12/01/13

Da escrita como menorização de si próprio

Numa entrevista dada em 1987 a Leopoldina Pallota della Torre, Marguerite Duras responde à jornalista de La Stampa de uma forma que me surpreendeu*:
[L. P. Torre:] Escrever para exorcizar fantasmas? Defende a dimensão terapêutica da escrita.
 [M. Duras:] Escrevo para me vulgarizar, para me massacrar, e depois para me tirar importância a mim mesma, para me aliviar: que tome o texto o meu lugar, de maneira que eu exista menos. Só consigo libertar-me de mim própria em dois casos: pela ideia do suicídio e pela ideia de escrever.
As palavras de Marguerite Duras fizeram-me lembrar outras de Alexandre O’Neill. O que O’Neill diz da forma como encara a escrita é completamente diferente, mas acho que compreenderão a relação que fiz: liga os dois textos a ideia da escrita como forma de se desimportantizar (o termo é o’neilliano):
Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar – aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros.**
_______________________________

* "La confession secrète de Duras", Le Nouvel observateur online, 20-12-2012, traduzo eu do francês, algumas palavras sem muita convicção, de ambíguas que são... O texto francês é um excerto de Marguerite Duras, La Passion suspendue, entretiens avec Leopoldina Pallotta della Torre, Paris: Seuil, 2013.
** Tenho este texto, dito pelo autor, gravado numa cassete, imaginem vocês… Foi publicado num disco que acompanhava a primeira edição de Entre a Cortina e a Vidraça, em 1972.

11/01/13

Fazer um bom refrão tem muita arte [Adaptado de um blogue apagado #4]

Pois é: refrães há muitos, mas de quantos é que se pode dizer “benza-te Deus”? Bom, não quero apresentar-vos aqui uma Teoria Geral do Refrão, nem uma História do Estribilho da Idade Média aos Nossos Dias, nem sequer propor-vos uma Arte e Preceito de Fazer Refrães com Jeito, mas vou falar de uns quantos refrães, sem mais.

Tinha um amigo que não se cansava de repetir, nos tempos (como se diz em Moçambique), que “Loser”, de Beck [Hansen] era o melhor refrão que alguma fez tinha existido na música pop. Era um amigo que de música sabe muito mais do que eu e não tenho razão nenhuma para duvidar dele, mas não é bem do refrão do “Loser” que eu tinha pensado falar aqui, por muito que, de facto, seja um refrão engraçado. (E se não queria falar dele aqui, porque falei então? Hmmm…)

Eu acho que o sonho de qualquer letrista pop é fazer um refrão como o de uma cantiga que Stan Kesler e Bill Taylor fizeram para um colega deles da Sun Records. Eu pelo menos, era um refrão que gostava de ter feito (se bem que não seja exactamente um refrão, mas isso...):
Well, you're right
I'm left
She's gone
You're right
And I'm left
All alone…
Um outro grande refrão é o de “La non-demande en mariage” de Georges Brassens. Brassens fez uma avaria semelhante no refrão de “La mauvaise reputation” (“Non, les braves gens n’aiment pas que / l’on suive un autre chemin qu’eux”), mas em “La non-demande en mariage” vai ainda mais longe:
J'ai l'honneur de
Ne pas te de-
mander ta main
Ne gravons pas
Nos noms au bas
D'un parchemin
Mas, mais uma vez, o que eu gostava de ter escrito uma coisa assim!... Ou o refrão de “Nemesis”, dos Shriekback, por exemplo:
Priests and cannibals
Prehistoric animals
Everybody happy as the dead come home
Big black nemesis
Parthenogenesis
No one move a muscle as the dead come home
Usar palavras como nemesis e parthenogenesis num refrão é, acho eu, ainda mais difícil do que usar as palavras efetivamente, imponentes, equívocas e aparentemente, como fez Rui Reininho noutro refrão e também com bons resultados (lembram-se?).

Mas enfim, para terminar (em fim para terminar?), o melhor refrão que eu conheço é o de
“Saucisson de cheval n°1”, de Boby Lapointe. O refrão é
Huuuuuuuuu
com 9 uu! Aliás, para não restarem dúvidas de que é esse mesmo o refrão, ele explica:
Huuuuuuuuu... C'est le refrain (…) Le refain c'est toujours Huuuuuuuu... (…) Bééééééé... Non... Huuuuuuuu


Pronto.


10/01/13

Louvor da novela de aventuras

[Texto encontrado numa caixa no sótão do meu computador. É assim, em momentos de preguiça ou falta de inspiração: vou buscar textos já velhos e zás, pespego aqui com eles. Este é um prefácio a uma novela que eu espero que nunca venha a ser publicada. Lembrei-me dele ao ler o artigo da Wikipédia sobre Robert Louis Stevenson. Dizia, a certo passo, que "[Robert Louis Stevenson] foi elogiado por Roger Lancelyn Green (...) como escritor que manteve sempre um nível elevado de "capacidade literária ou absoluto poder imaginativo" e co-fundador, com H. Rider Haggard, da Era dos Contadores de Histórias (Age of the Story Tellers)", mas a expressão Age of the Story Tellers tinha um link para uma página ainda por criar. "Incrível!", indignei-me eu.]
Na segunda metade do século dezanove, foi escrito e publicado um sem-número de aventuras maravilhosas passadas nas selvas obscuras da África, nos ofuscantes desertos das Arábias, nas intermináveis rotas da Ásia ou nos mares sem lei das sete partidas do mundo. Falo de histórias que nunca chegaram a passar de moda e que, por muito que se destinassem, muitas vezes, sobretudo aos jovens europeus do sexo masculino, têm servido para divertir (e educar, dirão alguns) gente dos dois sexos e de todas as idades, culturas e qualidades.
Evidentemente, a novela de aventuras não foi inventada nessa época, mas foi nessa época que ela atingiu a sua máxima perfeição e, sobretudo, a sua máxima capacidade de gerar mitos. São, ainda hoje, as românticas personagens desses livros que servem de modelo a uma parte grande do nosso imaginário e são ainda as suas aventuras que servem de base a muita da mitologia moderna. Para vos dar de exemplo os últimos trinta anos do século de mil e oitocentos, os mais dourados anos da história da aventura literária, posso recordar que (e que me perdoem todos os Fenimore Coopers, todas as Mary Shelleys, todos os Alexandre Dumas e todos os Herman Melvilles do planeta tê-los deixado para trás): em 1872 foi publicada pela primeira vez, no jornal Le Temps, a aventura que condensa todas as aventuras imagináveis naquele tempo do mundo, A volta ao mundo em oitenta dias, desse Jules Verne que tinha já, nos oito anos anteriores, inventado a moderna ficção científica com as suas viagens ao centro da Terra, à Lua, e às profundezas dos mares; que a matriz de todas as histórias de piratas e de todas as caças ao tesouro, A ilha do tesouro, essa obra-prima de Robert Louis Stevenson, foi publicada em 1883, três anos antes de Stevenson publicar O estranho caso de Dr. Jekyll e  Mr. Hyde, outro romance fundador que nunca mais parou de gerar variações suas; que, em 1985, Henry Rider Haggard publicou As minas do rei Salomão, o mais duradouro padrão da autêntica aventura, sem o qual não teria nunca vindo a existir nenhum Tintin nem nenhum Indiana Jones; que, em 1987, o génio de Bram Stoker deu a conhecer ao mundo, numa novela brilhante de terror, suspense e simbolismo profundo, o conde Drácula e a sua corte de vampiros, e inaugurou assim um dos mais profícuos mitos modernos; e que, em 1901, Rudyard Kipling, que 7 anos antes tinha apresentado ao público o primeiro Tarzan da história, a personagem Mowgli do seu Livro da selva, nos contou as maravilhosas aventuras do endiabrado órfão vagabundo Kim, deambulando pela mágica Índia na companhia de um monge tibetano.
E estavam assim inventadas todas as aventuras que conhecemos. A partir daí, pouco mais se fez, no domínio da aventura, do que variar um pouco à volta dos temas, das tramas e das personagens destes mestres, quando não se os plagiou descaradamente, sem nunca chegar, nem de longe, ao seu brilhantismo.

