07/09/13

Maria e o menino em quadra Nobre

Ontem fui parar por acaso à obra de James Tissot, de quem já aqui uma vez pus um quadro. Quando se converteu ao cristianismo e decidiu começar a pintar temas religiosos, Tissot fez três viagem ao Médio Oriente, para ver como eram realmente as gentes e as paisagens. Acho que o “realismo” que daí resultou diferencia as suas ilustrações da vida de Cristo de muitas outras obras do mesmo estilo – e também de pinturas de motivos religiosos que tinha feito antes.

Por razões óbvias, este tipo de realismo não é muito comum na arte religiosa. O que é normal é que o artista translade as cenas bíblicas para os cenários que conhece. Pode ser realismo na mesma, mas outra forma de realismo. Nas canções populares – é de canções populares que quero aqui falar –, Maria, mãe de Jesus, faz, naturalmente, as mesmas coisas que as mulheres que a cantam*. Agora, algumas dessas atividades não são, talvez, muito diferentes das atividades das mulheres do Médio Oriente no início da era cristã.

 

“José embala o menino”, canção recolhida por Michel Giacometti em Monsanto, Idanha-a-Nova:
José embala o menino / Que a senhora logo vem / Foi lavar os cueirinhos / À pocinha de Belém
É uma canção muito bonita, na minha opinião – letra e música. Na verdade, não sei se havia ou não algum tipo de cueiros na Palestina, mas é possível. O que duvido é que se fizesse malha, como diz outra canção:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz / Ó linda Rosa / Com linha feita de luz / O novelo é lua cheia / As meias são para Jesus / Ó linda Rosa / As meias são para Jesus
Como já referi noutros textos da Travessa (aqui, aqui e aqui), “dizer de uma canção que é tradicional significa apenas que não se sabe quem é o seu autor”. A canção que acabo de citar foi recolhida em Elvas pelo folcorista britânico Rodney Gallop, no início da década de 1930. É uma das canções que figura em Cantares do Povo Português (Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1960). No que eu presumo ser uma edição inglesa da mesma obra, Portugal: A Book of Folkways (Nova Iorque: Macmillan, 1936), afirma Gallop:
Deve ficar claro que não acredito muito na originalidade criativa do povo. «Todas as culturas populares», diria eu, como Padraic Colum, «são as popularizações de algo que antes foi aristocrático – música, poesia, traje, dança».
Discordo completamente desta afirmação. A mim, parece-me evidente que em todas as camadas sociais há originalidade criativa. Porque não havia de haver? Mas, por outro lado, é certo que, ao contrário do muitas vezes se pensa, há, dos Andes à Irlanda (por exemplo...), partes do folclore que sabemos terem origem na cultura – não forçosamente aristocrática – das classes educadas. Neste caso, como o nota o tradutor de Gallop para português, a quadra recolhida em Elvas que referi atrás é de António Nobre: é a 14ª estrofe de “Para As Raparigas de Coimbra”, um poema de 16 quadras soltas incluído em , de 1892:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz: / O novello é a lua-cheia, / As meias são p'ra Jezus.**
É uma quadra com grande fortuna na música popular. Passados 40 anos da publicação de , a quadra de Nobre tinha sido musicada, acrescentada de “linda Rosa” como refrão intercalar. Depois, foi, naturalmente, transmitida oralmente sem referência ao autor, que os seus cantores desconheciam, e continuou a ser transformada e juntada a outras quadras em novas composições (encontrei já umas quantas). Outra possibilidade era usá-la como mote para glosa, um esquema que era antigamente comum para letras de fado, e foi o que fez João Linhares Barbosa:
Quando a noite é escura e bela / Diz-se lá na minha aldeia / Que à janela duma estrela / Nossa Senhora faz meia // A rodar em dobadoura / Andam quatro anjinhos nus / Prendendo nossa Senhora / Com linha feita de luz // Jesus pequenino e loiro / Na linha todo se enleia / As quatro agulhas são d'oiro / O novelo é lua cheia // Dormem as coisas mais santas / Só a mãe santa produz / Faz serão até às tantas / As meias são para Jesus
Com música de Francisco Viana (“fado Vianinha”), esta letra deu um fado de que já vi diversos nomes. Foi neste fado que conheci a afortunada quadra de Nobre – muito antes de saber que era dele e que tinha servido de letra a cantares tradicionais.
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* Às vezes, como todas as obras de arte, estas canções exprimem também ideal. A imagem do pai na quadra que se segue é, provavelmente, mais expressão de ideal que descrição da realidade:
Senhora lavava, / São José ‘stendia, / chorava o menino / c’o frio que fazia.
(“Senhora lavava”do Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura, de J.R. de Sousa (Leiria: Câmara Municipal, 2004), citada por Mónica Mendes Raposo em As canções de embalar nos cancioneiros populares portugueses. Universidade do Minho, 2009)

** O terceiro verso da quadra de Nobre tem oito sílabas, a não ser que se pronuncie lua como ditongo crescente /lwâ/, o que soa estranho. A canção de Elvas corrige esta irregularidade, eliminando o artigo a. Na glosa de João Linhares Barbosa que refiro noutra parte deste texto, o artigo também é eliminado do mote.

06/09/13

Divertimento em forma de cesto de cerejas

Há vários casos famosos de nomes de produtos que tiveram de ser alterados para serem comercializados em zonas onde o nome original não soava bem. Em Portugal, por exemplo – por poderem suscitar associações com palavras de um registo, digamos, mais familiar –, o Rexona passou a Rexina (para passar depois a Rexona, o que terá mudado entretanto?) e o Opel Ascona passou a Opel 1604 (também havia quem, sem lhe mudar o nome original, deslocasse apenas a sílaba tónica, pronunciando incorretamente [áscona]...). 

Trata-se aqui de adaptações complexas, digamos assim, do nome de um produto a uma língua, mas normalmente a adaptação é bem mais primária e mais espontânea: como qualquer palavra estrangeira, adapta-se à fonética da língua que a adota*; e, como se difunde, normalmente, por escrito, é muitas vezes lido com a lógica ortográfica dessa língua. Ou qualquer coisa que não é bem uma nem a outra: 

Se se limitasse a adaptar-se à pronúncia portuguesa o seu nome, as máquinas Singer chamar-se-iam [sínguer]; se se lesse apenas como se escreve, seriam [singer], com acento na última sílaba; mas, vá lá saber-se porquê, a marca Singer chama-se [sínger] em Portugal. Já o Tide (isto deixou de se vender em Portugal, não foi?, ou mudou de nome?) se pronunciava apenas como se lia, [tid], embora não seja estranha à estrutura fonética do português a sequência de sons [taid], que é como se chama originalmente o detergente. Na pronúncia de Palmolive, também parece ter prevalecido a leitura da palavra como se fosse portuguesa, embora se possa discutir se a acentuação original [pa(l)mólive] encaixa ou não na estrutura fonética portuguesa. A pronúncia de Colgate, em contrapartida, ignora a leitura à portuguesa e aportuguesa apenas a pronúncia original em [colgueite]. 

Parece claro, portanto, que não há aqui nada de muito claro; e que a regra parece ser que não há regra nenhuma... Um caso curioso é o de X-acto. Pronunciando-se [xis-ato] (isto é, [xizato]), como se pronuncia, anula-se completamente o jogo de palavras que funda o nome da marca: a pronúncia original [igzakto] remete para exact, “exato”, mas creio que a grande maioria dos portugueses que utilizam o instrumento não tem consciência disso. 

Fazendo agora um salto um pouco estranho dos nomes de marcas para os nomes de heróis de banda desenhada, chegamos à recordação que me deu a ideia de escrever isto. Um tipo de aportuguesamento muito curioso, que se fez a determinada altura, foi o dos nomes das personagens de banda desenhada: foram completamente alterados, substituídos por outros mais ou menos portugueses. Não é exatamente, note-se, uma originalidade portuguesa: em muitos países se alteraram completamente, nas traduções, os nomes de certas personagens de BD e de animação. Em Portugal, porém, parece que não foi apenas decisão de tradutores e editoras, à procura de nomes mais bem soantes para o público português, mas que havia de facto uma norma a cumprir, não sei se lei mesmo, se algum tipo de diretiva. Nuno Neves diz no seu blogue notas bedéfilas que “[a] censura, então vigente no nosso país, (…) [chegou] mesmo a tornar obrigatório que as personagens estrangeiras adotassem nomes portugueses”. 

E foi assim que Big Ben Bolt passou a Luís Euripo, Johnny Hazard a João Tempestade, Steve Canyon a Luís Ciclone, etc. Alguns destes aportuguesamentos tiveram mais fortuna e foram usados durante mais tempo que outros. Por exemplo, D. Enigma, Calidano, Cavaleiro Ruivo, Rúben Quirino e Roque Texas já tinham desaparecido quando eu era miúdo (eu, pelo menos, não me lembro de alguma vez os ter visto) e usavam-se os nomes originais, respectivamente Mandrake, Matt Marriott, Red Ryder, Rip Kirby e Roy Rogers. Por exemplo. 

Luís Big Ben Bolt Euripo, por John Cullen Murphy

Agora, pensei que, na era de Google, talvez encontrasse resposta à questão que algumas vezes se me pôs: Ciclone e Tempestade, a gente percebe, vá, mas porquê o Euripo de Luís Euripo? O que – ou quem – teria inspirado a escolha de nome tão invulgar? Terá havido algum Euripo pugilista? Ou de alguma forma famoso, mesmo que num meio restrito? Mas nada: pesquisa-se e fica-se a saber que Euripo, embora seja raro, existe mesmo, como nome próprio e como apelido, e só isso. Talvez a escolha tenha sido motivada pelo significado de euripo como nome comum e tenha a intenção didática de nos fazer ir ver a palavra no dicionário. Eu, pelo menos, doutra maneira não a teria ido procurar, porque nunca a encontrei em mais lado nenhum… 

Bom, mas então, onde é que eu ia? Hmmm, a propósito, vai uma cerejinha? O quê, que lhe meta um v entre o r e o e? Também pode ser! 

