11/02/14

Laticínios e mais laticínios e elogio moderado de (alguns) estrangeirismos [Crónicas de Svendborg #18]

aqui falei da dificuldade de traduzir para uma língua termos que designam realidades desconhecidas dos falantes dessa língua. A solução costuma ser adotar simplesmente o termo da língua de origem, adaptando-o apenas à estrutura fonética da língua alvo. É um dos mecanismos mais produtivos na criação de neologismos, estou em crer. Se nunca se viu batatas, importa-se com a planta um nome taino; se nunca se viu anoraques, passa a designar-se a peça de vestuário com o seu nome gronelandês; se nunca se viu uma chita, passa a designar-se o animal com o seu nome hindi; se nunca se viu iogurte, importa-se com o produto o seu nome turco, e por aí fora.

Sempre se falou de coisas ainda sem nome na língua em que se fala, mas hoje fala-se mais ainda, porque há muito mais comunicação entre os lugares quase todos do mundo. Os conceitos novos nas áreas técnicas chegam-nos fresquinhos (como sempre chegaram) ainda na língua em que foram criados, sem serem filtrados por propostas de tradução dos especialistas dessas áreas que têm a mesma língua que nós. Em jornais e revistas, são-nos apresentados em línguas exóticas (como sempre foram!) nomes de bichos, plantas e artefactos culturais. E há (como sempre houve) algumas destas palavras estrangeiras que passam a ser usadas com maior ou menor regularidade.

Muitas vezes, há resistência a estas importações, e é natural, porque as pessoas estão fartas do uso desnecessário de palavras estrangeiras. É que também há muito quem use barbarismos que ouviu sem ter o cuidado de verificar como determinada noção, às vezes mais que traduzida, se diz na sua língua. E, como não é fácil decidir quando é ou não preciso recorrer ao empréstimo, acontece então que se vá longe demais nesta recusa do estrangeirismos. Dou a palavra a Cláudio Moreno:
Faço questão de frisar (…) que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” – e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois – o iogurte e a coalhada – são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha...
Também é verdade que as pessoas, lexicólogos e gramáticos incluídos, não têm de ser gastrónomos, nem zoólogos nem botânicos. Podem é ter cuidado. E abrir mão do nacionalismo linguístico, chamemos-lhe assim, quando for caso disso. Notem que a minha intenção aqui é mais lançar a confusão – e mostrar que a realidade é suficientemente complexa para justificar importações, às vezes realmente necessárias. Dou exemplos com nomes de laticínios, porque a outra intenção deste texto é apresentar alguns laticínios destas terras ou que por aqui se encontram e é por isso que faz parte das Crónicas de Svendborg.

Adotámos e adaptámos portanto o yoğurt turco em toda a Europa, já há muito tempo, e fizemos bem, mas isso não resolve todos os problemas. Acho que a questão não se porá muito em Portugal, mas pode ser preciso traduzir para outra língua palavras como ymer, por exemplo, filmjölk ou skyr[1] ou muitos outros produtos do mesmo tipo… Muitos pensarão: “Tanto preciosismo para quê? Se é parecido com iogurte, chama-se-lhe iogurte – ou outro nome próximo que se use na língua para que se traduz.” Pode ser. Até ao momento em que alguém tenha de explicar a diferença entre os dois produtos, ou dizer, simplesmente “Que chatice, não há iogurte no frigorífico, só há ymer e eu só gosto de iogurte, detesto ymer”. (Pode ser uma personagem de uma narrativa de ficção, mas também pode ser o meu filho, que adora iogurte e detesta ymer… Já a minha filha mais nova prefere tykmælk[2] e não é grande fã de iogurte.) Uma boa descrição destas dificuldades é a do primeiro parágrafo da entrada “Quark” da Wikipedia em inglês (traduzo eu, deixando por traduzir alguns nomes de laticínios, quando acho que devo):
Quark é um tipo de laticínio fresco. É feito aquecendo leite fermentado até se atingir o grau pretendido de coagulação (desnaturação) de proteínas lácteas e depois é coado. Os dicionários [ingleses] traduzem normalmente o termo como curd cheese ou cottage cheese, embora a maior parte das variedades comerciais de cottage cheese sejam feitas com rennet, ao passo que o quark tradicional não é. É mole, branco e fresco, semelhante a alguns tipos de queijo fresco[3]. É diferente do ricotta porque o ricotta (em italiano: "recozido") é feito de soro de leite aquecido. É semelhante ao chakka indiano.
Usa-se muitas vezes natas azedas para traduzir sour cream. Mas sour cream é um laticínio específico e que quem lê natas azedas pode pensar que é de nata azeda, nata que azedou, que se trata e não é. É nata cuja fermentação foi controlada, com bactérias específicas. Bom, eu conheço uma receita mesmo com natas que azedaram, uma espécie de soupe de chalet[4] que aprendi a fazer na Suíça, mas não é a isso que se referem as receitas que se encontram normalmente. Há vários tipos de sour cream, mais ou menos gordas e mais ou menos azedas, mas, no geral, nem sequer são azedas por aí além, pois não? Na Dinamarca (como noutros países), chama-se à sour creamcrème fraîche! E não deixa de ser curioso: se se traduzir do francês usando a mesma lógica que se usa para traduzir do inglês, temos nata fresca em vez de nata azeda – duas expressões que parecem ter significados bastante diferentes... Mas atenção: a sour cream inglesa é diferente da americana; e, em francês, crème frâiche pode designar dois produtos diferentes – é claro que é a crème fraîche espessa que é sour cream e não a líquida, a fleurette.

É então necessário usar estas palavras estrangeiras? Depende do (con)texto. Em (con)textos em que não é o rigor da descrição do produto que importa, pode adaptar-se tudo ou quase tudo e, às vezes, a tradução só ganha com isso. Pode dizer-se, por exemplo, em português, que “John disse que não queria natas no bolo de maçã, que as natas lhe caíam mal”. Só natas chega, não vale a pena dizer que eram azedas. Até chantili se pode dizer neste contexto, juntando às natas, na tradução, açúcar que não tinham no original. Mas quando se quiser mesmo falar de comida, do sabor, do produto, usem-se os estrangeirismos, explicados se se julgar necessário, só para não enganar ninguém.
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Bónus: Completamente grátis e um bocadinho a despropósito, deixo-vos aqui um link para um quadro muito informativo sobre a percentagem de lactose em diversos laticínios (façam favor) e um mapa da distribuição da intolerância à lactose no mundo (tirado daqui). Os dados variam um pouco conforme as fontes, mas nunca andam muito longe disto.







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[1] Comi ontem skyr pela primeira vez; é muito mais parecido com iogurte que ymer, mas é mais azedo e a consistência também é diferente, muito mais cremosa.
[2] A entrada da Wikipedia em inglês para que o link remete diz que este laticínio é semelhante ao leitelho, o produto lácteo que sobra do fabrico de manteiga, mas a verdade é que, em sabor e, sobretudo, em consistência, os dois produtos são diferentes – leitelho bebe-se, tykmælk não. Não sei porque não há leitelho comercializado em Portugal, uma bebida tão boa.
[3] Traduzi fromage blanc por queijo fresco, para simplificar, mas quem conhece queijo fresco e fromage blanc sabe que não são o mesmo produto…
[4] Deixo soupe de chalet em francês, com as minhas desculpas, porque é uma sopa específica, não apenas uma sopa feita num chalé – quanto mais não seja porque os chalets em questão são cabanas de pastores)

08/02/14

In memoriam

Não sei quem disse, mas ouvi algures: a morte é um lugar estranho. Não é nada. Bem que a gente se quer disso convencer, fazer dela sítio que, credo!, nunca pisamos, ou só pisamos em tempos que nunca nos hão de chegar, arrepio que só aos outros diz respeito. Mas a verdade, infelizmente tão fácil de comprovar, é que é ela o lugar dos nossos passos todos, quando percorremos contentamentos e morrinhas, rotinas públicas ou celebrações da nossa intimidade. A morte não é nenhum lugar estranho. É este lugar, pensem bem, onde nascemos e vamos vivendo, que conhecemos como a palma da mão. Bem vistas as coisas, o único lugar que conhecemos, não é? Que a morte se disfarce de lugar estranho é truque de cenografia. Não nos deixemos enganar por paisagens de papelão.
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A morte de cada um dos outros é uma das formas que toma a nossa morte, essa que nunca nos larga e que, como dizia António Joaquim Lança, que nela não cria, só morre quando um dia a vida morre. E quanto mais os outros fazem parte de nós, mais nossa é a morte deles, como todos sabem.

Morreu anteontem o meu amigo Tozé. Vocês não o conhecem e este texto é mais para mim que para vocês, nisso terão de me desculpar. Não poder ir ao funeral dos que lhes são queridos é um peso para quem tem as pessoas de quem gosta espalhadas por sítios distantes. É um peso não poder afrontar de perto a materialidade da morte, deixar os nossos mortos por enterrar, saber só de longe – sem o ter sentido, na mais primordial aceção da palavra – que o coração lhes parou. Deixá-los assim, vagos, a pairar em nós.

Já aqui falei do Tozé, quando falei da Floresta de Oma
(… Foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs: “É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!” Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir.)
…e falei dele no post anterior.
(Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.)
E gostava agora de saber fazer um obituário regular, mas mais bonito que os obituários regulares, a contar o Tozé, vida e alma, mas sinto-me tão incapaz nessa tarefa…

Entre muitas outras coisas, o Tozé deixou-me Gary Snyder, João da Cruz e Van Morrison e homenageio com eles o meu amigo que vocês não conhecem:
ele sabia o que tem de se saber para ser poeta
(… os seis sentidos que temos, com a mente atenta e elegante … sonhos. os ilusórios demónios e os ilusórios deuses resplandecentes … e depois amar o humano: mulheres maridos e amigos … exaustão, fome, repouso. fome, repouso. … a iluminação solitária e silenciosa … o verdadeiro perigo. apostas. e o limiar da morte);
sabia mais que saber apenas
(Estaba tão embebido, / tão absorto e alheado, / que ficou o meu sentido / de todo sentir privado / e o espírito dotado / de entender não entendendo, / toda a ciência transcendendo);
e sabia bem que no amor se renasce.



