09/02/10

Acordo ortográfico: o mystério do abysmo...

Eu não me queria meter na conversa, não queria, mas acabo por ceder: vou aqui dizer qual é minha posição relativamente ao famigerado acordo ortográfico. Bom, já aqui dei uma vez a minha opinião sobre a questão ortográfica. No texto Contradições ou sem elas? (cuja leitura aconselho, porque complementa este), abordei a questão das diversas opções ortográficas e das vantagens e desvantagens de cada uma. Mas dizia, nesse texto, que não queria discutir o acordo ortográfico proposto, porque não tinha nada interessante a acrescentar ao muito que tinha sido dito e escrito sobre o assunto. E continua a ser verdade: não digo agora nada de novo. O que se alterou não foi a minha capacidade de contribuir para a discussão, mas a vontade de o fazer. «No man is an island entire of itself…», et cetera, et cetera, et cetera…

Mas deixemo-nos de circunlocuções! A minha posição é esta: tanto me faz, sinceramente. Sobrevivi bem à reforma ortográfica de Fevereiro de 73, em que foram «eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se [assinalavam] as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente e com os sufixos iniciados por z», embora, como a toda a gente, ao princípio me tivesse custado. Basicamente, há regras de que discordo na actual maneira de escrever (e não só ao nível da escolha das letras e acentos com que escrever as palavras…) e há de continuar a havê-las na nova ortografia* – e posso, a meu bel-prazer, continuar a violá-las ou não, conforme os apetites e as situações (um texto de blogue ou um requerimento, por exemplo…). Aí têm a minha posição.

Evidentemente, posso, na minha qualidade de cidadão de um país de língua oficial portuguesa, propor e defender uma proposta ortográfica que eu considere mais coerente e mais lógica do que as existentes, pois posso, mas para quê? Não há prova nenhuma de que ortografias coerentes e lógicas dêem mais felicidade a ninguém nem saúde a nenhuma língua, nem tenham implicações no ensino. Vejam o caso do inglês, que se expande sem parar, também como língua de ensino, apesar de ter a ortografia menos lógica que é possível imaginar, que reflecte (quando reflecte alguma coisa…) uma pronúncia de há quinhentos anos, perfeitamente incompreensível para os falantes actuais…

A discussão da questão ortográfica assenta sobretudo na paixão e é por isso que, tanto no blogue como na vida quotidiana, quis – até agora… – manter-me fora dela. Acredito em discussões com convicção, mas não acredito em discussões sobretudo apaixonadas. Reconheço, porém, que a abordagem apaixonada da questão, se é vã, é também inevitável. Sempre assim foi e sempre assim será, e é pena que muitas pessoas não tenham consciência de que a ortografia que querem preservar hoje é apenas uma etapa histórica, que, quando foi introduzida, foi criticada por pessoas que queriam conservar a ortografia que tinham – e de que gostavam! Como eu dizia no post que referia atrás, Teixeira de Pascoaes recusava a reforma ortográfica republicana argumentando que abismo não podia alguma vez representar a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo. Alteraram-se mesmo a profundidade e o mistério da palavra, perdão, a sua capacidade de os referir? Aí está uma questão metafísica demais para o meu gosto. Mas posso garantir-vos que a pronúncia não se alterou desde o tempo de Teixeira de Pascoaes – de uns séculos antes dele, de facto.

E tenho aqui uma deixa para o tema da influência da grafia na pronúncia. Não digo que ela seja impossível, mas só se dá em condições muito especiais e, no geral, essa influência é, simplesmente, tão ínfima que se pode desprezar**. Tenho visto, nomeadamente, que há um medo de que, no português europeu, o desaparecimento de certas letras não pronunciadas, mas que serviriam, segundo alguns, para marcar o timbre da vogal que está antes delas, venha a afectar a pronúncia dessa vogal. É um temor infundado. Desde que desapareceram as marcas de abertura das vogais átonas pretónicas dos advérbios em -mente, não se modificou em nada a sua pronúncia, pois não? Ou alguém passou a pronunciar comodamente [kumuða'mẽt] em vez de [kᴐmuða'mẽt]? Uma palavra como esquecer, que, por razões históricas, tem uma abertura anómala do e átono, resiste há séculos à tendência de redução das vogais átonas sem precisar de marcas gráficas a ajudar (evidentemente, podia propor-se *esqueccer…). E podia dar muitos outros exemplos, mas não me quero alongar muito. Por outro lado, a presença do sinal gráfico não impediu que certas vogais se fechassem, seguindo as regras fonéticas normais da língua, como no caso de actuar, que, em Portugal, ninguém pronuncia [àtuar]. Além disso, se a ideia é marcar consequentemente as vogais átonas abertas, porque não propor uma marca outra que não grafemas (p, c) que têm, noutras situações, outro valor? Recuperar, por exemplo, o acento grave... Enfim, mais paixão do que razão, como eu dizia…

Eu sei que custa a muita gente aceitar que um sistema ortográfico seja puramente convencional, no sentido em que se pode alterar por decreto (ao contrário de uma língua, que não há decretos que alterem), e que há um número virtualmente infinito de maneiras de transcrever graficamente uma língua. Mas, por muito que lhes desagrade, é um facto. Tanto que há línguas que se escrevem (de facto!) com mais do que um sistema de escrita. E se se passasse a escrever português com outro alfabeto, hem? Ερα διβερτιδω! Ou Эра дивертиду? (Para ficar pelos mais parecidos com o nosso…)


[Nota a 9 de maio de 2015: Escreveu Pascoaes:
Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» (“A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911.) 
Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.]

________________

* Mas a supressão do hífen em há-de, que uso neste texto pela primeira vez, a título experimental!, é com certeza uma melhoria, porque aquele hífen é mesmo disparatado!

** Se o problema da influência da grafia na pronúncia não se coloca, no geral, nos países onde o português é língua materna, é provável que não seja de desprezar nos casos em que o contacto com a língua se dá sobretudo na escola e pela primeira vez na escola (como aqui em Moçambique). Mas, quanto a isso, não vislumbro bem o que se possa fazer… Uma escrita mais fonética? Valerá a pena, sobretudo quando a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas sim fonológica, isto é, a escrita dá mais conta do sistema abstracto que está por baixo da pronúncia do que da pronúncia propriamente dita? Quer dizer, nos casos onde a escrita pode provavelmente influenciar a pronúncia, vai basicamente dar ao mesmo usar-se a actual norma ortográfica ou a reforma proposta…

Tic tac tic tac

Nada mais preciso, mais regular, menos dado a desarrazoamentos. Tem, pois, toda a razão a minha filha Joana ao chamar-lhe relógico.

07/02/10

Pão fresco




Foto de Søren Madsen

Se o pão nosso de cada dia nos for dado hoje – sendo hoje cada dia, precisamente –, é sempre pão fresco; o tal que, segundo uma famosa adivinha, quanto mais o é (fresco, quero eu dizer), mais quente está. Em Morrungulo, um sítio turístico da província de Inhambane, há um anúncio de uma padaria artesanal, que diz pão fresco em 26 línguas. Os turistas que lá vão, porém, são, na sua grande maioria, sul-africanos, pelo que lhes são especificamente dirigidos os anúncios nº 8 [inglês] do poste da (vossa) esquerda e 2º [afrikaans] e 7º [zulu] do poste da (vossa) direita. É claro, também há alguns zimbabueanos, e é a eles que se dirige, além da mesma 8ª placa do poste da esquerda, a 8ª do poste da direita, em chona (ou cishona, se preferirem, a mesma língua que se fala aqui na região de Chimoio). Na língua que se fala em Morrungulo, tsua (ou xitshwa, se preferirem), pão fresco diz-se pão ya kuhissa, 4ª placa do poste da direita.

Agora, eu que pensava que, em cinco minutos na Internet, descobria logo em que línguas estavam escritas todas as placas… Nada! Tirando o que eu reconheço sem grandes problemas (alemão, castelhano, dinamarquês, finlandês, francês, italiano, neerlandês e sueco, grande poliglota do pão fresco que eu vos saí, não foi?), foi fácil descobrir que tarm hats é arménio, mas o resto já foi mais complicado. Tenho dúvidas relativamente a friss kenyér e a verske leib, que creio que são húngaro e estónio, respectivamente, mas sem o conseguir confirmar; e quanto a frśkí kru, estou convencido de que é croata mal escrito, e que devia ser friški kruh, mas também não tenho a certeza (talvez o nosso correspondente na Croácia se queira pronunciar sobre isso…). E mais misteriosas são ainda, para mim, as expressões cērstuý chlēb e frisk brud. A primeira é com certeza eslava, mas não consigo identificar ao certo que língua será; e a segunda é obviamente germânica, mas em que idioma?

Pois… Diz que Deus diz que dá o fresco pão nosso de cada hoje… E se Deus não dá? Ainda bem que há o padeiro. Ah, e outra coisa: isso do pão nosso de cada dia também é uma mania, porque o pão que eu faço dura-me uma semana!

27/01/10

Conversa de cháchara

Diz Silva Carvalho, no seu livro Que Estupidez! (não li – ainda – o livro, notem, apanhei a citação na Internet): «Ninguém sabe, se a estatística existisse para estudar e computar o problema, o que significa este "chacha", qual a sua possível ortografia e a sua não menos impossível etimologia, e no entanto ele existe como um dos termos mais lídimos da nossa linguagem actual.»

Silva Carvalho tem toda a razão. Tenho aqui acesso a poucos dicionários, um de papel e os que encontro online, mas é verdade que nenhum deles tem nada a propor sobre a origem da palavra. Uma pesquisa que fiz na Internet, fora dos dicionários, também não me deu nenhuma pista. E é pena, acho eu, que se diga (ou se saiba…) tão pouco de uma palavra tão bonita e tão útil.

Agora, não foi só para me lamentar que aqui vim; quero apresentar uma hipótese sobre a origem da palavra chacha: parece-me provável que ela derive do termo espanhol cháchara – ou tenha a mesma origem. Do ponto de vista da evolução fonética, parece-me que não há muito a discutir, de tão plausível que parece, numa palavra assim, o desaparecimento de uma sílaba final átona. Quanto ao resto, vejamos:

Cháchara, em castelhano, é também uma palavra de uso corrente, com um significado muito próximo do da nossa chacha, se não mesmo coincidente com ele. Segundo o Diccionario de la lengua española da Real Academia Espanhola, cháchara significa “1. f. Conversación frívola 2. f. coloq. Abundancia de palabras inútiles 3. f. pl. Baratijas, cachivaches” (para quem não saiba o que são baratijas e chachivaches, são “bagatelas”, “ninharias”, “coisas de… chacha”.).

E a etimologia, então? Bom, se os dicionários portugueses não propõem um étimo para chacha, o dicionário da Real Academia Espanhola (que é, em princípio, relativamente fiável, embora, claro, estejamos num terreno algo movediço…) diz que cháchara vem do italiano chiacchiera, pronúncia informal, por ciacciare.
 
