14/03/14

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Não sei se vos acontece o mesmo, mas sugerem-me muitas vezes (ou querem vender-me…) esquemas  para aumentar o tráfego nos meus sites, que é como quem diz o número de visitas a este blogue e ao meu glossário de moçambicanismos. Foi coisa que nunca me interessou. Se eu aqui vendesse alguma coisa de jeito, talvez valesse a pena, mas eu aqui só vendo a banha da cobra das minhas solitárias congeminações, que deixa pouco e que duvido que valha a pena publicitar… Seja como for, hoje em dia, se se quiser aumentar o tráfego de um site qualquer, há uma maneira mais fácil, mais rápida e mais eficiente que tudo o que nos queiram aconselhar ou vender: é pôr lá um artigo sobre o Acordo Ortográfico…

06/03/14

Mais um texto sobre a reforma ortográfica

Tenho dito que não sou especialmente a favor no Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), nem especialmente contra, mas, na prática, tenho-me revelado a favor, sobretudo porque me tenho sentido na obrigação de criticar, por incoerentes ou infundados, alguns argumentos dos seus detratores[1]. Eis um resumo das críticas que tenho encontrado e do que penso delas.

A alteração mais criticada no AO90 é o desaparecimento das letras etimológicas não pronunciadas, a maior parte das vezes referidas como “consoantes mudas”. Costumam misturar-se, nesta crítica, que é na maior parte das vezes apenas afetiva, argumentos que se contradizem uns ao outros. Assim, invoca-se muitas vezes o argumento de que é precisa, na grafia, uma marca da “abertura” das vogais átonas. Diz-se, por exemplo, que sem o p de concepção, conceção se lê forçosamente como concessão, isto é, com o e “fechado” ou “mudo”. Nunca vi esta preocupação relativamente à norma anterior, em que havia já várias palavras, algumas do vocabulário fundamental, em que não se marcava graficamente a abertura da vogal átona. Custa-me a perceber por que é que, se isso nunca foi problema antes, passou agora a ser problema. Nunca ninguém achou que se devesse escrever de outra maneira esquecer nem aquecer, porque é que projetar ou afetar se tornaram de repente problemáticos? É estranho. Um dos cavalos de batalha dos antiacordistas é o exemplo de espetadores em vez de espectadores, que muitos acham ridículo, senão revoltante, mas nunca vi ninguém indignar-se, pelas mesmas razões, perante pregadores. É estranho.

Uma objeção válida a esta alteração é que aumenta o número de vogais átonas abertas não assinaladas na escrita: antes do AO90, algumas vogais átonas abertas tinham uma marca dessa abertura, agora nenhuma a tem. É certo. E pode ser uma solução manterem-se as “consoantes mudas” que “abrem” vogais, mas isso não resolve o caso das vogais átonas “abertas” que já não tinham consoante a marcar a abertura. Conservar as “consoantes mudas” preserva, assim, uma incoerência que a nova grafia elimina. Uma solução óbvia para eliminar esta incoerência é recuperar e alargar o uso do acento grave como marca de abertura das vogais átonas abertas, mas uma proposta deste tipo seria, seguramente, muito mal recebida por toda a gente[2]

Há também quem vá ao ponto de defender que, mesmo nas sílabas tónicas, as “consoantes mudas” não devem desaparecer porque são uma marca tímbrica – por exemplo, que, sem c, projeto ou inseto se leem “naturalmente” projêto ou insêto, porque essa é a pronúncia “predominante” do -eto em final de palavra. Não só não é verdade (já falei disso aqui), como nunca vi preocupações, nem dessas pessoas nem de nenhumas outras, com as pronúncias “predominantes” de, sei lá, -edo ou -elo, por exemplo. É estranho. No caso de -edo final (que é diferente dos de -eto e de -elo finais), não há dúvida que, na grande maioria das palavras onde ocorre, esta sequência final se pronuncia -êdo. Dever-se-ia então marcar a abertura em credo, vedo, arredo, etc? Com quê? E por aí fora…

Evidentemente, prende-se com esta questão uma outra: a da influência da escrita sobre a pronúncia. Alguns detratores do AO90 defendem que, sem as marcas de abertura das vogais, as palavras passarão a ser mal pronunciadas, mas nunca explicam por que não aconteceu isso às palavras que sempre tiveram e continuam a ter átonas abertas sem essas marcas. Se alguém usasse o argumento sensato (nunca ninguém o fez em discussões comigo) de que, por muito que isso não se aplicasse a palavras que se ouvem frequentemente, podia aplicar-se a palavras que quase nunca se ouvem e que, por isso, se aprendem sobretudo através da escrita, eu poderia aceitar – mas isso reduz o problema a meia dúzia de palavras. Ainda assim, é muitíssimo duvidoso que essa influência se possa dar: por exemplo, nunca ouvi palavras menos comuns como colação ou ilação pronunciadas com aa fechados. A explicação é que as poucas pessoas que usam as palavras menos vulgares ouvem-nas pronunciadas por outras poucas pessoas que as usam; e só mesmo as palavras estrangeiras é que podem, às vezes, ser conhecidas por escrito sem nunca serem ouvidas. Quero, a propósito, acrescentar que não conheço trabalhos sobre este fenómeno e ficaria grato a quem me indicasse algum. O único exemplo que vi apresentarem sobre influência da escrita na pronúncia são os verbos em -scer, como nascer ou crescer, mas, sem mais provas ou bons argumentos, acho extremamente duvidosa essa tese. A sequência -sce- tem um história seguramente complicada, que pode bem ter levado a um apagamento do s em várias zonas do país (esse apagamento persiste nalgumas zonas, aliás), mas é duvidoso que a difusão de um eventual reavivar do s, se se pode dizer assim, se tenha feito por influência da escrita em sentido estrito.

A grafia tem efetivamente influência na pronúncia, mas não das línguas maternas: das línguas segundas e das línguas estrangeiras. Nesse sentido, é uma bênção desaparecerem consoantes não pronunciadas para quem tem de ensinar ou aprender o português como língua segunda ou estrangeira. Mas é esse o único problema que a nova escrita resolve. Para contribuir para resolver outros problemas de pronúncia, a escrita deveria ter um caráter eminentemente fonético e não tem (nem acho que deva ter), de maneira que, como não têm interiorizadas as regras fonético-fonológicas do português, os falantes do português como língua segunda ou estrangeira continuarão a pronunciar mal muitas outras coisas. Os oo que deviam ser /u/, por exemplo, etc., etc. ...

Também há quem critique o caráter demasiadamente “fonético” do AO90 (às vezes, as mesmas pessoas que defendem a necessidade de uma marca de abertura das vogais átonas, por contraditório que isso seja), dizendo que não se pode deitar fora a História da língua ou até que algumas palavras do português passam, assim, a ter uma escrita diferente das palavras com o mesmo étimo noutras línguas. Mas não explicam que critérios se devem seguir na decisão de que letras etimológicas manter. Curiosamente, nunca vi ninguém defender, nem antes do AO nem depois, producto, fructo, escripto ou dictado (já nem falo de th, ph e y, e duplos pp, mm, nn, tt, ff, etc.). Nem sequer do nome contracto… Enfim. Além disso, as seleções de palavras internacionais e das línguas em que elas são comparadas nunca é imparcial. E o italiano não entra nunca, porque estas consoantes não existem em italiano (e noutras línguas românicas menos conhecidas). E elas não existem em italiano pela mesma razão que o AO90 as elimina: deixaram de se pronunciar.

