06/05/09

Dois miniposts de cocktail #1

Vicunhas e carapaus
Vicunha (Vicugna vicugna) nas proximidades do lago Chungará
a 4570 m de altitude, norte do Chile
Foto: Luca Galuzzi, 12 April 2006 https://www.galuzzi.it/
Wikimedia Commons, from here.
O português é, como se sabe, uma língua muito rica. Tem palavras como taperebá e malambe, que, ao que sei, não têm correspondente em lituano nem em tagalo. Só que, às vezes, o português exagera um bocadinho na riqueza. Por exemplo, tem duas palavras para designar a vicunha, porque também se pode lhe chamar vigonho. Ora, se pode ser confuso ter uma só palavra para designar uma quantidade enorme de bichos, como pescada ou carapau, também faz confusão ter mais do que uma palavra para designar um bicho só. A solução simples que eu proponho é que se anule já e por decreto a palavra vigonho*: se o bicho tem o nome científico Vicugna vicugna e se esse nome lhe vem, ademais, do nome que lhe dão em quéchua as únicas pessoas que com ele convivem, e se foi esse o nome que (escrito vicuña, claro está) passou para o espanhol, que é língua oficial de todos os países onde o bicho existe, além de ser língua irmã quase gémea da nossa, por quê e para quê insistir em chamar vigonho ao animal? E já terá alguém alguma vez usado uma palavra assim? Só alguém com muita chicha no bucho…

[A propósito de vicunhas: No planalto andino, chama-se vicunha a quem seja agarrado ao dinheiro. Para perceber o chiste, porque é chistoso o apodo, é preciso saber duas coisas: a primeira é que a vicunha tem uma lã muito apreciada, mas é difícil de tosquiar; a outra é que, em espanhol, se pode chamar, em calão, ao dinheiro. Então é por isso que um avarento é vicuña: porque es difícil sacarle la lana. E serve este delírio também para dar a conhecer a quem siga o link da palavra o Diccionario de la Real Academia Española, que é um exemplo de um bom dicionário online e que é fixe ter nos favoritos, ou não?]

A língua de madeira do desenvolvimento
Não acreditar, como eu não acredito, que a língua modele o pensamento não implica de modo algum acreditar que a maneira de dizer as coisas não ajude a clarificar o que se pensa ou que, mais importante, não ajude a deixar em branco quem ouve o muito pouco ou nada que se tem para dizer. Como eu ganho a vida a traduzir textos de cooperação para o desenvolvimento (ou ajuda ao desenvolvimento, escolham o que mais vos agradar), é dessa área que tenho mais exemplos de como uma língua de madeira serve para fazer e esconder amálgamas e incoerência lógicas.

Bom, muito tem sido dito sobre o bizarro jargão do desenvolvimento e não quero fazer aqui um apanhado geral da coisa, porque isto hoje é um cocktail de textos pequeninos, e meter-me por essa língua dentro dá pano para outras mangas [Aconselho-vos, a propósito, uma secção de um texto de Mia Couto que se chama (a secção) “Uma língua chamada desenvolvimentês. Mas é melhor lerem o texto todo, claro.]

Uma das palavras que me diverte (?) é ensure, “garantir, assegurar”. Tudo o que se faz num programa ou num programa, numa sessão de formação, num estudo ou numa avaliação, seja lá no que for, é para “garantir” alguma coisa: para garantir o respeito de direitos, para garantir aumento de rendimentos e melhoria da condições de vida, para garantir igualdade de género. Etc. Era bom que fosse assim, não era?, que as actividade de desenvolvimento garantissem essas coisas todas…

Outra palavra candidata ao prémio da amalgamagem (que palavra bonita que eu inventei!) é corrupção. Que se tente moralizar um bocadinho onde há falta de moral, está para mim muito bem, mas, por favor, importa-se de me dizer de que está a falar, que é para eu ver se percebo qual é o problema? Roubo, fraude, desvios, desfalques, proveitos ilícitos, compadrios, nepotismos, tráfico de influências, extorsão, abuso de poder e até mesmo corrupção mesmo corrupção, vejam lá, há tantas palavras mais precisas – e, como vêem, até as há a mais –, de maneira que não custa nada dizer, em cada caso, de que se trata. 


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* Para quem não me conheça, esclareço que estou a brincar, claro está (ou a dar conta de uma surpresa vá), que eu não proponho a sério nenhuma eliminação de palavras por decreto.

[Atualizado a 1 de junho de 2023]

01/05/09

A espada é a lei: os heróis arcaicos do séc. XXI

Falo da ficção europeia e suas vizinhanças, que do resto não sei: É curioso que, ao longo da História, tenha mudado tanto a ideia de herói e, ao mesmo tempo, tenha mudado tão pouco...

No início, era herói quem tinha muita força e a protecção de alguma divindade; que matava monstros e toda a classe de inimigos, conquistava terra e fêmea e fundava linhagens. Depois, começou a exigir-se do herói alguma moralidade (primeiro, a moralidade cristã que era a que havia…) e o herói tornou-se meio santo. Deixou de poder pecar, e o que se louvava nele já não era apenas a capacidade de conseguir o que queria, mas o aderir a princípios e saber resistir a tentações. Continuava, no entanto, a andar a cavalo e de espada na mão, e a dar cabo de quem se lhe atravessava no seu heróico percurso. Mais tarde, entre clássico e romântico, apareceram-lhe outras qualidades: o conhecimento, a inteligência, a dedicação a uma causa, por exemplo nacional, ou a pureza de sentimentos e a entrega obsessiva à paixão. Deixou, nalguns casos, de combater de armas na mão, mas, em muitos outros, lá continuou, fiel a si próprio, a sair vencedor de batalhas navais, trocas de tiros e cenas de simples bordoada.

Desde aí, pouco mudou a aventura. E esse pouco foi voltar-se atrás e fazer-se reviver a epopeia antiga e a gesta medieval: porradaria de três em pipa, ora aí está o que é! Falo sobretudo de filmes, a forma de ficção actualmente mais divulgada. É certo que aos heróis das aventuras de hoje não bastam a força, a agilidade, as competências especiais, a esperteza ou o brilhantismo do raciocínio lógico – é preciso também terem razão e estarem do lado da justiça, seja lá ela qual for, senão não ganham. Mas, em 90% dos casos, a vitória é conseguida, em última análise, no campo de batalha. O que as histórias dão a entender é, quase sempre, que a superioridade moral, para se impor, precisa de ser acompanhada de umas boas dúzias de sopapos, quando não de apocalípticos cenários de destruição. E eu pergunto a mim mesmo por que raio nunca mais nos livramos desta componente arcaica da ficção…

A resposta que me dão muitas vezes é que somos mesmos assim. Dizem-me que são modelos inscritos muito fundo em nós, que evoluímos algures na savana africana para sermos caçadores e guerreiros. Pois, está bem, mas isso não nos impede de termos deixado de passar a vida à batatada uns aos outros. Se na vida real desapareceu a necessidade de se afirmar pela força, não há com certeza nada que impeça que essa necessidade desapareça também na ficção. Será essa violência ficcional uma maneira de lidar, da forma menos violenta possível, com a violência natural que somos agora obrigados a reprimir*? Há quem diga que sim, mas há também quem diga que o resultado mais imediato da violência nas histórias que nos rodeiam é servir de modelo a uma violência menos ficcional do que ela. Se calhar – é uma experiência que se pode fazer, se houver vontade – ganhávamos alguma coisa com resolver de outra maneira os conflitos de ficção, como temos ganho com a instituição de maneiras de resolver os conflitos da nossa vida real que não sejam só ir da boca às mãos. Se calhar, digo eu, porque não posso ter a certeza…

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* Afinal, sou exactamente como os filmes que critico: irra, que é muita violência numa frase só!

27/04/09

Cultura, mais uma vez – dentro e fora de nós

Nascemos com a capacidade de aprender qualquer língua, mas, à medida que aprendemos a nossa língua materna (ou as nossas línguas maternas), e à medida que envelhecemos, vai desaparecendo essa capacidade e, a determinada altura, deixamos de ser capaz de aprender bem outras línguas. Deixamos de ser capazes de o fazer sem interferência das línguas que já falamos, e sobretudo da que for “mais funda” em nós.

Ora há muito quem considere que se passa o mesmo com o resto da nossa cultura. Que a informação cultural que vamos interiorizando configura de determinada maneira os programas que trazemos connosco à partida, de modo que ficamos condicionados a determinadas formas de perceber o mundo e de agir. E que, partir daí, o que pensamos, sentimos e fazemos é determinado por essa cultura, da mesma forma que a maneira como pronunciamos uma língua estrangeira é sempre determinada pela estrutura fonética da nossas línguas primeiras. Quer dizer, não posso agora citar nenhuma definição de cultura que seja exactamente coincidente com a que acabo de fazer, mas, pela maneira como oiço e vejo muitas pessoas falarem de cultura, não tenho dúvida nenhuma de que é assim que a concebem.