01/01/13

…por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido… E bom ano novo! [Crónicas de Svendborg #14]

Há coisas que se comunicam facilmente e outras que são completamente incomunicáveis. No meio, há coisas que se comunicam umas melhor que outras… Queria falar-vos do prazer de um longo passeio de bicicleta nesta ilha de Tåsinge, num dia frio de Janeiro, o primeiro de 2013, mas é coisa que duvido que saiba comunicar. Nem que soubesse fazer descrições rigorosíssimas, nem que soubesse tirar fotografias… Por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido. Bom, mas serve para desejar às leitoras e aos leitores desta Travessa... um bom ano de 2013. Para isso, sim.





25/12/12

Socas, integração cultural e o ideal conservador [Crónicas de Svendborg #13]

Ao contrário do que muita gente pensa, a integração noutra cultura começa de cima para baixo, da cabeça para os pés: as primeiras coisas que se adotam são palavras, conceitos, ideias; e as últimas são os sapatos. Quantas vezes não vi (por exemplo!) gente do Sul da Europa que, nos países do Norte, ao fim de lá viver dezenas de anos, ainda continua a usar daqueles corriqueiros mocassins a que o filho de uma amiga minha, nado e criado em Roterdão, chamava “sapatos à turco”, quando vinha nas férias a Portugal. Não são mocassins desses que uso, não é isso, mas onde quero chegar é que agora que tenho, finalmente, as minhas socas, posso considerar-me integrado na cultura dinamarquesa.
 
_______________
[Nota 1: É mentira I] Não é verdade, já tive outras socas antes destas. Mas era uma maneira de compor o texto, se é que me faço entender, apresentar as coisas destas maneira…
[Nota 2: É mentira II] As socas não são um tipo de calçado especialmente dinamarquês. Como os barretes, as gaitas de foles e os torresmos, as socas são comuns a toda a Europa – e talvez também a outras partes do mundo… Agora, dos países que conheço, a Dinamarca é aquele em que se usam mais no dia-a-dia. Ainda hoje, por exemplo, quando entrámos na taberna local, aí por esse meio-dia, dos 5 homens sentados ao balcão em frente à sua cerveja de Natal, 4 usavam socas.
[Nota 3: A utopia conservadora] Deixem-me contar-lhes, a propósito, que, quando íamos pagar, o dono do estabelecimento explicou que não tínhamos de pagar nada, que o café e a cerveja eram por conta da casa, porque hoje era dia de Natal. É simpático, não é verdade? É simpático como o cordial “Feliz Natal!” que toda a gente diz a toda a gente que cruza na rua, aqui na aldeia. É este tipo de gestos e práticas que o imaginário e a ideologia dos conservadores elevam a ideal – o encanto da vida comunitária “de outrora”, que consideram ameaçado ou destruído pelo progresso e que propõem que se conserve ou se refaça. Mas esquecem sistematicamente o lado disfórico da medalha, que é incomparavelmente maior e tem mais de sombrio que de radioso têm as tradições idealizáveis: o outrora era (o outrora ainda é, tantas vezes…) miséria, trabalho, trabalho, trabalho, ignorância e superstição, desconforto e doença, maus tratos, violência, violências, e infindáveis etecéteras…

22/12/12

Um vazio

Já não vamos a Portugal desde junho de 2010. Havemos de lá ir agora no verão, não sei ainda exatamente quando. Vai ser bom – é sempre bom – rever a família e os amigos. (E comer peixe.) Há 15 anos que não vivo em Portugal. Há hábitos e posturas que já estranho, e muitas rotinas novas que conheço mal – mas é claro que nunca me sinto, nunca me hei de sentir, forasteiro.
Portugal, disse-o muitas vezes nesta última década, foi um país que vi de facto mudar. Desenvolver-se realmente. É mais fácil notar desenvolvimento quando lá se vai de vez em quando que quando lá se vive todos os dias, creio eu. Mas é também muito fácil deixar-se enganar por impressões, dir-me-ão. É certo. Neste caso, porém, parece que as minhas impressões, quando cotejadas com os valores de vários indicadores de desenvolvimento, tanto económicos como sociais, não eram enganosas por aí além – Portugal desenvolveu-se mesmo muito desde que eu de lá saí. É certo que não se desenvolveu, nalguns aspetos, tanto como eu gostaria que se tivesse desenvolvido, ou tanto como poderia ter-se desenvolvido. Mas desenvolveu-se muito. Agora, a destruição enraivada do Estado social vai dar cabo de tudo, a pretexto da diz-que-necessária austeridade (a afinal mais-que-comprovadamente-inútil-para-os propósitos-que-dizem-que-serve, a calamitosa, perversa austeridade…): do desenvolvimento que se deu nos 15 anos em que vivi fora do país e do desenvolvimento que se deu antes.
Vamos no verão a Portugal para rever – é sempre bom – familiares e os amigos. Desses familiares e amigos, há uns quantos (dois dos meus irmãos, por exemplo) que entretanto saíram do país, porque não sabiam como ficar. Outros, se não encontrarem emprego até ao verão, hão de lá estar ainda, mas desempregados. Muitos, todos, creio eu, hão de estar tensos, revoltados. Hão de dizer-me que tu não sabes, Vítor, como é que isto anda por cá e o que é ter um governo assim, mas eu sei, posso não o sentir na pele, mas sei, então porque não havia de saber?
Vou contar-vos uma espécie de visão. É um exagero, dir-me-ão, e eu sei que é, mas a gente não manda no nosso inconsciente, pois não? Uma noite destas, não num sonho propriamente dito, mas naquele estado vago meio sonho, quase quase a adormecer, veio-me ao espírito uma imagem horrível, não sei se foi algum boneco que vi no Facebook ou o que foi: que, se continuar a este ritmo a destruição do país, quando lá chegarmos no verão, está lá só um vazio, um bocado de coisa nenhuma, no sítio onde havia Portugal… 


Jozef Israëls, Filhos do mar, 1872, Museu Nacional, Amesterdão
      

21/12/12

Desculpem lá! [Crónicas de Svendborg #12]