[Eu não queria encher isto de nomes de marcas, pois não, mas como é que escrevia isto sem eles?...] 
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* Surpreende-me, aliás, que não se tenha imposto a pronúncia /ikeia/ do nome da cadeia sueca de móveis e produtos domésticos Ikea. Seria esta a pronúncia natural em português europeu, resolvendo o encontro das vogais e e a, um encontro que não temos em posição tónica. Não é isso, porém, que eu tenho ouvido em Portugal, mas /ikêa/… Curiosamente, ouço também por vezes /ikê-á/, à francesa. 

[Texto revisto e ligeiramente alterado a 11 de julho de 2023]

 

04/09/13

John Donne revisitado

As pessoas não são ilhas, é verdade; ninguém vive sem tocar a vida de muitas pessoas – muitas vezes, de mais pessoas do que crê. É certo também que, à morte de cada pessoa, é por todos os humanos que os sinos dobram. A formulação de Donne é admirável e este é sem dúvida um dos casos em que a fortuna do texto resulta diretamente do seu valor.

No início da vida, é só a vida que conhecemos. No fim, há de ser só a morte. Entre os dois pontos, há um gradiente irregular: a morte vai entrando pouco a pouco nas nossas vidas. Vamos tomando consciência dela, de forma abstrata e vai-se materializando também na morte dos que nos rodeiam. Quanto mais avançamos na idade, mais possibilidades há, no geral, de ela estar presente nas nossas vidas.

Morreram já pessoas que me eram – e são, em memória – muito queridas. Morreram já muitas pessoas de quem guardo muitas recordações, gratas umas, menos gratas outras, mas que fazem parte de mim. Queria vivas essas pessoas, como todos queremos vivos os nossos mortos, não é?

Temo as mortes que hão de vir. De algumas, sei que hão de vir muito em breve. Penso muito nisso. Está em Portugal a maior parte das pessoas que me são próximas e, quando fui a Portugal nas férias, senti, de forma aguda, a presença das mortes passadas e por vir. Umas levam às outras, acho eu.

E isso fez-me pensar que se pode dizer a humanidade de outra maneira: é porque os sinos ameaçam constantemente dobrar por todos à morte de cada um que nos podemos ver como uma ilha, precisamente – cada pessoa está, sinto eu às vezes, rodeada de morte por todos os lados.

03/09/13

A influência da lua na carne assada e outras questões

 A lua...
Deixai-me pasar a mao
                  polos cabelos da lúa!

Hoxe quero embebedar-me
                  co’a sua beleza núa.

Camaradas,
dai-me escadas
para ir beber na sua
boca
mortes aluadas!
Ernesto Guerra da Cal, “Bebedeira lunática”, in Lua de Alén-Mar, 1959

Lembram-se da superlua, que, afinal, não o foi? É natural, a superlua nunca é super por aí além. [Shari Balouchi explica aqui a superlua depressa e  bem, como dizem não há quem.] Nunca ouviram dizer que a lua cheia é causa de agitação, tanto entre os lunáticos (lunáticos!...) como entre as pessoas… hmm… normais? Bom, ao contrário do que se diz, não se registam mais casos de violência, crimes em geral, suicídio, nascimentos ou acidentes, nem se verifica aumento de ansiedade ou depressão, durante a lua cheia. [Eric H. Chudler reúne estudos e mais estudos numa página do seu site, para concluir que, afinal, a lua cheia não parece ter influência nenhuma nas pessoas.]

Mas, e sobre o crescimento das plantas? A lua tem ou não influência no crescimento das plantas? Tive há algum tempo uma conversa sobre isso com uma amiga minha e ela achava que sim. Já Linda Chalker-Scott, que é entendida nestas coisas (mais que a minha amiga, mas digo-vos isto baixinho e entre parêntesis, para a minha amiga não ficar aborrecida…) diz que não há nenhuma boa razão para acreditar nisso e desmonta, a título de exemplo, um artigo que pretende provar essa influência. Chalker-Scott  diz desse artigo que (traduzo eu), “se [as] [legítimas] referências a ritmos circadianos e diurnos tivessem sido deixadas de lado, as referências bibliográficas seriam muito escassas”. E diz mais:
Muitas das referências usadas [no artigo] como prova de efeitos lunares nas plantas são de qualidade duvidosa, já que não foram revistos pela comunidade científica; são os livros e as palestras em edição de autor. Além disso, para cada artigo que afirma haver um efeito lunar, encontro outro que nega completamente esse efeito. Dito isto, há alguns estudos legítimos que relacionam indiretamente ciclos lunares com a bioquímica das plantas. Por coincidência, a principal autora de um deles é uma amiga íntima e colega minha, cujas credenciais de pesquisa são impecáveis ​​(pode ver-se o artigo aqui).

É aqui que a fascinante e complexa natureza das interações entre espécies ajuda a explicar os dados discordantes. Os ciclos lunares afetam realmente determinadas espécies, incluindo alguns insetos herbívoros que estão dependentes do luar para comerem. Durante a lua cheia, esses insetos comem mais e as populações de plantas afetadas reagem alterando a digestibilidade dos seus tecidos. É provável que estas alterações bioquímicas tenham sido erroneamente atribuídas à influência direta da lua e não à defesa contra os herbívoros.
Linda Chalker-Scott não afirma perentoriamente, porém, que não há influência da lua nas plantas: diz antes que, para se confirmar ou infirmar a influência da lua nas plantas, haveria que realizar experiências de controlo que nunca foram feitas. Se fosse uma questão de linguística, era capaz de ter uma opinião sobre ela. De plantas e lua não percebo o suficiente para ter a minha própria opinião sobre o assunto. Mas não é só o valor de verdade da ideia de que o ciclo lunar afeta as plantas que me interessa aqui. Esta conversa sobre a conversa com a minha amiga é pretexto para outras conversas.

... e o resto
Quero propor à consideração favorável do leitor uma doutrina que receio que possa parecer extremamente paradoxal e subversiva. A doutrina em questão é a seguinte: que é indesejável acreditar numa proposição quando não há qualquer razão para supor que seja verdade. 
Bertrand Russell, Introdução a Sceptical Essays, 1928, traduzo eu
Neste caso, se todas as tentativas de provar a influência lunar falham e não há trabalho feito que respeite as condições necessárias para se poder chegar a alguma conclusão razoável, que boa razão há para acreditar na influência da lua? Mas o facto é que quem planta pela lua, que é uma prática muito antiga, obtém bons resultados, dizia a minha amiga. Claro. Mas quem não planta pela lua também, não é verdade? Plantar pela lua não faz, provavelmente, mal nenhum – sobretudo se a lua não tiver, precisamente, influência sobre as plantas.

Sei de uma história que se aplica bem aqui. Um homem dizia que achava estranho que a mulher cortasse as pontas às peças de carne quando as assava no forno. A mulher insistia que tinha de se fazer assim, senão a carne não ficava como devia ser. Tinha aprendido com a mãe, que sempre tinha feito assim. Um dia, o homem, que já tinha barafustado muito com a mulher, porque achava completamente disparatado o procedimento, perguntou à sogra de onde lhe vinha aquele conhecimento e que explicação tinha para o facto de cortar as pontas a um pedaço de carne o tornar mais tenro (ou mais saboroso, ou mais rápido a assar, já não me lembro). A sogra respondeu-lhe que isso não podia ser, que cortar a carne não alterava nada no assado – ela tinha-o feito muitas vezes no passado quando o pedaço de carne não cabia na travessa de ir ao forno que ela tinha, que era pequenina, e guardava as pontas para fritar*...

É esta a história de muitas tradições em cuja eficácia não há nenhuma boa razão para acreditar, mas que funcionam – como funciona fazer outra coisa qualquer. A carne assada fica boa, se lhe cortarmos as pontas.Também acho muito bem que se tome chá de limão com mel quando se está constipado; mas, muito provavelmente (depende do estado de espírito na altura), farei um reparo a quem me disser que o chá de limão com mel faz bem à constipação… 
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* Nota acrescentada a 19 de junho de 2014: Não me lembro de onde ouvi esta história, mas descobri hoje que, segundo a jornalista Cathy Young no The Atlantic (13-06-2014), é uma história de Karen DeCrow.

02/09/13

O arenque e a sardinha

[Soneto inglês escrito na Dinamarca (sobretudo) para portugueses]

Comei a Sul, senhores, a sã Sardinha:
Que o Arenque se lá chega, chega já
Sem a graça prateada que aqui tinha:
 Marinado ou em barrica e sem agá…

Comei, que aqui, no frio Setentrião,
Que a sardinha só vê – que grande lata! –
Enlatada em Agadir ou em Olhão,
E, espanto!, mesmo assim nada barata,

Que remédio, pois, sem ela a gente passa…
Mas não sem o seu primo matulão
E que rechina mais, quando se assa,
Que a parente sulista, o figurão!

Cada qual deita mão, isso é que é!,
Aos clupeidas que tenha mais ao pé.
[Mais sobre arenques na Travessa do Fala-Só aqui.]









01/09/13

Autoestradas de informação?

Não é a estrada que modela o veículo que nela circula. Obviamente, as autoestradas de informação podem também ser as autoestradas de desinformação. Podem ser, não – são-no de facto, em muitos casos.