Às vezes, critica-se também o desaparecimento das marcas de timbre do antigo pára, terceira pessoa do singular do presente do indicativo de parar, que se tornou homógrafa da preposição para. É certo que o desaparecimento do acento faz confusão a quem a ele está habituado (para mim, foi muito difícil deixar de o usar), mas há que reconhecer que faz pouco sentido ter uma marca tímbrica deste tipo quando desapareceram todas as outras. O hábito, pois, o malvado hábito… Mas uma pessoa habituada a não usar o acento nunca sentirá falta dele. Parecem-nos estranhas sequências como “para para pensar”, mas, convenhamos, não é uma sequência comum por aí além, além de que, com alguma boa vontade, encontramos sequências do mesmo tipo com outras expressões que perderam as marcas tímbricas: eu, por exemplo, tenho um filho que se pela pela bola[3]

E guardei para o fim o que mais estranho: a identificação de língua com ortografia. Dizem que não se pode decretar mudanças na língua ou que o acordo prejudica a língua, que defender a antiga ortografia é defender a língua, eu sei lá. Mas a língua e a ortografia não são a mesma coisa, longe disso. A língua é um sistema complexo de relações entre sinais e noções de vários tipos que temos na cabeça, que não interiorizamos pela escrita e que ninguém comanda. A escrita é uma convenção, que se pode alterar como e quando quisermos, sem que isso afete a língua. Durante muito tempo, houve muitas línguas que não se escreviam, para as quais não estava fixada uma transcrição, e não eram, por isso, menos línguas que as outras. Há línguas que se podem escrever com mais que um alfabeto e, às vezes, com alfabetos e sistemas de escritas não alfabéticos. Discutir ortografia deveria ser discutir a lógica de um sistema, reduzido e controlado, de transcrição de outro sistema muito mais complexo e muitíssimo mais vasto, a língua. É claro, pode chamar-se à discussão a tradição e o mais que se achar que se deve, mas propor uma reforma ortográfica não é, mas nem de longe nem de perto, propor seja lá que alteração for na língua. Nem que se passasse a escrever com alfabeto khmer a língua era afetada. Custa-me perceber por que custa perceber isto…

No resto, ninguém está mesmo interessado. Não que não haja mais coisas a discutir, mas ninguém está interessado em discutir hífenes e tremas, prefixação e sufixação, aglutinação e justaposição (se calhar, ainda faço eu um textozito sobre isso, um dia destes.), até porque muitas pessoas não conhecem nem as antigas nem as novas regras e escrevem como lhes apetece as palavras compostas…

A conclusão do que tenho visto é a seguinte: há poucas pessoas interessadas em discutir o AO90. Parece-me impossível, aliás, que alguém que queira mesmo refletir sobre a ortografia do português e discuti-la possa estar completamente de acordo com a norma anterior ou com a nova[4]. A maior parte dos críticos explica, de forma normalmente atabalhoada, quando não contraditória, porque não gosta (é o termo) do desaparecimento das “consoantes mudas” e pronto. Quando se argumenta a favor desse desaparecimento, os antiacordistas acabam por responder muitas vezes (muitas vezes…), que sim, pode ser incoerente, mas querem continuar a escrever como aprenderam, não estão para alterar um hábito velho. Convenhamos que, por compreensível que seja a atitude, é uma argumentação um pouco fraca, para não dizer que não chega a ser argumentação. Alguns vão ao ponto de chamar à conversa Camões ou Pessoa, por exemplo, para defender uma ortografia que o primeiro nunca conheceu, obviamente, e que o último recusava...

O processo foi pouco transparente e não incluiu um número suficiente de instituições? Não há necessidade da reforma? A maior unificação da ortografia não chega para unificar as diversas variantes do português? Tudo isto se pode e deve discutir, mas nada disto tem relação com as questões ortográficas concretas que se discutem. É claro, pode sempre recusar-se qualquer reforma e até pode optar-se por uma grafia ilógica e complicada, como a do francês ou do inglês, sem que daí venha mal maior ao mundo. Mas não foi isso que se fez em 1911 e a questão para mim é que quem aceita a grande reforma de 1911, que foi incompleta, deveria querer levar o seu espírito até ao fim – independentemente de como isso unifica ou não a escrita nos países de língua portuguesa. Alguns pontos do AO90 são um avanço nesse sentido.

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[1] E já não falo daqueles que se limitam a espalhar informação falsa, dizendo que o c de facto desapareceu ou que desapareceram os acentos nas palavras esdrúxulas. A esses, que não conhecem o AO90, só se pode dizer: leia o acordo antes de o criticar, sim? Não acredito que seja por má fé que espalham essa falsa informação, mas não é de modo algum aceitável que se critique o que não se conhece, muito menos o que não está no que se desconhece…
[2] A grafia portuguesa – e a grafia do português em geral – é uma grafia fonológica e não fonética, isto é, uma grafia que dá conta do sistema e não de como as palavras são realmente pronunciadas. Para dar um exemplo simples e de forma simplificada, comer escreve-se com o e não com u, porque é um o que existe no sistema, como se pode verificar em como ou comes. Em Portugal, existe uma regra fonética que funciona na cabeça de todos os falantes que diz que a língua se eleva e recua de cada vez que um /o/ não é acentuado, passando esse /o/ a pronunciar-se [u]. No Brasil, esta regra só se aplica ao /o/ que está depois da sílaba tónica, pelo que o o de comer tem uma pronúncia diferente: [o]. Mas, como o elemento do sistema é o mesmo, pode escrever-se igual no Brasil e em Portugal. O espírito da reforma ortográfica de 1911 foi passar de uma lógica essencialmente etimológica a uma lógica essencialmente fonológica, mas ninguém advoga uma ortografia fonética, que separaria completamente o português do Brasil do português europeu (a norma da pronúncia africana é instável, mas a norma usada na comunicação social é ainda semelhante à norma europeia). Agora, é discutível até que ponto a oposição entre as vogais átonas abertas e as suas correspondentes fechadas tem caráter fonológico, mas é uma discussão complicada, que deixo aqui de lado.
[3] Pois, eu sei: não quis exagerar, e pela é mesmo uma maneira rara de dizer bola, mas pensei o mesmo que vocês pensaram agora: «Mais giro ainda era “tenho um filho que se pela pela pela”!».
[4] Também não é, de modo algum, necessário estar completamente de acordo nem com a antiga grafia nem com a reforma para escrever português segundo a norma. Sempre houve e continua a haver coisas que não acho que se deviam escrever como as escrevo, mas escrevo-as assim porque é essa a norma. Evidentemente, depende do contexto. Há tipos de texto em que cada um é livre de escrever exatamente como lhe apetecer. Em última análise, cada um é sempre livre de escrever como lhe apetecer, mas tem de se sujeitar a que, em certos textos, lhe sejam corrigidas certas formas para as harmonizar com a norma vigente.

