqueza e os seus índices de bem-estar e felicidade? Bom, se utopia for sinónimo de “ideal”, com certeza que há utopias com neve. E sem ela, e com todo o tipo de climas e gentes e culturas. Eu é que me acostumei a dar à palavra utopia um sentido mais restrito e é sempre esse sentido que me vem à mente quando a ouço:
Quando Thomas More publicou, em 1518, o seu livro A utopia ou tratado da melhor forma de governo, inaugurou um modelo, em parte narrativo mas sobretudo filosófico, político e moral, que teve, durante mais de dois séculos, uma fortuna imensa ‒ foram escritas dezenas de obras, em muitos aspetos parecidas entre elas e com a obra de More, que constituíram um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. A história é praticamente sempre igual: um viajante europeu chega a uma ilha, fora dos espaços conhecidos na Europa, onde encontra uma sociedade “perfeita”. E apresenta depois essa sociedade perfeita aos seus conterrâneos, mostrando-lhes, com a perfeição dessa sociedade distante, as contradições e os defeitos da sua própria sociedade. É sempre neste modelo, com ideias e imagens bem definidas, que penso, quando penso em utopia, porque me dediquei, durante alguns anos, a estudá-lo. E é também por isso que a palavra não tem sempre, para mim, a conotação positiva que tem para a maior parte das pessoas: se há aspetos que me agradam nestas utopias, há também outros que me desagradam muito…
Mas de que ideal dão conta essas narrativas, afinal? O que têm em comum entre elas essas sociedades ideais que os viajantes europeus encontram ao cabo de longas viagens imaginárias? É obviamente impossível listar aqui todas as suas características, mas podem resumir-se algumas linhas de força do ideal utópico:
Antes de mais, a utopia é sempre uma ilha (se não literalmente, pelo menos simbolicamente), às vezes murada, sempre de difícil acesso. Obsessivamente geométrica, é sempre uma cidade ou um conjunto delas, construída em planícies artificiais depois de arrasadas as primitivas florestas. É neste cenário que seres uniformizados (ao ponto de usarem, de facto, uniformes) vivem vidas “perfeitas” porque aboliram de vez o mal supremo da irracionalidade e as suas vidas são reguladas até ao mínimo detalhe por leis “perfeitas” ‒ que muitas vezes lhes foram oferecidas por um sábio legislador e que eles aceitaram de bom grado, de tão justas que eram.
Tudo é lógico e prático, tudo está regulamentado racionalmente. Este é, talvez, o traço mais universal da Utopia. Até o amor e o sexo são regulados logicamente, sempre de acordo com os interesses da comunidade. A religião também é sempre inabalável de razão, tingida de cientismo e filosofia. E as línguas que se falam nas utopias são, também elas, além de perfeitas na sua capacidade de fazer coincidir a palavra com o que ela nomeia, de uma regularidade impressionante, matemática.
Outra ideia fundamental da utopia é a de educação. Os utopistas atribuem à Natureza tudo o que há de mau no mundo (os sentimentos, a mentira, a inveja, o gosto do excesso e do supérfluo, o cultivar da aparência, etc.) e é, pois, preciso educar para a cidadania. A educação utópica é um dos seus aspetos revolucionários: é muitas vezes universal e desde o início da infância, e é ao mesmo tempo cívica e profissional. Mas não é só para ensinar razão e cidadania que a educação serve ‒ serve também para ensinar a obedecer, a ser ajuizado e dócil e... bem condicionado.
Ideal igualitário ‒ embora as hierarquias existam sempre e sejam bem visíveis e bem respeitadas, por “necessidade” do sistema de governo ‒, a propriedade privada não existe na utopia, até porque não contam o privado nem o indivíduo, apenas a sociedade.
A felicidade próspera da utopia é reservada aos habitantes dessa ilha e os contactos com os povos vizinhos, ameaçadores, quando os há, limitam-se a relações comerciais e à guerra (a educação militar é, aliás, uma componente importante da educação cívica utópica). É uma ilha, não o esqueçamos. Algures na zona quente do globo.
Estão a ver onde é que eu queria chegar? A Utopia de Thomas More, a Nova Atlântida de Francis Bacon, a Terra Austral de Gabriel de Foigny e outras Terras Austrais, a maioria das utopias, enfim, não fica em zonas frias. Provavelmente, pode pensar-se, porque os climas quentes são o ideal de todos os humanos, animais tropicais que nós somos. É certo[2]. Mas é também porque as Utopias são, pelo menos em parte, o Novo Mundo, os novos mundos a colonizar. Há um pormenor que me parece fundamental no edifício utópico (ou, devo insistir, num número significativo de utopias, já que não é um traço constante) e que tem sido muitas vezes ignorado: é que as utopias foram erigidas a partir da dominação ou da destruição de um povo “selvagem” que habitava anteriormente as ilhas utópicas. Não é que a utopia apresente diretamente uma justificação, ou que faça diretamente a apologia, da dominação, do extermínio ou da civilização dos povos “selvagens”. Mas isso está inscrito na sua ideologia e no seu imaginário, segundo os quais o “natural” deve ser civilizado, racionalizado.
A utopia foi, como disse, um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. Ora o polo oposto é, precisamente, a idealização das sociedades “selvagens”, que é a exata negação de tudo o que a utopia preconiza: o ideal primitivista funda-se no louvor da ausência[3] de leis, de educação, de necessidade de racionalização; no louvor, enfim, de uma “generosa ordem natural”. Há, porém, um ponto comum aos dois ideais, uma ideia fundamental da radicalidade igualitarista do período clássico ‒ a ausência de propriedade. Mais simpático aos olhos de muitos de nós que a estrutura rígida, tentacular e totalitária que a utopia em grande parte é, este ideal contrário, primitivista, é um produto, afinal, da incapacidade de compreender o Outro (nesta época, sobretudo o nativo americano).
A partir do momento em que a ideia de História vem ocupar o lugar central do pensamento europeu, a utopia vai, progressivamente, deixando de se situar numa ilha distante para se situar num futuro mais ou menos longínquo. O “selvagem”, cada vez menos louvado como ideal, é deslocado pelo pensamento europeu para o extremo oposto da História: tornado “primitivo”, passa a habitar um tempo “anterior” ao nosso e, por isso mesmo, “inferior”.
No século XX, alguns intelectuais europeus começam a desmontar estas ideias e a utopia revela então outra face: em textos como o famoso 1984 de Orwell, torna-se distopia. Mas, no fundo, a distopia não é muito diferente da utopia ‒ foi o olhar sobre a utopia que mudou...
[Toda a exposição atrás é demasiado breve e demasiado esquemática e faltam-lhe, por isso, muitas nuances interessantes. Paciência. Num texto de blogue, porém, não cabe muito mais, acho eu. Muita da informação que aqui apresento é em segunda mão, porque eu, embora tenha lido algumas utopias, não as li em número suficiente para tirar tão abrangentes conclusões. O modelo de oposição entre utopia e primitivismo vem de Christian Marouby (Utopie et primitivisme. Essai sur l’imaginaire anthropologique à l’âge classique, Paris: Seuil, 1990, uma obra que me influenciou muito e que recomendo vivamente). Na Travessa, há um texto sobre as línguas das Utopias aqui, e estou a pensar fazer um texto mais desenvolvido sobre esse tema.]
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[1] Não tenho a certeza absoluta, mas tenho boas razões para acreditar que se trata de um trabalho de Furkan Şener que se encontra (ou encontrou) na Universidade de Başkent em Ancara (ver aqui ou aqui)
[2] Um utopista, Robert Burton, di-lo até muito diretamente no capítulo "An Utopia of Mine Owne" da sua Anatomia da Melancolia de 1621: Para ele, uma má situação geográfica era um dos fatores que causava a “melancolia” dos reinos que conhecia, pelo que a sua Utopia seria fundada num lugar remoto ‒ na Terra Australis Incognita, numa ilha do Pacífico Sul, no interior da América ou no Norte de África ‒  a cerca de 45 graus de latitude, para ter um clima temperado. 45 graus de latitude significa a utópica mesura: exatamente a meio caminho entre o polo e o equador! Não é dos paralelos 45 reais que se trata. Robert Burton talvez nem soubesse que regiões efetivamente atravessavam…
[3] É muito curioso verificar que este ideal primitivista é, ao contrário, da Utopia, construído negativamente: os povos naturais são bons porque não têm certas coisas (propriedade, hierarquias, leis, governo, roupas, pudor, etc.), que o primitivista identifica como culpadas do mal-estar europeu. A definição negativa do ideal não é nenhuma inovação da literatura primitivista, mas antes retomada do motivo clássico da Idade de Ouro, que também é sempre descrita negativamente.