Há uns meses, vi de repente invadir o meu newsfeed do Facebook a notícia de que tinham sido proibidos e queimados, na Hungria, os cereais geneticamente modificados. Muita gente se deve ter interrogado e especulado sobre a questão: por que teria sido a Hungria – ou, mais concretamente, o seu atual governo de extrema-direita – a ter uma reação tão violenta contra os OGM? Curioso que sou, e espicaçado, ademais, pelo facto de os links que se iam espalhando pelo newsfeed levarem sempre a páginas de que nunca tinha ouvido falar, fiz o que faço sempre nestas situações: selecionei o título de uma dessas notícias, cliquei do lado direito do rato, escolhi Search Google for... e a pesquisa deu-me centenas de versões da notícia, que podia começar a analisar. Não demorei muito tempo a concluir duas coisas: que a notícia tinha pelo menos dois anos[1] e que não se encontrava em nenhum jornal de referência, ou, pelo menos, num jornal que eu pudesse classificar como “em princípio credível”.

Tenho a certeza de que nenhum dos meus amigos que partilharam a notícia teve o cuidado de fazer o que eu fiz. Porquê? Uns, porque confiaram nas pessoas de quem receberam a notícia; outros, porque se dispõem a aceitar acriticamente como, pelo menos, interessante e merecedor de divulgação todas as ações anti-OGM; e, a grande maioria, porque isso não faz parte das suas rotinas e dos seus hábitos – da sua cultura em sentido lato. Agora, pode considerar-se ligaçoes para este tipo de artigos de jornal – se é que de artigos e de jornal se pode falar – informação?

A histórias dos cereais húngaros é um exemplo apenas, de um sem-número que podia ter escolhido.  “Antigamente”, diz um desses irritantes aforismos apócrifos que correm o Facebook à força de cliques fáceis, “para um boato se espalhar, tínhamos de dar tempo aos barbeiros e aos motoristas de táxi de fazer o seu trabalho; hoje, é muito mais rápido – click & share, temos o Facebook.” Muito pós-modernos na (quase) autorreferência, este aforismo tem, ao contrário da maior parte dos que por aí circulam, realmente visos de verdade…

Agora, no meu newsfeed do Facebook não passa só este tipo de des-informação. Também tenho amigos com uma cultura de rigor informativo, que não publicam ligações para textos sem verificar a sua credibilidade, que não publicam textos apócrifos nem imagens sem referir a autoria, etc. Foi também no newsfeed do Facebook que me apareceu uma ligação para os comentários que Shi Zhou, investigador em Informática, faz a um estudo sobre a evolução do boato nas redes sociais de que é coautor[2].
Uma observação interessante desta pesquisa é que a desigualdade não é reduzida, mas sim intensificada, em redes sociais modernas. A nossa pesquisa sugere que as redes sociais modernas têm de facto aumentado a disparidade entre a qualidade da informação a que os diversos grupos sociais têm acesso. Sabe-se que as pessoas muitas vezes alteram uma mensagem, acidental ou deliberadamente, antes de a transmitir a outros. (…) Nós mostramos que, embora só uma pequena parte da população tenha o hábito de alterar a informação, a maioria da sociedade apenas recebe mensagens repetidamente modificadas. Nem toda a gente, porém, é afetada da mesma maneira. As pessoas com muitas ligações normalmente recebem mensagens mais autênticas que as pessoas com menos ligações. O que é surpreendente é que essa desigualdade não é mitigada, mas antes agravada, em redes sociais, onde as tecnologias modernas permitem a um pequeno número de pessoas adquirir um número de ligações desproporcionalmente grande. Neste caso, os super-relacionados são mais favorecidos, recebendo informação quase genuína muito próxima de sua forma original, ao passo que os solitários, que têm um pequeno grupo de relações nas margens da sociedade, estão irremediavelmente prejudicados por lhes serem sempre transmitidos boatos fortemente distorcidos.
É uma estudozinho e vale o que vale. Não quero, sobretudo que entendam esta citação de Shi Zhou como inserindo-se no espírito, que está longe de ser o meu, de criticar os efeitos do progresso e das tecnologias: “Estão a ver, afinal com a Internet e as redes sociais ainda estamos piores que antes!...” Não é nada disso, mas também é importante, para não cair numa idealização fácil das redes sociais, nunca perder de vista um facto simples para que nos chama a atenção o Daniel Innerarity:
Há muito quem creia que uma nova tecnologia surge no vazio, fora de um contexto social ou económico, mas não é assim. E é por isso que a mesma (nova) tecnologia tem efeitos diferentes em sítios diferentes, ou traz mudanças ”imprevistas” ou ”indesejadas”, em vez das mudanças com que sonháramos[3].
Podemos querer que a Internet e as redes sociais alterem as relações de poder, e podemos fazer algo por isso. Mas não esqueçamos que, à partida, as tecnologias reproduzem sempre as relações de poder existentes. Ou podem até, se a tese de Shi Zhou estiver certa, reforçá-las...
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[1] Não é invulgar começarem a ser difundidas no Facebook notícias antigas, sem que ninguém se dê conta da sua desatualização – e às vezes têm bem mais que dois anos…
[2] Yichao Zhang, Shi Zhou et al. Rumor evolution in social networks. 26 de Abril 2013 University College London (UCL). Podem ler o trabalho aqui, mas algumas partes são muito técnicas.
[3] Daniel Innerarity é professor de filosofia da Universidade de Saragoça e investigador, e as suas ideias são-nos apresentadas por Ismael Peña-López em http://ictlogy.net/20120125-daniel-innerarity-politics-in-the-era-of-networks/, a partir das notas que tirou na conferência Politics in the era of Networks, realizada em Barcelona em Janeiro de 2012.

30/08/13

Heavylogia

Pode ler-se na entrada “Sing a Simple song” da Wikipedia em inglês* (traduzo eu):
A linha de baixo desta canção [de Sly and the Family Stone] foi usada por Jimi Hendrix e pela Band of Gypsys dois anos mais tarde na canção de 1970 “We Gotta Live Together”. Se a linha de baixo foi conscientemente plagiada é tema de muito debate por estudiosos da música.
A palavra que traduzo por estudiosos é scholars, que traz agarrada à ideia de estudo a ideia de erudição. Neste contexto, deve subentender-se depois da palavra música a palavra popular, porque, sem mais, somos levados a pensar nos estudiosos da música mais habituais, que são os estudiosos da música erudita e não é disso que se trata, mas sim dos estudiosos da música pop, incluindo rock, soul e géneros afins. Ah, mas isso existe?

Claro que existe, há estudiosos de tudo. Não acredito que tenha especial importância entre eles o debate do eventual plágio por Billy Cox, em “We Gotta Live Together”, de uma linha de baixo de Larry Graham**, mas claro que existem. E há até vários tipos de eruditos do rock. Há, por exemplo, estudiosos de solos de guitarra. No outro dia, encontrei um vídeo de análise musical, por um rapaz chamado Ben Higgins, de licks de alguns virtuosos de guitarra heavy e afins*** e fiquei impressionado. Notem que, se há coisa a que, na maioria dos casos, não acho gracinha mesmo nenhuma, são solos de guitarra. Se forem solos de hard rock, heavy metal e afins, então, ainda menos graça acho, porque já não são só os solos, mas também os géneros musicais, que me desagradam. Mas, mesmo assim, fiquei impressionado.

Aconselho-vos a porem o vídeo no início da lição, aos 4:45, para não terem de ouvir um solo de guitarra de quase cinco minutos… Vejam a explicação da técnica de Yngwie Malmsteen (o primeiro de 30 guitarristas analisados no vídeo). Ben Higgins parte do princípio que toda a gente sabe o que o modo frígio dominante, embora pressupondo que alguns o conheçam como modo frígio maior (acho que é disto que ele está a falar). Mesmo que não seja esse o vosso caso, não desistam. Podem continuar, com as explicações das tercinas de Van Hallen e por aí fora, até estarem fartos de shredding. Se forem como eu, mesmo impressionados com os conhecimentos e a técnica, fartam-se depressa...

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* Passamos a vida a ler críticas aos aspetos negativos da Wikipédia (que os tem, sem dúvida), mas não se costumam ver louvores dos seus aspetos positivos, de maneira que aqui vai um: Pela primeira vez, há uma enciclopédia com uma quantidade enorme de entradas sobre canções e discos. Diz-me a minha experiência que são, no geral, bastante fiáveis e constituem, portanto, uma excelente ferramenta para quem se interessa pela história da música popular.

** Sim, sim, a Wikipédia tem destes disparates, pois tem. E piores.

*** Para uma definição e historial do termo shredder, o melhor é ir à Wikipédia, a tal enciclopédia que, além dos defeitos, tem coisas que não se encontram em mais enciclopédia nenhuma…

29/08/13

Também há bolos europeus?

Há muito tempo que o meu bolo preferido é o wienerdrøm med pecan. Este bolo que aqui veem. Mais exatamente, é o meu bolo favorito desde que o conheci, há cerca de 12 anos, quando vim morar para a Dinamarca pela primeira vez. Como talvez consigam ver na imagem, se não o conhecem, é um pastel de massa folhada fina (donde ser um wienerdrøm, um sonho de massa folhada fina, literalmente um sonho vienense, já que se chama, em dinamarquês, pão vienense à massa folhada fina), com nozes-pecã. O recheio, que não se vê na fotografia, é de xarope de ácer, essa especialidade canadiana. Sempre pensei, como há de decerto pensar mais gente e também pensa a Wikipédia, por exemplo, que fosse um bolo dinamarquês. E talvez seja, não sei. Não sei se hei de mudar de ideias depois desta história que vos passo a contar. O certo é que, se for dinamarquês, não é, pelo menos, um bolo que se encontre com facilidade na Dinamarca. De facto, só o encontro nas padarias de uma cadeia de supermercados específica. Bom, e em Évora. E na Tapada das Mercês.