Apanhei o autocarro das 9:04 para Svendborg, para ir ao dentista. A viagem demora cerca de 20 minutos e custa 22 coroas (3 euros). O autocarro nunca tem muitos passageiros. São, na maior parte, reformados, que vivem aqui na zona (há aqui muitas “casas protegidas”, como lhes chamam, para idosos) e que vão a Svendborg dar uma voltinha.
O autocarro tem também um ecrã, que dá anúncios e notícias. A notícia que repetiram hoje durante toda a viagem, para lá e para cá, era esta, que traduzo e resumo:
Numa crónica no jornal Politiken, o diretor  do Danske Bank [o maior banco dinamarquês] assume a parte de responsabilidade que cabe ao seu banco na crise financeira:
«Nos anos de euforia que precederam crise, quando tudo avançava muito depressa, a maior parte dos bancos ficou cega com a velocidade. O Danske Bank também.»
E pede desculpa por o banco ter vendido produtos financeiros que só muito poucos clientes e empregados do banco compreendiam. Além disso, reconhece muitos investimentos falhados e refere em especial as incursões altamente deficitárias no mercado irlandês.
“Para correspondermos às expectativas de crescimento dos mercados e dos investidores, e para nos proporcionarmos a nós próprio e aos nossos clientes lucros a curto prazo, perdemos em certa medida a perspetiva dos valores a longo prazo. Reconhecemos isso e lamentamo-lo.»
«É um pedido de desculpas?», perguntou-lhe mais tarde um jornalista.
«Sim, pode considerar-se um pedido de desculpas.»
Foi esta a notícia que vi muitas vezes no autocarro para Svendborg. Estava frio, hoje, perto dos zeros graus, mas o autocarro está sempre quentinho, agradável.  

20/12/12

Imagens fortes do voluntarismo extremo: Corto Maltese, os Maias e Zenão de Bruges

A mãe de Corto Maltese, a célebre cigana Niña de Gibraltar, disse um dia ao filho que devia ter cuidado, porque não lhe via na mão a linha da sorte. Corto Maltese riu-se, foi buscar uma navalha e talhou uma longa e profunda linha da sorte na mão esquerda: “Não te preocupes, Nina”, disse ele à mãe, “a minha sorte sou eu que a faço”!
A história é justamente famosa[1], na minha opinião – o gesto de Corto Maltese é uma metáfora bem achada da vontade de tomar em mãos a sua vida. Agora, mesmo com muita garra e navalhas afiadas, nunca é muito, quanto mais total, o controlo que se tem da própria vida… De facto, parece-me tão insensato acreditar num destino inalterável como acreditar que a vida de cada pessoa será aquilo que ela dela quiser fazer. E, se da passividade que resulta do fatalismo não vem nenhum bem ao mundo, também a crença oposta pode ser perigosa, porque pode facilmente levar a considerar a vontade e as ambições dos outros um obstáculo apenas que há que vencer para concretizar a sua própria vontade e as suas próprias ambições. Apesar disso, este voluntarismo extremo, como lhe chamo, é uma atitude que muitas vezes me fascina…
Quando era rapaz jovem, li, como toda a gente, alguns livros da coleção Enigmas de todos os tempos, da editora Bertrand, uma série de livros sobre ciências e teorias alternativas, ocultismo, parapsicologia e afins, a que muitas vezes se chamava “livros de capa preta”. A popularidade do calendário maia fez-me agora recordar um deles, Descobertas na terra dos maias, de Pierre Ivanoff[2], e a sua tese sobre o fim da civilização maia:
O etnólogo Pierre Ivanoff estudou o povo Lacandon e que foi um dos primeiros forasteiros a chegar ao que é hoje o sítio arqueológico Dos Pilas, na Guatemala. A explicação de Ivanoff para o mistério do chamado colapso do período clássico maia[3] não é política, nem ecológica nem demográfica – segundo ele, os sacerdotes teriam anunciado, com base na estrutura cíclica do seu calendário, o fim próximo da civilização dos hach winik, “os verdadeiros homens” (os maias, leia-se). Abandonando as cidades, as populações das cidades maias confirmam a verdade das profecias – ou, se se preferir, tornam-nas realidade!
Pode não ter grande interesse como teoria histórica, mas é uma ideia fascinante. Uma grande ideia para um romance ou um filme, por exemplo. No fundo, nem sequer é uma ideia fantástica, quando a transpomos do plano de um povo inteiro para o plano de uma seita religiosa ou de um indivíduo: de forma ainda mais dramática, mais violenta, é o que aconteceu a todos os fanáticos crentes de teorias milenaristas que, chegados ao dia em que o mundo devia acabar, se suicidaram, confirmando assim a profecia – é que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?
O suicídio não é sempre, é claro, uma tentativa radical de controlo do destino. (É muitas vezes, sei lá, um acidente provocado por um gesto impulsivo; uma elementar desistência; um apelo, um grito, uma maneira bruta de se fazer ouvir; ou uma forma desajeitada de resolver um problema qualquer.) Mas pode às vezes sê-lo, não é? Lembro-me de que foi assim que interpretei, quando li há muitos anos L'Œuvre au noir, de Marguerite Yourcenar[4], o suicídio de Zénon Ligre, a personagem principal do romance: Para um prisioneiro condenado à morte por se recusar a renegar aquilo em que crê, a morte talvez seja, como vi alguns defenderem, a libertação possível e o recuperar da dignidade. Mas que esse prisioneiro decida a sua própria morte no dia anterior àquele em que vai ser executado é mais que isso, é assumir de repente controlo de tudo, é deixar claro, mesmo antes de o mundo acabar (que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?), que é ele que vence, que o mundo acaba porque ele quer, quando ele quer.
__________
[1] Agradeço esclarecimentos sobre a autoria da cena: não consigo descobrir se é do criador de Corto Maltese, Hugo Pratt, ou se foi criada por Alberto Ongaro, num prefácio a uma das aventuras do célebre marinheiro.
[2] Amadora: Bertrand, 1968, tradução de Découvertes chez les Mayas, Paris: Robert Laffont,1968
[3] O colapso das cidades do segundo período maia dá-se num período curto na segunda metade do século VIII. Nem toda a gente, porém, concorda com esta ideia de colapso da civilização maia, porque, ao mesmo tempo, surgem novos centros de cultura urbana maia noutros lugares. 
[4] Paris: Gallimard, 1968