Uma concepção de cultura deste tipo é muito sedutora, de elegante que é, mas não é sem problemas. Há provavelmente uma parte da cultura que é assim, mas que parte? Uma parte grande ou uma parte pequena? Bom, eu estou convencido de que uma boa parte dos nossos comportamentos não é determinado, em sentido forte, por regras interiorizadas.

Vejam o caso das bichas[1], por exemplo. Muitas pessoas acham que fazer ou não fazer bicha varia de cultura para cultura. Pelo menos, afirma-se muitas vezes que, em X ou X lugar há ou não há “uma cultura de fazer bicha”. E é com certeza verdade que há lugares onde se faz bicha e outros onde toda a gente se está, em menor ou menor grau, nas tintas para a ordem de chegada e impera a lei do jacaré la bouche, como dizia um amigo meu – quem tem a boca maior é que se safa... Mas é problemática a relação deste facto com cultura, sobretudo se esta for concebida como o tal conjunto de regras fortes interiorizadas que determinam olhares e gestos. O que se constata facilmente é que, quando uma pessoa de uma “cultura sem bichas” se muda para um sítio onde haja uma “cultura de fazer bicha”, ela começa logo a fazer bicha, sem problema nenhum. E pode também observar-se que, de volta à “cultura sem bichas”, deixa outra vez de as respeitar. O contrário, o “relaxe moral” de quem venha de uma cultura “cultura com bichas” quando chega a uma cultura sem ela, também já o constatei várias vezes. Quer dizer que isto de fazer bicha, por exemplo, a ser um traço cultural, não é assim nenhum padrão de comportamento tão profundamente interiorizado que uma pessoa não o mude, se quiser ou precisar, de um momento para outro!...

O mesmo em relação a muitos outros padrões de comportamento. Por exemplo, sobre comportamentos demasiado relaxados, displicentes ou mesmo claramente desrespeitadores por parte de turistas, todos nós já ouvimos, quando não o pensámos nós próprios, que “ele faz isto aqui, mas lá na terra dele não fazia”. O que é interessante é que é, muitas vezes, a mais pura das verdades: no estrangeiro, as pessoas portam-se como não ousariam portar-se no seu país – ou simplesmente de maneira diferente, enfim. Não só turistas, claro está, mas todo o tipo de pessoas de fora. E, se o fazem, é com certeza porque não têm regras de comportamento interiorizadas como têm interiorizados a pronúncia dos sons linguísticos ou os gostos de comida, por exemplo, que não se alteram, esses, de um dia para o outro…

Podia alargar a conversa a muitos outros exemplos, e com especial facilidade a aspectos maioritariamente considerados negativos – como a falta de respeita da ordem da bicha, mas bem mais graves – mas acho que não vale agora a pena detalhar mais, porque se percebe bem aonde quero chegar: pelo menos nos casos que referi, o que parece contar mais do que um padrão de comportamento fortemente interiorizado é a consciência da regra em vigor em determinado local, ou da sua ausência, e o grau de controlo social a que se está sujeito (cujo reconhecimento varia, também é preciso ter isso em conta, de indivíduo para indivíduo…). E isto independentemente de estarmos “em casa” ou não.

Parece então que, para muitos dos nossos padrões de comportamento, a regra não está dentro, mas fora de nós[2]. Parece que dentro de nós o que está é um instinto que nos manda avançar, em busca do proveito próprio e da satisfação dos nossos desejos… até onde os outros nos deixarem ir. No outro dia defini esse egoísmo fundamental como o nosso “parâmetro por defeito”. Um Hobbes da época dos computadores, como vêem, este vosso amigo…

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Pois é, é a tal coisa: fala-se muito de cultura, mas sem se saber ao certo de que se está a falar. Como diz a minha amiga Carmo: “Eh pá, agora a tudo o que é mau chama-se cultura… A cultura agora serve de desculpa para tudo.” Independentemente do que se pense sobre a maneira como as culturas existem – mais ou menos dentro de nós, como a pronúncia; mais ou menos fora de nós, como as leis – é obviamente um desrespeito e uma incompreensão de uma cultura considerar que dela fazem parte a ganância, a pilhagem e a desconsideração. De facto, o que se considera cultura não é, muitas vezes cultura, no sentido de forma organizada de relações entre as pessoas e destas com o mundo físico, mas falta dela – rupturas dos sistemas de valores, situações de relaxe do controlo social, o vir ao de cima da nossa imoralidade primordial. Em que as pessoas se permitem coisas que a cultura que dizem que é a sua obviamente não permite. Que nenhuma cultura permite.
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[1] As filas, como se diz agora em português europeu moderno que se pretenda politicamente correcto. É um facto muito estranho: quando se constata que a palavra é usada também para referir, de forma depreciativa, os homossexuais masculinos, deixa-se de a usar para referir um conjunto de pessoas alinhadas por ordem de chegada, que não tem absolutamente nada ver com o outro uso, porque aqui se trata obviamente de uma metáfora em que se usa a lagarta como segundo termo, ao passo que a designação de bicha para um homossexual tem com toda a certeza outra origem. [Provavelmente, vem da expressão, “Ai uma bicha!”, dita num tom exageradamente efeminado, para estigmatizar uma pretensa falta de virilidade dos homossexuais, implicando que eles (como as mulheres, na visão de quem diz coisas assim…) até de uma inofensiva lagarta têm medo.] Ora, se efectivamente o termo bicha é sentido como ofensivo por quem, como eu, se ofende com a discriminação das pessoas em função das suas preferências sexuais, está muito bem que se deixe de o usar nessa acepção – mas porquê deixar de usar a metáfora da bicha para a fila de pessoas, que não tem nada a ver com este assunto? Esquisito…

[2] A questão é, obviamente, onde, ao certo?, porque aceitar que ela está apenas, sei lá, em todo o lado e em lado nenhum, é um bocado metafísico demais para o meu gosto… Mas eu não sei responder a esta pergunta que me faço.

21/04/09

Ele há verbos muito defectivozinhos, valha-os nossa senhora…

É verdade: ele há verbos tão defectivos que nem verbos parecem, coitados… Na minha lista de moçambicanismos, tenho dois só com uma forma, do imperativo: buiça [v. t. defectivo, só com a forma da segunda pessoa (tu?) do singular do Imperativo (“buiça (tu) alguma coisa!”) = dá, dá cá] e sóri, que eu, por acaso escrevo sorry, para lhe deixar clara a origem [v. defectivo, só com a forma da 2ª pessoa do imperativo (“sorry lá isso!”) = desculpe, desculpa (palavra inglesa significando “triste, pesaroso, magoado, desconsolado”, usada como verbo por analogia com desculpe/a)]

“Mas então isso são verbos?”, oiço eu os protestos, “Buiça, bom, talvez seja, sei lá…, mas sorry é um adjectivo! E um adjectivo inglês!”

É sim senhora – em inglês! Em português de Moçambique, I am very sorry, mas não é, é um verbo. Sorry lá, pá! É precisamente o de sorry lá que lhe trai a condição de forma verbal no imperativo, exactamente como o que às vezes acompanha o buíça: “Iá, eu vou lá comprar, mas buíça aí taco, que eu não tenho nem uma quinhenta…”

Como estes moçambicanismos são provavelmente muito estranhos para falantes de outras variantes do português, passo antes a outro verbo que também tem só uma forma e que é comum a todas as maneiras de falar esta língua: eis.

“O quê? Eis também é um verbo?”