É então esta a minha proposta. Acham uma proposta de chacha? Bom, de chacha, chacha, não será, mas concordo que, como muitas vezes nestas coisas de etimologia, não há nada provado…

[Atualizado a 13 de junho de 2023, sem atualização da grafia]

26/01/10

E o que é fascinante é isto...

Se seguirmos a nossa intuição, podemos facilmente acreditar que a água sai em curva de uma mangueira enrolada, que o Sol gira à volta da Terra e a Lua se faz e se desfaz, ou que todo o evento que presenciamos no mundo deve ser produzido por um agente dotado de vontade… Por que será que nos engana a nossa mente? Não é um perigo para nós termos uma mente que nos engana? Para que desenvolvemos uma mente assim?

Bom, a evolução, por muito que, de certa forma, se possa compreender como um mecanismo de aperfeiçoamento, não garante, nem de longe, perfeição nenhuma. E também podemos pensar que as nossas intuições e a nossa percepção são, ainda assim, altamente adaptadas à vida que os hominídeos tinham quando a sua mente evoluiu e ao meio natural em que a viviam; que os enganos da nossa intuição e percepção (ou, pelo menos, alguns deles) nos foram muito úteis nessas condições de vida – e podem ser ainda, naturalmente, em condições ou situações do mesmo tipo. Mas é uma discussão comprida e complicada, e não a quero (nem sei!…) ter aqui.

O que é facto é que as nossas intuições e a nossa percepção são altamente enganadoras. As categorias e operações mentais com que nascemos e que nos permitem organizar o mundo levam-nos, pura e simplesmente, a concluir mentiras sobre esse mundo. E o que é fascinante é que o nosso cérebro tem, apesar disso, a capacidade de ir além das nossas intuições e da nossa percepção naturais e compreender a realidade de formas mais sofisticadas – e eficazes –, que são perfeitamente contra-intuitivas. E este mundo em que vivemos (instrumentos de alta precisão, transplantes, aviões e computadores, milhares, milhões, de importantíssimos etcéteras...) é, em grande parte, construído a partir, precisamente, dessa capacidade de conhecimento – ciência, como se lhe costuma chamar.

Sejamos agora claros: viver no mundo moderno sem utilizar a capacidade de conhecimento contra-intuitiva e mais rigorosa que fomos criando, limitarmo-nos, no mundo do século XXI, a continuar a pensar com as ferramentas mínimas desenvolvidas para sobrevivência na savana africana, é franca desadaptação, para não dizer acção suicidária. Limitar-se ao nosso “conhecimento” natural e às superstições que dele resultam pura e simplesmente não funciona. E nunca é demais insistir nisto, para fazer frente a alguns simplismos de grande fortuna com que somos amiúde bombardeados: ao contrário do que muitos pretendem, a religião e as “formas de conhecimento” intuitivo não são apenas “outra maneira de compreender o mundo”, mas antes uma maneira de não o compreender.

Um pequeno aparte sobre democracia directa

Talvez a situação ideal em democracia fosse que toda a gente soubesse muito dos assuntos que se podem discutir no espaço público e relativamente a ele – que são muitos. Mas a realidade é bem diferente, e o que temos na prática – e que havemos de continuar sempre a ter – são pessoas que sabem umas mais e outras menos dos assuntos discutidos. É evidente que, nas decisões sobre a vida pública, é necessário, às vezes, ter em conta aspectos técnicos desconhecidos da grande maioria dos que participam na discussão; mas, para acreditar que a democracia é possível com algum sucesso, é preciso acreditar que as questões que mais importa discutir devem ser discutidas por todos, independentemente do seu grau de conhecimento técnico dessa questão ou da área em que ela se insere. Que é o que eu acredito.

Mas nem toda a gente acredita nisso. Há quem postule que a democracia se deve limitar a ser a escolha dos governantes pelos cidadãos, precisamente porque os próprios cidadãos não têm conhecimentos ou capacidade para governarem. Por outro lado, também há quem, mesmo não tendo da democracia esta visão “minimalista”, considere que uma há distinção essencial entre democracia participativa ou directa e democracia representativa ou indirecta. E o que quero defender aqui é que a ideia de democracia minimalista é paradoxal; e que não dois tipos de democracia, uma directa e outra indirecta. Por outras palavras, a “democracia” minimalista não é democracia, da mesma forma que, por exemplo, a “democracia” da Grécia clássica o não é, e toda a verdadeira democracia é, por definição, directa.

A questão de base é esta: se há cidadãos com capacidades para governar e outros apenas com capacidade para eleger os que governam, quem decide quem são uns e os outros? Que garantia tenho eu de que o facto apenas de se candidatar a um cargo público serve para definir essa capacidade? E em que é que a capacidade de escolher alguém que apresenta um programa de governação da coisa pública se distingue da capacidade de governar a coisa pública? Quer dizer, se eu duvido que alguém tenha a capacidade de governar, por que não hei-de também duvidar que essa pessoa tenha a capacidade de escolher quem o governe?

A resposta a estas interrogações parece-me tão óbvia que nem vou mais longe na argumentação que poderia ser extensa: não há solução senão assumir, como eu assumo, que toda a gente tem o mesmíssimo direito (já que a questão da capacidade, como vimos, não se pode pôr, a não se ser que se assuma alguma antidemocrática prerrogativa a priori) de participar na vida política a todos os níveis; que a democracia ou é total ou não é. O sentido último da democracia é ser directa: todos podem participar exactamente ao mesmo nível na tomada de decisões.

A democracia, para o ser de facto, só pode assumir formas representativas por necessidade de ordem prática, não porque a representatividade seja desejável por si. Se, numa associação de, digamos, 5 mil membros, já é difícil realizar uma assembleia-geral, é óbvio que numa associação com vários milhões deles, como costumam ser os estados, há que eleger representantes. Mas é muito diferente a representatividade ser uma necessidade da democracia em instituições muito grandes de a representatividade ser um traço essencial da democracia. Para o dizer com as palavras de André-Pierre Taguieff, que o diz muito bem, “a ideia de democracia directa deve ser conservada como horizonte, ou até mesmo como ideia reguladora, de toda a prática democrática.”

25/01/10

Uma velha tinha um gato

Não me alongo em arengas, nem me delongo em molengas: hoje o tema é lengalengas. Ou melhor, não lengalengas, uma lengalenga só: a da velha que, coitada, tinha debaixo da cama um monte de bicharada, que, a zurrar e a ganir, não na deixava dormir…

A versão que me ensinaram em miúdo e que, por isso mesmo, eu provavelmente nunca me hei-de livrar, mil raivas me persigam!, de considerar a versão “original”, mesmo tendo plena consciência de que não tenho para isso qualquer boa razão, era assim (ponho só a última estrofe e, como sabemos que o gato é referido na primeira estrofe e se vai sempre acrescentando, em cada estrofe, um bicho aos da estrofe anterior, as outras deduzem-se dela):
Uma velha tinha um velho, debaixo da cama o tinha; o velho falava, o boi berrava, o burro zurrava, o porco roncava, o galo cantava, o cão ladrava, o gato miava, a velha dizia: «Só só, só só, só só duma banda só.»
É claro, a bicharada que se inclui é um bocado à vontade do freguês, e a lengalenga tem óbvios méritos didácticos, para ensinar as palavras que referem “vozes de animais”. Mais, aliás, do que um poema de Pedro Dinis, que havia num livro da minha escola primária, em que a informação era obviamente excessiva: 32 sons de bichos duma vez só!
Descobri agora, depois de uma pequena pesquisa na Internet, diversas variações à minha versão original. Por exemplo, em vez de apenas “só só, só só, só só duma banda só” podemos ter “estou só, estou só, estou só de uma banda só”, o que dá ao refrão um tom bastante mais grave. Outra variação menor que vi muda só em dó e diz assim:
A velha tinha um carneiro, debaixo da cama o tinha; o carneiro berrava, o galo cantava, o gato miava, o cão ladrava e a velha dizia: «Dó, dó, dó numa banda só.»
E também vos digo: se o só era bastante misterioso, o dó não o é menos… O que quererá isto dizer? E a banda, que banda será esta? Perguntas patetas, se assentarmos que o encanto das lengalengas é serem poesia pura, interessando pouco o que querem mesmo dizer… Agora, se repararem bem, nesta versão não se muda só o só para dó, aparece também um cão no fim da lengalenga. Podem pensar, então, que começa com um cão em vez de começar com um gato, mas não, o cão nunca aparece sozinho antes do gato – a primeira estrofe é: A velha que tinha um gato, debaixo da cama o tinha; o gato miava, o cão ladrava e a velha dizia: «Dó, dó, dó numa banda só.»
Outra coisa digna de nota é que, nesta versão se diz “a velha” e não “uma velha”. Parecendo que não, é estratégia estilística arrojada (muito moderna, diria eu, para uma coisa tradicional) a utilização de um artigo definido para introduzir uma velha que ninguém sabe quem é…
Mais bonita, na minha opinião, é outra variante da lengalenga que encontrei:
Uma velha tinha um gato, debaixo da cama o tinha; o gato miava, o pinto piava e a velha dizia: «Mil raivas vos persigam – que não vos posso aturar!»
Gosto muito da expressão “mil raivas vos persigam”, que me soa arcaica e que quero ver se não me esqueço de começar a utilizar no meu quotidiano, em vez de invocar descargas eléctricas… (Aliás, para praticar, já a comecei a utilizar neste texto, não sei se repararam, lá em cima no início do segundo parágrafo.)
Outra variante engraçada da lengalenga, mais complicada porque implica uma dupla enumeração de bichos e vozes, é a seguinte:
Era uma velha que tinha uma vaca e debaixo da cama a tinha; a vaca mugia, o burro zurrava, o porco roncava, o galo cantava, o cão ladrava, o gato miava e a velha dizia: «Mal haja o teu mugir, mal haja o teu zurrar, mal haja o teu roncar, mal haja o teu cantar, mal haja o teu ladrar, mal haja o teu miar, que não me deixam dormir nem tão pouco descansar.»
E mais sofisticada ainda – a mais sofisticada de todas as que encontrei – é esta outra versão que aqui trago, que acrescenta à anterior outra dupla enumeração, primeiro dos bichos e a seguir dos barulhos que eles fazem, e também uma solução violenta, como acontece muitas vezes em coisas ditas tradicionais:
E vê-se a velha obrigada a tomar a decisão: mata a vaca, mata o burro, mata o porco, mata o galo, mata o cão, mata o gato, e então dizia: «Acabou-se o teu mugir, acabou-se o teu zurrar, acabou-se o teu roncar, acabou-se o teu cantar, acabou-se o teu ladrar, acabou-se o teu miar, agora posso dormir, agora posso descansar.»
Percebo perfeitamente: uma pessoa sem dormir não pode viver e o dormir pouco torna-nos violentos, de modo que é natural (humano porque animal…) dar cabo, enraivecido, de meia dúzia de bichezas para poder enfim repousar... (A propósito, não terá contribuído para a diminuição da violência ao longo dos séculos o facto de as pessoas descansarem cada vez mais?)
E agora, para terminar (se bem que, de facto, tudo tenha começado aqui), deixo-vos a versão de Pierrot le Pan de Pan, que reza assim:
Uma velha tinha um velho e debaixo da cama o tinha; o velho assobiava, o xaile bailava, o cuco cucava, a galinha galinhava, a bengala bengalava, o penico penicava, o gato miava e a velha dizia: «Só só, só só, só só de uma banda só».
Uma velha teve uma trombose e em cima da cama a teve; ficou meio apanhada e paralisada só só, só só, só só de uma banda só.
Assim, sim, já faz o estribilho mais sentido, não é? Mas coitada da senhora!