26/11/12

Tradução: quando não há palavra, porque não há coisa

À primeira vista, pode parecer pateta não traduzir entrecôte ou rib eye steak – para quê usar palavras estrangeiras quando temos palavras portuguesas para referir uma coisa? Temos? Temos, com certeza!, porque havia de se deixar sem nome, em português, uma parte da carne?
Bom, acho que, normalmente, se chama em português europeu bife da vazia ao que se chama entrecôte em francês e rib eye steak em inglês: um bife da parte do lombo do bovino que, no português do Brasil, se chama capa de filé e, no Reino Unido se chama fore rib. Mas nem sempre… Não há, sobretudo, correspondência biunívoca entre vazia e entrecôte, enquanto termos para designar cortes de carne, e entre cada um destes termos e rib. Segundo a maior parte do que vi sobre o assunto, a vazia cobre a entrecôte (ou uma parte dela…), mas é muito maior. E rib também: designa a entrecôte, mas também a côte, que em português é acém. Já agora, para complicar: parece que o acém designa, além da côte, o que se chama veine grasse e, segundo alguns dicionários, a entrecôte (ou parte dela, pelo menos). Pois, porque há quem diga que é acém que se chama à entrecôte e não vazia… Não é fácil perceber onde acaba a vazia e começa o acém. Nem sempre condizem as designações, é um pouco confuso…
O problema não é linguístico em sentido estrito. As tradições de corte de carne são diferentes nos vários países e, por isso, as pessoas desses países usam palavras que referem partes diferentes do animal. De facto, não é só de uma língua para a outra que os nomes dos cortes de carne são difíceis de traduzir, mas podem sê-lo também de uma para outra variante da mesma língua: encontrei informação de que a palavra francesa entrecôte não designa a mesma parte da carne na tradição de corte francesa e belga, por exemplo. Da mesma forma, rib designa uma parte maior da carne do bovino nos EUA que no Reino Unido. A julgar pela informação contraditória que encontro sobre onde começa e acaba o acém ou a veine grasse, não me admirava nada que as designações de uma mesma parte da carne variassem também dentro do mesmo país. Se calhar, até de cortador para cortador. (Hmm, devo estar a exagerar…)
Como fazer então, quando se tem de traduzir « Une entrecôte maître d’hôtel bleue à la six, et que ça saute! »? Pois… «Sai um bife da vazia – ou do acém, acho que se pode escolher, conforme o bife que se tenha em mente – com manteiga de alho e salsa, e mesmo muito, muito mal passado para a mesa seis! E rápido!» Hmmm… Ok, pronto!
Quem fala de cortes de carne pode também falar de estabelecimentos onde se vendem bebidas alcoólicas. Alguém criticava, no outro dia, usar-se pub num texto em português, quando há, na nossa língua, tantas palavras para designar um estabelecimento desse tipo. É uma crítica justa: também acho que quem escreve em português não se deve limitar a aceitar, assim sem mais, todas as palavras estrangeiras que lhe apareçam à frente. A tradução de termos destes, porém, muitas vezes não é tão fácil como parece – porque, mais uma vez, é o próprio conceito expresso pela palavra na língua de origem que não existe no país ou nos países onde se fala a língua-alvo. É possível traduzir o inglês pub por taberna ou tasca, como já vi propor. Mas nem sempre fica bem. Funciona se a frase for do tipo «passava a vida na tasca com os amigos» ou «bebeu uma cerveja a correr na primeira taberna que encontrou», mas soa muito estranho em frases como «encontraram-se numa tasca vitoriana chamada A rosa e a coroa» ou «entrou na taberna, foi buscar ao balcão uma pinta de cerveja preta e um pacote de torresmos e foi refastelar-se numa das poltronas de veludo acastanhado».  
Saudades, toda a gente as tem, das pessoas e dos lugares de que gosta e de que está longe; e não há língua nenhuma em que não haja uma expressão simples para as dizer. Agora, acém e faux-filet, essas é que são as verdadeiras dificuldades culturais da tradução.

[Adenda a 19 de junho de 2015, revista a 23 de fevereiro de 2024]
Bacon é outro bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?
Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.
Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (como o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário…
Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

25/11/12

Uma, duas, várias surpresas

Confesso: às vezes, escrevo para causar surpresa. Há, aliás, alguns textos neste blogue que têm sobretudo esse propósito. Não falo do estranhamento dos literatos, não é nada assim tão complicado – é só surpresa, no sentido mais normal da palavra:«Que esquisito!...»

Não faço nenhum culto da surpresa, notem. Não vejo o causar surpresa como função importante da escrita – embora ache que faz sempre bem ser surpreendido. Gosto apenas de tentar surpreender, sem mais. E gosto de ser surpreendido. Deixem-me apresentar-vos uma coisa que espero que vos surpreenda como me surpreendeu a mim:

Benjamin K. Tippett, do Departamento de Matemática e Estatística da Universidade do New Brunswick, publicou um trabalho de física chamado Possíveis Bolhas de Curvatura Espácio-Temporal no Pacífico Sul (Possible Bubbles of Spacetime Curvature in the South Pacific), em que defende, explica ele no resumo, que «todos os fenómenos credíveis que [Gustaf] Johansen descreveu podem ser explicados como sendo as consequências observáveis de uma bolha localizada de curvatura espácio-temporal». «Pode, pois, dizer-se», continua Tippett, «que muitas das suas mais incompreensíveis afirmações (relativas à geometria da arquitetura, e variabilidade do localização do horizonte) têm uma mesma causa subjacente. Propomos um exemplo simplificado dessa geometria e mostramos, usando cálculos numéricos, que as descrições de Johansen não eram, na maior parte, apenas delírio de um lunático. São antes as observações não técnicas de um homem inteligente que não sabia como havia de descrever o que via».
 
Gustaf Johansen? Mas quem é Gustaf Johansen? De que se está aqui a falar? Pois bem, a surpresa de que falo não é a possibilidade de haver bolhas de curvatura espácio-temporal no Pacífico Sul, seja lá o que for que isso quer dizer. A surpresa de que falo é, na realidade, uma surpresa feita de várias surpresas. A primeira é esta: Gustaf Johansen é uma personagem de um conto célebre de Howard Phillips Lovecraft, “The Call of Cthulhu”; mas Tippett não refere no estudo que é de personagens e acontecimentos ficcionais que se trata:
Em 1928, o falecido Francis Wayland Thurston publicou um manuscrito escandaloso que visa alertar o mundo para uma conspiração global de ocultistas. Entre os documentos que reuniu para apoiar a sua tese, encontrava-se o relato pessoal de um marinheiro de nome Gustaf Johansen, descrevendo a descoberta de uma ilha extraordinária. As descrições de Johansen das suas aventuras na ilha são fantásticas e são muitas vezes consideradas as mais enigmáticas (e, por isso mesmo, a parte mais interessante) da coleção de documentos de Thurston.
A referência bibliográfica de Tippett é à obra ficcional de Thurston (F.W. Thurston. The call of cthulhu. Wrd. Tls., Feb. 1928), não à de Lovecraft, embora seja efetivamente uma referência mista, pois Wrd Tls refere obviamente, a revista Weird Tales onde foi publicado o conto de Lovecraft em Fevereiro de 1928.
Deixem-me só esclarecer, antes de continuar, que eu de matemática e de física não percebo nada. Não sei julgar se o estudo de Tippett é trabalho sério ou puro delírio. Aliás, nem o li – não valia a pena, para quê? Mas, mesmo sem saber nada de matemática e de física, posso pensar o seguinte: Que importa quem é de facto o autor das descrições analisadas, se Lovecraft, se as suas personagens? O que conta é o texto, que é o objeto de estudo, independentemente de quem o tenha escrito. Até se escusava a referência a um autor, ficcional ou não. Posso pensar isso e nem me parece mal pensado. Mas há uma segunda surpresa no estudo de Tippett. Como agente de surpresa, pelo menos, não há dúvida de que é trabalho muito sério:    
Parece-nos improvável que Johansen tivesse feito por acaso uma descrição exata das consequência da curvatura do espaço-tempo, se os pormenores desta história não passassem de resquícios de um sonho febril meio recordado.
Estão a ver? Mas então, na vossa opinião, que probabilidade tem Lovecraft de ter escrito uma coisa assim com base apenas na sua fértil imaginação, hem? Mas então… Mas então ?!?!
Surpreende-vos, tudo isto? Espero que sim. E digam-me, se souberem, que eu não percebo nada disto: as curvaturas espácio-temporais têm alguma coisa a ver com o que se segue?


timeRemapExportHD from Adrien M / Claire B on Vimeo.