Bom, quem não quiser chamar-lhe assim tem todo o apoio dos dicionários. Quase todos, se não mesmo todos, classificam eis como advérbio. Nas “Dúvidas linguísticas”, e respondendo a uma pergunta de uma Sónia, de Portugal, a 7 de Março de 2007 (“Escreve-se ei-la ou hei-la?”, perguntava a tal Sónia), Helena Figueira escreve o seguinte:
A palavra eis é tradicionalmente classificada como um advérbio e parece ser o único caso, em português, de uma forma não verbal que se liga por hífen aos clíticos. Como termina em -s, quando se lhe segue o clítico o ou as flexões a, os e as, este apresenta a forma -lo, -la, -los, -las, com consequente supressão de -s (ei-lo, ei-la, ei-los, ei-las).
A forma hei-la poderia corresponder à flexão da segunda pessoa do plural do verbo haver no presente do indicativo (ex. vós heis uma propriedade > vós hei-la), mas esta forma, a par da forma hemos, já é desusada no português contemporâneo, sendo usadas, respectivamente, as formas haveis e havemos. Vestígios destas formas estão presentes na formação do futuro do indicativo (ex. nós ofereceremos, vós oferecereis, nós oferecê-la-emos, vós oferecê-la-eis (...)).
Pelo que acima foi dito, e apesar de a forma heis poder estar na origem da forma eis (o que pode explicar o facto de o clítico se ligar por hífen a uma forma não verbal e de ter um comportamento que se aproxima do de uma forma verbal), a grafia hei-la não pode ser considerada regular no português contemporâneo, pelo que o seu uso é desaconselhado.
Helena Figueira faz muito bem o que faz. É assim que se responde num consultório aonde as pessoas vão à procura de uma norma. Mas, ao dar uma resposta tão completa, está a dar, a quem a queira receber, uma dica para uma reflexão. No fundo, o que Helena Figueira diz é que eis é um verbo que deixou de ser percebido como tal.

É claro, tive de lá deixar um comentário (entretanto desaparecido quando as “Dúvidas linguísticas” foram transferidas para novo site). E fi-lo, acho eu, no tom certo para comentário de consultório linguístico:
Não deixa de ser curioso que se considere eis um advérbio. A única explicação parece ser que o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras prateleiras (isto não é uma crítica a Helena Figueira, mas antes a toda uma tradição gramatical às vezes um pouco ligeira, digamos assim)...
O que eu defendo é que eis é uma forma verbal – uma forma verbal estranha, porque pertence a um verbo tão defectivo que não tem mais nenhuma forma, mas uma forma verbal ainda assim. Todos os testes empíricos parecem prová-lo: a) eis é núcleo de predicação. É verdade que nem só os verbos podem ser núcleos de predicação, mas os outros núcleos de predicação aparecem sempre em frases com uma cópula ou um verbo locativo. Ora b) eis parece nunca poder coexistir com um verbo, além de que c) eis atribui caso acusativo ao seu argumento, o que só um verbo pode fazer (eis a Rita = ei-la). Tudo isto são provas empíricas de que eis é uma forma verbal.

Talvez convenha explicar, a quem não esteja familiarizado com estas coisas, que núcleo de predicação é a parte mais abastracta do que se diz sobre alguma coisa. Por exemplo, em O gato comeu o carapau, comeu o carapau é o que se diz sobre o gato, a predicação, mas comeu é mais abstracto do que carapau, e é então o seu núcleo. Dito à pressa, é isto. O núcleo de predicação é quase sempre um verbo, mas há casos em que não: Sou professor ou Ele está entre a espada e a parede.

Acho que não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal. De um verbo muito defectivo, se considerarmos que é a única forma de um verbo que significa “estar aqui”, independentmente de qual seja a sua origem, ou menos defectivo (até nem nada defectivo...) se considerarmos que é de um uso peculiar do verbo haver que se trata. Não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal, dizia eu, mas posso acrescentar mais alguma coisa a propósito:

Escrever, como eu escrevi, que “o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras” é só outra maneira, mais apropriada (?) para comentário em consultório linguístico, de dizer que “a categoria advérbio é o caixote de lixo da gramática”, como dizia a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos, a quem devo, entre centenas de outras coisas, a problematização do conceito de advérbio. O seu a seu dono, portanto.

Tal como é usado o conceito em gramáticas e dicionários, um advérbio é, basicamente, qualquer palavra invariável que não seja preposição ou conjunção, tenha ela que função tiver. Agora, para poder classificar-se como verbo, parece indispensável que uma unidade de base se possa flexionar em tempo, modo, etc. Está muito bem, mas, se todos estão de acordo que há muitos verbos a que faltam algumas formas, por que é que custa aceitar que a determinados verbos faltem muitas formas? Ninguém duvida de que buscar seja um verbo, mas, na minha variante do português, actualmente, o verbo buscar só tem de facto a forma do infinitivo e a da forma tu do imperativo, que se usa para cães. Eu sei bem que todas as outras formas existiram e existem ainda noutras variantes do português, mas no português lisboeta (pelo menos nesse dialecto), todas elas desapareceram…

Chega de verbos. Ou seja, não chega, mas demos agora (Esta forma ainda existe? Talvez não seja má ideia defectivizar um bocadinho o verbo dar, que demos é horrível!...) outro tom à conversa – o que se segue são dois excertos de um chat, devidamente corrigidos das muitas gralhas que sempre se infiltram nos chats todos, entre este vosso amigo e um amigo dele. Sobre verbos:

o meu amigo Pedro: eu tinha uma teoria sobre o verbo intervir
eu: intervém lá
o meu amigo Pedro: se a narração se passa no local do acontecimento, pode-se dizer que o sujeito interveio. se a narração se reporta a um acontecimento onde o receptor não está, deve dizer-se que o sujeito da acção interfoi! interveio aqui, interfoi lá
eu: iá, mas isso é o verbo interir
o meu amigo Pedro: interveio é interir?
eu: interfoi é que é o verbo interir
o meu amigo Pedro: sim, mas interir inventaste tu agora
eu: tu é que inventaste
o meu amigo Pedro: ah bom, ainda bem para ti. ainda tens esperança de salvação
eu: mas é bom verbo, vou passar a usar
o meu amigo Pedro: acho que sim, e faz sentido. a mim faz
eu: também se pode fazer com convir
o meu amigo Pedro: confoi… o que melhor lhe confosse. fez o que melhor lhe confoi
eu: desair-se também
o meu amigo Pedro: como queiras
eu: os gajos desaforam-se… mas isso é um desaforo
o meu amigo Pedro: também se podia pensar em lojas encerradas 24 horas por dia. eram as lojas de semveniência:
eu: para cá, porque vem de semvir, mas para lá, como seria?
o meu amigo Pedro: para lá que se lixe, se eu tenho uma loja fechada aqui ao pé da porta porque é que vou procurar outra mais longe?

eu: um verbo muito defectivo é nhemos! como é o infinitivo desse verbo? nhar, tem de ser
o meu amigo Pedro: anhar
eu: não se diz anhemos, diz-se “nhemos lá malabar o bèrredon do paílho”. anhar é mais verbo de anhuca, ou não?
o meu amigo Pedro: por aí
eu: também é bonito, faz lembrar borrego
o meu amigo Pedro: é lindo com batatas

Para que vocês vejam… É o sono que faz isto.

19/04/09

Iberia felix: o português e o castelhano

Tivemos noutro dia aqui a jantar em casa uma convidada norueguesa e a conversa foi parar à língua, que é, como se sabe, tema típico de jantares com pessoas que não se conhecem. Os miúdos tinham dificuldade em compreender o norueguês da senhora, por muito que as palavras que ele usa sejam, objectivamente, quase iguais às do dinamarquês deles, e preferiam falar com ela em inglês. A Karen (a minha mulher) insistiu, porém, com o Alexander (o meu filho mais velho) que ele tem de se abrir ao norueguês e ao sueco, porque, diz ela, basta uma pessoa alterar só um bocadinho de nada a sua “configuração mental” para compreender tudo. Então, se são línguas praticamente iguais…

Quando se fala da dificuldade de comunicação entre dialetos muito diferentes de uma língua (por exemplos, as variedades americana e europeias do português, francês e inglês), muitas pessoas se interrogam sobre se se poderá dizer que duas pessoas falam a mesma mesma língua, quando não conseguem comunicar uma com a outra. A questão é interessante e pode bem ser que eu um dia escreva alguma coisa sobre ela. Hoje, porém, o que faço é apenas virá-la ao contrário: “Será que se falam duas línguas diferentes quando a comunicação oral é possível entre os falantes dessas línguas?”

Quantas línguas há no mundo? As respostas a esta questão aparentemente simples variam muito e eu já vi números entre 3000 e 6000. “Como é possível uma variação tão grande nas respostas?”, surpreender-se-ão muitos. Bom, é que não há acordo nenhum em relação a como dividir as línguas, a onde acaba uma e começa a outra. Essa divisão só é fácil quando se usa um critério político em vez de linguístico. Lembro-me de que uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar linguística foi que “uma língua é um dialecto com um exército”. Se Hamburgo e Munique não fossem na mesma nação, muito provavelmente não se consideraria que se fala a mesma língua nos dois sítios... Há mais diferença entre certos dialectos noruegueses do que entre o bokmål standard (uma das 2 línguas oficiais daquele maravilhoso país) e o dinamarquês, por exemplo. E milhares de etcs. Basicamente, tudo depende daquilo que queiramos destacar e usar como critérios de distinção entre duas línguas ou dois dialectos, mas, como eu não quero dar uma seca a ninguém (a quantidade de texto que acabo de apagar de um golpe de delete é um sinal claro, infelizmente invisível aos demais, das minhas boas intenções), passo-lhes por cima e vou directo onde queria, que é ao espanhol.

