31/05/24

Línguas românicas vivas

 

Um dia, farto que estava de ouvir dizer que as línguas latinas são o francês, o português, o espanhol, o italiano e o romeno, decidi fazer uma pequena lista das línguas latinas. Evidentemente, isto é, com rigor, uma tarefa impossível, já que não há maneira de distinguir línguas de dialetos e os linguistas não estão de acordo sobre que variantes linguísticas do espaço neolatino se devem considerar ou não variantes dialetais de outra língua ou uma língua de pleno direito. Tive de fazer algumas escolhas e nem todos concordarão com as escolhas que fiz. Agradeço críticas e sugestões para melhorar o artigo.

Depois de cada língua, ponho o seu código internacional ISO 639-3 entre parênteses curvos. Depois, a sua situação de vulnerabilidade, de acordo com o UNESCO: NA para «não ameaçada«, VU para «vulnerável», PE para «em perigo» PG para «em perigo grave». Indico entre parênteses retos os países onde são falados e onde são (muitas vezes só na região onde são faladas) oficiais ou cooficiais (O) ou línguas de minorias com alguma forma de reconhecimento oficial (R). Dou por fim o número aproximado de falantes nativos e é com base nessa variante que a lista está organizada, das línguas com mais falantes nativos para as línguas com menos falantes nativos. Só incluo línguas com mais de 10.000 falantes nativos. Este número é perfeitamente arbitrário. Os dados sobre o nome de falantes provêm de fontes diversas e alguns são mais antigos do que outros, de maneira que há que desconfiar um pouco de muitos deles, que são hoje provavelmente mais baixos do que os que indico. É de notar que algumas línguas, como o espanhol, têm um grande número de falantes não nativos e há até casos, como o do catalão, em que o número de falantes como língua segunda, é, segundo algumas fontes, apresentado como sendo superior ao do de falantes nativos. No caso do estremenho, do ladino/judeu-espanhol e da fala estremenha, não consegui encontrar o grau de vulnerabilidade definido pelo UNESCO.

Nos nomes das línguas, há links para um vídeo falado nessa língua, para que quem não as conheça possa ouvir como soam (exceto nas quatro primeiras, que todos conhecem). Muitos destes vídeos são do projeto Wikitongues, que pretende precisamente criar documentação acessível de línguas minoritárias e contribuir para a sua preservação. Nalguns casos, nota-se claramente uma influência da língua oficial do país (espanhol francês, italiano, português) no discurso na língua minoritária. Como falantes do português, é-nos fácil notar isso no vídeo em mirandês. Mas também no vídeo em picardo, por exemplo, é fácil notar a influência do francês. O «verdadeiro» picardo é, ao que parece, raro hoje em dia e o ch'ti atual está muito contaminado pelo francês. É natural, dado que as línguas oficiais são as línguas de escolarização, da rádio e da televisão, das instituições públicas, etc. 

A questão da classificação dos crioulos de base espanhola, francesa ou portuguesa como línguas neolatinas é complicada e não sei praticamente nada sobre ela. Não os incluo nesta lista.

Castelhano ou Espanhol (spa) NA [Argentina (O), Bolívia (O), Chile (O), Colômbia (O), Costa Rica (O), Cuba (O), El Salvador (O), Equador (O), Espanha (O), Guatemala (O), Guiné Equatorial (O), Honduras (O), México (O), Nicarágua (O), Panamá (O), Paraguai (O), Peru (O), Porto Rico (O), República Árabe Saaraui Democrática (O), República Dominicana (O), Uruguai (O) e Venezuela (O)] 500.000.000 falantes nativos

Português (por) NA Angola (O), Brasil (O), Cabo Verde (O), China (O), Guiné-Bissau (O), Guiné Equatorial (O), Moçambique (O), Portugal (O), São Tomé e Príncipe (O), Timor-Leste (O) 230.000.000 falantes nativos

Francês (fra) NA [Bélgica (O), Benim (O), Burundi (O), Camarões (O), Canadá (O), Chade (O), Comores (O), Congo (O), Costa do Marfim (O), Djibuti (O), EUA (R), França (O), Gabão (O), Guiné (O), Guiné Equatorial (O), Haiti (O), Índia (O), Itália (O), Líbano (R), Luxemburgo (O), Madagáscar (O), Maurícia (R), Mónaco (O), Níger (O), República Centro-Africana (O), República Democrática do Congo (O), Ruanda (O), Senegal (O), Seicheles (O), Suíça (O), Togo (O), Vanuatu (O) (oficial não de jure mas de facto na Argélia, Mauritânia, Mali, Marrocos e Tunísia)] 74.000.000 falantes nativos

Italiano (ita) NA [Bósnia-Herzegovina (R), Croácia (O), Eritreia (R), Eslovénia (O), Itália (O), Roménia (R), São Marino (O), Suíça (O), Vaticano (O)] 65.000.000 falantes nativos

Romeno (nalguns países conhecido como Moldavo) (ron) NA [Hungria (R), Moldova (O), Roménia (O), Sérvia (O), Ucrânia (R)] 25.000.000 falantes nativos

Napolitano (nap) VU [Itália] 5.700.000 falantes nativos

Siciliano (scn) VU [Itália (R)] 4.700.000 falantes nativos

Catalão (também conhecido nalgumas regiões como Valenciano, Maiorquino, Menorquino, etc.) (cat) VU [Andorra (O), França (M), Itália (O), Espanha (O)] 4.100.000 falantes nativos (e mais de 5 milhões como L2)

Véneto (também chamado Taliano no Brasil e Chipileño no México) (vec) VU [Brasil (R), Itália (R), Mexico (R)] 3.900.000 falantes nativos

Lombardo (lmo) PE [Itália, Suíça] 3.800.000 falantes nativos

Galego (glg) PE [Espanha (O)] 2.400.000 falantes nativos

Piemontês (pms) PE [Itália (R)] 2.000.000 falantes nativos

Emiliano (egl) PE [Itália (R)] 1.300.000 falantes nativos

Sardo (srd) PE [Itália (R)] 1.000.000 falantes nativos (2010 -2016)

Picardo (também conhecido como Ch'timi ou Ch'ti) (pcd) PG [Bélgica (R), França] 700.000 falantes nativos

Lígure (chamado Monegasco no Mónaco) (lij) PE Itália (O), Mónaco (O) 600.000 falantes nativos

Romanholo (rgn) PE [Itália, San Marino] 430.000 falantes nativos

Friulano(fur) PE [Itália] 420.000 falantes nativos

Asturo-Leonês (ast) PE [Espanha (R)] 250.000 falantes nativos

Arromeno (também conhecido como Vlach ou Mácedo-Romeno) (rup) PE [Albânia (R), Bulgária, Grécia, Macedónia do Norte (R), Roménia e Sérvia] 210.000 falantes nativos

Occitano (também chamado Provençal em França e Aranês em Espanha) (oci) PE [Espanha (O), França (R), Itália (R), Mónaco (R)] 200.000 falantes nativos

Estremenho (ext) [Espanha] 200.000 falantes nativos

Franco-Provençal ou Arpitano (frp) PE [França (R), Itália (R) e Suíça (R)] 157.000 falantes nativos

Sassarês (sdc) PE [Itália (R)] 100.000 falantes nativos

Ladino ou Judeu-Espanhol (lad) [Bósnia e Herzegovina (R), França (R), Grécia, Israel (R), Turquia] 51.000 falantes nativos

Ladino Dolomítico (lld) PE [Itália (R)] 41.000 falantes nativos

Romanche (ou Grisão) (roh) PE [Suíça (O)] 40.000 falantes nativos

Normando (chamado Jersês e Guernsiês em Jersey e Guernsey) (nrf) PE [França, Reino Unido (R)] 20.000 falantes nativos

Corso (cos) PE [França (R)] 15.000 falantes nativos

Fala estremenha (fax) [Espanha (R)] 11.000 falantes nativos

Aragonês (arg) PE [Espanha (R)] 10.000 falantes nativos

Mirandês (mwl) PE [Portugal (R)] 10.000

Eis um mapa que dá uma boa ideia da distribuição geográfica das línguas românicas. A lista das línguas representadas no mapa não coincide completamente com a lista acima. 

Autoria: Yuri Koryakov, modificado por mim (Wikimedia commons, daqui)

Segue-se uma lista com as traduções de comer, beber, pão e água para 34 línguas românicas (as 31 acima e mais três com menos de 10.000 falantes). Só por curiosidade.