18/01/10

Falta sempre um som…

Falo hoje de algo que só tem interesse para meia dúzia de cismáticos como eu e digo uma coisa que, por muito que seja provável que alguém a tenha já dito, nunca vi dita em lado nenhum: falta sempre um som nas listas de sons do português!

O normal é considerar que existem, em português, 5 vogais nasais: [ã], grafada an (antes), am (ambas) ou ã (manhã); [ẽ], grafada en (dente) ou em (sempre); [ĩ], grafada in (tinta) ou im (simples, sim); [õ], grafada on (ontem), om (pomba, com) ou õ (só em ditongos, como em põe); e [ũ], grafada un (mundo) ou um (chumbo, atum). [Podem ver, por exemplo, esta descrição das vogais nasais do português aqui ou aqui.]

E falta sempre uma (pelo menos, em português europeu): a que se encontra nas partes destacadas a negrito do sintagma “a antiga antagonista da Antónia” [ã'tiɣãtɐɣu'niʃtɐðã'tɔnjɐ], ou seja, uma vogal nasal aberta, que escrevi [ã], para a distinguir do [ɐ̃] de manhã e que resulta – sempre e só – da contracção de um [ɐ] fechado com um [ɐ̃] nasal.

É uma vogal especial, reconheço, porque, quando experimento, tenho dificuldade em pronunciá-la sozinha, ao contrário do que acontece com as outras vogais nasais. Como duvido da minha percepção e não tenho maneira de analisar o som com rigor, isto é, usando um aparelho em vez dos meus ouvidos, ponho até a hipótese de não se tratar efectivamente de uma vogal nasal e de que, no contexto referido e apenas nele, se pronuncie em português uma consoante nasal [ŋ] (como no inglês sing) a seguir a um [a] aberto. Se assim for, porém, continua a faltar um som nas listas de sons do português…

Não sei, o que acham vocês? Cismáticos da língua ou não, deixem, por favor, nos comentários, a vossa opinião – ou o que souberem sobre a questão.

17/01/10

Areia, mar e sol, tradução e espanhol…

Como disse ontem, li nas férias 2666, de Roberto Bolaño. Nas últimas férias, tinha lido The pope’s rhinoceros, de Lawrence Norfolk (comprado, vejam lá vocês ao que chegou a globalização, numa livraria de uma dinamarquesa na Ilha de Moçambique…). Só nas férias é que se pode ler romances assim, de muitas (muitas!) centenas de páginas. Agora, que recomecei a trabalhar, comecei a reler o que tenho de Borges cá em casa, que são 4 livros de contos. Um formato mais adequado à quotidiana falta de tempo: um conto hoje, outro amanhã…

Ignacio Echevarría disse uma vez de Los detectives salvajes (o penúltimo romance de Bolaño, imediatamente anterior a 2666) que era “o romance que Borges teria escrito” [se tivesse escrito algum romance] (ou “o tipo de romance que Borges teria acedido a escrever”, já vi diferentes citações das palavras de Echevarría...). Com todo o respeito que devo ao senhor Echevarría, e sem ter lido Los detectives salvajes, acho que não faz grande sentido pensar que Borges, que sempre se recusou, ponto!, a escrever romances (“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros”, dizia ele), os escreveria assim ou assado se os quisesse escrever… Mas não é ele o único, essa é que é essa, a relacionar os dois escritores. A malograda Aura Estrada (só encontro a tradução inglesa do seu ensaio sobre “Borges, Bolaño e o retorno do épico”, na revista online Words without borders), embora concorde que “Borges pura e simplesmente não é o precursor que nos vem naturalmente à ideia quando lemos Bolaño”, considera que os une o facto de verem ambos na épica a essência do literário.

Assim à primeira impressão (só li uma obra de cada autor), tendo mais a comparar a escrita de Roberto Bolaño com a de Lawrence Norfolk, sobretudo pelas digressões fogosas, às vezes capazes de deixar o leitor literalmente ofegante, e pela mistura de registos, em que o calão e outras formas menos cerimoniosas de linguagem convivem com uma “literariedade” que revela um domínio convincente de muitas linguagens literárias. Por outras palavras, a feliz expressão bawdy baroque-punk prose of marvellous fluency, “prosa barroco-punk impudica de maravilhosa fluência”, que William Dalrymple, um crítico de The Independent usa para descrever a escrita de Norfolk pode aplicar-se, acho eu, à escrita de Bolaño – pelo menos, às vezes... E se no caso de Norfolk, tudo isto é, como diz Dalrymple, “recoberto com uma camada lustrosa de grande erudição, que abrange tudo desde obscuras práticas sexuais renascentistas até às minúcias do direito canónico” com “apartes eruditos sobre a enxertia de rainhas-cláudias, os movimentos de glaciares e o simbolismo sagrado do camaleão”, um livro de Bolaño pode, por exemplo, revelar, com a mesma amplitude de erudição, “conhecimentos de medicina legal, Panteras Negras, divisões do exército alemão, cultura das prisões, ficção científica soviética, boxe, algas marinhas e formas obscuras de adivinhação” – e eu acrescentaria ainda fobias (há uma impressionante enumeração de medos patológicos em 2666) a esta lista de Natasha Wimmer, tradutora das duas últimas obras de Bolaño para inglês.

Jorge Luis Borges acreditava na tradução. Afirmou-o peremptoriamente ainda jovem, em 1926 [“Quanto a mim, creio nas boas traduções de obras literárias (das didácticas e especulativas, nem falemos) e opino que até os versos são traduzíveis” (Textos recobrados 1919.1930)] e, ao que eu sei, nunca mudou de opinião ao longo da vida. Para ele, mais do que um mal necessário, a tradução era um bem necessário e uma das componentes da literatura.

Chegou até a afirmar que as suas próprias obras podiam ganhar ao ser traduzidas para outras línguas, porque o castelhano era, às vezes, uma língua pobre. E dava o exemplo de pesadilla, que não passa de “um pequeno peso”, ao passo que palavras como cauchemar ou nightmare são muito mais expressivas, mais cheias de significados. Desculpar-me-ão eu não vos dizer onde é que Borges afirma isto, mas não consigo encontrar esse texto em lado nenhum. Lembro-me bem de o ter lido e lembro-me até de que era em francês, porque me lembro de que Borges explicava a ideia da palavra pesadilla como “une petite lourdeur”, mas claro, sem encontrar o texto, como podemos, eu e vocês, ter a certeza de que eu não sonhei isto? Uma coisa é certa, porém: Se sonhei, não foi um sonho irrealista por aí além, porque Borges diz (e isto, sei onde: no seu ensaio “La pesadilla”, incluído em Siete Noches) que “o nome espanhol [do pesadelo] não é muito afortunado: o diminutivo parece tirar-lhe força. Noutras línguas, os nomes são mais fortes.”

[É claro, tudo depende da palavra a que se dê importância: mancuernillas, por exemplo, a maravilhosa palavra centro-americana para botões de punho, mesmo com o diminutivo na cauda é centenas de vezes mais expressiva do que boutons de manchette ou cufflinks, que não são, precisamente, mais do que cuff links…]

Já Lawrence Norfolk desconfia dramaticamente da tradução: “Os leitores acreditam na tradução. Para os escritores, no entanto, o processo é mais complicado”, escreve ele em “Being translated, or the Virgin Mary's hair”. E continua o autor de Lemprière's dictionary: “Eis, à laia de ilustração, uma lista de livros que eu não escrevi: Lemprière's Wörterbuch, Le Dictionnaire de Lemprière, Slownik Lemprièra'a, Lempriere's Ordabók, Lemprières Lexicon, El Diccionario de Lemprière, A Lemprière-lexicon, Het Woordenboek van Lemprière, Kabbalin Kulta (porque Lemprière é impronunciável em finlandês), Dictionarului Lemprière, Lemprière's Ordbog e diversas outras variações em línguas (hebreu, cantonês, coreano, russo, japonês) cujos alfabetos são, pelo menos para mim, ilegíveis.”

A mim, parece-me mais produtivo afirmar muito simplesmente que traduzir nem sempre é fácil e que há obras muito mais difíceis de traduzir do que outras. No geral, concordo muito mais com Borges do que com Norfolk, mas às vezes tenho de dar o braço a torcer ao pessimismo deste último. Há que aceitar que, na literatura ou fora dela, se há muitos textos que se traduzem sem grandes problemas, também há, paciência!, coisas literalmente intraduzíveis.

Do que pensava Bolaño da tradução literária em geral e, mais especificamente, da tradução da suas próprias obras, não faço ideia. Mas eis o que pensa a sua tradutora e o que pensei eu quando li 2666: Diz Natasha Wimmer que “tanto Los detectives salvajes como 2666 colocam óbvios desafios ao tradutor. Los detectives salvajes é o romance mais coloquial de Bolaño, narrado nas vozes de mais de cinquenta personagens e cheio de calão, real e inventado, seleccionado em vários países.” Pode bem ser que 2666 tenha menos coloquialismos e mais vocabulário especializado do que Los detectives…, mas tem, ainda assim, essa mesma característica interessante (tanto nos coloquialismos como nas formas não coloquiais), que o torna, nalguma medida, intraduzível, que é estar escrito naquilo em que se poderia chamar pancastelhano, o tal espanhol “seleccionado em diversos países”: há espanhol europeu e centro-americano, sobretudo, mas também bocadinhos de espanhol sul-americano. Como faz quem traduza, por exemplo, para português? Mistura na tradução português europeu e português americano, conforme traduza expressões de espanhol europeu ou de espanhol americano? É uma possibilidade, provavelmente menos emprobrecedora do que outra qualquer…, mas haverá tradutor disposto a fazê-lo – e capaz de o fazer de forma competente, convincente?

O melhor, acho eu, é ler 2666 em castelhano. Aliás, ler em castelhano os livros originalmente escritos nessa língua é o que deviam fazer todos os falantes do português. Ou talvez não, não sei… Mas é uma aventura que eu recomendo – mesmo a quem não conheça esse idioma!...