E foi espalhando à sua volta isso que sabia. Ensinou-me que a vida é essencialmente sofrimento e que é dessa constatação que devemos partir para a tentar melhorar. E dói-me muito que tenha morrido.

28/01/14

Suicídio: o direito a renunciar e o dever de persistir

Lembro-me de um amigo me falar, há muitos anos, de um comunicado de uma célula de um partido ou de um grupo político, já não me lembro qual, em que se criticava o suicídio de um militante como abandono da luta dos seus companheiros – ou qualquer coisa nesse sentido. Durante muito tempo, considerei esse episódio um exemplo extremo de como a obsessão ideológica pode desumanizar: como era possível ser assim insensível a um desespero tão extremo que levava uma pessoa a desistir da vida?

Na altura, achava que o suicídio não podia ser condenado. A única condenação do suicídio que  conhecia era a condenação religiosa (só Deus pode dispor da vida) e considerava agora que, recusando esse pre(con)ceito, o suicídio era uma questão pessoal – que cada qual tinha, precisamente, o direito a dispor da sua vida como quisesse. Foi esta a minha posição relativamente ao suicídio durante muito tempo.

Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.

A ideia, descobri depois, é um dos argumentos clássicos contra o suicídio – ou, de forma mais geral, contra o sacrifício da vida. É em nome do dever para os que ficam, por exemplo, que, n’Os Miseráveis de Victor Hugo, Combeferre incita os homens a abandonar a barricada, em vez de ficarem para serem massacrados:
Vá lá, é preciso ter um bocadinho de piedade. Sabem do que se trata qui? Trata-se das mulheres. Vejamos. Há mulheres, sim ou não? Há crianças, sim ou não? Há ou não há mães, que empurram os berços com o pé, rodeadas de uma catrefada de miúdos? Levante a mão quem nunca viu um seio que amamenta. Ah! Vocês querem deixar-se matar, eu também, eu que vos estou aqui a falar, mas não quero sentir à minha volta fantasmas de mulheres que sofrem. Morram, muito bem, mas não façam morrer os outros. Suicídios como este que aqui se vai cometer são sublimes, mas o suicídio é estreito e não se deve alargar; e, se atinge o próximo, o suicídio chama-se assassínio.
Há outras perspetivas da questão do suicídio e outras maneiras de o considerar assassínio. Pode-se considerá-lo uma questão de saúde pública, por exemplo. Tenho a impressão de que muita gente não tem uma noção realista da amplitude do fenómeno suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “morrem anualmente de suicídio quase um milhão de pessoas”, o que “corresponde aproximadamente a uma morte de 40 em 40 segundos”. “O suicídio é, nalguns países, uma das três principais causas de morte de pessoas entre os 15 e os 44 anos e a segunda causa de morte no grupo dos 10 aos 24 anos; estes números não incluem tentativas de suicídio, que podem ser muito mais frequentes que o suicídio (10 ou 20 vezes mais frequentes, ou mais, segundo alguns estudos). No mundo inteiro, calcula-se que o suicídio representasse 1,3% da morbilidade global total em 2004.” Morre mais gente de suicídio que de homicídio ou na guerra.

Em Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It[1], Jennifer Michael Hecht afirma que “a influência suicida é suficientemente grande para o suicídio poder ser também considerado homicídio. Quer lhe chamem contágio, focos de suicídio ou criação de um modelo sociocultural, as nossas ciências sociais demonstram que suicídio causa mais suicídio, tanto entre os que conheciam a pessoa como entre os estranhos que se identificavam com a vítima.” Fala-se há muito tempo do efeito Werther. A novela de Goethe, cujo protagonista se suicida, terá desencadeado, ao difundir-se na Europa, uma vaga de suicídios[2]. É sempre assim, dizem alguns: suicídios de pessoas célebres (não forçosamente de carne e osso, a julgar pelo caso de Werther) causam suicídio. Após o suicídio de Marilyn Monroe, por exemplo, houve 200 suicídios mais que a média para essa época do ano. Mas não só os suicídios de pessoas célebres são contagiosos, diz Hecht: há numerosos estudos que indicam que, se uma pessoa conhece o suicídio, se esteve em contacto com um suicida ou com a ideia de suicídio, tem mais possibilidades de vir a cometer suicídio.

Há vários argumentos contra o suicídio, além do que referi atrás. Quero discutir um deles, o argumento utilizado por Hecht que assenta fundamentalmente na ideia de compromisso com a humanidade.
Somos humanidade, diz Kant. A humanidade precisa de nós porque nós somos humanidade. Kant acredita no dever e considera manter-se vivo um dever humano essencial. (…) Os seres humanos têm de se compreender como uma força do bem, uma força da moral. Como seres humanos, cabe-nos preservar esses ideais. (…)
É um erro moral intelectual e moral considerar a ideia de suicídio uma escolha aberta que cada um de nós é livre de fazer. Os argumentos contra o suicídio pedem-nos que nos empenhemos no projeto humano. Pedem à humanidade que largue os punhais e as taças de cicuta e se afaste deles para sempre. (…)
Rejeitar o suicídio é um ato enorme numa comunidade. Também penso que muda o universo. Ou o universo é um lugar frio e morto com uma colónia de seres sencientes mas divididos, tentado criar sentido cada qual por si, ou estamos num universo vivo, com uma colónia de seres sencientes, cujos membros fizeram uns com os outros um pacto de perseverar.
No fundo, Hecht parece concordar com os autores do comunicado que referi no início deste texto: suicidar-se é criticável porque é abandonar (a luta d)o resto do grupo, o seu compromisso com ele – só que o grupo que se abandona é mais abrangente. É-me difícil perceber se se deve ler, nas entrelinhas destas proposições, uma acusação concreta de falta de solidariedade, ou apenas de fraqueza, talvez até cobardia[3]. Seja como for, e apesar de aceitar vários argumentos contra o suicídio, continuo a ter dificuldade em aceitar esta ideia do compromisso com a humanidade.

Aceito que existe, de facto, numa maioria esmagadora das ações humanas, um compromisso com a espécie no seu todo, uma solidariedade da espécie que faz realmente parte da natureza humana – e, provavelmente, da natureza de muitos outros animais; mas vejo mal como se faz deste compromisso um dever. Que se combata o suicídio como se combate qualquer causa de morte parece-me natural. Se se acreditar que, de cada vez que alguém se suicida, isso aumentará as possibilidades de outro alguém se suicidar, deve condenar-se o suicídio como ação contra pessoas concretas – embora indeterminadas ou virtuais. Até aqui, o argumento funciona. Mas pode-se ir mais longe? Pode falar-se de um compromisso, um dever? Cabe-nos perseverar, preservar a força moral que somos. Se o meu dever para com a humanidade é apenas manter-me vivo, não posso ser criticado se me mantiver vivo comendo e dormindo apenas – o que, para a humanidade tem o mesmo resultado que eu não existir[4]. Por isso, a proposta de compromisso com a espécie, a proposta de manter-se vivo para preservar uma força moral, só parece fazer sentido se se definir que há o dever de contribuir ativamente para a humanidade. É possível, mas, como em todas as propostas de uma moral positiva, de um dever de agir bem, é muito difícil, se não impossível, definir que contribuição ativa deve ser essa. Se tiver, à partida, a capacidade de inventar a cura para uma doença e não o fizer, porque decidi não estudar medicina, e não salvar, por isso, muitas vidas humanas, estou a faltar ao meu dever para a humanidade? O compromisso com a humanidade, o dever de me preservar como força moral é, para mim, um dever demasiado vago, demasiado grande…
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[1]
Jennifer Michael Hecht, Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It. New Haven: Yale University Press, 2013. Não li o livro, mas apenas o artigo de Maria Popova sobre ele, no site Brain Pickings. O artigo (3455 palavras) é muito completo e aconselho vivamente a sua leitura. Foi esse artigo que me motivou a escrever este texto.

[2]
Nicholas Christakis e James Fowler têm feito muitos trabalhos sobre redes sociais e defendem a ideia de que o que se difunde não são hábitos (isso faria com que os contágios fossem mais lentos do que são), mas normas – ideias do que é aceitável, por exemplo. Ver, por exemplo, a apresentação de Christakis no site Edge do seu trabalho sobre a difusão da obesidade. É de notar que os trabalhos de Christakis e Fowler têm sido criticados, nomeadamente pela metodologia que usam – para um resumo das dúvidas relativamente à metodologia e conclusões de Christakis e Fowler ver, por exemplo, um texto de David John no Slate.

[3]
É o que pode indiciar, por exemplo, o título do artigo de Hecht em The American Scholar, “Viver é um ato de coragem”. Mas talvez esteja a ver fantasmas – é certo que esta estratégia retórica não implica forçosamente que “não viver é cobardia”. Este artigo, em que Hecht defende as mesmas ideias que encontramos resumidas no artigo de Maria Popova atrás referido, centra-se nos soldados americanos, entre os quais há “uma tremenda crise: há mais soldados a suicidar-se que a morrer em combate, e 52% dos suicidas nunca foram colocados em zonas de combate. Em 2012, suicidou-se em média um soldado por dia. Entre os veteranos, a taxa de suicídio atingiu, nesse ano, a média de 22 por dia (!!!). Esta tendência não tinha declinado em meados de 2013, na altura em que o artigo foi escrito.