Tendo só em conta estas palavras, parece haver uma distinção de base entre as línguas em que a palavra mais imediata para «ingerir alimentos sólidos» vem do latim clássico comedere, latim tardio comere (as línguas iberorromânicas), e as línguas em que a palavra o mesmo conceito vem do latim manducare (as outras todas…). Mas é uma distinção algo fortuita. Tivesse escolhido outras palavras e saltariam à vista outras aparentes distinções. Todas as organizações são complicadas, mas podem distinguir-se dois grandes ramos, as línguas românicas orientais e as línguas românicas ocidentais, com algumas pelo meio que se discute onde pertencem ou que podem ser um terceiro grupo… As orientais dividem-se em ítalo-dálmatas e em balco-românicas e as ocidentais em ibero-românicas e galo-românicas. A Wikipédia dá uma panorâmica simples destas classificações

Também chama a atenção a variação de uma mesma palavra numa mesma língua. Pode pensar-se: «Como pode haver tantas maneiras, e tão diferentes, de dizer beber em sardo ou pão em romanche? A maior variação dialetal pode depender de fatores como fronteiras políticas e, tradicionalmente, também do isolamento geográfico das comunidades de falantes. Outro fator é a falta de padrão ou uma padronização recente e ainda pouco influente. Quando uma língua é padronizada, muitas variantes passam a ser consideradas incorretas e desaparecem dos registos escritos e dos registos orais menos educados. Quando não há tanto peso da norma padrão, os linguistas tendem a registar todas as formas produzidas em vários dialetos. Se os registos do português seguissem essa lógica, seria preciso registar, (e só no português europeu) as formas comêre e comêri, bebêre, bebêri, buber, buer, auga, entre outras, que são efetivamente produzidas pelos falantes da língua, mas que só em contextos muito especiais são registadas nas descrições do seu vocabulário.


P.S.: Algumas curiosidades

Ao procurar vídeos nas várias línguas, encontrei algumas coisas curiosas, que quero aqui destacar. Acho muito interessante, por exemplo, que um americano dos EUA, da quinta geração de imigrantes sicilianos, ainda fale siciliano (e perfeitamente, a julgar pelos comentários). 

Tão habituados que estamos às fronteiras dos estados nações atuais e à ideia de uma língua nacional para cada um deles, esquecemo-nos de que há muitas vezes um continuum de dialetos mutuamente inteligíveis através de fronteiras políticas. Para um português que conheça o galego, o asturo-leonês (incluindo o mirandês) e a fala estremenha, por exemplo, isso parecerá óbvio. Mas também é interessante ver como, noutros lugares, duas pessoas de nacionalidades diferentes comunicam sem problemas em línguas diferentes. Laura é espanhola, da província de Barcelona, e fala catalão, que é a sua língua materna; e Gabrièu é francês, de Nice (que não é logo ali ao lado da Catalunha), e fala occitano, em que é perfeitamente fluente, mas que não é a sua língua materna.  

Finalmente, e já que estamos em maré de catalão, um vídeo em que Joan Lluís-Lluís, um francês de Perpignhão, fala, num catalão impecável, dos problemas dessa língua – e de várias outras línguas – em França. Isto é interessante, porque não há muitos jovens franceses a falar catalão como ele. Como Joan diz, o catalão está moribundo em França e, se procurarem outros vídeos sobre o catalão na zona, verão que os jovens que o ainda o falam como língua segunda têm uma fluência limitada e um claro sotaque francês. 


20/04/24

Ser ou não ser, eis a questão

 

to%20be%20or%20not%20to%20be
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them. 

 (W. S., 1601)

Como se costuma avisar à entrada de algumas entradas da Wikipédia (a deselegância estilística é aqui propositada), este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora; talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…

Este texto é uma versão revista de um texto originalmente publicado aqui a 15/12/10, que deixou de me agradar e que decidi que precisava de ser reescrito. Tentei reescrevê-lo sem usar muitos termos técnicos, mas, quando se fala de língua, nem sempre é possível deixar de usar alguns termos gramaticais e/ou linguísticos — que eu creio, aliás, que a maior parte das pessoas compreende. Também não levo muito longe o rigor linguístico, porque isso não é relevante neste texto.

O que significa ser? Talvez isto vos surpreenda, mas há línguas em que não existe um verbo que corresponda diretamente ao nosso ser. E há outras em que, embora existindo um verbo semelhante ao nosso ser, ele é dispensável em certos tipos de frases. De facto, e no que toca apenas ao significado, o verbo ser às vezes não serve para grande coisa. Por exemplo, se quero dizer «Eu sou português» e dispensar o sou, e disser «Eu português», não deito fora nenhum bocado de significado: toda a gente compreende exatamente o que quero dizer e compreende-o como sendo «Eu sou português», precisamente. O que eu deito fora com essa construção é antes a boa formação da frase em português, que é uma coisa diferente. Em português, essa frase exige um verbo e «Eu português», por muito que se perceba, não é uma frase da língua portuguesa. Nenhuma pessoa de língua portuguesa diz uma coisa assim. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão de verbo que corresponde a ser é gramatical e omiti-lo é uma maneira normal de construir a frase.

Já o mesmo não acontece na frase «Ela tinha sido professora, quando a conheci», porque, sem o tempo verbal expresso pela forma verbo ser, não se distingue esta frase de, por exemplo, «Ela era professora, quando a conheci», que tem um significado muito diferente. Temos aqui, então, um importante significado de verbo ser e dos verbos do mesmo tipo, chamados cópulas ou verbos copulativos: carregar marcas de tempo, modo e outras categorias da língua, por muito que não tenham um significado específico eles próprios, ou sejam, por muito que não contribuam, por si, para dizer alguma coisa de alguém ou de alguma coisa. Nos exemplos dados atrás, o que se diz de mim é <[ser] português> e o que se diz dela é <[ser] professora>. Aliás, muitas vezes, as construções com o verbo ser correspondem diretamente a construções com outros verbos, que, esses, sim, dizem alguma coisa de alguma coisa ou alguém. Por exemplo, «ensino no Barreiro» ou «dou aulas no Barreiro» significam o mesmo e correspondem a «sou professor no Barreiro».

Podemos, então, ser tentados a pensar que, em termos de significado, e deixando de lado as marcas de tempo, modo, etc., o verbo ser é como um sinal de igual apenas (eu=professor; ele=soldado), mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, sobretudo porque x=y ⇒ y=x (xis igual a ípsilon implica ípsilon igual a xis) e é fácil constatar que a frase «o leão é um mamífero» não significa, como toda a gente sabe, que «um mamífero é o leão».

Há apenas um tipo de frases, chamadas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: «a Ana é a professora de português da minha irmã» é o mesmo que «a professora de português da minha irmã é a Ana». Só nestas frases, em que ser liga duas expressões com artigo definido é que o verbo ser funciona como um sinal de igual. (A questão é de facto mais complicada, mas não a desenvolvo aqui.)

Nos outros casos, acho que, a ter de escolher um símbolo simples para representar o significado de base do verbo ser preferia uma flecha a um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direção (eu <= professor; ele <= soldado). Há um sujeito de quem se diz alguma coisa («eu», «ele», «a Ana»…) e um predicativo que diz (predica) alguma sobre o sujeito («professor», «soldado»…) Este predicativo pode ser um nome («professor»), um adjetivo («bom», «alto»…) ou um sintagma preposicional, ou seja, introduzido por uma preposição: «para brincadeiras», em «Ela não é para brincadeiras», ou «de madeira», em «A mesa é de madeira», por exemplo.

Aparecem na frase anterior dois daqueles termos gramaticais, sujeito e predicativo, que não são fáceis de evitar num texto destes; e a palavra sujeito, que toda a gente conhece, merece aqui uma breve discussão. Não sei se alguma vez pensaram nisso, mas dizer-se, como me diziam os meus professores da primária, que é «quem pratica a ação» é uma definição de sujeito que funciona muito mal. Sujeito significa «submetido» («Estavam sujeitos às intempéries» ou «Eram sujeitos da coroa»); sujeito é o que subjaz, o está por baixo: de facto, na origem, sujeito significa «quem sofre a ação» e não «quem pratica a ação». Mas, claro, como as palavras da gramática deram muitas voltas até chegar ao seu uso atual e, por causa dessas muitas voltas, são muitas vezes enganosas, também se chama agora sujeito ao agente, aquele que faz alguma coisa. Digamos que há muitos tipos de sujeitos, aqueles que fazem coisas, aqueles a quem acontecem coisas, aqueles em que se passam coisas, aqueles a quem os outros fazem coisas, etc.