16/01/10

Sol, areia e mar, igualdade e bem-estar

Regresso de férias. A minha avó dizia sempre: «A 2000 chegarás, de 2000 não passarás». Morreu a 3 de Abril de 2001, com 81 anos, de maneira que, como o mundo acaba, para cada um de nós, no exacto momento em que cada um de nós acaba, foi só por um triz (que foi de facto um trimestre, ou seja, foi só por um triz-mestre) que não se cumpriu a sua insistente profecia. Nós outros, que por cá ainda andamos, a 2010 já chegámos, e que o ano vos corra bem!
Pode parecer à primeira vista que a tese de Wilkinson e Pickett, na medida em que é uma defesa científica das vantagens das sociedades mais igualitárias, é um novo socialismo científico, mais científico do que o outro que houve antes. Mas é muito discutível que o seja de facto.
É verdade que os autores se identificam explicitamente com os ideais igualitaristas dos primeiros socialistas: “Os primeiros socialistas e outros acreditavam que a desigualdade material era um obstáculo a uma harmonia humana mais ampla, a uma fraternidade, sorelidade ou camaradaria humana universal. Os dados que apresentamos (…) sugerem que esta intuição estava correcta”. Esta intuição, porém, era de “socialistas e [de] outros”, e, sejam lá quem forem os outros, não há no livro nenhuma referência nem a Marx nem a Proudhon nem a Jaurès – mas há referências a Tocqueville e a Adam Smith… De facto, “em vez de sugerir uma via específica ou um conjunto de políticas para diminuir as diferenças de rendimento”, Wilkinson e Pickett preferem apontar que “há muitas maneiras de chegar ao mesmo destino”: “pode ser obtida maior igualdade usando impostos e regalias para redistribuir rendimentos muito desiguais ou através de maior igualdade nos rendimentos brutos antes de impostos e regalias”, de forma que “grandes governos podem nem sempre ser necessários para usufruir das vantagens de uma sociedade mais igual”. Dito de outra maneira, “a maneira como uma sociedade se torna mais igualitária é menos importante do que se é de facto igualitária ou não”.
Quanto às aspirações científicas da tese, bom, é claro que as tem – e é isso, precisamente, que a torna tão interessante. Os autores, porém (talvez para evitar conotações indesejáveis da palavra no campo sociológico, não sei), evitam usar o adjectivo científico e preferem dizer que é assente em provas – política assente em provas, eis como chamam eles à demonstração das vantagens do igualitarismo económico.
Agora, alguém se deixa convencer por provas? Como lembram Wilkinson e Pickett no capítulo introdutório, a verdade, sobretudo quando é uma verdade nova, parece não ter grande capacidade persuasiva… Uma pequena história tão dramática como moral tirada de The Spirit Level:
Em 1874, Ignaz Semmelweiss descobriu que, se os médicos lavassem as mãos antes de assistirem a partos, reduzir-se-ia drasticamente as mortes causadas por febre puerperal. Mas, antes de o seu trabalho poder ser de alguma utilidade, ele tinha de convencer as pessoas – principalmente os seus colegas médicos – a mudar de comportamento. A sua verdadeira luta não foi tanto a descoberta, mas o que se lhe seguiu. A sua opinião foi ridicularizada (…). Uma grande parte dos médicos não levou a sério o seu trabalho, até Louis Pasteur e Joseph Lister terem desenvolvido a teoria microbiana da doença, que explicava por que é que a higiene é importante.
Uma moral desta história é que não basta constatar que as coisas se passam de um determinada maneira, é preciso saber por quê. A ciência nunca se contenta com a descrição dos fenómenos, quer sempre explicá-los. Pode ser esse um dos problemas da epidemiologia, por exemplo, que é a área de trabalho fundamental dos autores do livro e onde surgiram as constatações da relação directa entre desigualdade e problemas sociais: pode-se constatar um fenómeno sem saber explicá-lo. Não que, no livro, Wilkinson e Pickett não proponham explicações plausíveis. Mas, (e entra aqui outra moral desta história) é preciso mais do que bons argumentos para convencer as pessoas: mesmo classes que, devido ao seu elevado nível de educação formal, são julgadas progressistas, como é o caso da classe médica, são de facto extremamente conservadoras. E, quando é de pôr em causa certezas tão arreigadas nas pessoas, haverá muita gente que não seja igualitarista à partida a discutir de facto as propostas do livro e a aceitá-las?
Uma das constatações do livro que muitos se negarão cegamente a aceitar, por mais provas que lhe apresentem, é a seguinte: se uma pessoa ganha, ponhamos, 10 vezes o salário mínimo nacional e tenta melhorar a sua vida tentando ganhar 15 vezes o salário mínimo nacional, está obviamente a escolher a estratégia errada – a melhor maneira de melhorar a sua vida é tentar conseguir que quem ganha o salário mínimo ou apenas 2 vezes o salário mínimo passe a ganhar mais. O crescimento do rendimento económico de uma pessoa é relativamente irrelevante quando comparado com as vantagens que lhe podem advir de um nivelamento de toda a sociedade.
Trata-se de uma constatação fundamental por várias razões: para além de insistir, com provas na mão, nas clássicas propostas da esquerda (de que a igualdade é o valor fundamental e de que a resolução dos problemas de cada um passa sempre pelo nível social, pela resolução dos problemas de todos), mostra-nos também que, ao contrário do que quase toda a gente afirma, à esquerda e à direita (ou quando não afirma insinua…) “há maneiras de melhorar a qualidade de vida nos países ricos sem mais crescimento económico”. De facto, tudo parece indicar que se pode até diminuir o nível de riqueza dos países ricos sem que ninguém viva pior por causa disso. Paralelamente a esta constatação de que, quando se é rico, não é mais dinheiro que dá a felicidade, outra constatação fundamental (relativamente marginal no livro, que se centra apenas nas sociedades ricas, mas fundamental na discussão da ajuda ao desenvolvimento) é que, sem dinheiro não há felicidade: até um nível de PIB da ordem dos 25 000 USD anuais per capita, a qualidade de vida e o bem-estar estão directamente relacionadas com a capacidade económica. Uma coisa óbvia, dirão muitos, e é provável que o seja, mas então por que é tão frequentemente esquecida?
Como dizia o meu amigo Seth Jenkinson na sua recensão de The Spirit Level que publiquei aqui na Travessa, o livro merece uma ampla discussão. A mim, que não sou propriamente sociólogo nem epidemiologista, surgiram-me várias dúvidas relativamente a algumas explicações para os fenómenos constatados, que me parecem algo ralas. Mas enfim, o grosso dos dados apresentados é sólido e, no mínimo, impressionante.
É claro, como li o livro na praia, perguntei-me logo que influência teriam o sol e o mar, precisamente, na minha apreciação das teses de Wikinson e Pickett. E estou convencido de que continuaria achar da maior importância as ideias defendidas no livro se o tivesse lido no desconforto do comboio suburbano a caminho do trabalho…
Li também nas férias um livro chamado 2666 (a 2010 chegámos quase 7 milhares de milhões, pois, mas a 2666, quantos chegarão?), mas disso falo amanhã.

11/12/09

Faz-nos bem ao figueiredo e também ao coração

Versos, pois… E porque não?
Ele há vezes em que eu,
compreende Vossa Senhoria?,
não vejo ne’ssidade de chegar
a conversa ao fim da linha.
Basta-me o verso, bem vê,
uma mania que eu tenho…
– ou outras maneiras que haja
de ligar mais ao dizer
do que àquilo que se diz. Que mal
vê nisso Vossa Senhoria?
É certo: não traz ao mundo
bem nenhum, pois isso não…
Mas nem mal traz...

Quando é p’r’alguém ouvir mesmo
o que eu tenho p’ra dizer,
compreende Vossa Senhoria?,
faço os possíveis por encher
as linhas até ao fim…

Que seja o que mais falta faz,
dou-lhe nisso toda a razão!
Agora, que seja uma perda de tempo
não dizer sempre o que mais conta,
isso é a opinião de Vossa Senhoria, que não a minha.

Eu gosto de converseta,
seja ela em verso ou não:
faz-nos bem ao figueiredo
e também ao coração!

O parquet do céu e o ladrilhado do inferno

Costumam os portugueses dizer que de boas intenções está o inferno cheio. Já os ingleses dizem que a estrada para o inferno está pavimentada com boas intenções, o que, sendo mais bonito, não acrescenta muito ao sentido da frase. Mais interessante, pelo menos para o tema que quero aqui desenvolver, é uma versão espanhola do provérbio, que diz que o inferno está cheio de boas intenções e o céu de boas obras [1].

Vocês sabem (ou, se não sabem, ficam a saber) que eu não acredito em céu e em inferno mais do que acredito no Pai Natal, de maneira que o provérbio, como o título do post, são só um pré-texto. A questão que me interessa, e para a qual o provérbio serve apenas de introdução, é a seguinte: Para se agir bem – ou para se agir mal, a questão coloca-se da mesma forma – é condição necessária e suficiente ter a intenção de o fazer?

John Stuart Mill, um moralista de que eu gosto, afirma, a dado passo de O utilitarismo, que “a moralidade de uma acção depende inteiramente da intenção – quer dizer, do que o agente quer fazer – mas o motivo, quer dizer, a razão que faz com que deseje actuar assim, se não afectar o acto, não afecta a sua moralidade.”

Foi-me fácil, quando li isto, concordar com J. S. Mill quanto a deixar de lado o motivo na avaliação da moralidade de uma acção. Tinha um amigo (millista, pelo menos nisto, provavelmente sem o saber) que me dizia sempre que, se o meu trabalho numa qualquer organização de interesse, por exemplo, trouxer bons resultados aos beneficiários dessa organização, pouco importa que eu para lá tenha entrado para cortejar uma miúda ou para tentar mostrar aos outros que até sou um rapaz muito esperto [2].

Ainda assim a distinção entre motivo e intenção levantou-me de imediato uma dúvida: Como avaliar a intenção de uma acção? O problema é que essa avaliação não parece poder ser feita senão a partir dos resultados da acção. Se a acção que eu quero praticar, com a melhor das intenções, devido a qualquer acidente, a qualquer força que não controlo, é transformada numa outra acção diferente da que eu pretendia praticar, o que é que resta da minha intenção? Como pode alguém saber que intenção tinha eu?

Tomemos o caso de que alguém, sob tortura, revela um segredo fatal para outras pessoas. A intenção era não o revelar, mas não foi suficientemente forte para não o fazer. A moralidade da acção que devemos julgar é apenas a tentativa de não revelar o segredo? Não se distingue a moralidade dessa acção da moralidade de outra acção em que, mesmo sob tortura, não se revela o segredo?

As muitas questões que a questão levanta, se posso dizer assim, empurraram-me, a certa altura, para uma espécie de objectivismo radical. Numa carta a uma amiga minha, dizia eu uma vez o seguinte:

“Há muita acção que se perde entre a intenção e a sua concretização, o que, se por um lado não tira o mérito da intenção ao seu autor, não lhe chega, tampouco, a dar o mérito da acção realizada, que é o mais importante, já que é esse que influi de facto na realidade… Dirás tu: significa isso que eu ter ou não esse maior mérito não depende, em última análise, de mim, já que, se a intenção é da minha exclusiva responsabilidade, a concretização de acção depende de factores que me são exteriores e, o mais das vezes, incontroláveis? Sim, na minha perspectiva – o mérito, como tudo na vida, é em parte (em grande parte…) dependente de acasos.”