Sim, porque este texto é um texto sobre o espanhol e é o que se pode chamar um texto com óbvias intenções mediáticas (credo!). Depois de uns quantos posts de conversa esquisita, em que nem eu próprio sei aonde quero chegar, eis agora um texto limpinho e claro (?) sobre a maravilhosa língua que fica mesmo ao lado da nossa.

Ou será apenas outra variante dialectal da mesma língua que nós falamos? Bom, podem fazer a experiência que eu fiz um dia: abrir ao calhas um dicionário de espanhol e ver, das palavras da página onde foram parar, quais é que não existem em português. Não é uma experiência com validade científica (pode ser, se a repetirem muitas vezes...), mas dá-vos uma muito boa ideia da proximidade do castelhano e do português. Nas 147 palavras entre disconforme e distanciar do dicionário que eu consultei quando a fiz, só 9 (6,2%) é que não correspondem muito directamente a palavras portuguesas. Em francês e italiano, no entanto, já a percentagem de diferenças que constatei com o mesmo método era muito maior, de cerca de 28 e 29% respectivamente.... A verdade é que o vocabulário é todo tão parecido em toda a zona de fala ibérica que são só umas quantas palavras que definem a área de cada língua.

“Onde é que este tipo agora quer chegar com isto? Quer-nos ele convencer de que o espanhol e o português são iguais ou quê?” Qual o quê, longe de mim tal ideia. Não quero convencer ninguém nem disso nem do contrário, se bem que o que se segue possa fazer crer que quero precisamente provar o contrário. Eis uma parte (ínfima, que isto é um blogue…) de um compilação de diferenças que, no meio das semelhanças, existem entre o português e o castelhano [a quem quiser uma coisa mais completa, posso mandar-lhe, é só pedir por boca, como se costuma dizer]. Dito de outra maneira, o que eu quero mostrar é que o castelhano é uma língua muito traiçoeira e especialmente para os falantes do português. Se uma pessoa não se põe a pau quando se aventura pela língua vizinha, de vez em quando sai asneira. E só de, muito filialmente, se fiar na sua mãe língua…

Vejam as diferenças de género, por exemplo. Tenho registadas 92 palavras iguais ou quase iguais, mas com género diferentes nas duas línguas. Não se esqueçam, por exemplo, de que cume, lume e legume (cumbre, lumbre, legumbre) são, em espanhol, tão femininos como vislumbre pode ser; que há conductos e não condutas de água; e que, para ficar por palavras corriqueiras, são femininas, por exemplo, alerta, masacre, miel, nariz, sal, sangre e señal, já para não falar de nada – sim, do nada, o vazio, que não é *el nada que se diz, mas la nada. Ao contrário, isto é masculinas em espanhol e femininas em português, temos, para além das palavras em -aje que correspondem às nossas em -agem e das palavras em -or, como color ou dolor, por exemplo, origen e partido, mesmo que não seja político mas sim… de futebol. E são muitas vezes masculinas, se bem que não forçosamente, palavras como frente, lente, orden e arte, o que chocou muito o meu irmão quando o descobriu: “Arte, uma palavra masculina? Como pode ser isso?, se é óbvio que a arte é algo feminino”, dizia ele. A mim, surpreende-me mais que sejam masculinos un pétalo de uma flor e un vals de Strauss, mas enfim, isso sou eu... E bem vistas as coisas, se um esporo é una espora, quase como que para espicaçar cavalgaduras, porque não há-de uma pétala ser pétalo?

Também há diferenças no lugar do acento tónico em palavras que, tirando isso, são perfeitamente iguais, como herói, que em espanhol é héroe e polícía, que se diz policía, além de, por exemplo, maquinaria (pronunciado [maquinária]), democracia [democrácia], aristócrata e límite. Estas diferenças causam sempre alguma estranheza aos falantes da outra língua, mas não tanto como certas trocas de lugar de sons dentro da palavra que ocorreram num idioma ou no outro (mais em português...), que fazem com que se diga em espanhol, apio em vez de aipo, barrio em vez de bairro e, por exemplo, gaviota, novio, disfrazar, cocodrilo ou cangrejo.

Depois, claro, há os falsos amigos, que são muitos. Uns são bastante conhecidos, como experto (“perito”), exquisito (“requintado, delicioso”), largo (“comprido”), oficina (“escritório”), presunto (“presumido, presumível”), propina (“gorjeta”), rato (“momento”) e salsa (“molho”), mas outros menos. Só para vos dar um cheirinho da minha lista de falsos amigos, que nunca pára de crescer, tomem lá alguns outros exemplos de provável confusão:

Lembro‑me, por exemplo, de o meu amigo Cristovam voltar do supermercado com o que pensava ser um pacote de manteiga e que era, afinal, banha, e que, dada a nossa triste condição económica, tivemos de usar para barrar o pão, pois então… Era o nosso segundo dia em Espanha e ele não sabia que manteca quer dizer “banha”…

Também me lembro de ver uma vez , numa revista de música, um artigo sobre o Jimi Hendrix, obviamente (mal) traduzido do castelhano em que se dizia que ele tinha uma guitarra especial… porque era surdo (!). Isto porque o tradutor, se é que se pode usar tal designação, não sabia que zurdo quer dizer “canhoto”.

Lembro-me que a minha mulher, quando chegámos à Bolívia, ficou muito surpreendida quando alguém lhe disse que tinha ido ao médico para tratar uma moela – porque não sabia que muela quer dizer “queixal, molar”. E também haviam de ver a cara dela quando alguém a informou que Camargo, a vila onde nos íamos instalar, era uma terra com muito polvo. «Como é que isso pode ser, se fica a 700 km do mar?» Tive então de lhe explicar que polvo significa “pó”.

Bom, estas são situações reais. Mas é fácil imaginar outros possíveis desentendimentos. Numa sala de aula, por exemplo, imaginem o que é que se passa na cabeça de um aluno de língua portuguesa, se o professor lhe pergunta se pode borrar o que está escrito no quadro ou se diz que lhe vai dar uma tareia. Passados uns primeiros segundos de espanto (a propósito, espanto em espanhol, quer dizer “temor” ou “terror”…), o tal aluno provavelmente acaba por perceber que borrar quer dizer “apagar”, mas já lhe será mais difícil perceber que tarea quer dizer “tarefa” e que, portanto, o que o professor lhe quer dizer é que lhe vai dar um trabalho para casa…

Imaginem também que vos convidam para ir ao teatro, para ver a peça do palco, isto antes de saberem que palco quer dizer “camarote”…

Uma situação em que vale a pena não ser muito impulsivo é aquela em que um falante do espanhol vos ofereça uma galheta – em vez de responder logo com um murro ou um pontapé, agradeçam e aceitem ou não consoante a fome que tenham: galleta significa “bolacha, biscoito”.

Não digam nunca a ninguém (nem de ninguém) que é engraçado, porque engrasado quer dizer “engordurado” ou “lubrificado”.

Da mesma forma, numa loja de móveis, não digam à empregada que andam à procura de cadeiras, ou que gostam muito das cadeiras que ela ali tem, ou que queriam ver cadeiras, que é coisa para ela levar a mal: cadera quer dizer “anca” e refere‑se muitas vezes não só à anca propriamente dita mas também aos seus arredores.

Tenham ou não possibilidades de nos induzir em erro, estes falsos amigos não deixam nunca de nos surpreender ou de nos dar vontade de rir, como quando ouvimos falar de azeite a propósito de óleo de motor (aceite quer dizer “óleo”, qualquer, nem que seja lubrificante) ou chamar escoba a uma vassoura, tacho a um bidão ou a um balde grande, vaso a um copo, cremallera a um fecho éclair, estufa a um radiador ou prenda a uma peça de vestuário. Há, ainda assim, coisas que têm a sua lógica: por exemplo, não me surpreende por aí além que se chame ganancia (pronunciar como “ganância”) ao lucro, presupuesto a um orçamento ou logro a um resultado. O que é mais esquisito, pelo menos para mim, é saber que boato quer dizer “ostentação”, que brinco quer dizer “pulo, salto”, que cimiento quer dizer “alicerces”, que estafa quer dizer “fraude” e, sobretudo, que sótano quer dizer “cave”…

Felizmente, do castelhano vem-nos mais do que falsos amigos. Vêm-nos amigos de verdade. A quem preconceituosamente me diga que de Espanha não vem nem bom vento nem bom casamento, eu direi apenas que as palavras que de lá têm vindo são quase sempre deliciosas, como pecadilho e outras simpáticas palavras em -ilho e -ilha: a mantilha, por exemplo, e a baunilha (que, se tivesse tido de se aportuguesar, ou tinha ficado vagenzinha ou vaginha (vainilla é “vagem pequena”) ou se latinizava em vagina…). Mas também brio e chaval, duas palavras cheias de pinta … E hediondo, que não nos demos ao trabalho de adaptar para *fedondo e ainda bem!