Calão, dinheiro e comida

O linguista francês Louis-Jean Calvet escreveu uma vez um artigo[1] em que explicava que muitas expressões para designar o dinheiro vêm do campo semântico da comida. Calvet regista sobretudo expressões da sua língua: artiche, uma abreviatura de artichaut, “alcachofra”; avoine, “aveia”; blé, “trigo”; braise, “brasa”; carme, um tipo de pão branco, termo que viria de carmelitas[2]fric, abreviatura de fricot ou fricassée, preparados culinários; gallette, “bolacha, bolo”; grisbi, tipo de pão escuro; oseille, “azeda”, planta comestível; pèse, de pèzète, palavra occitana para dizer “ervilha” (e não da moeda peso, como eu sempre pensei); e pognon, um biscoito da região de Lyon. E referia também grano e grana, em italiano, e dough, “massa” e bread, “pão” em inglês.
Nada disto parece muito extraordinário, se tivermos em conta que é sobretudo para comer que o dinheiro serve. Não só, é claro, e sobretudo nas sociedades de abundância, mas foi sobretudo para a bucha que ele sempre mais fez falta, e é assim que continua a ser na maior parte dos sítios do mundo. É certo que nem só de pão vivem mulheres e homens, mas primeiro a paparoca, ou não?
Ora, há uns meses, surgiu espontaneamente, no meu mural de Facebook, uma coleção de sinónimos de dinheiro. Reduzindo-a às expressões familiares (ou de gíria ou calão, enfim, as que não se usam normalmente em situações formais) e deixando de lado expressões que só se usam em construções específicas[3] ou em expressões fixas[4], fico com duas dúzias de expressões[5]: aquilo com que se compram os melões, arame, bago, bagaço, cacau, carcanhol/carcanhóis, caroço, chelpa, gimbo, graveto, guita, guito, maçaroca, massa, milho, narta, nota, papel, pasta, pastel, perné, pilim, pingo e taco. Destas 24, só 6 tem uma relação óbvia com comida. Talvez se possa ver também comida em bagaço e cacau – e, com boa vontade, em pingo…–, se incluirmos a bebida na comida, mas é duvidoso… (E também não faço ideia de onde venham gimbo e chelpa, quem sabe se não se comerão… )
Enfim, parece que a comida não é um campo tão produtivo para a criação de palavras para dizer dinheiro em português como é em francês. Calvet diz, no artigo citado, que “a língua tem as raízes na sociedade, fala-nos dela e testemunha a sua evolução”. Se calhar – pode talvez pensar-se, partindo dessa ideia – os portugueses têm menos palavras de comida para dizer dinheiro porque gastam menos dinheiro na alimentação que os franceses, por exemplo – quer dizer, porque o dinheiro é menos comida, para eles, e mais outras coisas não comestíveis… Bom, o que as estatísticas dizem é precisamente o contrário [6]. A razão há de ser outra… Ou então, bem pode ser que não haja nenhuma razão especial…
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[1] “T’as pas cent balles…”, in Le Français dans le monde, n°210, julho de 1987. Tenho o artigo em fotocópias desde essa altura e fui redescobri-lo há pouco tempo. Além de mostrar que a cópia ilegal (ai, ai, ai…) já é uma coisa muito antiga, isto mostra também que há fotocópias que resistem a 7 mudanças de casa – incluindo 5 mudanças de continente – e a um incêndio…
[2] Devo confessar que, por muito que me julgue bastante conhecedor de calão francês, não conhecia carme, que deve ter desaparecido da língua corrente antes de eu ter começado a ter contacto com ela. Mas não há dúvida de que faz parte do calão clássico, como se pode constatar em Argoji, Dictionnaire d’Argot Classique, que compila vocabulário de 13 dicionários de calão de 1827 a 1907.
[3] Cheta é sinónimo de dinheiro, mas só em frases negativas e com uma elevada negatividade, se se pode dizer assim: “tenho cheta” ou “esse gajo está cheio de cheta” são frases impossíveis, e “não tenho cheta” não significa exatamente “não tenho dinheiro”, mas antes “não tenho dinheiro nenhum”. Casos curiosos são também o das palavras tostão, tusto e pataco. Usadas com um determinante indefinido, podem também significar “dinheiro” – no singular, são sempre usadas na negativa; no plural, na afirmativa: “Não tenho um tostão”/“Tenho uns tostões guardados”
[4] O termo patacas só significa “dinheiro” na expressão árvore das patacas, a metafórica árvore do dinheiro (por muito que não se possa dizer: “Mas tu pensas que as patacas crescem em árvores ou quê?”). Fora disso, pataca é o nome de várias moedas de vários sítios, mas não significa “dinheiro” como tal.
[5] Como não me sinto competente para mais, limito a lista ao português europeu. Excluo larjã, porque não é senão l’argent; móni/mâni, porque é apenas money, e grana, por ser calão próprio do português americano. Quer dizer, não excluo completamente, relego os termos, coitados!, para uma nota de rodapé… Também só aqui refiro o angolano cumbu e o moçambicano tacos no plural, embora estas palavras tenham tido, pelos menos em certa época e em certos círculos, alguma fortuna em Portugal. Cumbu está dicionarizado e o Porto Editora em linha diz que vem do quimbundo ukumbu, “vaidade”, «por relação efeito-causa». Talvez venha, talvez não, porque as etimologia da Porto Editora não são sempre de fiar… Excluí também da lista expressões que conheço e uso, como bagoré, ferro, música, roda e outras, porque não posso provar (a mim mesmo, antes de mais), que não são exclusivo de círculos muito restritos. Mas é bem possível que sejam mais que isso…  
Tirando isso, 24 expressões familiares para dizer dinheiro parecem muito, mas não são. Uma vez, para um programa de rádio que tive, incluindo regionalismos e com pesquisas em dicionários de calão, fiz uma recolha de cerca de 80 palavras para dizer dinheiro – das quais me lembro que conhecia umas 3 dezenas, se tanto (continuo com a sensação que me estou aqui a esquecer de palavras que conheço…). Que pena tenho de não ter guardado essa lista.
Nos poucos dicionários a que tenho acesso online, só não encontro duas destas 24 expressões: perné e narta. Perné, até percebo que não esteja dicionarizado, é calão cigano, que não se ouve com frequência. Agora, narta não vejo bem porque não há de estar em todos os dicionários, palavra comum que é.
O português partilha com o castelhano os termos guita e pasta.
[6] Ver, por exemplo, dados dos relatórios Consumers in Europe, do Eurostat, 2009, e ERS/USDA, EUROMONITOR, 2010 (dados de 2005 e 2009, respetivamente). Evidentemente, nada disto é para levar muito a sério – não faz muito sentido, para mim, postular este tipo de relações entre os factos da língua e os factos sociais, é mais porque me apetecer mostrar-vos estas estatísticas, que acho interessantes.