É bom ter isto em mente quando se fala do verbo ser, porque os sujeitos do verbo ser nunca fazem nada. Às vezes, até parece que fazem, mas não fazem. «Mas ser professor não é fazer alguma coisa?». Sem dúvida que dar aulas é uma atividade — meritória, importante e cansativa —, mas é preciso ver que uma professora é professora mesmo quando está a dormir. O verbo ser usa-se com um predicativo para atribuir qualidade ou características a alguém ou a alguma coisa, não para descrever ações. Quando se quer falar da atividade concreta de dar aulas, não se vai dizer «Ontem, fui professor das 8 às 13».

Voltemos um pouco atrás: o sujeito e o seu predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis. Além disso, têm casos gramaticais diferentes. Mais um termo gramatical: os nomes de uma frase estão sempre num caso qualquer, conforme a sua função na frase. Há línguas em que isto é óbvio, porque os nomes têm formas diferentes segundo a sua função. Por exemplo, em finlandês (ou em russo ou em muitas outras línguas), na frase «A Paula viu a Maria», Paula e Maria têm formas diferentes das que têm na frase «A Maria viu a Paula», porque no primeiro caso Paula é sujeito e Maria objeto e, no segundo, passa-se o inverso: a primeira frase é Paula näki Marian e a segunda é Maria näki Paulan. Em línguas como o português, os casos são menos visíveis, mas veem-se no pronome. O pronome que corresponde à pessoa que fala é eu quando é sujeito (caso nominativo), mas é me, quando é objeto direto ou indireto (casos acusativo ou dativo) e mim quando vem depois de uma preposição (caso oblíquo). Quando o sujeito é ela ou ele, porém, já há formas diferentes para o acusativo (o/a) e para o dativo (lhe), mas a forma oblíqua é igual à forma de sujeito (ele, ela): «Ela joga badminton», «Conheço-a bem», «Telefonei-lhe ontem» e «Falei com ela». Estes casos são, em português, iguais para todos os verbos. O sujeito é sempre nominativo, seja ele sujeito de que verbo for: o sujeito de «cortei a lenha» é eu, nesta frase que descreve uma ação minha, exatamente como é eu o sujeito de «apanhei muita chuva», em que eu não ajo absolutamente nada.

Porque é que isto aparece aqui no meio da conversa sobre o verbo ser? Porque as frases com o verbo ser têm algumas características especiais. O predicativo do sujeito é sempre acusativo, como os complementos diretos dos verbos que os têm: «ele é professor» porta-se, neste aspeto, como «ele varre a sala todos os dias», e isto vê-se precisamente no caso: «ele é professor e é-o já há muito tempo» e «ele varre a sala todos os dias e varre-a com uma grande minúcia». Tanto o o como o a destas frases são a forma acusativa do pronome da terceira pessoa do singular. Por isso é que até já houve quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo, como varrer, ver ou virar. Mas não funciona, porque este predicativo tem características diferentes dos complementos diretos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos «a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo» e não «*a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo». Além disso, é com o acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, «a vida são dois dias e o Carnaval são três» e não «a vida é dois dias e o Carnaval é três» (por muito que os corretores ortográficos nos queiram às vezes para aí puxar). Como se explicam estas anomalias, não sei. Nem sei se alguém sabe, mas é bem possível que haja explicações que desconheço.


17/04/24

Estupidez e discriminação, mais uma vez

 Ricky Gervais (traduzo eu):

«Quando se está morto, são se sabe que se está morto. É só para os outros que isso é doloroso e difícil. O mesmo acontece quando se é estúpido.»

Encontra-se a mesma ideia noutro meme que circula nas redes sociais: 

«As pessoas gordas sabem que são gordas. As pessoas magras sabem que são magras. Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?»

Seria quase tentado a dizer que estas afirmações são uma estupidez e que, por isso mesmo, tenho de lhes dar razão: quem as diz não faz ideia da estupidez que são. Mas não é assim. São apenas afirmações em que tenho boas razões para não acreditar e que quero aqui discutir. Aliás, já aqui falei desta questão uma vez, mas quero agora desenvolver um pouco a discussão.

Precisamos de assentar, antes de mais, no que queremos dizer com estúpido e estupidez. Estúpido pode significar coisas como «atónito»; «insensato», «imprudente»; «grosseiro», «indelicado»; «desinteressante», «entediante»; ou «absurdo», mas nas frases que servem de introdução a este texto, estúpido é usado no sentido de «falto de inteligência», que é, provavelmente, o significado mais imediato da palavra para a maior parte das pessoas.

É claro, pode considerar-se que estúpido é muitas vezes apenas um termo de forte desaprovação. Muitas vezes, chamamos estúpido a alguém apenas para discordar veementemente das suas ideias ou ações mais do que para o acusarmos propriamente de alguma deficiência cognitiva. Se escolhemos utilizar estúpido nesta situação, porém, é para afirmarmos que falta à pessoa que acusamos de estupidez a capacidade de compreender ou sentir algo que nós compreendemos e sentimos. Há sempre alguma acusação de falta de capacidade.

Se nos detivermos agora a analisar agora esta ideia de falta de inteligência, constatamos umas quantas coisas importantes:

A capacidade cognitiva de uma pessoa não é adquirida e está fora do seu controlo — a não ser que identifiquemos inteligência com conhecimento, o que não parece muito sensato. A dificuldade de aprendizagem é, claro está, um obstáculo à aquisição de conhecimentos, mas apenas um dos muitos obstáculos possíveis, e há pessoas muito inteligentes que nunca tiveram, por razões várias, acesso à aquisição de conhecimentos. Assim sendo, o nível de inteligência de uma pessoa, seja lá o que for que com isso queiramos dizer, é como a cor dos olhos ou da pele, a forma das pernas ou a tendência inata para a corrida ou para determinada doença.

A falta de capacidade cognitiva de uma pessoa, quando existe, não se aplica necessariamente a todas as suas funções cognitivas, mas apenas a algumas delas. Por exemplo, pode ser-se muito fraco em raciocínio abstrato e ter uma excelente memória ou uma grande capacidade de organizar volumes no espaço, etc. Muitas pessoas eram antigamente simplesmente consideradas «burras» em geral e incapazes de aprendizagem por terem dislexia ou discalculia — o que hoje está longe de ser considerado sinónimo de burrice.

A falta de capacidade cognitiva não é uma condição comum entre humanos — todos fazemos coisas desarrazoadas, estupidezes (!), mas a falta de inteligência como condição (ser estúpido, ter deficiências cognitivas) é rara.

E por fim, a falta de inteligência não tem implicações morais: são possíveis todas as combinações de qualquer grau de inteligência com qualquer grau de moralidade. Muitas pessoas más, seja lá o que for que cada qual defina como mau, são inteligentes, algumas até acima da média, e muitas pessoas com pouca inteligência são boas pessoas.

A estupidez está muitas vezes incluída na retórica discriminatória como sendo, precisamente, a característica que mais justifica a discriminação. Às vezes, é a (pretensa) categoria que justifica, só por si, a discriminação. É certo que, às vezes, se atribuem, a quem se discrimina, outras qualidades negativas, como a maldade, a preguiça, o espírito de trapaça, etc. Mas, de que costuma mais rir-se quem se ri de anedotas de alentejanos (ou belgas, ou aarhusianos, ou seja lá o que for, as histórias são as mesmas em todo o lado, muda só o objeto de chacota), do Samora Machel ou de loiras, entre muitas outras? Da sua pretensa estupidez…

Talvez a característica com que seja mais fácil comparar as deficiências cognitivas seja a fealdade. Ser feio tem, em parte, as características que enumerei atrás para ser pouco inteligente e também resulta em desvantagens ao longo da vida, às vezes grandes. No entanto, há muito quem não ache bem acusar outras pessoas de serem feias, mas não se coíba de chamar burros àqueles de quem discorda — ou até de considerar a burrice em geral como um dos males da humanidade.

Voltemos ao início do texto: «Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?» Tenho boas razões para crer que, tal como as pessoas feias sabem bem que são feias, também as pessoas com alguma deficiência cognitiva sabem muito bem que a têm. Tanto a umas como outras, foi-lhes recordada toda a vida a sua «falha», de várias formas, umas mais diretas que outras. E não há nisso nada de maravilhoso – nem para essas pessoas, nem para ninguém…



12/04/24

Frikadeller

 

A ideia de fazer bolas de carne picada é, pelos vistos, tão natural que toda a gente a teve em todo o lado e já há muito tempo (a Wikipédia dá uma boa panorâmica da coisa). No sul da Europa, as almôndegas são feitas num guisado com tomate, mas em muitos outros sítios são fritas ou cozidas num caldo. É claro, variam também a carne usada e os temperos — e o tamanho das bolas. 