Agora, para terminar, quero só recordar que, ao contrário do que pretende a minha mulher, pode não ser muito fácil mudar a sua configuração mental para compreender uma língua que, felix Iberia!, é quase igual à nossa. Lembro-me de que, da primeira vez que fui a Madrid, com o meu amigo Cristovam, chegámos à gare de Atocha por volta da uma da manhã e que, logo à saída da estação, o Cristovam perguntou a um tipo que ia a passar se ele sabia de algum sítio para dormir.
“Há aqui um sítio para dormir?”, perguntou ele, exactamente assim com estas palavras. Mas o rapaz não o percebia:
“No te entiendo!”
E o Cristovam repetiu a mesma frase, só um pouco mais devagar, “Há â-qui um sí-tiu pâ-râ dur-mir?”, mas sem melhores resultados – o rapaz continuava a no entender. Até que o Cristovam teve uma inspiração – é claro que o problema não era o débito, mas sim a abertura das vogais! E espanholou:
“Há àqui um sítiò párà dòrmir?”
O outro que sí, que ahora entendía: “Ah, si hay aquí un sitio para dormir...”

Por estas e por outras é que há muitos portugueses que se insurgem contra a “falta de jeito” para as línguas, senão contra a “má-vontade”, de espanhóis, ou brasileiros, que “não nos querem entender”. Então, se nós os entendemos a eles!... A verdade é que uma pessoa de língua materna castelhana, ou um brasileiro, tem interiorizado um sistema de vogais que é, em abstracto, praticamente igual ao do português europeu: A, E, I, O, U. Mas, no plano fonético, é tudo muito diferente, sobretudo porque o português europeu tem uma pronúncia muito relaxada das vogais átonas, quer dizer, as que não estão na sílaba acentuada. Um brasileiro ou um hispanófono não têm a mínima possibilidade de ouvir as vogais átonas, ao passo que, para um português, não dificulta em nada a compreensão que elas sejam pronunciadas mais abertas do que nós as pronunciamos. Como exemplo, tomemos desesperar que é composto das mesmas unidades em castelhano e em todo o português: /DESESPERAR/. No entanto, a redução das vogais átonas faz desaparecer, na fala portuguesa europeia, os três /E/ átonos. Como é que alguém que ouve [dzšprar], quer dizer, cinco (!) consoantes seguidas, pode reconstruir as unidades não pronunciadas? A única coisa que essa pessoa pode fazer é mesmo desesperar perante o “eslavismo” de uma língua que não deveria, em princípio, ser muito diferente da sua – para ela, se não é chinês, aquilo, pelo menos é russo…

[Ligeiramente atualizado a 30 de maio de 2023]

15/04/09

Brancos, patrões, identidades e uma velha canção anarquista

I
Em lómuè, que é a língua que se fala na Alta Zambézia, onde nós vivemos antes, chama-se aos brancos mucunhas. Mucunha, curiosamente, não tem nada a ver com a cor branca, que em lómuè se diz otchela, mas quer antes dizer “patrão” ‒ que é, como presumo que saibam, uma forma normal de tratar um branco em Moçambique*. Ora, porque não quer dizer “branco” mas sim “patrão”, a palavra mucunha não se aplica só a pessoas de pele clara, e eu sei de casos de moçambicanos negros que, pelo seu estilo de vida, eram tratados por mucunha ‒ e não gostavam. E eu compreendo, porque eu também não gostava nada, quando cheguei a Moçambique, que me tratassem por patrão e arriava sempre a giga quando alguém o fazia. Quer dizer, continuo a não gostar, mas há muito que desisti de barafustar por causa disso. Para quê?, se é uma guerra perdida à partida:
“Patrão, não! Eu não sou seu patrão, porque o senhor não trabalha para mim…”
“Patrão?...”
“Estou a dizer que não sou seu patrão. Pago-lhe algum salário? Patrão é quem lhe paga salário.”
“Está bem, patrão.”

Se eu desisti ao fim de pouco tempo, conheci quem, ao fim de cinco décadas e tal de vida em Moçambique (toda a vida, entenda-se), tivesse firmeza ideológica ‒ ou teimosia... ‒ suficiente para continuar a recusar ser tratado por patrão: houve a certa altura em Molócuè um senhor, branco de pele e frelimista dos antigos (“eu sou da Frelimo do Samora, não é desta que há agora”, dizia ele a rimar sem querer…), que, enquanto foi gerente de uma pensão que havia lá onde nós morávamos, proibiu expressamente os empregados de lhe chamarem patrão a ele, “porque [ele] era só o gerente da pensão, o patrão estava em Maputo e eles nem sequer o conheciam e, além disso, nem era patrão nenhum, era uma patroa”, e também de chamarem patrão fosse lá a quem fosse, pronto! Se essa proibição era, aos meus olhos, bastante louvável, havia quem pensasse de outra maneira e o administrador do distrito, quando lhe vieram queixar-se do excesso de ideologia do gerente da pensão, quis falar com ele, para lhe explicar que, bom, enfim, algumas pessoas não levavam a bem aquela proibição, e que era normal em todo o lado chamar patrão às pessoas, e que não valia a pena insistir numa coisa daquelas… Frelimista que era, à antiga, e por isso incapaz de desrespeitar uma autoridade estatal, o tal senhor gerente retirou, muito contrariado, muito zangado mesmo, a proibição e tudo voltou ao normal: “sim, patrão”, “não, patrão”, “diga, patrão”…

II
Tenho uma t-shirt preta com a palavra mzungu escrita a letras brancas. Foi uma prenda da minha mulher, que a comprou numa das suas últimas viagens de trabalho, penso que num qualquer aeroporto no Quénia ou na Tanzânia. Mzungu é a palavra suaíli que se usa para designar os brancos**, de maneira que quase nunca uso fora de casa essa t-shirt, porque não me sinto à vontade em ostentar assim a minha condição de branco, mas, no domingo passado, por descuido, levei-a vestida quando saí com a família e um amigo para almoçar fora. Fomos a um restaurante que há ali à saída da cidade, que é de um português e que, ao que me dizem, costuma ser frequentado por uma parte da comunidade portuguesa de Chimoio. É certo que a maioria dos portugueses são mzungus, mas a t-shirt não era, obviamente, a mais apropriada para a ocasião. Naquela situação, melhor do que uma camisola a dizer mzungu, pensei eu, era ter uma camisola do Leixões, como um tipo que eu conheci há muitos anos em Bordéus, que se surpreendeu muito quando, em plena rua de Ste. Catherine, me dirigi a ele em português: “Eh pá, mas como é que tu sabias que eu era português?” As palavras são como as cerejas, é bem verdade, e onde eu já vou!… Com camisola de mzungu ou sem ela, os meus pruridos identitários, chamemos-lhe assim, não me impediram, quando chegou a altura de escolher o almoço, de optar por um cozidinho à portuguesa, que é uma coisa que nem todos os dias se pode comer em Chimoio…

Quando se vive fora do seu país, a nacionalidade pode ser, às vezes, uma armadilha. Outras vezes é um peso. É uma armadilha quando uma pessoa começa a relacionar-se com outra porque tem em comum com ela a nacionalidade ‒ e só isso ‒ e se arrepende depois de o ter feito… E é um peso quando não queremos identificar-nos com o comportamento da maioria dos nossos compatriotas no lugar onde estamos… Mas enfim, não há nada fazer. Quando me perguntam qual é a minha nacionalidade, tenho de responder que sou português, porque é português que eu sou. Mas costumo acrescentar: “Ninguém é perfeito, sabe?…”

Já o meu amigo que estava a almoçar connosco tem mais dificuldade em atribuir-se a si próprio uma identidade nacional. “Os meus pais são belgas”, costuma ele dizer, “e eu também tenho um passaporte belga, mas não sei bem o que sou…”. Conheço muitas pessoas como ele. Eu próprio, que não tenho dúvidas de que sou português, não me sinto seguramente tão português como outros portugueses que há. Provavelmente, não sou mesmo tão português como outros portugueses que há. E se digo provavelmente é só porque não sei ao certo como se define a propriedade ser português. Há o passaporte, pois, e deve haver mais do que isso, mas o quê?