Imediatamente depois de enviar a carta, arrependi-me de o ter feito. A minha posição era obviamente exagerada: relegando para segundo plano o nível das intenções e focando a minha avaliação moral na acção em si, coloco ao mesmo nível, em última análise, quem salve alguém de morrer afogado por sentimento de solidariedade com outro ser humano ou com a ideia de o torturar refinadamente em seguida[3], contanto que a fase seguinte desse plano criminoso nunca se venha a realizar, seja lá por que razões for… É claro que a avaliação da acção em si é uma avaliação não da moralidade da acção mas da eficácia ou competência técnica com que a intenção foi ou não levada à prática e a palavra mérito, como a uso na carta à minha amiga, não tem um sentido essencialmente moral.

Acho que temos de aceitar que, como Mill propõe, é sempre ao nível da intenção de uma acção que está a sua moralidade, embora aceitando que nem sempre é possível avaliar essa moralidade, porque os resultados da acção são distorcidos relativamente à intenção do agente por factores externos à vontade desse agente. Acho que é necessária uma distinção entre o plano das intenções e o plano dos resultados: para agir bem ou mal, quer dizer, ter resultados que influenciem, para bem ou para mal, o estado de coisas sobre o qual me proponho agir, é necessário que à minha intenção (e à consequente moralidade ou imoralidade da minha acção) se venham juntar as condições práticas para a levar a cabo: capacidade técnica (em sentido alargado) e a ausência de forças contrárias.

Voltando à minha questão inicial, respondo então que para se agir bem ou para se agir mal não é condição necessária e suficiente ter intenção de o fazer, embora admita que a intenção de o fazer é a única base para a avaliação moral da minha acção. Donde que, pelo menos se Céu for metáfora de valor moral, é no Céu que repousam forçosamente as boas intenções e não no Inferno, que é o lugar das más intenções. E deve haver algum Limbo moral para acções propriamente ditas…
__________________

[1] Os provérbios são como a música popular – não foram criados pelo povo enquanto colectivo, que o povo colectivamente não cria nada, mas sempre por uma pessoa concreta que já nos esquecemos, ou nunca soubemos, quem é. Fiz uma pesquisa rápida à procura da origem da expressão e fiquei a saber que é provável que venha de São Bernardo de Clairvaux, que, no século XII, escreveu que “O inferno está cheio de boas intenções ou desejos”.
É preciso também deixar claro que não é de analisar o provérbio ou as suas diversas versões que aqui se trata, mas apenas, como deixei claro, de o usar como introdução a uma discussão. Na maior parte das vezes, o provérbio quer dizer outra coisa: o que é bem para uns não o é forçosamente para outros, e as acções realizadas com a intenção de fazer o bem podem não ser sentidas pelos outros (e não forçosamente apenas aqueles que se pretende beneficiar) como benéficas. Por interessante que seja essa discussão (na minha opinião, mais interessante até do que esta que aqui proponho – e mais difícil!), é outra discussão e deixo-a aqui de lado.

[2] Agora, a propósito da volúpia ou da vaidade como móbil de boas acções, é preciso acrescentar que John Stuart Mill, sensato que é, diz que avaliar o motivo, porém, “conta muito aquando da nossa apreciação moral do agente, especialmente se indica uma disposição habitual boa ou má, uma inclinação de que seja de esperar que resultem acções benéficas ou prejudiciais.” É algo que se pode e deve discutir, porque se liga com a questão de haver pessoas tendencialmente boas e menos boas e más, mas fica para outra ocasião. Pode-se também acrescentar que há muito quem defenda que, em última análise, todo o altruísmo tem como fim criar reconhecimento social e seduzir possíveis parceiros sexuais...

[3] O exemplo não é inventado por mim, é o que Mill e J. Llewellyn Davies usaram na sua discussão da questão.

África minha e outras questões morais

África é, ao que dizem, como a Alcobaça da letra de Silva Tavares – quem por lá passa, não passa sem lá voltar, porque por mais que tente e que faça, é lembrança que não passa, etc. É claro, África é uma palavra demasiado grande, tão grande como todas as abusivas generalizações que se costumam fazer em relação a ela. Mas é um facto que há, pelo menos aqui nesta África que eu conheço, muita gente de fora que adopta esta terra como sendo sua e, muito embora queixando-se sempre dela, nunca a quer abandonar para voltar ao que deveria ser a sua “verdadeira terra”; como é um facto também que há muito quem, tendo aqui vivido algum tempo, queira voltar à África que, por qualquer razão, deixou – uns queixam-se apenas e nunca voltam, outros vão além da resmunguice e voltam mesmo.

E uma pessoa interroga-se: de que é feito então esse charme, se a vida aqui é, em tantos aspectos, mais insegura e mais difícil do que no conforto do chamado mundo moderno? Em 1998, quando estive em Moçambique a primeira vez, esbocei uma resposta a esta pergunta nas cartas colectivas (ainda em papel, nessa altura) que enviava à família e amigos. Alvitrava eu que a explicação era a possibilidade de arranjar amantes, esposas e esposos incluídos, que noutro lado nunca se arranjariam: “Basicamente, uma pessoa rica tem quem quiser – ou quase. E isso é uma coisa que cativa muito muita gente. Há quem diga que o fascínio de África está na imensa liberdade e no espaço imenso, na natureza ainda por desbravar, no odor virgem da terra, coisas assim… Perdoem-me o tom quiçá um pouco brejeiro, mas essas poetices, a mim, não me convence: o que os faz ficar em África, ou querer voltar, são outros odores que não o da terra, odores que têm, aliás, muito pouco a ver com virgindade…”

Mas é, obviamente, uma visão muito redutora da questão. O poder sexual é apenas uma parte do poder tout court e penso agora que é por aí, pelo poder, que se deve ir. Evidentemente, não é uma explicação que exclua outras (que sabe bem não se precisar nunca de sobretudos, ah pois sabe!) e não se aplica seguramente a todos os casos, mas parece-me, no geral, uma boa explicação para haver tanto quem se apaixone por esta terra. A “liberdade” e o “espaço” que atraem “em África” são metáforas desse poder, porque é isso que dá o poder: liberdade e espaço, em variadíssimas acepções destas duas palavras.

Queria, a propósito, especular um bocadinho sobre poder, precisamente. Nem sempre é fácil apercebermo-nos da importância que a conquista e manutenção do poder têm nas nossas preferências e nas escolhas que vamos fazendo ao longo da vida. Há várias demonstrações muito convincentes de uma verdade simples, que se aplica tanto aos seres humanos como a outros animais com hierarquias sociais: a subordinação tem grandes implicações ao nível da alegria de viver e até ao nível da saúde; quanto mais baixo se está numa hierarquia social, quanto mais indivíduos houver a quem dever obediência, pior vivemos. Isto não implica, é claro, que, a maneira de evitar o stress da subordinação seja deter o poder (a não ser que não admitamos a possibilidade de igualitarismo) – para não sofrer stress da subordinação basta viver sem hierarquia e não forçosamente fazer parte do topo da hierarquia, e é o que defendem precisamente, os defensores da igualdade como mecanismo de bem-estar social. Não conheço demonstrações de que resulte directamente uma maior qualidade de vida do facto de se ocupar um posto mais alto na hierarquia, mas parece provável que haja uma tendência natural de procura de poder e que a sua satisfação seja uma fonte de bem-estar. Não me parece que haja nesta afirmação nada de muito polémico, até porque é velha como o mundo a ideia (a constatação?) de que o poder seduz; e até porque, dirão muitos, o poder traz com ele vantagens palpáveis e é por isso que ele é, naturalmente, desejável!

Não sei. Ao contrário do que possa parecer de imediato, talvez seja a vertente mais abstracta do poder a mais sedutora. É certo que ajuda muito na vida prática ter, por exemplo, quem faça por nós e para nós o trabalho que, não tendo esse poder, teríamos de ser nós a fazer; e é objectivamente desejável, em termos de transmissão dos nossos genes (ou de satisfação da pulsão sexual, vejam isso como quiserem) termos o poder de escolher muitos parceiros sexuais e de boa qualidade. Mas talvez o mais sedutor de ter pessoas que trabalhem para nós não seja o trabalho que elas fazem, e sim o facto de as ter. Ou melhor, de as poder ter. O mesmo com os parceiros sexuais. Mais apetecível do que tê-los de facto, talvez seja saber que se os pode ter. Poder.

26/11/09

De preceitos e preconceitos

De todas as maneiras que há de falar uma língua, a nossa é sempre a correcta… Não é o que eu penso, mas é o que pensa muita gente. A maioria das pessoas, acho eu. Nada mais difícil, pelos vistos, do que reconhecer como maneira de falar ao mesmo nível da sua uma maneira de falar diferente da sua. Uma prova disso é a necessidade de se fazerem duas traduções para a mesma língua, uma em português europeu e outra em português americano. Mesmo quando uma tradução brasileira é excelente, os portugueses preferem ler uma tradução menos boa no seu português…

Agora, para que não pensem que me julgo isento de preconceito linguístico, conto-vos uma constatação que fiz no outro dia: Tenho quase a certeza de que, se um aluno meu, digamos, irlandês ou sueco, me escrevesse num TPC os dois últimos versos da penúltima quadra da letra de “Asa Branca”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (“Espero a chuva cair de novo, / para mim voltar para o meu sertão”), eu corrigia. Era capaz de achar que “estava mal”, que era uma “construção estrangeira” – quando se trata de uma letra maravilhosa, de um grande clássico da canção em língua portuguesa…

Mas isto sou eu a especular

Começa a ser raro não se encontrar rapidamente na Internet aquilo que se procura. Mas ainda há (mal feito fora, também…) perguntas para as quais só mesmo encomendando uma ou várias obras impressas é que a gente consegue (talvez…) obter resposta. Por exemplo, como é que Rimbaud, em 1888, algures na Etiópia, reagiu a uma carta que lhe contava que, após a publicação de Illuminations dois anos antes, se tinha tornado célebre nos meios literários de Paris?

Também é verdade que é uma pergunta de interesse mínimo, pelo menos se se medir o seu interesse pelo número de pessoas a quem ela possa interessar. E a mim, porque é que me havia de interessar uma pergunta assim? Bom, há já muito tempo, li um artigo de um jornal conhecido* em que se falava de “profissionais e artistas de destaque” que “se retiram em plena glória”. O artigo não refere só o abandono definitivo, mas fala também de casos em que há interrupções longas do trabalho criativo ou fugas temporárias às luzes da ribalta. Porque será que tudo isso acontece? Depois de dar uma série de exemplos de gente famosa que decide retirar-se do trabalho que lhe traz a fama, o artigo sugere, entre outras coisas, que “lidar mal com um êxito pode paralisar a criatividade”.