09/03/13

Famílias


[Este blogue tem estado muito parado, por várias razões. Uma delas é que os textos parece que andam enguiçados - não me sai o que quero, não gosto do que escrevo. E este é o mais enguiçado de todos. Há meses que muda de forma e nunca mais o acho apresentável. Mas enfim, vai como está, a ver se quebro o enguiço. Talvez vocês possam ajudar-me a melhorá-lo...]
Familles, je vous hais ! foyers clos ; portes refermées ; possessions jalouses du bonheur.
 André Gide, Les Nourritures Terrestres, 1897
 
Famílias, odeio-vos! Lares fechados; portas fechadas; possessões ciumentas da felicidade. A frase é famosa. Nunca li André Gide e não sei onde ele quer chegar com ela, mas já a vi dezenas de vezes na minha vida. E creio saber donde lhe vem a fortuna: é que toda a gente, mesmo quem mais preza e louva a família, não pode deixar por vezes de sentir isso mesmo, que detesta a família, as famílias todas. Que nos traga muitas coisas boas, a família, não tenho dúvidas de que traz; que é fonte de conflitos e mal-estares, também tenho a certeza absoluta. Mas não é sobre a família em geral que aqui vos falo, que nestes textos de blogue não acabem assuntos tão vastos.
  

Vou contar-vos uma história verdadeira:
C. trabalhava na empresa da família. Era um dos diretores, abaixo do pai, e o principal estratega da firma. De facto, era ele o motor da firma. Para além de C. e do seu pai, trabalhava também na firma o irmão de C. Não era exatamente, aos olhos de C., o trabalhador mais competente, mas C. nunca pôs em causa que houvesse lugar para ele na firma. Fora do trabalho, C. e o irmão davam-se bem e, com as respetivas famílias, passavam juntos muitos fins de semana.
O pai de C. tinha da firma uma conceção radicalmente familiar, se me faço entender: achava que o irmão de C. devia entrar para a direção, porque era na direção o lugar natural dos membros da família. C. opôs-se, que era um grande disparate, que um cargo daqueles não se podia dar assim a alguém só por ele ser da família, que o irmão estava longe de ter as competências necessárias e que pô-lo na direção era desgraçar a empresa. Perante uma tão grande falta de respeito pelos valores sagrados da família (a “ciosa possessão da felicidade”), o pai de C. despediu-o. Ao fim de 20 anos de dedicação à firma, C. vê-se de repente despedido pelo seu próprio pai da firma de que é sócio.

A família nuclear sempre foi, em parte, um espaço de transmissão de saberes e sempre foi um círculo tão natural de favorecimento que só fora dela os favorecimentos são ilícitos. Pode criticar-se compadrio e nepotismo e não deixa de ser interessante que as palavras nepotismo e compadrio, para designar o favorecimento especial de pessoas próximas, tenham origem em termos que não designam as relações familiares ditas nucleares[1]. Nunca se ouviu criticar filhismo, padrismo ou hermanismo ‒ parece que o favorecimento de pais, filhos e esposos é tão natural que não pode ser criticado. Mas o facto é que, se a família sempre foi funcionando, melhor ou pior, como unidade empresarial, é claro que, como a história do meu amigo o prova, ser mãe, pai, filha, filho, irmã ou irmão não é hoje currículo que satisfaça gestores de empresas. Nunca devia ter satisfeito, não é?, mas antigamente a gestão de empresas não era saber técnico, era condição herdada, traço familiar.