Quando vi wienerdrømme (é o plural) med pecan no café do terminal rodoviário em Évora, tive de comer um para saber se era mesmo o bolo que eu conhecia. Chamavam-se agora bolos de mel com nozes. Nunca tinha visto tal bolo em Portugal… E era exatamente a mesma coisa: tamanho, textura, sabor, tudo. As nozes eram pecã e o mel não era mel, era xarope de ácer. Tive de perguntar à senhora do café de onde lhe vinham aqueles bolos. Ou era ela que os fazia? A senhora ficou obviamente embaraçada. Que não sabia bem. Não, não era ela que os fazia, mas não sabia bem quem os fazia… Expliquei-lhe por que lhe perguntava. E ela confessou, por fim, que os recebia congelados já prontos, só tinha que os cozer no forno. Donde vinham, era mesmo verdade que não sabia.

Voltei a encontrar os mesmos bolos num supermercado na Tapada das Mercês. Exatamente iguais. Tenho a certeza que os compram congelados, como a senhora de Évora. Deve haver quem os exporte congelados, se calhar para toda a Europa, não sei… Será uma firma dinamarquesa? Ou será que os supermercados dinamarqueses os importam de outro país qualquer? Que na padaria do meu supermercado local os recebem congelados e só têm de os cozer no forno, disso não tenho dúvidas nenhumas. Mas continuam a saber-me bem. Wienerdrøm med pecan continua a ser o meu bolo favorito. Ou bolo de nozes com mel, se preferirem.

P. S. Já depois de escrever o texto, acho que descobri quem os faz. Mas decidi não vos dizer quem é, entretenham-se com um bocadinho de trabalho de detetive, vá.

28/08/13

Impessoal e transmissível

Em bom rigor, o homem tem tantos eus sociais como o número de indivíduos que o reconheçam e tenham dele uma imagem mental. Ferir qualquer uma dessas suas imagens é feri-lo a ele. Mas, como os indivíduos que têm essas imagens pertencem naturalmente a classes, podemos na prática dizer que ele tantos eus sociais diferentes como o número de grupos distintos de pessoas cuja opinião lhe importa. Geralmente, mostra um lado diferente de si próprio a cada um desses vários grupos. Muitos jovens bastante recatados na presença de pais e professores são malcriados e fanfarrões que nem piratas junto dos seus compinchas “duros”. Não nos mostramos aos nossos filhos como nos mostramos aos nossos companheiros de clube, aos nossos clientes como aos nossos empregados, aos nossos próprios chefes e empregadores como aos nossos amigos íntimos. Daqui resulta o que, na prática, é uma divisão do homem em vários eus; e esta divisão pode ser discordante, quando uma pessoa tem medo de deixar um grupo de conhecidos saber como ela é noutro lugar; ou pode ser uma divisão perfeitamente harmoniosa do trabalho, quando se é terno para com os filhos e severo para com os soldados ou prisioneiros sob o seu comando.
Estas palavras são de William James[1] e todos temos provas sobejas de que são perfeitamente acertadas, mas, se somos capazes de o admitir nalguma folgada discussão de fim de semana, recusamo-nos (porque será?) a usar estes sábios ensinamentos na análise quotidiana do mundo e, no geral, refugiamo-nos na crença fácil de que as pessoas têm personalidade estáveis que carregam sempre consigo de situação para situação, de relação para relação. E os estudos de psicologia, que estão fartos de provar, sei lá, por exemplo, que nem o riso nem a crueldade estão apenas dentro das pessoas, continuam, o mais das vezes, a avaliar traços de personalidade (gentileza, agressividade, criatividade, inovação, etc.) através de questionários simples descontextualizados… Não que uma pessoa não possa ter traços de carácter diferentes de outra pessoa, ou capacidades; mas não creio o que o seu conjunto seja um eu estável, independente de circunstâncias. Por muito que isso choque muita gente, “o meu verdadeiro eu”, “o teu verdadeiro eu”, acho que isso não existe.
Enfim, a questão pode, claro está, analisar-se de vários ângulos. Um deles é o de Jorge Luis Borges em “La Nadería de la Personalidad[2]”.
Não há tal eu de conjunto. Equivoca-se quem define a identidade pessoal como posse privativa de algum repositório de memórias. Quem tal afirma abusa do símbolo que reflete a memória como figura de duradouro e palpável celeiro ou armazém, quando não passa do nome pelo qual indicamos que, entre a inumerabilidade de todos os estados de consciência, muitos voltam a ocorrer de forma esbatida. Além disso, se a personalidade radica na memória, a que posse pretender dos instantes cumpridos que, por quotidianos ou envelhecidos, não gravaram em nós uma impressão duradoura? Empilhados em anos, jazem inacessíveis à nossa ansiosa ganância. E que a memória decantada, de cujas falhas interpondes recursos, evidencia alguma vez toda a sua plenitude de passado? Vive por acaso em verdade? Enganam-se também os que, como os sensualistas, concebem a personalidade como a soma de estados de ânimo alinhados. (...)
Ninguém que nisso medite aceitará que, na conjetural e nunca realizada nem realizável soma das diferentes situações do ânimo, pode estribar o eu. O que não se leva a cabo não existe e o encadeamento dos factos em sucessão temporal não os refere a uma ordem absoluta. Erram também os que supõem que a negação da personalidade, a que, com tão persistente afinco, vou instando, desmente essa certeza de ser uma coisa isolada, individualizada e distinta, que cada qual sente nas profundidades da alma. Não nego essa consciência de ser nem essa segurança imediata do “aqui estou eu” que respira em nós. O que eu nego, isso sim, é que as demais convicções devam ajustar-se à consabida antítese entre o eu e o não eu e esta seja constante. A sensação de frio e de espaçada e grata liberdade que há em mim ao atravessar o saguão e avançar pela quase escuridão da rua não é um acrescento a um eu preexistente nem acontecimento que traga consigo outro acontecimento de um eu contínuo e rigoroso.
[Como puderam seguramente constatar, Borges tinha, na juventude, um estilo bem mais floreado que o que lhe conhecemos depois e eu hesitei muito em traduzir este excerto – que não tenho, aliás, a certeza de ter traduzido como devia (mas confiram vocês próprios).]
Podia – devia, provavelmente – ficar-me pela elegância de Borges para fechar o texto. Mas há outra questão que quero aqui levantar, ainda relacionada com personalidade, mas de teor bem diferente: não se a personalidade é una, mas se a devemos querer una. Quer dizer, se é de louvar, como tantas vezes se louva, o empenho em manter-se permanentemente reconhecível, “igual a si próprio”; se é de louvar a vontade de transferir de uma situação para outra, e uma relação para outra, de um tempo para outro, um conjunto de traços de caráter que cremos – e queremos que os outros creiam – constituir-nos essencialmente. Gostos, maneiras de agir. Diz-se que Borges, por exemplo, gostava muito de arroz com queijo e que, de uma vez que jantou no Maxim’s, insistiu em comer arroz com queijo, imaginem... Há quem, em todas as companhias, afivele o mesmo ar e as mesmas maneiras – que acha que se deve sempre ter. “Eu sou assim”, dizem alguns, “e quem não gostar de mim assim, paciência…” Mas eu tendo a pensar mais nesse ser sempre assim, como defeito, sabem?, uma incapacidade – muitas vezes cultivada, ainda por cima… – de se adaptar a meios novos, de não ver sempre o mundo com os mesmos olhos.
Podemos juntar, neste texto, as crenças ou convicções aos traços de personalidade? Acho que sim. Aliás, nem sempre é fácil determinar onde terminam umas e começam outros. Porque se louva amiúde a coerência de alguém ou, como se diz às vezes, a sua firmeza ou a sua personalidade – mesmo quando não se concorda com aquilo em que o outro é coerente? É claro, se se pode ser coerente tanto com atitudes e crenças louváveis como com atitudes e crenças indesejáveis, a coerência não tem, por si só, nada de louvável à partida. Nem de criticável, é certo… Mas coerência significa, muitas vezes, teimosia, resistência ao outro, às vezes tacanhez. Que não há ninguém que não tenha de mudar, e mudar muito – se aceitar que o que é novo pode ter tanto ou mais valor que o que tem já dentro de si; se não pensar que só é bom aquilo que já é.
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[2] In Inquisiciones. Madrid: Alianza.1994. Primeira edição: 1925.

27/08/13

E dei comigo a pensar...


Bem veem, na minha infância e adolescência, o meu pai, como muitos homens desse tempo, não passava muito tempo em casa. Jantava connosco quando jantava, às vezes lá passava um fim de semana a jardinar no quintal, mas acho que, no geral, o víamos relativamente pouco. E há bocado dei comigo a pensar: "Ena, o que os meus filhos não davam para ter um pai assim!..."

"O Tao do Riso" (pormenor) de Yue Min Jun. Foto de Maagwokhuaeo, Wikimedia Commons



25/08/13

De estranhas e felizes coincidências

Há muito tempo que este blogue está calado. Falta de tempo, férias, falta de tempo outra vez. Mas recomeça hoje e espero ser, de hoje em diante, mais regular. Quero contar-vos uma história:

Nathalie Rissler é australiana e órfã de pai e mãe. Passou os seus dezoito anos de vida em orfanatos estatais. Há cerca de meio ano, inscreveu-se num programa de intercâmbio para pré-universitários: queria ir passar um ano ao Brasil. Infelizmente – ou felizmente, já verão por quê –, não teve vaga. E a Dinamarca?, propuseram-lhe. Não gostava de passar antes um ano na Dinamarca? Nathalie hesitou. Tinha sonhado com samba e praia. Por outro lado, a Dinamarca interessava-a, porque sabia que o seu pai, que nunca conhecera, era de origem dinamarquesa. Porque não?