Um texto sobre estranhos pedaços de vida que se encontram em livros em segunda mão

A quase totalidade das fotografias que conservo são fotografias que, de uma forma ou de outra, documentam a minha vida. Penso que sucederá o mesmo convosco. Mas tenho também, algures no meio das minhas fotos, várias outras que não têm nada a ver com a minha vida e que guardo antes por serem mistérios, focos de sedução e de magia. Algumas, nem sei de onde vêm e o fascínio que têm é precisamente serem misteriosas apenas, pedaços impressos de vidas que desconheço completamente. De todas elas, a que aqui nos interessa é uma que me veio numa bíblia em francês comprada em segunda mão: vê-se três senhoras de meia idade, vestidas de uma forma de tal maneira clássica que seria impossível identificar a época em que a fotografia foi tirada, se não estivesse com elas um jovem alto, com um cabelo comprido, uns bigodes desenhados até ao queixo, umas calças à boca de sino e uns sapatos de tacão alto que só existiram nos anos setenta do século vinte. A fotografia tem escrito atrás, em letra redonda de portuguesa, «Senhor, ensina-me a ser instrumento da tua Graça», e a data, «16.VII.1987», que não só está escrita de uma forma pouco normal em Portugal como também é, com toda a certeza, muito posterior à fotografia. O livro pertenceu a uma tal Maria da G. Galhardo, moradora na Travessa da Senhora da Glória, 26, 1.º Esq. Nunca encontrei desenvolvimento para o G. abreviado que não fosse Graça como a do Senhor, de que ela queria ser instrumento, ou Glória, como da Senhora (curiosamente, a Travessa da Senhora da Glória, não sei se sabem, é na Graça…).
Até agora, o parágrafo anterior servia apenas de introdução a um conto meu chamado “Valdemar, o marinheiro”. Agora, passa a servir de introdução também a este texto, que é sobre estranhos pedaços de vida que se encontram em livros em segunda mão.

A Bíblia de que falo, comprei-a na Feira da Ladra e por uma ninharia, se bem me recordo, mas não me lembro já por quanto. É uma tradução ecuménica francesa, impressa no Canadá, e tem uma grande quantidade de notas sobre dificuldades de tradução e questões históricas e culturais, além de remissões constantes de umas para outras partes que tratam temas ou acontecimentos relacionados. É do melhor que vi até hoje para quem, como eu, encara a Bíblia como um conjunto de documentos históricos e obras literárias, e não como uma recolha de revelações divinas.

A história da fotografia encontrada na Bíblia não é completamente fictícia; mas, como seria de esperar, também não é exatamente como a descrevo no conto. Não são três mulheres e um homem que se veem na fotografia, mas sim duas mulheres e dois homens. Além disso, a frase “Senhor, ensina-me a ser instrumento da tua Graça” não está escrita nas costas da fotografia, mas sim na primeira página da Bíblia e a data que tem é 19.VII.80. Numa das guardas, estão escritas com a mesma letra um nome, uma morada e outra data. Nem o nome nem a morada são os que refiro no conto. A morada é da Estrada da Luz. Luz não é sem relação com Graça e com Glória, claro, mas a Estrada da Luz fica a uns quantos quilómetros da Graça. A outra data é 24.III.1980. Estranho, não é?, duas datas diferentes a duas páginas uma da outra?

A foto que vinha dentro da Biblia é a que deixo aqui a seguir e tem a data 15.05.86. Achei que a fotografia era fundamental neste texto, mas cortei as caras, porque não tenho autorização das pessoas fotografadas para a publicar – nem tenho, bem entendido, maneira de a pedir – e porque ela se enquadra assim melhor no texto, que é sem grande cabeça, convenhamos.

Uma coisa assim faz-nos sonhar. É como encontrar uma mensagem numa garrafa trazida pelo mar em que não se identifique remetente nem proveniência. Também é como ficar, sem querer, na posse de uma pedaço de vida alheia a que, em princípio, não temos direito. A reação mais racional é, provavelmente, deitar fora a foto e não pensar mais no assunto. No extremo oposto está a minha: interrogar-se sobre quem são as pessoas da fotografia e o que estão a fazer, imaginar como se poderia contactá-las, dizer-lhes que temos a foto, que veio numa Bíblia, que estamos, claro, dispostos a devolvê-la, se a quiserem, quase que pedir desculpa do nosso, como dizer?, voyeurismo… Procurar o remetente desconhecido da mensagem na garrafa, enfim, para lhe contar onde ela foi parar e às mãos de quem. Ou escrever um texto de blogue sobre o assunto, também pode ser. Estranhar é o meu divertimento preferido.

No sábado comprei, numa loja de coisas em segunda-mão, uma versão de Moby Dick para jovens. Quero propô-la à minha filha mais nova, que gosta de ler. Talvez ela passe também, não sei, pelo deslumbramento que Moby Dick me causou – primeiro, no fim da infância, quando conheci a história e as personagens, numa versão destas simplificadas; e, sete ou oito anos mais tarde, quando li enfim o romance em versão integral. Mas isto é um excurso. O que interessa aqui é que o livro trazia lá dentro uma fotografia e uma ficha de enfermeira.

Diz nas costas da fotografia, em dinamarquês: “A primeira coisa que se nota são duas plantas chamadas plantas de cânhamo que enchem o cenário”. A letra e os erros ortográficos parecem de adolescente, mas, claro, é impossível saber. Também é impossível saber se a rapariga que se vê na fotografia é a mesma a que diz respeito a ficha cor-de-rosa que vinha mais adiante. É uma ficha da enfermeira que visita os bebés ao domicílio e diz respeito aos primeiros quatro meses de vida de uma menina. Vê-se que nasceu em 1963 e que a mãe residia nessa altura em Copenhaga, onde fazia um estágio numa livraria. O nome da mãe e da bebé e o seu apelido são demasiado corriqueiros para que valha a pena, sequer, fazer uma pesquisa em Google.

As coisas que os livros em segunda-mão trazem lá dentro e o estranhamento que elas nos causam… Estranhar, não sei se já vo-lo disse, é o meu divertimento preferido.

11/02/14

Laticínios e mais laticínios e elogio moderado de (alguns) estrangeirismos [Crónicas de Svendborg #18]

aqui falei da dificuldade de traduzir para uma língua termos que designam realidades desconhecidas dos falantes dessa língua. A solução costuma ser adotar simplesmente o termo da língua de origem, adaptando-o apenas à estrutura fonética da língua alvo. É um dos mecanismos mais produtivos na criação de neologismos, estou em crer. Se nunca se viu batatas, importa-se com a planta um nome taino; se nunca se viu anoraques, passa a designar-se a peça de vestuário com o seu nome gronelandês; se nunca se viu uma chita, passa a designar-se o animal com o seu nome hindi; se nunca se viu iogurte, importa-se com o produto o seu nome turco, e por aí fora.

Sempre se falou de coisas ainda sem nome na língua em que se fala, mas hoje fala-se mais ainda, porque há muito mais comunicação entre os lugares quase todos do mundo. Os conceitos novos nas áreas técnicas chegam-nos fresquinhos (como sempre chegaram) ainda na língua em que foram criados, sem serem filtrados por propostas de tradução dos especialistas dessas áreas que têm a mesma língua que nós. Em jornais e revistas, são-nos apresentados em línguas exóticas (como sempre foram!) nomes de bichos, plantas e artefactos culturais. E há (como sempre houve) algumas destas palavras estrangeiras que passam a ser usadas com maior ou menor regularidade.

Muitas vezes, há resistência a estas importações, e é natural, porque as pessoas estão fartas do uso desnecessário de palavras estrangeiras. É que também há muito quem use barbarismos que ouviu sem ter o cuidado de verificar como determinada noção, às vezes mais que traduzida, se diz na sua língua. E, como não é fácil decidir quando é ou não preciso recorrer ao empréstimo, acontece então que se vá longe demais nesta recusa do estrangeirismos. Dou a palavra a Cláudio Moreno:
Faço questão de frisar (…) que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” – e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois – o iogurte e a coalhada – são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha...
Também é verdade que as pessoas, lexicólogos e gramáticos incluídos, não têm de ser gastrónomos, nem zoólogos nem botânicos. Podem é ter cuidado. E abrir mão do nacionalismo linguístico, chamemos-lhe assim, quando for caso disso. Notem que a minha intenção aqui é mais lançar a confusão – e mostrar que a realidade é suficientemente complexa para justificar importações, às vezes realmente necessárias. Dou exemplos com nomes de laticínios, porque a outra intenção deste texto é apresentar alguns laticínios destas terras ou que por aqui se encontram e é por isso que faz parte das Crónicas de Svendborg.