Na Escandinávia, as bolas de carne são um prato comum e chamam-se algo como «pãezinhos de carne» em norueguês, sueco e finlandês (kjøttboller, köttbullar e lihapullat, respetivamente), mas frikadeller em dinamarquês. Dizia-me uma amiga brincalhona, já há muitos anos, que uma experiência traumática de todos os homens escandinavos — segundo ela, bem descrita na literatura psicanalítica nórdica — era a passagem das almondegas da mãe às almôndegas da mulher. Bem feito, digo eu, fizessem os homens a comida e nada disso acontecia. Mas a verdade é que, pelo menos no caso das frikadeller (não sei nada das bolas de carne dos outros países escandinavos), há sempre grande uniformidade de sabor e textura, nada que justifique traumas. A não ser que apareça algum português com a mania das inovações… Mas passemos à substância da coisa. Frikadeller clássicas: 

Meio quilo de carne picada (em princípio de vitela e de porco misturadas, também pode levar um bocadinho de toucinho); 1 cebola média; 3 colheres de farinha; 1 ovo; 1,5 dl leite; e sal e pimenta, claro. Mistura-se tudo bem misturado, deixa-se descansar pelo menos uma horinha no frio, molda-se a carne em bolinhas e frita-se em muita manteiga. 

Frikadeller com salada de batata. Foto de cyclonebill, daqui. Licença Creative Commons. 
Eu muitas vezes acrescento uma cenourinha picadinha muito fina e uso flocos de aveia em vez de farinha. Também já usei salsa. Vão experimentando, a ver o que acham que fica bem. Atenção: não se pode (!!!) misturar tudo na máquina. Quer dizer, dá para picar e misturar na máquina os outros ingredientes além da carne e misturá-los depois com a carne à mão, mas meter a carne no processador, não. Ou então, só uma pequena parte da carne, vá. E cuidado, frikadeller é um prato muito guloso, uma pessoa vai comendo, comendo, sem dar por isso, e nunca mais para. 

Agora, da mesma forma que há bolas de carne em todo o lado, também há pastéis de peixe em muitos lados. As frikadeller de peixe (fiskefrikadeller) são o correspondente dinamarquês dos pastéis de bacalhau. Mais uma vez, uma receita clássica, que se pode adaptar ao gosto de cada um: 

Para 800 de bacalhau fresco (ou outro peixe qualquer, mas aqui costuma usar-se bacalhau fresco), uma cebola, duas claras de ovo, três colheres de fécula de batata e três colheres de farinha, e 1 dl de leite, além de sal e pimenta. Com o peixe é que sim, pode triturar-se tudo junto no processador, até obter uma pasta homogénea, que se frita em lume brando. Se não vos sair bem à primeira, ajustem as quantidades à segunda, sim? 




06/04/24

Do trema, do seu desaparecimento e da falta que às vezes faz

 

Se o desaparecimento de letras não pronunciadas foi, na última reforma ortográfica, um passo em frente no sentido de levar mais longe a lógica fonológica que subjaz à reforma republicana, já o desaparecimento do trema foi um passo atrás. 

É claro, em ortografia faz-se muitas vezes compromissos entre a lógica e a simplicidade. A não marcação do acento tónico na escrita do inglês ou do italiano são exemplos disso – por um lado, reduz-se o número de sinais e de regras a aprender; por outro, deixa de se assinalar todo um aspeto importante da língua. Não tenho dúvidas de que o que preside à eliminação do trema na grafia do português (do Brasil apenas, porque em Portugal não se usava) é essa vontade de simplificação. Para ser coerente com o espírito fonológico da ortografia portuguesa, porém, devia ter-se feito ao contrário: devia o uso do trema ter-se alargado à ortografia do português fora da América. Há outros casos, mas, por exemplo, a distinção entre as sequências /kwe/, /kwi/ e /ke/, /ki/ ou /gwe/, /gwi/ e /ge/, /gi/ em, por exemplo, cinquenta e apoquenta, tranquilo e quilo, desague e afague, preguiça e linguiça, é efetivamente fonológica e seria, por isso, mais lógico grafar cinqüenta, tranqüilo, desagüe e lingüiça. (Há outras soluções possíveis, mas seriam tão mal recebidas que é melhor nem pensar nelas…).

Em Portugal, o trema foi suprimido no Acordo Ortográfico de 1945. É claro, a supressão do trema foi na altura criticada — como é sempre criticada qualquer alteração na ortografia —, mas, neste caso, com razão, na minha perspetiva. 

O dramaturgo, poeta e escritor João Silva Tavares publicou a propósito, no Diário de Lisboa, este divertido poema que encontrei no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (mantenho a grafia original). Silva Tavares estranhava a supressão do trema em muitas palavras, mas não em saudade. Não conheço a história da palavra ao pormenor, e não sei se a forma sem ditongo foi muito difundida em alguma época ou lugar, mas, na Lisboa de 1945, devia já ser, como agora, forma muito rara. Embora os dicionários registem as duas pronúncias, a maioria dos falantes do português não pronuncia sa-u-da-de, mas sim sau-da-de — em todas as variantes da língua. 

«SIC TRANSIT GLORIA MUNDI»


Não há que ver—tudo morre. 
Chegada a hora suprema,
nada, nada nos socorre...

Desta vez, morreu o «trema»!


Morreu, não:—foi condenado

pela nossa Academia,

no acordo há tempos firmado

referente á Ortografia.


O «trema», tal corno é

do conhecimento geral,

quando se põe sobre o «u»,

torna expressiva a vogal.


Acento que muita gente

se esquecia de empregar,

consiste, graficamente,

em dois pontinhos a par.


Eu, por mim, digo em verdade:

—nas outras palavras, não,

mas na palavra «Saüdade»,

produzia-me impressão.


Por quê, saudade com «trema»?

Não lhes parece arriscado

complicarmos um problema

que é já de si, complicado?


Fora os «pontos» escusados,

por inuteis, por hostis!

Bem basta sermos forçados

a pôr os «pontos nos i i».


Louvemos, pois, o sistema

do acordo, já concluído,

pois dando sumiço ao «trema»

acabou com o «u» tremido!


Depois disto já firmado,

um amigo intrometido

e filólogo afamado,

declarou-me, compungido,

que não se diz «u» tremido

mas «u» tremado.


Que novidade!... Mau grado

o seu famoso bestunto,

o «sábio» não percebeu

que se eu escrevesse «u» tremado,

o «tremado» neste assunto

não era o «u»:—era eu!


Alexandre O’Neil dizia do trema em «Divertimento com sinais ortográficos» (de Abandono vigiado, 1960)

¨

Frequento palavras estrangeiras


Já vivi em saudade,

mas expulsaram-me

(p'ra sempre?...)

da língua portuguesa.





31/03/24

Criminosos, cães e dilemas morais

 

Num artigo de 2 de fevereiro do blogue 2 Dedos de Conversa, Helena Araújo propõe o seguinte dilema: «Se uma casa estivesse a arder, e lá dentro estivesse um cão e o Hitler, e você só pudesse salvar um deles, qual deles salvava?» A sua própria resposta (que, diz ela, lhe veio «rápida e segura») é que o Hitler era muito pesado.

O Tintim, esse, não hesitou e salvou mesmo o Hitler de morrer afogado. Bom, como o Milou tinha desaparecido, não se lhe pôs o problema da escolha entre Hitler e um cão.

Esta imagem é d'O caso Girassol (1956) e, claro, não é Hitler que Tintim salva – mas parece,
o que faz com que esta imagem circule na Internet com intenções humorísticas.

Isto fez-me pensar em John Suart Mill — mais concretamente, numa nota de rodapé de Utilitarianism. Escreve J. S. Mill a certo passo [traduzo eu do original]:

Cabe à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por que teste podemos conhecê-los; mas nenhum sistema de ética exige que o único motivo de tudo o que fazemos seja um sentimento de dever; pelo contrário, noventa e nove por cento de todas as nossas ações são realizadas por outros motivos, e está muito bem que o sejam, se a regra do dever não as condenar. É ainda mais injusto para com o utilitarismo que este equívoco específico se torne motivo de objeção, na medida em que os moralistas utilitaristas foram mais longe que quase todos os outros ao afirmar que o motivo nada tem a ver com a moralidade da ação, embora muito com o valor de quem age. Quem salva um semelhante de morrer afogado faz o que é moralmente correto, quer o seu motivo seja o dever ou a esperança de ser pago pelo trabalho a que deu; e quem trai o amigo que nele confia é culpado de crime, mesmo que o seu objetivo seja servir outro amigo com quem tem maiores obrigações.

