18/10/09

Retalhos da vida de três compositores

Eis três histórias de música que, acho eu, podem interessar também a quem não se interessa por música. O que vem a itálico nos textos que se seguem foi traduzido, às vezes em terceira mão, do livro Music in the Western World, A History in Documents (Weiss, Piero e Richard Taruskin, selecção e anotação. Nova Iorque: Schirmer Books, Macmillan, 1983). O resto vem dos sítios para onde vos mandem os links...

Salomé e a vivenda de Garmisch 
A ópera Salomé de Richard Strauss (1986-1947), com libreto de Hedwig Lachmann baseado na peça homónima de Oscar Wilde, foi estreada em Dresden em 1905. Num texto educativo da English National Opera, entretanto desaparecido da Internet*, Sarah Lenton dizia-nos sobre essa estreia que, “durante 90 minutos, o público observou traumatizado a história bíblica da morte de S. João Baptista transformada agora num relato de corrupção e depravação. A música era pertinazmente moderna, os cantores cantavam com o máximo das suas forças e tudo aquilo era indescritivelmente macabro. No fim do espectáculo, Strauss virou-se para o público e disse: «Bem, eu gostei bastante – e vocês?»”

Uma conhecida enciclopédia explica também que “a combinação do tema bíblico, do erótico e do homicídio, que tanto atraíam Wilde na história, chocaram o público de ópera desde a primeira apresentação da obra” e que a ópera foi proibida em Londres pelo gabinete de Lord Chamberlain até 1907 e Gustav Mahler não conseguiu obter do censor de Viena consentimento para que ela fosse levada à cena”. Um pequeno escândalo, como se vê.

Interessante também é o que nos conta o próprio compositor sobre a estreia de Salomé e a sua recepção em geral:
O espectáculo teve o sucesso que têm todas as estreias em Dresden, mas os agoireiros todos, a abanarem a cabeça depois, no Bellevue Hotel, eram unânimes na opinião de que, embora a obra pudesse ser produzida num ou noutros teatro de muito grandes dimensões, em breve desapareceria. No espaço de três semanas foi aceite por, creio eu, dez teatros e fez sensação em Breslau com uma orquestra de apenas 70 instrumentos. Depois, começaram os disparates na imprensa, a oposição do clero (…) e dos puritanos de Nova Iorque (…). O imperador alemão consentiu que a obra fosse levada à cena só depois de Sua Excelência [o Administrador Geral] Hülsen se ter lembrado de fazer aparecer no fim a estrela de Belém, como sinal da chegada dos reis magos! Uma ocasião, Guilherme II disse ao seu Administrador Geral: «Tenho pena que Strauss tenha composto esta Salomé. Eu até gosto bastante dele, mas vai desgraçar-se com isto!». Graças a esta desgraça, consegui comprar a minha vivenda de Garmisch!
Quando eu morrer, pensem de mim o que quiserem
A Sinfonia nº 3 de Camille Saint-Saëns, a sinfonia com órgão, de 1886 é uma das sua obras mais conhecidas e é normalmente considerada um clássico do reportório sinfónico. Esta sinfonia, que lança mão de uma orquestra grande reforçada com piano (às vezes a quatro mãos) e órgão, é muito provavelmente, como dizem as liner notes de uma edição que tenho dela, a obra pela qual Saint-Saëns gostaria de ser conhecido. “Dei aqui tudo o que conseguia dar”, disse Saint-Saëns da obra, “o que fiz nessa altura não o voltarei a fazer”.

Mas não é. Ou seja, é uma das obras pelas quais é conhecido, mas a obra pela qual é mais conhecido é O carnaval dos animais, que ele nunca considerou senão uma brincadeira, uma peça menor, sem interesse, e que, por isso mesmo, proibiu de ser tocada em público enquanto fosse vivo. A decisão de Saint-Saëns provoca-me uma estranheza que a proibição simples de execução pública de uma obra não me causa: ele proibiu a execução d’O carnaval dos animais enquanto fosse vivo, mas autorizou expressamente a sua execução após a sua morte. O que, bem vistas as coisas, é o mesmo que dizer assim: “O meu nome, a minha reputação, a maneira como quero que os outros me vejam, tudo isso acaba quando eu acabar… A partir daí, vejam-me lá como quiserem, que eu já cá não estou para ver como me vêem…”. O que é, no mínimo, uma atitude fora do vulgar…

Pode alguém ser quem não é?
Eu sei que, dos músicos, o que conta é a música, mas também sei que quem se interessa por música não consegue nunca deixar de espiolhar um bocadinho a vida de quem a faz. Ora a vida de Prokofiev tem mistérios que cheguem para inspirar muitas novelas; e mistérios que não o são só para amadores como eu ­– mesmo os grandes estudiosos de Prokofiev confessam-se incapazes de afirmar com o mínimo de certeza que as coisas se passaram assim ou assado, e por esta ou por aquela razão. Por que voltou Prokofiev à Rússia, se não tinha disso nenhuma necessidade, bem pelo contrário? Ninguém compreende. E por que aceitou com aparente docilidade as imposições do Partido? Que sinceridade havia, se havia alguma, na retractação pública em que se humilha a si próprio em 1948? É quase standard, nas biografias de Prokofiev, descrevê-lo na sua juventude como um enfant terrible. Prokofiev não era propriamente uma pessoa submissa, mas, quando lemos a carta que escreve em 1948 à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, a que a doença o impede de assistir, ficamos sem saber o que pensar. Eis um excerto:
No que me diz respeito, a minha obra caracterizou-se por elementos de formalismo até há 15 ou 20 anos. Pelos vistos, apanhei a infecção através do contacto com algumas ideias ocidentais. Quando foram denunciados no Pravda erros formalistas na ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovitch, pensei muito nos mecanismos criativos da minha própria música e cheguei à conclusão de que tal método de composição estava errado.
Por conseguinte, comecei a procurar uma linguagem mais clara e com mais significado. Em várias das minhas obras posteriores (Alexander Nevsky, Um brinde a Estaline, Romeu e Julieta, Quinta Sinfonia) esforcei-me por me libertar de elementos de formalismo e parece-me que, em certa medida, o consegui. A existência de formalismo nalgumas das minhas obras explica-se, provavelmente, por uma certa complacência e por não me ter dado suficientemente conta de que ele é completamente rejeitado pelo nosso povo.
O facto é que, nas obras que Prokofiev refere, escritas depois de ele “renunciar” ao “formalismo pequeno-burguês”, por muito que mais “melódicas” ou menos “modernas”, se continua a sentir o fogo de artifício prokofieviano, que é único. Mais “russa” ou menos “russa”, mais “popular” ou mais “burguesa”, a música de Prokofiev continua a ser genial. Mas o mais interessante é que a História de um Homem a Sério, a ópera em que ele estava a trabalhar na altura, foi recusada e proibida pelo Sindicato dos Compositores, por muito que, na referida carta à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, Prokofiev desse conta da intenção de “introduzir trios e duetos, coros desenvolvidos em contraponto, para os quais [usaria] algumas melodias folclóricas interessantes do Norte da Rússia”, acrescentando que os elementos que pretendia usar nessa ópera eram “uma melodia lúcida e, tanto quanto possível, uma linguagem harmónica simples”. O que prova que, quando se é Prokofiev, não vale a pena tentar ser outro compositor que não se é…
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* O texto  de Sarah Lenton encontrava-se em http://www.eno.org/src/Salome.pdf, visto a 18 de Outubro de 2009

15/10/09

E onde estão, pobres de nós, as doces neves de antanho?

Eu espanto-me e é provável que vos aconteça o mesmo: A cada passo tropeço em queixas de que nunca houve, como agora, tanta solidão, tanta violência, tanto medo, tanta intolerância, tanto individualismo, tanto desinteresse no social, tanta uniformização do pensamento… Etc.

E então eu espanto-me e é provável que vos aconteça o mesmo: Nunca ninguém apresenta quaisquer provas do que diz… Mas deixá-lo… Nem sonhem que vou agora aqui argumentar que, se se substituir o tanto por tão pouco, então sim, temos alguma possibilidade de ter razão. Podia fazê-lo, e apresentar números e tudo, mas isso fica adiado, porque agora não me apetece. O que eu quero dizer aqui hoje é outra coisa:

Podem querer acusar-me, e aos outros críticos deste milenarismo de bicha da caixa, de uma contradição fundamental: «Então, tu estás a fazer o mesmo que aqueles que criticas, não vês? Estás a dizer: “Valha-nos Santa Ifigénia, que nunca houve tanta gente a queixar-se como agora!”»

Mas é uma acusação infundada, porque eu não disse isso. Disse só que me espanto, mais nada. Tenho plena consciência de que dizer que «isto nunca esteve tão mau como agora» é comum a todos os tempos e a todos os lugares. Há milhares de anos que isso se diz…

Isso sim, maridinho!

Já terão visto, com certeza, que às vezes aparece “tradicional” no sítio onde devia estar o nome da autora ou do autor de uma composição. É esquisito, porque tradicional não é o nome de ninguém; e todas as composições têm uma autora ou um autor – forçosamente.

É verdade que agora já há muitas vezes mais rigor na referência da autoria e que se escreve às vezes “domínio público” ou “autor desconhecido”. Mas só a última possibilidade me satisfaz, porque do domínio público são todas as obras cujos direitos de autor tenham caducado, mesmo que se saiba quem as escreveu. Autor tradicional não há, portanto – há é autores desconhecidos.

A ideia de que uma obra de arte possa vir do povo como entidade abstracta é uma estapafúrdia ideia romântica que teve – e tem ainda – muita fortuna. Da mesma forma que os historiadores românticos explicavam a evolução histórica a partir de ideias metafísicas como a alma dos povos, também muitos intelectuais, e mesmo musicólogos, acreditaram na criação musical e lírica colectiva das obras tradicionais. “Grande poeta é o povo”, diz o provérbio, como poderia dizer “Grande compositor é o povo”. Mas é mentira*, além de ser uma falta de respeito por um certo tipo de autores: discute-se muitas vezes a autoria de muitas obras de “grande” música ou literatura, quando não se a pode dar por certa, porque uma obra assim tem de ter um autor; mas uma canção popular já não – pode ter sido construída por todos e por ninguém em particular… Não quero dizer com isto que a música dita “tradicional”, por não ser escrita, não esteja mais sujeita a contínuas alterações do que a música dita erudita. Mas alterações são sempre alterações a alguma coisa e por baixo das alterações há uma canção que uma pessoa concreta criou num determinado momento.

Agora, o que eu gostava de ter sido folclorista, na altura em que os havia a sério! E não só pelos queijos e pelos enchidos que vão sendo oferecidos aos misteriosos académicos de visita, que são com certeza uma das partes mais gratificantes da recolha folclórica, mas também pelo prazer do trabalho de detective que é. Surdo que sou para a música, teria é, claro, que me limitar ao trabalho com as letras, mas o fascínio da arqueologia lírica não é menor do que o da arqueologia musical. Ai, quem de dera, de gravador na mão, a acompanhar Ralph Vaughan Williams pelas charnecas da velha Albion à procura da versão original de “John Barleycorn”, provavelmente sob a forma de uma cerveja muito local…

Isto é tudo a propósito de ter encontrado algures na Internet** (ou seja, sem ter tido direito a queijo nem a enchidos…) duas versões alternativas da letra de uma canção “tradicional” que eu conheço e toda a gente conhece. Eis aqui as três versões da letra da canção. Começo pela que, com um ou outra variaçãozita no número de estrofes e sua na ordem, todos conhecemos e a que eu chamo aqui Versão A:

- Ó mulher, eu compro-te umas meias (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas feias. / Compra-me um litro de vinho, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).
- Ó mulher, eu compro-te umas chancas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas mancas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te umas botas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas tortas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te um burrinho (bis).
- Isso sim, maridinho, isso sim, isso sim, / Que dum lado vai o pão. / Doutro lado vai o vinho, / E eu também vou no burrinho. / Compra-me um litro, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).