10/11/12

Uma osteria romana



Carl Bloch, Fra et Romersk Osteria (“De uma Osteria Romana”), 1866. Óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte da Dinamarca, Copenhaga
Já ouvi dizer ou já li alguma coisa sobre o erotismo do quadro, a sua riqueza de pormenores, a seu dramatismo, o seu caráter popular, o seu cunho misterioso, os estereótipos que encerra, e mais… Mas nunca li nem ouvi o que me veio à cabeça quando o conheci e apeteceu-me, por isso, escrever um textinho sobre ele para esta Travessa que nunca teve textos sobre pintura[1].
O que salta à vista são os olhares das figuras fixos no olhar do espetador. Bom, não é nada de novo, é uma caraterística de muitos retratos, e não só, e cria, muitas vezes, um efeito especial. E o especial aqui, creio eu, é que esse truque cria uma história, ou uma reserva de histórias, à disposição do espetador. A ideia que tenho é que, em vez de descritivo, como os quadros figurativos quase sempre são, este quadro é essencialmente narrativo. Há quadros que evocam uma história, mostrando um episódio dessa história, mas este não evoca nenhuma história conhecida – ele conta uma história que não existe em mais lado nenhum. Quem vê o quadro pode ser apenas espetador em segunda mão de algo vivido ou imaginado pelo autor do quadro. Nesse caso, é como ler um conto contado na primeira pessoa. Agora, quando se lê um conto contado na primeira pessoa, o leitor não pode usurpar o lugar do narrador, porque não sabe o que vem a seguir – precisa do narrador, sem ele não há história. Aqui, como é uma narrativa sem fio narrativo, digamos assim, uma narrativa que é toda contada como um instante apenas, o espetador pode decidir ser ele a personagem da história, pode deitar fora o narrador e ocupar o seu lugar. De qualquer forma, precisamente porque só lhe é dado um momento preciso dessa história, é o espetador que tem de a rematar, de construir os seus pormenores, e, para isso, tanto faz imaginá-los vividos ou inventados por Carl Bloch como imaginá-los vividos por ele próprio, espetador.
É preciso dizer que o truque não foi inventado por Carl Bloch. Bloch limitou-se a dar nova vida a uma ideia que o seu compatriota e professor Wilhelm Marstrand tinha tido 18 anos antes.
Wilhelm Marstrand, Pige, der byder den indtrædende velkommen (“Rapariga dando as boas vindas a uma pessoa que entra”), 1848. Óleo sobre tela, Nova Gliptoteca Carlsberg, Copenhaga
No site da Galeria Nacional da Dinamarca, diz-se que o quadro de Bloch é “uma versão intensificada” da pintura de Marstrand. É uma boa maneira de o dizer, acho eu. Também me parece que o quadro de Marstrand, bonito e interessante que é, não tem a mesma intensidade. Nem a mesma capacidade de produzir histórias. É certo que o facto de ter um título também não ajuda nada – é uma “rapariga dando as boas vindas a uma pessoa que entra”[2] e parece que não pode ser muito mais… Bloch introduz o elemento masculino e introduz, sobretudo, o que me parece o fundamental do quadro: a indefinição das expressões, incluindo a indefinição da gestualidade. Não que os rostos e as posturas não sejam bem expressivos, que o são, mas que expressões têm? São inúmeras as interpretações possíveis. Creio, aliás, que, quando se diz que o quadro é misterioso, é esse um dos principais elementos constituintes do seu mistério, talvez o principal. Surpresa, desafio, sensualidade, reconhecimento, sedução, temor, tudo é possível ali ver. Não importa a idade, o género, a origem ou o estado de espírito da pessoa que olha para o quadro; se decidir que é ela e não Bloch que entra na sala – ou seja, se decidir entrar no quadro, fazer parte dele –, a reação das três personagens faz sempre sentido. Há muitas histórias disponíveis, passa-se sempre ali qualquer coisa. 
Mas, claro, nada disto é para ser levado muito a sério, isto sou só eu a delirar: é o que me veio à cabeça quando conheci o quadro de Bloch.
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[2] De facto, o título é ambíguo, porque não se sabe se “a pessoa que entra” é uma pessoa concreta (ela deu as boas vindas a esta pessoa que entrou) ou virtual (ela dá sempre as boas-vindas a seja lá quem for que entre e esta é apenas uma das ocorrências dessa saudação), mas o que digo continua a fazer sentido mesmo com a segunda leitura.

29/10/12

Música deste mundo e do outro



1. O que está ele a dizer?
 Provavelmente, acontece-vos o mesmo: quando apresento a alguém uma cantora ou um cantor que cante em dinamarquês ou sueco, por exemplo, fazem-me frequentemente um comentário do tipo: «É bonito, sim senhor, apesar de não perceber nada do que está a cantar…»
Acho isso muito curioso. As mesmas pessoas nunca fazem esse comentário, se a canção for em inglês, francês, italiano ou espanhol, por muito que (eu sei) na maior parte dos casos também não façam a menor ideia do que é cantado nessas línguas. Seria interessante estudar que estranha programação mental nos leva a organizar a alteridade de tal maneira que aceitamos não compreender as letras das canções nas línguas que ouvimos com mais frequência e estranhamos a incompreensão se as canções forem cantadas numa língua menos habitual – desde que não seja exótica, isto é, radicalmente outra. É que (provavelmente, acontece-vos o mesmo), se a canção for em chona, tagalo ou aimara, ninguém faz o mesmo comentário!

2. Música de que mundo?
Outra questão que merece escrutínio moral é a da chamada música do mundo – ou world music, se preferirem (estou convencido de que se usa mais, no discurso em português, a expressão original inglesa que a sua tradução em português, mas não tenho a certeza…).
Não tenho nada contra chamar-se música do mundo a projetos expressos de fusão de música de todos os lugares do mundo. É, muitas vezes, música que não me agrada por aí além, mas, enfim, não vejo que chamar-se assim tenha implicações morais. O que tem implicações morais e me desagrada profundamente é a instituição da categoria música do mundo para referir, pura e simplesmente, toda a música que não venha de países anglo-saxónicos ou não seja pop rock cantado em inglês. E é assim que se usa hoje a expressão: um grupo alemão que cante em inglês não é world music, como não é world music a música country americana – mas um cantautor alemão é quase sempre categorizado como world music e a pop andina de grande público também. Por um lado, a classificação estabelece um padrão discriminatório de “normalidade”, amalgamando tudo o que sai fora dessa “normalidade”, quase sempre sem nenhum critério que não seja a sua origem geográfica; por outro lado, para sofisticar a discriminação, reserva uma classificação rica, com uma quantidade enorme de subgéneros, para a música que não é world music: a soul music divide-se em Motown soul, Southern soul, Northern soul, Memphis soul, New Orleans soul, Chicago soul, Philadelphia soul, psychedelic soul, blue-eyed soul e nu soul (pelo menos), mas um an dro bretão ou uma polca da Carélia são ambos… world music.