[4]
Exceto, sublinho, no facto de não levar outros a suicidarem-se, que é até onde acho que o argumento chega.

23/01/14

Fáçamos então um supônhamos

Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.

Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).

Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).

E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.

***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…

Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[2]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: uma busca em Google mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar de ser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.

Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.

Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.

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[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo.

[2] Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:

Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *sunhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).

E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa por m em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.

[Ligeiramente modificado a 17 de julho de 2023]

15/01/14

I’ve got a bike, you can ride it if you like

Há muito que se discute a eficácia ou a necessidade do uso obrigatório de capacete para os ciclistas e, pelo que tenho visto, continua a não haver consenso na matéria. Não há consenso, mas há um bom senso que me chamou a atenção e que quero elogiar: o de reconhecer dificuldades e falta ou impossibilidade de controlo nos estudos sobre o assunto. Estou a referir-me concretamente a um artigo de Ben Goldacre e David Spiegelhalter no BMJ*, que discute, em grande parte, um estudo sobre o efeito da legislação canadiana de uso obrigatório de capacete na admissão hospitalar de vítimas de acidentes de bicicleta com lesões na cabeça, concluindo (o estudo) que este efeito “parece ter sido mínimo”**.

O estudo em análise, que, segundo os autores do artigo, é superior a muito do que foi feito antes, parece, à primeira vista, ir contra as conclusões de outros estudos. Estes estudos têm, porém, alguns problemas metodológicos:

Por um lado, se o grupo de controlo são ciclistas admitidos com outras lesões resultantes de acidente, este grupo depende da ocorrência de acidentes, partindo-se, portanto, do pressuposto de que o uso de capacete não altera o risco geral de acidente – o que pode não ser certo.

Por outro lado, há variáveis não medidas e que talvez nem possam medir-se: as pessoas que usam capacete podem ser diferentes das que não usam – podem ser mais cuidadosas, por exemplo, e, por isso, menos suscetíveis de sofrer acidentes, com ou sem capacete; e as pessoas que usam capacete só porque são obrigadas pela legislação também podem ser diferentes – podem não o usar corretamente, porque apenas lhes interessa cumprir a lei e evitar uma multa; e podem alterar o comportamento ao usarem o capacete, através do fenómeno de “compensação de risco” (“uso capacete, posso ter menos cuidado”), que está bem documentado.

Além disso, pode ser que, como documentado num estudo, os automobilistas deem mais espaço a ciclistas sem capacete.

Mesmo que os capacetes tenham realmente influência na taxa de lesões na cabeça, porém, isso não implica necessariamente que a obrigatoriedade tenha efeitos positivos gerais como política de saúde pública, porque pode ter efeitos indiretos indesejáveis. Um estudo recente identifica dois grupos de ciclistas: um grupo rápido, com muito equipamento, incluindo capacetes; e um grupo mais lento, sem muito equipamento. Segundo este estudo, o uso obrigatório de capacetes pode fazer diminuir o segundo grupo. Ora sabe-se que os efeitos positivos de andar de bicicleta são maiores que os efeitos negativos, os acidentes. (Esta vantagem, porém, depende muito do risco absoluto de acidente: qualquer redução real do risco relativo de lesão na cabeça tem um grande impacto nos casos mais comuns de choque, os que se dão com crianças.)

Há efeitos indiretos ainda mais complexos, por exemplo, a chamada Lei de Smeed de “segurança no número”: quanto mais ciclistas há (maior densidade na estrada), mais seguro é andar de bicicleta.

Além de todas estas questões, há uma questão propriamente política: há quem considere que o uso obrigatório de capacete implica pôr a responsabilidade no indivíduo, quando podem ser tomadas outras medidas de caráter coletivo. Costuma dar-se o exemplo da Dinamarca e dos Países Baixos, com índices baixos de acidentes, apesar de a grande maioria dos muitos ciclistas que aí existem não usar capacete. A explicação parece estar nas infraestruturas, legislação rodoviária e cultura ciclista como meio de transporte normal (não desportivo, sem risco).

A conclusão do artigo é que é improvável que mais investigação venha clarificar inequivocamente as atuais incertezas e que há outros aspetos – culturais, psicológicos e políticos – do debate popular sobre a questão que serão sempre importantes.

É uma questão complexa e não sei se a soube expor. Não quero, sobretudo, que fiquem com a ideia de que o estudo analisado no artigo diz que tanto faz usar capacete como não o usar. Nada disso, o que “parece ter sido mínimo”, sublinho, são os efeitos da obrigatoriedade do uso de capacete, não os efeitos do capacete. Os autores do estudo analisado afirmam claramente: “… os capacetes reduzem o risco de lesões na cabeça e recomendamos o seu uso” e nunca o artigo põe isto em causa. Acho que não há dúvidas quanto às vantagens do uso voluntário do capacete.

Do artigo para a vida à minha volta. É certo que, para distâncias curtas, a bicicleta é um dos meios de transporte mais normais na Dinamarca, se não até o mais normal. A razão de queixa da Karen, a minha mulher, do emprego que tem é ter de ir de carro (35km). O que ela queria era poder ir de bicicleta para o trabalho, como faz a maior parte das pessoas. (Aqui a expressão i cykleafstand faz parte das que se usam para definir uma ocupação: “a uma distância que se pode fazer de bicicleta”.)

A Siri, a minha filha mais nova, que costuma ir na carrinha da escola, quis hoje ir de bicicleta. Levantámo-nos às seis horas, meia hora mais cedo do que é costume, e lá fomos, às sete. Demorámos quase uma hora a fazer cerca de seis quilómetros, porque a noite estava escura como breu, com muito nevoeiro, ademais, e só há iluminação pública em cerca de um quinto do caminho. Bonito passeio. A Siri diz que quer ir outra vez de bicicleta depois de amanhã. (A ver se arranjo uns refletores para pôr na roupa ou uns coletes refletores. E a ver se reparo se é quem usa capacete que também usa refletores na roupa.)

É verdade que muitos dinamarqueses não usam capacete. (Ou estrangeiros residentes na Dinamarca, smile…) Ia hoje a pensar que o frio pode ser uma razão – no tempo frio... Quase não se encontram à venda capacetes preparados para o frio, quentes e que cubram as orelhas. As minhas filhas usam um gorro por baixo do capacete, o que é desconfortável. Mas muita gente usa apenas gorros compridos ou de orelhas ou mesmo apenas os capuzes dos casacos. Ia a pensar se não será mais um fator a ter conta nestes estudos: até que ponto, em zonas frias, o capacete é visto como desconforto; e qual a proteção que dão os gorros de inverno e os capuzes. Muitos deles (o meu, por exemplo, grosso, forrado a pele por dentro), alguma proteção há-de dar, embora, claro, muito menor que a de um capacete.

Agora, são adolescentes e adultos que não usam capacete. E cada vez menos, creio. Para as crianças, o uso de capacete é, por assim dizer, obrigatório. Os pais obrigam-nas a usar capacete, e não só para andar de bicicleta, também para andar de skate, de patins, até de trotineta, às vezes… As escolas também obrigam os alunos, crianças jovens ou adolescentes, a usar capacete, quando a turma vai toda de bicicleta a algum lado – uma coisa que, aqui em Tåsinge, acontece com alguma frequência.

Ia a pensar nisto tudo, enquanto pedalava, e ia a pensar que gostava também de saber quais são os acidentes mais comuns de bicicleta e se variam de país para país, em função de infra-estruturas, legislação e cultura ciclista. São mais choques ou quedas? E os choques, são mais entre ciclistas, ou de ciclistas com outros veículos ou peões? Podia ter investigado antes de publicar este texto, não era? em vez de deixar a pergunta em aberto... Mas prefiro publicar isto assim e voltar algum dia ao assunto, se for caso disso. É que, por um lado, o post já vai grande e, por outro, se perco, como se diz, a pedalada, acabo por nunca publicar isto. O título do post? Ah, é uma cantiga que há:


Bike, filme de Lisa Wu com música de Syd Barrett ("Bike", 1967)
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* Goldacre, Ben & Spiegelhalter, David, “Bicycle helmets and the law” (BMJ 2013;346:f3817), 12 de junho de 2013, disponível em linha.
** Dennis, J., Ramsay, T., Turgeon, A. & Zarychanski, R., “Helmet legislation and admissions to hospital for cycling related head injuries in Canadian provinces and territories: interrupted time series analysis (BMJ 2013;346:f2674), 14 de maio de 2013, disponível em linha.

07/01/14

Recordações de infância: De que cor é o teu sangue?

Um livro que, como costuma dizer-se, me marcou muito é uma revista de banda desenhada com uma história do Sargento Rock e da sua Companhia da Moleza, “Qual é a cor do seu sangue?”, ilustrada pelo grande Joe Kubert. É uma revista que tive em criança e a que, como todos os livros e revistas de banda desenhada da minha infância, perdi o rasto; mas a história e os desenhos impressionaram-me tanto que nunca mais os esqueci. Há dias, voltei a encontrar a história num blogue. A Internet é realmente uma coisa extraordinária!

