20/06/09

Prova do tempo que passa

Já não me lembro por quê, fui no outro dia parar a um site chamado Sticky comics e a uma página em que o seu autor, um rapaz chamado Christian, lista 4 coisas que os nossos netos nunca compreenderão: relógios não digitais, escrita à mão, cassetes de vídeo e jornais impressos.

Não é discutir o valor de verdade das propostas do tal Christian que me interessa, mas notar apenas que o jogo que ele propõe é, além de fácil e inesgotável, também muito agradável para toda a gente. A minha experiência, pelo menos, diz-me que não há quem, por menos passadista que se diga, não dê consigo de vez em quando a jogar alguma variante desse jogo. Hoje, vejam lá vocês, pus-me a pensar que já não há copos de dois nem de três, nem tintinhos nem branquinhos com mistura, e que a expressão “É do lote ou do especial?” não faz mais sentido para os meus filhos do que para os netos do Christian dos Sticky comics, que é norte-americano…

Como os pensamentos são como as cerejas, lembrei-me (do que eu me vou às vezes lembrar…) de um poema que escrevi em Outubro de 1986, com 27 anos, portanto, e em que fazia já uma lista de tudo o que, da minha infância e adolescência, tinha passado à história. E já era muita coisa nessa altura… O texto não tem interesse literário, mas, quando o reli hoje, achei-o com valor documental suficiente para o pôr aqui. Dediquei o poema, quando o escrevi, ao meu irmão João, e, claro, continua a ser essa a dedicatória principal, mas acrescento-lhe agora, ao torná-lo público, uma dedicatória suplementar: a quem nunca tenha conhecido a Rinchoa, as Mercês, Rio de Mouro e redondezas de outra maneira que não seja como esses antros de desolação que hoje são.

Rinchoa revisitada (Quem me viste e quem me vês…)

ao João, que é meu irmão

‘Inda havia à porta o peixe,
o leite e a carroça do azeiteiro.
Havia ainda a aldeia,
a minha terra pequenina,
quase ainda de patilhas
e coletes
e barretes
e de burro
e de faixa enrolada à cintura,
quase assim ainda saloia,
como a pintara o mestre Leal da Câmara,
a cheirar a eucalipto
e carne frita às Mercês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Lá p’ra baixo havia o Monte.
‘Inda havia tamareiras
e as grutas e a pedreira,
sobranceira a vacaria
à calçada ainda estreita.
Mais acima, ‘inda o casino,
com cinema e com bilhares
e gabava-lhe os bons ares
o v’raneante burguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Havia ainda o mercado,
a praça, que se dizia,
embora com o desacordo
do painel de azulejos
que anunciava, soberbo,
“Centro Comercial da Rinchoa – 1949”,
a leitaria da Adelaide,
Sagres e amendoins,
a mercearia do Nina,
que de tão gordo já mal
cabia atrás do balcão
e que aviava, ‘inda assim,
mais tinto do que feijão
e que era ademais o dono
do bailarico saloio
da noite benta de sábado
ao som do acordeão.
Ainda havia o sapateiro,
pachorrento como as botas de carneira
a que remendava meias solas.
E havia o Mário merceeiro
a escarafunchar, o sem vergonha,
o narigão encarnado
enquanto roubava no peso do flamengo
mesmo no nariz do freguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ainda havia
o Manel do jardineiro
e o ti’ Chico pedreiro
e outro Chico, o popó,
cavalo malandro,
filho da escola,
que tinha ensinado o carro
a subir sozinho a Avenida dos Carvalhos
até ao parque infantil
(ainda havia…)
e depois a meter p’la esquerda,
pela Avenida dos Plátanos,
e por fim, chegado a casa,
a pegar no gajo ao colo
e pespegá-lo na cama
à espera que aquilo lhe passasse,
o camano da bubadeira.
E depois havia a malta,
bicicletas pasteleiras,
o futebol de praceta,
mais as festas de garagem,
a nocturna guitarrada,
o namorico, a chinchada,
e claro, como soía,
a guedelha e os porquês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Um dia, de manhãzinha,
começaram a deitar árvores abaixo
e iam crescendo prédios
onde elas iam caindo.
Foi assim em toda a linha.
Lá por trás de Fitares,
do outro lado do rio
e da linha do Oeste,
fizeram a Icesa à prova de sismo.
Chama-se hoje Mira-Sintra.
Mais p’ra baixo,
Massamá passado,
fizeram a Icosal.
Hoje é Queluz Ocidental.
A minha terra pequenina
viu arrasar vacaria e tamareiras
e passou do pé p’rà mão
a chamar-se Urbanil.
Chegavam agora cada vez mais comboios
ao pequeno apeadeiro
e traziam de cada vez
mais e mais gente.
O casino de veraneio
foi fábrica de sapatos
e depois tipografia.
Morreu o Mário da mercearia,
fechou a Adelaide a leitaria,
a praça desapareceu,
o Nina gordo morreu.
E a aldeia que fora
a minha aldeia era agora
história de era uma vez,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ruíram casas burguesas,
quintal ajardinado, pérgula,
caruma acumulada sobre a telha,
a fachada enfeitada de hera
e de madeira vermelha,
não deram mais sinal de vida
as madamas que houvera.
Passou a minha terra pequenina
a dormir de luz acesa.
O peixe que houvera à porta
quase apodrece de tédio
na arca do supermercado.
O leite da bilha de lata
deu em homogeneizado
e ultrapasteurizado.
A terra, que era sem lei,
viu chegar a chotaria
com os nocturnos pela trela.
E o Lopes, que morava
num anexo de vivenda,
ao pé do pinhal do Escoto,
mora agora num andar,
primeiro, lote bê três,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Abençoado o que já não és,
minha terra pequenina
e maldito três mil vezes
na quinta casa do Inferno
quem te foi tirando
aquela graça que tinhas
de seres a minha aldeia,
danado seja aos mais horríveis suplícios
quem te foi fazendo feia,
tu que eras linda, menina,
maldito quem te vestiu
de alumínio e de betão,
quem te arrancou os pinhais
e fez secarem-te as fontes,
maldito seja e danado
à eterna perdição!

E porque não, já agora,
‘maldiçoado eu também,
a armar em saudosista,
ao bom estilo português?

Ah, Rinchoa pequenina,
quem me viste
e quem me vês…

Intermezzo lírico

Deixem-me falar só um bocadinho de mim (para o que me havia de dar…):

Sou em tudo um homem vulgar da minha geração, da minha classe, da minha parte do mundo. O único que há de invulgar em mim é que não sei nadar, não sei conduzir e tinha 2 molares supranumerários, isto é, teria 34 dentes no total, se não tivesse arrancado nenhum.

No geral, tenho tido sorte na vida. Nunca parti nenhum osso, por exemplo. Nem nunca desmaiei. A única forma que conheço de perder a consciência é adormecer. Se tudo assim continuar – e não morrer a dormir… – a morte há-de, pois, trazer-me uma experiência nova, a da perda súbita de consciência…

18/06/09

Cores abstractas e cores concretas: as palavras negro e preto

Acho que a maior parte das pessoas concordará comigo se eu afirmar que, em português europeu moderno, preto é o termo com uma conotação racista para referir as pessoas de tipo físico africano e negro o termo neutro.

A questão é, obviamente, complexa, e nada impede que negro figure em enunciados racistas e que preto seja usado em enunciados não racistas. A escolha das palavras não resume só por si uma atitude mental e comportamental como o racismo. Mas pode integrá-la… e integra-a quase sempre. E é porque a integra quase sempre que é possível afirmar com um relativo à-vontade o que eu afirmo no primeiro parágrafo. Todos sabemos que as pessoas de tipo físico africano não são, actualmente, referidas como pretos em documentos legais, nem em textos escolares, nem em discursos oficiais – em enunciados, em suma, que se assumam como não-racistas; e ninguém viu nunca inscrições racistas de skinheads ou quejandos em que se apele à “morte aos negros”…

Até aqui, tudo muito bem, mas por que é que assim é? Qual é a diferença real de significado entre as palavras negro e preto que possa explicar essas particularidades do seu uso? Há já muitos anos, fiz uma mini-investigação para tentar responder a estas perguntas. E se havia de ficar a apodrecer o texto que dela resultou numa gaveta digital do meu computador, sem ninguém que o lesse, por que não limpá-lo um bocadinho para o tornar mais digerível e apresentá-lo aqui na Travessa?

Para começar, talvez seja boa ideia dizer de onde vêm as palavras. Ambos os termos são de origem latina, negro de nigru- e preto de pressus, palavras que significam ambas, originalmente, “de tez escura”. Tanto negro como preto surgem muito cedo na língua: ambos os adjectivos estão atestados já no séc. XIII, e os nomes no séc. XV. Curiosamente, o termo mais comum do latim clássico para dizer a cor negra, que é ater, praticamente desapareceu. A palavra portuguesa atro, que dele deriva, é extremamente rara. Lembro-me de que foi num poema de Alexandre O’Neill, “O atro abismo”, que a vi pela primeira vez e tive de ir procurá-la no dicionário: “Atro?” (O meu corrector ortográfico, por exemplo, não a conhece…)

Feita a apresentação das palavras, vejamos como se comportam os adjectivos preto e negro no português europeu actual, que é só o que eu me proponho analisar. Começo pelo uso como adjectivo, porque é desse que deriva o outro, e não ao invés. A primeira constatação que fazemos, se deixarmos de lado expressões recentemente importadas do português do Brasil como “A coisa/a situação está preta”, é que preto não pode ocorrer com nomes abstractos, ao contrário de negro: não se diz magia preta, nem humor preto, nem literatura preta e fantástica… Nada impede, no entanto, que negro ocorra com nomes concretos: pode perfeitamente dizer-se cavalo negro, olhos negros ou roupa negra. Aparentemente, estamos perante aquilo a que alguns linguistas chamam uma oposição entre uma forma marcada, preto, e uma forma não marcada, negro, que é como quem diz que todo o preto é negro, mas nem todo o negro é preto.

Note-se, no entanto, que, no actual português europeu oral, a tendência é encontrarem-se os dois termos em (mais um palavrão linguístico…) distribuição complementar, isto é, ocorrendo um no contexto em que o outro não ocorre. De facto, negro tem uma muito forte tendência a aparecer apenas com nomes abstractos, sendo deixado para preto o espaço do concreto. Não é sempre, sempre assim, mas a tendência acentua-se cada vez mais. Tinha a sorte de ter, na altura em que fiz esta pequena pesquisa, uma colega de trabalho, Anabela Carvalho, que tinha feito uma tese de mestrado precisamente sobre nomes de cores. Além de ter feito comentários muitos pertinentes à primeira versão do meu texto, facilitou-me dados fundamentais sobre as palavras negro e preto, um dos quais confirma claramente o que acabo de afirmar: num corpus de 700 000 palavras que Anabela Carvalho recolheu em artigos sobre moda (portanto, no domínio do concreto, já que é exclusivamente de cores de roupa que se trata), negro ocorre 140 vezes e preto 1237.