E agora, as outras duas versões que eu encontrei, designadas aqui B e C:

Versão B:
- Oh mulher, eu comprava-te umas botas (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz as pernas tortas; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te uns sapatos (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz andar aos saltos; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te um burrinho (bis)
- Isso sim, maridinho sim, / que o burro leva o odre; / o odre leva o vinho, / boa carne e melhor toucinho.

Versão C:
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te umas botas.
- Isso não, marido não, / que me faz as pernas tortas. / Compra-me antes um vinhinho / p'ra regar o meu peitinho. / Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te uns sapatos.
- Isso não, marido não, / que me faz andar aos saltos. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um saiote.
- Isso não, marido não, / que fico como um pipote. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um gibão.
- Isso não, marido não, / que me oprime o coração./ Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um pente.
- Isso não, marido não, / que arranha a cabeça à gente./ Compra-me antes um vinhinho, etc..

Qual é a original, ou a mais antiga, e quais são as alterações posteriores? E qual é a liricamente mais rica ou mais original? É impossível dizer. Podemos constatar objectivamente que as várias versões têm de se cantar com melodias diferentes, mas o resto é muito uma questão de gosto. A versão mais conhecida tem uma coisa de que eu gosto, que é ter a estrofe-conclusão mais comprida do que as outras, o que obriga a melodia a marcar passo, mas que, por outro lado, a frase “bom frumento e bom vinho, boa carne e melhor toucinho” da versão B, é muito boa, como é boa também a frase “Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal”, da versão C, com o sofisticado jogo de bem e mal.

O que me parece (e foi por isso que aqui a trouxe) é que é uma canção surpreendente:

Há uma maneira, e uma maneira única, penso eu, de a fazer encaixar na mentalidade falocrata dominante (mais ainda na altura em que a canção foi escrita…): é considerar que a mulher bêbeda é um elemento humorístico da cultura machista, ao mesmo nível que o homossexual ou o marido atraiçoado – e que essas personagens são caricatas, aos olhos do homem tradicional, por serem contra o que ele considera natural, por virem baralhar o que é, para ele, “a ordem normal das coisas”, por serem o que uma mulher ou um homem “não deveriam nunca ser”. (Há quem afirme que é muitas vezes a alteração da ordem que é entendida como natural que faz rir uma pessoa, desde que essa pessoa não perceba nessa alteração gravidade ou ameaça.)

É uma perspectiva possível, e não me custa mesmo nada aceitá-la. Se olharmos para a canção de outro ângulo, porém, pode antes parecer-nos que ela faz a apologia de algo tão fora dos valores dominantes que chega a ser uma canção subversiva: O homem oferece à mulher (como, segundo os valores tradicionais, lhe compete) vestuário, calçado e objectos de toilette, para ela ficar mais bonita e lhe agradar mais. A mulher, porém, recusa ver-se reduzida a objecto estético, manda às urtigas roupas e sapatos, e reivindica antes para si os prazeres em princípio reservados aos homens, sobretudo o direito a estados alterados de consciência. Que tal?
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* E um exercício de des-localizada presunção: “Se eu disser de mim que sou / um poeta fabuloso, / não faltará quem me acuse / – com razão! – de presunçoso! // Mas se o povo diz que grande / poeta é o povo, então, / não há ninguém que lhe aponte / essa grande presunção...”

** Não vos dou o link, só para não serem tentados a lá ir, porque, ao que diz um Malware Warning de Google, o site que é está agora cheio de bichezas esquisitas que se metem pelos computadores adentro…

06/10/09

Existe uma canção feminista feminina?

Mais um texto originalmente publicado a 29 de Outubro de 2008 no extinto blogue Rádio Sim Carolina. Fala dessa letrista singular que é Dory Previn e levanta uma questão que já foi muitas mais vezes levantada do que respondida: a escrita (neste caso, na canção) terá género?

Tenho a sensação de que as canções feministas escritas por homens são, no geral, relativamente previsíveis e panfletárias. É verdade que também há canções feministas previsíveis e panfletárias escritas por mulheres, e canções feministas menos estereotípicas escritas por homens. Mas todas as canções feministas mais directas, mais virulentas, mais provocadoras, mais eficazes que conheço foram escritas por mulheres – e, provavelmente, só poderiam ter sido escritas por mulheres.

Dory Previn, uma cantautora por cujas letras tenho uma admiração especial, é, nesta questão (como em muitas outras!), um caso à parte. Coexistem nela a canção feminista tradicional, a tal que podia ter sido escrita por qualquer pessoa, com a canção do subversivo feminismo feminino. Ou do seu – só dela – único e subversivo feminismo, talvez…

Tomemos a canção “When a Man Wants a Woman”, de Reflections in a Mud Puddle, 1971 (as traduções das canções que aqui aparecem são minhas, que me desculpem os leitores do blogue e sobretudo Dory Previn...):

«Quando um homem quer uma mulher, / diz que é um elogio, / diz que está apenas a tentar / capturá-la, / reclamá-la, / domá-la; / quando quer tudo, tudo dela, / a alma, o amor, / a vida, para sempre, e mais, / diz que a está a persuadir, / diz que anda atrás dela. // Mas quando uma mulher quer um homem, / ele diz que ela o ameaça, / diz que ela está só a montar-lhe uma armadilha, / a aliciá-lo, / a acorrentá-lo, / quando ela quer algo dele, seja lá o que for, / um olhar, um toque, / um bocadinho do seu tempo, / ele diz que ela está a ser exigente, / assegura que ela o está a destruir. // Por que é que / quando um homem quer uma mulher / lhe chamam caçador, / mas quando uma mulher quer um homem / lhe chamam predadora?»

Alguém se surpreenderia se lhe dissessem que a canção tinha sido escrita por um homem? Não sei. Creio que não. Caso bem diferente é o das duas canções que transcrevo a seguir. “Twenty-Mile Zone”, de On my way to where, 1970, e “Starlet Starlet on the Screen Who Will Follow Norma Jean?”, de Reflections in a Mud Puddle, 1971:

«Ia eu a guiar o meu carro, / a gritar à noite, / a gritar à noite, / a gritar ao medo. / Não estava a fazer nada, / só a dar uma volta de carro, / a gritar ao escuro, / a deitar tudo cá para fora. / Era só isso que eu estava a fazer, / só a deitar tudo cá para fora. // Bem, de repente aparece uma mota, / para minha surpresa. / Disse eu: “Sr. Agente, ia em excesso de velocidade?”/ Não lhe via os olhos./ Disse ele: “Não, não ia em excesso de velocidade”. / Pôs a mão na pistola que tinha pendurada / e disse: “Minha senhora, a senhora ia a gritar / a plenos pulmões! / Ia a gritar sozinha! / A senhora ia a gritar no seu carro, / numa zona de velocidade reduzida.” // “E que mal tem gritar? / Vocês não gritam nos vossos jogos, / quando o três-quartos-ponta parte o cotovelo, / quando o pugilista ataca e mutila?»

«Hollywood! / Com quem tem de se foder / para entrar neste filme? / Como se transforma um vício numa virtude? / Com quem tem de se foder / para ser bem tratada? // Levam-nos como se leva um animal para o matadouro, / inspeccionam-nos, classificam-nos, põem-nos um carimbo a dizer se somos de tipo corrente ou de primeira categoria. / Penduram-nos num gancho de carne, e ali ficamos a envelhecer. / Mas a carne de fêmea não melhora com o tempo. / Cortam-nos às peças e tiram a parte mais tenra. / E quando acabam, / o que resta de nós / é rijo, é duro. / Se é essa a ideia que alguém faz do Paraíso, / com quem tem de se foder / para ir para o Inferno? / Viva Hollywood!»

Algum homem escreveria canções assim?

05/10/09

O tempo, mais uma vez

O tempo passa por nós, então, ou nós andamos por ele afora. Muita gente o tem constatado: é assim, com imagens de movimento, umas vezes nosso, outras vezes do próprio tempo, que a gente diz essa perturbadora dimensão do mundo. Agora, por muito que as metáforas espaciais, como se lhes chama, nos possam ajudar a falar do tempo, a (tentar) fazer perceber ao nosso interlocutor como se organizam ocorrências e situações umas em relação às outras e em relação a ao eterno presente em que as dizemos, é verdade é que elas não nos servem para sentir a passagem do tempo.

[A parte séria (credo…) termina aqui, e o que se segue, terão de mo perdoar…, é mais delírio, desregramento do raciocínio...] Costumo viver o tempo da seguinte forma: às vezes, acumulam-se num mesmo espaço imagens de vários tempos; outras vezes, em vez de se acumularem, sucedem-se essas imagens de tempos diferentes. Mas vai tudo dar ao mesmo: a visão de qualquer coisa (um lugar, uma pessoa…) traz-me à consciência o arquivo de imagens dessa mesma coisa. A marca da passagem do tempo é o conjunto de diferenças visíveis entre as diversas imagens mentais, entre as que foram armazenadas em tempos diferentes e entre todas essas e a que tenho na altura diante de mim. Os tempos mudam-se, como as vontades, mas o tempo nunca muda, só as coisas é que mudam nele. Há até outra maneira, mais cruel mas também mais verdadeira, sinto eu, de dizer as coisas: Nem sequer são as coisas que mudam no tempo, o tempo é precisamente a mudança das coisas. Para visualizar o tempo como o sinto, acho mais eficaz do que uma seta ou um caminho a imagem da tinta que cobre uma parede. Que vai perdendo cor até começar a escamar, até cair por completo. Como eu vejo as coisas, a ideia mais forte que resulta da comparação de imagens de tempos diferentes é decomposição, desgaste, deterioração.

Sentir passar o tempo seria deprimente, acho eu, se não houvesse a morte. Mas assim não: o cronómetro é reposto a zero e adia-se constantemente, na vida que recomeça, a decadência do mundo.

04/10/09

Cantautor

Diz o Wikcionario que cantautor é um substantivo masculino, que significa “que canta as suas próprias composições poéticas, normalmente críticas”, e que é um “neologismo criado a partir de cantor + autor, certamente por influência do castelhano cantautor”. 
Porto Editora online diz mais ou menos o mesmo: cantautor, nome masculino, é um “cantor de música ligeira que interpreta, geralmente a solo, as suas próprias composições” e vem de cant[or]+autor.
É verdade que é convencional considerar a forma masculina singular a forma de base de um nome e que é essa forma que é usada nas entradas dos dicionários, mas talvez já seja tempo de, em vez de considerar cantautor substantivo masculino sem mais (e as outras palavras todas com duas formas flexionais, uma forma masculina referente a seres do sexo masculino e uma forma feminina referente a seres do sexo feminino), fazer antes uma entrada do tipo
cantautor n. m.; cantautora n. f. : pessoa que canta as suas próprias canções
Ou não? Se o feminino e o masculino forem palavras diferentes, por exemplo, cadela e cão, acho devia haver duas entradas, ambas com referência uma para a outra:
cadela n. f.; cão n. m.: mamífero canino doméstico, Canis familiaris
e
cão n. m.; cadela n. f.: mamífero carnívoro doméstico, Canis familiaris
Já agora: sei que houve já propostas, com argumentos mais sólidos do que os que se usam para defender a convenção actual (nenhum, ao que sei...), de propor o feminino singular como forma das entradas de dicionário. De facto, com base no velho mas sempre produtivo conceito de forma marcada e não marcada, parece ser o masculino singular a forma marcada, já que o feminino, singular e plural, e o masculino plural partilham algumas características que o masculino singular não tem: vejam, por exemplo, a pronúncia nóva, nóvas, nóvos por oposição a nôvo. Mas a tradição tem muito peso – e a tradição é masculina…
Mas, voltando a cantautor e à sua definição no Wikcionário, não vejo bem o que é que faz “poéticas” depois de “composições” sem lá estar também “musicais”. Quer dizer que é cantautor quem canta as suas letras com música de outros, mas o contrário não? A definição do Porto Editora é mais correcta: “… as suas próprias composições”, pronto, ponto, chega bem. E por que hão-de ser as composições dos cantautores “normalmente críticas”? E críticas de quê, já agora? J. J. Cale não é um cantautor? E Bobby Lapointe?
Mas enfim, onde eu quero chegar com isto tudo é que foi boa ideia aproveitar (mais uma vez!) uma palavra criada em castelhano. Bom, a palavra existia não só em espanhol, mas também noutras línguas ibéricas e em italiano (cantautore/a) – em qual delas terá sido inventada? Seja como for, a antiga designação do português europeu autor/a-compositor/a-intérprete é bastante pesada. Os franceses, que usam uma designação correspondente palavra a palavra a autor/a-compositor/a-intérprete, abreviam para ACI, mas isso foi sigla que nunca cá pegou...