Adotámos e adaptámos portanto o yoğurt turco em toda a Europa, já há muito tempo, e fizemos bem, mas isso não resolve todos os problemas. Acho que a questão não se porá muito em Portugal, mas pode ser preciso traduzir para outra língua palavras como ymer, por exemplo, filmjölk ou skyr[1] ou muitos outros produtos do mesmo tipo… Muitos pensarão: “Tanto preciosismo para quê? Se é parecido com iogurte, chama-se-lhe iogurte – ou outro nome próximo que se use na língua para que se traduz.” Pode ser. Até ao momento em que alguém tenha de explicar a diferença entre os dois produtos, ou dizer, simplesmente “Que chatice, não há iogurte no frigorífico, só há ymer e eu só gosto de iogurte, detesto ymer”. (Pode ser uma personagem de uma narrativa de ficção, mas também pode ser o meu filho, que adora iogurte e detesta ymer… Já a minha filha mais nova prefere tykmælk[2] e não é grande fã de iogurte.) Uma boa descrição destas dificuldades é a do primeiro parágrafo da entrada “Quark” da Wikipedia em inglês (traduzo eu, deixando por traduzir alguns nomes de laticínios, quando acho que devo):
Quark é um tipo de laticínio fresco. É feito aquecendo leite fermentado até se atingir o grau pretendido de coagulação (desnaturação) de proteínas lácteas e depois é coado. Os dicionários [ingleses] traduzem normalmente o termo como curd cheese ou cottage cheese, embora a maior parte das variedades comerciais de cottage cheese sejam feitas com rennet, ao passo que o quark tradicional não é. É mole, branco e fresco, semelhante a alguns tipos de queijo fresco[3]. É diferente do ricotta porque o ricotta (em italiano: "recozido") é feito de soro de leite aquecido. É semelhante ao chakka indiano.
Usa-se muitas vezes natas azedas para traduzir sour cream. Mas sour cream é um laticínio específico e que quem lê natas azedas pode pensar que é de nata azeda, nata que azedou, que se trata e não é. É nata cuja fermentação foi controlada, com bactérias específicas. Bom, eu conheço uma receita mesmo com natas que azedaram, uma espécie de soupe de chalet[4] que aprendi a fazer na Suíça, mas não é a isso que se referem as receitas que se encontram normalmente. Há vários tipos de sour cream, mais ou menos gordas e mais ou menos azedas, mas, no geral, nem sequer são azedas por aí além, pois não? Na Dinamarca (como noutros países), chama-se à sour creamcrème fraîche! E não deixa de ser curioso: se se traduzir do francês usando a mesma lógica que se usa para traduzir do inglês, temos nata fresca em vez de nata azeda – duas expressões que parecem ter significados bastante diferentes... Mas atenção: a sour cream inglesa é diferente da americana; e, em francês, crème frâiche pode designar dois produtos diferentes – é claro que é a crème fraîche espessa que é sour cream e não a líquida, a fleurette.

É então necessário usar estas palavras estrangeiras? Depende do (con)texto. Em (con)textos em que não é o rigor da descrição do produto que importa, pode adaptar-se tudo ou quase tudo e, às vezes, a tradução só ganha com isso. Pode dizer-se, por exemplo, em português, que “John disse que não queria natas no bolo de maçã, que as natas lhe caíam mal”. Só natas chega, não vale a pena dizer que eram azedas. Até chantili se pode dizer neste contexto, juntando às natas, na tradução, açúcar que não tinham no original. Mas quando se quiser mesmo falar de comida, do sabor, do produto, usem-se os estrangeirismos, explicados se se julgar necessário, só para não enganar ninguém.
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Bónus: Completamente grátis e um bocadinho a despropósito, deixo-vos aqui um link para um quadro muito informativo sobre a percentagem de lactose em diversos laticínios (façam favor) e um mapa da distribuição da intolerância à lactose no mundo (tirado daqui). Os dados variam um pouco conforme as fontes, mas nunca andam muito longe disto.







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[1] Comi ontem skyr pela primeira vez; é muito mais parecido com iogurte que ymer, mas é mais azedo e a consistência também é diferente, muito mais cremosa.
[2] A entrada da Wikipedia em inglês para que o link remete diz que este laticínio é semelhante ao leitelho, o produto lácteo que sobra do fabrico de manteiga, mas a verdade é que, em sabor e, sobretudo, em consistência, os dois produtos são diferentes – leitelho bebe-se, tykmælk não. Não sei porque não há leitelho comercializado em Portugal, uma bebida tão boa.
[3] Traduzi fromage blanc por queijo fresco, para simplificar, mas quem conhece queijo fresco e fromage blanc sabe que não são o mesmo produto…
[4] Deixo soupe de chalet em francês, com as minhas desculpas, porque é uma sopa específica, não apenas uma sopa feita num chalé – quanto mais não seja porque os chalets em questão são cabanas de pastores)

08/02/14

In memoriam

Não sei quem disse, mas ouvi algures: a morte é um lugar estranho. Não é nada. Bem que a gente se quer disso convencer, fazer dela sítio que, credo!, nunca pisamos, ou só pisamos em tempos que nunca nos hão de chegar, arrepio que só aos outros diz respeito. Mas a verdade, infelizmente tão fácil de comprovar, é que é ela o lugar dos nossos passos todos, quando percorremos contentamentos e morrinhas, rotinas públicas ou celebrações da nossa intimidade. A morte não é nenhum lugar estranho. É este lugar, pensem bem, onde nascemos e vamos vivendo, que conhecemos como a palma da mão. Bem vistas as coisas, o único lugar que conhecemos, não é? Que a morte se disfarce de lugar estranho é truque de cenografia. Não nos deixemos enganar por paisagens de papelão.
 ***
A morte de cada um dos outros é uma das formas que toma a nossa morte, essa que nunca nos larga e que, como dizia António Joaquim Lança, que nela não cria, só morre quando um dia a vida morre. E quanto mais os outros fazem parte de nós, mais nossa é a morte deles, como todos sabem.

Morreu anteontem o meu amigo Tozé. Vocês não o conhecem e este texto é mais para mim que para vocês, nisso terão de me desculpar. Não poder ir ao funeral dos que lhes são queridos é um peso para quem tem as pessoas de quem gosta espalhadas por sítios distantes. É um peso não poder afrontar de perto a materialidade da morte, deixar os nossos mortos por enterrar, saber só de longe – sem o ter sentido, na mais primordial aceção da palavra – que o coração lhes parou. Deixá-los assim, vagos, a pairar em nós.

Já aqui falei do Tozé, quando falei da Floresta de Oma
(… Foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs: “É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!” Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir.)
…e falei dele no post anterior.
(Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.)
E gostava agora de saber fazer um obituário regular, mas mais bonito que os obituários regulares, a contar o Tozé, vida e alma, mas sinto-me tão incapaz nessa tarefa…

Entre muitas outras coisas, o Tozé deixou-me Gary Snyder, João da Cruz e Van Morrison e homenageio com eles o meu amigo que vocês não conhecem:
ele sabia o que tem de se saber para ser poeta
(… os seis sentidos que temos, com a mente atenta e elegante … sonhos. os ilusórios demónios e os ilusórios deuses resplandecentes … e depois amar o humano: mulheres maridos e amigos … exaustão, fome, repouso. fome, repouso. … a iluminação solitária e silenciosa … o verdadeiro perigo. apostas. e o limiar da morte);
sabia mais que saber apenas
(Estaba tão embebido, / tão absorto e alheado, / que ficou o meu sentido / de todo sentir privado / e o espírito dotado / de entender não entendendo, / toda a ciência transcendendo);
e sabia bem que no amor se renasce.