A passagem não tem relação nenhuma com o dilema moral atrás apresentado, nem com o quadradinho de Hergé com que aqui brinco. Mas J. S. Mill faz uma interessante nota de rodapé a esta passagem do seu texto, em que responde a uma objeção à ideia acima apresentada:

Um oponente, cuja honestidade intelectual e moral reconheço com prazer (o Rev. J. Llewellyn Davis), objetou a esta passagem, dizendo: «É claro que o há de certo ou errado em salvar um homem de morrer afogado depende muito do motivo com que se o faz. Suponhamos que um tirano, quando um inimigo seu se lança ao mar para lhe escapar, o salva de morrer afogado apenas para poder infligir-lhe torturas mais requintadas — seria sensato descrever esse salvamento como “uma ação moralmente correta”? (…)»

Eu digo que uma pessoa que salve outra de morrer afogado para depois a torturar até à morte não difere apenas no motivo de outra pessoa que faz a mesma coisa por dever ou benevolência; é o próprio ato que é diferente. O salvamento do homem é, no caso em apreço, apenas o início necessário de um ato muito mais atroz do que seria deixá-lo afogar-se. Se o Sr. Davis tivesse dito: «O que há de certo ou errado em salvar um homem de morrer afogado depende muito — não do motivo, mas sim — da intenção», nenhum utilitarista discordaria dele. (…) A moralidade da ação depende inteiramente da intenção — isto é, do que quem age quer fazer. Mas o motivo, isto é, o sentimento que o leva a querer realizá-la, quando não faz diferença no ato, também não altera de modo nenhum a sua moralidade (…).

Não me adianto na discussão da relevância do motivo de uma ação para a moralidade da mesma e da distinção milliana entre motivo e intenção. Proponho antes modificar um pouco a reflexão proposta por Llewellyn Davis: imaginemos que, em vez de um tirano que salva um oponente de morrer afogado para depois lhe infligir horríveis torturas, se trata antes do adversário de um tirano que o salva para ele poder ser julgado e condenado pelos crimes que cometeu. Como avaliar agora o salvamento?

Quando publicou o dilema e a sua resposta no Facebook, a Helena teve, é claro, muitos comentários. Algumas das pessoas que comentaram o post da Helena defenderam o princípio ético fundamental de que, quando se trata de escolher quem deve viver e quem deve morrer, mesmo o pior humano tem prioridade em relação a um animal não humano — a estranha solidariedade da espécie, como dizia já não me lembro quem. Mas não é essa a única razão possível para decidir salvar Hitler: pode-se salvá-lo «para o entregar directamente num tribunal», como a Helena sugeria numa resposta a um comentário à sua publicação.

Se é moralmente mais correto ficar a olhar para a morte por afogamento dos hitleres deste mundo ou ir buscá-los à água para responderem em tribunal pelos seus crimes, eis uma boa discussão moral — tanto numa perspetiva deontológica (há um princípio ético universal de base que o justifique?) como numa perspetiva utilitária (condená-lo tem consequências mais positivas para a maior parte das pessoas que deixá-lo morrer?). Que opinais?

26/03/24

De bons e maus fígados — em iscas ou em pâté ou até por cozinhar

 

Lembro-me de alguém me contar — já não me lembro é quem foi… — que a sua mãe, quando estava grávida, tinha desejos de fígado cru — o que, segundo essa pessoa, nem devia espantar ninguém, porque o fígado era dos alimentos mais saudáveis que se podia comer. Mas cru? Porque não?

Ficou-me sempre na memória o louvor de um repasto de fígado cru de antílope que Rider Haggard faz em As Minas de Salomão, pela voz de Allan Quatermain, narrador e protagonista desse matricial romance de aventuras (deixo aqui a tradução de Eça de Queirós, com grafia original[1], para dar ainda mais exotismo a tão exótica passagem):

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós, estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras, que nós vinhamos demandando:—mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á beira d’agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes.

A nossa alegria foi como a d’uma resurreição. Caça! Alli estava caça para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era caçar—essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula—se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel—porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel—porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par! —vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! Salvos! De fome já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo—e em poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal, quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?

— Gente faminta não tem exigencias! Gritou excitadamente o capitão John. A ella, e crúa!

Não restava outra solução—e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavámol-as na agua corrente—e devorámol-as com voracidade! Parece horrivel—mas confesso que aquella carne crúa me soube divinamente! D’ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim sentia positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

Ao que parece, o consumo de fígado cru tornou-se uma moda nos últimos tempos, devido, sobretudo, à promoção que dele fazem alguns influencers, mas, se é verdade que o fígado é um alimento rico em vitaminas e minerais que não se encontram frequentemente em muitas dietas, também é verdade que o seu consumo regular pode resultar em perigos para a saúde — e não só os que advêm do consumo de qualquer carne crua (ver o que explica sobre o tema uma dietista [em inglês]). Em geral, os médicos aconselham moderação no consumo de fígado.

Fígado à berlinense. Wikimedia Commons, daqui.
Na Dinamarca, come-se muita pasta de fígado, como aliás nos outros países do norte da Europa. A pasta de fígado foi introduzida na Dinamarca em meados do séc. XIX, inicialmente como manjar de luxo, a que só as famílias muito ricas tinham acesso. No início do século XX, porém, com o aumento da produção de suínos para exportação de bacon, o preço do fígado desceu muito e a pasta de fígado tornou-se mais acessível e foi passando cada vez mais a fazer parte dos lanches dos operários dinamarqueses, até acabar por se tornar no produto de grande consumo que atualmente é, um dos condutos mais usados nas sandes abertas de pão de centeio que praticamente todos os dinamarqueses almoçam. Mas é praticamente só em pasta que se come o fígado na Dinamarca. Ainda se encontra às vezes fígado e coração nos supermercados, mas é comida que só algumas pessoas mais velhas comem muito de vez em quando: as novas gerações nunca provaram vísceras, nem querem provar.

Tenho, aliás, a ideia — perfeitamente incomprovada, note-se — que, à medida que uma sociedade vai enriquecendo, as gorduras e as vísceras dos animais vão progressivamente sendo substituídas por carne limpa. Talvez seja só uma impressão minha, mas não me parece que seja só aqui na Dinamarca que as gerações mais jovens que a minha deixaram de comer vísceras e toucinhos. Creio que se passa o mesmo em todos os países mais ricos. Os pratos tradicionais com vísceras, que existem em todo o lado, comem-se cada vez menos. Em Portugal, quem — e onde — come hoje coiratos, rins e fressura? Quem é que come iscas hoje em dia, mesmo em Lisboa, onde podem ser consideradas um dos poucos pratos típicos da cidade?

E eis-nos chegados às iscas lisboetas, que foram a motivação primeira deste texto, antes de ele, por sua própria vontade, se ter alargado, e muito, a outros fígados. E a ideia de explorar o tema das iscas veio- me de um fado: o «Fado das Iscas», que conheço desde miúdo e que me veio no outro dia à memória:

No tempo das patuscadas

Das guitarras e touradas

Das hortas, do carrascão

Eram as iscas o prato

De mais consumo e barato

Na vida dum cidadão


E ninguém se envergonhava

Toda a gente que passava

Entrava nessas vielas

Sentia-se a gente bem

Sendo simples, um vintém

Trinta réis se eram com elas


Se ao longe vinha um parceiro

E o cheirinho lhes sentia

Até mesmo apetecia

Comê-las só p'lo cheiro

E a sua fama foi tal;

O povo então era vê-lo:


Travessa do Cotovelo

E Rua do Arsenal

Hoje tudo isso mudou

A taberninha acabou

Desapareceram os becos

Os cocheiros são choferes

Vigaristas suteneres

E os casqueiros papo-secos


Se os meninos odaliscas

Comessem um prato d'iscas

Daquelas bem temperadas

Morriam de indigestão

Não bebendo um garrafão

D'água das Pedras Salgadas

É claro, não sabia a letra toda de cor. Ao procurá-la na internet, descobri, num blogue indispensável a quem se interesse pelo fado clássico, que este «Fado das Iscas» tem letra de José de Oliveira Cosme e música de Jaime Mendes e foi criação de Álvaro Pereira na revista Coração Português em 1928. Aqui fica uma gravação de Álvaro Pereira de 1962.

Ao pesquisar este fado, encontrei no mesmo blogue outro fado com o mesmo tema — e o mesmo título. Trata-se de um fado de Lourenço Rodrigues e Raúl Ferrão, cantado por Hermínia Silva, que o estreou na revista Iscas com Elas, precisamente, em 1938 (aqui, numa gravação de 1957).