Agora, a propósito, fiquem lá com um excerto de um maravilhoso sketch do impagável grupo argentino Les Luthiers em que, para referir o grande cantautor Manuel Darío [fictício, não fiquem a pensar...], se introduz o conceito de autocantor…:
Manuel Darío: O professor López Jaime reconheceu que as minhas canções tocam a alma, que, os meus recitais, não há que pensá-los, há que senti-los.
Professor [Openheimmer, e não López Jaime]: De facto, fui a um dos seus recitais... E realmente... Sinto muito.
Manuel Darío: Confessei-lhe que tocava e compunha de ouvido. Mas enfim, muitos inspirados compositores populares não sabem escrever música.
Professor: Mas pelo menos sabem escrever o nome deles…
Manuel Darío: Conforme lhe ia cantando as minhas canções, ia-me apercebendo de que o professor começava a ficar visivelmente emocionado, até me pareceu ver duas lágrimas que queriam escapar-se-lhe dos olhos...
Professor: Bom, as lágrimas… Escapar-se... não… Eu é que me queria escapar!
Manuel Darío: Por fim, perguntei-lhe: “Professor, o que acha de mim como cantautor?” E ele aconselhou-me que continuasse a cantar.

Professor: Ah, sim. Eu disse-lhe: “Você deve cantar... Onde ninguém o oiça. Você deve cantar para si próprio! Porque eu, a si, não o vejo como cantautor, vejo-o mais como autocantor”.
Imagino que o breve excerto vos dê vontade de ver o sketch completo. Pois aqui está ele:


[Texto atualizado a 7 de junho de 2023, sem atualização da grafia]

03/10/09

O sexo das pontes e outras questões linguísticas

A ideia de que o pensamento é modelado pela língua costuma ser associada sobretudo aos escritos de Benjamin Lee Whorf. Whorf, impressionado pela diversidade linguística, postulou que as categorias e distinções de cada língua consagram uma maneira de perceber o mundo, de o analisar e de nele agir. Se as línguas diferem, os seus falantes devem também diferir na forma como percepcionam e agem em situações objectivamente semelhantes (Whorf 1956). Esta perspectiva whorfiana forte – de que o pensamento e acção são inteiramente determinados pela língua – há muito que foi abandonada em ciência cognitiva. Contudo, uma resposta definitiva a versões menos deterministas da pergunta “A língua modela o pensamento?” tem-se revelado muito difícil. Alguns estudos têm defendido provas da resposta afirmativa (…), outros, provas do contrário (…)*.
Lera Boroditsky, a autora desta apresentação sucinta do debate whorfiano, faz parte do primeiro grupo: é um dos neo-whorfianos que, com base em trabalho experimental (de que Whorf, no seu tempo, nunca lançou mão), defendem agora a versão fraca da hipótese whorfiana (que, de forma simples, se pode resumir assim: se bem que não determine completamente o pensamento e a acção, a língua pode, em certos casos, ter influência sobre eles). Boroditsky é professora de Psicologia na Universidade de Stanford e é, segundo alguns, uma investigadora de que ainda se há-de ouvir falar muito. A verdade é que já se ouve falar muito dela. A hipótese de influência da língua na nossa maneira de pensar o mundo sempre foi bastante sedutora fora do debate especializado e, por consequência, muito mediática, e os neo-whorfianos, e Boroditsky em particular, têm chegado às páginas de divulgação científica de vários jornais, têm aparecido na rádio e na televisão e têm também visto os seus trabalhos publicados em revistas mais especializadas. Podem, por exemplo, ler o artigo “Why Language May Shape Our Thoughts” de Sharon Befley no Newsweek de 8 de Julho de 2009, ou, se estiverem mais virados para textos um bocadinho mais densos e escritos pela própria Lera Boroditsky, vejam, por exemplo, um resumo da sua pesquisa e convicções no site edge.org ou leiam trabalhos e artigos da investigadora disponíveis online.

Eu, é claro, apaixonado que sou pela discussão, tive de ler com atenção os trabalhos todos de Boroditsky a que tive acesso. Devo dizer que, no geral, fiquei impressionado. O trabalho de Lera Boroditsky é de um grande rigor e as experiências que monta são cuidadosas na verificação de todas as hipóteses que encontra de explicação para os fenómenos que testa. E parece-me que se pode considerar que demonstra bem o que demonstra. Apresento a seguir, traduzidos por mim, alguns excertos de resumos de trabalhos de Boroditsky, para que quem os não conhece possa ficar com uma ideia de que tratam. Concretamente, os exemplos que escolhi dizem respeito a três das áreas principais dos estudos de Boroditsky e dos seus colegas: a influência das classificações que a língua estabelece através das palavras que disponibiliza na percepção de cores, a influência do género gramatical na classificação e memorização, e a influência das metáforas espaciais predominantes na língua na maneira de pensar o tempo. A palavra a Lera Boroditsky:

«Um conjunto de provas sugere que o pensamento das pessoas sobre objectos pode ser influenciado por aspectos de gramática que diferem de língua para língua», pode ler-se na secção de conclusões do artigo “Sex, Syntax, and Semantics*”. «Uma série de estudos constatou efeitos do género gramatical na maneira como as pessoas descrevem objectos, como avaliam a semelhança entre imagens de objectos, e na sua capacidade de recordar nomes próprios de objectos. Outra série de estudos mostrou que podem ser produzidas diferenças no pensamento apenas por diferenças gramaticais, sem presença de outros factores culturais. Chama-nos a atenção o facto de que mesmo um acaso gramatical (a designação arbitrária de um nome como masculino ou feminino) possa ter um efeito na maneira como as pessoas pensam sobre o mundo». Para dar exemplos concretos, as experiências demonstram, por exemplo, que, dando um nome próprio a uma maçã, um falante do alemão recorda melhor o nome se ele for masculino (Patrick) do que feminino (Patricia), mas passa-se precisamente o contrário com um falante do castelhano, porque Apfel, “maçã”, é masculino em alemão mas manzana é feminino é castelhano; ou que, pedindo-se-lhes para adjectivar objectos inanimados, os germanófonos adjectivam Brücke, “ponte”, com adjectivos “descrevendo propriedades femininas” e Schlüssel, “chave”, com adjectivos “descrevendo propriedades masculinas”, ao passo que os hispanófonos associam a puente, que é masculino em castelhano, adjectivação “masculina” e descrevem llave com adjectivos “femininos”.

«O inglês e o mandarim falam sobre tempo de maneiras diferentes», conclui-se num outro artigo**, «o inglês fala predominantemente do tempo como se fosse horizontal, ao passo que o mandarim descreve normalmente o tempo como sendo vertical. Esta diferença entre as duas línguas reflecte-se na maneira como os seus falantes falam sobre tempo. Num estudo, falantes do mandarim mostraram a tendência de pensar verticalmente sobre o tempo, mesmo quando estavam a pensar para o inglês (os falantes do mandarim eram mais rápidos a confirmar que Março vem antes de Abril, se tivessem acabado de uma série de objectos dispostos verticalmente do que se tivessem visto um objectos dispostos horizontalmente, e passou-se o contrário com falantes do inglês).»

«Os termos que designam cores em inglês e russo dividem o espectro das cores de forma diferente», explica o resumo de um artigo de 2007***. «Ao contrário do inglês, o russo faz uma distinção obrigatória entre azuis mais claros (goluboy) e azuis mais escuros (siniy). Investigámos se esta diferença linguística leva a diferenças na discriminação das cores. Testámos falantes de inglês e de russo numa tarefa acelerada de descriminação de cores usando estímulos azuis dos dois lados da fronteira entre siniy e goluboy. Concluímos que os falantes do russo eram mais rápidos a discriminar duas cores quando estas pertenciam a duas categorias linguísticas diferentes em russo (uma siniy e a outra goluboy) do que quando pertenciam à mesma categoria linguística (ambas siniy ou ambas goluboy).»

A verdade é esta: mesmo os mais cépticos relativamente à hipótese whorfiana, como eu, têm argumentação sólida pela frente, se bem que, como a própria Boroditsky afirma, há ainda muito que tem de ser feito para se poder começar a ter ideias mais definitivas sobre a questão. Relativamente à questão da relação entre género gramatical e sexo, lembro-me imediatamente não tanto de objecções mas de problemas que merecem investigação :

Depois de testar como o género gramatical nos faz atribuir sexo ao assexuado, porque não testar a influência do género gramatical na concepção de seres sexuados: por exemplo, alguém designado como uma pessoa é vista como mais feminino do que alguém designado como um indivíduo, ou só as chaves e as pontes é que recebem sexo das línguas? Outra área interessante de investigação é a das palavras que podem ter ambos os géneros, como a palavra componente...; mas como componente é uma palavra que é difícil utilizar-se em testes, podia trabalhar-se, em português, com auto-estrada, por exemplo, uma palavra que, por muito que a norma a queira feminina, é masculina (por que será?) para muitos falantes nativos da língua. Seria interessante investigar se quem diz auto-estrada no masculino lhe atribui propriedades diferentes de quem dá género feminino a essa palavra… E como se passam as coisas nas línguas em que, como nas escandinavas, o sexuado, resultante da aglomeração do masculino e feminino, se opõe ao neutro não-sexuado? Bom, não me surpreende que uma criança seja percebida como menos sexuada do que um adulto por um dinamarquês (a propósito, a palavra criança é sempre feminina em português, mesmo quando refere um rapaz, que implicações terá isso na maneira como os portugueses vêem os humanos jovens?…), mas será que, para representação figurativa, por exemplo, esse dinamarquês tem tendência a considerar um poltergeist mais sexuado do que um fantasma vulgar[1]?

Quanto à relação entre metáforas espaciais de tempo e a maneira de pensar nele, e à influência do léxico na percepção, o que se me oferece dizer é que não me custa aceitar que certos hábitos de representação mental em que uma determinada construção linguística nos induz ou que o maior ou menor rigor classificativo possibilitado por maior ou menor riqueza lexical numa área semântica determinada nos dêem vantagem ou desvantagens em determinadas tarefas cognitivas. Mas as situações estudadas até agora são tão marginais no nossa quotidiana tarefa de conhecer e pensar o mundo que a versão fraca da teoria whorfiana é mesmo muito fraca. No estado em que a investigação está, talvez seja mais correcto não falar ainda de estudo da relação entre língua e cognição, mas apenas de relação entre uma ínfima parte de aspectos linguísticos e uma ínfima parte do trabalho cognitivo…

Além disso, o léxico (eu diria, incluindo preposições e advérbios usados na expressão do tempo, mas isto é, claro está, muito discutível) é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintáctico-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (só para ficar na área da investigação aqui referida, mas podia arranjar muitos outros exemplos) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afecta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…

Mas, e outros aspectos linguísticos menos volúveis: A estrutura fonológica? A ordem dos advérbios ou dos diversos sintagmas na frase? A determinação nominal, os diversos usos dos artigos, a sua existência ou ausência? A existência de preposições versus outras formas de marcação de caso? Ficamos todos ansiosos, não é?, a ver como evolui a investigação e que implicações podem ter – ou não – todas estas componentes das línguas na nossa maneira de perceber o mundo e de agir sobre ele…

***
O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado, e isso só faz que me surpreenda mais a ligeireza de algumas afirmações que faz. Um exemplo:

«Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usarem devidamente a sua língua (…). Por exemplo, para dizer que “o elefante comeu os amendoins” em inglês (“the elephant ate the peanuts”) temos de incluir tempo verbal – o facto de que o evento se deu no passado. Em mandarim, indicar quando o evento ocorreu seria opcional e não poderia ser incluído no verbo. Em russo, o verbo teria de incluir tempo, se o comedor de amendoins era macho ou fêmea (embora só no passado) e se o dito comedor de amendoins os comeu todos ou só uma porção deles. Em turco, especificar-se-ia se o evento foi presenciado ou relatado.*» [Traduzo eu. Borodistky utiliza variações deste exemplo noutros lugares.]