Foi assim que Nathalie foi parar a Esbjerg, uma bonita cidade de província com pouco mais de 100.000 habitantes, na costa ocidental da Jutlândia. Nathalie gostou da cidade. Começou a conhecer pessoas. Ao fim de um mês de lá estar, viu um salão de cabeleiro que tinha por nome o seu apelido e decidiu que estava a precisar de lá arranjar o cabelo. Contou à cabeleireira – em inglês, claro, que em dinamarquês só sabia ainda dizer meia dúzia de frases – que também se chamava Rissler e que tinha antepassados dinamarqueses. A cabeleireira disse-lhe então que conhecia outra pessoa de apelido Rissler que andava, precisamente, à procura de familiares na Austrália. “É uma senhora também daqui de Esbjerg, que nem sequer é da minha família, o que é estranho, porque o apelido Rissler é raríssimo na Dinamarca. Só há mesmo meia dúzia de Risslers em todo o país. Acho que devias entrar em contacto com ela.”

Nathalie entrou mesmo em contacto com Dorthe Rissler. Encontraram-se, conversaram, Dorthe fez alguma investigação suplementar. E não havia dúvida: Nathalie era mesmo sobrinha-neta de Dorthe.
A história é a seguinte: Henrik, irmão de Dorthe, tinha uma namorada por quem estava loucamente apaixonado. Isto foi há cerca de 45 anos, estava Dorthe no fim da adolescência. A namorada de Henrik morreu num desastre de carro e Henrik ficou muito perturbado. Desapareceu. Cerca de um ano mais tarde, a família recebeu um postal de Brisbane. “Vim para a Austrália”, dizia Henrik. “Acho que vou ficar por aqui. Abraços e saudades do vosso filho e irmão.” E nunca mais receberam dele nenhum sinal de vida. Dorthe tinha conseguido descobrir que Henrik tinha tido um filho, que tinha morrido muito novo, com pouco mais de 20 anos. O rapaz fazia parte de uma banda de Hell’s Angels e andava metido em negócios pouco recomendáveis. Ele e a mulher foram mortos a tiro por um bando rival. Ficou sozinha no mundo a filha bebé do casal, Nathalie.

Agora, Nathalie ganhou na Dinamarca a família que nunca teve na Austrália. Dorthe organizou já uma grande reunião familiar, para apresentar Nathalie aos outros Risslers. Está planeada outra grande reunião da família no Natal. Se Nathalie vai acabar por ficar na Dinamarca, isso não sei.

Já se sabe que a realidade é muitas vezes mais inverosímil que a ficção. Aqui têm, pois, mais uma prova disso: esta história é verdadeira e foi-me contada há pouco tempo por uma prima afastada de Nathalie. Tirando alguns pormenores secundários, que acrescentei só para fazer fluir a narrativa, e os nomes, que são inventados por mim, a história passou-se mesmo no mundo real, com pessoas que existem fora deste texto. E em Esbjerg, precisamente, que foi o único nome próprio que não alterei nesta história. Agora, se tivesse inventado esta história, era capaz de pensar, ao relê-la, que tinha exagerado um bocado nas coincidências: de todos os países que participam em programas de intercâmbio pré-universitário, Nathalie tinha logo de ter ido parar, sem de facto o ter escolhido, à Dinamarca; e, todas as cidades da Dinamarca, tinha logo de ter ido parar a Esbjerg, berço da família Rissler; e, sobretudo, tinha logo de ter um apelido assim tão fora do vulgar – chamasse-se ela Nielsen ou uma coisa assim e nunca encontraria a família dinamarquesa.

12/07/13

[Encerrado para férias]

Se não se tem passado quase nada neste blogue nos últimos tempos, menos ainda há de passar-se até meados de agosto: vamos de férias! Mas prometo mais atividade depois de restauradas as energias, sim?, e, como dizia o outro, agradeço a vossa continuação. Boas férias para vocês também!

02/04/13

Os pensamentos são como as cerejas

Recordação de juventude: tinha um amigo que dizia que, se um marujo vive do mar, quem vive do ar é araújo. Conheço uma pessoa de apelido Araújo que deve estar agora na Bolívia de férias. Talvez em Sucre, que era um dos seus destinos. Em Sucre, veem-se penduradas dos fios telefónicos umas curiosas plantas de que quase se pode dizer que vivem do ar. Mas não é araújas que se chamam quando assim vivem: são aerófitas,que é uma forma específica de serem epífitas

Imagem de Wikimedia Commons: Tillandsias em fios telefónicos em Serrano, Bolívia


Relativismo, diz ele

Conheço um pessoa que, quando quer realçar que mora mesmo ao pé da praia, diz que tem a praia mais próxima a uns 300 metros de casa, se tanto; e que, quando fala do percurso diário de jogging, conta um quilómetro de casa à mesma praia. A praia em questão, tive já oportunidade de o constatar, nunca sai do mesmo lugar, independentemente do que essa pessoa diga da sua situação.

Que tudo é relativo? Que 600 metros de esforço são mais compridos que 600 metros de prazer? Ó filho, deixa-te disso!, como dizia a minha saudosa avó. A questão é antes saber quando é que à despreocupada falta de rigor ‒ ao sabor do sentimento ou da conveniência, é conforme ‒ se pode começar a chamar simplesmente mentira.

21/03/13

Amordaçam-nos e atam-nos as mãos

Poul Henningsen (1894‑1967), mais conhecido por PH, era um homem de muitos talentos: foi crítico literário, jornalista, poeta, cineasta, letrista, designer e arquiteto. É, sem dúvida um dos nomes importantes da cultura dinamarquesa no século XX. As suas criações mais conhecidas são provavelmente os candeeiros, que começou a desenhar em 1925 e de que vos apresento aqui dois dos mais famosos, ambos de 1958. A Alcachofra é um candeeiro sofisticado, considerado por muitos uma obra-prima de design. Muito mais simples, o PH5 é, provavelmente, o mais popular candeeiro dinamarquês. Ainda hoje se comercializa e encontra-se em muitas casas (nós temos um).
A Alcachofra, à esquerda, e o PH5, dois famosos candeeiros de Poul Henningsen (imagens de Wikimedia Commons)
Posta esta luminosa introdução, passo agora a apresentar-vos o tema central deste texto: não é da vida e obra de PH em geral que quero falar-vos, nem dos seus candeeiros, mas sim de uma canção de que escreveu a letra e que se tornou um símbolo da contestação e resistência à ocupação da Dinamarca pelos nazis: “Man binder os på mund og hånd”. É não só uma canção histórica, como também uma obra-prima da canção dinamarquesa. E fascina-me que uma canção que, além de ser um ataque relativamente claro à ocupação alemã, critica directamente a própria censura, tenha conseguido contornar essa mesma censura. Talvez isso se deva a que a crítica aos compromissos amorosos, que é o seu tema imediato, fosse, no fundo, muito mais do que apenas um artifício retórico de PH. A canção também é mesmo, afinal, uma crítica sincera do amor como contrato ‒ e a censura não conseguiu deixar de a entender assim. Deixo PH contar-vos a história.
Logo após a ocupação, no verão de 1940, escrevi “Man binder os på mund og hånd” para a Liva Weel, na revista Dyveke, mas para a música de um tango de Kai Normann Andersen, e não se costuma usar tangos para canções patrióticas. As preocupações eram bastante grandes.
Foi também um bocado pérfido da minha parte. Só a última estrofe é que era a canção patriótica, ao passo que a primeira era sobre um amor altamente imoral e a do meio, que não está no disco, era um ataque violento ao sagrado matrimónio.
As pessoas de bem tinham também de ouvir essas coisas desagradáveis ​​para ouvir a estrofe patriótica, que Liva cantava emocionada perante um profundo silêncio do público. Mas foi, em parte, uma boa maneira de enganar os alemães, para eles não proibirem a música, e foi também, de minha parte, um pouco para provocar os burgueses. Não me apetecia dizer apenas o que as pessoas queriam ouvir.
Traduzo a seguir a canção. É uma tradução em prosa e feia, aviso, que vos permite ficar a saber o significado das frases (ou mais ou menos, porque às vezes sou obrigado a fugir à literalidade em demasia), mas não vos dá nenhuma ideia do seu conteúdo estético ‒ não sei traduzir isto como deve ser. Uma nota só sobre o título, que é também a frase que inicia o refrão: traduzo por “amordaçam-nos e atam-nos as mãos”, porque acho que em português não se pode atar a boca às pessoas, mas, literalmente, é isso que o texto diz: atam-nos ou amarram-nos pela boca e pela mão. É esta ambiguidade que funda o texto: atam-nos pela boca (o sim do casamento, as juras de amor) e pela mão (o anel, o gesto de juramento?) podem entender-se também como amordaçam-nos (a censura) e atam-nos as mãos (a prisão literal, a impossibilidade de agir?). 
I. As crianças, gananciosas, querem deitar a mão a tudo o que brilha. As pessoas maduras prendem as outras com um anel. Quantas vezes não parámos com alguém, em frente a uma montra, a dividir as coisas expostas. Eu fico com isto, eu fico com isto! E a vida também é assim.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito e é difícil libertar-se. Jogamos às escondidas com alguém que sabe proteger-nos da solidão. Com doces contratos, deixamo-nos levar. Se fosse proibido dizer “juro”, teríamos uma forma mais honesta de amar. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram um breve momento, até a alegria desaparecer e tudo acabar.
II. Amor e casamento: que tem uma coisa a ver com a outra? O bocejo vazio do tédio, até a boca não abrir mais. O amor é flor selvagem, murcha às mãos do jardineiro. Protegê-lo faz-lhe mal, mas floresce, ardente, na tempestade e na neve.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito, mas ninguém pode ser dono de ninguém. Libertamo-nos. Em cada carícia há uma fuga, os sentidos ao rubro que fogem dos trilhos atarefados e batidos dos deveres. Eu não sou teu, tu não és minha. Os meus beijos não são sim nem não. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram esse estonteado momento, que é precisamente o beijo que me dás tu de quem eu gosto. 
III. Ir ao encontro do que nos espera e ninguém sabe como as coisas correm; carregar o destino sem rejeição, venha o que vier; feliz com os gestos amigos, mas sem acreditar que são para continuar; procurar a paz, porque sabemos que não exigimos a paz.
Amordaçam-nos, atam-nos as mãos, mas não se pode atar o espírito, e ninguém é prisioneiro, quando o pensamento é livre. Temos uma fortaleza interior que se fortalece com o seu próprio valor, quando lutamos por aquilo de que gostamos. Quem mantém a alma aprumada nunca pode ser escravo. Ninguém pode mandar no que nós próprios decidirmos. Isso juramos nós, com palavras e gestos, na escuridão que precede o amanhecer, que o sonho da liberdade nunca acabará.
Depois de tão longa introdução, a canção propriamente dita, que começa ao fim do primeiro minuto, depois da explicação de PH transcrita acima. As partes cantadas são a só a 1ª e a 3ª do texto traduzido. Espero que gostem. Eu gosto muito. E embora até aqui tenha falado só da letra, não é só da letra que gosto: também acho bonita a melodia e acho que Liva Weel a canta muito bem.
No blogue Imagens com texto, J.J.Amarante tem uma série de posts sobre candeeiros dinamarqueses, incluindo os de PH.
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P.S.: O conteúdo político da canção é mais óbvio numa parte que aparece, em certas transcrições da canção, antes da que aqui apresento como terceira. Li algures que só foi descoberta recentemente. Acho curioso que essa parte não seja referida no discurso de PH que se ouve no vídeo e que traduzi acima. Será que é mesmo dele? Na página de blogue onde fui buscar as transcrições que aqui usei, sugere-se que talvez PH tenha feito essa terceira parte de propósito para ser censurada e desviar assim a atenção da censura das outras três partes. O texto do blogue é de 2011, mas tinha ouvido exatamente o mesmo, 10 anos antes, de uma das minhas professoras de dinamarquês. Aqui fica também a tradução da parte em questão:
Mesmo quando os navios se afundam, um após outro, e os países um após outro são arrasados, age-se com honestidade e cada qual reza ao seu deus. Tratados de paz e pactos de amizade são papéis que custam sangue. O fraco arma-se contra o forte, com a desesperada coragem que o medo lhe dá. Vale tanto para o amor como para a guerra: todas as juras são engano e ninguém pode confiar na palavra de ninguém.
O que ajudaram os apertos de mão que deram àquela que ali está junto da sepultura do marido? Uma pessoa não vale nada perante a terra sagrada.
Medo dos nossos inimigos? Sim, mas mais medo da grande potência que nos quer ajudar e nos chama amigos. É assim nas guerras de todos os tempos, as garantias são enganos apenas e ninguém pode confiar na palavra dos Estados.