Agora, parece-me a mim que não é só como unidade empresarial que a família se mostra amiúde pouco adaptada à realidade de hoje – também como unidade de segurança social para apoio aos mais velhos.
Há muito quem veja com maus olhos que as formas de solidariedade direta, ou mesmo a “generosidade”, tenham sido superadas pela reivindicação dos direitos abstratos. Falta-me informação: não sei se as formas de solidariedade direta existem hoje menos do que existiam e, se for esse o caso, não sei se se pode atribuir essa diminuição à instituição da formas de solidariedade mais abstrata (chamemos-lhe ação social). A ideia que tenho, porém, é que, no que respeita ao apoio aos idosos, a família nuclear se presta hoje mal a esse papel ‒ e provavelmente sempre assim foi…Vejo amiúde infiltrar-se muito romantismo na discussão, mas o facto é que, ao contrário do que muitos afirmam, foi em sociedades em que a assistência aos idosos depende exclusivamente ou quase exclusivamente da família que ouvi as mais terríveis histórias de maus tratos aos velhos ‒ e de velhices difíceis e tristes, enfim[2]. A mim (que não sou muito de acreditar no que se diz, mas que, como disse, tampouco tenho, por outro lado, dados concretos em que me possa fiar…) não me surpreendem essas histórias ‒ perturbam-me, isso sim, e acho que não deve ser assim.
 A família é um espaço de muitos afetos e de avaliações muito subjetivas de direitos e deveres. O dever de apoiar os familiares idosos resulta, em muitos casos, em conflitos insolúveis e em permanente mal-estar – e na ausência de cuidados efetivos. Dito de outra maneira, o direito a assistência na terceira idade não deve depender de afetos nem ser, mesmo parcialmente, condicionado por eles. Um passo fundamental é, parece-me a mim, deixar de contar oficialmente a família como provedor de apoio aos mais velhos. Há alguns meses, contava-me uma amiga minha, que é assistente social em Portugal, as muitas situações dramáticas que causa não dar apoio social a certas pessoas, por se contar como rendimentos delas os rendimentos dos filhos. É claro. Agora, obviamente, a solução não é controlar os filhos e obrigá-los a darem apoio aos pais, se o não quiserem dar. A solução é que os deveres de apoio sejam transferidos na totalidade para uma instância neutra ‒ o Estado.
Já agora, quero recordar a quem se insurge contra eles por “artificiais” ou “pouco humanos” que os sistemas “abstratos” de ação social fazem parte de uma categorial moral naturalíssima de todas as sociedades humanas: a reciprocidade indireta. Em qualquer sociedade, o altruísmo não funciona só relativamente a pessoas específicas ou dentro de círculos específicos de que se espera retribuição, mas existe também para com as pessoas em geral, esperando que as pessoas em geral nos façam bem. Contribuímos para os nossos familiares, obviamente, ao contribuir para todos. Numa formulação célebre, se vamos ao enterro dos outros, haverá quem venha ao nosso, mas não forçosamente aquelas pessoas a cujo enterro nós fomos. (Mais aqui.)

Tirando isso, e já que perguntam, a minha família vai bem muito obrigado, damo-nos muito bem, como todas as famílias, não é verdade?, e os meus filhos, em chegando a crescidos, lá farão a vida deles sem receberem cargos na empresa paterna, para grande sorte deles, e acho que não contam com muitas outras ajudas da nossa parte, também para sorte deles. E eu, por mim, em chegando a velhote (já não falta muito…), não só não espero como não quero ajuda direta deles, e é também é muito melhor assim, para todos nós.
(Também não conto deixar-lhes nada, até porque sou contra heranças, mas isso das heranças fica para outro texto, que este já vai muito comprido…)
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[1] Tenho perfeita consciência de que nepotismo pode, etimologicamente, relacionar-se com a família nuclear, já que o nepos latino cobre várias relações familiares entre as quais a de neto, de que é étimo; e que a palavra pode ser usada no sentido de favorecimento de membros da família próxima. Mas continuo a achar significativo que seja a palavra para neto ou sobrinho a única que se pode usar para designar o favorecimento de pais, filhos e irmãos. (Como podem ver, a Wikipédia também tem boas páginas. Onde se arranjaria, noutra enciclopédia, uma página tão simples e completa como esta?)
[2] “Na tribo aché do Paraguai, as mulheres idosas escutavam aterrorizadas os passos dos jovens cuja tarefa era surpreendê-la e destroçar-lhes os miolos com um machado”, diz Judith Shulevitz no seu artigo “Why Do Grandmothers Exist?”, publicado no The New Republic, de 29 de Janeiro de 2013. Pierre Clastres explica que, quando eram muitos velhos e não podiam acompanhar o grupo, se procedia a um tipo de “eutanásia” aprovado pelo grupo. Curiosamente, só as mulheres idosas eram mortas diretamente “com uma machadada na cabeça quando não estavam a olhar” ‒ os homens eram apenas abandonados (Pierre Clastres citado por Kim Ronald Hill e Magdalena Hurtado em Aché Life History: The Ecology and Demography of a Foraging People, Transaction Publishers, 1996). É óbvio que os velhos foram frequentemente considerados um peso, sobretudo em sociedades nómadas e de menos abundância, mas o caso dos aché é excecional e certos estudiosos realçam que os idosos sempre tiveram um papel ativo importante. As idosas, sobretudo. Há quem afirme que, se quisermos ver as coisas numa perspetiva puramente evolutiva, é antes exatamente ao contrário que as devemos ver (e perdoem-me o eficaz e risonho abuso retórico que se segue): os mais velhos existem para ajudar as famílias, não para serem ajudados por elas. O artigo de Shulevitz que referi atrás é interessante, como interessantes devem ser os estudos que refere. A “hipótese da avó”, de Kirsten Hawkes “defende que as mulheres depois da idade reprodutiva ajudavam não só os filhos como também os filhos dos filhos [tomando conta deles] e prolongaram desta forma a duração da vida humana”. Se esta hipótese evolutiva é feminista, como Shulevitz afirma (porque vem reforçar o papel das mulheres na nossa história evolutiva, nomeadamente, porque “faz desaparecer do cenário o homem-o-caçador”, uma vez que deixam de ser as calorias “da carne trazida da caça” as principais responsáveis pelo desenvolvimento do nosso cérebro de grandes dimensões) ou se vem antes reforçar a ideia de que o papel da mulher é cuidar das crianças, eis algo que se pode discutir.

16/01/13

...e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.