Para reforçar esta ideia, posso fazer outra constatação: só negro parece poder aparecer antes do nome. Todos conhecemos uma canção que fala de uma negra madeixa ao vento, mas é-nos difícil imaginar alguém escrever um verso sobre uma preta madeixa ao vento; não nos choca que traduzam por Negros hábitos o título do filme Entre Tinieblas de Almodóvar, mas acharíamos muito estranho se o tradutor lhe tivesse chamado Pretos hábitos, ou não? Não me quero adiantar muito na questão, que dá pano para mangas, mas pode dizer-se que a anteposição do adjectivo, tradicionalmente considerada “uso afectivo” ou “poético” e frequente em textos literários, sobretudo líricos, é uma “não qualificação”. Para explicar o que quero dizer com isto, um exemplo simples: é claro que uma antiga capela não é “uma capela que é antiga”; aliás, nem sequer é uma capela... Dito doutra maneira, o adjectivo não vem acrescentar nada ao nome, mas apenas formar com ele um bloco que é um novo conceito. É provavelmente por essa razão que os adjectivos passíveis de serem usados em contextos abstractos se podem antepor muito mais facilmente ao nome (fazendo mais do que qualificá-los, mas não me adianto mais nessa discussão…): Está bem uma mesa comprida, mas uma comprida mesa é muito esquisito. Já com longo aceitamos melhor tanto cabelos longos como longos cabelos, mas é precisamente porque longo se usa bem com coisas abstractas como em longa agonia, por exemplo. No domínio da propriedade cor, que é uma propriedade apenas concreta, parece-nos óbvio que só se pode dizer um livro vermelho / azul / verde e nunca, nem para fazer estilo, um vermelho / azul / verde / livro.

E onde eu quero chegar com isto tudo é que preto se porta essencialmente como vermelho, azul, verde, etc.: é uma cor, pronto, ponto; e negro porta-se antes como fulvo, rubro, alvo, etc.: não é apenas uma cor enquanto propriedade concreta da matéria.

A reflexão é só esta. É só esta e não tenho a certeza de que ajude a perceber o uso de negro e preto como nomes. Não tenho nenhuma certeza, mas tenho uma possibilidade. É uma possibilidade que peca provavelmente por demasiado metafísica, mas, ainda assim, deixo-vo-la aqui, para me dizerem o que pensam: não será precisamente porque refere a propriedade objectiva cor que preto é usado como palavra racista? Por outras palavras, não é isso precisamente o próprio do racismo enquanto ideologia, fazer de puros indicadores físicos, como a pigmentação da pele – a cor –, pretensas marcas de inferioridade?

De cafres e Cafraria, rigor, ofensas e lexicologia

Recebi uma carta sobre a entrada aringa do meu glossário de Moçambicanismos em que uma pessoa, que aqui designarei por Vítor para facilitar o discurso, dizia que eu talvez não tivesse visto no dicionário Houaiss que a palavra é de origem cafre. Fiquei um bocado surpreendido com esta carta, que eu não compreendi bem aonde queria chegar, e respondi-lhe assim (modifico ligeiramente os textos, para tornar mais fluente o discurso):
Pelo que me diz, então, o Houaiss propõe, para a origem de aringa, o mesmo que o dicionário Porto Editora, que, como eu refiro na entrada do glossário, também propõe uma etimologia «cafreal». Cafre ou cafreal designa uma hipotética língua do povo de uma região designada como Cafraria. Ora, nos textos antigos, o termo Cafraria refere uma região muito extensa que se poderia definir como a parte conhecida pelos europeus da África Austral. Sendo assim, não é correcto falar de um povo «cafre», mas cafre designa antes, nesses textos, todos os habitantes da região, bantos ou san. É aquilo a que se poderia chamar uma amálgama étnica, talvez natural quando era tão pequeno o conhecimento desses povos por parte dos europeus, mas que não resolve o problema da origem «cafre» de nenhuma palavra, porque não há uma língua «cafre» . É muito provável, de facto, que aringa venha de uma língua da África Austral. Mas de qual?
Além disso, é de referir que as palavras cafre e cafreal começaram depois a usar-se para definir não só os povos da África Austral, mas “os negros” em geral. A palavra ganhou, entretanto, conotações claramente negativas, e mesmo racistas, e é hoje de muito mau tom empregá-la para referir alguém ou algum povo. Um dicionário moderno que, por qualquer motivo, queira usar a palavra, devia obviamente assinalar-lhe claramente o carácter historicamente marcado e ofensivo no português moderno.
Vítor não se convenceu muito com a minha resposta. Pediu a opinião de mais algumas pessoas com conhecimentos sobre a região, que me deram razão na recusa do uso de cafre e de Cafraria para designar, num dicionário, fosse lá o que fosse. Entretanto a troca de correspondência foi feita de tal forma que eu cheguei a temer que alguém pensasse que eram minhas as palavras dos dicionários Porto Editora ou Houaiss. Apressei-me a acrescentar ao meu glossário uma advertência, em topo de página, de que “só as minhas definições e propostas etimológicas é que são… minhas”, explicando que o facto de citar um dicionário não significava forçosamente que estava de acordo com o que ele propunha...

Vítor insistiu, interrogando-se se os dicionários seriam racistas e os livros também? Porque, dizia Vítor, já tinha visto a palavra cafreal em muitos textos e não sabia que era ofensiva. Respondi-lhe assim:
Quanto a os dicionários serem racistas, não sei se é a maneira certa de o dizer, mas pode, sem dúvida, afirmar-se que há coisas em muitos dicionários que podem ser consideradas racistas. Penso que o problema é que os dicionários não são suficientemente revistos e as entradas passam simplesmente, sem alteração, de uma edição para a seguinte. Um exemplo simples: o meu dicionário Porto Editora, de 2004, já define catinga como “suor malcheiroso”, mas lembro-me que a edição anterior que eu tinha, que não era muito antiga, de 2000, se não estou em erro, ainda definia catinga como “cheiro desagradável dos negros”, ou algo assim semelhante. Só para que veja...
O problema era também, insistia eu, que, ao contrário de outras palavras cujo uso é hoje desaconselhado, como esquimó, as palavras cafre e cafreal não definem povo nenhum, nem língua nenhuma, pelo que nos deixam na mesma, e que os dicionários, independentemente de terem ou não expressões racistas, têm às vezes falta de rigor.

Mas era óbvio que a minha insistência continuava a não convencer Vítor, que me respondeu mais uma vez. E tinha toda a razão no que dizia e na dúvida que levantava: Os dicionários, dizia Vítor, não fazem senão dar conta de como as pessoas utilizam as palavras, de forma racista ou não. É claro que ninguém pode processar os autores dos dicionários por neles incluírem palavras que certas pessoas considerem ofensivas. Ou devem essas palavras ser banidas dos dicionários para eles passarem a ser politicamente correctos?

Dava-me depois o exemplo da entrada cafre num dicionário (não sei qual é, mas isso é irrelevante, porque é precisamente uma entrada deste tipo quem têm muitos dicionários, mesmo respeitados):

cafre adj. 2 gén. s. 2 gén. 1. Diz-se das populações não muçulmanas que habitam a África Meridional. s.m. 2. Língua da Cafraria. 3. Fig. Homem rude, bárbaro, selvagem.

Além disso, para Vítor, só o significado figurativo 3 seria ofensivo, pelo que não haveria problema em utilizar a palavra, contanto que se a não a utilizasse com esse sentido.

Bom, eu sou o primeiro a defender que não se devem fazer desaparecer as coisas só porque significam (ou representam de qualquer outra forma) algo que, em determinado período histórico, maioritariamente se considera que foi ou é mau. Mesmo que essa tendência de opinião se mantenha para sempre, não há razão para não conservar a memória de um mal. Aliás, quanto mais terrível nos parecer esse mal, mais razões há para preservar a sua memória. É evidente que a palavra cafre, de triste memória, deve figurar nos dicionários que se pretendam completos, como qualquer outra palavra antiga, e independentemente das suas conotações sociais e políticas. O dicionário deve simplesmente dar conta dos seus significados, para que quem a não conheça possa saber o que ela quer dizer. No entanto, e apesar de defender que os dicionários devem conservar palavras como cafre, não posso de modo algum concordar que o façam como fazem. A resposta que dei a Vítor dá bem conta da minha posição sobre o assunto:
Longe de mim propor que a palavra cafre desapareça do dicionário; o que é preciso é melhorar a entrada cafre na maior parte, se não na totalidade, dos dicionários. O que eu critico é a falta de rigor. Uma entrada como a que nos mostra é um bom exemplo de falta de rigor: falta a referência ao carácter histórico da palavra (já não se usa, pelo que, simplesmente, devia ser marcada Histórico); falta a referência à evolução semântica da palavra (passou a designar todos os negros, muçulmanos ou não, da África Austral ou não); falta a informação sobre a conotação pejorativa no português moderno, sobretudo no século XX, até deixar de ser usada (devia ser marcada pelo menos como Ofensiva); diz que é uma língua de uma pretensa Cafraria, que não existe nem nunca existiu – havia e há dezenas de línguas na África Meridional (esta parte devia pura e simplesmente ser retirada, é uma mentira); e depois dá como sentido figurado o que não é senão o sentido primeiro durante um determinado período histórico.
Contraste-se com a entrada kaffir do Oxford Concise e veja-se a enorme diferença (tendo em conta que a palavra kaffir é provavelmente mais recente em inglês do que cafre é em português):
Kaffir n. 1 a hist. a member of the Xhosa-speaking peoples of S. Africa. b the language of these peoples. 2 S.Afr. offens. any black African (now an actionable insult). [originally = a non-Muslim: Arabic kafir ‘infidel’ from kafara ‘not believe’]
Eu já não peço senão o rigor do Concise Oxford.
Quanto a poder utilizar-se hoje a palavra sem a utilizar num sentido depreciativo, o que eu não dizia nessa carta a Vítor, mas que digo agora, é que ela ter ou não um sentido depreciativo não depende das intenções de quem a usa! Por isso, não, não se deve usar a palavra, a não ser referindo o discurso de outrem: “As populações costeiras que o padre Boym designa por cafres são, na realidade, etc., etc.”….” Aliás, tirando esse uso, vê-se mal que utilidade possa hoje ter uma palavra assim. Para referir quem?

E pronto, o final da história é que acabei por decidir fazer uma entrada cafre no meu glossário de moçambicanismos, que diz assim:
cafre n. e adj., cafreal adj. Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”)
A história das palavras cafre e cafreal é complexa. O termo cafre foi usado desde muito cedo, amalgamando os povos nativos da zona. A palavra foi adquirindo conotações muito racistas e muito ofensivas e, ainda durante o período colonial, o seu uso foi desaparecendo. Muitos dicionários assumem que a palavra designa de facto uma etnia e a sua língua, o que não é correcto. Curiosamente, hoje em dia, há uma expressão em que, na minha experiência, essa conotação não se mantém, talvez porque se tenha já perdido a consciência da sua origem: galinha à cafreal. Lopes, Sitoe e Nhamuende, na sua obra Moçambicanismos dizem o mesmo: “Apesar do contexto em que começou a ser utilizado, o termo cafreal na expressão galinha à cafreal, há muito utilizada, não tem tonalidades semânticas depreciativas; significa, sobretudo, o modo local de preparação da ave e o tipo de temperos usados, em particular o piripiri”.
Está melhor assim do que na maior parte dos dicionários, não está?