O artigo suscitou-me uma dúvida. Dizia que Arthur Rimbaud, “depois de conseguir um êxito brutal”, teria procurado permanecer tão afastado da fama quanto possível. Isto era um bocado contrário à ideia (muito vaga, muito vaga…) que eu tinha da vida de Rimbaud, e fui procurar informação. Foi assim que descobri que, apesar de Rimbaud ser uma dos poetas mais influentes de sempre, é difícil arranjar online informação detalhada sobre a sua vida.

O que podemos verificar com alguma facilidade é que, ao contrário do que afirmava o tal artigo (a minha vaga impressão estava correcta!...), a fama não tem nada a ver com o afastamento de Rimbaud da literatura – sobretudo porque ele se afastou da literatura antes de ser famoso… É certo que Rimbaud se tornou famoso ainda em vida (ou começou a tornar-se famoso ainda em vida), mas essa fama começou só com a publicação de Illuminations em 1886, mais de dez anos depois de ele ter deixado de escrever poesia; e enquanto vivia longe de França, pelo que nunca passou de facto pela experiência de ser uma figura pública… Também é certo que Rimbaud chegou a saber, pelo menos através de uma carta do seu amigo Paul Bourde**, do sucesso que estava a ter a sua poesia, e podemos então dizer, quando muito, que a consciência do seu sucesso não foi suficiente para o fazer voltar à poesia – nem sequer para o fazer voltar a França para gozar esse sucesso.

Outra coisa que uma pesquisa sobre a vida de Rimbaud nos ensina é que há, entre os seus estudiosos, quem defenda que a falta de dinheiro (ou a vontade de o ganhar, seja…) foi uma das razões que o levou a correr mundo; e que, na sua correspondência, o dinheiro é um dos temas principais. E então, se acharmos, como eu acho, que é o dinheiro, precisamente, que faz andar o mundo em geral e cada uma das vidas particulares dos seus habitantes, podemos até perguntar-nos se Rimbaud não teria continuado a escrever, se lhe tivesse vindo mais cedo da escrita a compensação económica que acompanha o êxito! Mas isto sou eu a especular…
_______________

* Desta vez, é de propósito que omito a referência, não vão pensar que a intenção deste texto é corrigir o artigo de jornal. Nada disso: a intenção deste texto é antes, como o título indica, especular, sem mais, sobre «como teria sido, se…» (chamando também a atenção para a importância, tantas vezes desprezada pelos estudiosos, do dinheiro na produção artística….)
** Ao que consegui perceber, mas não posso ter a certeza absoluta. A informação que consegui arranjar de dois biógrafos de língua inglesa refere o autor dessa carta como “his editor”.

18/11/09

Redacção encontrada no sótão: Os sapatos

[Houve uma altura em que me dediquei a escrever “redacções”, que era o nome que eu dava a textos em que ia anotando tudo o que me vinha à cabeça sobre um tema qualquer, como, por exemplo, “As árvores” ou “As canetas”. No outro dia, fui dar com essas redacções algures num sótão do meu computador, reli-as, achei que esta ficava bem aqui no blogue e colei-lhe só uns quantos links antes de a pespegar aqui. Como, quando escrevi o texto, não lhe fiz as devidas notas de rodapé (acho que por ser uma “redacção”...), não sei onde fui buscar alguma da informação que ele inclui e de que não posso agora, portanto, assegurar o rigor. Mas, se me conheço bem, devo ter verificado tudo na altura…]

Os sapatos

Os sapatos, como todos os objectos, têm histórias maravilhosas que me fazem sonhar. Mais do que apenas novelas, verdadeiros romances, recheados de complicados enredos secundários.

Tomemos quaisquer sapatos, por exemplo os que trago calçados. São sapatos estupidamente clássicos, desses que em Portugal são normalmente conhecidos por mocassin (pronunciado à francesa, mòcassã), por muito que o meu dicionário registe antes mocassim: “calçado de pele usado pelos índios da América do Norte, sem tacão e com a sola revirada dos lados e à frente, para melhor protecção do pé; qualquer sapato desportivo que se assemelhe a este calçado”.

(O filho de uma amiga minha, nascido e criado os primeiros anos da sua vida nos Países Baixos, chamava-lhes “sapatos à turco”. É que os neerlandeses, como os outros povos da Europa do Norte, usam sapatos de atacadores, e ele só conhecia dos turcos sapatos assim. Então, quando veio para Portugal, achou curioso ver o tio dele com sapatos daqueles: “Olha, o tio Zé tem sapatos à turco!” Mas era porque ele não conhecia ainda o gosto, pelo menos o mais conservador, dos países latinos da Europa e da América. Mas então, eu, que nunca me quis nem conservador nem latino, é isso que os meus sapatos mostram que sou? Pois seja!, aceito... Com algumas reticências, como mostram claramente os três pontinhos, mas que remédio tenho senão aceitar?)

Uma das histórias maravilhosas que entram na história de qualquer objecto é a da sua designação. Por que é que se chamam sapatos os sapatos, de onde lhes vem o nome? E os mocassins, onde foram buscar tão estranha designação? Bom, a etimologia de sapato, ao contrário da etimologia de mocassin, está longe de ser pacífica.

Mocassin vem das línguas dos índios americanos, porque foram eles a apresentar aos europeus esse tipo de calçado. Há quem queira especificar que é de uma língua determinada (algonquino, por exemplo), mas é arriscado, porque parece que, entre mokasin e makisin, várias línguas tinham designações semelhantes.

Agora, sapato é mais complicado. Se se seguir a opinião da maioria, a palavra portuguesa sapato vem da espanhola zapato, introduzida por alturas do Renascimento, que por sua vez vem do turco (zabata ou chabata, conforme os dicionários), provavelmente através do árabe sabbat. Mas há quem diga que a palavra portuguesa vem directamente do árabe, e há quem defenda a origem eslava da palavra espanhola. Enfim, origem debatida, se não mesmo polémica.

A questão é que não é fácil saber o que é que vem de quê, quando há tantas palavras semelhantes (todas elas para designar tipos de calçado, embora nem sempre o mesmo) em idiomas tão distintos como o português, o occitano, o francês, o italiano, o basco, o árabe vulgar, várias línguas eslavas e inclusivamente o tártaro e o persa – a lista é do Coromines, que é uma das autoridades nestas matérias de etimologia. É isso mesmo: o nosso sapato pertence a uma grande família etimológica, com primos direitos uns a residir aqui perto, como o italiano ciabatta (“sapatilha”), o francês savate (“sapato velho”), e outros a residir bem longe, como o indonésio sepatu (“sapato”), que foi levado para aquelas paragens, juntamente com o objecto que designa, pelos portugueses ou pelos espanhóis; e talvez até mesmo primos afastados, como sabot (“soca”, originalmente em francês, mas naturalizado também inglês), pelo menos se for verdade a tese que diz que a palavra, surgida no século XV, vem de uma contracção de savate (que naquela altura era “sapato” só, sem aludir ao seu estado de deterioração) e bot (uma forma antiga de botte, “bota”). É claro, os mocassins pertencem também seguramente a uma família etimológica, mas essa nunca me foi apresentada.

Mocassin é um hipónimo de sapato, que é então, por sua vez, um hiperónimo de mocassin, e o que estes tão estranhos palavrões querem dizer é apenas que os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há. Para os que acham graça a este tipo de coisas, adianto que o fazer-se parte de um grupo “natural”, como os mocassins fazem parte dos sapatos, tem algumas implicações óbvias, que toda a gente sabe mas que só os lógicos perderam tempo a analisar e a formalizar. Por exemplo: Todos os mocassins são sapatos, mas nem todos os sapatos são mocassins. Pronto. Por isso, posso dizer: “Estavam lá muitos sapatos, mas não vi lá nenhuns mocassins”, mas não posso dizer, obviamente, (quer dizer, posso, mas hão-de pensar que eu não bato bem…) “Estavam lá muitos mocassins, mas não vi lá nenhuns sapatos”. Mas é uma relação de hiperonímia estranha, esta que há entre sapatos e mocassins, muito diferente daquelas mais clássicas como a que existe entre animal e cão. Se eu disser ou escrever “o cão entrou na sala; o animal vinha esfomeado”, ninguém hesita em compreender que o animal é o cão. Já se eu disser ao contrário, é esquisito, não é?: “o animal entrou na sala; o cão vinha esfomeado.” Mas tratando-se de sapatos, é tudo mais estranho ainda. Se “deixou os sapatos debaixo da cama; os mocassins estavam enlameados” é, como se previa, uma frase esquisita, já “deixou os mocassins debaixo da cama; os sapatos estavam enlameados” não é menos esquisito, e isso é que é esquisito…

Desisto disto e resumo para avançar: Além de fazerem parte de famílias etimológicas, tanto mocassim como sapato fazem parte de outras famílias, das quais acabo de referir a do calçado, no caso dos sapatos, e a dos sapatos, no caso dos mocassins. E como os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há, são forçosamente uma variedade de calçado. Até aqui, acho que o consenso ainda vai alargado, porque o que cabe no menos cabe no mais, como diz o dito. A partir daqui, as coisas complicam-se: os sapatos, mocassins incluídos, estão incluídos no vestuário? Pelo menos em português, as duas palavras, calçado e vestuário, “o que se veste” e “o que se calça”, parecem referir grupos de objectos completamente distintos. Conjuntos sem intersecção: há alguma coisa que se possa vestir e calçar ao mesmo tempo? Parece que não. Mas já o meu dicionário, como os dicionários costumam, discorda desse comum senso que é o dos falantes apenas nativos e inclui o calçado no vestuário e calçar no vestir: “calçado: peça de vestuário para cobrir exteriormente os pés”; “calçar: revestir pés, pernas ou mãos com o vestuário que lhes compete”. Aceita-se ou rejeita se? E aceitando ou rejeitando – dá igual… –, terá isto tudo alguma lógica?

Se pusermos temporariamente de lado a nossa lusa classificação, podemos constatar que, por exemplo, em espanhol (¡ponte los zapatos rojos y baila la jota!), em francês (mets tes chaussures rouges et danse la java !) ou em inglês (put on your red shoes and dance the blues!) os sapatos como a roupa se “põem”, que é uma coisa que em português só se faz aos chapéus… ou às perucas.