A página de blogue que encontrei tinha a história inteirinha (!), ainda para mais acompanhada de um texto interessante, pelo qual fiquei a saber, entre outras coisas, que o argumento é de Bob Kanigher. Fiquei também a saber que a história foi publicada pela primeira vez na revista Army At War, nº 160, de Novembro de 1965 (editora DC). Sabia que a edição brasileira em que a li só podia ser da EBAL, mas descobri agora que foi publicada na série Epopéia. A página onde encontrei esta informação não dá a data de publicação, mas calculo que devesse andar pelos meus 10 anos quando li a história. Faço-vos um pequeno resumo*:

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial. Jackie Johnson foi campeão mundial de pesados de boxe. Perdeu o título para o alemão “Tempestade” Uhlan** e vive, desde essa altura atormentado por essa derrota. Jackie Johnson inscreve-se no exército e torna-se um herói. “Tempestade” Uhlan, que é um nazi convicto, também se inscreve no exército alemão, para lutar pelo que acredita ser a sua raça superior.

O destino volta a pôr frente a frente os dois pugilistas, em plena guerra. Uma patrulha alemã de que Uhlan faz parte captura Johnson e dois companheiros seus. Uhlan, desejoso de provar mais uma vez a superioridade da raça ariana, desafia Jackie para novo combate. Uhlan mostra-se mais forte e começa a massacrar Johnson, exigindo que este reconheça que tem sangue negro e não vermelho como o seu. Os companheiros de Johnson têm a certeza de que ele se deixa massacrar por causa deles, porque tem medo que, se ganhar o combate ao alemão, eles sejam mortos. Decidem então atacar os alemães, mas, em segundos, são deixados sem sentido, à coronhada. Talvez porque pensasse que os companheiros estavam mortos ou porque não conseguisse aguentar mais a humilhação, Jackie recupera de repente e deixa o adversário knockout. Furiosos, os companheiros de Uhlan disparam sobre os dois: o negro inferior e o reles alemão que se deixou vencer por ele.

Nessa altura, surge o resto da companhia de Johnson, que toma conta da situação. Quando todos pensavam que Uhlan  e Johnson estavam mortos, este surpreende-os: conseguiu atirar-se ao chão e escapar às balas alemãs, mas Uhlan foi atingido e está mal. Perdeu muito sangue. O médico da companhia diz que Uhlan precisa de uma transfusão de sangue de tipo B. “E quem é que pensam que estendeu o braço?” Ulhan, o nazi, acorda ao lado de Johnson, o americano negro, a receber sangue deste. “Estava enganado”, diz ele, “o teu sangue é vermelho”. “Estás a fazer progressos, pá!”, diz Jackie Johnson, e a história acaba assim.


Tenho quase a certeza de que, se a tivesse conhecido agora, a leitura desta história não me impressionaria muito. Com toda a certeza, não tinha, nem de longe, o efeito que teve em mim quando a li em miúdo. Mas, curiosamente, quando a releio agora, por muito que a ache ingénua e de um simplismo ideologicamente duvidoso, ela continua a impressionar-me. Porque não conta só o efeito que ela tem em mim agora: há uma impressão armazenada quando tinha 10 anos que ela traz de novo ao de cima!

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KB, o autor do blogue Out of this world, onde fui reencontrar esta obra importante da minha infância, chama a atenção para alguns factos interessantes para uma leitura menos infantil da obra:

A personagem Jackie Johnson parece ser uma amálgama de dois campeões de pesos pesados, Jack Johnson, de quem herda o nome, e Joe Louis. A carreira de Jack Johnson, o primeiro campeão mundial de pesados negro, ainda em plena época de segregação da população negra, é um episódio marcante da história das relações raciais nos EUA. Joe Louis, outro símbolo importante para os negros americanos, combateu duas vezes com o campeão alemão Max Schmeling. A vitória de Max Schmeling sobre Joe Louis em 1936 foi usada pela propaganda nazi e a vitória de Louis no segundo combate em 1938 adquiriu inevitáveis contornos simbólicos de vitória de uma “América da liberdade” contra “a Alemanha racista”. Schmeling, porém, afirmou que não tinha nada a ver com os nazis. Tanto Schmeling como Louis vieram, mais tarde, a servir o exército dos seus países. Traduzo um excerto do texto de KB:
O momento da publicação [desta história], a raridade das representações de afro-americanos na banda desenhada nesta altura e a fortíssima mensagem antirracista sugerem uma ligação com o Movimento dos Direitos Civis e com a necessidade do país de recrutar os afro-americanos para a Guerra do Vietname, num contexto de sentimento antiguerra entre a comunidade afro-americana. A importância de Jackie ser um pugilista parece estar relacionada com a entrada de Muhammad Ali para a Nação do Islão em 1964. Muhammad Ali chumbou nos testes de qualificação para as forças armadas em 1964, mas só em 1966 se recusou a aceitar a mobilização, o que fez com que fosse preso e perdesse o título. Este número de Our Army At War não é, pois, uma resposta à sua recusa em alistar-se, mas pretende talvez contrariar o efeito da associação de Ali com a Nação do Islão, que era fortemente contra a guerra do Vietname.
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* Embora em formato reduzido, a banda desenhada lê-se bem no blogue que refiro (em inglês). Clicar nas imagens das páginas para as aumentar não funciona (exceto para uma delas), mas há uma maneira de o fazer: clicar do lado direito, selecionar “copiar a localização da imagem”, colar essa localização na barra de endereços e abrir uma janela nova em que a imagem aparecerá agora em tamanho grande.
** O nome tem significado: uhlan é a designação inglesa dos ulanos, antigos lanceiros prussianos, austríacos e russos.

06/01/14

Bom ano e um conto de terror

Desejo-vos um bom ano de 2014! Como diz uma canção, “este é que o ano – demorámos muito a aqui chegar”. Bom, a canção dizia isto de 1968, creio eu, mas pode dizer-se de todos os anos. Como presumo que uma grande parte, se não a maior, das minhas leitoras e dos meus leitores seja portuguesa como eu, o que desejo mais para 2014 é que se consiga travar a política de destruição do atual governo – de destruição do Estado social, da economia, da vida da maior parte das pessoas, do bom-senso, enfim... É claro, há que fazer por isso. É um 2014 assim, a fazer muito por isso, que eu vos desejo.

*** 
Há vários tipos de terror, como todos sabemos. Um amigo teve uma vez a ideia de um conto de terror em que, em vez de histórias noturnas de criaturas do outro mundo, se contasse o horror de alguém que passava, de barriga e bolsos vazios, diante das montras das tascas da Baixa lisboeta. Com a ideia dele, em vez de conto, fiz uma cantiga, que chegou a ser cantada, mas, felizmente, nunca foi gravada. “Um terror indizível / arrepios / calafrios / suores frios” era o refrão.

Agora vejam lá: há dias, fui procurar o que devia ser o único exemplar restante nesta casa de Faz de conta que histórias, um livro de contos meus, e não o encontrei. Não que eu precise de um exemplar do livro, até porque o tenho, claro está, em versão digital. O problema é que o exemplar que eu esperava encontrar cá em casa era o exemplar que ofereci à minha mulher!

Pode ser que o livro se tenha perdido na mudança de Moçambique para a Dinamarca, no verão de 2011. Mas também pode ter acontecido eu tê-lo oferecido a alguém, sem querer. Sei que o livro tinha uma dedicatória, que não me lembro qual era nem em que página estava. E se exemplar da Karen tinha ido parar ao lado dos outros, na estante da sala, e eu, sem reparar na dedicatória e que era, portanto, o livro da Karen, o mandei a uma amiga ou a um amigo (enviei uns quantos, o ano passado), com uma nova dedicatória noutra página? Um terror indizível, como na tal cantiga: arrepios, calafrios, suores frios…

11/12/13

Pedra, papel e tesoura

O jogo pedra-papel-tesoura é muito conhecido, mas, para quem não conheça, aqui fica a explicação: jogam duas pessoas, que, à contagem de três – ou outra qualquer – apresentam ao adversário a mão numa de três posições: de punho fechado (pedra); com o indicador e médio esticados e restantes dedos dobrados (tesoura); ou aberta (papel). Cada uma das formas apresentadas pode ganhar a outra: a pedra ganha à tesoura (parte-a); a tesoura ganha ao papel (corta-o); e o papel ganha à pedra (embrulha-a).

Podia dizer-vos aqui várias coisas interessantes sobre o jogo. Por exemplo:

[1] Li na Wikipédia que há fenómenos naturais que reproduzem a lógica do jogo. As estirpes de bactérias Escherichia coli produtoras de antibiótico (colicina) superam as estirpes sensíveis ao antibiótico, que superam as estirpes resistentes ao antibiótico, que, por sua vez, superam as estirpes produtoras. E, entre os lagartos Uta stansburiana, verifica-se uma seleção sexual assente na frequência de três tipos com cores de pescoço diferentes, que se baseia também num mecanismo do tipo pedra-tesoura-papel. Mas eu não sei nada nada de bactérias nem de lagartos e, por isso, não posso, infelizmente, desenvolver aqui este ponto, nem torná-lo menos árido…

[2] Há um robô que ganha sempre às pessoas. É tão rápido a fazer batota que ninguém dá conta da batota que faz. De facto, o robô só dispara a sua posição depois de ter visto que posição a pessoa está a fazer. Mas, como o faz num milissegundo, ninguém se apercebe de que está a fazer batota.



[3] O nome mais comum do jogo em inglês, rock-paper-scissors, corresponde diretamente ao nome em português, pedra-papel-tesoura, mas, em dinamarquês, chama-se sten–saks–papir, que é como quem diz “pedra-tesoura-papel”. Porque se altera a ordem dos elementos? Talvez por aplicação da Lei do Segundo Mais Pesado… O linguista Claude Hagège postulou que, em pares fixos de palavras, como mais ou menos, mais cedo ou mais tarde, etc. (incluindo aqueles em que os elementos não têm significado independente, como tiquetaque), há uma tendência natural e universal para pôr no fim o termo mais pesado, quer dizer, com mais sílabas ou sílabas mais graves. É bem possível que a lei se aplique também a expressões ternárias e papir venha no fim em dinamarquês porque é mais longo, como scissors e tesoura, mais longos, vêm no fim em inglês e português. Mas isto sou eu a especular.