13/03/13

A neve da Ütopya


Nos últimos meses, tenho visto em vários sítios a imagem acima. Curioso, fui pesquisar no Google images a sua origem. E descobri outras imagens do mesmo lugar. Uma delas tinha neve:
Surpreendeu-me a neve. Por um lado, tinha entretanto descoberto que o painel era da Universidade de Başkent em Ancara[1] e eu não sabia que nevava em Ancara. (Mas fui informar-me e agora já sei que sim, que neva.) Por outro lado, é simplesmente estranho para mim associar neve à Utopia. Preconceito apenas, falta de hábito de ver lado a lado as duas coisas. O painel diz claramente que a Utopia está a uma distância infinita e é claro que há sítios com neve a uma distância infinita de Utopia. A Utopia é que não tem neve, não são os sítios onde ela é indicada.
A Utopia não tem neve? A Utopia não tem neve porquê?, há de haver quem pergunte. Não é até comum elevar-se a ideal os países do Norte, com a sua riqueza e os seus índices de bem-estar e felicidade? Bom, se utopia for sinónimo de “ideal”, com certeza que há utopias com neve. E sem ela, e com todo o tipo de climas e gentes e culturas. Eu é que me acostumei a dar à palavra utopia um sentido mais restrito e é sempre esse sentido que me vem à mente quando a ouço:
Quando Thomas More publicou, em 1518, o seu livro A utopia ou tratado da melhor forma de governo, inaugurou um modelo, em parte narrativo mas sobretudo filosófico, político e moral, que teve, durante mais de dois séculos, uma fortuna imensa ‒ foram escritas dezenas de obras, em muitos aspetos parecidas entre elas e com a obra de More, que constituíram um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. A história é praticamente sempre igual: um viajante europeu chega a uma ilha, fora dos espaços conhecidos na Europa, onde encontra uma sociedade “perfeita”. E apresenta depois essa sociedade perfeita aos seus conterrâneos, mostrando-lhes, com a perfeição dessa sociedade distante, as contradições e os defeitos da sua própria sociedade. É sempre neste modelo, com ideias e imagens bem definidas, que penso, quando penso em utopia, porque me dediquei, durante alguns anos, a estudá-lo. E é também por isso que a palavra não tem sempre, para mim, a conotação positiva que tem para a maior parte das pessoas: se há aspetos que me agradam nestas utopias, há também outros que me desagradam muito…
Mas de que ideal dão conta essas narrativas, afinal? O que têm em comum entre elas essas sociedades ideais que os viajantes europeus encontram ao cabo de longas viagens imaginárias? É obviamente impossível listar aqui todas as suas características, mas podem resumir-se algumas linhas de força do ideal utópico:
Antes de mais, a utopia é sempre uma ilha (se não literalmente, pelo menos simbolicamente), às vezes murada, sempre de difícil acesso. Obsessivamente geométrica, é sempre uma cidade ou um conjunto delas, construída em planícies artificiais depois de arrasadas as primitivas florestas. É neste cenário que seres uniformizados (ao ponto de usarem, de facto, uniformes) vivem vidas “perfeitas” porque aboliram de vez o mal supremo da irracionalidade e as suas vidas são reguladas até ao mínimo detalhe por leis “perfeitas” ‒ que muitas vezes lhes foram oferecidas por um sábio legislador e que eles aceitaram de bom grado, de tão justas que eram.
Tudo é lógico e prático, tudo está regulamentado racionalmente. Este é, talvez, o traço mais universal da Utopia. Até o amor e o sexo são regulados logicamente, sempre de acordo com os interesses da comunidade. A religião também é sempre inabalável de razão, tingida de cientismo e filosofia. E as línguas que se falam nas utopias são, também elas, além de perfeitas na sua capacidade de fazer coincidir a palavra com o que ela nomeia, de uma regularidade impressionante, matemática.
Outra ideia fundamental da utopia é a de educação. Os utopistas atribuem à Natureza tudo o que há de mau no mundo (os sentimentos, a mentira, a inveja, o gosto do excesso e do supérfluo, o cultivar da aparência, etc.) e é, pois, preciso educar para a cidadania. A educação utópica é um dos seus aspetos revolucionários: é muitas vezes universal e desde o início da infância, e é ao mesmo tempo cívica e profissional. Mas não é só para ensinar razão e cidadania que a educação serve ‒ serve também para ensinar a obedecer, a ser ajuizado e dócil e... bem condicionado.
Ideal igualitário ‒ embora as hierarquias existam sempre e sejam bem visíveis e bem respeitadas, por “necessidade” do sistema de governo ‒, a propriedade privada não existe na utopia, até porque não contam o privado nem o indivíduo, apenas a sociedade.
A felicidade próspera da utopia é reservada aos habitantes dessa ilha e os contactos com os povos vizinhos, ameaçadores, quando os há, limitam-se a relações comerciais e à guerra (a educação militar é, aliás, uma componente importante da educação cívica utópica). É uma ilha, não o esqueçamos. Algures na zona quente do globo.
Estão a ver onde é que eu queria chegar? A Utopia de Thomas More, a Nova Atlântida de Francis Bacon, a Terra Austral de Gabriel de Foigny e outras Terras Austrais, a maioria das utopias, enfim, não fica em zonas frias. Provavelmente, pode pensar-se, porque os climas quentes são o ideal de todos os humanos, animais tropicais que nós somos. É certo[2]. Mas é também porque as Utopias são, pelo menos em parte, o Novo Mundo, os novos mundos a colonizar. Há um pormenor que me parece fundamental no edifício utópico (ou, devo insistir, num número significativo de utopias, já que não é um traço constante) e que tem sido muitas vezes ignorado: é que as utopias foram erigidas a partir da dominação ou da destruição de um povo “selvagem” que habitava anteriormente as ilhas utópicas. Não é que a utopia apresente diretamente uma justificação, ou que faça diretamente a apologia, da dominação, do extermínio ou da civilização dos povos “selvagens”. Mas isso está inscrito na sua ideologia e no seu imaginário, segundo os quais o “natural” deve ser civilizado, racionalizado.
A utopia foi, como disse, um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. Ora o polo oposto é, precisamente, a idealização das sociedades “selvagens”, que é a exata negação de tudo o que a utopia preconiza: o ideal primitivista funda-se no louvor da ausência[3] de leis, de educação, de necessidade de racionalização; no louvor, enfim, de uma “generosa ordem natural”. Há, porém, um ponto comum aos dois ideais, uma ideia fundamental da radicalidade igualitarista do período clássico ‒ a ausência de propriedade. Mais simpático aos olhos de muitos de nós que a estrutura rígida, tentacular e totalitária que a utopia em grande parte é, este ideal contrário, primitivista, é um produto, afinal, da incapacidade de compreender o Outro (nesta época, sobretudo o nativo americano).
A partir do momento em que a ideia de História vem ocupar o lugar central do pensamento europeu, a utopia vai, progressivamente, deixando de se situar numa ilha distante para se situar num futuro mais ou menos longínquo. O “selvagem”, cada vez menos louvado como ideal, é deslocado pelo pensamento europeu para o extremo oposto da História: tornado “primitivo”, passa a habitar um tempo “anterior” ao nosso e, por isso mesmo, “inferior”.
No século XX, alguns intelectuais europeus começam a desmontar estas ideias e a utopia revela então outra face: em textos como o famoso 1984 de Orwell, torna-se distopia. Mas, no fundo, a distopia não é muito diferente da utopia ‒ foi o olhar sobre a utopia que mudou...
[Toda a exposição atrás é demasiado breve e demasiado esquemática e faltam-lhe, por isso, muitas nuances interessantes. Paciência. Num texto de blogue, porém, não cabe muito mais, acho eu. Muita da informação que aqui apresento é em segunda mão, porque eu, embora tenha lido algumas utopias, não as li em número suficiente para tirar tão abrangentes conclusões. O modelo de oposição entre utopia e primitivismo vem de Christian Marouby (Utopie et primitivisme. Essai sur l’imaginaire anthropologique à l’âge classique, Paris: Seuil, 1990, uma obra que me influenciou muito e que recomendo vivamente). Na Travessa, há um texto sobre as línguas das Utopias aqui, e estou a pensar fazer um texto mais desenvolvido sobre esse tema.]
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[1] Não tenho a certeza absoluta, mas tenho boas razões para acreditar que se trata de um trabalho de Furkan Şener que se encontra (ou encontrou) na Universidade de Başkent em Ancara (ver aqui ou aqui)
[2] Um utopista, Robert Burton, di-lo até muito diretamente no capítulo "An Utopia of Mine Owne" da sua Anatomia da Melancolia de 1621: Para ele, uma má situação geográfica era um dos fatores que causava a “melancolia” dos reinos que conhecia, pelo que a sua Utopia seria fundada num lugar remoto ‒ na Terra Australis Incognita, numa ilha do Pacífico Sul, no interior da América ou no Norte de África ‒  a cerca de 45 graus de latitude, para ter um clima temperado. 45 graus de latitude significa a utópica mesura: exatamente a meio caminho entre o polo e o equador! Não é dos paralelos 45 reais que se trata. Robert Burton talvez nem soubesse que regiões efetivamente atravessavam…
[3] É muito curioso verificar que este ideal primitivista é, ao contrário, da Utopia, construído negativamente: os povos naturais são bons porque não têm certas coisas (propriedade, hierarquias, leis, governo, roupas, pudor, etc.), que o primitivista identifica como culpadas do mal-estar europeu. A definição negativa do ideal não é nenhuma inovação da literatura primitivista, mas antes retomada do motivo clássico da Idade de Ouro, que também é sempre descrita negativamente.