Uma reflexão mais aprofundada sobre a questão que aqui se coloca, que é sobretudo de tempo, aspecto e modo, talvez fizesse com que Boroditsky não concluísse que “Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usar devidamente a sua língua”, mas antes, como concluem muitos estudiosos da questão, que as diversas línguas têm maneiras mais ou menos conspícuas de marcar categorias que estão presentes em todas as frases de todas as línguas. Senão vejamos:

• Por muito que uma pessoa fale uma língua com marcação obrigatória do género nominal, não precisa de saber o sexo de um animal para poder referir esse animal. Mal feito fora… Umas das formas disponíveis é neutra, ou não marcada, e é utilizada quando não sabemos ou não queremos dizer o sexo. Não falo russo, mas não consigo conceber que isto seja diferente em russo e que eu tenha de ir inspeccionar um animal para lhe identificar o sexo antes de o poder referir. Em português, a palavra neutra é geralmente do género dito masculino, mas há casos em que é feminina, pelo que não é só um borrego que às vezes é uma borrega, como também uma ovelha que às vezes é um carneiro.

• Sem mais contexto, qualquer falante do inglês compreende, ao ouvir “the elephant ate the peanuts”, que o elefante os comeu todos. Exactamente como em português: sem informação prévia, quando ouço a frase “o elefante comeu os amendoins”, compreendo que os comeu todos. É verdade que nem o português nem o inglês têm, como o russo, uma forma específica (no caso do russo, um prefixo verbal) que marque a “perfectividade”, ou seja, o completamento da acção. Mas há muitas outras marcas possíveis de completamento fora da forma verbal. Neste caso, é a determinação nominal (o artigo definido) que marca esse completamento.

• O que digo do aspecto, posso também dizer do tempo: mesmo que em mandarim ele não seja obrigatoriamente marcado na forma verbal, a marca tem de existir, porque a pessoa que ouve a frase tem de saber se o evento é anterior ou não ao momento em que a ouve. Mais uma vez, há argumentos (e sólidos!) sobre a presença de marcas de tempo em todos os enunciados humanos, se bem que a forma como o tempo é marcado possa diferir muito de língua para língua e aquela a que nós estamos habituados (a flexão verbal) seja apenas uma delas. Em mandarim, pelo que me lembro, as marcas de tempo (e aspecto e modo) são partículas silábicas soltas ou adverbiais “normais”, mas isso não significa que um falante do mandarim não tem de dizer o tempo.

• O que se passa em relação a tempo e aspecto passa-se em relação a modalidade: há várias línguas que, como o turco, têm marcas morfológicas da assunção pela pessoa que fala daquilo que diz. A questão é muito complexa, mas o facto de esse tipo de marcas modais existir de forma mais ou menos explícita em certas línguas não significa que nas outras línguas essa modalização não esteja presente. Em português formal, por exemplo, é o condicional que marca, muitas vezes, a não assunção pelo falante da informação enunciada (“O roubo teria sido cometido…”), mas na linguagem informal usam-se outros tipos de modalizadores, dos quais os mais óbvios são coisas como “diz que…”, “parece que…”, etc.

***
A ideia da neo-whorfiana Lera Boroditsky é que não faz sentido discutir se a língua modela o pensamento e se a cultura modela o pensamento, porque a língua faz parte do pensamento e da cultura e vice-versa****. A posição não é em nada diferente de muita gente que não assume a hipótese de Sapir-Whorf, mesmo na sua versão fraca (estou a pensar na posição “prudente” de um linguista como Claude Hagège, por exemplo).

Lamento desiludir alguns relativistas culturais mais dados à conversa de café do que ao trabalho de rigor, mas um trabalho sério como o de Boroditsky e dos outros neo-whorfianos põe também em causa, como não podia deixar de ser, conclusões apressadas sobre a maneira como a língua modela o pensamento (ou as “concepções” disto ou daquilo e, por isso, a cultura). Por exemplo:

Uma vez insurgi-me aqui, na última secção de um texto chamado “Penas de anjo”, contra a falta de rigor da afirmação de uma pretensa diferença da concepção do tempo entre os aimaras (e quem?, as outras pessoas todas do mundo?) baseada apenas na constatação de que a palavra para dizer “futuro” é a mesma palavra que para dizer “atrás”. Aquilo para que Gentner, Imai e Boroditsky chamam a atenção é que (traduzo eu) «muitas línguas têm um sistema em que “frente” é usada para futuro e outro sistema em que “frente” é usada para o passado. Quando se usa “frente” para o futuro, o tempo é representado como um observador deslocando-se ao longo de uma linha temporal, ou através de uma paisagem [é a chamada “metáfora do ego em movimento”, que se observa em frases como “Ela ainda tem a vida toda à sua frente…”, explicação minha]. Quando se usa “frente” para o passado, o observador está parado e o tempo passa por ele [trata-se, nesse caso, da chamada “metáfora do tempo em movimento”: “Quando vier o tempo das cerejas…”, explicação minha]. Poder-se-ia racionalizar que o passado está em frente porque o observador já sabe o que está no passado. O futuro está atrás porque não se pode ver o futuro, da mesma forma que não se pode vir o que está atrás de nós*****».

Outra coisa interessante no trabalho de Lera Boroditsky é que, na defesa da versão fraca do whorfianismo, ela acaba por demonstrar exactamente o contrário do que pretende uma ideia de determinismo cultural que costuma andar de mãos dadas com a tese whorfiana no seu sentido forte: a capacidade de condicionamento do pensamento que a língua possa ter não é, afinal, nada de muito fundo em nós. A categorização do mundo recebida sob a forma de léxico e formas gramaticais não impede que qualquer pessoa facilmente aprenda a categorizar o mundo de uma maneira nova, a de outra língua.

«[Um] estudo mostrou a medida em que falantes bilingues de mandarim e inglês pensam verticalmente sobre o tempo está relacionada com a idade que tinham quando começaram a aprender inglês”, mas “noutra experiência, falantes nativos do inglês foram ensinados a falar sobre o tempo usando termos espaciais verticais de uma forma semelhante à do mandarim [e,] num teste posterior, este grupo de falantes do inglês mostrou a mesma tendência para pensar verticalmente sobre o tempo que a observada em falantes do mandarim. Conclui-se que (1) a língua é um instrumento poderoso para modelar o pensamento sobre domínios abstractos e que (2) a língua nativa de uma pessoa desempenha um papel na modelação do pensamento habitual (por exemplo, na maneira como uma pessoa tende a pensar sobre o tempo), mas não determina inteiramente o pensamento dessas pessoas no sentido whorfiano forte.**»

Ou seja, em vez de contribuir para a ideia de língua como modelo mental pesado e definitivo, o trabalho destes neo-whorfianos aponta antes para a ideia de língua como modelo mental aberto a constante adaptação – adaptação essa, que pode ser muito rápida, a julgar pelo tempo que, na experiência descrita, os falantes de inglês demoram a aprender a utilizar com sucesso a orientação temporal vertical que não existe na sua língua [2] (“foram muito brevemente treinados”)!

Não quero ir longe demais nas minhas extrapolações, mas não se passará precisamente o mesmo com tudo o que se costuma designar como “cultura”?
___________

* Boroditsky, L., Schmidt, L.A., & Phillips, W. (2003). “Sex, Syntax, and Semantics”. in Gentner & Goldin-Meadow (Eds.,) Language in Mind: Advances in the study of Language and Thought. Cambridge, MA: MIT Press.
** Boroditsky, Lera (2001),“Does language shape thought? Mandarin and English speakers' conception of time”, Cognitive Psychology 43.
*** Winawer, Jonathan, Witthoft, Nathan, Frank, Michael C., Wu, Lisa, Wade, Alex R., Boroditsky, Lera (2007), “Russian blues reveal effects of language on color discrimination”. in PNAS, Vol. 104, No. 19. (8 May 2007), pp. 7780­-7785.
**** Numa entrevista em Philosophy Talk: “To me, it doesn’t make sense to say: “is is language that shapes thought?” or “is it culture that shapes thought?”, one is a part of the other.”
***** Gentner, D., Imai, M., & Boroditsky, L. (2002). “As time goes by: Evidence for two systems in processing space > time metaphors”. Language and Cognitive Processes, 17, 537-565, a que se pode aceder aqui.

[1] Há muito outros fenómenos, provavelmente muito menos relevantes para a verificação da hipótese whorfiana do que os que acabo de referir, que também são interessantes. Um exemplo: Boroditsky refere um facto conhecido de quem fala línguas com géneros diferentes dos da sua língua materna, mesmo que as fale bem: a tendência a referir objectos ou seres que são de um género diferente ou sem género na língua estrangeira com o pronome do género que eles têm na língua materna. Por exemplo, se eu estiver à procura da carteira e estiver, por isso, a pensar nela (em português), posso facilmente dizer a um interlocutor com quem fale francês que “je (ne) la trouve nulle part”, por muito que, posso garantir-vos, nunca me aconteça dizer *une porte-feuille (credo!...), quando falo francês. Ora o que é interessante é que o pensar em dinamarquês me predispõe (“primes me”, como se diz na literatura técnica em inglês) de uma maneira estranha para trocar os pronomes em português. Já o notei várias vezes: se estou, por exemplo a ouvir falar e a pensar em en cykel (“uma bicicleta”) em dinamarquês, vou dizer “Mas o sr. João já o arranjou?”. Quer dizer, “traduzo” por masculino o género que é “masculino+feminino” em dinamarquês? A única hipótese que encontro de explicação do fenómeno é que a palavra dinamarquesa cykel “vá buscar”, na minha mente, a palavra foneticamente mais próxima em português, ciclo, que é masculina. Mas seria preciso estudar a questão…

[2] De facto, a orientação num eixo vertical da metáfora temporal não está ausente de línguas como o inglês ou o português, apenas não se usa para localizar eventos no tempo. Mas é possível dizer em português, por exemplo, “as pessoas acima dos 60 anos” e a mesma construção existe em inglês.