08/06/09

A Música Negra de Belo Marques

Uma coisa que fiz várias vezes na minha vida foi discutir com textos de tempos passados em que os europeus falam de povos de outros lugares. E eis três conclusões a que cheguei: não serve de nada tentarmos dialogar com esses textos como dialogamos com um discurso nosso contemporâneo – não há maneira de ver o mundo que não seja definitivamente determinada pelo tempo histórico a que pertence e a única razão pela qual não se pode dizer “eu também seria assim, se tivesse nascido 60 anos antes” é que ninguém seria a mesma pessoa se tivesse nascido 60 anos antes…; a consciência da historicidade de qualquer texto não nos deve impedir de fazer notar no texto o que, aos olhos de alguém de hoje, ele tem de incoerências ou de traços de um imaginário ou de uma ideologia que não nos parece agora aceitável; mas não é porque num texto se revelam os inevitáveis traços da etnocentrismo que são marcas de outra época que ele deixa forçosamente de ser progressista.



















E a propósito de quê, tudo isto? De um livro que acabo de ler. Chama-se Música Negra, Estudos do Folclore Tonga (Divisão de Publicações e Biblioteca, Agência Geral das Colónias. Lisboa: Editorial Ática, 1943) e foi escrito pelo maestro José Belo Marques, que todos conhecem, pelo menos como autor de “[Quem passa por] Alcobaça”. O maestro tinha 40 anos quando, em 1938, se meteu a fazer um estudo da música do Sul de Moçambique.

O livro é bastante sedutor. É claro, uma boa parte dele são transcrições das canções recolhidas, e quem, como eu, não saiba ler música, tem de saltar, assim, por cima de metade da obra... Mas fica-lhe ainda muita e agradável leitura. Belo Marques é um verdadeiro romântico e é a sinceridade do seu romantismo a primeira coisa a fascinar-nos: há uma verdade essencial na alma dos povos, de que a música é a expressão mais imediata e verdadeira. Dito desta maneira, parece um pouco vago demais, desculpa-se ele várias vezes, mas quem o sentiu sabe que é assim.

Homem do seu tempo que é, Belo Marques não pode deixar de ver na “pureza” do negro a razão da sua pujança artística – o negro é espontâneo, bruto e bom, e um artista natural. Que se lhe civilize a alma, e eis que lhe desaparecem as suas qualidades:
**O observador que viva algum tempo no interior da selva, ainda pode descortinar alguma coisa da [música e da vida do negro]. Porém, vai sentindo um certo esbatido na verdade, à proporção que se vai afastando do mato e aproximando da civilização. Este facto, no que respeita à música, é de uma sensaboria flagrante. Procurámos por êsse motivo afastar-nos o mais possível das Missões estrangeiras, sobretudo das americanas, onde nos parece que se devia incutir no preto o gôsto pela sua arte e pela sua toada e não ensinar-lhe uma música que não se sabe de que raça é, sem vigor e sem beleza, que o preto canta com o mesmo sacrifício com que um doente toma uma receita.
O livro divide-se em 16 estudos, onde se sucedem, sem ordem nem lógica especial, a recolha musical propriamente dita, reflexões antropológicas e considerações estéticas. O livro Música negra é, assim, várias coisas, mas talvez se possa dizer que é sobretudo um apelo. Não exactamente a etnomusicólogos, mas antes a compositores! Um apelo ao abandono de tudo o que é cerebral e ao retorno a uma verdade sentida, mais ancestral – e mais universal! Saber muito de música não basta, porque a inspiração não se aprende nas escolas nem nas salas de concertos de Paris e Londres, e Belo Marques e muitos outros compositores ainda não descobriram “em qual expresso se embarca para o país dos iluminados…”
**Por esse motivo é de aconselhar, aos compositores, um embarque até à nossa África. Talvez, quem sabe?... É uma tentativa. O músico negro não fêz da sua arte uma profissão; a sua música, as suas melodias nasceram de um rasgo de sinceridade. Tudo ali se encontra: desde o sonho dôce de uma alma infantil, até ao grito sólido da brutalidade.
**Abrir o coração e sentir lá dentro tôda essa melodia calma da floresta; abrir o peito e deixar entrar o forte odor de uma natureza virgem… Talvez… Quem sabe?
Não sentir este baralhar constante dos nossos sentimentos entre a pureza e vaidade, nesta luta onde mistura tudo, numa ânsia de superioridade. O compositor, sobretudo, necessita fugir ao trabalho por encomenda e a prazo.
**Se encomendarmos a um compositor pagão um «Sanctus» ou um «Kyrie», é o mesmo que dispôr uma planta de grandes raízes num pequeno vaso; definha e, por fim, seca. Até a mais ligeira canção só pode nascer de um estado de espírito especial e, como um tremor de terra, nunca se sabe quando esse momento surge.
José Belo Marques gosta da música moçambicana e acredita nela. Ele pensa que é possível “uma análise verdadeira [dessa música,] aproveitando alguma coisa de novo que possa por ventura vir a ampliar os nossos conceitos sinfónicos e as nossas partituras.” Não diz abertamente, mas quase, que quer ver surgir os Grant Still e os Gershwin portugueses:
**Ao negro da América do Norte deve esse país uma transformação profunda da sua música. Já António Dvorak dizia que a música negra viria a dar a base a uma nova escola musical. (…) Os compositores portugueses têm ali, na nossa África, uma fonte inesgotável de inspiração; e todos esses cantares bárbaros, esses temas exóticos mas puros, podem abrir as portas a elevadas sinfonias, podendo ser enaltecidos pela riqueza dos nossos instrumentos e a nossa civilização.
O que é também interessante no texto de Belo Marques é que coexiste com a imagem do selvagem infantil e puro, e com uma consciência dramática de um abismo cultural entre “o branco” e “o negro”, um surpreendente universalismo humanista. E a certeza de que África tem algo importante a dar ao mundo:
**No século XX, êste século em que tudo se produz em série, eu prefiro, em vez de me embrenhar nessas partituras cerebrais, estudar a música do negro e a sua harmonia. Mas, afinal, a harmonia negra não existe. Não há harmonia negra nem branca. A harmonia é tôda da mesma côr, de minuto a minuto rejuvenescida. E, para êsse rejuvenescimento, creia o leitor, que muito há-de contribuir, para o futuro, a música negra.
É claro, podemos interrogar-nos: será a música o símbolo dessa igualdade fundamental entre todos os homens e todas as culturas, ou é só na música que essa igualdade se aplica? Para um músico, porém, o que é que, mais do que a música, pode ser expressão fundamental de Humanidade? Afirma Belo Marques: “Arvey e Grant Still dizem que a música negra, quando ganha os corações, não os larga mais”. O dele, obviamente, nunca mais a música negra o largou. Diz-me a minha amiga Guiomar, neta de Belo Marques, que ele compôs uma peça chamada Fantasia Negra, que foi tocada em público uma única vez. A Guiomar está convencida de que a Fantasia Negra é a grande obra do maestro; e nem ela, nem praticamente ninguém, a ouviu… Lembramos Belo Marques pela sua “Alcobaça”, mas não era, com certeza, por “Alcobaça” que ele gostaria de ser lembrado.

Só para uma coisa eu gostava de ter um blogue muito lido, influente, poderoso: para fazer lobbying. Neste caso, por uma gravação da Fantasia Negra de Belo Marques. Como será a música negra do maestro?

02/06/09

Tomar em mãos a sua vida: claro!, ma non troppo…

Estive a reler uma série de textos que tinha sobre uma das questões mais importantes que, creio eu, se coloca a qualquer pessoa: até que ponto mandamos na nossa vida e até que ponto manda ela em nós? A quase totalidade desses textos constituía a minha contribuição para uma longa discussão epistolar que tive com um amigo meu, há cerca de 10 anos. Como não sou capaz de reler sem refazer, saiu dos textos antigos um texto novo, que decidi que ficava bem aqui na Travessa… É um texto que, partindo da discussão de como se equilibram capacidade de controlo e acasos, acaba por pretender discutir sobretudo quais os eventuais efeitos nefastos da obsessão voluntarista[1].

Estou convencido de que é natural e louvável as pessoas quererem controlar a sua vida. Bem vistas as coisas, o ideal de todas as pessoas que, como eu, querem contribuir para um mundo com menos sofrimento e mais justiça é, precisamente, que possa ter maior capacidade de controlo da sua vida quem actualmente a não tem. A atitude que se situa no extremo oposto da defesa do controle a sua própria vida é a passividade fatalista e, essa, recuso-a completamente, tanto do ponto de vista da análise do mundo – porque acredito que o mundo pode ser mudado –, como do ponto de vista ético – porque acredito o mundo deve ser mudado.

Creio, porém, que só temos capacidade de controlo até certo ponto – até ao ponto em que os acasos interferem. Para mim, o que impede o exercício efectivo do livre arbítrio não é nenhum deus nem nenhuma outra força cósmica imutável, mas sim a presença demoníaca e constante de acidentes que não estavam escritos em nenhum livro do destino, que nenhuma teoria que pense o mundo em termos de relações de causalidade pode prever, que nenhum conhecimento oculto e sobrenatural pode antever – acasos de facto.

Como se define acaso? A questão é complexa, sobretudo para um materialista duro como eu, que acredita que cada estado de coisas é determinado pelos estados de coisas anteriores. A melhor definição que encontrei até hoje para acaso é “cruzamento de duas cadeias de causalidade independentes”. Não tenho a certeza de ser uma boa definição, mas não me parece que seja muito necessária uma definição mais rigorosa para se poder discutir a questão. Acasos, acidentes, todos sabemos o que são: aquilo que nós não controlamos.

A consciência da importância dos acasos não me obceca ao ponto de os considerar o maior obstáculo à capacidade de controlo de cada um. É fundamental, quando se tenta determinar o alcance possível da capacidade de controlo de cada um, sair da esfera do “indivíduo perante o universo” para entrar na esfera do “indivíduo perante os outros”, que não é menos importante (para mim, moralista que sou, é mais importante…). A principal razão de falta de capacidade de controlo de alguns é o excesso de capacidade de controlo dos outros. Tem mais capacidade de controlo da sua vida quem tem mais poder. E se, em termos morais, é desejável que o poder seja igualmente distribuído por todos, a justiça na distribuição do poder não leva a uma maior capacidade de controlo das suas vidas por parte de todos os seres humanos. Para que alguns tenham mais capacidade de controlo, outro terão menos. Por exemplo: muitos homens europeus invejam uma parte da qualidade de vida dos homens do chamado terceiro mundo – a parte que está relacionada com a sua capacidade de decidirem mais sobre o que fazem da vida... porque as mulheres decidem menos sobre a vida delas!... Para mim, então, por muito que se deva investir na maior capacidade de controlo das pessoas das suas próprias vidas, o ideal último não é que toda a gente mande o mais possível na sua própria vida, pelo menos no que diz respeito a questões de ordem “baixamente” material em que é o poder dos outros que constitui entrave a essa capacidade de controlo, mas antes fazer com que os poderes se equilibrem, de maneira que haja mais espaço para as decisões de cada um poderem tornar-se um limite às decisões dos outros.