Veio há pouco tempo parar-me às mãos um pequeno ensaio moral de Robert Louis Stevenson chamado A Christmas sermon (“Um sermão de Natal”), de 1888. O ensaio de Stevenson assenta numa ideia cristã de moral positiva:
Não somos condenados por fazer mal, mas sim por não fazer bem; Cristo recusava a moral negativa; deves foi sempre a sua palavra, que utilizou em vez de não deves. 
No âmbito de uma moral revelada, bastaria a sua origem divina para justificar a asserção de que é pela positiva que se devem definir as propostas morais – bastaria dizer que é assim, porque foi isso que Cristo disse. Mas Stevenson apresenta também para essa asserção uma justificação não propriamente moral, ao que consigo entender, mas antes de ordem psicológica:
Fazer a nossa ideia de moral centrar-se em atos proibidos é corromper a imaginação e introduzir no nosso julgamento do próximo um elemento secreto de prazer. Se uma coisa está para nós errada, não nos devemos demorar-nos na reflexão sobre ela, ou depressa acabaremos por refletir sobre ela com prazer invertido.
Deixem-me suspender um bocadinho o texto de Stevenson, para dar uma voltinha por questões que me levanta a moral positiva, em várias formulações. Uma das mais famosas é a formulação crística muitas vezes chamada a Regra de Ouro*:
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mateus 7:12)
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também. (Lucas 6:31) 
Duma forma talvez abusiva, chamo-lhe às vezes a ideologia da missão: se X é para mim a verdade (ideal epistémico), o bem (ideal moral) e a felicidade (ideal psíquico), que mais posso desejar senão dar aos outros X, que é o que eu desejaria, sendo como sou, que me fizessem a mim, se não fosse como sou?
Há muito que me parece (e a muitas outras pessoas) que fazer aos outros o que quero que me façam a mim é fundamentalmente errado, porque não sei se os outros querem que eu lhes faça o que eu quero que me façam a mim. Pode argumentar-se, é claro, que o verdadeiro problema não é querer alargar a todos uma crença ou um comportamento, mas sim a maneira como se o faz; que, sem assimetrias de poder e sem se impor nada, não há mal em que se proponha apenas aos outros o que se acha verdadeiro, bom e são. É certo. Mas a regra da moral positiva, pelo menos na sua versão mais comum, não é “propõe aos outros o que queres que te proponham a ti”, mas sim “faz aos outros o que queres que te façam a ti” e é aí que começam as minhas dúvidas sobre ela…
Evidentemente, e como foi já também muitas postulado, vezes posso aceitar que deva fazer aos outros o que quero que me façam a mim, se tiver indicação clara de que é isso que os outros querem que eu lhes faça, mas, nesse caso, o princípio moral em questão passa a ser um caso particular de outro princípio muito diferente de moral positiva: faz aos outros o que eles querem que tu lhes faças.
É uma regra muito melhor, porque desloca o eixo moral do mesmo para o outro: já não posso fazer ao outro o que eu gostava que me fizessem a mim, mas que o outro não quer que eu lhe faça. Mas não faz desaparecer todos os problemas: uma moral cujo eixo é o querer, seja ele o meu (do agente) ou o do outro (do alvo da ação), continua a ser uma moral em que falta à ação uma causa válida (que alguém queira alguma coisa tem pouco valor ético) e que é, por definição, indiscutível, no sentido primeiro da palavra – porque… como se discute um querer? Uma proposta moral sólida deve assentar, na minha opinião, em algo mais fundamental e mais comunicável que o querer.
Mas voltemos a Stevenson. Uma ideia central no sermão é que devemos deixar-nos de moralismos, como ele diz; que não devemos fazer do mal que os outros fazem o centro das nossas preocupações:
Há uma ideia espalhada entre pessoas morais de que devem tornar os outros bons. Há uma pessoa que devo tornar boa: eu próprio. Mas o meu dever para com o meu próximo é expresso de forma mais adequada se disser que tenho de o tornar feliz – se conseguir.
Se a moral positiva de Stevenson fosse “fazer aos outros o que queremos que eles nos façam a nós”, ficaríamos a saber que ele não queria, obviamente, que fizessem dele um homem bom, mas antes que fizessem dele um homem feliz – pois que é isso que acha que se deve fazer aos outros. A moral de Stevenson, porém, não tem muito a ver com o princípio discutido acima – é uma moral positiva, porque não se centra na interdição e sim no dever de agir; mas não é relativa, porque este dever não depende da vontade de cada um, nem de nenhum outro critério relativo: é o dever absoluto de fazer os outros felizes. No fundo, creio entender, sob a forma nem sempre muito transparente do ensaio, que, embora não lhe chame assim e pareça até desvalorizar a ideia de virtude, é uma ética da virtude que Stevenson propõe, mas uma virtude não “moralista”, a virtude de uma alegre bonomia:
Gentileza e alegria vêm antes de qualquer moral; são os deveres perfeitos.
Não me parece que seja suficiente, como proposta moral, mas porque não?

***
Outra lei moral de base que também me veio parar às mãos recentemente, e que considero mais correta, é a que é proposta na novela Gente e gatunos de Vila Cardamomo (Folk og røvere i Kardemommeby, 1955), um clássico infantil do norueguês Thorbjørn Egner. A única lei de Vila Cardamomo é a seguinte:
Não se deve incomodar os outros,
deve ser-se bom e amável
e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.
A “lei de Cardamomo” é apresentada numa canção que vos deixo aqui, no norueguês original. Na minha opinião, ganharia bastante, do ponto de vista ético, com a supressão do segundo verso. Mas isso estragava a canção toda...


(Para uma formulação esteticamente interessante de um princípio geral e absoluto de moral negativa, ver uma das primeiras páginas desta Travessa.)
_______________________________

* Uma formação curiosa é que se atribui ao químico e bioquímico Linus Carl Pauling (segundo a Wikipédia, numa palestra no Monterey Peninsula College, na Califórnia, por volta de 1961, mas não é citada fonte para essa informação…):
Tenho uma coisa a que chamo a minha Regra de Ouro. É mais ou menos assim: “Faz aos outro 25% melhor do que esperas que eles te façam”… Os 25% são para a margem de erro.
Por divertida que seja a formulação, se aceitarmos as críticas feitas a este princípio moral, ela só vem tornar a regra… 25% mais criticável!

12/01/13

Da escrita como menorização de si próprio

Numa entrevista dada em 1987 a Leopoldina Pallota della Torre, Marguerite Duras responde à jornalista de La Stampa de uma forma que me surpreendeu*:
[L. P. Torre:] Escrever para exorcizar fantasmas? Defende a dimensão terapêutica da escrita.
 [M. Duras:] Escrevo para me vulgarizar, para me massacrar, e depois para me tirar importância a mim mesma, para me aliviar: que tome o texto o meu lugar, de maneira que eu exista menos. Só consigo libertar-me de mim própria em dois casos: pela ideia do suicídio e pela ideia de escrever.
As palavras de Marguerite Duras fizeram-me lembrar outras de Alexandre O’Neill. O que O’Neill diz da forma como encara a escrita é completamente diferente, mas acho que compreenderão a relação que fiz: liga os dois textos a ideia da escrita como forma de se desimportantizar (o termo é o’neilliano):
Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar – aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros.**
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* "La confession secrète de Duras", Le Nouvel observateur online, 20-12-2012, traduzo eu do francês, algumas palavras sem muita convicção, de ambíguas que são... O texto francês é um excerto de Marguerite Duras, La Passion suspendue, entretiens avec Leopoldina Pallotta della Torre, Paris: Seuil, 2013.
** Tenho este texto, dito pelo autor, gravado numa cassete, imaginem vocês… Foi publicado num disco que acompanhava a primeira edição de Entre a Cortina e a Vidraça, em 1972.

11/01/13

Fazer um bom refrão tem muita arte [Adaptado de um blogue apagado #4]

Pois é: refrães há muitos, mas de quantos é que se pode dizer “benza-te Deus”? Bom, não quero apresentar-vos aqui uma Teoria Geral do Refrão, nem uma História do Estribilho da Idade Média aos Nossos Dias, nem sequer propor-vos uma Arte e Preceito de Fazer Refrães com Jeito, mas vou falar de uns quantos refrães, sem mais.