09/03/13

Famílias


[Este blogue tem estado muito parado, por várias razões. Uma delas é que os textos parece que andam enguiçados - não me sai o que quero, não gosto do que escrevo. E este é o mais enguiçado de todos. Há meses que muda de forma e nunca mais o acho apresentável. Mas enfim, vai como está, a ver se quebro o enguiço. Talvez vocês possam ajudar-me a melhorá-lo...]
Familles, je vous hais ! foyers clos ; portes refermées ; possessions jalouses du bonheur.
 André Gide, Les Nourritures Terrestres, 1897
 
Famílias, odeio-vos! Lares fechados; portas fechadas; possessões ciumentas da felicidade. A frase é famosa. Nunca li André Gide e não sei onde ele quer chegar com ela, mas já a vi dezenas de vezes na minha vida. E creio saber donde lhe vem a fortuna: é que toda a gente, mesmo quem mais preza e louva a família, não pode deixar por vezes de sentir isso mesmo, que detesta a família, as famílias todas. Que nos traga muitas coisas boas, a família, não tenho dúvidas de que traz; que é fonte de conflitos e mal-estares, também tenho a certeza absoluta. Mas não é sobre a família em geral que aqui vos falo, que nestes textos de blogue não acabem assuntos tão vastos.
  

Vou contar-vos uma história verdadeira:
C. trabalhava na empresa da família. Era um dos diretores, abaixo do pai, e o principal estratega da firma. De facto, era ele o motor da firma. Para além de C. e do seu pai, trabalhava também na firma o irmão de C. Não era exatamente, aos olhos de C., o trabalhador mais competente, mas C. nunca pôs em causa que houvesse lugar para ele na firma. Fora do trabalho, C. e o irmão davam-se bem e, com as respetivas famílias, passavam juntos muitos fins de semana.
O pai de C. tinha da firma uma conceção radicalmente familiar, se me faço entender: achava que o irmão de C. devia entrar para a direção, porque era na direção o lugar natural dos membros da família. C. opôs-se, que era um grande disparate, que um cargo daqueles não se podia dar assim a alguém só por ele ser da família, que o irmão estava longe de ter as competências necessárias e que pô-lo na direção era desgraçar a empresa. Perante uma tão grande falta de respeito pelos valores sagrados da família (a “ciosa possessão da felicidade”), o pai de C. despediu-o. Ao fim de 20 anos de dedicação à firma, C. vê-se de repente despedido pelo seu próprio pai da firma de que é sócio.

A família nuclear sempre foi, em parte, um espaço de transmissão de saberes e sempre foi um círculo tão natural de favorecimento que só fora dela os favorecimentos são ilícitos. Pode criticar-se compadrio e nepotismo e não deixa de ser interessante que as palavras nepotismo e compadrio, para designar o favorecimento especial de pessoas próximas, tenham origem em termos que não designam as relações familiares ditas nucleares[1]. Nunca se ouviu criticar filhismo, padrismo ou hermanismo ‒ parece que o favorecimento de pais, filhos e esposos é tão natural que não pode ser criticado. Mas o facto é que, se a família sempre foi funcionando, melhor ou pior, como unidade empresarial, é claro que, como a história do meu amigo o prova, ser mãe, pai, filha, filho, irmã ou irmão não é hoje currículo que satisfaça gestores de empresas. Nunca devia ter satisfeito, não é?, mas antigamente a gestão de empresas não era saber técnico, era condição herdada, traço familiar.

Agora, parece-me a mim que não é só como unidade empresarial que a família se mostra amiúde pouco adaptada à realidade de hoje – também como unidade de segurança social para apoio aos mais velhos.
Há muito quem veja com maus olhos que as formas de solidariedade direta, ou mesmo a “generosidade”, tenham sido superadas pela reivindicação dos direitos abstratos. Falta-me informação: não sei se as formas de solidariedade direta existem hoje menos do que existiam e, se for esse o caso, não sei se se pode atribuir essa diminuição à instituição da formas de solidariedade mais abstrata (chamemos-lhe ação social). A ideia que tenho, porém, é que, no que respeita ao apoio aos idosos, a família nuclear se presta hoje mal a esse papel ‒ e provavelmente sempre assim foi…Vejo amiúde infiltrar-se muito romantismo na discussão, mas o facto é que, ao contrário do que muitos afirmam, foi em sociedades em que a assistência aos idosos depende exclusivamente ou quase exclusivamente da família que ouvi as mais terríveis histórias de maus tratos aos velhos ‒ e de velhices difíceis e tristes, enfim[2]. A mim (que não sou muito de acreditar no que se diz, mas que, como disse, tampouco tenho, por outro lado, dados concretos em que me possa fiar…) não me surpreendem essas histórias ‒ perturbam-me, isso sim, e acho que não deve ser assim.
 A família é um espaço de muitos afetos e de avaliações muito subjetivas de direitos e deveres. O dever de apoiar os familiares idosos resulta, em muitos casos, em conflitos insolúveis e em permanente mal-estar – e na ausência de cuidados efetivos. Dito de outra maneira, o direito a assistência na terceira idade não deve depender de afetos nem ser, mesmo parcialmente, condicionado por eles. Um passo fundamental é, parece-me a mim, deixar de contar oficialmente a família como provedor de apoio aos mais velhos. Há alguns meses, contava-me uma amiga minha, que é assistente social em Portugal, as muitas situações dramáticas que causa não dar apoio social a certas pessoas, por se contar como rendimentos delas os rendimentos dos filhos. É claro. Agora, obviamente, a solução não é controlar os filhos e obrigá-los a darem apoio aos pais, se o não quiserem dar. A solução é que os deveres de apoio sejam transferidos na totalidade para uma instância neutra ‒ o Estado.
Já agora, quero recordar a quem se insurge contra eles por “artificiais” ou “pouco humanos” que os sistemas “abstratos” de ação social fazem parte de uma categorial moral naturalíssima de todas as sociedades humanas: a reciprocidade indireta. Em qualquer sociedade, o altruísmo não funciona só relativamente a pessoas específicas ou dentro de círculos específicos de que se espera retribuição, mas existe também para com as pessoas em geral, esperando que as pessoas em geral nos façam bem. Contribuímos para os nossos familiares, obviamente, ao contribuir para todos. Numa formulação célebre, se vamos ao enterro dos outros, haverá quem venha ao nosso, mas não forçosamente aquelas pessoas a cujo enterro nós fomos. (Mais aqui.)