No entanto, e isto é um dos aspectos mais curiosos desta discussão do papel da vontade (decisão, controle) versus o papel dos acasos (incontrolado, acidentes) na vida humana é que, mesmo em situações em que não é a capacidade de controlo de uns a limitar directamente a capacidade de controlo dos outros, toda a vontade se torna, em última análise, acaso também! Se eu decido candidatar-me a um determinado trabalho, por exemplo, estou, pela minha vontade, a desencadear acasos. Como a vontade de todos os outros não é previsível nem controlável, ela torna-se para cada um de nós (pelo menos potencialmente) um acaso. A minha acção vai transformar-se em mais um acidente disponível, digamos assim, para todos os outros. No exemplo que dei, a minha presença vai constituir um acaso para as outras pessoas que se candidatam ao mesmo lugar.

Fundamentalmente, não controlamos o que somos, o que sentimos, o que nos acontece ou o que acontece em nós – apenas o que fazemos… e nem sempre! Não sei se, na vida das pessoas em geral, predominam estados e acontecimentos incontrolados ou acções controladas. Mas estou convencido de que é esta última categoria de estados e acontecimentos incontrolados que é a mais marcante para a grande maioria das pessoas. Estou a falar principalmente daquilo que se é – a nossa carga genética e a nossa cultura, esses alicerces de nós que não escolhemos – e daquilo que se sente – os gostos, as inclinações, os ódios, as simpatias e antipatias, as paixões… sobretudo as paixões…

Mas então, onde chegamos? A nada que não seja relativamente trivial. Que devemos tentar controlar a nossa vida para nos livrarmos de doenças sexualmente transmissíveis e desastres de automóvel, com certeza que sim. Que se deve dar a quem não manda em nada na sua vida a possibilidade de decidir, como os que lhe ficam acima, que vida gostaria de ter, pois também sem dúvida. Agora: já disse que não acredito que se possa mandar sempre na vida, mas acredito ou não que, na medida do possível, se deve sempre tentar fazê‑lo? Sempre não. É por isso que este texto tem o título que tem. Espero que a parte seguinte da discussão seja menos trivial do que o que fica para trás: O que se deve ou não querer controlar? Dito de outra maneira, o que é que de negativo pode vir a cada um e aos seus próximos da ânsia de demasiado controlo?

Na minha opinião, um dos possíveis efeitos negativos de um voluntarismo radical é a ideologia do herói e a desvalorização da impotência. Se levamos a concepção voluntarista da vida às suas últimas consequências, podemos até aceitar, como fazem algumas pessoas, que toda a gente é responsável até do que sofre, daquilo de que é vítima. Porque não tem a força de vontade suficiente para se revoltar, para lutar pela sua liberdade… Estamos em plena ideologia do herói, que é igual à direita e à esquerda, que é uma expressão extrema do voluntarismo e que é, sobretudo, um dos alicerces de uma concepção elitista do mundo: se há quem seja capaz de fazer algo, os que não são capazes de fazer a mesma coisa têm de ser fracos, estúpidos, cobardes, etc. e, por consequência, inferiores[2]. Tantas vezes que eu vi alguém revoltar-se perante uma injustiça, por exemplo, e, à boa maneira do herói, acusar os outros de não fazerem a mesma coisa. O que o herói normalmente não percebe é que o que faz o herói é a possibilidade. E possibilidade é o nome correspondente tanto ao verbo poder como ao verbo conseguir. E se o primeiro marca uma qualquer capacidade de controlo, o segundo assinala precisamente a ausência dessa capacidade. Nem sempre se consegue ser herói e não há em não o conseguir nada de criticável. Nem ser herói é nenhum dever…

Numa outra perspectiva, um perigo do extremismo no empenho de controlar o mundo é fazer dele quadrado, asséptico e desumano. É a ânsia de controlar racional e organizadamente a vida das pessoas que está na base de uma das ideias fortes do pensamento europeu que é a utopia[3]. Há aqui na Travessa algumas referências passageiras à questão. A utopia fascina-me, mas é um fascínio impregnado de receio. O perfeito controlo é não deixar nada ao acaso, nem a escolha, pela inclinação dos sentimentos, dos parceiros sexuais; é não deixar, no espaço todo circundante, nem um vestígio do “caos” natural; é tornar geométricos todos os espaços, e geométricos também, se se pode dizer assim, os comportamentos e o sentir; é substituir as línguas naturais por línguas inventadas que não traiam o pensamento… O perfeito controlo… Eu sei que não é só a mim que isto faz confusão.

E guardo para o fim o que me parece ser o perigo mais visível, nas sociedades modernas, da forte vontade de deitar fora da vida todos os acidentes: um mundo sem imprevistos nem aventura pode facilmente tornar-se num mundo de tédio e solidão… Uma maneira de limitar os perigos na nossa vida é, evidentemente, limitar a própria vida; e a obsessão de limitar os acasos na nossa vida pode facilmente levar-nos também a limitar a própria vida.

Isto aplica-se a todos os aspectos da nossa vida, mas aplica-se muito especialmente às relações entre pessoas. O voluntarismo é tanto mais eficaz quanto menos espaço dermos aos outros no caminho que vamos percorrendo. O preço a pagar é, em última análise, a solidão. Falo aqui do que tenho observado, do que acontece cada vez mais, porque cada vez há mais pessoas a aceitarem mal não serem donas do seu destino. Os transportes públicos das grandes metrópoles estão cheios de pessoas que se ignoram porque não fazem parte dos planos uns dos outros. Fechados nos seus livros e revistas, mortos para qualquer aventura. E aventura é, precisamente, uma palavra muito próxima de acidente ou acaso, se não mesmo um sinónimo...

Não só não acho que devamos tentar banir da nossa vida todos os acasos, acho até que nos devemos (voluntariamente!) expor ao impacto de alguns deles. A vida (ou a sua qualidade, se se preferir) só tem a ganhar com isso. A aventura é a aventura e é enriquecedor não querer controlar tudo sempre, às vezes deixar-se ir…
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[1] Tenho plena consciência de que uso neste texto voluntarismo e voluntarista com significados mais ou menos desviantes relativamente àquele que têm estas palavras quer no discurso não especializado quer na discussão filosófica. Esta nota de rodapé serve, precisamente, para deixar claro que, neste texto, voluntarismo refere a crença no poder da vontade em dois sentidos modalmente distintos: o de poder controlar a sua vida e o de dever controlar a sua vida.

[2] Para mostrar a relação directa que há entre a ideologia do heroísmo e o voluntarismo, chamo a atenção para um facto simples: não há heróis por acaso. O herói acidental é, pelo menos no ideário e no imaginário europeus, uma figura cómica, caricata, ridícula. O seu carácter humorístico vem‑lhe do facto de ser precisamente, para a mentalidade dominante, um contra-senso, uma coisa ao contrário do que se espera, algo como um gato que tem medo de ratos...

[3] É importante notar que não uso a palavra no sentido geral de “ideal” em que ela é muitas vezes usada, mas referindo antes um tipo de ideal de organização social específico, descrito na Utopia de More e em dezenas de obras que, com algumas variações, seguem esse modelo.

27/05/09

Propriedade privada e domínio público

Para mim, é claro: enquanto eu não perder completamente a esperança (a ilusão, seja…) de vir a vender certas coisas que escrevo, hei-de querer conservar delas a propriedade legal. Abdico, porém, de qualquer direito à parte da minha escrita que eu nunca quis vender. A grande maioria das coisas que escrevo aqui na Travessa não tem grande interesse para ninguém, mas, se alguém quiser citar o que eu escrevo sem mencionar a fonte ou apresentando-se até como sua autora ou seu autor, faça o favor! Ficarei, naturalmente, muito satisfeito de ver alguma ideia ou formulação minha ser assim adoptada por outra pessoa. Sobretudo, se eu ainda concordar com ela…

Reflexãozinha sobre o anonimato, tão sem graça como devidamente identificada

Uma característica interessante da cultura internética, se é que se pode falar de uma coisa assim, é o anonimato – uma coisa que me surpreende, por não lhe encontrar uma razão óbvia; que me irrita um bocadinho, às vezes; e que não sei bem até que ponto se deve ou não condenar...

Muita gente tem criticado o anonimato na compilação ou sistematização de informação. A Wikipedia é o maior alvo destas críticas, mas há muitos outros casos semelhantes*. Sinceramente, não vejo perigo nenhum em projectos deste tipo. Uso regularmente informação a que tenho acesso em enciclopédias e fóruns anónimos, e não vejo necessidade de ser mais cuidadoso na filtragem dessa informação que na filtragem da que vou buscar a obras assinadas. Em princípio, os motivos para desconfiar de um texto têm pouco a ver com o facto de ele ter ou não um autor identificado (a não ser, claro, que se aceite a identidade do autor como garantia suficiente da sua credibilidade…).

É também praticamente irrelevante a questão da produção anónima de objectos artísticos, porque ela é mínima e normalmente de obras sem grande interesse – os produtores de obras de qualidade são normalmente ciosos da sua assinatura, online ou não. Independentemente da sua frequência, porém, não há nesse anonimato nada que seja passível de crítica, porque no domínio da arte, ninguém é obrigado a nenhum tipo de relação com as obras que cria, e certamente que não tem nenhum dever de se dar a conhecer como seu autor.

Na minha opinião, o domínio em que é mais interessante a discussão do anonimato é o da produção de opinião. A todos os níveis: principalmente sobre questões políticas, ou morais em geral, mas também sobre questões estéticas. A internet está cheia de opiniões anónimas – e nem sempre anódinas. E eu não percebo bem por quê. Provavelmente, as pessoas sentem-se mais expostas e de alguma forma mais vulneráveis online do que em relações não virtuais, mas, mesmo assim… Já não falo de páginas com conteúdo sexual ou de blogs de super-heróis (que gracinha, Vitinha…), em que as razões do anonimato são imediatamente compreensíveis, mas, desde blogues de opinião a fóruns vários de discussão, passando por comentários externos a artigos de jornais e revistas online e a posts de blogues, as criaturas mais activas na Internet são a Sra. Anónima, o Sr. Anónimo, a Sra. Pseudónima e o Sr. Pseudónimo. Pode argumentar-se que o facto é irrelevante, porque uma opinião tem o mesmo valor sendo assinada com um nome verdadeiro ou não, e é difícil rebater tal argumento. Como já disse, irrita-me às vezes um bocado o anonimato, mas é uma irritação sem grande motivo, reconheço… É uma coisa instintiva, visceral: quando vejo um comentário anónimo, seja neste meu blogue ou noutro sítio qualquer, pergunto-me a mim mesmo: “Será que, fora da Internet estas pessoas também reservam a sua identidade? Ou reservam antes, perante pessoas que sabem quem elas são, a sua opinião?” É estranho, tudo isto, mas enfim, apenas estranho. É-me difícil apontar aqui alguma imoralidade.