01/10/09

Felicidade era a empregada do bar

Vivo longe dos meus melhores amigos e, por isso, encontro-me com eles só uma vez por ano, às vezes até só de dois em dois anos. Como creio que acontece a todos os amigos que não se vêem há muito tempo, eu e os meus amigos dedicamos sempre umas horas dos nossos reencontros a inteirar-nos da sorte de antigos amigos comuns com quem um de nós deixou de ter contacto (E o Amadeu, tens sabido dele?) e a recordar coisas por que passámos juntos, ena, há muitos anos (Lembras-te?). Agora, não sei se é um estado de espírito passageiro, provocado pela minha recente viagem a Portugal e pelas muitas horas passadas com os amigos a recordar tempos muito idos, ou se é antes alguma inclinação que vem com a idade, raios a partam!, mas o facto é que me tem dado para remexer em textos antigos e recordações. Para o que te havia de dar!..., dizem vocês, e o mesmo digo eu: para o que me havia de dar!…

O que é engraçado é que, quando começo a recordar, a solo ou à desgarrada com os amigos, as coisas que fiz há muito tempo, grande parte das vezes reconheço mal, ou chego até a desconhecer, a pessoa que as fez. Outras vezes, sim: reconheço-me naquela ou nesta acção ou gesto, neste ou naquele pensamento. E sorrio, não de encontrar no que senti e pensei diferenças relativamente ao que sinto e penso, mas de haver, apesar delas, poucas inalterações. É claro, discutir o que é que em nós permanece e o que é que em nós é perecível ultrapassa em muito a minha capacidade de perceber o mundo; mas sei que o pouco que liga o que somos ao que fomos é algo tão pessoal como transmissível, porque quem me reconhece numa fotografia de menino também reconhece nessa mesma fotografia excertos da minha filha mais nova.

E vejam lá agora ao que venho, depois de tanta circunlocução: Fui dar com um texto de juventude em que a pessoa que eu era nessa altura (perdoem-me a deselegância, é no que dá querer ser rigoroso na expressão…) escrevia assim:
Parte-se na maior parte das vezes do pressuposto – por quê, afinal? – de que a missão última das pessoas sobre a terra é, se não serem felizes, pelo menos procurarem a felicidade. Ora, para levar a cabo aquilo que é a missão fundamental de qualquer pessoa (transformar-se, perpetuar-se, reproduzir-se, morrer…), não há necessidade de felicidade nem da sua ausência – tanto faz...
Surpreendi-me: ao fim de tantos anos, vejam lá vocês, continuo a pensar basicamente o mesmo. Não poria hoje as coisas da mesma forma, porque a minha perspectiva era, naquela altura, muito diferente da que tenho agora. Não é que tenha deixado de me interessar em absoluto a especulação sobre o que não posso deixar de fazer, mas interessa-me mais discutir o que devo fazer e para quê – e como. E, embora com outra perspectiva, continuo a chegar à mesma conclusão prática, a de que a felicidade é algo com que não faz sentido preocupar-se. Além de exercício de vanidade, digo eu agora, a busca da felicidade é provavelmente um exercício vão:

Uma pessoa pode achar que cada um deve tratar antes mais de si próprio e querer ser feliz, sem mais. E pode achar que mais importante do que a sua felicidade é a felicidade alheia e atribuir, apesar disso, valor estratégico à sua própria felicidade na criação de mais felicidade. De facto, há muito quem pense que (ideia mais difundida do que bem defendida…) para fazer bem aos outros, uma pessoa tem de se sentir bem ela própria. OK., tudo isso é possível e não sou eu que me vou agora opor – que se queira ser feliz, está para mim muito bem… Mas alguém já conseguiu alguma vez demonstrar que é mais feliz uma pessoa que procure a felicidade?

Por que não aproveitar o tempo que se gasta a tentar ser feliz para ir fazendo coisas mais perenes do que a nossa vida e menos tão só nossas? Dito de outra maneira: Andar atrás da felicidade? Desculpe, mas tenho melhor que fazer…

P. S.: O seu a seu dono e uma sinistra interrogação...

O seu a seu dono: O título deste textinho, “Felicidade era a empregada do bar”, não é meu, é de uma pessoa que eu já não vejo há muito tempo, um rapaz de Barcarena chamado Carlos Pinhão (Lembram-se? Têm sabido dele?). Quando se falava de felicidade, ela dizia sempre isso. Acho que tinha mesmo conhecido uma rapariga chamada Felicidade que trabalhava num bar. E acho também que era a maneira que ele tinha de dizer que na felicidade não vale a pena pensar. Mas, se calhar, estou a distorcer-lhe a intenção para o pôr a dar-me razão…

Uma sinistra interrogação: Continuar a “chegar à mesma conclusão prática”, “embora com outra perspectiva”? Mas será então que a evolução do pensamento de uma pessoa é assim, arranjar outras maneiras de pensar o mesmo? Credo!!!…

24/09/09

A vida é assim:

Quando me sentei, reparei na guitarra encostada a uma cadeira num equilíbrio que me pareceu muito precário. Provavelmente, estava assim há muito tempo. Se tinha sido eu a pô-la ali – e era o mais provável –, devia estar assim desde antes das férias, há uns três meses. Primeiro, surpreendeu-me que se tivesse aguentado assim tanto tempo, tão vertical e praticamente sem apoio; mas, logo de seguida, acusei-me a mim próprio de irracionalidade: «Ora, se aqui não há vento, nem se exerce sobre ela força nenhuma, o equilíbrio não se altera – um segundo ou cem anos, que diferença faz?» Pois sim, mas a madeira trabalha, contrariei-me, é coisa viva, de maneira que era melhor não abusar da sorte, e levantei-me para dar um jeito na guitarra.

A vida é assim: Provavelmente, a guitarra estava ali em equilíbrio muito precário há já vários meses, mas só quando eu resolvi dar-lhe um jeito, não fosse o diabo tecê-las, e mesmo, mesmo antes de eu lhe tocar, é que ela caiu. E estragou-se um bocado.

13/09/09

A consciência tranquila

“... mas olhe, chego ao fim do dia e adormeço com a consciência tranquila.”

A consciência tranquila! Todos sabemos pouco mais ou menos aonde se quer chegar com a expressão e não nos metemos a dissecá-la: Adormece com a consciência tranquila, pois, e ainda bem... Agora eu, que tenho meu feitio, que sou dado a picuinhices, a puxar por qualquer ponta que apanhe mais desfiada na conversa, digo que a consciência tranquila, bem vistas as coisas, é uma contradição em termos, uma impossibilidade por definição.

Saber o que fizemos e o que os outros fizeram, o que vamos fazendo e o que os outros vão fazendo e, ainda assim, não desassossegar? Como se não houvesse problema de maior, como se o mal feito se resumisse, sei lá, a uma canelada, quase sem querer, num jogo de futebol de infância, há já tanto tempo…, ou a um fechar de olhos à gritaria do vizinho com a mulher, que provavelmente não passaria da boca às mãos, ou passaria?; como se não houvesse problema de maior, como se não houvesse sofrimentos com razões horrendas de ser, ou então que esses sofrimentos não fossem problema nosso…; e como se não houvesse, ainda por cima, milhares de perguntas irrespondíveis, tão irritantes!, constantemente a fazerem-nos moquencos… Por exemplo: “E a consciência, de ti e dos outros, o que é isso, de onde te vem? E para que serve, já agora? Só para a dares por tranquila para não te faltar o sono?”

Vou repetir-me, com a vossa licença: A consciência tranquila não há. A consciência, para dizer as coisas com rigor, é sempre lugar de desassossego; e a tranquilidade, essa, só a inconsciência é que a dá.

20/06/09

Prova do tempo que passa

Já não me lembro por quê, fui no outro dia parar a um site chamado Sticky comics e a uma página em que o seu autor, um rapaz chamado Christian, lista 4 coisas que os nossos netos nunca compreenderão: relógios não digitais, escrita à mão, cassetes de vídeo e jornais impressos.

Não é discutir o valor de verdade das propostas do tal Christian que me interessa, mas notar apenas que o jogo que ele propõe é, além de fácil e inesgotável, também muito agradável para toda a gente. A minha experiência, pelo menos, diz-me que não há quem, por menos passadista que se diga, não dê consigo de vez em quando a jogar alguma variante desse jogo. Hoje, vejam lá vocês, pus-me a pensar que já não há copos de dois nem de três, nem tintinhos nem branquinhos com mistura, e que a expressão “É do lote ou do especial?” não faz mais sentido para os meus filhos do que para os netos do Christian dos Sticky comics, que é norte-americano…

Como os pensamentos são como as cerejas, lembrei-me (do que eu me vou às vezes lembrar…) de um poema que escrevi em Outubro de 1986, com 27 anos, portanto, e em que fazia já uma lista de tudo o que, da minha infância e adolescência, tinha passado à história. E já era muita coisa nessa altura… O texto não tem interesse literário, mas, quando o reli hoje, achei-o com valor documental suficiente para o pôr aqui. Dediquei o poema, quando o escrevi, ao meu irmão João, e, claro, continua a ser essa a dedicatória principal, mas acrescento-lhe agora, ao torná-lo público, uma dedicatória suplementar: a quem nunca tenha conhecido a Rinchoa, as Mercês, Rio de Mouro e redondezas de outra maneira que não seja como esses antros de desolação que hoje são.

Rinchoa revisitada (Quem me viste e quem me vês…)

ao João, que é meu irmão

‘Inda havia à porta o peixe,
o leite e a carroça do azeiteiro.
Havia ainda a aldeia,
a minha terra pequenina,
quase ainda de patilhas
e coletes
e barretes
e de burro
e de faixa enrolada à cintura,
quase assim ainda saloia,
como a pintara o mestre Leal da Câmara,
a cheirar a eucalipto
e carne frita às Mercês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Lá p’ra baixo havia o Monte.
‘Inda havia tamareiras
e as grutas e a pedreira,
sobranceira a vacaria
à calçada ainda estreita.
Mais acima, ‘inda o casino,
com cinema e com bilhares
e gabava-lhe os bons ares
o v’raneante burguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Havia ainda o mercado,
a praça, que se dizia,
embora com o desacordo
do painel de azulejos
que anunciava, soberbo,
“Centro Comercial da Rinchoa – 1949”,
a leitaria da Adelaide,
Sagres e amendoins,
a mercearia do Nina,
que de tão gordo já mal
cabia atrás do balcão
e que aviava, ‘inda assim,
mais tinto do que feijão
e que era ademais o dono
do bailarico saloio
da noite benta de sábado
ao som do acordeão.
Ainda havia o sapateiro,
pachorrento como as botas de carneira
a que remendava meias solas.
E havia o Mário merceeiro
a escarafunchar, o sem vergonha,
o narigão encarnado
enquanto roubava no peso do flamengo
mesmo no nariz do freguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ainda havia
o Manel do jardineiro
e o ti’ Chico pedreiro
e outro Chico, o popó,
cavalo malandro,
filho da escola,
que tinha ensinado o carro
a subir sozinho a Avenida dos Carvalhos
até ao parque infantil
(ainda havia…)
e depois a meter p’la esquerda,
pela Avenida dos Plátanos,
e por fim, chegado a casa,
a pegar no gajo ao colo
e pespegá-lo na cama
à espera que aquilo lhe passasse,
o camano da bubadeira.
E depois havia a malta,
bicicletas pasteleiras,
o futebol de praceta,
mais as festas de garagem,
a nocturna guitarrada,
o namorico, a chinchada,
e claro, como soía,
a guedelha e os porquês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Um dia, de manhãzinha,
começaram a deitar árvores abaixo
e iam crescendo prédios
onde elas iam caindo.
Foi assim em toda a linha.
Lá por trás de Fitares,
do outro lado do rio
e da linha do Oeste,
fizeram a Icesa à prova de sismo.
Chama-se hoje Mira-Sintra.
Mais p’ra baixo,
Massamá passado,
fizeram a Icosal.
Hoje é Queluz Ocidental.
A minha terra pequenina
viu arrasar vacaria e tamareiras
e passou do pé p’rà mão
a chamar-se Urbanil.
Chegavam agora cada vez mais comboios
ao pequeno apeadeiro
e traziam de cada vez
mais e mais gente.
O casino de veraneio
foi fábrica de sapatos
e depois tipografia.
Morreu o Mário da mercearia,
fechou a Adelaide a leitaria,
a praça desapareceu,
o Nina gordo morreu.
E a aldeia que fora
a minha aldeia era agora
história de era uma vez,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ruíram casas burguesas,
quintal ajardinado, pérgula,
caruma acumulada sobre a telha,
a fachada enfeitada de hera
e de madeira vermelha,
não deram mais sinal de vida
as madamas que houvera.
Passou a minha terra pequenina
a dormir de luz acesa.
O peixe que houvera à porta
quase apodrece de tédio
na arca do supermercado.
O leite da bilha de lata
deu em homogeneizado
e ultrapasteurizado.
A terra, que era sem lei,
viu chegar a chotaria
com os nocturnos pela trela.
E o Lopes, que morava
num anexo de vivenda,
ao pé do pinhal do Escoto,
mora agora num andar,
primeiro, lote bê três,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Abençoado o que já não és,
minha terra pequenina
e maldito três mil vezes
na quinta casa do Inferno
quem te foi tirando
aquela graça que tinhas
de seres a minha aldeia,
danado seja aos mais horríveis suplícios
quem te foi fazendo feia,
tu que eras linda, menina,
maldito quem te vestiu
de alumínio e de betão,
quem te arrancou os pinhais
e fez secarem-te as fontes,
maldito seja e danado
à eterna perdição!