Tinha um amigo que não se cansava de repetir, nos tempos (como se diz em Moçambique), que “Loser”, de Beck [Hansen] era o melhor refrão que alguma fez tinha existido na música pop. Era um amigo que de música sabe muito mais do que eu e não tenho razão nenhuma para duvidar dele, mas não é bem do refrão do “Loser” que eu tinha pensado falar aqui, por muito que, de facto, seja um refrão engraçado. (E se não queria falar dele aqui, porque falei então? Hmmm…)

Eu acho que o sonho de qualquer letrista pop é fazer um refrão como o de uma cantiga que Stan Kesler e Bill Taylor fizeram para um colega deles da Sun Records. Eu pelo menos, era um refrão que gostava de ter feito (se bem que não seja exactamente um refrão, mas isso...):
Well, you're right
I'm left
She's gone
You're right
And I'm left
All alone…
Um outro grande refrão é o de “La non-demande en mariage” de Georges Brassens. Brassens fez uma avaria semelhante no refrão de “La mauvaise reputation” (“Non, les braves gens n’aiment pas que / l’on suive un autre chemin qu’eux”), mas em “La non-demande en mariage” vai ainda mais longe:
J'ai l'honneur de
Ne pas te de-
mander ta main
Ne gravons pas
Nos noms au bas
D'un parchemin
Mas, mais uma vez, o que eu gostava de ter escrito uma coisa assim!... Ou o refrão de “Nemesis”, dos Shriekback, por exemplo:
Priests and cannibals
Prehistoric animals
Everybody happy as the dead come home
Big black nemesis
Parthenogenesis
No one move a muscle as the dead come home
Usar palavras como nemesis e parthenogenesis num refrão é, acho eu, ainda mais difícil do que usar as palavras efetivamente, imponentes, equívocas e aparentemente, como fez Rui Reininho noutro refrão e também com bons resultados (lembram-se?).

Mas enfim, para terminar (em fim para terminar?), o melhor refrão que eu conheço é o de
“Saucisson de cheval n°1”, de Boby Lapointe. O refrão é
Huuuuuuuuu
com 9 uu! Aliás, para não restarem dúvidas de que é esse mesmo o refrão, ele explica:
Huuuuuuuuu... C'est le refrain (…) Le refain c'est toujours Huuuuuuuu... (…) Bééééééé... Non... Huuuuuuuu


Pronto.


10/01/13

Louvor da novela de aventuras

[Texto encontrado numa caixa no sótão do meu computador. É assim, em momentos de preguiça ou falta de inspiração: vou buscar textos já velhos e zás, pespego aqui com eles. Este é um prefácio a uma novela que eu espero que nunca venha a ser publicada. Lembrei-me dele ao ler o artigo da Wikipédia sobre Robert Louis Stevenson. Dizia, a certo passo, que "[Robert Louis Stevenson] foi elogiado por Roger Lancelyn Green (...) como escritor que manteve sempre um nível elevado de "capacidade literária ou absoluto poder imaginativo" e co-fundador, com H. Rider Haggard, da Era dos Contadores de Histórias (Age of the Story Tellers)", mas a expressão Age of the Story Tellers tinha um link para uma página ainda por criar. "Incrível!", indignei-me eu.]
Na segunda metade do século dezanove, foi escrito e publicado um sem-número de aventuras maravilhosas passadas nas selvas obscuras da África, nos ofuscantes desertos das Arábias, nas intermináveis rotas da Ásia ou nos mares sem lei das sete partidas do mundo. Falo de histórias que nunca chegaram a passar de moda e que, por muito que se destinassem, muitas vezes, sobretudo aos jovens europeus do sexo masculino, têm servido para divertir (e educar, dirão alguns) gente dos dois sexos e de todas as idades, culturas e qualidades.
Evidentemente, a novela de aventuras não foi inventada nessa época, mas foi nessa época que ela atingiu a sua máxima perfeição e, sobretudo, a sua máxima capacidade de gerar mitos. São, ainda hoje, as românticas personagens desses livros que servem de modelo a uma parte grande do nosso imaginário e são ainda as suas aventuras que servem de base a muita da mitologia moderna. Para vos dar de exemplo os últimos trinta anos do século de mil e oitocentos, os mais dourados anos da história da aventura literária, posso recordar que (e que me perdoem todos os Fenimore Coopers, todas as Mary Shelleys, todos os Alexandre Dumas e todos os Herman Melvilles do planeta tê-los deixado para trás): em 1872 foi publicada pela primeira vez, no jornal Le Temps, a aventura que condensa todas as aventuras imagináveis naquele tempo do mundo, A volta ao mundo em oitenta dias, desse Jules Verne que tinha já, nos oito anos anteriores, inventado a moderna ficção científica com as suas viagens ao centro da Terra, à Lua, e às profundezas dos mares; que a matriz de todas as histórias de piratas e de todas as caças ao tesouro, A ilha do tesouro, essa obra-prima de Robert Louis Stevenson, foi publicada em 1883, três anos antes de Stevenson publicar O estranho caso de Dr. Jekyll e  Mr. Hyde, outro romance fundador que nunca mais parou de gerar variações suas; que, em 1985, Henry Rider Haggard publicou As minas do rei Salomão, o mais duradouro padrão da autêntica aventura, sem o qual não teria nunca vindo a existir nenhum Tintin nem nenhum Indiana Jones; que, em 1987, o génio de Bram Stoker deu a conhecer ao mundo, numa novela brilhante de terror, suspense e simbolismo profundo, o conde Drácula e a sua corte de vampiros, e inaugurou assim um dos mais profícuos mitos modernos; e que, em 1901, Rudyard Kipling, que 7 anos antes tinha apresentado ao público o primeiro Tarzan da história, a personagem Mowgli do seu Livro da selva, nos contou as maravilhosas aventuras do endiabrado órfão vagabundo Kim, deambulando pela mágica Índia na companhia de um monge tibetano.
E estavam assim inventadas todas as aventuras que conhecemos. A partir daí, pouco mais se fez, no domínio da aventura, do que variar um pouco à volta dos temas, das tramas e das personagens destes mestres, quando não se os plagiou descaradamente, sem nunca chegar, nem de longe, ao seu brilhantismo.

01/01/13

…por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido… E bom ano novo! [Crónicas de Svendborg #14]

Há coisas que se comunicam facilmente e outras que são completamente incomunicáveis. No meio, há coisas que se comunicam umas melhor que outras… Queria falar-vos do prazer de um longo passeio de bicicleta nesta ilha de Tåsinge, num dia frio de Janeiro, o primeiro de 2013, mas é coisa que duvido que saiba comunicar. Nem que soubesse fazer descrições rigorosíssimas, nem que soubesse tirar fotografias… Por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido. Bom, mas serve para desejar às leitoras e aos leitores desta Travessa... um bom ano de 2013. Para isso, sim.