Noutros tempos da ramboia

Metia sempre tipoia

Os tascos tinham beleza

Davam gosto as berzundelas

Com conserva à portuguesa

E as belas iscas com elas


As iscas sabiam bem

Sem elas era um vintém

Quando metia batatas

Trinta reis era um pratinho;

E um tipo nessas frescatas

Enchia sempre o papinho


Belas iscas do Alfaia

E da Rua da Atalaia

Era um petisco burguês

Tinha um sabor sem igual

Comido no Alvarez

Da Rua do Arsenal


Uma isquinha a preceito

Chega a fazer bem ao peito

Aquele cheirinho a isca

Até regala os mortais

A gente quando a petisca

Ai, no fim chora por mais

Como veem, este fado faz também referência à Rua do Arsenal, referindo até o nome de um restaurante — ou do seu proprietário: o Alvarez. Mas, segundo este fado, as iscas não se comiam só no Cais do Sodré — também no Bairro Alto, na Rua da Atalaia — e na Travessa da Queimada, se o Alfaia daquela altura era o mesmo que há hoje. A informação sobre o preço das iscas coincide, no fado da Hermínia, com a do fado de Álvaro Pereira: um vintém só as iscas, 30 réis com batatas. Pelos vistos, os preços mantiveram-se estáveis nos dez anos que separam os dois fados.

Ouvi falar várias vezes de restaurantes de iscas do Bairro Alto, e, por curiosidade, resolvi investigar se era verdade o que me tinham contado: que os pratos estava pregados às mesas e os talheres também presos com correntes; e que o empregado vinha com um balde de água e um pano para os lavar e depois com uma panela de iscas para o encher para o cliente seguinte — uma história que me sempre me pareceu algo fantasiosa.

Descobri então na Internet um texto imprescindível para todos os iscófilos: As Iscas com Elas ou Iscas à Portuguesa, Património, Gastronomia e Turismo em Lisboa, de Pedro Manuel Pereira da Silva, uma tese de mestrado em Antropologia do Turismo e Património. E esta tese, inclui, entre muitas outras informações interessantes, um texto do jornalista e dramaturgo Eduardo Fernandes (1870-1949), que assinava Esculápio. Chama-se o texto «Petisquinhos de Lisboa» e é de 1941.

Começarei pelas iscas, as saborosas iscas com elas e semelas. Semelas porque, em certas tascas, o letreiro que as anunciava juntava as palavras sem e elas numa só. Custavam um vintém sem elas, e trinta réis com elas, ou seja com batatas cozidas e cortadas às rodas, que lhes davam um sabor particular (…) O galego que confeccionava o fígado (…) de que se faziam as iscas, armado de uma faca enorme e espalmada como as que os judeus empregam para imolar as reses no matadouro, sabia cortá-lo em folhas de uma espessura transparente, com grande perícia e habilidade, espalmando a mão esquerda sobre o fígado sanguinolento e abrindo-o finamente com o facalhão. As iscas transitavam deste para um alguidarão onde tinham previamente feito o escabeche, ou salmoura de vinagre, raspas de baço, alho, louro, sal e pimenta e outros ingredientes e temperos, ficando ali a aboborar largo tempo, tapado o alguidar com uma tampa de madeira e movido o seu conteúdo, de quando em quando, com um enorme e comprido garfo de ferro, que servia para arremessar depois as iscas à frigideira sobre a banha de porco que fervia. A banha, tinha-a o galego perto, em grandes boiões de barro, de onde a extraía com uma monstruosa colher de pau, às vezes até só com os dedos, e a frigideira só lá de tempos a tempos se lavava, acumulando os resíduos das iscas de muitos meses, que vinham a dar o seu particular às iscas que começavam a ferver e eram, depois passadas no riquíssimo e apetitoso molho, estiradas com o citado garfo no pratinho, depois de reduzidas na frigideira, com o mesmo garfo, a exíguas dimensões. As batatas estavam cortadas à parte, no tacho onde haviam sido cozidas, e eram espalhadas à mão sobre o pratinho.

- Mais uma com elas! Bai um de conserva! - Gritava o criado, no meio dos fregueses, em mangas de camisa, grandes sapatorros, sem gravata e com um barretinho de cores enfiado no alto da cabeça.

- Bai! Bai! - Respondia o cozinheiro retirando as iscas do alguidar para as levar à frigideira (…).

Ninguém as comia em família com mais gosto, e só os galegos lhes davam aquele precioso tique saboroso que apenas tinha como rival o cheiro particular do petisco, o qual atulhava as ventas do freguês e o atraía ao antro, lá de longe, visto que as vizinhanças da tasca se impregnavam do mágico odor a que ninguém resistia. A casa das iscas era manhosa e acanhada, com os seus bancos corridos e mesas de madeira, às vezes sem toalha, e os garfos pendiam, em algumas delas, de correntes que os ligavam às mesas, não fossem os fregueses safar-se com eles após o repasto.

Parece então que os pratos pregados à mesa lavados in loco surgem do exagero próprio dos mitos, mas os talheres presos com correntes são históricos. Pedro Manuel Pereira da Silva dá também informação mais detalhada sobre a localização dessas casas das iscas:

Na esmagadora maioria dos casos, as ditas Casas das Iscas estavam dispersas por toda a cidade (...). Algumas destas casas tornaram-se muito afamadas, como é o caso do Marreco das Iscas ao Salitre, junto ao Teatro Variedades, a Magina, às Portas de Santo Antão, ou a da Travessa do Cotovelo na esquina com a Rua do Arsenal, onde as Iscas (também designadas em calão de pelintras como «bifes de cabeça chata» ou «bifes sombrios») eram comidas de pé ao balcão e sem garfo, à maneira do moderno prego ou bifana, ou a da Travessa de S. Domingos e da Travessa da Queimada no Bairro Alto e eram geridas por trabalhadores da Galiza. Os galegos, com seu ar rústico, o seu estilo despachado e a sua pronúncia carregada, eram conhecidos por serem de entre as comunidades da capital aquela que se dedicava aos trabalhos mais pesados como moços de fretes, aguadeiros ou proprietários e empregados das denominadas Casas das Iscas. De acordo com o jornal Diário de Lisboa de 22 de Abril de 1944, a última Casa das Iscas a funcionar em Lisboa, na Travessa da Água em Flor nº 165, no Bairro Alto, fechou as portas em 1943, tendo o edifício sido posteriormente demolido.

Fiquei também a saber, à leitura do texto de Pedro Manuel Pereira da Silva, que as iscas vieram substituir a anterior chanfana, que não era o que hoje se conhece com esse nome na Beira, mas antes fressura preparada sensivelmente como as iscas vieram depois a ser preparadas e que era, no séc. XVIII, um prato muito consumido em Lisboa. Eis como Nicolau Tolentino descreve essa chanfana[2]:

«Perguntando o Príncipe do Brasil D. José — Que cousa era chanfana?»


Comprada em asqueroso matadoiro

Sanguinosa forçura, quente, e inteira,

E cortada por gorda taverneira,

Cujo cachaço adorna um cordão d'oiro;


Cabeças de alho com vinagre e loiro,

E alguns carvões, que saltam da fogueira,

Fervendo tudo em vasta frigideira,

C'os indigestos figados de touro;


Suavissimo cheiro, o qual augura

Grato manjar, mas que por causa justa

Dá um sabor, que nem o dêmo o atura;


Isto é chanfana, e sei quanto ella custa;

Deu-me o berço, dar-me-hia a sepultura,

A não valer-me a vossa mão augusta.

Mas deixemos esse sarapatel e voltemos aos fígados. A minha experiência é que não há maneira de tirar ao fígado o sabor a fígado, a não ser misturando-o com tanto toucinho ou carne de porco e outros ingredientes que o fígado se torne minoritário, como nos pâtés e terrinas. E mesmo assim… Cá em casa, ninguém, tirando eu, gosta de fígado; e têm sido bastante vãos os meus esforços de lhe disfarçar o sabor do fígado com caris e molhos... Pessoalmente, se o fígado é bom, nem é preparado à portuguesa que mais gosto dele: prefiro-o cortado em fatias de uns dois centímetros de largura, só temperadas com sal e pimenta e salteadas em manteiga — tendo o cuidado de deixar a carne rosada no meio! — e salpicadas no fim com alho picado muito fininho (espremido no espremedor de alho) e umas gotas de vinho da Madeira só um meio minutinho antes de as tirar do lume.

E sobre fígado, por agora é tudo.