E foi espalhando à sua volta isso que sabia. Ensinou-me que a vida é essencialmente sofrimento e que é dessa constatação que devemos partir para a tentar melhorar. E dói-me muito que tenha morrido.

28/01/14

Suicídio: o direito a renunciar e o dever de persistir

Lembro-me de um amigo me falar, há muitos anos, de um comunicado de uma célula de um partido ou de um grupo político, já não me lembro qual, em que se criticava o suicídio de um militante como abandono da luta dos seus companheiros – ou qualquer coisa nesse sentido. Durante muito tempo, considerei esse episódio um exemplo extremo de como a obsessão ideológica pode desumanizar: como era possível ser assim insensível a um desespero tão extremo que levava uma pessoa a desistir da vida?

Na altura, achava que o suicídio não podia ser condenado. A única condenação do suicídio que  conhecia era a condenação religiosa (só Deus pode dispor da vida) e considerava agora que, recusando esse pre(con)ceito, o suicídio era uma questão pessoal – que cada qual tinha, precisamente, o direito a dispor da sua vida como quisesse. Foi esta a minha posição relativamente ao suicídio durante muito tempo.

Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.

A ideia, descobri depois, é um dos argumentos clássicos contra o suicídio – ou, de forma mais geral, contra o sacrifício da vida. É em nome do dever para os que ficam, por exemplo, que, n’Os Miseráveis de Victor Hugo, Combeferre incita os homens a abandonar a barricada, em vez de ficarem para serem massacrados:
Vá lá, é preciso ter um bocadinho de piedade. Sabem do que se trata qui? Trata-se das mulheres. Vejamos. Há mulheres, sim ou não? Há crianças, sim ou não? Há ou não há mães, que empurram os berços com o pé, rodeadas de uma catrefada de miúdos? Levante a mão quem nunca viu um seio que amamenta. Ah! Vocês querem deixar-se matar, eu também, eu que vos estou aqui a falar, mas não quero sentir à minha volta fantasmas de mulheres que sofrem. Morram, muito bem, mas não façam morrer os outros. Suicídios como este que aqui se vai cometer são sublimes, mas o suicídio é estreito e não se deve alargar; e, se atinge o próximo, o suicídio chama-se assassínio.
Há outras perspetivas da questão do suicídio e outras maneiras de o considerar assassínio. Pode-se considerá-lo uma questão de saúde pública, por exemplo. Tenho a impressão de que muita gente não tem uma noção realista da amplitude do fenómeno suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “morrem anualmente de suicídio quase um milhão de pessoas”, o que “corresponde aproximadamente a uma morte de 40 em 40 segundos”. “O suicídio é, nalguns países, uma das três principais causas de morte de pessoas entre os 15 e os 44 anos e a segunda causa de morte no grupo dos 10 aos 24 anos; estes números não incluem tentativas de suicídio, que podem ser muito mais frequentes que o suicídio (10 ou 20 vezes mais frequentes, ou mais, segundo alguns estudos). No mundo inteiro, calcula-se que o suicídio representasse 1,3% da morbilidade global total em 2004.” Morre mais gente de suicídio que de homicídio ou na guerra.

Em Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It[1], Jennifer Michael Hecht afirma que “a influência suicida é suficientemente grande para o suicídio poder ser também considerado homicídio. Quer lhe chamem contágio, focos de suicídio ou criação de um modelo sociocultural, as nossas ciências sociais demonstram que suicídio causa mais suicídio, tanto entre os que conheciam a pessoa como entre os estranhos que se identificavam com a vítima.” Fala-se há muito tempo do efeito Werther. A novela de Goethe, cujo protagonista se suicida, terá desencadeado, ao difundir-se na Europa, uma vaga de suicídios[2]. É sempre assim, dizem alguns: suicídios de pessoas célebres (não forçosamente de carne e osso, a julgar pelo caso de Werther) causam suicídio. Após o suicídio de Marilyn Monroe, por exemplo, houve 200 suicídios mais que a média para essa época do ano. Mas não só os suicídios de pessoas célebres são contagiosos, diz Hecht: há numerosos estudos que indicam que, se uma pessoa conhece o suicídio, se esteve em contacto com um suicida ou com a ideia de suicídio, tem mais possibilidades de vir a cometer suicídio.

Há vários argumentos contra o suicídio, além do que referi atrás. Quero discutir um deles, o argumento utilizado por Hecht que assenta fundamentalmente na ideia de compromisso com a humanidade.
Somos humanidade, diz Kant. A humanidade precisa de nós porque nós somos humanidade. Kant acredita no dever e considera manter-se vivo um dever humano essencial. (…) Os seres humanos têm de se compreender como uma força do bem, uma força da moral. Como seres humanos, cabe-nos preservar esses ideais. (…)
É um erro moral intelectual e moral considerar a ideia de suicídio uma escolha aberta que cada um de nós é livre de fazer. Os argumentos contra o suicídio pedem-nos que nos empenhemos no projeto humano. Pedem à humanidade que largue os punhais e as taças de cicuta e se afaste deles para sempre. (…)
Rejeitar o suicídio é um ato enorme numa comunidade. Também penso que muda o universo. Ou o universo é um lugar frio e morto com uma colónia de seres sencientes mas divididos, tentado criar sentido cada qual por si, ou estamos num universo vivo, com uma colónia de seres sencientes, cujos membros fizeram uns com os outros um pacto de perseverar.
No fundo, Hecht parece concordar com os autores do comunicado que referi no início deste texto: suicidar-se é criticável porque é abandonar (a luta d)o resto do grupo, o seu compromisso com ele – só que o grupo que se abandona é mais abrangente. É-me difícil perceber se se deve ler, nas entrelinhas destas proposições, uma acusação concreta de falta de solidariedade, ou apenas de fraqueza, talvez até cobardia[3]. Seja como for, e apesar de aceitar vários argumentos contra o suicídio, continuo a ter dificuldade em aceitar esta ideia do compromisso com a humanidade.

Aceito que existe, de facto, numa maioria esmagadora das ações humanas, um compromisso com a espécie no seu todo, uma solidariedade da espécie que faz realmente parte da natureza humana – e, provavelmente, da natureza de muitos outros animais; mas vejo mal como se faz deste compromisso um dever. Que se combata o suicídio como se combate qualquer causa de morte parece-me natural. Se se acreditar que, de cada vez que alguém se suicida, isso aumentará as possibilidades de outro alguém se suicidar, deve condenar-se o suicídio como ação contra pessoas concretas – embora indeterminadas ou virtuais. Até aqui, o argumento funciona. Mas pode-se ir mais longe? Pode falar-se de um compromisso, um dever? Cabe-nos perseverar, preservar a força moral que somos. Se o meu dever para com a humanidade é apenas manter-me vivo, não posso ser criticado se me mantiver vivo comendo e dormindo apenas – o que, para a humanidade tem o mesmo resultado que eu não existir[4]. Por isso, a proposta de compromisso com a espécie, a proposta de manter-se vivo para preservar uma força moral, só parece fazer sentido se se definir que há o dever de contribuir ativamente para a humanidade. É possível, mas, como em todas as propostas de uma moral positiva, de um dever de agir bem, é muito difícil, se não impossível, definir que contribuição ativa deve ser essa. Se tiver, à partida, a capacidade de inventar a cura para uma doença e não o fizer, porque decidi não estudar medicina, e não salvar, por isso, muitas vidas humanas, estou a faltar ao meu dever para a humanidade? O compromisso com a humanidade, o dever de me preservar como força moral é, para mim, um dever demasiado vago, demasiado grande…
____________________

[1]
Jennifer Michael Hecht, Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It. New Haven: Yale University Press, 2013. Não li o livro, mas apenas o artigo de Maria Popova sobre ele, no site Brain Pickings. O artigo (3455 palavras) é muito completo e aconselho vivamente a sua leitura. Foi esse artigo que me motivou a escrever este texto.