[Evidentemente, há mais quem ache que a expressão world music é ofensiva.]

O pintor antimilitarista debaixo do lava-louças: a distância e o ódio

O pintor debaixo do lava-louças, de Afonso Cruz (Lisboa: ed. Caminho, 2011) é muitas coisas, como todos os livros são – pode ser, por exemplo, um livro contra as guerras, contra a guerra. Páginas 73/74:
Muitas vezes Sors via-se obrigado a disparar. Fazia-o para um espaço sem nome, perfeitamente incógnito, ligeiramente para cima, de modo a falhar todos os tiros. Não poderia jamais ter a certeza absoluta de não ter matado ninguém, mas acreditava nessa possibilidade. Nas execuções por fuzilamento, havia sempre um dos carrascos que tinha pólvora seca. Para que aqueles que disparavam contra um condenado pudessem acreditar na possibilidade da sua inocência. O nevoeiro e a distância, e o frio, e os gases, também serviam para isso. Eles, quando disparavam, não sabiam se acertavam, se as suas balas eram culpadas. Um soldado poderia sair, isso dizem-nos as probabilidades, de uma guerra sem matar ninguém e sem ter morrido. Isso significa, em termos científicos, que esse soldado é que ganhou a guerra. Não foram os austro-húngaros ou os russos ou os sérvios ou os otomanos ou os romenos ou os alemães ou os belgas ou os franceses ou os portugueses ou outros, mas aquele soldado.
– Para ganhar uma guerra – disse Sors –, há duas condições: não morrer e não matar. É só nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra.
Ou páginas 141/142:
– É claro que essa é a maior razão para eu detestar aviões. A minha aversão ficou completa quando vi como é fácil matar quando se está no céu. As coisas cá em baixo são tão pequeninas. É difícil acreditar que essas coisas pequeninas sejam homens e mulheres e crianças, com vidas, que se amam e se odeiam. Visto de cima –, disse Sors pegando numa caneta e num papel –, um homem é assim:
Não se veem os olhos. Por isso é que é muito mais fácil matar assim, quando não se veem os olhos. Quando andamos pela terra, vemos as pessoas de frente. É difícil bombardear pessoas quando estão de frente, mas da vertical o que se vê são números, números a explodir. Por isso nunca gostei de aviões.
Já o ouvi muitas vezes e apresentado de várias formas: Se tivesse de se matar com as mãos pessoas que nos olham nos olhos, não seria tão fácil fazer guerra – havia de se sentir o verdadeiro horror que ela é, e haveria mais quem se recusasse a matar. É uma ideia antibelicista limitada, já que não ataca a guerra em si, mas apenas as formas mais “modernas”, mais “impessoais”, de guerra; e não é um argumento propriamente moral, porque não assenta em conceitos discutíveis de bem e mal, mas antes na justeza de sentimentos supostamente primordiais, uma solidariedade natural da espécie. Mas parece que esta simpatia essencial de todos os humanos por todos os outros humanos não subsiste se se “despersonaliza” a guerra, matando de longe, matando sem ver ou sem saber quem se mata. No fundo, é tudo uma questão de distância: longe da vista, longe do coração, como diz o provérbio – a distância física causa distância emocional, frieza, de longe não vejo que o meu inimigo é igual a mim. Não é um argumento moral propriamente dito, dizia eu, mas não deixa de ser uma ideia forte. E Afonso Cruz di-la bem.
Curiosamente, na página 64, uma outra personagem, Wilhelm Möller, prevendo talvez comentários como o que acabo de fazer ao que se diria mais adiante no livro, tinha já deixado claro que não é assim, que a culpada não é a distância que desumaniza, mas sim o ódio que trazemos dentro de nós.  
– As espingardas são uma maneira de matar com mais conforto, basta mexer um dedo. É muito surpreendente como o movimento de um dedo pode tirar a vida de uma pessoa e transformar outra numa coisa ignóbil. É só um dedo a dobrar-se. Uma espingarda é uma máquina de fazer monstros.
Wilhelm mostrou o indicador a Sors e disse:
– Se está esticado, é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador. – E dobrava e esticava o seu dedo como se destruísse mundos: – Isto é o homem, não é o polegar oponível. De resto, Jozef, as espingardas não são armas, são canos. São os instrumentos que permitem aos nossos corações disparar (não é por acaso que as empunhamos bem junto ao coração, com o gatilho encostado ao peito). O que mata, as verdadeiras armas, estão dentro do tórax, a marcar o tempo, como um relógio cheio de ódio.
Nem que de longe, nem que os outros sejam só números ou pontinhos quase indiscerníveis na paisagem, não há desculpa, matar é matar. Wilhelm Möller diz isto e diz também: dentro das pessoas não há só a compaixão inata que faz que, para fazer mal aos outros, nos tenhamos de distanciar deles. Também somos capazes de matar sabendo que matamos e quem matamos; também somos capazes de matar com as mãos quem nos olha nos olhos.

Do que eu me fui agora lembrar...