Numa coisa estamos de acordo, o meu amigo belga e eu, na conversa que surge durante o cozido (ele também escolheu cozido, se calhar por não haver carbonade…): fazem-nos falta a todos nós amigos e companhia, porque a solidão é a mais terrível doença de que pode padecer um ser humano, mas a necessidade de raízes e de identidade, nacional ou outra, é um mito. Há muito quem apregoe a importância da consciência das “raízes” e do fazer-se parte de uma comunidade, há muito quem queira convencer-nos de que o que é natural, e por isso, indispensável, é fazer parte de uma nação, um clã, uma tribo ou uma religião, há muito quem passe a vida a publicitar o sofrimento daqueles a quem a vida nega a possibilidade de viver entre “os seus”, mas, é curioso!, conheço gente “desenraizada” e “apátrida” em maior e menor grau e nos “desenraizados” e “apátridas” que conheço não noto nem nunca notei problema nenhum ‒ contanto que, claro está, assumam a sua condição de não serem portadores de uma identidade clássica. Evidentemente, se um português insistir em sentir-se exclusivamente português (entenda ele como entender a sua portugalidade) e em fazer do que é característico do seu Portugal condição indispensável de felicidade, há-de passar uma vida contrariada em qualquer sítio que não seja esse seu Portugal. Mas a quem se disponha apenas a viver a vida que tem ‒ como ela é ou mesmo contra o que ela é, não importa ‒ sem se deixar aprisionar em ilusões identitárias, o pretenso desenraizamento e a falta de um sentimento de identidade étnica ou nacional não causam sofrimento nenhum.

Até porque, é aqui que eu queria chegar, a condição mais ou menos desenraizada, mais ou menos apátrida, mais ou menos isso tudo que lhe queiram chamar, de quem não se deixa prender em identidades simples e tradicionais pode ser uma abertura a identidades novas, que, conforme o seu grau de abrangência, podem ir desde não serem nem melhores nem piores do que as restantes até fazerem mais sentido do que quaisquer outras: se a identidade a que se acede é a dos portugueses ou dos belgas emigrantes, a queixarem-se em conjunto tanto da vida no seu país de origem como dos defeitos do país onde vivem, pouco se saiu, ou nada, do estado mais primário e mais comum de identidade; se a identificação for sobretudo com os outros “desenraizados” ou “apátridas” (por exemplo, entretidos à volta de um cozido à portuguesa a discutir o mito da necessidade de identidade...), também não se avançou muito mais; mas se se conseguir deitar às urtigas essas e outras identidades de grupo restritas, passa-se a fazer parte, sem ter sequer de se pensar nisso, do único círculo de identidade que parecer fazer verdadeiro sentido ‒ o que inclui toda a gente sem excepção.

Ou, como diz a velha cantiga de Pietro Gori, “Nostra patria è il mondo intero / nostra legge è la libertà...

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* Se bem que agora a forma boss ou boiss (mais, como direi?, globalizada…) comece a competir muito com patrão
** A informação que me deram é que a palavra deriva de um verbo que significa “andar às voltas” e usava-se originalmente para descrever os comerciantes brancos… que andavam de um lado para o outro. A wikipédia em inglês concorda com esta proposta etimológica.

30/03/09

Quem é que faz o arco-íris?

Até hoje, a Siri (a minha filha de 4 anos e meio, para quem não nos conheça) só tinha visto arco-íris em filmes. Ou, pelo menos, se alguma vez os tinha já visto no céu à sua frente, não se lembrava. Ficou fascinada.

“Eu não sabia que havia mesmo arco-íris a sério”, disse-me ela, “pensava que era só nos filmes. Quem é que faz aquilo?”

Tem sido várias vezes postulada uma tendência natural dos seres humanos para pressuporem, perante qualquer fenómeno anormal, um agente que seja o seu causador – um agente com características essencialmente humanas, como os deuses… Não é a primeira vez que a Siri me faz perguntas assim.

“Ninguém, Siri, o arco-íris não é ninguém que faz…”

Ela não insiste, mas não sei se a satisfaz a minha resposta, que choca obviamente com a sua intuição…

O que se leva desta vida

Raramente consigo dizer as coisas com poucas palavras. Quando me surge, como me surgiu agora, uma maneira de dizer com poucas palavras o que já uma vez disse com muitas, fico todo contente:

Em vez de dar tanta importância, como se costuma dar, ao que se leva desta vida, por que não importar-se antes com o que nela se deixa?

29/03/09

O que é e o que deve ser

Não são só as palavras que são como as cerejas. Os pensamentos também vêm todos agarrados uns aos outros, mesmo que não venham em forma de palavras. Quando, no outro dia, comecei um texto sobre os altos e baixos da vida com uma metáfora de atletismo, lembrei-me de que há quem ache mais do que apenas metafórica a relação entre as leis que regem o mundo físico e as leis que regem indivíduos e sociedades. Veio-me à cabeça um texto sobre dialéctica e transformações sociais – mais concretamente, sobre a necessidade de revoluções versus possibilidade de mudanças evolutivas – que traduzi há uns anos e em que se chamavam à conversa argumentos como a evaporação da água e os estados paradoxais dos fluidos supercríticos...

Não é minha intenção discutir aqui a utopia da universalidade das leis científicas e do querer aplicar-se à evolução das sociedades regras da física ou da química – ou, pelo menos, de se juntarem numa só discussão as duas coisas. A cereja que vinha agarrada a esse pensamento – e que é, essa sim, tema deste texto –, é que, para mim, o que importa discutir não é qual é a forma das mudanças sociais, se elas podem ou não ser assim ou assado. Não é sem interesse tentar saber se, ao longo da História, as revoluções têm trazido mudanças mais estáveis do que as transformações sociais menos bruscas, como não é sem interesse tentar saber, por exemplo, se temos ou não mecanismos inatos de reconhecimento de afinidade genética. Mas a moral (e a política, pelo menos para quem a encara, como eu, como uma parte da moral) não tem de se pronunciar sobre como o mundo é, mas sim como ele deve ser.

Pessoalmente, não tenho boas razões para acreditar que as transformações revolucionárias da sociedade trazem maiores e melhores mudanças do que as transformações menos bruscas. Pelo contrário, o que tenho visto do mundo leva-me a crer que as mudanças sociais mais sólidas foram sempre as que resultaram de evoluções mais graduais. Também não tenho razão nenhuma para crer que os mecanismos de reconhecimento de proximidade de parentesco e tipo físico, que é provável que existam, tenham uma força maior do que outros mecanismos igualmente naturais de criação de laços entre as pessoas. Mas, mesmo que uma pessoa, através de análises das mudanças de fase de uma substância ou de análises da História diferentes da minha, considere que tem boas razões para acreditar que as verdadeiras mudanças sociais acontecem sempre (leia-se, aconteceram sempre…) de forma brusca, ou mesmo que haja investigações que a convençam de que a discriminação dos que não são parecidos connosco é natural nos humanos, não decorre daí nenhuma necessidade de aprovar, por inelutáveis, as revoluções ou a discriminação racial. Essa pessoa pode sempre propor – e não seria a primeira a fazê-lo… – que se vá contra o que ela acredite ser a natureza das coisas; pode propor transformar a “natureza” das sociedades ou das pessoas, se achar que essa “natureza” não é como devia ser.

“Em vão”, dirão muitos, “porque, como explica a velha fábula, não se pode fazer com que um escorpião deixe de morder… O interesse de saber como é a estrutura da História, ou como é a natureza humana é que se escusa assim de propor o irrealizável…” Ao que eu respondo, antes de mais, que a estrutura da História está dentro da cabeça das pessoas, pelo que não há leis sociais exteriores aos seres humanos; e que a vantagem da natureza humana, seja lá ela qual for, em relação à natureza do escorpião é que ela é muitíssimo mais flexível. Se calhar, é mesmo por isso que nós temos moral e os escorpiões não, e é certamente por isso que não há nada “inevitável”, quando se fala do comportamento dos homens, e podemos sempre discutir o que devemos evitar – e também o que devemos cultivar.