E porque não, já agora,
‘maldiçoado eu também,
a armar em saudosista,
ao bom estilo português?

Ah, Rinchoa pequenina,
quem me viste
e quem me vês…

Intermezzo lírico

Deixem-me falar só um bocadinho de mim (para o que me havia de dar…):

Sou em tudo um homem vulgar da minha geração, da minha classe, da minha parte do mundo. O único que há de invulgar em mim é que não sei nadar, não sei conduzir e tinha 2 molares supranumerários, isto é, teria 34 dentes no total, se não tivesse arrancado nenhum.

No geral, tenho tido sorte na vida. Nunca parti nenhum osso, por exemplo. Nem nunca desmaiei. A única forma que conheço de perder a consciência é adormecer. Se tudo assim continuar – e não morrer a dormir… – a morte há-de, pois, trazer-me uma experiência nova, a da perda súbita de consciência…

18/06/09

Cores abstractas e cores concretas: as palavras negro e preto

Acho que a maior parte das pessoas concordará comigo se eu afirmar que, em português europeu moderno, preto é o termo com uma conotação racista para referir as pessoas de tipo físico africano e negro o termo neutro.

A questão é, obviamente, complexa, e nada impede que negro figure em enunciados racistas e que preto seja usado em enunciados não racistas. A escolha das palavras não resume só por si uma atitude mental e comportamental como o racismo. Mas pode integrá-la… e integra-a quase sempre. E é porque a integra quase sempre que é possível afirmar com um relativo à-vontade o que eu afirmo no primeiro parágrafo. Todos sabemos que as pessoas de tipo físico africano não são, actualmente, referidas como pretos em documentos legais, nem em textos escolares, nem em discursos oficiais – em enunciados, em suma, que se assumam como não-racistas; e ninguém viu nunca inscrições racistas de skinheads ou quejandos em que se apele à “morte aos negros”…

Até aqui, tudo muito bem, mas por que é que assim é? Qual é a diferença real de significado entre as palavras negro e preto que possa explicar essas particularidades do seu uso? Há já muitos anos, fiz uma mini-investigação para tentar responder a estas perguntas. E se havia de ficar a apodrecer o texto que dela resultou numa gaveta digital do meu computador, sem ninguém que o lesse, por que não limpá-lo um bocadinho para o tornar mais digerível e apresentá-lo aqui na Travessa?

Para começar, talvez seja boa ideia dizer de onde vêm as palavras. Ambos os termos são de origem latina, negro de nigru- e preto de pressus, palavras que significam ambas, originalmente, “de tez escura”. Tanto negro como preto surgem muito cedo na língua: ambos os adjectivos estão atestados já no séc. XIII, e os nomes no séc. XV. Curiosamente, o termo mais comum do latim clássico para dizer a cor negra, que é ater, praticamente desapareceu. A palavra portuguesa atro, que dele deriva, é extremamente rara. Lembro-me de que foi num poema de Alexandre O’Neill, “O atro abismo”, que a vi pela primeira vez e tive de ir procurá-la no dicionário: “Atro?” (O meu corrector ortográfico, por exemplo, não a conhece…)

Feita a apresentação das palavras, vejamos como se comportam os adjectivos preto e negro no português europeu actual, que é só o que eu me proponho analisar. Começo pelo uso como adjectivo, porque é desse que deriva o outro, e não ao invés. A primeira constatação que fazemos, se deixarmos de lado expressões recentemente importadas do português do Brasil como “A coisa/a situação está preta”, é que preto não pode ocorrer com nomes abstractos, ao contrário de negro: não se diz magia preta, nem humor preto, nem literatura preta e fantástica… Nada impede, no entanto, que negro ocorra com nomes concretos: pode perfeitamente dizer-se cavalo negro, olhos negros ou roupa negra. Aparentemente, estamos perante aquilo a que alguns linguistas chamam uma oposição entre uma forma marcada, preto, e uma forma não marcada, negro, que é como quem diz que todo o preto é negro, mas nem todo o negro é preto.

Note-se, no entanto, que, no actual português europeu oral, a tendência é encontrarem-se os dois termos em (mais um palavrão linguístico…) distribuição complementar, isto é, ocorrendo um no contexto em que o outro não ocorre. De facto, negro tem uma muito forte tendência a aparecer apenas com nomes abstractos, sendo deixado para preto o espaço do concreto. Não é sempre, sempre assim, mas a tendência acentua-se cada vez mais. Tinha a sorte de ter, na altura em que fiz esta pequena pesquisa, uma colega de trabalho, Anabela Carvalho, que tinha feito uma tese de mestrado precisamente sobre nomes de cores. Além de ter feito comentários muitos pertinentes à primeira versão do meu texto, facilitou-me dados fundamentais sobre as palavras negro e preto, um dos quais confirma claramente o que acabo de afirmar: num corpus de 700 000 palavras que Anabela Carvalho recolheu em artigos sobre moda (portanto, no domínio do concreto, já que é exclusivamente de cores de roupa que se trata), negro ocorre 140 vezes e preto 1237.

Para reforçar esta ideia, posso fazer outra constatação: só negro parece poder aparecer antes do nome. Todos conhecemos uma canção que fala de uma negra madeixa ao vento, mas é-nos difícil imaginar alguém escrever um verso sobre uma preta madeixa ao vento; não nos choca que traduzam por Negros hábitos o título do filme Entre Tinieblas de Almodóvar, mas acharíamos muito estranho se o tradutor lhe tivesse chamado Pretos hábitos, ou não? Não me quero adiantar muito na questão, que dá pano para mangas, mas pode dizer-se que a anteposição do adjectivo, tradicionalmente considerada “uso afectivo” ou “poético” e frequente em textos literários, sobretudo líricos, é uma “não qualificação”. Para explicar o que quero dizer com isto, um exemplo simples: é claro que uma antiga capela não é “uma capela que é antiga”; aliás, nem sequer é uma capela... Dito doutra maneira, o adjectivo não vem acrescentar nada ao nome, mas apenas formar com ele um bloco que é um novo conceito. É provavelmente por essa razão que os adjectivos passíveis de serem usados em contextos abstractos se podem antepor muito mais facilmente ao nome (fazendo mais do que qualificá-los, mas não me adianto mais nessa discussão…): Está bem uma mesa comprida, mas uma comprida mesa é muito esquisito. Já com longo aceitamos melhor tanto cabelos longos como longos cabelos, mas é precisamente porque longo se usa bem com coisas abstractas como em longa agonia, por exemplo. No domínio da propriedade cor, que é uma propriedade apenas concreta, parece-nos óbvio que só se pode dizer um livro vermelho / azul / verde e nunca, nem para fazer estilo, um vermelho / azul / verde / livro.

E onde eu quero chegar com isto tudo é que preto se porta essencialmente como vermelho, azul, verde, etc.: é uma cor, pronto, ponto; e negro porta-se antes como fulvo, rubro, alvo, etc.: não é apenas uma cor enquanto propriedade concreta da matéria.

A reflexão é só esta. É só esta e não tenho a certeza de que ajude a perceber o uso de negro e preto como nomes. Não tenho nenhuma certeza, mas tenho uma possibilidade. É uma possibilidade que peca provavelmente por demasiado metafísica, mas, ainda assim, deixo-vo-la aqui, para me dizerem o que pensam: não será precisamente porque refere a propriedade objectiva cor que preto é usado como palavra racista? Por outras palavras, não é isso precisamente o próprio do racismo enquanto ideologia, fazer de puros indicadores físicos, como a pigmentação da pele – a cor –, pretensas marcas de inferioridade?

De cafres e Cafraria, rigor, ofensas e lexicologia

Recebi uma carta sobre a entrada aringa do meu glossário de Moçambicanismos em que uma pessoa, que aqui designarei por Vítor para facilitar o discurso, dizia que eu talvez não tivesse visto no dicionário Houaiss que a palavra é de origem cafre. Fiquei um bocado surpreendido com esta carta, que eu não compreendi bem aonde queria chegar, e respondi-lhe assim (modifico ligeiramente os textos, para tornar mais fluente o discurso):
Pelo que me diz, então, o Houaiss propõe, para a origem de aringa, o mesmo que o dicionário Porto Editora, que, como eu refiro na entrada do glossário, também propõe uma etimologia «cafreal». Cafre ou cafreal designa uma hipotética língua do povo de uma região designada como Cafraria. Ora, nos textos antigos, o termo Cafraria refere uma região muito extensa que se poderia definir como a parte conhecida pelos europeus da África Austral. Sendo assim, não é correcto falar de um povo «cafre», mas cafre designa antes, nesses textos, todos os habitantes da região, bantos ou san. É aquilo a que se poderia chamar uma amálgama étnica, talvez natural quando era tão pequeno o conhecimento desses povos por parte dos europeus, mas que não resolve o problema da origem «cafre» de nenhuma palavra, porque não há uma língua «cafre» . É muito provável, de facto, que aringa venha de uma língua da África Austral. Mas de qual?
Além disso, é de referir que as palavras cafre e cafreal começaram depois a usar-se para definir não só os povos da África Austral, mas “os negros” em geral. A palavra ganhou, entretanto, conotações claramente negativas, e mesmo racistas, e é hoje de muito mau tom empregá-la para referir alguém ou algum povo. Um dicionário moderno que, por qualquer motivo, queira usar a palavra, devia obviamente assinalar-lhe claramente o carácter historicamente marcado e ofensivo no português moderno.
Vítor não se convenceu muito com a minha resposta. Pediu a opinião de mais algumas pessoas com conhecimentos sobre a região, que me deram razão na recusa do uso de cafre e de Cafraria para designar, num dicionário, fosse lá o que fosse. Entretanto a troca de correspondência foi feita de tal forma que eu cheguei a temer que alguém pensasse que eram minhas as palavras dos dicionários Porto Editora ou Houaiss. Apressei-me a acrescentar ao meu glossário uma advertência, em topo de página, de que “só as minhas definições e propostas etimológicas é que são… minhas”, explicando que o facto de citar um dicionário não significava forçosamente que estava de acordo com o que ele propunha...

Vítor insistiu, interrogando-se se os dicionários seriam racistas e os livros também? Porque, dizia Vítor, já tinha visto a palavra cafreal em muitos textos e não sabia que era ofensiva. Respondi-lhe assim:
Quanto a os dicionários serem racistas, não sei se é a maneira certa de o dizer, mas pode, sem dúvida, afirmar-se que há coisas em muitos dicionários que podem ser consideradas racistas. Penso que o problema é que os dicionários não são suficientemente revistos e as entradas passam simplesmente, sem alteração, de uma edição para a seguinte. Um exemplo simples: o meu dicionário Porto Editora, de 2004, já define catinga como “suor malcheiroso”, mas lembro-me que a edição anterior que eu tinha, que não era muito antiga, de 2000, se não estou em erro, ainda definia catinga como “cheiro desagradável dos negros”, ou algo assim semelhante. Só para que veja...
O problema era também, insistia eu, que, ao contrário de outras palavras cujo uso é hoje desaconselhado, como esquimó, as palavras cafre e cafreal não definem povo nenhum, nem língua nenhuma, pelo que nos deixam na mesma, e que os dicionários, independentemente de terem ou não expressões racistas, têm às vezes falta de rigor.