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Tudo isto é interessante, mas há outro aspeto do jogo que acho mais interessante ainda. Habituámo-nos a pensar com silogismos simples, também no que diz respeito a relações de poder entre pessoas: se X é mais forte que Y e Y é mais forte que Z, então X é mais forte que Z. Quem diz “é mais forte” pode também dizer “tem ascendente sobre”, “domina”, etc. Mas isto nem sempre funciona e o que acho mais interessante no jogo pedra-papel-tesoura é que dá conta duma outra lógica que governa às vezes as relações entre as pessoas: X é mais forte que Y, que é mais forte que Z, que é mais forte que X


06/12/13

Nelson Mandela

A esmagadora maioria das pessoas, se não toda a gente, já disse ou dirá o mesmo: que foi o mais importante político da segunda metade do século XX; que é o político que mais admiram; que é um exemplo para todos os políticos; que ninguém, como ele, soube pôr acima de tudo o mais a vida e o bem-estar do povo do seu país. Mesmo os que alguma vez o consideraram um terrorista ou um perigoso radical vão sentir-se obrigados a dizer isso também. Não creio que o consenso sobre as qualidades de uma pessoa seja necessário para definir a sua grandeza. Mas, neste caso, este amplo consenso é, penso eu, um sinal claro da grandeza de Nelson Mandela.

04/12/13

Género e música popular, mais uma vez

Ainda não há muito tempo, as letras de canções populares diziam das mulheres coisas muito estranhas que eu acho que hoje já ninguém quer dizer – ou já não se atreve a dizer, por muito que o queira fazer. Dou-vos exemplos:

“Parchman farm” (1957), de Mose Allison, foi uma canção de grande sucesso, de que foram gravadas mais de duas dezenas de versões. A Wikipedia diz que o autor deixou de a cantar nos anos 80, porque começou a ser considerada politicamente incorreta. Mais concretamente, começou a não ser aceite o verso final:
Well I’m a gonna be here [in Parchman Farm] for the rest of my life / And all I did was shoot my wife (“Vou ficar aqui o resto da vida / E a única coisa que eu fiz foi dar um tiro na minha mulher”)
Pode considerar-se que a canção funciona como uma piada, se tivermos em conta a relação entre os últimos versos da primeira e da última estrofe, como aqui sublinho:
And I ain’t never done no man no harm …/ And all I did was shoot my wife ( “Nunca fiz mal a ninguém [literalmente “homem nenhum”] / E a única coisa que eu fiz foi dar um tiro na minha mulher”)
Piada de mau gosto, nisso concordarão as minhas leitoras e os meus leitores [1] [2]... Talvez surpreenda que só nos anos 80 se tenha começado a considerar inaceitável a letra de “Parchman farm”, mas a verdade é que, se havia alguma coisa a mudar na situação das mulheres na sociedade, não é nada que se note muito nas letras da música popular: seguindo a tradição do blues e da folk, uma parte das letras de música rock e pop continua a maldizer a infidelidade ou o espírito interesseiro das mulheres e a considerá-las, em grande medida, o mal do mundo. Mas não só. Cabelo comprido e instrumentos elétricos não são sinais imediatos de uma atitude nova perante as relações de género… Neil Young, por exemplo, encara a possibilidade de arranjar uma mulher que lhe faça a comida e lhe lave a roupa, porque “A man needs a maid” (“Um homem precisa de uma criada” [ou “rapariga”, num uso mais arcaico]) (1972):
I was thinkin' that maybe I'd get a maid / Find a place nearby for her to stay / Just someone to keep my house clean / Fix my meals and go away / A maid, a man needs a maid (“Estava a pensar que talvez arranjasse uma criada / Lhe arranjasse um lugar para ela ficar aqui perto / Só alguém para me limpar a casa / Fazer a comida e ir-se embora / Uma criada, um homem precisa de uma criada”)
A letra foi muito discutida e houve vários homens a dizer que só por incompreensão era considerada machista. O que acham vocês? “A man needs a maid” deve ou não fazer parte da lista de cantigas que hoje já ninguém escreveria? É certo que, pelo menos, “A man needs a maid” deixa muito mais espaço para várias interpretações que, por exemplo, “Be a Caveman” (1965) dos Avengers:
You gotta treat your woman tough / Be a caveman, oh, oh, oh, keep her in line // You gotta pull her by the hair / Hold her tighter than a grizzly bear … // You gotta show a woman who wears the pants / If you want her to stick by you / If you want her to be eating out of your hand (“Tens de tratar a tua mulher com dureza / Sê um homem das caverna, oh, oh, oh, mantém-na na linha // Puxa-a pelos cabelos / Aperta-a mais do que se aperta um urso // Tens de mostrar às mulheres quem é o homem / Se queres que ela fique contigo / Se queres que ela te venha comer à mão”)
Já ninguém escreve letras assim, pois não? Alguma coisa mudou nos últimos 40 anos. Não tento como deveria ter mudado, nisso estamos de acordo, mas alguma coisa mudou. Nas letras de canções populares, creio que mudou mesmo muita coisa.
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Notas finais com vídeo:

[1] O uso genérico do masculino foi muitas vezes usado humoristicamente. Lembro-me, por exemplo, da “Suite «Los Noticieros Cinematográficos»” (1971) do grupo humorístico Les Luthiers, em que se diz, a dado passo, que “las nuevas máquinas incorporadas […] permiten el procesamiento de las gaseosas sin intervención de la mano del hombre – estas máquinas serán atendidas exclusivamente por mujeres.

[2] Bobbie Gentry, no álbum The Delta Sweete (1968), tem uma versão da canção que vale a pena mencionar aqui, porque é das poucas versões femininas que conheço e porque Gentry, para a adaptar a uma voz lírica feminina, lhe introduz uma interessante transformação:
… My man's sittin there on Parchman Farm / He ain't never done nobody no harm // Well he's gonna be there for the rest of his life / And all he ever did was shoot his wife (“O meu homem está ali na prisão / nunca fez mal a ninguém [mas não na forma no man, “homem nenhum”, do original] // Bem, vai ali ficar o resto da vida / E a única coisa que fez foi dar um tiro na mulher”)
A letra alterada por Bobbie Gentry não tem, claro, uma leitura única, mas creio que muita gente entende que a voz da canção é da amante do condenado. Não discutirei aqui se esta alteração introduz ou não alguma mudança ideológica na letra, mas isso é, claro, muito discutível – em qualquer  sentido da palavra…

 

03/12/13

Uma ideia estranha

Há quem defenda que a existência de um deus criador se pode concluir da improbabilidade das condições que permitem a existência de vida. As probabilidades de o universo ser como realmente é são ínfimas e, por isso, para haver vida e nós existirmos, alguma vontade inteligente deve ter afinado o universo para ele ser desta maneira – com a finalidade de nele haver vida e nós nele existirmos.

É um argumento muito estranho. Parecerá evidente a muita gente que o facto de uma determinada ocorrência ser improvável não é motivo suficiente para pensar que ela é produto de uma vontade. Mas nem é preciso ir tão longe, porque, bem vistas as coisas, este argumento não chega a ser argumento nenhum: admitindo a possibilidade de um deus criador, as probabilidades de ele ter vontade de criar um universo como o nosso também são ínfimas, como as de esse universo existir como é sem ter sido criado por nenhuma vontade divina... Então, como se sai daqui? Postulando que essa vontade do deus criador, de tão improvável, só pode ter sido produto de outra vontade que o tivesse afinado para criar um mundo em que pudéssemos ser como somos – e assim sucessivamente?

27/11/13

Ideais de campo, ideias da cidade

Labor omnia vicit / Improbus, et duris urguens in rebus egestas: “tudo venceu o trabalho ímprobo e a necessidade premente em duras condições”. Não é certamente a melhor tradução, mas dá uma ideia dos versos célebres de Virgílio* – que falam do trabalho agrícola em tempos anteriores ao do seu autor, mas que podiam falar da maior parte do trabalho agrícola de todos os tempos.

Nas Bucólicas e nas Geórgicas, Virgílio faz o louvor do trabalho e dos pequenos proprietários e pretende secundar a política de retorno à terra do imperador Augusto. Eça de Queirós, 19 séculos mais tarde, cita algumas vezes Virgílio no conto “Civilização” e na sua versão desenvolvida, o romance A Cidade e as Serras, que fazem, também eles, a apologia do retorno à terra. Se se manteve atual durante dezanove séculos, não era nos 100 anos seguintes que havia de perder atualidade: a ideia de retorno à terra continua, sob várias formas, a ser muito atual. E nós também decidimos que não queríamos viver mais na cidade e viemos viver para o campo. Agora, agricultura não fazemos. Temos um hortazita no quintal – e chega bem.