“E o que é que se passaria se não houvesse a possibilidade de anonimato”, interrogo-me eu, para ver se descubro algum perigo real no não dar a cara. Bom, é possível que alguns comentários apatetados desaparecessem, que desaparecesse alguma virulência (sei que há estudos que defendem que o anonimato online está na origem de tipos vários de comportamento anti-social); e talvez aumentasse a necessidade de justificar argumentos… Talvez tudo isto – ou talvez não…

Mas enfim, assumamos que agressividade, leviandade, e desrespeito de normas e de pessoas são alguns possíveis efeitos negativos do anonimato. E que efeitos positivos tem? Também não sei bem. Em princípio, o de dar, a quem não a tem, a coragem de se exprimir sobre determinados assuntos**, ou a coragem de se exprimir, tout court; e, claro, o mais óbvio de todos, maior facilidade na possibilidade de resistência activa a vários tipos de repressão***…

Agora, já repararam que, no meio de tantas opiniões anónimas, a esmagadora maioria das pessoas convictas do que escrevem se identifica devidamente? Da parte do autor dos textos, há alguma relação, estou em crer, entre assinar e levar “a sério” o que escreve. E a mesma relação entre identificação e “seriedade” é também estabelecida, penso eu, por muitos leitores: um texto devidamente assinado é considerado mais “sério” e merece, portanto, mais credibilidade. Não vos parece?

... O que não significa, claro está, que todos os que se identificam devidamente têm um alto grau de convicção e que ganham, por se identificarem, alguma credibilidade. Eu, por exemplo, apesar de devidamente identificado...

[Agora, entre parênteses, vou fazer uma pequena experiência: vou escrever aqui que prevejo comentários anónimos a este post, a ver quantos aparecem…]
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* As críticas não são só ao facto de os artigos terem autores anónimos, mas também ao facto de serem produzidos colectivamente. Não sei até que ponto se pode dizer que o anonimato é, nestes casos, uma componente do colectivismo...

** Também sei que há estudos que consideram o anonimato uma causa de hiperpersonalismo, o que faz todo o sentido, mas não sei se pode colocar esta abertura de si entre as consequências positivas do anonimato… Duvido, pelo menos, que seja um consequência abertamente negativa, ao nível das que referi atrás…

*** Que eu, confesso, não faço ideia de que importância tenha. A verdade é esta: nas minhas deambulações pela net, nunca fui parar, como vou parar a tantos outros tipos de páginas, a sites de resistência clandestina a regimes repressivos e nem sequer a páginas de resistência a algum chefe ou professor despótico. O que não quer dizer que os não haja, claro está. O facto de isso nunca me ter acontecido tem provavelmente tem mais a ver com o próprio carácter das minhas ciberdeambulações, não sei…

23/05/09

Morte ao som do disco sound

Touching the void é o nome de duas grandes obras.

A primeira é um livro do montanhista Joe Simpson em que ele conta a escalada do monte Siula Grande, no Peru, com o seu colega Simon Yates. Joe Simpson é um narrador altamente competente e a sua escrita consegue seduzir mesmo quem, como eu, não se interesse especialmente por montanhismo – e também seguramente quem, ao contrário de mim, não se interesse por problemas morais (ia a escrever “e ainda a quem não se interesse pela questão dos limites do ser humano e da problemática da morte iminente”, mas não acredito que haja gente assim…). Haveria muito que dizer sobre o livro, mas não é aqui lugar para isso nem essa a intenção deste post, pelo que me limito a recomendá-lo. [Sei que existe uma tradução em português do Brasil chamada Tocando o vazio, não sei se existe alguma em português europeu.]

A segunda obra com o mesmo nome é o filme que Kevin MacDonald realizou em 2003, a partir do livro e com a colaboração de Joe Simpson e de Simon Yates. Trata-se de um documentário fabuloso, em que se misturam entrevistas aos protagonistas com uma reconstituição dos acontecimentos que é impressionante de beleza das imagens, realismo e drama. Uma obra também muito recomendável.

E chego ao que eu queria aqui contar: Joe Simpson está sozinho no meio da neve, tem uma perna estilhaçada, sofre dores horríveis, está enregelado, completamente desidratado, não consegue mover-se. Não tem dúvida de que chegou o fim. Só lhe resta esperar a morte.

“Não me lembro de ter pensado em ninguém… Em nenhuma das pessoas que me são queridas... Lembro-me de me ter vindo uma canção à cabeça… Dos Boney M… E eu não gosto de Boney M… Aquilo continuou… Durante horas e horas… Era horrível… Porque eu queria tirar a canção da cabeça e pensar noutras coisas… E comecei a pensar: Porra, pá, vou morrer ao som dos Boney M!...”

(Se tiverem a sorte de não conhecer a canção em questão, “Brown girl in a ring”, mas, roidinhos de curiosidade, quiserem ir ver qual é, pois bem, façam-no… por vossa conta e risco… Quanto ao título do post, leiam-no como quiserem...)

21/05/09

A cidade de Nimis e a floresta de Oma

Em Maio de 1993, numa viagem que fiz à Suécia, levaram-me a visitar Nimis. Eis o que eu escrevi sobre esse estranho lugar num caderninho chinês que levava comigo.
Nimis fica no Sul da Suécia e é uma teimosia, uma coisa de amor e de obsessão. Vou contar o que me contaram.
Lars Vilks tinha uma tese para fazer e queria fazê la sobre os limites da arte: o que é uma obra de arte?; o que é que ainda é arte ou já não é arte, onde ficam as fronteiras?
Foi a um parque natural, desses em que é tudo proibido, cortar as plantas, mexer nelas, construir seja o que for, e começou, num amontoado de rochas à beira-mar, a juntar paus que o mar trazia e troncos velhos, e a empilhá-los e a atá-los, e a ordená-los, enfim, na forma de uma cidade bizarra que trazia na cabeça.
Soube-se da construção e começou a disputa com as autoridades, que oficialmente nunca acabou. O município dizia que ali não se podia construir. Lars Wilks respondia que aquilo não era construir, mas antes criar arte e que não havia lei contra isso. O município retorquia que era construir, sim senhor – um edifício muito esquisito, mas ainda assim um edifício. Et cetera.
Uma vez, tentaram destruir Nimis, pegando-lhe fogo, mas Nimis não ardeu completamente e Lars Wilks começou logo a reconstruir as partes queimadas. A primeira coisa que fez depois do fogo para robustecer a sua obra foi encher de pregos os paus, para não poderem arder com facilidade. E Nimis foi sempre ficando e crescendo. Todos os dias, Lars Wilks ia juntando troncos e paus à cidade fantástica de troncos e paus. Começou a vir gente ver a obra de arte que nunca parava de crescer.
Um dia, Lars Vilks fez uma venda simbólica de Nimis a um artista conceptual alemão, que morreu pouco depois. Foi uma venda simbólica, porque o artista alemão pagou por Nimis uma soma simbólica, mas foi uma verdadeira venda, no sentido em que foram cumpridos todos os requisitos legais que a venda de uma obra de arte implica. E foi outra polémica. A ideia era obrigar as autoridades locais a deixar Nimis em paz, porque a lei sueca diz que não se pode tocar na propriedade de um estrangeiro. O município, porém, insistia em que ele não tinha o direito de vender Nimis como se fosse um quadro ou uma escultura, porque não era uma coisa móvel, tinha alicerces num terreno que não lhe pertencia. Mas Lars Vilks argumentava que não havia alicerces de facto, que era só a estrutura mínima de que a obra precisava para se manter de pé, como muitas esculturas têm.
A pouco e pouco, a teimosia de Lars Wilks acabou por se impor. As autoridades municipais foram-se cansando de tão grande luta sobre o que começaram a achar, afinal, tão pouco, e acabaram por aceitar Nimis como um facto consumado.
Agora o que é engraçado é que, já passados a tese e o auge da grande discussão com as autoridades municipais sobre onde começa e onde acaba uma obra de arte, Lars Vilks apaixonou-se por Nimis. Febrilmente, obsessivamente. Nota-se-lhe essa febre na maneira ansiosa como os pregos torcidos e as tábuas tortas nunca são endireitados, na pressa desorganizada das formas, no espaço todo que é deixado a acasos. Já lá vão mais de 10 anos e Lars Vilks continua, impacientemente, o seu trabalho. Como já não lhe chegavam os troncos e a madeira velha, começou a usar pedras e cimento também. Começou a mobilar com restos de livros rasgados que prega à parede uma das salas da sua cidade: aqui é a biblioteca. Quem sabe, virá depois um asilo para velhos e uma estação de caminho de ferro.
Toda a gente que se interessa por Nimis acredita que Lars Vilks há-de continuar sempre o seu trabalho, até morrer.
Retoquei um bocadinho o texto, mas muito pouco, e não foi o suficiente para o aliviar de incorrecções e lacunas. Entre outras coisas, conviria explicar que a construção de pedras e cimento que Lars Vilks tinha começado pouco antes da minha visita não é Nimis, mas sim Arx. Outra coisa, outra obra. E chegou a haver uma terceira, que foi removida… O melhor, para ficarem a saber mais sobre Nimis, que entretanto se transformou numa micronação, é darem uma voltinha à Wikipédia ou à página oficial da nação em que se Nimis tornou. De Nimis é tudo o que sei e do bosque de Oma sei ainda menos.
Eu morava no Bairro Alto, nessa altura. Em 94, foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs:
“É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!”
Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir. Lembro-me de que tentei muitas vezes imaginar como seria uma “pintura sobre floresta”, sem nunca conseguir imaginar nada de muito concreto.
Durante muitos anos, esqueci-me completamente dos bosques pintados do país basco. Até que ontem, de repente, me lembrei de Nimis, que também estava esquecida há uns anos, e da floresta pintada. Fiz uma pesquisazinha na internet e fiquei finalmente a saber como é o bosque de Oma, pintado por Agustín Ibarrola. E quero agora apresentar-vo-lo. Se não se importarem de ter um bolero de Antonio Machín como música de fundo, podem ver um diaporama que dá uma boa ideia da obra; se não gostarem de boleros, há muitas fotos na Wikipedia e noutros sítios… Um senhor chamado Iker, por exemplo, tem uma página com bonitas fotos do bosque, em que explica que, “dependendo de onde a gente se ponha, formam-se figuras muito curiosas. É surpreendente ver aquilo lá mesmo no lugar, porque só se vê pinturas nas árvores, mas quanto uma pessoas se coloca em determinados sítios, vê um desenho formado por várias linhas de árvores...” Isto vê-se bem numa outra bonita galeria de fotos da floresta, da autoria de Javi Munõz.
Também há quem faça desenhos enormes em campos de cereais.