25/12/12

Socas, integração cultural e o ideal conservador [Crónicas de Svendborg #13]

Ao contrário do que muita gente pensa, a integração noutra cultura começa de cima para baixo, da cabeça para os pés: as primeiras coisas que se adotam são palavras, conceitos, ideias; e as últimas são os sapatos. Quantas vezes não vi (por exemplo!) gente do Sul da Europa que, nos países do Norte, ao fim de lá viver dezenas de anos, ainda continua a usar daqueles corriqueiros mocassins a que o filho de uma amiga minha, nado e criado em Roterdão, chamava “sapatos à turco”, quando vinha nas férias a Portugal. Não são mocassins desses que uso, não é isso, mas onde quero chegar é que agora que tenho, finalmente, as minhas socas, posso considerar-me integrado na cultura dinamarquesa.
 
_______________
[Nota 1: É mentira I] Não é verdade, já tive outras socas antes destas. Mas era uma maneira de compor o texto, se é que me faço entender, apresentar as coisas destas maneira…
[Nota 2: É mentira II] As socas não são um tipo de calçado especialmente dinamarquês. Como os barretes, as gaitas de foles e os torresmos, as socas são comuns a toda a Europa – e talvez também a outras partes do mundo… Agora, dos países que conheço, a Dinamarca é aquele em que se usam mais no dia-a-dia. Ainda hoje, por exemplo, quando entrámos na taberna local, aí por esse meio-dia, dos 5 homens sentados ao balcão em frente à sua cerveja de Natal, 4 usavam socas.
[Nota 3: A utopia conservadora] Deixem-me contar-lhes, a propósito, que, quando íamos pagar, o dono do estabelecimento explicou que não tínhamos de pagar nada, que o café e a cerveja eram por conta da casa, porque hoje era dia de Natal. É simpático, não é verdade? É simpático como o cordial “Feliz Natal!” que toda a gente diz a toda a gente que cruza na rua, aqui na aldeia. É este tipo de gestos e práticas que o imaginário e a ideologia dos conservadores elevam a ideal – o encanto da vida comunitária “de outrora”, que consideram ameaçado ou destruído pelo progresso e que propõem que se conserve ou se refaça. Mas esquecem sistematicamente o lado disfórico da medalha, que é incomparavelmente maior e tem mais de sombrio que de radioso têm as tradições idealizáveis: o outrora era (o outrora ainda é, tantas vezes…) miséria, trabalho, trabalho, trabalho, ignorância e superstição, desconforto e doença, maus tratos, violência, violências, e infindáveis etecéteras…

22/12/12

Um vazio

Já não vamos a Portugal desde junho de 2010. Havemos de lá ir agora no verão, não sei ainda exatamente quando. Vai ser bom – é sempre bom – rever a família e os amigos. (E comer peixe.) Há 15 anos que não vivo em Portugal. Há hábitos e posturas que já estranho, e muitas rotinas novas que conheço mal – mas é claro que nunca me sinto, nunca me hei de sentir, forasteiro.
Portugal, disse-o muitas vezes nesta última década, foi um país que vi de facto mudar. Desenvolver-se realmente. É mais fácil notar desenvolvimento quando lá se vai de vez em quando que quando lá se vive todos os dias, creio eu. Mas é também muito fácil deixar-se enganar por impressões, dir-me-ão. É certo. Neste caso, porém, parece que as minhas impressões, quando cotejadas com os valores de vários indicadores de desenvolvimento, tanto económicos como sociais, não eram enganosas por aí além – Portugal desenvolveu-se mesmo muito desde que eu de lá saí. É certo que não se desenvolveu, nalguns aspetos, tanto como eu gostaria que se tivesse desenvolvido, ou tanto como poderia ter-se desenvolvido. Mas desenvolveu-se muito. Agora, a destruição enraivada do Estado social vai dar cabo de tudo, a pretexto da diz-que-necessária austeridade (a afinal mais-que-comprovadamente-inútil-para-os propósitos-que-dizem-que-serve, a calamitosa, perversa austeridade…): do desenvolvimento que se deu nos 15 anos em que vivi fora do país e do desenvolvimento que se deu antes.
Vamos no verão a Portugal para rever – é sempre bom – familiares e os amigos. Desses familiares e amigos, há uns quantos (dois dos meus irmãos, por exemplo) que entretanto saíram do país, porque não sabiam como ficar. Outros, se não encontrarem emprego até ao verão, hão de lá estar ainda, mas desempregados. Muitos, todos, creio eu, hão de estar tensos, revoltados. Hão de dizer-me que tu não sabes, Vítor, como é que isto anda por cá e o que é ter um governo assim, mas eu sei, posso não o sentir na pele, mas sei, então porque não havia de saber?
Vou contar-vos uma espécie de visão. É um exagero, dir-me-ão, e eu sei que é, mas a gente não manda no nosso inconsciente, pois não? Uma noite destas, não num sonho propriamente dito, mas naquele estado vago meio sonho, quase quase a adormecer, veio-me ao espírito uma imagem horrível, não sei se foi algum boneco que vi no Facebook ou o que foi: que, se continuar a este ritmo a destruição do país, quando lá chegarmos no verão, está lá só um vazio, um bocado de coisa nenhuma, no sítio onde havia Portugal… 


Jozef Israëls, Filhos do mar, 1872, Museu Nacional, Amesterdão
      

21/12/12

Desculpem lá! [Crónicas de Svendborg #12]

Apanhei o autocarro das 9:04 para Svendborg, para ir ao dentista. A viagem demora cerca de 20 minutos e custa 22 coroas (3 euros). O autocarro nunca tem muitos passageiros. São, na maior parte, reformados, que vivem aqui na zona (há aqui muitas “casas protegidas”, como lhes chamam, para idosos) e que vão a Svendborg dar uma voltinha.
O autocarro tem também um ecrã, que dá anúncios e notícias. A notícia que repetiram hoje durante toda a viagem, para lá e para cá, era esta, que traduzo e resumo:
Numa crónica no jornal Politiken, o diretor  do Danske Bank [o maior banco dinamarquês] assume a parte de responsabilidade que cabe ao seu banco na crise financeira:
«Nos anos de euforia que precederam crise, quando tudo avançava muito depressa, a maior parte dos bancos ficou cega com a velocidade. O Danske Bank também.»
E pede desculpa por o banco ter vendido produtos financeiros que só muito poucos clientes e empregados do banco compreendiam. Além disso, reconhece muitos investimentos falhados e refere em especial as incursões altamente deficitárias no mercado irlandês.
“Para correspondermos às expectativas de crescimento dos mercados e dos investidores, e para nos proporcionarmos a nós próprio e aos nossos clientes lucros a curto prazo, perdemos em certa medida a perspetiva dos valores a longo prazo. Reconhecemos isso e lamentamo-lo.»
«É um pedido de desculpas?», perguntou-lhe mais tarde um jornalista.
«Sim, pode considerar-se um pedido de desculpas.»
Foi esta a notícia que vi muitas vezes no autocarro para Svendborg. Estava frio, hoje, perto dos zeros graus, mas o autocarro está sempre quentinho, agradável.  