Evidentemente, quando mais fundo for em nós o hábito ou a disposição inata que queremos alterar, mais difícil é essa mudança e mais há que ponderar a estratégia para lá chegar. Mas há quem recuse o sexo por decisão própria e quem aprenda a suicidar-se deixando de respirar – pelos vistos, o que é definitivamente natural no ser humano é não haver nele nada de tão definitivamente natural que não possa ser alterado. A famosa frase de Maio de 68 “Sejamos realistas, exijamos o impossível” não é tão desprovida de lógica como à partida parece, porque, como tem sido insistentemente defendido por aqueles que acham que o mundo pode ser melhorado, o que nos parece hoje impossível talvez não o pareça mesmo nada aos nossos netos. Quantas pessoas, mesmo as mais progressistas, não achariam há 100 anos que as relações entre os sexos ou as raças como elas existem hoje em certos grupos humanos seriam sempre impossíveis por violarem fundamentalmente a “natureza humana”?

É esta a beleza da política e do resto da moral: Podemos sempre propor, sem medo de estarmos a cair nalgum excesso de idealismo, aquilo que corresponde, nos comportamentos humanos, à ebulição da água a 50 ou a 150 graus. As mudanças sociais podem ser bruscas ou não, as relações entre raças, sexos e nações podem ser de todos os tipos, e as leis que regem o comércio também. Podem ser conforme nós as quisermos. Discutamos então não como são, mas sim como devem ser.

15/03/09

Tom & Jerry ou as vantagens de uma casa pequena

“Quando voltarmos para a Dinamarca, não havemos de ter uma casa assim tão grande como esta.”

“Mas também é bom, porque com uma casa pequenina só temos espaço para uma televisão pequenina e depois o Tom e o Jerry não cabem os dois na televisão ao mesmo tempo e assim não podem andar sempre à guerra um com o outro.”

12/03/09

De colinas e terras chãs: pesa mais o mau do que o bom

1. Quem se interesse por atletismo ou simplesmente goste de correr é capaz de já se ter perguntado a si mesmo: é a mesma coisa correr uma determinada distância num percurso plano e num percurso com subidas e descidas? À primeira vista, pode parecer que, se a partida e a chegada estiverem ao mesmo nível, o resto é capaz de não fazer grande diferença, porque, se as subidas nos esforçam e nos atrasam, as descidas repousam-nos e dão-nos maior velocidade, e são assim bem capazes de compensar as subidas. Na realidade, porém, não é assim que as coisas se passam: fazem-se sempre melhores tempos em percursos planos, precisamente porque uma descida não compensa o esforço despendido e o tempo perdido na subida que lhe corresponde (ver a regra de Jack Daniels e John Kellogs na penúltima secção deste artigo, por exemplo, ).

Não que eu queira encontrar nos estudos de motricidade humana confirmação de uma especulação filosófica, não é isso, mas acho que temos aqui uma boa metáfora da vida da gente. O que eu tenho muitas vezes pensado é que os altos e baixos da vida são exactamente como os altos e baixos da estrada: o negativo pesa sempre mais do que o positivo. Em Outubro de 2002 escrevi, a propósito da morte de um colega, um poema chamado “Poema de Inverno # 7, sem título absolutamente nenhum”:

Isto não é assim – as alegrias
não servem para anular
tristezas, para as compensar.
Não – as penas vêm só aumentar

uma tristeza única que há,
a de estar vivo, aquela
que nenhuma alegria cancela:

mil nascimentos não apagam
uma única morte; mil beijos

apaixonados não compensam
nenhuma pena de amar; e mil risos
cúmplices não anulam nunca

um minuto só que seja
de verdadeira solidão.

Exagero, em busca de efeito literário? É possível. Mas talvez não…

2. Compreendo bem, sinceramente, quem ache que a melhor maneira de viver a vida é escolher sempre as planícies e evitar todo o tipo de colinas. O louvor da regra e mesura, da repressão dos sentimentos efusivos e de toda a classe de excitações como receita para uma vida melhor é uma ideia muito forte em muitas tradições e em muitos períodos da nossa história, mas nós, românticos que somos todos, desabituámo-nos de ter esse ensinamento em conta no momento de fazer escolhas. Interiorizámos antes que plano é chato, prato que não nos serve. Fomos antes programados para valorizar a montanha russa, o dar livre curso ao entusiasmo, nem que com plena consciência de que há-de ser dura a ressaca.

Não faço propostas, longe de mim… Não vou aqui louvar nem a medida nem a paixão. Queria só chamar a atenção para um facto simples. É provável que, com algum treino, possamos condicionar-nos a nós próprios, em maior ou menor grau, para a escolha do comedimento, da temperança, tanto nas acções como no próprio sentir; mas temos de reconhecer que muitos dos altos e baixos da vida nos vêm de acontecimentos nos quais não intervém a nossa disciplina mental. As mortes dos outros, por exemplo, como lembra o poemazito lá atrás, e muitos mais... A mesura, louvável que possa ser, não chega para tornar plano o percurso de vida. Para terraplenar a estrada é necessário ir muito mais longe e deitar fora todos os laços, todos os sentimentos – e todo o raciocínio… Mas isso, mesmo que se queira, não se consegue, pois não?

08/03/09

Desenvolvimento: lista de dúvidas

Há mais de vinte anos que lido com as questões da ajuda para o desenvolvimento e vivo sobretudo entre profissionais de desenvolvimento; e cada vez tenho menos certezas relativamente a essa ajuda e à questão do desenvolvimento em geral. Sinceramente.

Como já disse aqui uma vez, tenho um certo medo de ser mal compreendido nas minhas críticas ao trabalho de desenvolvimento, porque tenho medo de que arrumem as minhas críticas num saco onde eu não as quero ver arrumadas, onde elas realmente não pertencem – o da crítica fácil e infundada à “inutilidade” desse trabalho. Tenho medo, sobretudo, de que as vejam como proposta de redução ou até de supressão da ajuda para o desenvolvimento, que não são de modo algum, e deixo claro que não é isso que eu defendo. Eu acho não só que a ajuda para o desenvolvimento deve continuar como até que ela deve aumentar.

Ainda assim, resolvi fazer uma pequena lista das dúvidas que tenho em relação a certos aspectos do trabalho de desenvolvimento tal como ele se faz agora. Ora, como é realmente uma lista de dúvidas, o texto toma às vezes a forma de diálogo comigo próprio, em que me recordo de que o assunto em questão se pode ver de várias maneiras, às vezes opostas. Acho que ainda não escrevi aqui na Travessa nenhum texto tão hesitante como este. Se o diálogo e as críticas são sempre desejados, em relação a este texto são-no dez vezes mais.

Evidentemente, quando uma pessoa se lança numa conversa assim, a primeira coisa a fazer é definir desenvolvimento. Para muita gente, é, aliás, esta a primeira problemática do desenvolvimento – se calhar, não falamos todos da mesma coisa quando falamos de desenvolvimento… A minha opinião é que, no geral, falamos todos da mesma coisa quando falamos de desenvolvimento e que não há grande necessidade de me lançar numa grande discussão do conceito. Quando se fala de países desenvolvidos e de países menos desenvolvidos, tem-se, normalmente, uma ideia relativamente clara do que os distingue. Ainda assim, e por via das dúvidas, podemos assentar que, quando falo aqui de desenvolvimento, falo essencialmente dos indicadores que usa, por exemplo, o PNUD no seu índice de desenvolvimento humano: saúde (incluindo esperança de vida), educação e dinheiro para gastos. Ou seja, acho que se pode definir desenvolvimento como uma vida mais longa, mais cómoda, mais desafogada…

Para terminar esta nota introdutória, quero também deixar claro que só tenho experiência concreta de dois países receptores de ajuda, Moçambique e a Bolívia, e é bem possível que algumas dúvidas que tenho digam mais directamente respeito a esses países do que à generalidade dos países em desenvolvimento. Pode bem ser…

Queimar etapas? O dinheiro e o tempo necessários ao desenvolvimento
Como já referi aqui uma vez, muito de fugida, um dos obstáculos ao desenvolvimento dos países pobres é a assustadora falta de dinheiro de que sofrem. É verdade que, muitas vezes, nem o pouco dinheiro que têm conseguem gastar, e muito menos ainda gastar bem gasto. É bem verdade que uma parte do dinheiro que se destina a melhorar a vida dos mais desfavorecidos não faz senão tornar mais confortável ainda, se não mesmo opulenta, a vida daqueles que não precisam para nada de ver a sua vida melhorada. É bem verdade isso tudo, mas também é bem verdade que o dinheiro todo, por mais bem gasto que seja, não chega para nada. Um dia gostava de ver contas bem feitas, com preços actualizados, do que custou o desenvolvimento dos países desenvolvidos. Foram muitas dezenas de anos, às vezes centenas, de investimento em várias coisas em que, em muitos países pobres, o investimento só agora começou há 30 ou 40 anos – ou, em países como Moçambique, ainda menos. Provavelmente, também nos países hoje desenvolvidos, uma grande parte do investimento se perdeu ou foi mal gasto. Mas, se foi, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra disso.