Além disso, em português, como em espanhol ou francês, calçam-se luvas. E será que isso faz delas calçado? Nada! Mas peças de vestuário, serão? Não nos soa. Pobres luvas, feitas assim órfãs por estas línguas ingratas. Ainda por cima, sem poderem sequer ser hiperónimos seja lá do que for, porque todos os tipos de luvas são sempre… luvas: luvas de pele, luvas de borracha, luvas de boxe, eu sei lá que mais… Já em francês, por exemplo, as luvas podem ser gants ou moufles ou mitaines, conforme tenham todos os dedos e os dedos inteiros, ou só o polegar separado e um saco para o resto da mão, ou os dedos cortados a meio (eu sei que há mitenes no dicionário português, mas deve ser palavra de um falar diferente do meu, porque nunca a ouvi…). Se perguntarmos aos franceses, porém, qual é o nome genérico dos objectos que calçamos nas mãos, eles dizem-nos que são gants, pelo que tanto gants como moufles como mitaines são tipos de gant. E é exactamente o mesmo em inglês com glove e mitten: parece que um dos termos é hipónimo de si próprio, pelo que é grande a confusão. E eu, que me tinha proposto falar de sapatos, acho que já estou a meter os pés pelas mãos…

Mas as línguas são assim, como se sabe: traiçoeiras. E se deitarmos fora as línguas todas e nos pusermos a pensar sem essas designações prontas-a-vestir que a língua traz, podemos ir até mais longe do que o meu dicionário e dizer que calçado e vestuário é tudo uma mesma coisa, o que nos serve para nos cobrirmos, ponto, embora o português seja tão insistente na distinção que nu é “o que não está vestido” e descalço “o que não está calçado”, ao passo que outras línguas referem os pés descobertos exactamente como os braços descobertos, por desnudo, nu, naked ou bare. E este bare do dinamarquês é ainda mais curioso, porque designa tudo o que não está coberto, excepto se for uma pessoa inteira, que, sem roupa, o que está é nøgen, e não bare. E a verdade, já agora, que às vezes é nua e crua? Posso propor uma verdade descalça e crua, ou não vos cheira?

Voltando aos sapatos, e por falar em cheiros, o meu dicionário diz que chulé é o “mau cheiro dos pés”, mas poderia, com a mesma propriedade, dizer que é o mau cheiro dos sapatos, porque, nisto de maus cheiros, é difícil saber onde é que acaba o pé e começa o sapato. Tive já sapatos que me faziam cheirar mal dos pés, e que cheiravam mal eles próprios, e outros que não. Mas vá lá uma pessoa saber se é o pé que conspurca o sapato ou o sapato que conspurca o pé. Nunca me lembro de ter cheirado mal dos pés andando descalço, de chinelas, ou de sandálias bem abertas. E abandono esta excursão, que começa já a tresandar, e passo atèquenfim à história destes sapatos que trago calçados, cuja marca aqui omito para não lhe fazer publicidade, mas de que posso esclarecer que são toscanos na origem.

O que estes sapatos já viajaram, Deus meu! Senão, vejam: Primeiro, viajaram couro e sola até à fábrica, vindos sabe-se lá de onde. Depois de umas quantas passeatas por máquinas e mãos de artesãos, viajaram os sapatos que agora já o eram até algum grande armazém onde ficaram a aguardar uma sorte que não sabiam imaginar, porque a perspectiva de um sapato, nesta situação, não vai nunca muito além da sua caixa de cartão. Mas, passadas semanas, ou talvez meses, quem sabe?, começou a sua aventura maior, comparável à de tantos humanos seus compatriotas que deixaram Itália para se fixar em qualquer outro lado do mundo. Foram provavelmente de camião até um porto ou um aeroporto, e depois de barco ou de avião até à Dinamarca, que era o destino que, sem eles sonharem, lhes estava há muito fixado. Ou então foi sempre por estrada que continuaram até lá, também pode ser. É provável que tenham passado mais algum tempo nalgum sombrio armazém, quem sabe se a tiritar de frio e desesperançados do seu futuro, até os levarem à loja onde seriam depois vendidos.

Deve ter sido uma loja em Frederiksberg ou na própria Copenhaga, onde os deve ter comprado um homem já não muito jovem e de gosto conservador como eu. Sabe-se lá agora o que os sapatos terão viajado nos pés desse senhor. Talvez até Espanha ou à Grécia de férias, se calhar até Paris ou Berlim. Se calhar, o dono levou-os até de volta à sua Itália natal, onde eles pisaram pela primeira vez o solo pátrio. Depois, o senhor deve ter-se fartado deles e deu-os à Cruz Vermelha dinamarquesa, que os pôs à venda na sua loja de roupa e calçado em segunda mão em Frederiksberg, onde eu os comprei por 100 coroas apenas, ainda em muito bom estado.

Comigo, fizeram, além de viagens pequenas casa-trabalho-e-volta que eu nunca percebi se lhes agradavam ou não, uma viagem grande de Copenhaga a Maputo, que devem ter achado demasiado cansativa para a idade que tinham: no segundo dia em Maputo abriram-se e ficaram a descansar no quarto de hotel, acho eu que sem saberem o que perdiam, porque eu passeei muito por Maputo e Maputo é daquelas cidades onde dá gosto passear. Foram em seguida de Maputo a Nampula dentro da minha mala, porque eu não me quis desfazer deles, talvez os conseguisse ainda arranjar. E então, quando cheguei a Nampula, pu-los a consertar num oficina de sapateiro de uma associação de deficientes que por lá encontrei e eles vieram do conserto muito deficientemente arranjados, porque sola não havia em Nampula, ou pelo menos aqueles sapateiros diziam que não, e substituíram-lhes a sola por borracha de má qualidade, mas enfim, tão mal também não estava que não se pudessem usar, e então, como já disse, são esses sapatos que trago neste momento calçados…

Pois é, eu cá… os meus sapatos…andaram p’los prados, pisaram a lua, dormiram em casa das fadas e fizeram dançar umas quantas, como cantava Félix Leclerc. Além de tudo o mais para que possam servir – matar baratas ou dar pontapés numa bola, por exemplo –, uma função importante dos sapatos é aquilo a que poderíamos chamar a sua função musical: dançar… e serem cantados! Já introduzi lá atrás, muito ao de leve (com sapatos vermelhos, lembram-se?), o tema dos sapatos como motivo de canção. Ou o calçado em geral, seja. É, curiosamente, um motivo muito mais frequente do que se possa pensar, e há muitos clássicos da canção que falam de calçado, quando nos pomos a pensar um bocado. Além desta canção “Moi, mes souliers” de Félix Leclerc, há “High heeled sneakers” de Jerry Lee Lewis, “Blue suede shoes” e “Pointed Toe Shoes”, de Carl Perkins, “These boots are made for walking”, de Lee Hazlewood, “Boots of Spanish leather” de Bob Dylan, “Les sabots d’Héléne” de Georges Brassens… e dezenas de etecéteras. Os Flaming Groovies têm um E.P. de culto chamado Sneakers e os Henry Cow têm um álbum legendário chamado Leg End, só que, a julgar pela capa, o que, nesse caso, está na ponta da perna não é um sapato, e nem sequer um pé, é uma meia de lã, e então, pai natal falhado que sou, parece que já estou a querer enfiar nos sapatos cantigas que lá não cabem, que não entram nesta história nem com calçadeira…

O que entra nesta história sem precisar de calçadeira outra que não seja a própria palavra história é, isso sim, a História dos sapatos. Uma história que nem sequer tem muito que eu lhe diga, e ainda bem, pelo que aqui fica, com o agá grande mais pequeno que eu consigo arranjar:

Ao princípio, as pessoas andavam descalças e só depois é que começaram a calçar-se. E, por muito que se tivessem tornado, nalgumas partes do mundo, parte inalienável do corpo – como a roupa, aliás, que nós somos animais de pele insuficiente –, os sapatos nunca se tornaram (infelizmente?) património genético, de maneira que continuamos a nascer descalços e a calçar-nos só mais tarde... Durante muitos milhares de anos, as pessoas de todo o mundo calçavam-se com coisas simples, e em todos os tempos e lugares o luxo no calçar sempre foi o primeiro e mais óbvio sinal exterior de riqueza.

Há relativamente pouco tempo deu às pessoas sobretudo da Europa para disparatar também no calçado. Foram três os disparates maiores de que as pessoas revestiram, e revestem, as extremidades dos membros inferiores: O primeiro grande disparate foram as poulaines que apareceram na Europa no século XII, cujas pontas reviradas chegavam a ter 60 cm e até a serem atadas aos joelhos! Outro disparate grande, o segundo, foram os sapatos de biqueira alargada do séc. XVI: nalguns sítios e nalgumas classes, as biqueiras alargaram tanto que a sua largura chegou a ser delimitada por lei! O terceiro e último disparate, quiçá o maior de todos, foram os tacões altos, às vezes até muito altos, inventados no fim do séc. XVI e divulgados sobretudo por Louis XIV e pela sua corte, que, desde então, nunca passaram de moda. Fazem mal, são desconfortáveis, mas enfim, dão altura e fazem sobressair a barriga da perna, o que é que querem que vos diga?

Que de excursões, como diria o outro, com os sapatos a pretexto! É como eu dizia: os sapatos têm histórias como as cerejas, que se enredam umas nas outras e, a propósito de coisa quase nenhuma, podem trazer atrás tudo o que diga respeito seja lá ao que for… Até já me doem os pés de tanto delirar sobre sapatos. Vou descalçar-me e dá-los por terminados.


Foto: Sapatos alemães da segunda metade do séc. XV e primeira metade do séc. XVI, Museu Nacional da Baviera, Munique

Louvor de jardins e parques e dos passeios no campo ao fim-de-semana

Já decidimos que, quando voltarmos à Dinamarca, não vamos viver em Copenhaga. É ponto assente, tanto para a Karen como para mim, que não queremos viver mais numa cidade grande. Não foi uma decisão fácil, porque fora das grandes cidades não há trabalho para nós nas profissões que sempre tivemos, mas estamos convencidos de que o esforço de reciclagem que a mudança implica há-de valer bem o sossego que ganhamos. “Mas é mesmo para o campo que vocês querem ir viver?”, costumam perguntar as pessoas, quando anunciamos o nosso plano. Não, a ideia é ir para uma vilazinha de província. Temos três miúdos pequenos e viver mesmo no campo com três miúdos pequenos, na Dinamarca, dá muito trabalho, porque tem de se passar a vida a levá-los aqui e ali e acolá... Mas eu gostava, mais tarde, de viver mesmo no campo, porque gosto cada vez mais do campo. E, independentemente de gostar ou não, estou convencido de que o verde nos é necessário e nos faz bem.

O verde é o que natural para nós, é a nossa casa. Foi lá que passámos milhares de anos a aperfeiçoar-nos, a tornar-nos humanos. Foi para viver no verde que evoluímos e é por isso mesmo que o achamos bonito e nos sentimos bem nele. “Ui, por onde este vem”, adivinho eu que seja a reacção de muita gente (e boa gente!) à romântica simplicidade do postulado. Basta aceitar, sem refilar, a ditadura da nossa natureza? Bem vistas as coisas, nem tudo o que a natureza pôs em nós é positivo por aí além – e há uma parte da natureza humana que é inútil na vida que levam hoje os seus portadores: sei lá, instintos de violência e de recusa dos forasteiros, por exemplo, que nos ficaram da vida de caçadores em pequenos grupos, ou a atracção por açúcares e gorduras, que nos era útil quando a nossa dieta era naturalmente pobre nisso mesmo e a vida que levávamos nos fazia gastar muita energia… Está bem, mas essas sim, essas são partes da nossa natureza que, não podendo desfazer-nos delas, devemos arranjar maneira de equilibrar com outras partes mais morais de nós, ou simplesmente contrariar ou enganar – para bem de nós próprio e dos outros. Agora, a nossa atracção pelo verde, que implicações negativas é que ela tem? Não é mais fácil, em vez de nos esforçarmos por ir buscar a outras actividades e paisagens a satisfação que o verde naturalmente nos dá, darmos mesmo passeios regulares no campo?