________________

[1] De facto, é uma tradução tão livre que talvez seja melhor chamar-lhe reescrita. Não sofre, pelo menos, de um mal comum das traduções, o excesso de «apego» ao original — e nem de deselegância. Um exemplo, só para verem onde quero chegar:

Here again was a question. The Winchester repeaters—of which we had two, Umbopa carrying poor Ventvögel’s as well as his own—were sighted up to a thousand yards, whereas the expresses were only sighted to three hundred and fifty, beyond which distance shooting with them was more or less guess-work. On the other hand, if they did hit, the express bullets, being “expanding,” were much more likely to bring the game down. It was a knotty point, but I made up my mind that we must risk it and use the expresses.

Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula—se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel—porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel—porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.

[2] Podem ler aqui outras descrições dessa mesma chanfana por Bocage e outros poetas da época.


22/03/24

Canções que referem outras canções #6; “634-5789 (Soulsville, U.S.A.)” e “Beechwood 4-5789”

 

Em 1966, Wilson Picket lançou “634-5789 (Soulsville, U.S.A.)”, de Eddie Floyd e Steve Cropper. Mais tarde, tanto Eddie Floyd (em 1967) como Steve Cropper (em 1982) gravaram também as suas próprias versões; e Steve Cropper toca guitarra em todas elas, claro está.

Agora, este número de telefone (ou quase – sem os dois primeiros algarismos, pronto...) tinha já sido utilizado no título e na letra de outra canção de soul telefónica, se se pode dizer assim: o tema "Beechwood 4-5789", de Marvin Gaye, Mickey Stevenson e George Gordy, que as Marvelettes tinham gravado em 1962.
Rotarydial
Na canção das Marvelettes, usa-se ainda o antigo sistema de «telephone exchange names», em que as duas primeiras letras de Beechwood fazem parte do número. Como se pode ver no disco aqui ao lado, BE correspondem a 23, pelo haveria que discar 234–5789. No início dos anos 60, as letras iniciais dos números de telefone foram substituídas pelos números correspondentes e o 63 da canção de Picket corresponde a ME, Memphis, onde se situavam a sede e os estúdios da editora discográfica Stax, para a qual gravaram todos os artistas mais famosos da chamada Southern Soul, numa área por isso mesmo conhecida como Soulsville.

If you need a little lovin'

Call on me...(alright)

If you want a little huggin'

Call on me baby...(mmhmm)

Oh I'll be right here at home.

All you gotta do is pick up the telephone and dial now

6-3-4-5-7-8-9 (that's my number!)

6-3-4-5-7-8-9

And if you need a little huggin'

Call on me...(that's all you gotta do now)

And if you want some kissin'

Call on me baby...(all right!)

No more lonely nights, when you'll be alone.

All you gotta do is pick up your telephone and dial now...


A canção das Marvelettes não é muito diferente no conteúdo: basicamente, dizem ambas «telefona-me quando quiseres, estou ao teu inteiro dispor». No entanto, se na canção de Picket nada esclarece que o apelo se dirige a uma pessoa específica (pode pensar-se nela até como uma oferta pública de serviços… românticos), já na canção das Marvelettes há referência a uma pessoa concreta que se conheceu (ou viu apenas) num baile e que fora demasiado tímido para tomar a iniciativa de se dirigir à protagonista da canção.

You can have this dance with me

You can hold my hand and

Whisper in my ear sweet words that I love to hear

Oh, baby

Don't be shy (don't be shy)

Just take your time (just take your time)

I'd like to get to know you (like to get to know you) I'd like to make you mine (like to make you mine)

I've been waiting, standing here so patiently

For you to come over and have this dance with me

And my number is Beechwood 4-5789

You can call me up and have a date any old time



21/03/24

Preparos e funerais

 

«Na nossa profissão», disse-me uma vez uma enfermeira, quando comecei a trabalhar no setor da saúde, «aprende-se a encarar a morte como uma coisa natural, que é uma coisa que a maior parte das pessoas não faz, não consegue fazer. Mas corremos também o risco de nos tornar cínicos, de deixar de dar à morte a importância que tem, de chegar a galhofar com ela; e não se deve… Não se deve.»

Tentemos ter sempre presente: a morte é o acontecimento mais importante da vida de uma pessoa. 

🙟🙞🙜🙝

Tanatopraxia é uma palavra demasiado pomposa, que tenho dificuldade em relacionar com o trabalho simples que eu conheço: talvez pôr uma fralda, talvez retirar uma algália, lavar o corpo, talvez barbear, pentear, vestir o corpo, talvez calçá-lo. Em dinamarquês, diz-se «gøre i stand» e nunca aprendi como se diz em português normal — ou em português de enfermagem — porque esse trabalho nunca fez parte da minha vida em Portugal. «Gøre i stand» traduz-se, em quase todos os contextos, por «arranjar» ou «preparar». É só isso. 

🙟🙞🙜🙝

Tem-se pena das pessoas que padecem e mais ainda se se lhes acompanha de perto o sofrimento; e deixa-se de ter pena delas quando o termina o penar. Ouvi uma colega dizer de uma recém-falecida: «Estava mais bonita. Nunca lhe tido conhecido aquela expressão de sossego.» 

🙟🙞🙜🙝
Vruebel%20Coffin%202
Mikhail Aleksandrovich Vrubel: Tamara no caixão, 1891 (excerto)
Já quis, mas já não quero, decidir o que quero que façam de mim quando eu morrer. Nunca pensei em escolher a roupa com que quero vestido o meu corpo, como há quem faça («calça, culote, paletó e almofadinha», pede a famosa canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, e vesti uma vez um defunto de traje de gala, com casaca de abas de grilo…); mas pensei às vezes em escolher algum texto ou uma canção para o meu funeral; ou deixar insólitas indicações para a ocorrência, como Mário de Sá-Carneiro, que queria que lhe pusessem o caixão sobre um burro ajaezado à andaluza... 

Ora!... O funeral é uma das cerimónias importantes da nossa vida, é certo, mas é uma cerimónia em que, infelizmente?, já não vamos a tempo de participar. Que escolha quem fica como o quer.


22/02/24

Mangas e tangas: mais uma conversa sobre a origem de termos de calão

 

Mangas…

No português que eu falo (no meu dialeto e no meu socioleto, se assim o preferirem), mangas, nome masculino de dois números, significa «malandro», «atrevido», «pinta(s)», «moinante». É natural que, a partir deste significado inicial, tenha evoluído para significar apenas «indivíduo, fulano, sujeito», sem mais, como o propõe o dicionário Porto Editora em linha. É pena que falte à entrada o outro significado que eu referi; e surpreende-me que se considere a palavra de dois géneros, a não ser que seja coisa recente: nunca na minha vida ouvi nada como «A Fernanda é uma ganda mangas!» ou «A Paula? Ui, essa mangas…». Mas é louvável que a entrada mangas exista, já que os outros dicionários a que tenho acesso simplesmente não registam o termo. 

O Porto Editora propõe como etimologia a palavra portuguesa manga, simplesmente, acrescentada de um S. Não é que seja etimologia mal pensada, já que o aparente plural de nomes é construção prolífica, no registo a que mangas pertence, para designar pessoas específicas ou tipos de pessoas. E as partes do vestuário ou do corpo são, precisamente. material comum para essas construções. Além do sinistro ditador que todos conhecem como «o Botas», muitos de vocês deverão ter topado, ao longo da vida, com alcunhas como «o Pantufas» ou «o Calcinhas», ou «o Vidrinhos», (para alguém que usasse óculos), «o Mãozinhas», «o Pezinhos», «o Orelhas» ou «o Monas» (se se achasse que sobressaíam na pessoa algumas partes do corpo) ou «o Barbas», «o Bigodes» ou «o Patilhas» (para referir quem não rapasse o pelo em toda a face ou parte dela). Quanto a nomes genéricos, diz-se, por exemplo, «um conas» ou «um coninhas» de alguém com pouco expediente — atado, como também se diz —, que facilmente se deixe embaraçar, enganar ou amedrontar, ou «um tretas» de alguém que cultive a mentira ou o exagero. Talvez uma alcunha «o Mangas», devida a qualquer particularidade do vestuário de um determinado moinante, tenha tido tanta fortuna que, de designar um indivíduo, tenha passado a designar o seu tipo. 

Mas há outra hipótese etimológica que me parece possível, e talvez até mais lógica, embora não me atreva a dá-la como quase certa — que é o mais que se pode fazer quando se fala destas coisas —, por falta de informação sobre as datas de primeiras atestações de mangas com este significado em português e por desconhecer por que vias possa ter chegado a Portugal o termo que proponho: o grego μάγκας, pronunciado [máŋgas].

A definição de um dicionário grego coincide em grande parte com a definição que eu gostaria de ver nos dicionário portugueses. (Notem que a palavra mangas, na definição que se segue, é a palavra mangas em grego, não em português. A tradução é do senhor Google, eu apenas a tentei tornar mais elegante.) 