Mas era óbvio que a minha insistência continuava a não convencer Vítor, que me respondeu mais uma vez. E tinha toda a razão no que dizia e na dúvida que levantava: Os dicionários, dizia Vítor, não fazem senão dar conta de como as pessoas utilizam as palavras, de forma racista ou não. É claro que ninguém pode processar os autores dos dicionários por neles incluírem palavras que certas pessoas considerem ofensivas. Ou devem essas palavras ser banidas dos dicionários para eles passarem a ser politicamente correctos?

Dava-me depois o exemplo da entrada cafre num dicionário (não sei qual é, mas isso é irrelevante, porque é precisamente uma entrada deste tipo quem têm muitos dicionários, mesmo respeitados):

cafre adj. 2 gén. s. 2 gén. 1. Diz-se das populações não muçulmanas que habitam a África Meridional. s.m. 2. Língua da Cafraria. 3. Fig. Homem rude, bárbaro, selvagem.

Além disso, para Vítor, só o significado figurativo 3 seria ofensivo, pelo que não haveria problema em utilizar a palavra, contanto que se a não a utilizasse com esse sentido.

Bom, eu sou o primeiro a defender que não se devem fazer desaparecer as coisas só porque significam (ou representam de qualquer outra forma) algo que, em determinado período histórico, maioritariamente se considera que foi ou é mau. Mesmo que essa tendência de opinião se mantenha para sempre, não há razão para não conservar a memória de um mal. Aliás, quanto mais terrível nos parecer esse mal, mais razões há para preservar a sua memória. É evidente que a palavra cafre, de triste memória, deve figurar nos dicionários que se pretendam completos, como qualquer outra palavra antiga, e independentemente das suas conotações sociais e políticas. O dicionário deve simplesmente dar conta dos seus significados, para que quem a não conheça possa saber o que ela quer dizer. No entanto, e apesar de defender que os dicionários devem conservar palavras como cafre, não posso de modo algum concordar que o façam como fazem. A resposta que dei a Vítor dá bem conta da minha posição sobre o assunto:
Longe de mim propor que a palavra cafre desapareça do dicionário; o que é preciso é melhorar a entrada cafre na maior parte, se não na totalidade, dos dicionários. O que eu critico é a falta de rigor. Uma entrada como a que nos mostra é um bom exemplo de falta de rigor: falta a referência ao carácter histórico da palavra (já não se usa, pelo que, simplesmente, devia ser marcada Histórico); falta a referência à evolução semântica da palavra (passou a designar todos os negros, muçulmanos ou não, da África Austral ou não); falta a informação sobre a conotação pejorativa no português moderno, sobretudo no século XX, até deixar de ser usada (devia ser marcada pelo menos como Ofensiva); diz que é uma língua de uma pretensa Cafraria, que não existe nem nunca existiu – havia e há dezenas de línguas na África Meridional (esta parte devia pura e simplesmente ser retirada, é uma mentira); e depois dá como sentido figurado o que não é senão o sentido primeiro durante um determinado período histórico.
Contraste-se com a entrada kaffir do Oxford Concise e veja-se a enorme diferença (tendo em conta que a palavra kaffir é provavelmente mais recente em inglês do que cafre é em português):
Kaffir n. 1 a hist. a member of the Xhosa-speaking peoples of S. Africa. b the language of these peoples. 2 S.Afr. offens. any black African (now an actionable insult). [originally = a non-Muslim: Arabic kafir ‘infidel’ from kafara ‘not believe’]
Eu já não peço senão o rigor do Concise Oxford.
Quanto a poder utilizar-se hoje a palavra sem a utilizar num sentido depreciativo, o que eu não dizia nessa carta a Vítor, mas que digo agora, é que ela ter ou não um sentido depreciativo não depende das intenções de quem a usa! Por isso, não, não se deve usar a palavra, a não ser referindo o discurso de outrem: “As populações costeiras que o padre Boym designa por cafres são, na realidade, etc., etc.”….” Aliás, tirando esse uso, vê-se mal que utilidade possa hoje ter uma palavra assim. Para referir quem?

E pronto, o final da história é que acabei por decidir fazer uma entrada cafre no meu glossário de moçambicanismos, que diz assim:
cafre n. e adj., cafreal adj. Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”)
A história das palavras cafre e cafreal é complexa. O termo cafre foi usado desde muito cedo, amalgamando os povos nativos da zona. A palavra foi adquirindo conotações muito racistas e muito ofensivas e, ainda durante o período colonial, o seu uso foi desaparecendo. Muitos dicionários assumem que a palavra designa de facto uma etnia e a sua língua, o que não é correcto. Curiosamente, hoje em dia, há uma expressão em que, na minha experiência, essa conotação não se mantém, talvez porque se tenha já perdido a consciência da sua origem: galinha à cafreal. Lopes, Sitoe e Nhamuende, na sua obra Moçambicanismos dizem o mesmo: “Apesar do contexto em que começou a ser utilizado, o termo cafreal na expressão galinha à cafreal, há muito utilizada, não tem tonalidades semânticas depreciativas; significa, sobretudo, o modo local de preparação da ave e o tipo de temperos usados, em particular o piripiri”.
Está melhor assim do que na maior parte dos dicionários, não está?

08/06/09

A Música Negra de Belo Marques

Uma coisa que fiz várias vezes na minha vida foi discutir com textos de tempos passados em que os europeus falam de povos de outros lugares. E eis três conclusões a que cheguei: não serve de nada tentarmos dialogar com esses textos como dialogamos com um discurso nosso contemporâneo – não há maneira de ver o mundo que não seja definitivamente determinada pelo tempo histórico a que pertence e a única razão pela qual não se pode dizer “eu também seria assim, se tivesse nascido 60 anos antes” é que ninguém seria a mesma pessoa se tivesse nascido 60 anos antes…; a consciência da historicidade de qualquer texto não nos deve impedir de fazer notar no texto o que, aos olhos de alguém de hoje, ele tem de incoerências ou de traços de um imaginário ou de uma ideologia que não nos parece agora aceitável; mas não é porque num texto se revelam os inevitáveis traços da etnocentrismo que são marcas de outra época que ele deixa forçosamente de ser progressista.



















E a propósito de quê, tudo isto? De um livro que acabo de ler. Chama-se Música Negra, Estudos do Folclore Tonga (Divisão de Publicações e Biblioteca, Agência Geral das Colónias. Lisboa: Editorial Ática, 1943) e foi escrito pelo maestro José Belo Marques, que todos conhecem, pelo menos como autor de “[Quem passa por] Alcobaça”. O maestro tinha 40 anos quando, em 1938, se meteu a fazer um estudo da música do Sul de Moçambique.

O livro é bastante sedutor. É claro, uma boa parte dele são transcrições das canções recolhidas, e quem, como eu, não saiba ler música, tem de saltar, assim, por cima de metade da obra... Mas fica-lhe ainda muita e agradável leitura. Belo Marques é um verdadeiro romântico e é a sinceridade do seu romantismo a primeira coisa a fascinar-nos: há uma verdade essencial na alma dos povos, de que a música é a expressão mais imediata e verdadeira. Dito desta maneira, parece um pouco vago demais, desculpa-se ele várias vezes, mas quem o sentiu sabe que é assim.

Homem do seu tempo que é, Belo Marques não pode deixar de ver na “pureza” do negro a razão da sua pujança artística – o negro é espontâneo, bruto e bom, e um artista natural. Que se lhe civilize a alma, e eis que lhe desaparecem as suas qualidades:
**O observador que viva algum tempo no interior da selva, ainda pode descortinar alguma coisa da [música e da vida do negro]. Porém, vai sentindo um certo esbatido na verdade, à proporção que se vai afastando do mato e aproximando da civilização. Este facto, no que respeita à música, é de uma sensaboria flagrante. Procurámos por êsse motivo afastar-nos o mais possível das Missões estrangeiras, sobretudo das americanas, onde nos parece que se devia incutir no preto o gôsto pela sua arte e pela sua toada e não ensinar-lhe uma música que não se sabe de que raça é, sem vigor e sem beleza, que o preto canta com o mesmo sacrifício com que um doente toma uma receita.
O livro divide-se em 16 estudos, onde se sucedem, sem ordem nem lógica especial, a recolha musical propriamente dita, reflexões antropológicas e considerações estéticas. O livro Música negra é, assim, várias coisas, mas talvez se possa dizer que é sobretudo um apelo. Não exactamente a etnomusicólogos, mas antes a compositores! Um apelo ao abandono de tudo o que é cerebral e ao retorno a uma verdade sentida, mais ancestral – e mais universal! Saber muito de música não basta, porque a inspiração não se aprende nas escolas nem nas salas de concertos de Paris e Londres, e Belo Marques e muitos outros compositores ainda não descobriram “em qual expresso se embarca para o país dos iluminados…”
**Por esse motivo é de aconselhar, aos compositores, um embarque até à nossa África. Talvez, quem sabe?... É uma tentativa. O músico negro não fêz da sua arte uma profissão; a sua música, as suas melodias nasceram de um rasgo de sinceridade. Tudo ali se encontra: desde o sonho dôce de uma alma infantil, até ao grito sólido da brutalidade.
**Abrir o coração e sentir lá dentro tôda essa melodia calma da floresta; abrir o peito e deixar entrar o forte odor de uma natureza virgem… Talvez… Quem sabe?
Não sentir este baralhar constante dos nossos sentimentos entre a pureza e vaidade, nesta luta onde mistura tudo, numa ânsia de superioridade. O compositor, sobretudo, necessita fugir ao trabalho por encomenda e a prazo.
**Se encomendarmos a um compositor pagão um «Sanctus» ou um «Kyrie», é o mesmo que dispôr uma planta de grandes raízes num pequeno vaso; definha e, por fim, seca. Até a mais ligeira canção só pode nascer de um estado de espírito especial e, como um tremor de terra, nunca se sabe quando esse momento surge.
José Belo Marques gosta da música moçambicana e acredita nela. Ele pensa que é possível “uma análise verdadeira [dessa música,] aproveitando alguma coisa de novo que possa por ventura vir a ampliar os nossos conceitos sinfónicos e as nossas partituras.” Não diz abertamente, mas quase, que quer ver surgir os Grant Still e os Gershwin portugueses:
**Ao negro da América do Norte deve esse país uma transformação profunda da sua música. Já António Dvorak dizia que a música negra viria a dar a base a uma nova escola musical. (…) Os compositores portugueses têm ali, na nossa África, uma fonte inesgotável de inspiração; e todos esses cantares bárbaros, esses temas exóticos mas puros, podem abrir as portas a elevadas sinfonias, podendo ser enaltecidos pela riqueza dos nossos instrumentos e a nossa civilização.
O que é também interessante no texto de Belo Marques é que coexiste com a imagem do selvagem infantil e puro, e com uma consciência dramática de um abismo cultural entre “o branco” e “o negro”, um surpreendente universalismo humanista. E a certeza de que África tem algo importante a dar ao mundo:
**No século XX, êste século em que tudo se produz em série, eu prefiro, em vez de me embrenhar nessas partituras cerebrais, estudar a música do negro e a sua harmonia. Mas, afinal, a harmonia negra não existe. Não há harmonia negra nem branca. A harmonia é tôda da mesma côr, de minuto a minuto rejuvenescida. E, para êsse rejuvenescimento, creia o leitor, que muito há-de contribuir, para o futuro, a música negra.
É claro, podemos interrogar-nos: será a música o símbolo dessa igualdade fundamental entre todos os homens e todas as culturas, ou é só na música que essa igualdade se aplica? Para um músico, porém, o que é que, mais do que a música, pode ser expressão fundamental de Humanidade? Afirma Belo Marques: “Arvey e Grant Still dizem que a música negra, quando ganha os corações, não os larga mais”. O dele, obviamente, nunca mais a música negra o largou. Diz-me a minha amiga Guiomar, neta de Belo Marques, que ele compôs uma peça chamada Fantasia Negra, que foi tocada em público uma única vez. A Guiomar está convencida de que a Fantasia Negra é a grande obra do maestro; e nem ela, nem praticamente ninguém, a ouviu… Lembramos Belo Marques pela sua “Alcobaça”, mas não era, com certeza, por “Alcobaça” que ele gostaria de ser lembrado.