Retorno à terra, trabalho ímprobo… Duas ou três horas a cavar a terra são suficientes, creio eu, para fazer qualquer pessoa repensar a idealização da vida rural. Ímprobo labor, de facto, nisso Virgílio tinha toda a razão. Estava ali a virar a terra na horta e a tentar imaginar o que será fazer esse trabalho – e outros tão ingratos como ele, por exemplo, mondar – várias horas por dia, durante muitos dias dos anos todos de uma vida. Mas não tenho imaginação que chegue para tal. Está bem que agora no mundo rico já não há trabalho agrícola feito à mão. Mas há noutros lugares do mundo, em muitos lugares do mundo. Em Moçambique, as mulheres começam a trabalhar às 4 da manhã, para poderem parar quando o sol já não se aguenta mesmo, por essas 10 ou 11 da manhã. E era assim a vida de muitos camponeses, também aqui, no tempo de Virgílio e no tempo de Eça de Queirós…

Não deve haver muitos camponeses a quem passe pela ideia considerar invejável a vida que têm e muito menos propô-la como modelo… Das Geórgicas e das Bucólicas a A Cidade e as Serras e aos modernos ideais de retorno à terra, o ideal bucólico sempre foi um ideal de gente da cidade, creio eu. Como os outros ideais todos – foi sempre a gente da cidade a imaginar ideais, não foi? Trabalho menos ímprobo, talvez, mas, bem vistas as coisas, não menos importante, porque é outra forma de cuidar da terra… perdão, da Terra.
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* Célebres sobretudo sob uma forma adulterada, labor omnia vincit, “o trabalho vence tudo”, uma frase que Virgílio não escreveu.

25/11/13

O arroz escandinavo [Crónicas de Svendborg #17]

Num pacote de arroz, encontro, como numa grande parte dos produtos que se vendem na Dinamarca, a descrição e as instruções de uso em quatro das línguas oficiais da Escandinávia: dinamarquês, sueco, norueguês bokmål e finlandês. Agora, traduzir de uma língua escandinava para a outra não é um trabalho linguístico em sentido estrito, é um trabalho bem mais complexo de localização linguística. Senão, vejam:

Em dinamarquês, diz-se que o arroz deve cozer 12 minutos e repousar tapado outros 12, antes de ser servido; em sueco e finlandês, o arroz deve cozer 20 minutos e repousar 5; e em norueguês, deve cozer 15 minutos e repousar 5-6…

Enxadas e pás [Crónicas de Svendborg #16]

É impossível encontrar uma enxada na Dinamarca. Não há mesmo em lado nenhum! Por acaso, tenho uma no quintal, que me emprestou um amigo meu, mas comprou-a… em Portugal.

Se cavam a terra à mão, os dinamarqueses usam estes dois instrumentos: a pá de cavar (spade) e o cultivador (kultivator).

Quer dizer, fui buscar um cognato para traduzir kultivator, mas não sei se é assim que se chama em português este pequeno arado manual, não lhe encontro o nome em lado nenhum. E é curioso, a página da Wikipédia em dinamarquês que refere o instrumento, corresponde sempre, em páginas noutras línguas, a motocultivadores. Notem que também não há página da Wikipédia em português que corresponda à de spade em dinamarquês e noutras línguas. Aliás, o português usa a mesma palavra para designar dois conjuntos de ferramentas com funções muitos distintas: esta, que serve para revolver a terra, e outra, que é um contentor e serve para tirar terra, areia, gravilha, lixo, etc. de um lugar para outro.

Uma questão interessante é: porque é que não há enxadas na Dinamarca? É claro, podia perguntar antes porque é que há enxadas em Portugal ou porque se usa tanto a enxada para cavar em Portugal, mas a verdade é que, se já tenho pouca resposta para a primeira pergunta, menos ainda tenho para a segunda, de maneira que, para já, me fico pela primeira.

Quando experimentei usar a enxada para cavar o quintal, e tive de a abandonar logo de seguida e voltar à pá, surgiu-me uma possibilidade de explicação: se calhar, a maioria dos solos é muito argilosa, como este aqui, e, quando assim é, a julgar pelo meu quintal, é muito mais fácil trabalhar com a pá de cavar. Mas eu não percebo nada de solos nem de ferramentas, de maneira que perguntei ao meu amigo Stefaan Dondeyne que é especialista de ciência dos solos, precisamente. E disse-me ele:
Isso dos solos e das enxadas é interessante... Não sei muito sobre os solos da Dinamarca, nem sobre os solos em Portugal, de facto; mas, pelo que vi na Noruega, muitos solos são depósitos relativamente recente de argilas marítimas – na verdade, quase todas as áreas a menos de 100 metros acima do nível do mar. Desde o fim da idade do gelo e do derretimento da calota glaciar, a Noruega – e com certeza também a Dinamarca – tem sofrido um levantamento isostático e muita terra que era submarina está agora ao ar livre. Esse tipo de argilas é de facto difícil de trabalhar. Em Portugal, os solos resultam de decomposição de materiais rochosos mais antigos (e, nos vales, também de depósitos aluviais e coluviais, claro), mas, assim, mesmo quando são argilosos, serão de outro tipo e mais fáceis de trabalhar. Que as enxadas não existam na Dinamarca, sim, pode ser por causa da natureza dos solos.
Pois, pode ser. Ou não, claro. Pode haver milhares de outras razões. A minha mulher, que também é agrónoma, embora não especialista em solos, sugeriu que a quantidade de pedras também pode ter influência na escolha da ferramenta. Talvez – ou talvez não…. Mas, bem veem, para mim, faz sempre sentido procurar no meio físico alguma eventual explicação para os fenómenos culturais.

Chama-se às vezes (neo)deterministas geográficos a pessoas com uma atitude semelhante à minha, mas a expressão desagrada-me, porque se presta a uma interpretação errada: não acredito que o meio físico determine a cultura, apenas que a influencie. Aliás, nem é preciso que tenha influência em toda a cultura em todas as épocas para ter uma grande influência, basta que influencie um pormenor cultural numa determinada época para isso, mais tarde, se traduzir num grande leque de características culturais – e todo esse desenvolvimento, a cultura já pode fazê-lo sozinha, sem que ele derive diretamente do meio. Neste caso, parece-me plausível que as características do solo levem ao desenvolvimento de ferramentas com formas ligeiramente diferentes. Mas não digo que têm de ser só as características do solo a modelar os instrumentos para o cavar. Nem nego que, em certos casos, a influência do meio possa ser completamente apagada por fatores de outra ordem – culturais, em sentido lato.

22/11/13

Verbos demasiado abundantes: os particípios passados duplos e as suas regras

As formas irregulares da língua são uma complicação… E ainda por cima desnecessária: não parecem ter nenhuma função especial, a não ser distinguir (pelo menos algumas delas) quem as usa bem de quem as usa mal… Uma complicação que ainda se torna maior quando coexistem, num mesmo verbo, uma forma regular e outra forma irregular – e quando é o uso da forma irregular que é considerado incorreto em várias situações… É o caso dos particípios passados em português e é disso que falo neste texto. Mas notem que falo apenas do português europeu, que é o que eu conheço melhor.

O que as gramáticas prescrevem é que, quando há dois particípio passados, se use o particípio regular nos tempos compostos e a forma irregular na voz passiva e como adjetivo[1]:
ela tinha [ou havia] prendido o cão à noite e tinha-o soltado de manhã 
e
o cão foi preso à noite e solto de manhã 
ou
o cão não está preso, está solto desde manhã. 
Gostaria, porém, de distinguir estes dois últimos casos: só quando é usada na passiva é que se pode dizer que uma forma é um particípio passado de um verbo[2] e as listas de particípios passados irregulares só deviam incluir as formas que se podem usar verbalmente. Podem eliminar-se imediatamente das listas de irregulares os verbos que nunca podem ocorrer como transitivos: se não há forma passiva, não há evidência de uso verbal do pretenso particípio irregular. Estão neste caso, por exemplo, nascer[3], morrer[4], vagar[5] e incorrer[6].

Além disso, como diz Telmo Móia[7], “certas formas – classificadas como particípios irregulares e apresentadas nas referidas listas de verbos de particípio duplo –, embora estejam historicamente associadas a particípios verbais, são hoje totalmente independentes enquanto adjectivos. A sua associação a verbos [nessas listas] não traz grandes vantagens ao utilizador da língua com dúvidas e pode mesmo induzir no erro de se considerar que estamos perante a mesma unidade lexical verbal (quando, em muitos casos, a diferença semântica é já muito acentuada).” Móia dá o exemplo das formas bento, absolto, afecto, demisso e diluto como produzindo “resultados indesejados”:
*O novo edifício foi bento pelo padre.
*O réu foi absolto.
*As crianças ficaram afectas ao animal.
*O senhor está demisso!
*O pó já vem diluto na água.
*As calças foram tintas de azul. 
Muitas outros pretensos particípios irregulares produzem resultados indesejados. Por exemplo, nenhuma das frases que se seguem pode, na minha opinião, considerar-se aceitável:
* No ano passado, foi distinto com este prémio um escritor nigeriano.
* A manifestação foi dissoluta pelas forças de intervenção.
* Fui convicto pelo João da importância de beber mais água.
* Passado pouco tempo, toda a gordura tinha sido absorta pelo papel.
* O trabalho foi correto pelo professor nessa mesma noite e entregue no dia seguinte
* A batata era já culta em toda a França em meados do séc. XVIII.
* A piada não lhe era direta a ele, mas ele pensou que sim e reagiu mal.
* Nos últimos anos de vida, foi aflito por várias doenças.
Nalguns casos, se não recusamos liminarmente a possibilidade de uso verbal do particípio irregular, ficamos, pelo menos, com muitas dúvidas sobre se alguém de facto o usa ou não – qual é a vossa opinião sobre os seguintes casos, por exemplo?
??? Perto dos dois mil metros, foi descalço por um adversário.
??? O casaco dela foi roto por uma colega de turma, mas sem querer.
??? Tudo leva a crer que essa informação foi propositadamente omissa pelo acusado.
Talvez se possam juntar também estes – e vários outros – ao grupo anterior de verbos que de facto não têm particípios irregulares...