19/05/09

Louvor de Paulino António Cabral e de uma vida boa

Jacinto do Prado Coelho disse do poeta Paulino António Cabral, muitas vezes referido como Abade de Jazente:
Os versos d[ele] não valem muito pela qualidade poética (…), mas não deixam de ser literatura cativante, injustamente obliterada.
A não ser que nos atenhamos a uma concepção altamente formal de “qualidade”, não percebo bem o que é preciso mais, para definir a qualidade poética de um texto, do que ele ser, precisamente, literatura cativante... Para mim, Paulino António Cabral é apenas um poeta sério e, nisso estou de acordo com Jacinto do Prado Coelho, injustamente esquecido. Acho que deve dedicar, quem não o conhece, algum tempinho que arranje a conhecê-lo; por exemplo, numa página que lhe é dedicada pelo senhor Arlindo Correia (onde eu fui buscar, precisamente, a citação de Jacinto do Prado Coelho que acabo de referir). E deixo-vos aqui um poema de Paulino António Cabral, para os que o não conhecem decidirem se têm ou não vontade de o conhecer. Em 1784, com 65 anos de idade e já doente, escreveu ele:

Eu, que junto à cabana, em que vivia,
Tive uma rica rrmida; e afortunado
Ovelhas tantas tive, que o montado
Com elas branquejar alegre via;

Eu, que tive prazer, tive alegria,
Tive nome entre os mais; eu desgraçado,
De quanto tive agora despojado,
Não tenho nada mais, que a noite, e dia;

Eu mesmo deixei tudo; e unicamente,
A saudade nos cofres da memória
Com desvelo guardei, mas imprudente;

Pois lendo nela a minha triste história,
Me fazem ser mais duro o mal presente
Doces lembranças da passada glória.

Tinha prometido já não falar aqui de literatura e não o faria se não trouxesse a literatura agarrada a ela outra coisa qualquer. É tão impossível como irrelevante saber o que há de expressão de uma convicção, neste poema, ou de procura apenas de efeito literário. O facto é que, entre outras coisas, o poema diz uma ideia e pode-se discuti-la (sou daquelas pessoas antiquadas que acham que a literatura serve para transmitir ideias e que é esse um dos seus aspectos interessantes; e que se podem discutir as ideias que se encontrem num poema, exactamente como as que se encontrem noutro texto qualquer...).

Poderia argumentar que o problema do sujeito do poema não é a “passada glória”, mas a fonte dessa glória; poderia repetir aqui que prazer e alegria não têm nunca satisfação e não trazem nunca satisfação; que de fortuna e nome pouco fica que nos valha quando deixamos de os ter; que, se fossem as doces lembranças de acções concluídas, se fosse a “passado glória” feita de obras feitas, não haveria saudade que o magoasse, até porque não haveria de que ter saudade. Mas não é por aí que quero ir, até porque isso já eu escrevi aqui uma vez. O que eu queria dizer é só que, independentemente do que se tenha feito na vida, é uma sorte, precisamente, poder lembrar-se de ter tido, pelo menos, alguma coisa de seu, prazer e alegria; porque terrível de facto há-de ser olhar para trás e não conseguir recordar senão o contrário de tudo isso... E há muita gente, estou eu convencido, que não encontra muitos prazeres de que ter saudade no fim da vida...

Mas claro, é mais fácil ser-se assim optimista em relação à velhice antes de lá chegar do que depois de lá ter chegado. Eu em lá chegando (já faltou mais...), depois digo-vos se mudei de opinião, sim?

Não me digam que não acham boa ideia…

Continuamos em maré de resolver ambiguidades:

Na frase dinamarquesa correspondente a “O poeta despede-se da musa no seu leito de morte”, o possessivo (seu) é diferente conforme se trate do leito do poeta ou do leito da musa, de maneira que nunca há ambiguidade.

Podia facilmente convencionar-se uma regra assim para o português escrito: escrever-se-ia “A Rita foi com a Rute no seu carro”, se fosse o carro da Rita, e “A Rita foi com a Rute no carro dela”, se fosse o carro da Rute. Ou ao contrário, era irrelevante, conquanto que se assentasse numa regra...

O quê? Não me digam que não acham boa ideia…

Erros, ponto e vírgula!... Preferências!

A pontuação é uma invenção relativamente recente. Na escrita, foi a última coisa a ser inventada e pode até dizer-se que, como nós a conhecemos hoje, apareceu só depois da invenção da imprensa. “Se se viveu tanto tempo sem ela”, pensará logo quem não for muito amigo de pontos e vírgulas, “deve ser porque não é imprescindível…” Pois… Mas a questão não é tanto ser imprescindível ou não; a questão é que dá um jeitão!

Uma função da pontuação é marcar certos traços da fala que são pertinentes na construção de sentido, mas que são de tipo diferente dos sons que formam palavras, e que, por isso, não se podem marcar com letras nem acentos. Assim, numa língua como o português, a distinção entre uma afirmação e uma pergunta é muitas vezes marcada apenas pela entoação. Na escrita, isto é marcado com um ponto de interrogação. Neste caso, nas línguas em que as interrogações têm sempre uma estrutura sintáctica diferente das afirmações (ou mesmo nas frases em português em que essa diferença é clara, como “onde foi a Rita?”), o ponto de interrogação é de facto dispensável – e, por muito que isso nunca faça parte das regras ortográfica das línguas que conheço, é de facto muitas vezes dispensado: tenho o Outlook Express cheio de provas disso.

A segunda função da pontuação é facilitar a leitura. As convenções sobre colocação de vírgulas, por exemplo, podem ser muito diferentes de tradição escrita para tradição escrita. Um exemplo é a diferença da tradição da “vírgula gramatical” (eu acho que devia ser antes vírgula sintáctica…) relativamente à tradição da vírgula “lógica” ou à da vírgula “de entoação”: na primeira usa-se um critério exclusivamente sintáctico; na segunda, um critério que se pretende semântico, ou lógico; na terceira, que coincide muitas vezes com a segunda, procura fazer-se corresponder a vírgula a pausas do discurso oral. Trocando isto em miúdos, numa frase como “A única coisa que temos de verificar é se as casas não estão alugadas no período em que vocês cá vêm, por isso digam-me quando têm planeada a vossa visita e eu pergunto à agência que aluga as casas se elas estão desocupadas nessa altura”, usando a regra dinamarquesa tradicional de “vírgula gramatical”, teríamos vírgulas a dividir todas as orações: “A única coisa, que temos de verificar, é, se as casas não estão alugadas no período, em que vocês cá vêm, por isso digam-me, quando têm planeada a vossa visita, e eu pergunto à agência, que aluga as casas, se elas estão desocupadas nessa altura”. A mim, que aprendi a ler com vírgulas à portuguesa, este sistema de vírgulas continua a dificultar-me a vida quando leio dinamarquês, a obrigar-me a ler as frases duas vezes para as perceber; a um dinamarquês, acontece exactamente o contrário – se as vírgulas não forem colocadas assim, custa-lhe mais a ler. Isto porque as vírgulas são muletas que usamos na leitura, conforme o sistema que aprendamos.

A terceira função da pontuação é desfazer determinadas ambiguidades que resultam da concisão da língua escrita. Costuma dizer-se que uma diferença da língua falada relativamente à língua escrita é ter um número muito maior de redundâncias. É verdade que a língua escrita é, no geral, muito mais concisa, mas muitas das “redundâncias” da oralidade não o são realmente, porque servem para evitar ambiguidades e incompreensões várias. No semi-artificialismo da língua escrita, há uma série de convenções de pontuação que permitem distinguir frases que, sem elas, seriam indistinguíveis. Estes casos são raros, mas têm às vezes alguma importância. Fiquei um bocado desiludido quando descobri que o exemplo que a Wikipedia dá é o mesmo de sempre, mas depois, pensando melhor, achei que é isso que compete a uma enciclopédia e acabei até por decidir usar também aqui o exemplo: “A woman, without her man, is nothing” é muito diferente de “A woman: without her, man is nothing.” [Notem, a propósito, e para ilustrar o que dizia atrás, que ambas as frases, e sobretudo a segunda, são altamente improváveis no discurso oral.]

No que respeita a desfazer equívocos e ambiguidades com pontuação, um dos casos que surge com mais frequência é a distinção entre sintagmas restritivos e apositivos. Para dar também um exemplo clássico, se eu escrever “A minha irmã que mora no Porto chega amanhã”, qualquer pessoa deverá compreender que eu tenho pelo menos duas irmãs e que só uma delas mora no Porto, ao passo que, se eu escrever “A minha irmã, que mora no Porto, chega amanhã”, compreende-se que só tenho uma irmã e que essa única irmã mora no Porto. A distinção pode ser significativa, como no caso de um relatório que eu traduzi no outro dia: “Os camponeses do distrito, que foram apoiados pelo projecto, melhoraram a sua produção em mais de 10%” é muito diferente de “Os camponeses do distrito que foram apoiados pelo projecto melhoraram a sua produção em mais de 10%” – a diferença é de milhares de pessoas e milhares de toneladas de produtos agrícolas… Mas só para quem não tenha ideia do que o projecto é, porque quem o conheça sabe bem que ele não abrange todos os camponeses do distrito…

É de notar que esta distinção não se aplica só a orações relativas, mas a outro tipo de sintagmas. Por exemplo, se eu escrever, referindo-me à escola dos meus filhos, que “A funcionária da secretaria Júlia Nhacumbe está de licença de parto”, há pelo menos outra funcionária; mas se eu escrever que “A funcionária da secretaria, Júlia Nhacumbe, está de licença de parto” ou a secretaria está fechada ou contrataram uma substituta.

Mais complicado é o caso em que o uso de uma vírgula tanto pode resolver ambiguidades como criá-las, como acontece com a vírgula a separar o último elemento de uma enumeração. Este uso da vírgula é típico do inglês e, mesmo nessa língua, é discutido. Não se costuma usar assim a vírgula em português, mas eu faço-o às vezes, quando e apenas quando é mesmo necessário para resolver ambiguidades, o que acontece normalmente com um elemento composto no fim na sequência. Por exemplo, escrevo “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, poesia e drama” se a escola propõe 4 actividades extracurriculares e “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, e poesia e drama” se a escola propõe 3 actividades extracurriculares e em caso nenhum “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática e poesia e drama”, porque acho confuso. Mas enfim…

Outra situação em que uso uma vírgula que nunca vi recomendada é antes da conjunção e, quando ela não liga sintagmas do mesmo tipo. Por exemplo, escrevo, como toda a gente, “estivemos a tarde toda à espera deles e a jogar xadrez” e escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles e a noite toda a conversar”, mas escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles, e eles não vieram”: se usasse um mas, punha vírgula, porque não hei-de pôr vírgula antes de um e com valor de mas?

Ainda outra pontuação “estranha” que uso frequentemente é o ponto de interrogação a delimitar as interrogativas no meio de períodos. Não gosto da forma canónica de, por exemplo, “O que é que tu achas que devíamos fazer, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo?”, e uso “O que é que tu achas que devíamos fazer?, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo”.

Já que estou em maré de interrogações, deixem-me acrescentar que sou apologista do uso dos pontos de interrogação e exclamação invertidos no início de interrogações e exclamações, como na tradição espanhola (embora os use pouco, porque não quero chocar muito quem me lê...). São um excelente auxiliar de leitura, sobretudo em voz alta (mas não só). Talvez não faça muito sentido usá-los em frases como “Onde foi a Rita?” ou “Vai-te já embora, pá!”, mas deviam usar-se pelo em frases longas em que a exclamação ou a interrogação aparece só a meio da frase: “Ao fim de dois anos de conversa de chacha aqui neste blogue, com temas que, ¡sejamos honestos!, não interessam nem ao menino Jesus, ¿não sente nunca que era melhor deixar em branco este espaço de leitura, para cada um poder ler no branco o que lhe aprouvesse?”