Só para uma coisa eu gostava de ter um blogue muito lido, influente, poderoso: para fazer lobbying. Neste caso, por uma gravação da Fantasia Negra de Belo Marques. Como será a música negra do maestro?

02/06/09

Tomar em mãos a sua vida: claro!, ma non troppo…

Estive a reler uma série de textos que tinha sobre uma das questões mais importantes que, creio eu, se coloca a qualquer pessoa: até que ponto mandamos na nossa vida e até que ponto manda ela em nós? A quase totalidade desses textos constituía a minha contribuição para uma longa discussão epistolar que tive com um amigo meu, há cerca de 10 anos. Como não sou capaz de reler sem refazer, saiu dos textos antigos um texto novo, que decidi que ficava bem aqui na Travessa… É um texto que, partindo da discussão de como se equilibram capacidade de controlo e acasos, acaba por pretender discutir sobretudo quais os eventuais efeitos nefastos da obsessão voluntarista[1].

Estou convencido de que é natural e louvável as pessoas quererem controlar a sua vida. Bem vistas as coisas, o ideal de todas as pessoas que, como eu, querem contribuir para um mundo com menos sofrimento e mais justiça é, precisamente, que possa ter maior capacidade de controlo da sua vida quem actualmente a não tem. A atitude que se situa no extremo oposto da defesa do controle a sua própria vida é a passividade fatalista e, essa, recuso-a completamente, tanto do ponto de vista da análise do mundo – porque acredito que o mundo pode ser mudado –, como do ponto de vista ético – porque acredito o mundo deve ser mudado.

Creio, porém, que só temos capacidade de controlo até certo ponto – até ao ponto em que os acasos interferem. Para mim, o que impede o exercício efectivo do livre arbítrio não é nenhum deus nem nenhuma outra força cósmica imutável, mas sim a presença demoníaca e constante de acidentes que não estavam escritos em nenhum livro do destino, que nenhuma teoria que pense o mundo em termos de relações de causalidade pode prever, que nenhum conhecimento oculto e sobrenatural pode antever – acasos de facto.

Como se define acaso? A questão é complexa, sobretudo para um materialista duro como eu, que acredita que cada estado de coisas é determinado pelos estados de coisas anteriores. A melhor definição que encontrei até hoje para acaso é “cruzamento de duas cadeias de causalidade independentes”. Não tenho a certeza de ser uma boa definição, mas não me parece que seja muito necessária uma definição mais rigorosa para se poder discutir a questão. Acasos, acidentes, todos sabemos o que são: aquilo que nós não controlamos.

A consciência da importância dos acasos não me obceca ao ponto de os considerar o maior obstáculo à capacidade de controlo de cada um. É fundamental, quando se tenta determinar o alcance possível da capacidade de controlo de cada um, sair da esfera do “indivíduo perante o universo” para entrar na esfera do “indivíduo perante os outros”, que não é menos importante (para mim, moralista que sou, é mais importante…). A principal razão de falta de capacidade de controlo de alguns é o excesso de capacidade de controlo dos outros. Tem mais capacidade de controlo da sua vida quem tem mais poder. E se, em termos morais, é desejável que o poder seja igualmente distribuído por todos, a justiça na distribuição do poder não leva a uma maior capacidade de controlo das suas vidas por parte de todos os seres humanos. Para que alguns tenham mais capacidade de controlo, outro terão menos. Por exemplo: muitos homens europeus invejam uma parte da qualidade de vida dos homens do chamado terceiro mundo – a parte que está relacionada com a sua capacidade de decidirem mais sobre o que fazem da vida... porque as mulheres decidem menos sobre a vida delas!... Para mim, então, por muito que se deva investir na maior capacidade de controlo das pessoas das suas próprias vidas, o ideal último não é que toda a gente mande o mais possível na sua própria vida, pelo menos no que diz respeito a questões de ordem “baixamente” material em que é o poder dos outros que constitui entrave a essa capacidade de controlo, mas antes fazer com que os poderes se equilibrem, de maneira que haja mais espaço para as decisões de cada um poderem tornar-se um limite às decisões dos outros.

No entanto, e isto é um dos aspectos mais curiosos desta discussão do papel da vontade (decisão, controle) versus o papel dos acasos (incontrolado, acidentes) na vida humana é que, mesmo em situações em que não é a capacidade de controlo de uns a limitar directamente a capacidade de controlo dos outros, toda a vontade se torna, em última análise, acaso também! Se eu decido candidatar-me a um determinado trabalho, por exemplo, estou, pela minha vontade, a desencadear acasos. Como a vontade de todos os outros não é previsível nem controlável, ela torna-se para cada um de nós (pelo menos potencialmente) um acaso. A minha acção vai transformar-se em mais um acidente disponível, digamos assim, para todos os outros. No exemplo que dei, a minha presença vai constituir um acaso para as outras pessoas que se candidatam ao mesmo lugar.

Fundamentalmente, não controlamos o que somos, o que sentimos, o que nos acontece ou o que acontece em nós – apenas o que fazemos… e nem sempre! Não sei se, na vida das pessoas em geral, predominam estados e acontecimentos incontrolados ou acções controladas. Mas estou convencido de que é esta última categoria de estados e acontecimentos incontrolados que é a mais marcante para a grande maioria das pessoas. Estou a falar principalmente daquilo que se é – a nossa carga genética e a nossa cultura, esses alicerces de nós que não escolhemos – e daquilo que se sente – os gostos, as inclinações, os ódios, as simpatias e antipatias, as paixões… sobretudo as paixões…

Mas então, onde chegamos? A nada que não seja relativamente trivial. Que devemos tentar controlar a nossa vida para nos livrarmos de doenças sexualmente transmissíveis e desastres de automóvel, com certeza que sim. Que se deve dar a quem não manda em nada na sua vida a possibilidade de decidir, como os que lhe ficam acima, que vida gostaria de ter, pois também sem dúvida. Agora: já disse que não acredito que se possa mandar sempre na vida, mas acredito ou não que, na medida do possível, se deve sempre tentar fazê‑lo? Sempre não. É por isso que este texto tem o título que tem. Espero que a parte seguinte da discussão seja menos trivial do que o que fica para trás: O que se deve ou não querer controlar? Dito de outra maneira, o que é que de negativo pode vir a cada um e aos seus próximos da ânsia de demasiado controlo?

Na minha opinião, um dos possíveis efeitos negativos de um voluntarismo radical é a ideologia do herói e a desvalorização da impotência. Se levamos a concepção voluntarista da vida às suas últimas consequências, podemos até aceitar, como fazem algumas pessoas, que toda a gente é responsável até do que sofre, daquilo de que é vítima. Porque não tem a força de vontade suficiente para se revoltar, para lutar pela sua liberdade… Estamos em plena ideologia do herói, que é igual à direita e à esquerda, que é uma expressão extrema do voluntarismo e que é, sobretudo, um dos alicerces de uma concepção elitista do mundo: se há quem seja capaz de fazer algo, os que não são capazes de fazer a mesma coisa têm de ser fracos, estúpidos, cobardes, etc. e, por consequência, inferiores[2]. Tantas vezes que eu vi alguém revoltar-se perante uma injustiça, por exemplo, e, à boa maneira do herói, acusar os outros de não fazerem a mesma coisa. O que o herói normalmente não percebe é que o que faz o herói é a possibilidade. E possibilidade é o nome correspondente tanto ao verbo poder como ao verbo conseguir. E se o primeiro marca uma qualquer capacidade de controlo, o segundo assinala precisamente a ausência dessa capacidade. Nem sempre se consegue ser herói e não há em não o conseguir nada de criticável. Nem ser herói é nenhum dever…

Numa outra perspectiva, um perigo do extremismo no empenho de controlar o mundo é fazer dele quadrado, asséptico e desumano. É a ânsia de controlar racional e organizadamente a vida das pessoas que está na base de uma das ideias fortes do pensamento europeu que é a utopia[3]. Há aqui na Travessa algumas referências passageiras à questão. A utopia fascina-me, mas é um fascínio impregnado de receio. O perfeito controlo é não deixar nada ao acaso, nem a escolha, pela inclinação dos sentimentos, dos parceiros sexuais; é não deixar, no espaço todo circundante, nem um vestígio do “caos” natural; é tornar geométricos todos os espaços, e geométricos também, se se pode dizer assim, os comportamentos e o sentir; é substituir as línguas naturais por línguas inventadas que não traiam o pensamento… O perfeito controlo… Eu sei que não é só a mim que isto faz confusão.

E guardo para o fim o que me parece ser o perigo mais visível, nas sociedades modernas, da forte vontade de deitar fora da vida todos os acidentes: um mundo sem imprevistos nem aventura pode facilmente tornar-se num mundo de tédio e solidão… Uma maneira de limitar os perigos na nossa vida é, evidentemente, limitar a própria vida; e a obsessão de limitar os acasos na nossa vida pode facilmente levar-nos também a limitar a própria vida.

Isto aplica-se a todos os aspectos da nossa vida, mas aplica-se muito especialmente às relações entre pessoas. O voluntarismo é tanto mais eficaz quanto menos espaço dermos aos outros no caminho que vamos percorrendo. O preço a pagar é, em última análise, a solidão. Falo aqui do que tenho observado, do que acontece cada vez mais, porque cada vez há mais pessoas a aceitarem mal não serem donas do seu destino. Os transportes públicos das grandes metrópoles estão cheios de pessoas que se ignoram porque não fazem parte dos planos uns dos outros. Fechados nos seus livros e revistas, mortos para qualquer aventura. E aventura é, precisamente, uma palavra muito próxima de acidente ou acaso, se não mesmo um sinónimo...

Não só não acho que devamos tentar banir da nossa vida todos os acasos, acho até que nos devemos (voluntariamente!) expor ao impacto de alguns deles. A vida (ou a sua qualidade, se se preferir) só tem a ganhar com isso. A aventura é a aventura e é enriquecedor não querer controlar tudo sempre, às vezes deixar-se ir…
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[1] Tenho plena consciência de que uso neste texto voluntarismo e voluntarista com significados mais ou menos desviantes relativamente àquele que têm estas palavras quer no discurso não especializado quer na discussão filosófica. Esta nota de rodapé serve, precisamente, para deixar claro que, neste texto, voluntarismo refere a crença no poder da vontade em dois sentidos modalmente distintos: o de poder controlar a sua vida e o de dever controlar a sua vida.

[2] Para mostrar a relação directa que há entre a ideologia do heroísmo e o voluntarismo, chamo a atenção para um facto simples: não há heróis por acaso. O herói acidental é, pelo menos no ideário e no imaginário europeus, uma figura cómica, caricata, ridícula. O seu carácter humorístico vem‑lhe do facto de ser precisamente, para a mentalidade dominante, um contra-senso, uma coisa ao contrário do que se espera, algo como um gato que tem medo de ratos...

[3] É importante notar que não uso a palavra no sentido geral de “ideal” em que ela é muitas vezes usada, mas referindo antes um tipo de ideal de organização social específico, descrito na Utopia de More e em dezenas de obras que, com algumas variações, seguem esse modelo.