Nos restantes casos, porém, em que o particípio passado tem indubitavelmente uso verbal, nem todos os particípios irregulares se portam da mesma maneira. O que se verifica atualmente, mais uma vez segundo as palavras de Telmo Móia, que não tenho dúvidas em subscrever, é que “para cada um dos dois contextos relevantes [tempos compostos e voz passiva], há uma gradação na tendência para o uso maior ou menor de um dos particípios. E registam-se mesmo tendências contrárias às generalizações das gramáticas: há verbos cujo particípio irregular tende a impor-se em todos os contextos (mesmo com ter) e há verbos cujo particípio regular tende a impor-se em todos os contextos (mesmo com ser). Em suma, as acentuadas diferenças de uso (para um mesmo contexto sintáctico) conduzem-nos necessariamente a tipologias não binárias”. Móia apresenta ele próprio uma tipologia baseada em taxas de ocorrência dos particípios irregulares nos tempos compostos no corpus CETEMPúblico[8]:
• “verbos cujo particípio regular caiu claramente em desuso”, ou seja, em que o uso da forma regular nos tempos compostos é “sentida como desvio” (ter pagado, ter gastado, ter limpado e ter ganhado praticamente não se usam);
• “verbos cujo particípio regular mostra indícios de cair em desuso, mas ainda ocorre com alguma frequência”, embora a norma conservadora seja maioritariamente desrespeitada (diz-se muito mais ter entregue (94%) que ter entregado (6%), ter salvo (92%) que ter salvado (8%), ter morto (89%) que ter matado (11%), ter eleito (80%) que ter elegido (20%), ter aceite (75%) que ter aceitado (25%) e ter expulso (75%) que ter expulsado (25%);
• “verbos cujo particípio irregular ocorre no contexto em causa, mas com relativa raridade”, ou seja, em que a norma prescrita pelas gramáticas se aplica realmente na maior parte dos casos (é muito mais comum ter expressado (72%) que ter expresso (28%), ter extinguido (74%) que ter extinto (26%), ter suspendido (78%) que ter suspenso (22%), ter prendido (80%) que ter preso (20%), ter dispersado (82%) que ter disperso (18%) e ter soltado (90%) que ter solto (10%); e, finalmente,
• “verbos verbos cujo particípio irregular não se usa ou é bastante raro” nos tempos compostos, quer dizer, em que a regra prescrita pelas gramáticas é, a bem dizer, sempre aplicada (praticamente não se vê nem ouve ter envolto, ter aceso, ter desperto, ter oculto, ter manifesto).
Deixo aos meus leitores mais um proposta de reflexão: em que grupo incluiriam os verbos assentar, cegar, emergir, empregar[9], fritar[10], imergir, imprimir, isentar, juntar, libertar, secar e submergir, por exemplo?
***
Agora, o que é que se passa na nossa cabeça quando dizemos estive em vez de *estei, que seria a forma normal? Há várias teorias sobre isso[11]. A teoria que prefiro diz que vamos buscar a forma estive a um armazém na memória que só contem formas irregulares e expressões idiomáticas. Chamemos a esta teoria regra&memória, para facilidade de exposição. Segundo a teoria regra&memória, vai procurar-se uma forma armazenada na memória e, se não se a encontra, aplica-se a regra e produz-se a forma regular. Para dar um exemplo com falar, não encontrando na memória uma forma (irregular) da 1ª pessoa do pretérito perfeito, aplica-se a regra de juntar o sufixo -ei à raiz do verbo (fal-) e temos falei. No caso de estar, a forma estive está armazenada na memória, o que bloqueia a aplicação da regra e, por isso, não se produz *estei.

Mas, e quando um verbo tem ao mesmo tempo uma forma regular e uma forma regular e é necessário usar uma forma ou a outra em contextos diferentes? O caso dos particípios duplos dos verbos portugueses parece constituir um excelente objeto de análise, teste e desenvolvimento das teorias de produção/armazenagem de formas irregulares… Neste caso, há que recuperar a forma irregular em certos contextos e produzir a forma regular noutros, pelo que a regra simples “se não há irregular armazenado, aplicar regular” não pode funcionar sem uma componente adicional: “se não há irregular armazenado no caso X, aplicar regular; no caso Y, bloquear recuperação de irregular”. Não vou aprofundar aqui esta questão, até porque não o sei fazer; mas fica aqui a ideia de projeto de investigação...

É possível que o mecanismo que leve à preferência da forma irregular dos particípios passados seja a hipercorreção que resulta do medo de erro: irregular é mais difícil e, por isso, mais seguro, porque mais difícil é mais correto. (Como se não houvesse cenouras baratas bem mais saborosas que cenouras caras…) Por outro lado, se a teoria regra&memória atrás exposta estiver certa, é normal que o facto de existir um irregular na memória bloqueie a geração de regular – quando é deficiente ou inexistente a interiorização de uma regra suplementar complexa que é seguramente “dispendiosa” em termos de processamento. Como vimos atrás, é, de facto, o que parece estar a acontecer em muitos casos: a forma irregular está a substituir completamente a forma regular – embora o seu uso nos tempos compostos seja criticado pela norma culta conservadora, ela encontra-se também com frequência no discurso das classes educadas.
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[1] As listas de particípios duplos podem ir de duas dúzias de verbos a mais de centena e meia. A maior parte é, porém, muito exagerada, pelas razões apresentadas no texto: incluem adjetivos que não são de facto particípios passados e incluem arcaísmos.
[2] Estou provavelmente a simplificar demasiado. Pode discutir-se se o uso nos chamados estados resultantes de verbos que exprimem ação é ou não verbal: partiu-se > ficou partido, morreu > está morto, etc.
[3] O uso verbal de nado (nato nunca se usa verbalmente) é claramente arcaizante: quem disser ou escrever que foi nado em Coimbra viveu há séculos ou quer soar como alguém de que viveu há séculos. É de notar que nascer tem uso transitivo noutras variantes do português, como o português de Moçambique, com o sentido de “dar à luz, parir”, mas sempre com o particípio regular.
[4] Tinha morto e foi morto são formas de matar (embora a primeira seja criticada), mas nunca de morrer, pelo que não faz sentido considerar que há uso verbal da forma irregular morto do verbo morrer. Sobre a questão do estado resultante, ver nota 2.
[5] É certo que os dicionários registam usos transitivos do verbo, mas são tão raros que nunca os vi em lado nenhum. Duvido que vago seja alguma vez usado como componente de uma forma verbal.
[6] Embora possa efetivamente ocorrer em passivas, o particípio passado incurso ocorre apenas sempre nos mesmos contextos de linguagem jurídica. As ocorrências são tão específicas que proponho que se tratem como cristalizações, isto é, formas antigas que ocorrem em expressões fixas. A característica destas formas é que não estão disponíveis para usar noutros contextos, pelo que não se aprendem e flexionam livremente.
[7] Móia, Telmo, “Algumas áreas problemáticas para a normalização linguística – disparidades entre o uso e os instrumentos de normalização”, in Actas do XX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística. Lisboa: APL, 2004, pp. 109-125, disponível em linha.
[8] “O CETEMPúblico (Corpus de Extractos de Textos Electrónicos MCT/Público) é um corpus de aproximadamente 180 milhões de palavras em português europeu, criado pelo projecto Processamento computacional do português (…) após a assinatura de um protocolo entre o Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCT) português e o jornal PÚBLICO em Abril de 2000.”
[9] A aceitação dos particípios passados empregue e encarregue varia de gramático para gramático. É inegável, porém, que, pelo menos em português europeu, as formas não só existem como são frequentes, com tendência até a tornarem-se dominantes.
[10] Há verbos formados das formas irregulares do particípio, cujos particípios passados irregulares, por isso, pertencem atualmente a dois verbos diferentes, como expresso (de expressar e exprimir) e frito (de frigir e de fritar). Se frigir é claramente um arcaísmo, exprimir coexiste com expressar no português europeu atual.
[11] Além da teoria descrita no corpo do texto, conheço outras duas teorias sobre a produção e memorização de formas flexionais irregulares: uma diz que as formas flexionais irregulares, como todas as outras formas flexionais, são produzidas pela nossa mente a partir de regras computacionais – as formas irregulares a partir de regras menores; a outra diz que todas as formas são memorizadas a partir de um sistema complexo de relações entre traços das diversas formas. Para quem queira mais informação sobre a questão, sugiro o texto (em inglês) de Steven Pinker “Words and rules” in Lingua 106, 1998, pp. 219-242 (a informação sobre as três teorias não é neutra, Pinker defende uma delas).

18/11/13

Uma injustiça… ou O que se diz, quem o diz e quando…

É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. 
A frase é conhecida em múltiplas traduções e atribuída a muita gente, mas parece provável que tenha origem escandinava. O autor, não se sabe ao certo quem tenha sido…

A frase dinamarquesa é Det er svært at spå, især om fremtiden e o verbo spå descreve, na origem, o que fazem bruxos, adivinhos e videntes: “adivinhar o futuro” (atualmente, significa também fazer profetizar sem auxílio de artes mágicas de tipo nenhum…). Uma tradução mais literal da frase seria “É difícil profetizar, sobretudo o futuro.”

Muitas vezes, a frase é atribuída ao físico Niels Bohr ou ao humorista Storm P. (Robert Storm Petersen), mas eles parecem não ter feito mais que repetir o brincalhão aforismo, que era já conhecido na altura. O político K. K. Steincke refere a expressão num livro de memórias de 1948, dizendo que ela tinha aparecido no parlamento dinamarquês entre 1935 e 1939. Há, porém, um registo mais antigo de uma frase semelhante, que poderia estar na origem da piada dinamarquesa: o norueguês Fredrik Paasche teria escrito em 1918, num artigo no jornal Samtiden, “Det er en vanskelig sak å spå om fremtiden”, “É coisa difícil profetizar o futuro”. Talvez a tradução portuguesa soe apenas a redundância, mas, a julgar pela maneira como a frase é referida na discussão da origem da expressão, parece que, em “escandinavo”, soa claramente a dito espirituoso e não a erro.