20/12/12

Imagens fortes do voluntarismo extremo: Corto Maltese, os Maias e Zenão de Bruges

A mãe de Corto Maltese, a célebre cigana Niña de Gibraltar, disse um dia ao filho que devia ter cuidado, porque não lhe via na mão a linha da sorte. Corto Maltese riu-se, foi buscar uma navalha e talhou uma longa e profunda linha da sorte na mão esquerda: “Não te preocupes, Nina”, disse ele à mãe, “a minha sorte sou eu que a faço”!
A história é justamente famosa[1], na minha opinião – o gesto de Corto Maltese é uma metáfora bem achada da vontade de tomar em mãos a sua vida. Agora, mesmo com muita garra e navalhas afiadas, nunca é muito, quanto mais total, o controlo que se tem da própria vida… De facto, parece-me tão insensato acreditar num destino inalterável como acreditar que a vida de cada pessoa será aquilo que ela dela quiser fazer. E, se da passividade que resulta do fatalismo não vem nenhum bem ao mundo, também a crença oposta pode ser perigosa, porque pode facilmente levar a considerar a vontade e as ambições dos outros um obstáculo apenas que há que vencer para concretizar a sua própria vontade e as suas próprias ambições. Apesar disso, este voluntarismo extremo, como lhe chamo, é uma atitude que muitas vezes me fascina…
Quando era rapaz jovem, li, como toda a gente, alguns livros da coleção Enigmas de todos os tempos, da editora Bertrand, uma série de livros sobre ciências e teorias alternativas, ocultismo, parapsicologia e afins, a que muitas vezes se chamava “livros de capa preta”. A popularidade do calendário maia fez-me agora recordar um deles, Descobertas na terra dos maias, de Pierre Ivanoff[2], e a sua tese sobre o fim da civilização maia:
O etnólogo Pierre Ivanoff estudou o povo Lacandon e que foi um dos primeiros forasteiros a chegar ao que é hoje o sítio arqueológico Dos Pilas, na Guatemala. A explicação de Ivanoff para o mistério do chamado colapso do período clássico maia[3] não é política, nem ecológica nem demográfica – segundo ele, os sacerdotes teriam anunciado, com base na estrutura cíclica do seu calendário, o fim próximo da civilização dos hach winik, “os verdadeiros homens” (os maias, leia-se). Abandonando as cidades, as populações das cidades maias confirmam a verdade das profecias – ou, se se preferir, tornam-nas realidade!
Pode não ter grande interesse como teoria histórica, mas é uma ideia fascinante. Uma grande ideia para um romance ou um filme, por exemplo. No fundo, nem sequer é uma ideia fantástica, quando a transpomos do plano de um povo inteiro para o plano de uma seita religiosa ou de um indivíduo: de forma ainda mais dramática, mais violenta, é o que aconteceu a todos os fanáticos crentes de teorias milenaristas que, chegados ao dia em que o mundo devia acabar, se suicidaram, confirmando assim a profecia – é que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?
O suicídio não é sempre, é claro, uma tentativa radical de controlo do destino. (É muitas vezes, sei lá, um acidente provocado por um gesto impulsivo; uma elementar desistência; um apelo, um grito, uma maneira bruta de se fazer ouvir; ou uma forma desajeitada de resolver um problema qualquer.) Mas pode às vezes sê-lo, não é? Lembro-me de que foi assim que interpretei, quando li há muitos anos L'Œuvre au noir, de Marguerite Yourcenar[4], o suicídio de Zénon Ligre, a personagem principal do romance: Para um prisioneiro condenado à morte por se recusar a renegar aquilo em que crê, a morte talvez seja, como vi alguns defenderem, a libertação possível e o recuperar da dignidade. Mas que esse prisioneiro decida a sua própria morte no dia anterior àquele em que vai ser executado é mais que isso, é assumir de repente controlo de tudo, é deixar claro, mesmo antes de o mundo acabar (que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?), que é ele que vence, que o mundo acaba porque ele quer, quando ele quer.
__________
[1] Agradeço esclarecimentos sobre a autoria da cena: não consigo descobrir se é do criador de Corto Maltese, Hugo Pratt, ou se foi criada por Alberto Ongaro, num prefácio a uma das aventuras do célebre marinheiro.
[2] Amadora: Bertrand, 1968, tradução de Découvertes chez les Mayas, Paris: Robert Laffont,1968
[3] O colapso das cidades do segundo período maia dá-se num período curto na segunda metade do século VIII. Nem toda a gente, porém, concorda com esta ideia de colapso da civilização maia, porque, ao mesmo tempo, surgem novos centros de cultura urbana maia noutros lugares. 
[4] Paris: Gallimard, 1968