Gosto do verde e estou convencido de que a falta de verde faz mal. É o verde que limpa o cotão e a poeira que se nos vão acumulando na alma. Não é preciso ir viver para o campo, acho eu, mas é preciso ir ao campo. Nem que não seja campo mesmo, mesmo a sério. É como o calor, por exemplo: animais tropicais que somos, precisamos de calor para nos sentirmos bem. Na falta de calor a sério, blusões de penas e aquecimento central também servem. Mas frio é que não. O mesmo com o verde: jardins e parques, pode ser, desde que seja vegetação. Agora, urbanizações sem verde são um crime contra a nossa humanidade e passar o fim-de-semana entre paredes, sejam elas quais forem, é autoinfligir-se um mal. A sério.

12/11/09

A lusa sabedoria na Cornualha

No Museu Marítimo da Cornualha, em Falmouth, uma amostra da lusa sabedoria, ó ia, gravada a maiúsculas de escantilhão brancas num dóri, um bote de bacalhoeiro... Segundo outra versão da lusa sabedoria, o que deve antes crer quem trabalha é: “Ai de mim se não for eu…”


Foto de Seth Jenkinson

05/11/09

Spot the blog

Encontrei um blogue (um metablogue, seja) com a temática extremamente específica de listar “blogues extremamente específicos”. O próximo passo é, naturalmente, fazer um blogue (um metametablogue…) onde se listem blogues que listam blogues muito específicos. &cætera…

Chamariscos, digitansos e outras palavras que, por assim dizer, não há

Apareceu-me no outro dia, num texto de que estava a fazer uma revisão, a palavra chamarisco. Tendo em conta o tipo de texto que era (um manual para associações de pequenas e médias empresas), tratava-se com certeza de um erro. Mas podia ter sido uma inspirada criação: se chamariz é “engodo para pássaros” e “engodo, em sentido figurativo”; e se isco é “engodo para peixes” e também “engodo, em sentido figurativo”, então chamarisco é duplo engodo e duplamente figurativo. O ideal, provavelmente, para a caça ao basilisco…

Chamarisco, se não fosse um erro, seria um neologismo de um tipo chamado portmanteau word em inglês, mot-valise em francês e parola-macedonia em italiano. Durante algum tempo, cheguei a pensar que era boa ideia adoptar a expressão italiana, por mais próxima da lógica do português, em vez de usar a expressão inglesa ou a expressão francesa que tanto via usar na nossa língua. Mas acabei por adoptar a expressão amálgama, que entretanto se impôs – e está muito bem assim.

Muitas destas palavras são de grande utilidade, mesmo que não sejam inventadas na nossa língua. Adaptámos sem hesitar amálgamas criadas noutras línguas, umas mais abreviadas (modem, codec, motel...), outras menos (informática, internauta...) e estamos em vias de adoptar outras, como cantautor e digiteca. E podíamos pensar em adoptar ainda mais, mesmo que, para as adoptar, tenhamos de as adaptar.

A maneira mais comum (mas não a única, note-se) de fazer amálgamas é aglutinar duas palavras do mesmo tipo (dois nomes, dois adjectivos, dois verbos...) colando-os nos sons comuns. Às vezes, a sutura realizada noutra língua fica impecável em português, como em glocal, que é aquilo que é ao mesmo tempo global e local (boa palavra!), mas, às vezes, para funcionar bem, a colagem não pode ser demasiado invisível. Por exemplo: os franceses inventaram a palavra adulescent, mistura de adolescent e adulte, que é palavra de utilidade suficiente para merecer ser adaptada ao português, mas como em português o u e o átono se pronunciam da mesma maneira, acho que teria de transformar-se em adultescente, para evitar confusões na oralidade…

Outra maneira de fazer amálgamas é transformar em prefixo ou sufixo uma parte de uma palavra, como quando se usou o -burger de hamburger para fazer cheeseburger. Um exemplo que se costuma dar em inglês ou francês é também o -thon de marathon, “maratona”, em telethon, uma maratona televisiva para angariar fundos para uma causa qualquer. É curioso que, em português, teletona não existe, mas os brasileiros usam (só que sem acento no o) a palavra espanhola teleton. Deve haver alguma coisa em teletona que não soa bem em português… O que será? Já quando se trata de adaptar o inglês walkathon, uma longa caminhada também para angariar fundos, parece que marchatona surge como proposta natural, e encontrei até uma ocorrência (já não é chita…) desta palavra em Google.

Outra maneira ainda de fazer desta salada lexical é agarrar num elemento de formação de uma palavra e aplicá-lo a outras a que ela até aí não se aplicava, como nos casos conhecidos de workaholic e chocoholic em inglês, palavras que se começaram já a espalhar por várias línguas, em versões adaptadas. É interessante constatar o que se está a passar com o aportuguesamento destas palavras a partir de uma pesquisa simples em Google (os números que dou agora dizem respeito ao total das ocorrências das formas masculinas, femininas, singulares e plurais das palavras a o4-11-09 e devem considerar-se ligeiramente inflacionados, porque não fui controlar as ocorrências uma a uma – pode bem haver hits duplos ou triplos no total de hits que Google assinala – e dou números aproximados, porque o tal de ocorrências pode diferir em duas pesquisas com um intervalo de tempo relativamente curto entre elas): trabalhólico aparece cerca de 250 vezes e trabalhólatra cerca de 300 vezes. Não me podem citar nisto, porque não analisei as ocorrências em pormenor, mas, à primeira vista, parece que o uso de trabalhólico e trabalhólatra depende não tanto do grau de purismo dos utentes do neologismo, mas antes (como seria de esperar, aliás…) de serem ou não falantes de português do Brasil: os brasileiros, que dizem naturalmente alcoólatra, preferem trabalhólatra; os não brasileiros, que usam mais a forma criticada alcóolico, usam mais o neologismo trabalhólico. O que é curioso é que não encontro nem uma (!) ocorrência em Google de uma forma que a mim me pareceria natural, trabalhómano… Quanto a chocoólico, a taxa de ocorrência é tão grande que nenhum dicionário deveria hesitar em incluir a palavra na sua próxima edição: cerca de 19 000 ocorrências! Está bem que há um livro com esse nome e que, às vezes, a palavra não significa “viciado em chocolate” («uma cerveja chocoólica»), mas, mesmo assim, já é claramente uma palavra da língua… E mais palavra da língua é chocólatra, que tem direito a definição em dicionários online e cerca de 200 000 ocorrências em Google! Já chocoólatra é palavra com menos fortuna (cerca de 800 ocorrências apenas…) e só vi 3 ocorrências de chocolómanos, mas isso eu percebo, porque é palavra feiota…

Há países em que existe alguma tradição de criar neologismos deste tipo para resistir à importação de palavras estrangeiras. Eu proponho que se faça o mesmo em português, mas só pelo prazer de o fazer, notem bem, que eu não sou muito – ou não sou mesmos nada, seja – de purismos nacionalistas... Agora, com arte e ponderação. Não basta importar, de qualquer maneira. Não podemos, por exemplo, seguir literalmente o exemplo dos quebequenses, que chamam clavardage ao chat (de clavier e bavardage), porque teclersa é uma mistura francamente estúpida de teclado com conversa… Aliás, para o chat o melhor aportuguesamento nem é uma amálgama, o melhor é chamar-lhe simplesmente conversa de chat…cha… conversa de tchatcha, precisamente! Uma palavra como digitanso, porém, parece que fica bem para designar o que chama em inglês um technopeasant… E minhocultura é uma excelente alternativa bem portuguesa a vermicompostagem, que é uma importação directa doutros idiomas...

Que grande sal(s)ada… Pois, isto de neologismos é complicado. Noutro dia, vi no Ciberdúvidas a discussão do neologismo volunturismo, para designar “iniciativas que têm como objectivo unir o turismo solidário/sustentável/comunitário ao voluntariado”. A pessoa que colocava a dúvida dizia que a palavra já existia, mas queria saber se podia usar o neologismo em documentos oficiais. O consultor do Ciberdúvidas, por muito que admitisse que a palavra era “foneticamente aceitável”, não gostava dela, e é um direito que ele tem. Dizia ele que “do ponto de vista semântico, [este vocábulo] poderá ser desagradável porque sugere um trocadilho em que uma vogal é trocada por outra: volunt/a/rismo versus volunt/u/rismo” e que “contém duas ideias que são contraditórias: o exercício abnegado da vontade e o turismo, que sugere desprendimento e prazer pessoal”. Eu digo que é estranho chamar contradição a formas novas de encarar as viagens de férias (em que o prazer pessoal e o exercício abnegado da vontade não se anulem, precisamente). E aproveito para propor que quem ache que não se deve passar férias a trabalhar com miúdos da rua em Maputo se chame um defensor do conservaturismo. Já que estamos em maré de amálgamas relacionadas com turismo, proponho aventurismo para substituir o agora tão popular “turismo de aventura”. Parece-vos bem, ou acham que a segurança e o conforto que o turismo normalmente pressupõe são incompatíveis com o risco da aventura? [Chamo ao tom deste texto brincar a sério, não sabendo bem se me faço assim mal entender… Mas asseguro-vos que o texto quer mesmo dizer o que quer dizer...]

Uma palavra nova não tem de ser útil só para designar melhor o mal designado ou designar, ponto, o que tem falta de designação. Pode ser útil para, em vez de designar, descongestionar, desafiar, trocar as voltas ao discurso. Um dos campeões dos neologismos brincalhões era O’Neill, esse Alexandre grande da nossa poesia. Uma vez, fiz um levantamento de neologismos na obra de O’Neill e encontrei cerca de 200 palavras. Muitos deles eram amálgamas maravilhosas e deixo aqui meia dúzia delas a fechar com graça um texto que pouco a tem. Que passem os dicionários a registar, se fazem favor, coitarado, ejaculatra, màfrarrico, maravirilhas, perikitsch, pestanítido, rastejantraseiro, resmunguarda e tocantar. [Esta última palavra, como é uma amálgama de confecção mais óbvia, foi inventada por muita gente ao mesmo tempo, em português e espanhol. Uma pesquisa simples na net mostrar-vos-á utilizações do verbo tocantar por pessoas com uma probabilidade por assim dizer nula de conhecerem o texto de O’Neill onde ele o usa. Razão de sobra, portanto, para se a adoptar. Além disso, poderiam designar-se os cantautores que tocantam como tocantautores, não é verdade?]

[Já agora, como O’Neill não se limitava a brincar na sua língua-mãe, que passem também a figurar nos dicionários franceses politichien e portugueux, duas palavras úteis para designar tipos de pessoas que, por acaso, existem mesmo…]