[Pequena contribuição para a História das Forças Armadas em Portugal]
Devo estar a ficar velho, porque me vêm muitas vezes à memória episódios da minha juventude... Sou do segundo turno de setenta e nove. Tinha asma, nessa altura, e esperava ficar livre da tropa, mas tinha sido dado como apto na inspeção e tinham-me posto em infantaria mecanizada em Santa Margarida. A asma, tinha-me explicado o médico na inspeção, só se pode detetar durante um ataque (uma crise, disse ele, porque é assim que costumavam dizer os médicos), de maneira que, para ficar livre, tinha de arranjar maneira de algum médico militar me constatar a doença no período de serviço.
E eu não queria mesmo fazer a tropa. Só de pensar em mim soldado ficava transtornado, nervoso, muito infeliz… Tinha mesmo de arranjar uma maneira de me safar àquilo. A objeção de consciência, porém, parecia-me fora de questão. Era uma possibilidade tão nova que não se devia esperar muito dela – se chegasse a ser levada a sério. Além disso, eu não podia, sem mentir, invocar as razões comummente invocadas para recusar a instituição militar. Agora sou pacifista, mas nessa altura não professava nenhuma filosofia nem religião que me proibisse o uso da violência, mesmo fora de situações de autodefesa. De maneira que apareci em Santa Margarida na data marcada, com a esperança de vir a ter, mais cedo ou mais tarde, um ataque grande asma que me valesse ficar livre daquele pesadelo.
Ao fim de um dia apenas, perguntaram aos recrutas quem queria ir ao médico, que fazia serviço na unidade de xis em xis dias, e eu quis. Queixei-me de asma, mas o médico não me encontrou asma nenhuma. O que ele me encontrou e que achou que merecia ser analisado foi um coração a bater quase ao dobro do andamento normal: em vez do adagio que é costume, o meu coração adiantava-se, em repouso, para um allegro vivace.
Guia de marcha na mão, saí de Santa Margarida nessa mesma tarde, rumo ao Hospital de Estrela, mais dois colegas recrutas transmontanos, que não me lembro de que padeciam. Chegámos a Lisboa à noite e, para não passarmos a noite em claro numa estação de comboios ou às voltas pela cidade, convidei os meus colegas a virem dormir a minha casa à Rinchoa. A minha avó (só ela me viu nessa noite, o resto da família não deu pela minha chegada) ficou muito surpreendida de me ver aparecer à meia-noite acompanhado de dois desconhecidos, que ficaram a dormir no chão, porque não havia camas para eles.
No dia seguinte, lá estávamos nós na Estrela, ao abrir das consultas externas. Com os vinte anos que tinha, sabia já muitas coisas, entre as quais que i) não tinha nada no coração a não ser a ânsia que me causava a tropa e que ii) era em infetocontagiosas, na Boa Hora, e não ali em cardiologia, que eu tinha possibilidades de ser declarado inapto. De maneira que (até aqui era introdução, a história que queria contar começa agora), quando apresentei a minha credencial ao enfermeiro de serviço, lhe disse que, pelos vistos, tinha havido engano:
«Pois, isto é engano. Não sei como aconteceu, mas é engano. Eu era para ir para infetocontagiosas, porque o que eu tenho é asma.»
E se eu fosse de generalizações, que não sou, dizia-vos que era assim, caríssimas leitoras e caríssimos leitores, que funcionavam os serviços médicos das Forças Armadas em 1979… Mas enfim, que é uma história engraçada, é: o enfermeiro não teve dúvidas em confiar mais em mim que na credencial assinada pelo médico de Santa Margarida e passou-me nova credencial para a Boa Hora. Fui lá internado daí a umas horas e, ao cabo de dois meses e meio que passei a fumar e a jogar à lerpa, concluíram que eu era efetivamente asmático. E foi assim que a tropa se livrou de mim.

26/10/12

Das fontes inesgotáveis de carne ou Les grands esprits se rencontrent

Traduzo um texto do grande Alphonse Allais [1]:
Quando ouvi a história, veio-me aos lábios um sorriso incrédulo e vieram-me avivar o olhar pequenos lampejos de troça. Cap, o meu interlocutor, não reagiu. Limitou-se a chamar o empregado do bar e a pedir “Two more” que é a maneira americana de dizer: “Pode servir-nos outra vez a mesma coisa” ou, de forma mais clara, “Outra rodada”. O empregado serviu-nos mais dois mint-julep.
Conheço o capitão Cap há já bastante tempo. Aconteceu-me muitas vezes encontrá-lo num desses numerosos american bars que há nas imediações da nossa Opéra nacional e da Igreja da Madaleine. Estou acostumado às suas hipérboles e às suas lérias, mas esta história, sinceramente, ultrapassava os limites do gracejar canadiano. (Os canadianos, encantadoras crianças, aliás, são, por assim dizer, os gascões transatlânticos e Cap tem muito do caráter canadiano.) Contava-me Cap, com toda a serenidade, que tinham acabado de descobrir, a seis milhas de Arthurville (na província do Quebeque) uma mina de carne assada a céu aberto! Eu tinha ouvido bem e é isso mesmo que o leitor acaba de ler: uma mina de carne assada a céu aberto! Uma mina de meat-land (terra de carne), como eles dizem por lá.
Resolvi tirar a coisa a limpo e, na manhã seguinte, dirigi-me ao Consulado Geral do Canadá, no Nº 10 da Rue de Rome. Na ausência do Sr. Fabre, o amável cônsul, fui recebido – com toda a gentileza, há que o dizer – pelo seu filho Paul e pelo ilustre Maurice X ..., um jovem diplomata de grande futuro.
– A meat-land! – exclamaram os dois cavalheiros. – Mas não há nada mais verdadeiro! Como? Não acredita na meat-land?
Tive de confessar o meu ceticismo. Os dois senhores tiveram a amabilidade de me informar sobre o assunto e fiquei a saber que o capitão Cap não tinha de modo algum exagerado.
Nas proximidades de Arthurville, existia, em plena floresta virgem (era virgem nessa altura), uma enorme ravina em forma de arena, formada por rochas íngremes e atapetada (como os nossos Alpes) de milhares de espécies de ervas aromáticas, tomilho, alfazema, louro, etc. Esta floresta era habitada por veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc. Ora, num dia muito quente e extremamente seco, começaram a arder essas grandes matas e o fogo rapidamente alastrou por toda a região. Assustados, os pobres animais fugiram, procurando abrigo contra a catástrofe. E ali estava o barranco, com suas rochas escarpadas, mas incombustíveis. Os animais acreditaram ter encontrado a salvação! Não tinham contado com a enorme temperatura gerada pelo monumental incêndio. Veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc., saltaram aos milhares para o que acreditavam ser a salvação e o que encontraram foi a morte por asfixia.
Os animais não só morreram, como também assaram. Enquanto a temperatura não voltou ao normal, toda esta carne ficou a cozer no seu próprio molho (como se faz no processo de cozedura a que se chama estufado). As matérias pesadas – ossos, chifres, pele – foram-se depositando devagar no fundo deste tacho gigante. A gordura, mais leve, veio ao de cima, e solidificou à superfície, formando, assim, uma camada protetora. As ervas aromáticas, por outro lado (como as dos nosso Alpes), temperaram este pâté e fizeram dele um delicioso petisco.
Há que acrescentar que será instalado em breve em Paris, no vasto edifício na esquina da Rue des Martyrs com o Boulevard Saint-Michel, um entreposto de comercialização de meat-land. Está a ser criada uma empresa para exploração desta substância única. Voltaremos a este assunto, uma questão de primeiríssima ordem, para a qual chamamos desde já a atenção das pessoas de economia mais modesta.
Agora, mais carne que uma mina de carne tem um planeta de carne. É muito possível que Carl Sagan nunca tenha lido Allais. Muitas vezes, como diz o provérbio francês, os grandes espíritos encontram-se [2].


Ah, a (des)propósito: como talvez saibam, foi recentemente descoberto um planeta "de diamante". Os trocadilhos sobre como essa descoberta nos veio enriquecer são inevitáveis, mas a verdade é que, como há sempre alguém a recordar-nos, os diamantes não se comem...
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[1]  Alphonse Allais, Le Captain Cap, 1902. Trata-se do Capítulo III. – Em que se descobre a existência de Meat-land: por outras palavras, terra de carne, rica mina de carne assada a céu aberto, localizada perto de Arthurville (província do Quebeque). O original francês está disponível na Wikisource. Podem ler uma biografia de Alphonse Allais na Wikipédia e, se souberem francês, proponho-vos duas páginas com textos do grande humorista, uma com alguns dos seus achados "líricos" e outra com vários contos.
[2] Peço desculpa a quem não saiba inglês, mas não traduzo o vídeo; senão, nunca mais publico este post... Além do filme, existe um site sobre o Planeta de Carne, com toda a sua história.