[2]
Nicholas Christakis e James Fowler têm feito muitos trabalhos sobre redes sociais e defendem a ideia de que o que se difunde não são hábitos (isso faria com que os contágios fossem mais lentos do que são), mas normas – ideias do que é aceitável, por exemplo. Ver, por exemplo, a apresentação de Christakis no site Edge do seu trabalho sobre a difusão da obesidade. É de notar que os trabalhos de Christakis e Fowler têm sido criticados, nomeadamente pela metodologia que usam – para um resumo das dúvidas relativamente à metodologia e conclusões de Christakis e Fowler ver, por exemplo, um texto de David John no Slate.

[3]
É o que pode indiciar, por exemplo, o título do artigo de Hecht em The American Scholar, “Viver é um ato de coragem”. Mas talvez esteja a ver fantasmas – é certo que esta estratégia retórica não implica forçosamente que “não viver é cobardia”. Este artigo, em que Hecht defende as mesmas ideias que encontramos resumidas no artigo de Maria Popova atrás referido, centra-se nos soldados americanos, entre os quais há “uma tremenda crise: há mais soldados a suicidar-se que a morrer em combate, e 52% dos suicidas nunca foram colocados em zonas de combate. Em 2012, suicidou-se em média um soldado por dia. Entre os veteranos, a taxa de suicídio atingiu, nesse ano, a média de 22 por dia (!!!). Esta tendência não tinha declinado em meados de 2013, na altura em que o artigo foi escrito.

[4]
Exceto, sublinho, no facto de não levar outros a suicidarem-se, que é até onde acho que o argumento chega.

23/01/14

Fáçamos então um supônhamos

Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.

Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).

Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).

E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.

***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…

Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[2]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: uma busca em Google mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar de ser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.

Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.

Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.

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[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo.

[2] Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:

Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *sunhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).

E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa por m em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.

[Ligeiramente modificado a 17 de julho de 2023]

15/01/14

I’ve got a bike, you can ride it if you like

Há muito que se discute a eficácia ou a necessidade do uso obrigatório de capacete para os ciclistas e, pelo que tenho visto, continua a não haver consenso na matéria. Não há consenso, mas há um bom senso que me chamou a atenção e que quero elogiar: o de reconhecer dificuldades e falta ou impossibilidade de controlo nos estudos sobre o assunto. Estou a referir-me concretamente a um artigo de Ben Goldacre e David Spiegelhalter no BMJ*, que discute, em grande parte, um estudo sobre o efeito da legislação canadiana de uso obrigatório de capacete na admissão hospitalar de vítimas de acidentes de bicicleta com lesões na cabeça, concluindo (o estudo) que este efeito “parece ter sido mínimo”**.

O estudo em análise, que, segundo os autores do artigo, é superior a muito do que foi feito antes, parece, à primeira vista, ir contra as conclusões de outros estudos. Estes estudos têm, porém, alguns problemas metodológicos:

Por um lado, se o grupo de controlo são ciclistas admitidos com outras lesões resultantes de acidente, este grupo depende da ocorrência de acidentes, partindo-se, portanto, do pressuposto de que o uso de capacete não altera o risco geral de acidente – o que pode não ser certo.

Por outro lado, há variáveis não medidas e que talvez nem possam medir-se: as pessoas que usam capacete podem ser diferentes das que não usam – podem ser mais cuidadosas, por exemplo, e, por isso, menos suscetíveis de sofrer acidentes, com ou sem capacete; e as pessoas que usam capacete só porque são obrigadas pela legislação também podem ser diferentes – podem não o usar corretamente, porque apenas lhes interessa cumprir a lei e evitar uma multa; e podem alterar o comportamento ao usarem o capacete, através do fenómeno de “compensação de risco” (“uso capacete, posso ter menos cuidado”), que está bem documentado.

Além disso, pode ser que, como documentado num estudo, os automobilistas deem mais espaço a ciclistas sem capacete.

Mesmo que os capacetes tenham realmente influência na taxa de lesões na cabeça, porém, isso não implica necessariamente que a obrigatoriedade tenha efeitos positivos gerais como política de saúde pública, porque pode ter efeitos indiretos indesejáveis. Um estudo recente identifica dois grupos de ciclistas: um grupo rápido, com muito equipamento, incluindo capacetes; e um grupo mais lento, sem muito equipamento. Segundo este estudo, o uso obrigatório de capacetes pode fazer diminuir o segundo grupo. Ora sabe-se que os efeitos positivos de andar de bicicleta são maiores que os efeitos negativos, os acidentes. (Esta vantagem, porém, depende muito do risco absoluto de acidente: qualquer redução real do risco relativo de lesão na cabeça tem um grande impacto nos casos mais comuns de choque, os que se dão com crianças.)

Há efeitos indiretos ainda mais complexos, por exemplo, a chamada Lei de Smeed de “segurança no número”: quanto mais ciclistas há (maior densidade na estrada), mais seguro é andar de bicicleta.

Além de todas estas questões, há uma questão propriamente política: há quem considere que o uso obrigatório de capacete implica pôr a responsabilidade no indivíduo, quando podem ser tomadas outras medidas de caráter coletivo. Costuma dar-se o exemplo da Dinamarca e dos Países Baixos, com índices baixos de acidentes, apesar de a grande maioria dos muitos ciclistas que aí existem não usar capacete. A explicação parece estar nas infraestruturas, legislação rodoviária e cultura ciclista como meio de transporte normal (não desportivo, sem risco).

A conclusão do artigo é que é improvável que mais investigação venha clarificar inequivocamente as atuais incertezas e que há outros aspetos – culturais, psicológicos e políticos – do debate popular sobre a questão que serão sempre importantes.

É uma questão complexa e não sei se a soube expor. Não quero, sobretudo, que fiquem com a ideia de que o estudo analisado no artigo diz que tanto faz usar capacete como não o usar. Nada disso, o que “parece ter sido mínimo”, sublinho, são os efeitos da obrigatoriedade do uso de capacete, não os efeitos do capacete. Os autores do estudo analisado afirmam claramente: “… os capacetes reduzem o risco de lesões na cabeça e recomendamos o seu uso” e nunca o artigo põe isto em causa. Acho que não há dúvidas quanto às vantagens do uso voluntário do capacete.

Do artigo para a vida à minha volta. É certo que, para distâncias curtas, a bicicleta é um dos meios de transporte mais normais na Dinamarca, se não até o mais normal. A razão de queixa da Karen, a minha mulher, do emprego que tem é ter de ir de carro (35km). O que ela queria era poder ir de bicicleta para o trabalho, como faz a maior parte das pessoas. (Aqui a expressão i cykleafstand faz parte das que se usam para definir uma ocupação: “a uma distância que se pode fazer de bicicleta”.)