Nem imaginam o que se tem escrito sobre a origem desta frase*… Agora, o que eu quero com esta conversa toda é dar conta de uma injustiça: se for Niels Bohr ou Storm P. a dizer uma coisa assim, acham todos muita graça à boutade (pois, pois, boutade, para ser mais fino); se for o João Pinto a dizer que só faz prognósticos no fim do jogo, a reação é logo outra… Já viram como vocês são?
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* Para não vos mandar para páginas em dinamarquês ou norueguês, eis um resumo da discussão em inglês (com uma incorreção pelo meio, felizmente notada nos comentários). Este texto tem um bónus no fim, um delicioso excerto de um discurso de Michael Berry sobre a atribuição de ideias científicas.

14/11/13

Sobre preconceito e rotinas

Preconceito é uma palavra com conotações negativas, mas não é forçosamente mau ter pré-conceitos sobre as coisas. Depende de que pré-conceitos e sobre o quê. Já aqui o disse uma vez: é-nos muitas vezes apresentado como ideal o despir-se de preconceitos e ver ou pensar constantemente as coisas como se as víssemos ou pensássemos pela primeira vez, mas, da realização desse ideal resultaria, muito provavelmente, mais confusão e cansaço que iluminação ou deslumbramento. É muito útil ir armazenando ideias sobre as coisas, os seres e as categorias de coisas e seres que vamos encontrando – para não termos, precisamente!, de os reanalisar de novo a partir do zero quando os voltamos a encontrar. Os indispensáveis mecanismos que produzem os preconceitos são, em última análise, os que nos permitem, ainda em bebés, aprender a nossa língua materna, por exemplo: fazemos estatísticas sofisticadas de toda a informação que os sentidos recolhem e chegamos a conclusões importantes sobre quais são os sons relevantes para a nossa língua – ou sobre qual o comportamento típicos dos gatos ou das pessoas com quem lidamos, nesta ou naquela situação.

É claro que estes cálculos inconscientes, por úteis que sejam, estão muito longe de ser sempre corretos. Por um lado, a nossa experiência direta do mundo engana-nos amiúde e a verdade é muitas vezes contraintuitiva – sabiam que não é o sol que se desloca no firmamento por cima de nós? Por outro lado, os conceitos prévios nem sempre resultam da nossa experiência, já que na computação da ideia que temos dos outros entram também as ideias e imagens que nos foram transmitidas e que não correspondem ao resultado de nenhuma análise estatística dos seus comportamentos. De maneira que é mesmo necessário ponderar com cuidado o que se aproveita e o que se deita fora dos pré-conceitos. Mas primeiro, e isso é provavelmente ainda mais difícil, é preciso ganhar consciência deles...

Alvo do mesmo tipo de críticas que os preconceitos costumam ser as rotinas: Idealiza-se muitas vezes uma vida em que se faça apenas o que os apetites nos vão pedindo, descartando tudo o que é impensado, mecânico. É certo que deixamos, às vezes, que uma parte demasiado grande da nossa vista seja gasta em atividades automáticas; mas também as rotinas não merecem críticas apenas: às vezes são, como os preconceitos, mecanismos úteis de poupança de tempo e recursos. E podem também facilitar, acho eu, a vida em comum, não só de casais ou de famílias, mas de qualquer grupo de pessoas. Tem sido dito muitas vezes e é bem verdade: deixar que uma relação assente apenas em rotinas é matar essa relação. Passa a ser uma relação aparente, uma coabitação. Por outro lado, uma relação sem rotinas nenhumas pode ser extenuante, pondo demasiadas vezes em confronto vontades diferentes. É bom deixar que se instalem – ou criar – as suas rotinas...

Não me entendam mal: a moral da história não é que o preconceito e a rotina são coisas boas e que se deve por isso cultivá-los – apenas que se pode compreender que utilidades podem ter. Mas não podemos deixar que os pré-conceitos nos ceguem para conceitos novos, que nos impeçam de ver as coisas como são mas não pensávamos que elas fossem. E o mesmo as rotinas: nenhum músico pode improvisar bem se não tiver os dedos rotinados em escalas e fraseados vários, mas será sempre um improvisador desinteressante se se limitar a repetir esses automatismos. Mesmo nas rotinas que fomos nós a decidir para nós próprios, há que deixar espaço para, de repente, as ignorarmos completamente.

04/11/13

A língua de Camões, de Cervantes e de Shakespeare

Uma vez, na faculdade, apresentei, numa aula de literatura portuguesa, um trabalho sobre uma cantiga d’amigo e li o poema com a pronúncia da época. Tive de praticar muito, porque não é muito fácil, mas não vi o meu esforço muito recompensado – acho que as pessoas não acreditaram que era assim que se falava na altura; e acharam, muitas delas, que era um gesto pretensioso.

Fiz o mesmo numa aula de literatura francesa medieval e foi diferente: a professora, que não sabia ela própria pronunciar provençal antigo, lembrava-se de que tinha ouvido os mestres dela, em França, lerem poemas provençais medievais. “De facto, não sei avaliar se pronunciou bem ou não”, disse ela quando eu terminei, “mas soa muito como aquilo que me lembro das minhas aulas em França.” Também na universidade, tive um professor (francês) de língua francesa que trabalhou com literatura medieval e lia sempre com a pronúncia de época.

Já ouvi várias vezes Chaucer (c. 1343-1400) dito com pronúncia do seu tempo[1]. Mas, tirando na tal aula de Literatura Portuguesa de que falo atrás, nunca na minha vida ouvi um poema português antigo lido com pronúncia da época, não sei por quê… De facto, estou convencido de que muitos portugueses de hoje pensam que D. Dinis (1261-1325) ou Camões (1524-1580) falavam como eles falam[2]. Mas não. Falavam de uma maneira muito diferente da nossa (e muito diferente um do outro…) e foi com a sonoridade da língua que falavam – e para essa sonoridade – que os seus poemas foram escritos, não com/para a sonoridade do português que hoje falamos.

Atualmente, já se representam Shakespeare (1564-1616) e Molière (1622-1673) em pronúncia da época, como se pode ver nos vídeos abaixo, mas não tenho informação de que alguma vez Gil Vicente ou António Ferreira, por exemplo, tenham sido representados com pronúncia do seu tempo. É certo que Gil Vicente (c.1465-c.1536) é mais distante de nós que Shakespeare ou Molière, mas creio que, com a ajuda do texto escrito em grafia moderna, um pouco como se acompanha uma ópera com o libreto, as peças seriam compreensíveis para a maior parte dos espetadores. Digam-me lá: devo ter esperança de algum dia ver uma peça de Gil Vicente com a pronúncia da época?

É curioso: neste aspeto, o cinema parece ser menos inovador que o teatro, apesar de o eventual uso de legendas poder resolver todos os problemas de compreensão de pronúncias antigas e as técnicas cinematográficas, com dobragens, repetições, etc., permitirem uma maior afinação dessas pronúncias. É uma coisa em que penso sempre quando vejo filmes históricos: para quando o primeiro filme falado com pronúncia da época? Há filmes falados em línguas da época antiga que descrevem (como latim em Sebastiane e latim, hebraico e aramaico n’A Paixão de Cristo[3]). O facto é que, por muito cuidado que se tenha na reconstrução de cenários, roupa, etc., só se pode dar uma ideia de um determinado ambiente da Inglaterra do séc. XIII ou da Espanha do séc. XVI, por exemplo, se se reconstruir também a maneira como as pessoas falavam.



Neste vídeo (em inglês, sem legendas, infelizmente) David Crystal e Ben Crystal falam-nos das produções de Romeu e Julieta em pronúncia original no Globe Theater e explicam como essa pronúncia permite ressuscitar rimas e jogos de palavras doutra forma perdidos. O vídeo responde também àquela pergunta inevitável quando se fala destas coisas: “Mas como se sabe como falavam antigamente? Não havia gravadores…” De facto, a resposta podia ser mais completa, mas isso implicaria entrar em explicações muito técnicas.



Excerto de Le Bourgeois Gentilhomme, de Molière, pela companhia Poème Harmonique, dirigida por Vincent Dumestre e Benjamin Lazar, responsável pelo trabalho de pronúncia restaurada (infelizmente, a qualidade da imagem não é a melhor). Esta peça de Molière é, precisamente, um documento que nos dá informação sobre a pronúncia do francês no séc. XVII – pelo que faz ainda mais sentido que seja representada com a pronúncia da época. Além de traços como a pronúncia dos ss finais, alguns notarão a semelhança com muito do francês canadiano. De facto, é um lugar comum dizer que o francês canadiano parece francês antigo e é, em grande medida, certo: como aconteceu com as outras línguas europeias transplantadas para a América, o francês manteve no Canadá muito traços antigos da pronúncia – talvez mais que as outras línguas por uma grande parte dos seus falantes viver em grande isolamento, provavelmente...
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[1] Podem ouvir o início d’Os Contos de Cantuária em pronúncia da época, mas, mesmo que tenham muito bom domínio do inglês, é melhor acompanhar com o texto, senão são capazes de não compreender grande coisa. E mesmo com o texto…
[2] Creio que alguns portugueses não gostariam de ouvir Camões com a pronúncia do seu tempo – havia de lhes soar demasiado abrasileirado ou espanholado, por causa das vogais abertas. Mas isso é outra conversa…
[3] Nestes dois filmes, a pronúncia do latim não é trabalhada com rigor. N’A paixão de Cristo, nem se usa pronúncia restaurada, mas sim a clássica pronúncia italianizada.