Mas enfim, tudo isto são manias minhas, que eu não quero impor aos outros (propor, posso sempre propor, não é?). O que é importante para mim é que ninguém me obrigue a pontuar como não quero aquilo que escrevo, sobretudo quando tenho razões para pontuar como pontuo.

Os bons, os maus e os outros (Belos, asseados e bons, parte II)

Dizia eu, num comentário a um comentário do meu amigo Nuno, que “para um moralista duro como eu, o que se pode louvar são só os valores morais e as acções em sentido lato”, “que não faz sentido, do ponto de vista moral, louvar nem as características das pessoas, nem as próprias pessoas, nem grupos de pessoas em abstracto. Se alguém faz alguma coisa que eu acho louvável ou condenável, o que me merece elogio ou repúdio é a acção em si, o ter-se feito o que se fez. É uma armadilha – moral, mental... – fazer da pessoa ou das características “positivas” ou “negativas” que ela tenha o objecto do meu elogio ou da minha crítica.”

Quero desenvolver aqui um bocadinho uma parte dessa ideia, e insistir na necessidade de uma grande abstracção em todas as áreas morais – e, por conseguinte, também em política, que eu defendo que é apenas uma parte da moral. Para mim, o perigo maior de uma abstracção insuficiente neste domínio é a valorização a priori de determinadas pessoas e demonização das outras. Chamemos-lhe falta de focalização moral, julgar ao lado do que se pode e deve julgar...

Um exemplo simples: Mesmo numa perspectiva radicalmente antifascista como a minha, eu não me posso considerar, na totalidade das minhas acções, moralmente superior a uma pessoa que seja fascista. Uma pessoa pode ser fascista e ser, no geral, um pai mais dedicado aos seus filhos e aos seus amigos, e mais paciente com eles, do que eu sou; pode ser menos quezilento no trato em caso de discórdia; pode ser, em muitas coisas, “uma pessoa melhor do que eu” – mesmo na minha perspectiva moral. E pode depois, independentemente destas qualidades gerais de carácter, digamos assim, proceder bem em determinadas circunstâncias específicas em que eu procedi mal. É por isso, muito mais correcto disciplinar-me para pensar que sou inimigo das suas ideias e acções quando defende políticas autoritárias e repressivas, e que é só nessa condição que ele é meu inimigo, em vez de me convencer que ele é uma pessoa moralmente inferior, intrinsecamente má. Feliz ou infelizmente, anjos e demónios somos nós todos e não há pessoas intrinsecamente melhores do que outras, a não ser que sejam essas próprias pessoas a bitola pela qual medir a própria moralidade. Quando observamos à nossa volta, podemos verificar que cada pessoa se julga quase sempre do lado da verdade; e isso deveria ser prova suficiente de que esse lado é inexistente*.

Dito de outra maneira, cada indivíduo é um ponto de cruzamento de ideias, sentimentos e acções que existem, em abstracto, fora dele e que não desaparecerão quando ele desaparecer. Algumas das ideias, alguns dos sentimentos e algumas das acções de um indivíduo podem ser negativos, na nossa perspectiva, e podemos querer combatê los, mas isto não implica, como já defendi, que tudo seja negativo num indivíduo. A forma de combater essas ideias, sentimentos ou acções que consideramos negativos é erradicá-las dos indivíduos em que elas existem, porque não existem sem um suporte material. Tomar o indivíduo como inimigo, porém, é tomar como inimigo muito mais do que aquilo que queremos combater**.

O que digo sobre indivíduos aplica-se também a grupos de indivíduos. E o que digo sobre o combate aplica-se também à defesa. Quero sublinhar, no entanto, que é muito fácil desviar-se, sobretudo no trabalho político, da defesa dos princípios morais que deveriam orientar esse trabalho para a defesa dos grupos sociais que são vítima das injustiças que combatemos ou de outra forma beneficiários conjuntos dos objectivos que pretendemos alcançar. Ora, em sentido estrito, um grupo de pessoas não é objectivo de nenhum projecto moral, mas apenas o seu objecto conjuntural. O conjunto real das pessoas pobres, por exemplo, não é um projecto político; o combate à pobreza é que é. E o facto de se desviar da defesa de princípios abstractos para a defesa de pessoas ou grupos de pessoas concretas pode ter (e tem, muitas vezes) efeitos perversos acabando por desculpar ou inclusive apoiar, nessa pessoa ou nesse grupo, ideias, sentimentos ou acções que vão contra os princípios desse trabalho.

Agora, é fundamental sublinhar que há acções ou ideias em abstracto que são frequentemente louvados como ideais éticos e que nem sempre o são de facto; ou então, que podem ter esse estatuto numa determinada proposta moral e não o ter noutra. Vejamos, por exemplo, a obediência aos pais, que, segundo a notícia para a qual o meu amigo Nuno mandou um link no comentário já referido, é objecto de concurso na Arábia Saudita, como as dimensões e formas de pernas, cintura e seios o são em muitos outros países… A obediência aos pais é necessária, em certas idades e situações, por razões de ordem prática, que se prendem quer com a salvaguarda física das crianças quer com a preservação da saúde mental dos pais (smile!), mas não a vejo como um valor moral por si. Para mim, o valor moral de uma acção situa-se a outro nível e não valorizarei nem condenarei uma acção apenas por ela ser o resultado de uma obediência ou desobediência aos pais. Quando muito, e conforme eu julgue o grau de liberdade de acção da filha obediente, atribuirei ou não aos pais a responsabilidade do que, de bom ou de mau, possa resultar da acção. Vistas as coisas desta maneira, um concurso de respeito pelos pais não tem mais valor moral do que um concurso de beleza ou do que um concurso de ortografia…
_______________

* No entanto, curiosamente, continua a discussão moral, incluindo a discussão política, a ser feita de delimitação de conjuntos de pessoas boas e de pessoas más. Mais ainda, facto verdadeiramente extraordinário!, continua a reservar-se para os partidários das suas ideias o terem ideais de melhoria do mundo, atribuindo-se quase sempre ao adversário o móbil único da defesa do interesse. É muito estranho! Custa muito a admitir que duas pessoas possam ter ideais completamente antagónicos, ambos perfeitamente sinceros?

** Evidentemente, por uma questão prática, tem de ser o indivíduo, como unidade física, a ser punido por aquilo que fez, pelo menos enquanto não aparecer melhor possibilidade, mas isso não invalida em nada o que fica dito.

09/05/09

Ligações sem perigo absolutamente nenhum

Houve uma senhora chamada Whitney Sorrow que teve a ideia de fazer blogs de romances epistolares diz ela que “em tempo real”. O que isto significa é que as cartas são colocadas no blog na data que têm no romance. Por exemplo, neste momento está a ser publicado Dracula, de Bram Stoker, e hoje foi publicada a entrada de 8 de Maio do diário de Jonathan Harker. Como foi já notado nalguns comentários, a ideia de “tempo real” é um bocado estranha, se não mesmo um bocadinho estapafúrdia, mas, para alguma malta, não deixa de ser uma boa maneira de fazer escorregar a leitura de uns quantos clássicos.

Eu aproveito a boleia, a ver se tem graça ler assim. Dracula é uma obra-prima, e por acaso, foi dos poucos livros que trouxe para Chimoio, não me lembro por quê (acho que o comprei em segunda mão, algures no caminho…)... Mas não me dá jeito ler agora a obra, nem assim ao bocadinhos pequeninos, de maneira que me inscrevi, se posso dizer assim, para Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos, e hei-de então “receber” a primeira carta de Cécile Volanges a Sophie Carnay a 3 de Agosto. Em Dezembro, há-de aparecer Lady Susan, de Jane Austen, mas não sei como é que a “editora” vai resolver o problema da data, porque as cartas que constituem a novela não têm data, sabe-se só que a primeira é de Dezembro e de antes do Natal. Para se começar a ler Gente Pobre de Dostoiévski, que também está agendado, há que esperar mais um ano, porque a primeira carta, de Makar Dievushkin a Barbara Alexievna, é de 8 de Abril.

A despropósito desta informação, como é meu hábito, uma pequena nota sobre leitura:

Já li uma vez Les Liaisons Dangereuses. (Lembro-me até de que li em fotocópias de uma edição muito antiga, com letras muito grandes e os ss quase iguais aos ff.) Tenho, por isso, uma ideia do que trata o livro, mas não me lembro de quase nada da história propriamente dita. E posso dizer o mesmo de muitos livros que li – de romances, seguramente da maior parte, senão mesmo de todos… E não é nenhum defeito meu. Pode ser que não aconteça o mesmo a toda a gente, mas sei, por muitas conversas que tive sobre a questão, que acontece a muita gente. De centenas de milhares de páginas que lemos ao longo da vida, além do prazer que a leitura nos dá, pouco mais nos fica…

Estou convencido de que o mesmo se passa com as obras que se querem informativas. Ler grandes cartapácios para a escola, por exemplo, é trabalho bastante vão. Talvez se consiga memorizar alguma coisa para um exame, mas fica muito pouco para além disso. Não é que não fique nada, mas o que fica não compensa o tempo investido. Para ficar a saber, é muito mais eficaz ler resumos, estudar listas ou quadros. A não ser que se goste do que se está a ler, porque, é claro, nem só a ficção dá prazer. As 700 e tal páginas de Sociology, de Anthony Giddens, por exemplo, podem ler-se com o mesmo prazer com que se lê Os irmãos Karamazov – a até é natural que nos fique mais da leitura do primeiro do que do segundo… Depende das pessoas, claro está…

Quando Borges afirma que é um “desvario laborioso e empobrecedor (…) compor vastos livros; (…) espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”, não pretende, muito provavelmente, depreciar as obras longas, mas dar antes conta do seu projecto literário; é bem possível que não esteja a falar do que pensa da literatura em geral, mas mais de como sente e quer a sua literatura. Seja como for, o que ele diz, independentemente do que pretende ao dizê-lo, é difícil de refutar. E se se aplica à escrita, também se aplica à leitura: para quê ler tanto de que vamos reter tão pouco? Mais vale ler apenas o pouco que conseguimos reter.

Há agora muito quem se inquiete com os hábitos que se estão a criar, sobretudo com a internet, de ler exclusivamente textos pequenos, mas talvez com a nova forma de leitura as pessoas retenham mais do que lêem…Talvez assim aprendam mais… Mais uma vez, não há provavelmente razão para catastrofismos, mas antes para optimismo...