A Siri, a minha filha mais nova, que costuma ir na carrinha da escola, quis hoje ir de bicicleta. Levantámo-nos às seis horas, meia hora mais cedo do que é costume, e lá fomos, às sete. Demorámos quase uma hora a fazer cerca de seis quilómetros, porque a noite estava escura como breu, com muito nevoeiro, ademais, e só há iluminação pública em cerca de um quinto do caminho. Bonito passeio. A Siri diz que quer ir outra vez de bicicleta depois de amanhã. (A ver se arranjo uns refletores para pôr na roupa ou uns coletes refletores. E a ver se reparo se é quem usa capacete que também usa refletores na roupa.)

É verdade que muitos dinamarqueses não usam capacete. (Ou estrangeiros residentes na Dinamarca, smile…) Ia hoje a pensar que o frio pode ser uma razão – no tempo frio... Quase não se encontram à venda capacetes preparados para o frio, quentes e que cubram as orelhas. As minhas filhas usam um gorro por baixo do capacete, o que é desconfortável. Mas muita gente usa apenas gorros compridos ou de orelhas ou mesmo apenas os capuzes dos casacos. Ia a pensar se não será mais um fator a ter conta nestes estudos: até que ponto, em zonas frias, o capacete é visto como desconforto; e qual a proteção que dão os gorros de inverno e os capuzes. Muitos deles (o meu, por exemplo, grosso, forrado a pele por dentro), alguma proteção há-de dar, embora, claro, muito menor que a de um capacete.

Agora, são adolescentes e adultos que não usam capacete. E cada vez menos, creio. Para as crianças, o uso de capacete é, por assim dizer, obrigatório. Os pais obrigam-nas a usar capacete, e não só para andar de bicicleta, também para andar de skate, de patins, até de trotineta, às vezes… As escolas também obrigam os alunos, crianças jovens ou adolescentes, a usar capacete, quando a turma vai toda de bicicleta a algum lado – uma coisa que, aqui em Tåsinge, acontece com alguma frequência.

Ia a pensar nisto tudo, enquanto pedalava, e ia a pensar que gostava também de saber quais são os acidentes mais comuns de bicicleta e se variam de país para país, em função de infra-estruturas, legislação e cultura ciclista. São mais choques ou quedas? E os choques, são mais entre ciclistas, ou de ciclistas com outros veículos ou peões? Podia ter investigado antes de publicar este texto, não era? em vez de deixar a pergunta em aberto... Mas prefiro publicar isto assim e voltar algum dia ao assunto, se for caso disso. É que, por um lado, o post já vai grande e, por outro, se perco, como se diz, a pedalada, acabo por nunca publicar isto. O título do post? Ah, é uma cantiga que há:


Bike, filme de Lisa Wu com música de Syd Barrett ("Bike", 1967)
____________

* Goldacre, Ben & Spiegelhalter, David, “Bicycle helmets and the law” (BMJ 2013;346:f3817), 12 de junho de 2013, disponível em linha.
** Dennis, J., Ramsay, T., Turgeon, A. & Zarychanski, R., “Helmet legislation and admissions to hospital for cycling related head injuries in Canadian provinces and territories: interrupted time series analysis (BMJ 2013;346:f2674), 14 de maio de 2013, disponível em linha.

07/01/14

Recordações de infância: De que cor é o teu sangue?

Um livro que, como costuma dizer-se, me marcou muito é uma revista de banda desenhada com uma história do Sargento Rock e da sua Companhia da Moleza, “Qual é a cor do seu sangue?”, ilustrada pelo grande Joe Kubert. É uma revista que tive em criança e a que, como todos os livros e revistas de banda desenhada da minha infância, perdi o rasto; mas a história e os desenhos impressionaram-me tanto que nunca mais os esqueci. Há dias, voltei a encontrar a história num blogue. A Internet é realmente uma coisa extraordinária!

A página de blogue que encontrei tinha a história inteirinha (!), ainda para mais acompanhada de um texto interessante, pelo qual fiquei a saber, entre outras coisas, que o argumento é de Bob Kanigher. Fiquei também a saber que a história foi publicada pela primeira vez na revista Army At War, nº 160, de Novembro de 1965 (editora DC). Sabia que a edição brasileira em que a li só podia ser da EBAL, mas descobri agora que foi publicada na série Epopéia. A página onde encontrei esta informação não dá a data de publicação, mas calculo que devesse andar pelos meus 10 anos quando li a história. Faço-vos um pequeno resumo*:

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial. Jackie Johnson foi campeão mundial de pesados de boxe. Perdeu o título para o alemão “Tempestade” Uhlan** e vive, desde essa altura atormentado por essa derrota. Jackie Johnson inscreve-se no exército e torna-se um herói. “Tempestade” Uhlan, que é um nazi convicto, também se inscreve no exército alemão, para lutar pelo que acredita ser a sua raça superior.

O destino volta a pôr frente a frente os dois pugilistas, em plena guerra. Uma patrulha alemã de que Uhlan faz parte captura Johnson e dois companheiros seus. Uhlan, desejoso de provar mais uma vez a superioridade da raça ariana, desafia Jackie para novo combate. Uhlan mostra-se mais forte e começa a massacrar Johnson, exigindo que este reconheça que tem sangue negro e não vermelho como o seu. Os companheiros de Johnson têm a certeza de que ele se deixa massacrar por causa deles, porque tem medo que, se ganhar o combate ao alemão, eles sejam mortos. Decidem então atacar os alemães, mas, em segundos, são deixados sem sentido, à coronhada. Talvez porque pensasse que os companheiros estavam mortos ou porque não conseguisse aguentar mais a humilhação, Jackie recupera de repente e deixa o adversário knockout. Furiosos, os companheiros de Uhlan disparam sobre os dois: o negro inferior e o reles alemão que se deixou vencer por ele.

Nessa altura, surge o resto da companhia de Johnson, que toma conta da situação. Quando todos pensavam que Uhlan  e Johnson estavam mortos, este surpreende-os: conseguiu atirar-se ao chão e escapar às balas alemãs, mas Uhlan foi atingido e está mal. Perdeu muito sangue. O médico da companhia diz que Uhlan precisa de uma transfusão de sangue de tipo B. “E quem é que pensam que estendeu o braço?” Ulhan, o nazi, acorda ao lado de Johnson, o americano negro, a receber sangue deste. “Estava enganado”, diz ele, “o teu sangue é vermelho”. “Estás a fazer progressos, pá!”, diz Jackie Johnson, e a história acaba assim.


Tenho quase a certeza de que, se a tivesse conhecido agora, a leitura desta história não me impressionaria muito. Com toda a certeza, não tinha, nem de longe, o efeito que teve em mim quando a li em miúdo. Mas, curiosamente, quando a releio agora, por muito que a ache ingénua e de um simplismo ideologicamente duvidoso, ela continua a impressionar-me. Porque não conta só o efeito que ela tem em mim agora: há uma impressão armazenada quando tinha 10 anos que ela traz de novo ao de cima!