Tirando isso, e já que perguntam, a minha família vai bem muito obrigado, damo-nos muito bem, como todas as famílias, não é verdade?, e os meus filhos, em chegando a crescidos, lá farão a vida deles sem receberem cargos na empresa paterna, para grande sorte deles, e acho que não contam com muitas outras ajudas da nossa parte, também para sorte deles. E eu, por mim, em chegando a velhote (já não falta muito…), não só não espero como não quero ajuda direta deles, e é também é muito melhor assim, para todos nós.
(Também não conto deixar-lhes nada, até porque sou contra heranças, mas isso das heranças fica para outro texto, que este já vai muito comprido…)
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[1] Tenho perfeita consciência de que nepotismo pode, etimologicamente, relacionar-se com a família nuclear, já que o nepos latino cobre várias relações familiares entre as quais a de neto, de que é étimo; e que a palavra pode ser usada no sentido de favorecimento de membros da família próxima. Mas continuo a achar significativo que seja a palavra para neto ou sobrinho a única que se pode usar para designar o favorecimento de pais, filhos e irmãos. (Como podem ver, a Wikipédia também tem boas páginas. Onde se arranjaria, noutra enciclopédia, uma página tão simples e completa como esta?)
[2] “Na tribo aché do Paraguai, as mulheres idosas escutavam aterrorizadas os passos dos jovens cuja tarefa era surpreendê-la e destroçar-lhes os miolos com um machado”, diz Judith Shulevitz no seu artigo “Why Do Grandmothers Exist?”, publicado no The New Republic, de 29 de Janeiro de 2013. Pierre Clastres explica que, quando eram muitos velhos e não podiam acompanhar o grupo, se procedia a um tipo de “eutanásia” aprovado pelo grupo. Curiosamente, só as mulheres idosas eram mortas diretamente “com uma machadada na cabeça quando não estavam a olhar” ‒ os homens eram apenas abandonados (Pierre Clastres citado por Kim Ronald Hill e Magdalena Hurtado em Aché Life History: The Ecology and Demography of a Foraging People, Transaction Publishers, 1996). É óbvio que os velhos foram frequentemente considerados um peso, sobretudo em sociedades nómadas e de menos abundância, mas o caso dos aché é excecional e certos estudiosos realçam que os idosos sempre tiveram um papel ativo importante. As idosas, sobretudo. Há quem afirme que, se quisermos ver as coisas numa perspetiva puramente evolutiva, é antes exatamente ao contrário que as devemos ver (e perdoem-me o eficaz e risonho abuso retórico que se segue): os mais velhos existem para ajudar as famílias, não para serem ajudados por elas. O artigo de Shulevitz que referi atrás é interessante, como interessantes devem ser os estudos que refere. A “hipótese da avó”, de Kirsten Hawkes “defende que as mulheres depois da idade reprodutiva ajudavam não só os filhos como também os filhos dos filhos [tomando conta deles] e prolongaram desta forma a duração da vida humana”. Se esta hipótese evolutiva é feminista, como Shulevitz afirma (porque vem reforçar o papel das mulheres na nossa história evolutiva, nomeadamente, porque “faz desaparecer do cenário o homem-o-caçador”, uma vez que deixam de ser as calorias “da carne trazida da caça” as principais responsáveis pelo desenvolvimento do nosso cérebro de grandes dimensões) ou se vem antes reforçar a ideia de que o papel da mulher é cuidar das crianças, eis algo que se pode discutir.

16/01/13

...e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.

Veio há pouco tempo parar-me às mãos um pequeno ensaio moral de Robert Louis Stevenson chamado A Christmas sermon (“Um sermão de Natal”), de 1888. O ensaio de Stevenson assenta numa ideia cristã de moral positiva:
Não somos condenados por fazer mal, mas sim por não fazer bem; Cristo recusava a moral negativa; deves foi sempre a sua palavra, que utilizou em vez de não deves. 
No âmbito de uma moral revelada, bastaria a sua origem divina para justificar a asserção de que é pela positiva que se devem definir as propostas morais – bastaria dizer que é assim, porque foi isso que Cristo disse. Mas Stevenson apresenta também para essa asserção uma justificação não propriamente moral, ao que consigo entender, mas antes de ordem psicológica:
Fazer a nossa ideia de moral centrar-se em atos proibidos é corromper a imaginação e introduzir no nosso julgamento do próximo um elemento secreto de prazer. Se uma coisa está para nós errada, não nos devemos demorar-nos na reflexão sobre ela, ou depressa acabaremos por refletir sobre ela com prazer invertido.
Deixem-me suspender um bocadinho o texto de Stevenson, para dar uma voltinha por questões que me levanta a moral positiva, em várias formulações. Uma das mais famosas é a formulação crística muitas vezes chamada a Regra de Ouro*:
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mateus 7:12)
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também. (Lucas 6:31) 
Duma forma talvez abusiva, chamo-lhe às vezes a ideologia da missão: se X é para mim a verdade (ideal epistémico), o bem (ideal moral) e a felicidade (ideal psíquico), que mais posso desejar senão dar aos outros X, que é o que eu desejaria, sendo como sou, que me fizessem a mim, se não fosse como sou?
Há muito que me parece (e a muitas outras pessoas) que fazer aos outros o que quero que me façam a mim é fundamentalmente errado, porque não sei se os outros querem que eu lhes faça o que eu quero que me façam a mim. Pode argumentar-se, é claro, que o verdadeiro problema não é querer alargar a todos uma crença ou um comportamento, mas sim a maneira como se o faz; que, sem assimetrias de poder e sem se impor nada, não há mal em que se proponha apenas aos outros o que se acha verdadeiro, bom e são. É certo. Mas a regra da moral positiva, pelo menos na sua versão mais comum, não é “propõe aos outros o que queres que te proponham a ti”, mas sim “faz aos outros o que queres que te façam a ti” e é aí que começam as minhas dúvidas sobre ela…
Evidentemente, e como foi já também muitas postulado, vezes posso aceitar que deva fazer aos outros o que quero que me façam a mim, se tiver indicação clara de que é isso que os outros querem que eu lhes faça, mas, nesse caso, o princípio moral em questão passa a ser um caso particular de outro princípio muito diferente de moral positiva: faz aos outros o que eles querem que tu lhes faças.
É uma regra muito melhor, porque desloca o eixo moral do mesmo para o outro: já não posso fazer ao outro o que eu gostava que me fizessem a mim, mas que o outro não quer que eu lhe faça. Mas não faz desaparecer todos os problemas: uma moral cujo eixo é o querer, seja ele o meu (do agente) ou o do outro (do alvo da ação), continua a ser uma moral em que falta à ação uma causa válida (que alguém queira alguma coisa tem pouco valor ético) e que é, por definição, indiscutível, no sentido primeiro da palavra – porque… como se discute um querer? Uma proposta moral sólida deve assentar, na minha opinião, em algo mais fundamental e mais comunicável que o querer.
Mas voltemos a Stevenson. Uma ideia central no sermão é que devemos deixar-nos de moralismos, como ele diz; que não devemos fazer do mal que os outros fazem o centro das nossas preocupações:
Há uma ideia espalhada entre pessoas morais de que devem tornar os outros bons. Há uma pessoa que devo tornar boa: eu próprio. Mas o meu dever para com o meu próximo é expresso de forma mais adequada se disser que tenho de o tornar feliz – se conseguir.
Se a moral positiva de Stevenson fosse “fazer aos outros o que queremos que eles nos façam a nós”, ficaríamos a saber que ele não queria, obviamente, que fizessem dele um homem bom, mas antes que fizessem dele um homem feliz – pois que é isso que acha que se deve fazer aos outros. A moral de Stevenson, porém, não tem muito a ver com o princípio discutido acima – é uma moral positiva, porque não se centra na interdição e sim no dever de agir; mas não é relativa, porque este dever não depende da vontade de cada um, nem de nenhum outro critério relativo: é o dever absoluto de fazer os outros felizes. No fundo, creio entender, sob a forma nem sempre muito transparente do ensaio, que, embora não lhe chame assim e pareça até desvalorizar a ideia de virtude, é uma ética da virtude que Stevenson propõe, mas uma virtude não “moralista”, a virtude de uma alegre bonomia:
Gentileza e alegria vêm antes de qualquer moral; são os deveres perfeitos.
Não me parece que seja suficiente, como proposta moral, mas porque não?

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Outra lei moral de base que também me veio parar às mãos recentemente, e que considero mais correta, é a que é proposta na novela Gente e gatunos de Vila Cardamomo (Folk og røvere i Kardemommeby, 1955), um clássico infantil do norueguês Thorbjørn Egner. A única lei de Vila Cardamomo é a seguinte:
Não se deve incomodar os outros,
deve ser-se bom e amável
e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.
A “lei de Cardamomo” é apresentada numa canção que vos deixo aqui, no norueguês original. Na minha opinião, ganharia bastante, do ponto de vista ético, com a supressão do segundo verso. Mas isso estragava a canção toda...


(Para uma formulação esteticamente interessante de um princípio geral e absoluto de moral negativa, ver uma das primeiras páginas desta Travessa.)
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* Uma formação curiosa é que se atribui ao químico e bioquímico Linus Carl Pauling (segundo a Wikipédia, numa palestra no Monterey Peninsula College, na Califórnia, por volta de 1961, mas não é citada fonte para essa informação…):
Tenho uma coisa a que chamo a minha Regra de Ouro. É mais ou menos assim: “Faz aos outro 25% melhor do que esperas que eles te façam”… Os 25% são para a margem de erro.
Por divertida que seja a formulação, se aceitarmos as críticas feitas a este princípio moral, ela só vem tornar a regra… 25% mais criticável!