Mangas: pessoa do povo caracterizada por excesso de autoconfiança ou arrogância, e com uma aparência ou um comportamento (vestuário, movimentos, vocabulário, tom de voz, etc.) diferente do habitual: Stavrakas, o tipo que representa o malandro nas histórias de Karagiozis [teatro de sombras], é um mangas e um vadio. || (por extensão) tipo de homem comum que se porta como um rapazola e se arma em forte: Aqueles estão armados em mangas e viajam sem cinto de segurança.[1] 

Mas o mais interessante é que, na origem, mangas é um tipo histórico específico, o tal que Stavrakas representa no teatro de sombras. E é essa designação dos membros de um grupo social de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX que está na origem das aceções posteriores; e é essa aceção primeira que eu penso que pode ter chegado a Portugal no princípio do século XX, como chegou a outros países. Os mangas estão intimamente ligados à cultura do rebético, a canção urbana grega surgida na segunda metade do século XIX e eram facilmente reconhecíveis pela sua indumentária: chapéu de feltro, casaco vestido só numa manga, longa faixa à cintura, calça riscada e sapato de bico[2]. Se aceitarmos que o rebético está para Atenas ou Salónica como o fado para Lisboa, o tango para Buenos Aires, ou a valse musette para Paris, então o mangas é o faia, o tanguero e o marlou.

No fundo, o que eu proponho é que se tenha passado com o grego mangas o mesmo que, por exemplo, se passou na mesma altura com o francês apache, que, começando por designar um grupo social específico da ralé parisiense, ganhou depois um sentido genérico e extravasou do francês para outras línguas, entre as quais o português (conheci o termo pela minha avó, nascida em 1919, e há até uma valsa portuguesa de 1915 com esse nome [3]). Como já disse, não sei como é que a designação pode ter chegado a Portugal (através de marinheiros?), mas parece-me certo que a fama dos mangas não se ficou pela Grécia.

Deixo-vos, para terminar as páginas sobre mangas na Wikipédia em inglês e em espanhol e um bonito rebético sobre os mangas de Votanikós, um bairro de Atenas.

Ζαχαριασ Κασιματησ: Ο Μαγκασ του Βοτανικου, 1934, (Zaharias Kasimatis, “Mangas de Votanikós”)


… e tangas

O dicionário Porto Editora em linha regista a expressão «coloquial» dar tanga a (alguém) com o significado de «divertir-se à custa de (alguém)» e o verbo «popular» tanguear com o significado de «troçar de (alguém) com aparente seriedade; dar tanga a». É uma definição que não me satisfaz, porque a tanga (de conversa) não existe só na expressão dar tanga, mas é antes um nome relativamente livre que se pode usar em frases como «Ele está na tanga, não vás nisso.», «Ena, aquele gajo é só tangas», «Grande tanga que ela te pregou!», etc. E, em vez de «troça», significa também (ou sobretudo) «patranha, ardil, intrujice» ou «conversa de chacha». Tanguear é «enganar, aldrabar, baratinar» — dar tanga, sim, senhor, mas com este significado. Já o dicionário da Academia de Ciência de Lisboa acrescenta este significado de «mentira» na expressão dar uma tanga, mas, como o Porto Editora, não tem para esta tanga uma entrada separada, nem lhe encontra uma etimologia diferente da palavra que eu creio apenas convergente e que refere uma diminuta peça de roupa[4].

Melhor está o Priberam, que separa a tanga-mentira da tanga-calção e a define como termo «informal» que significa «história fictícia e enganosa (ex.: isso é tudo uma grande tanga). = aldrabice, mentira, peta, treta.» Tenho muitas dúvidas, porém, que se deva juntar, como o Priberam o faz, esta tanga com a tanga que refere uma «moeda asiática de pequeno valor, usada na antiga Índia Portuguesa» e que vem de uma língua indiana (o sânscrito tangka, segundo o Priberam e o Porto Editora, ou o concani tang, segundo o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa). 

Parece-me muito difícil explicar como se passa da peça de vestuário a mentira (mas percebe-se bem estar/ficar/deixar alguém de tanga no sentido de «miserável, sem vintém»). Já a deriva semântica da moeda para a converseta parece fazer mais sentido (dar tanga como «dar algo [conversa, neste caso] sem valor»), mas há pelo menos uma coisa fundamental que fica por explicar com esta etimologia: a coincidência com o calão de Buenos Aires, o lunfardo. Acho provável (mais uma vez, sem ter certeza nenhuma) que esta tanga tenha uma origem diferente da tanga-peça de vestuário e da tanga-moeda indiana. Como já aqui referi uma vez, «o calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do caló (que dá a palavra calão, aliás) e tem também vários termos em comum com o lunfardo rioplatense». Não encontro referência a tanga no sentido de «mentira» nem de «troça» no dicionário da Real Academia Espanhola, mas encontro-a em dicionários online de lunfardo, entre os quais o do site Todo Tango. Eis as várias aceções de tanga em lunfardo (escuso-me aqui de traduzir):

Tanga (lunf.) Arreglo de un asunto; artilugio para obtener ventajas; componenda; negociado; estratagema // empleado de parque de diversiones que simula ser público y participa de los juegos acertando, para animar a otros a también hacerlo// (pop.) bíkini muy reducida en la pieza inferior// (delinc.) ayudante de un estafador o de un ladrón carterista// estafa, fraude; ventaja que se obtiene mediante ardid o engaño. ir de tanga (delinc.) Acompañar a un punguista en el momento que comete sustraccíones.  

Como se vê, a definição de tanga coincide com a que proponho em português e acrescenta-lhe ainda outros significados que tanto podem derivar da aceção de «engano, ardil» como, pelo contrário, estar na sua origem: os de «falso membro do público dos parques de diversões» e de «ajudante de vigarista ou carteirista». 

Agora, tendo em conta a maior riqueza semântica de tanga no calão de Buenos Aires que no calão português[5], não será de supor que o termo é originário do lunfardo e que está antes diretamente relacionado com tango, que é, na origem, música dos bairros populares, e com os tangueros, que são — ou foram — a malevaje (malandragem) de Buenos Aires? Não é por acaso que lunfardo, o nome do calão local, significa «ladrão». Note-se que, em português, tanguista tanto significa «mentiroso» como «bailarino de tango» e tanguear tanto quer dizer «dançar o tango» como «endrominar».

________________

Notas

[1] O dicionário grego acrescenta uma segunda aceção, que corresponde ao português barra, e que mangas não tem em português: «uma pessoa experiente com competências reconhecidas e aplaudidas»: Ele é mangas no seu trabalho.

[2] É importante referir aqui um outro grupo de rufias gregos, os koutsavakia (singular koutsavaki). Embora muitas vezes se apresente mangas como sinónimo de koutsavaki, há quem distinga os dois grupos e afirme que, com rigor, a descrição da estranha indumentária da malandragem urbana acima descrita é dos koutsavakia, que são imediatamente anteriores aos mangas e estão na sua origem. Ver por exemplo este artigo, ilustrado com «talvez a única foto de um autêntico koutsavaki [em 1880]» (em grego, terão de usar um tradutor automático)  ou este (em inglês). A verdade é que, nas fotos de ambientes de rebético dos anos 1930, os mangas parecem antes… faias!

[3] Esta valsa foi suficientemente conhecida para ter sido regravada e reeditada nos anos 70 ou 80, num disco da série Melodias de Sempre, pelo qual a conheci. Não deixa de ser curioso que a pessoa que carregou a música para o YouTube confunda os apaches, rufiões da época, com os índios apaches (embora o nome da tribo esteja, ao que parece, na origem do nome do gangue). Obviamente, o termo depressa foi esquecido em português.

[4] Curiosamente, os dicionários não se entendem sobre a origem da tanga-vestuário: o Porto Editora, o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, o Priberam, o Michaelis e o Aulete (ou seja, os dicionários portugueses) dão como étimo o quimbundo (n)ganga, «pano», mas outros dicionários propõem antes o tupi tanga, «tanga» — é o caso do Dicionário da Real Academia Espanhola e do alemão Duden.

[5] Alguns acusar-me-ão de estar a aplicar às línguas um princípio da genética evolutiva, segundo o qual a diversidade genética é maior na zona de origem de uma espécie, mas juro que não era essa a minha ideia. Se bem que, agora que falam nisso, não deixa de ser uma ideia a explorar… (Mais uma tanga, dizem vocês e provavelmente com toda a razão…)

[Ambas as imagens da Wikipedia, autores desconhecidos e domínio público.]