08/05/09

Belos, asseados e bons

Acho que se deve questionar um ideia que muita gente acha inquestionável: a ideia de que os “dotes mentais” são mais louváveis do que os “dotes físicos”. Não acho mal que se minimize o valor do dote físico beleza, mas que o inteligente valha mais do que o forte ou o fisicamente hábil, parece-me, no mínimo discutível. Quanto mais não seja porque inteligência, mesmo que a palavra seja entendida no sentido redutor em que é normalmente usada, o de “inteligência abstracta” (conceito também pouco preciso…), é uma qualidade física como outra qualquer. Como costumava dizer um amigo meu, se somos o único primata que consegue segurar um cigarro entre dois dedos é apenas porque os outros não têm inteligência que chegue para isso… Esquecemo-nos sempre de que é preciso a mesma quantidade de capacidade mental para ser um grande futebolista e para ser um grande matemático; que há uma percentagem extremamente pequena de pessoas com capacidade tanto para ser uma coisa como a outra; que, enfim, se não deixa de haver mérito no desenvolver e cultivar essas capacidades, sem se ter nascido com alguma potencialidade para elas não se consegue provavelmente sair muito da mediania; e que, tirando as pequeníssimas margens do espectro de capacidades onde se situam os hipertalentosos e os hipotalentosos, a esmagadora maioria das pessoas tem basicamente as mesmas capacidades mentais.

E então: Numa grande parte, senão na totalidade, das chamadas sociedades modernas, as capacidades de abstracção lógica ou de cálculo, por exemplo, são mais valorizadas do que as outras capacidades mentais – que nem sequer são assim consideradas –, e, por isso, as pessoas admiram muito a “inteligência” acima da média, que é rara. O pior da valorização da inteligência é que ela traz agarrada um negativo de si, uma depreciação. Acho curioso que muita gente que tão veementemente protesta contra outras formas de discriminação alinhe, sem grande pejo, na discriminação dos “burros”…

Mas é assim. O melhor que se pode ser é “inteligente”, “ter uma grande cabecinha”, E “porque sim” parece ser a justificação implícita – e suficiente. Ora tentemos sair do a priori e ver as coisas de outro ponto de vista. Primeiro, do ponto de vista pré-moral da satisfação de cada um: É-se mais feliz quando se é mais inteligente? Faz mais sentido a vida para quem é capaz de maior abstracção ou tem maior capacidade de resolver problemas? Ah… Pouca gente responderá com um sim redondo… Numa perspectiva moral, então, a outra pergunta que se impõe: É-se melhor para os outros quando se é mais inteligente? Assentemos que, se os outros forem as pesssoas mais próximas, a resposta também não pode ser sim. Acho que temos todos disso evidência sobeja. Agora, se os outros são a humanidade no seu todo, bom, talvez a afirmativa já seja de considerar: Muitas das grandes descobertas, das grandes invenções, muitas das ideias e inovações que beneficiaram a humanidade no seu todo vieram, efectivamente, de pessoas extremamente inteligentes. Nem sempre, porque muitas vezes os grandes pensadores eram apenas pessoas com mais conhecimentos, mas enfim, admitamos que sim, que essa pequena franja dos muito inteligentes contribuiu mais do que o grupo das pessoas normais para o bem-estar de toda a gente. Que cada um dê aos outros o que pode dar, eis a regra moral que faz, para mim, mais sentido; e houve muitos outros além desses muito inteligentes que também deram o mesmo que eles, porque deram o que tinham. Por outro lado, não nos esqueçamos de que foi a mesma inteligência que serviu, muitas vezes, de alicerce aos piores crimes da história. Aliás, é curioso, estou convencido de que as muitas pessoas que consideram a inteligência uma característica intrinsecamente mais meritória do que as outras sabem perfeitamente que essa inteligência que admiram e louvam tanto serve para o bem como para o mal – como a força, o conhecimento, a beleza e a determinação… E também devem saber que para o mundo funcionar bem – ele vai funcionando mais ou menos, mas é possível pô-lo a funcionar melhor do que funciona… – bastam as capacidades físicos e mentais medianas da esmagadora maioria das pessoas.

“Mas, então, se num dia dizes mal do louvor da força, no outro dia do louvor da inteligência – e referindo ainda, de passagem, que a beleza também não merece ser valorizada… –, que raio!, quais são as características das pessoas que merecem elogio, que podem ser tomadas, se não como ideais, pelo menos como mais desejáveis?”

Nenhumas. É nisso, precisamente, que me parece importante insistir.

Dois miniposts de cocktail #2

Analfabetismo 1: É muito estranho... 
Ontem dei-me conta de que não consigo compreender bem o artigo “Teoria da relatividade” da Wikipédia. Tem coisas que compreendo, outras que mais ou menos, e outras aonde não chego. Pode ser falta de entendimento, no sentido mais normal da expressão, mas é natural que seja pura e simplesmente falta de conhecimento. E é muito estranho… Eu, que até fui educado para “cientista”, vejam lá vocês, sou praticamente analfabeto em áreas como matemática e ciências naturais. É muito estranho… Faço parte dessa muita gente que há – uma grande parte da população educada do mundo, estou eu convencido… – que até sabe alguma coisinha de várias coisas, mas pouco ou nada sabe das leis que governam o universo…

Agora, feliz ou infelizmente – risquem o que não vos interessar –, não faço parte do grupo de gente que se indigna (é muito estranho...) quando alguém com um bocadinho de bom senso chama a atenção para o óbvio: que mais importante do que estudar as grandes epopeias é, hoje em dia, adquirir noções minimamente sólidas de matemática, física, química ou biologia (e estatística e economia?), … que permitam, por exemplo, compreender a entrada “Teoria da relatividade” da Wikipedia…

É grave, o analfabetismo científico? Não sei se grave é a palavra certa… É um bocado triste, isso sim. Para mim, é. E digamos que dificulta a vida. Cria algumas incompetências, alguns desperdícios, algumas frustrações. Para mim, o importante nem é tanto sabermos todos discutir se o Grande Colisionador de Hadrões pode realmente criar buracos negros que nos suguem a todos, se bem que haja muitas questões técnicas de que era útil que houvesse maior entendimento por mais gente, numa altura em que andam por aí tantos debates interessantes e importantes sobre ambiente e bioética, entre outros… Para mim, o importante é mais termos todos uma ideia razoável de quando e como utilizar os serviços médicos, por exemplo, e de saber distinguir uma argumentação sólida, dentro da instabilidade própria de todo o conhecimento sério, de má ciência ou pseudociência… 

Analfabetismo 2: Grande alogossilábico que o gajo me saíu…
É triste não saber ler, dizia uma cantiga da Banda do Casaco, e é bem verdade. Na China, se a taxa de alfabetização é atualmente muito elevada, a verdade é que, em sentido estrito nunca se colocou o problema do analfabetismo, porque os chineses não escrevem com alfabeto. Mas já houve muito mais alogossilábicos ou de assinogramáticos do que há agora, uma coisa assim…Gostaram? Fui eu que inventei.

Eu sei que não se brinca com coisas sérias, mas aonde eu quero chegar é que não é má ideia usar palavras mais gerais do que alfabetizar, alfabetização e analfabetismo. Literacia, por muito que alguns considerem a palavra um detestável anglicismo, é uma palavra bem formada (como numeracia, aliás) e, à primeira vista, mais abrangente…, pelo menos se se considerarem letras caracteres como os sinogramas...

[Atualizado a 2 de junho de 2023, sem atualização da grafia.]

06/05/09

Dois miniposts de cocktail #1

Vicunhas e carapaus
Vicunha (Vicugna vicugna) nas proximidades do lago Chungará
a 4570 m de altitude, norte do Chile
Foto: Luca Galuzzi, 12 April 2006 https://www.galuzzi.it/
Wikimedia Commons, from here.
O português é, como se sabe, uma língua muito rica. Tem palavras como taperebá e malambe, que, ao que sei, não têm correspondente em lituano nem em tagalo. Só que, às vezes, o português exagera um bocadinho na riqueza. Por exemplo, tem duas palavras para designar a vicunha, porque também se pode lhe chamar vigonho. Ora, se pode ser confuso ter uma só palavra para designar uma quantidade enorme de bichos, como pescada ou carapau, também faz confusão ter mais do que uma palavra para designar um bicho só. A solução simples que eu proponho é que se anule já e por decreto a palavra vigonho*: se o bicho tem o nome científico Vicugna vicugna e se esse nome lhe vem, ademais, do nome que lhe dão em quéchua as únicas pessoas que com ele convivem, e se foi esse o nome que (escrito vicuña, claro está) passou para o espanhol, que é língua oficial de todos os países onde o bicho existe, além de ser língua irmã quase gémea da nossa, por quê e para quê insistir em chamar vigonho ao animal? E já terá alguém alguma vez usado uma palavra assim? Só alguém com muita chicha no bucho…

[A propósito de vicunhas: No planalto andino, chama-se vicunha a quem seja agarrado ao dinheiro. Para perceber o chiste, porque é chistoso o apodo, é preciso saber duas coisas: a primeira é que a vicunha tem uma lã muito apreciada, mas é difícil de tosquiar; a outra é que, em espanhol, se pode chamar, em calão, lã ao dinheiro. Então é por isso que um avarento é vicuña: porque es difícil sacarle la lana. E serve este delírio também para dar a conhecer a quem siga o link da palavra lã o Diccionario de la Real Academia Española, que é um exemplo de um bom dicionário online e que é fixe ter nos favoritos, ou não?]

A língua de madeira do desenvolvimento
Não acreditar, como eu não acredito, que a língua modele o pensamento não implica de modo algum acreditar que a maneira de dizer as coisas não ajude a clarificar o que se pensa ou que, mais importante, não ajude a deixar em branco quem ouve o muito pouco ou nada que se tem para dizer. Como eu ganho a vida a traduzir textos de cooperação para o desenvolvimento (ou ajuda ao desenvolvimento, escolham o que mais vos agradar), é dessa área que tenho mais exemplos de como uma língua de madeira serve para fazer e esconder amálgamas e incoerência lógicas.

Bom, muito tem sido dito sobre o bizarro jargão do desenvolvimento e não quero fazer aqui um apanhado geral da coisa, porque isto hoje é um cocktail de textos pequeninos, e meter-me por essa língua dentro dá pano para outras mangas [Aconselho-vos, a propósito, uma secção de um texto de Mia Couto que se chama (a secção) “Uma língua chamada desenvolvimentês. Mas é melhor lerem o texto todo, claro.]

Uma das palavras que me diverte (?) é ensure, “garantir, assegurar”. Tudo o que se faz num programa ou num programa, numa sessão de formação, num estudo ou numa avaliação, seja lá no que for, é para “garantir” alguma coisa: para garantir o respeito de direitos, para garantir aumento de rendimentos e melhoria da condições de vida, para garantir igualdade de género. Etc. Era bom que fosse assim, não era?, que as actividade de desenvolvimento garantissem essas coisas todas…

Outra palavra candidata ao prémio da amalgamagem (que palavra bonita que eu inventei!) é corrupção. Que se tente moralizar um bocadinho onde há falta de moral, está para mim muito bem, mas, por favor, importa-se de me dizer de que está a falar, que é para eu ver se percebo qual é o problema? Roubo, fraude, desvios, desfalques, proveitos ilícitos, compadrios, nepotismos, tráfico de influências, extorsão, abuso de poder e até mesmo corrupção mesmo corrupção, vejam lá, há tantas palavras mais precisas – e, como vêem, até as há a mais –, de maneira que não custa nada dizer, em cada caso, de que se trata. 


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* Para quem não me conheça, esclareço que estou a brincar, claro está (ou a dar conta de uma surpresa vá), que eu não proponho a sério nenhuma eliminação de palavras por decreto.

[Atualizado a 1 de junho de 2023]