*** 
KB, o autor do blogue Out of this world, onde fui reencontrar esta obra importante da minha infância, chama a atenção para alguns factos interessantes para uma leitura menos infantil da obra:

A personagem Jackie Johnson parece ser uma amálgama de dois campeões de pesos pesados, Jack Johnson, de quem herda o nome, e Joe Louis. A carreira de Jack Johnson, o primeiro campeão mundial de pesados negro, ainda em plena época de segregação da população negra, é um episódio marcante da história das relações raciais nos EUA. Joe Louis, outro símbolo importante para os negros americanos, combateu duas vezes com o campeão alemão Max Schmeling. A vitória de Max Schmeling sobre Joe Louis em 1936 foi usada pela propaganda nazi e a vitória de Louis no segundo combate em 1938 adquiriu inevitáveis contornos simbólicos de vitória de uma “América da liberdade” contra “a Alemanha racista”. Schmeling, porém, afirmou que não tinha nada a ver com os nazis. Tanto Schmeling como Louis vieram, mais tarde, a servir o exército dos seus países. Traduzo um excerto do texto de KB:
O momento da publicação [desta história], a raridade das representações de afro-americanos na banda desenhada nesta altura e a fortíssima mensagem antirracista sugerem uma ligação com o Movimento dos Direitos Civis e com a necessidade do país de recrutar os afro-americanos para a Guerra do Vietname, num contexto de sentimento antiguerra entre a comunidade afro-americana. A importância de Jackie ser um pugilista parece estar relacionada com a entrada de Muhammad Ali para a Nação do Islão em 1964. Muhammad Ali chumbou nos testes de qualificação para as forças armadas em 1964, mas só em 1966 se recusou a aceitar a mobilização, o que fez com que fosse preso e perdesse o título. Este número de Our Army At War não é, pois, uma resposta à sua recusa em alistar-se, mas pretende talvez contrariar o efeito da associação de Ali com a Nação do Islão, que era fortemente contra a guerra do Vietname.
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* Embora em formato reduzido, a banda desenhada lê-se bem no blogue que refiro (em inglês). Clicar nas imagens das páginas para as aumentar não funciona (exceto para uma delas), mas há uma maneira de o fazer: clicar do lado direito, selecionar “copiar a localização da imagem”, colar essa localização na barra de endereços e abrir uma janela nova em que a imagem aparecerá agora em tamanho grande.
** O nome tem significado: uhlan é a designação inglesa dos ulanos, antigos lanceiros prussianos, austríacos e russos.

06/01/14

Bom ano e um conto de terror

Desejo-vos um bom ano de 2014! Como diz uma canção, “este é que o ano – demorámos muito a aqui chegar”. Bom, a canção dizia isto de 1968, creio eu, mas pode dizer-se de todos os anos. Como presumo que uma grande parte, se não a maior, das minhas leitoras e dos meus leitores seja portuguesa como eu, o que desejo mais para 2014 é que se consiga travar a política de destruição do atual governo – de destruição do Estado social, da economia, da vida da maior parte das pessoas, do bom-senso, enfim... É claro, há que fazer por isso. É um 2014 assim, a fazer muito por isso, que eu vos desejo.

*** 
Há vários tipos de terror, como todos sabemos. Um amigo teve uma vez a ideia de um conto de terror em que, em vez de histórias noturnas de criaturas do outro mundo, se contasse o horror de alguém que passava, de barriga e bolsos vazios, diante das montras das tascas da Baixa lisboeta. Com a ideia dele, em vez de conto, fiz uma cantiga, que chegou a ser cantada, mas, felizmente, nunca foi gravada. “Um terror indizível / arrepios / calafrios / suores frios” era o refrão.

Agora vejam lá: há dias, fui procurar o que devia ser o único exemplar restante nesta casa de Faz de conta que histórias, um livro de contos meus, e não o encontrei. Não que eu precise de um exemplar do livro, até porque o tenho, claro está, em versão digital. O problema é que o exemplar que eu esperava encontrar cá em casa era o exemplar que ofereci à minha mulher!

Pode ser que o livro se tenha perdido na mudança de Moçambique para a Dinamarca, no verão de 2011. Mas também pode ter acontecido eu tê-lo oferecido a alguém, sem querer. Sei que o livro tinha uma dedicatória, que não me lembro qual era nem em que página estava. E se exemplar da Karen tinha ido parar ao lado dos outros, na estante da sala, e eu, sem reparar na dedicatória e que era, portanto, o livro da Karen, o mandei a uma amiga ou a um amigo (enviei uns quantos, o ano passado), com uma nova dedicatória noutra página? Um terror indizível, como na tal cantiga: arrepios, calafrios, suores frios…

11/12/13

Pedra, papel e tesoura

O jogo pedra-papel-tesoura é muito conhecido, mas, para quem não conheça, aqui fica a explicação: jogam duas pessoas, que, à contagem de três – ou outra qualquer – apresentam ao adversário a mão numa de três posições: de punho fechado (pedra); com o indicador e médio esticados e restantes dedos dobrados (tesoura); ou aberta (papel). Cada uma das formas apresentadas pode ganhar a outra: a pedra ganha à tesoura (parte-a); a tesoura ganha ao papel (corta-o); e o papel ganha à pedra (embrulha-a).

Podia dizer-vos aqui várias coisas interessantes sobre o jogo. Por exemplo:

[1] Li na Wikipédia que há fenómenos naturais que reproduzem a lógica do jogo. As estirpes de bactérias Escherichia coli produtoras de antibiótico (colicina) superam as estirpes sensíveis ao antibiótico, que superam as estirpes resistentes ao antibiótico, que, por sua vez, superam as estirpes produtoras. E, entre os lagartos Uta stansburiana, verifica-se uma seleção sexual assente na frequência de três tipos com cores de pescoço diferentes, que se baseia também num mecanismo do tipo pedra-tesoura-papel. Mas eu não sei nada nada de bactérias nem de lagartos e, por isso, não posso, infelizmente, desenvolver aqui este ponto, nem torná-lo menos árido…

[2] Há um robô que ganha sempre às pessoas. É tão rápido a fazer batota que ninguém dá conta da batota que faz. De facto, o robô só dispara a sua posição depois de ter visto que posição a pessoa está a fazer. Mas, como o faz num milissegundo, ninguém se apercebe de que está a fazer batota.



[3] O nome mais comum do jogo em inglês, rock-paper-scissors, corresponde diretamente ao nome em português, pedra-papel-tesoura, mas, em dinamarquês, chama-se sten–saks–papir, que é como quem diz “pedra-tesoura-papel”. Porque se altera a ordem dos elementos? Talvez por aplicação da Lei do Segundo Mais Pesado… O linguista Claude Hagège postulou que, em pares fixos de palavras, como mais ou menos, mais cedo ou mais tarde, etc. (incluindo aqueles em que os elementos não têm significado independente, como tiquetaque), há uma tendência natural e universal para pôr no fim o termo mais pesado, quer dizer, com mais sílabas ou sílabas mais graves. É bem possível que a lei se aplique também a expressões ternárias e papir venha no fim em dinamarquês porque é mais longo, como scissors e tesoura, mais longos, vêm no fim em inglês e português. Mas isto sou eu a especular.

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Tudo isto é interessante, mas há outro aspeto do jogo que acho mais interessante ainda. Habituámo-nos a pensar com silogismos simples, também no que diz respeito a relações de poder entre pessoas: se X é mais forte que Y e Y é mais forte que Z, então X é mais forte que Z. Quem diz “é mais forte” pode também dizer “tem ascendente sobre”, “domina”, etc. Mas isto nem sempre funciona e o que acho mais interessante no jogo pedra-papel-tesoura é que dá conta duma outra lógica que governa às vezes as relações entre as pessoas: X é mais forte que Y, que é mais forte que Z, que é mais forte que X


06/12/13

Nelson Mandela

A esmagadora maioria das pessoas, se não toda a gente, já disse ou dirá o mesmo: que foi o mais importante político da segunda metade do século XX; que é o político que mais admiram; que é um exemplo para todos os políticos; que ninguém, como ele, soube pôr acima de tudo o mais a vida e o bem-estar do povo do seu país. Mesmo os que alguma vez o consideraram um terrorista ou um perigoso radical vão sentir-se obrigados a dizer isso também. Não creio que o consenso sobre as qualidades de uma pessoa seja necessário para definir a sua grandeza. Mas, neste caso, este amplo consenso é, penso eu, um sinal claro da grandeza de Nelson Mandela.