26/11/12

Tradução: quando não há palavra, porque não há coisa

À primeira vista, pode parecer pateta não traduzir entrecôte ou rib eye steak – para quê usar palavras estrangeiras quando temos palavras portuguesas para referir uma coisa? Temos? Temos, com certeza!, porque havia de se deixar sem nome, em português, uma parte da carne?
Bom, acho que, normalmente, se chama em português europeu bife da vazia ao que se chama entrecôte em francês e rib eye steak em inglês: um bife da parte do lombo do bovino que, no português do Brasil, se chama capa de filé e, no Reino Unido se chama fore rib. Mas nem sempre… Não há, sobretudo, correspondência biunívoca entre vazia e entrecôte, enquanto termos para designar cortes de carne, e entre cada um destes termos e rib. Segundo a maior parte do que vi sobre o assunto, a vazia cobre a entrecôte (ou uma parte dela…), mas é muito maior. E rib também: designa a entrecôte, mas também a côte, que em português é acém. Já agora, para complicar: parece que o acém designa, além da côte, o que se chama veine grasse e, segundo alguns dicionários, a entrecôte (ou parte dela, pelo menos). Pois, porque há quem diga que é acém que se chama à entrecôte e não vazia… Não é fácil perceber onde acaba a vazia e começa o acém. Nem sempre condizem as designações, é um pouco confuso…
O problema não é linguístico em sentido estrito. As tradições de corte de carne são diferentes nos vários países e, por isso, as pessoas desses países usam palavras que referem partes diferentes do animal. De facto, não é só de uma língua para a outra que os nomes dos cortes de carne são difíceis de traduzir, mas podem sê-lo também de uma para outra variante da mesma língua: encontrei informação de que a palavra francesa entrecôte não designa a mesma parte da carne na tradição de corte francesa e belga, por exemplo. Da mesma forma, rib designa uma parte maior da carne do bovino nos EUA que no Reino Unido. A julgar pela informação contraditória que encontro sobre onde começa e acaba o acém ou a veine grasse, não me admirava nada que as designações de uma mesma parte da carne variassem também dentro do mesmo país. Se calhar, até de cortador para cortador. (Hmm, devo estar a exagerar…)
Como fazer então, quando se tem de traduzir « Une entrecôte maître d’hôtel bleue à la six, et que ça saute! »? Pois… «Sai um bife da vazia – ou do acém, acho que se pode escolher, conforme o bife que se tenha em mente – com manteiga de alho e salsa, e mesmo muito, muito mal passado para a mesa seis! E rápido!» Hmmm… Ok, pronto!
Quem fala de cortes de carne pode também falar de estabelecimentos onde se vendem bebidas alcoólicas. Alguém criticava, no outro dia, usar-se pub num texto em português, quando há, na nossa língua, tantas palavras para designar um estabelecimento desse tipo. É uma crítica justa: também acho que quem escreve em português não se deve limitar a aceitar, assim sem mais, todas as palavras estrangeiras que lhe apareçam à frente. A tradução de termos destes, porém, muitas vezes não é tão fácil como parece – porque, mais uma vez, é o próprio conceito expresso pela palavra na língua de origem que não existe no país ou nos países onde se fala a língua-alvo. É possível traduzir o inglês pub por taberna ou tasca, como já vi propor. Mas nem sempre fica bem. Funciona se a frase for do tipo «passava a vida na tasca com os amigos» ou «bebeu uma cerveja a correr na primeira taberna que encontrou», mas soa muito estranho em frases como «encontraram-se numa tasca vitoriana chamada A rosa e a coroa» ou «entrou na taberna, foi buscar ao balcão uma pinta de cerveja preta e um pacote de torresmos e foi refastelar-se numa das poltronas de veludo acastanhado».  
Saudades, toda a gente as tem, das pessoas e dos lugares de que gosta e de que está longe; e não há língua nenhuma em que não haja uma expressão simples para as dizer. Agora, acém e faux-filet, essas é que são as verdadeiras dificuldades culturais da tradução.

[Adenda a 19 de junho de 2015, revista a 23 de fevereiro de 2024]
Bacon é outro bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?
Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.
Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (como o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário…
Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

25/11/12

Uma, duas, várias surpresas

Confesso: às vezes, escrevo para causar surpresa. Há, aliás, alguns textos neste blogue que têm sobretudo esse propósito. Não falo do estranhamento dos literatos, não é nada assim tão complicado – é só surpresa, no sentido mais normal da palavra:«Que esquisito!...»

Não faço nenhum culto da surpresa, notem. Não vejo o causar surpresa como função importante da escrita – embora ache que faz sempre bem ser surpreendido. Gosto apenas de tentar surpreender, sem mais. E gosto de ser surpreendido. Deixem-me apresentar-vos uma coisa que espero que vos surpreenda como me surpreendeu a mim:

Benjamin K. Tippett, do Departamento de Matemática e Estatística da Universidade do New Brunswick, publicou um trabalho de física chamado Possíveis Bolhas de Curvatura Espácio-Temporal no Pacífico Sul (Possible Bubbles of Spacetime Curvature in the South Pacific), em que defende, explica ele no resumo, que «todos os fenómenos credíveis que [Gustaf] Johansen descreveu podem ser explicados como sendo as consequências observáveis de uma bolha localizada de curvatura espácio-temporal». «Pode, pois, dizer-se», continua Tippett, «que muitas das suas mais incompreensíveis afirmações (relativas à geometria da arquitetura, e variabilidade do localização do horizonte) têm uma mesma causa subjacente. Propomos um exemplo simplificado dessa geometria e mostramos, usando cálculos numéricos, que as descrições de Johansen não eram, na maior parte, apenas delírio de um lunático. São antes as observações não técnicas de um homem inteligente que não sabia como havia de descrever o que via».
 
Gustaf Johansen? Mas quem é Gustaf Johansen? De que se está aqui a falar? Pois bem, a surpresa de que falo não é a possibilidade de haver bolhas de curvatura espácio-temporal no Pacífico Sul, seja lá o que for que isso quer dizer. A surpresa de que falo é, na realidade, uma surpresa feita de várias surpresas. A primeira é esta: Gustaf Johansen é uma personagem de um conto célebre de Howard Phillips Lovecraft, “The Call of Cthulhu”; mas Tippett não refere no estudo que é de personagens e acontecimentos ficcionais que se trata:
Em 1928, o falecido Francis Wayland Thurston publicou um manuscrito escandaloso que visa alertar o mundo para uma conspiração global de ocultistas. Entre os documentos que reuniu para apoiar a sua tese, encontrava-se o relato pessoal de um marinheiro de nome Gustaf Johansen, descrevendo a descoberta de uma ilha extraordinária. As descrições de Johansen das suas aventuras na ilha são fantásticas e são muitas vezes consideradas as mais enigmáticas (e, por isso mesmo, a parte mais interessante) da coleção de documentos de Thurston.
A referência bibliográfica de Tippett é à obra ficcional de Thurston (F.W. Thurston. The call of cthulhu. Wrd. Tls., Feb. 1928), não à de Lovecraft, embora seja efetivamente uma referência mista, pois Wrd Tls refere obviamente, a revista Weird Tales onde foi publicado o conto de Lovecraft em Fevereiro de 1928.
Deixem-me só esclarecer, antes de continuar, que eu de matemática e de física não percebo nada. Não sei julgar se o estudo de Tippett é trabalho sério ou puro delírio. Aliás, nem o li – não valia a pena, para quê? Mas, mesmo sem saber nada de matemática e de física, posso pensar o seguinte: Que importa quem é de facto o autor das descrições analisadas, se Lovecraft, se as suas personagens? O que conta é o texto, que é o objeto de estudo, independentemente de quem o tenha escrito. Até se escusava a referência a um autor, ficcional ou não. Posso pensar isso e nem me parece mal pensado. Mas há uma segunda surpresa no estudo de Tippett. Como agente de surpresa, pelo menos, não há dúvida de que é trabalho muito sério:    
Parece-nos improvável que Johansen tivesse feito por acaso uma descrição exata das consequência da curvatura do espaço-tempo, se os pormenores desta história não passassem de resquícios de um sonho febril meio recordado.
Estão a ver? Mas então, na vossa opinião, que probabilidade tem Lovecraft de ter escrito uma coisa assim com base apenas na sua fértil imaginação, hem? Mas então… Mas então ?!?!
Surpreende-vos, tudo isto? Espero que sim. E digam-me, se souberem, que eu não percebo nada disto: as curvaturas espácio-temporais têm alguma coisa a ver com o que se segue?


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