Além disso, como toda a gente sabe, tempo é dinheiro. Não é só dinheiro que falta, é tempo também, nem que seja para conseguir gastar o dinheiro que, bem gasto e mal gasto, é preciso gastar para se ver desenvolvimento… Um dos princípios do trabalho de desenvolvimento é que se podem queimar etapas, porque o mundo está numa fase de desenvolvimento, precisamente, diferente daquela em que estava quando se desenvolveram os países hoje ricos. Sei lá, já não é preciso passar pela mala-posta para distribuir o correio e nem sequer montar linhas de telefone em todo o país, quando há Internet e telemóveis. Mas a mentalidade e o saber tecnico de uma grande parte da população de Moçambique são provavelmente muito semelhantes aos de uma grande parte da população de França ou da Alemanha há já muito tempo. E é capaz de não se conseguirem queimar as etapas todas de uma vez. Como diz uma amiga minha, primeiro é preciso que haja uma ou duas gerações sem fome; depois, umas quantas gerações com escola; depois, começa o desenvolvimento. Não há milagres. Não é caso de baixar os braços e desistir, nada disso, mas, muito provavelmente, não é com pressa que se apressa o desenvolvimento.

[Numa entrevista publicada na última edição de Udvikling, o jornal da Danida/MNE da Dinamarca, Joseph Hanlon critica violentamente as ONGs internacionais por estarem constantemente a mudar de estratégia, de programas e de enfoque, de maneira que nada do que fazem dura muito tempo. Na minha opinião, a impaciência e a inconstância no trabalho de desenvolvimento não se limita, infelizmente, às ONGs internacionais, mas é também característica de muitas ONGs dos países em vias de desenvolvimento e de muita cooperação bilateral e multilateral.]

Os mais pobres dos pobres? Grupos-alvo e eixos do trabalho de desenvolvimento
Uma problemática que está ligada a esta (estas problemáticas estão, aliás, todas tão interligadas que esta separação em secções é bastante artificial…) é a questão de quem devem ser os beneficiários da ajuda ao desenvolvimento e de quem deve ser o motor e o eixo desse desenvolvimento. Até agora, e sob diversas designações, têm-se definido as camadas mais desfavorecidas da população como grupo-alvo da ajuda. Moralmente, não tenho nada contra, não posso ter nada contra. Mas duvido que seja uma boa estratégia de desenvolvimento. A classe média, no caso concreto dos países em vias de desenvolvimento, é mínima e é tão mais rica do que a classe pobre que parece, obviamente, imoral ajudá-la a ela, mas é muito provavelmente ela o único motor possível de desenvolvimento, porque é a classe com visão de futuro e mentalidade de investimento. Parece-me que desenvolvimento foi sempre sinónimo, onde se deu, de crescimento da classe média.

O mesmo em relação à questão do desenvolvimento assente na agricultura. Como mo recordava há relativamente pouco tempo um conhecido meu (agrónomo e técnico de desenvolvimento, para não pensarem que estava, com a afirmação, a defender algum interesse pessoal...) não há prova nenhuma de que possa haver algum desenvolvimento alicerçado no sector primário, sobretudo não industrializado – nunca houve, em lado nenhum do mundo… Desenvolvimento significou sempre, onde ele se deu, uma redução enorme da percentagem de pessoas a trabalhar no sector primário, com movimentações enormes de populações do campo para a cidade e com enormes problemas imediatos que depois se foram resolvendo… Voltamos ao mesmo: Num país como Moçambique, o chamado sector familiar (agricultura sobretudo de subsistência, com venda de alguns excedentes) abarca uns 80% da população, e é, precisamente, a população mais pobre – ou a esmagadora maioria da população mais pobre. Se a prioridade no apoio a esse sector se justificar com argumentos de ordem moral, é difícil não a aceitar. Mas daí a fazer desse sector o pólo de desenvolvimento, como é actualmente a estratégia oficial do governo, vai um passo de gigante… Agora, evidentemente, quando 80% da população vive da agricultura de subsistência, o desenvolvimento tem também forçosamente de passar pela melhoria efectiva das condições de vida de toda essa gente, mesmo que não se acredite nesse sector como “pólo de desenvolvimento”. Porque não deve haver verdadeiro desenvolvimento de um país sem haver melhoria das condições de vida da maioria da sua população. Além disso, há de facto possibilidade de melhorar os sectores primários dos países do terceiro mundo e de lhes dar um papel muito importante no desenvolvimento desses países, mas provavelmente não é essencialmente através de apoios directos a esses sectores, pelo menos nas formas mais tradicionais, mas antes desenvolvendo a educação, o ambiente de negócios e o sistema jurídico, tomando medidas proteccionistas, quando necessário, e, como cada vez mais gente vem defendendo, acabando com o proteccionismo nos países ricos e alterando algumas regras viciadas do jogo do comércio internacional.

Outra questão sobre a qual os estrategas do desenvolvimento se devem interrogar é se é a educação escolar mínima para todos que deve constituir a prioridade neste momento. Ao que sei, parece evidente à esmagadora maioria das pessoas que se interessam por desenvolvimento (e eu concordo completamente!) que a educação escolar é, no geral, uma condição essencial para o desenvolvimento. Provavelmente, é até a única condição essencial. A ideia de que o desenvolvimento pode assentar em recursos outros que não os recursos humanos nunca me convenceu muito, até porque alguns dos países mais desenvolvidos não têm nem nunca tiveram recursos naturais e alguns dos países mais ricos em recursos naturais continuam por desenvolver… A educação escolar, isso sim, parece ser um dos factores que melhor permite explicar o surgimento do desenvolvimento onde ele aconteceu. Mas não sei até que ponto a ânsia de dar imediatamente escolaridade primária a toda a gente é a melhor maneira de estabelecer as bases para um sistema de educação que venha efectivamente a funcionar e a gerar desenvolvimento sustentável. Talvez seja melhor pensar em menos e melhor educação, numa primeira fase, para que o sistema se possa reproduzir de uma forma mais sólida. Mas, é claro, insinua-se sempre a questão moral: a fazer-se como eu acabo de sugerir que talvez seja melhor, quem serão os eleitos e os preteridos – e com que critérios?

Sol na eira e chuva no nabal? Desenvolvimento com tradições, contradições de algum desenvolvimento
Já uma vez aflorei aqui o assunto. Há muito quem defenda que o desenvolvimento passa pela defesa de direitos colectivos, como o direito a conservar (ou mesmo a revitalizar) a sua cultura e as instituições tradicionais, mas eu duvido muito disto. O que a História me diz é que o desenvolvimento se deu, onde ele existe, sempre contra as tradições e as instituições tradicionais que são, na quase generalidade dos casos, retrógradas e preservadoras de desigualdades e de uma mentalidade antiprogresso. É contraditório, na minha opinião, defender ao mesmo tempo uma ideia moderna de cidadania e defender instituições não cidadãs como as instituições de base étnica. Casos há em que se vai contra os princípios democráticos que se diz defender ao pretender-se que a “democracia” seja tanta que se dê às comunidades o direito de resolverem elas próprias os seus problemas à revelia da lei do país. Desconfio muitas vezes que há debaixo desta defesa, para os outros, de algo que os países desenvolvidos nunca aceitariam para eles próprios, uma grande dose de paternalismo, assente, disso não tenho dúvidas, nas melhores intenções. Mas, como sugere o título desta secçãozinha, não se pode ter, ao mesmo tempo, a manteiga e o dinheiro que ela custou. Não quero dizer que deva ser à bruta o combate das tradições. Já se fez assim à bruta, e sempre com maus resultados. A estratégia tem de ser outra, mais comedida, talvez, porque as tradições têm, nestes países, força suficiente para serem encaradas como adversários de respeito. Mas não é aceitando que os curandeiros são “médicos tradicionais” que se aumenta a esperança de vida, nem aceitando que a justiça dos caciques tem o mesmo valor que a do Estado que se instaura um verdadeiro sistema jurídico. E et cetera, et cetera, que eu não quero maçar-vos muito com exemplos. O que eu digo é que a escolha é, em última análise, entre olhar para a frente ou olhar para trás.

As pessoas sabem o que querem e têm boas ideias? Democracia forte e desenvolvimentoUma ideia que está suficientemente na moda para servir de base teórica ao trabalho de muitas agências de desenvolvimento é que há uma relação positiva entre democracia local forte e desenvolvimento. É verdade que, embora a relação entre democracia e desenvolvimento continue a ser polémica, há cada vez mais trabalho teórico a confirmar uma relação positiva entre uma e a outra coisa. Esse trabalho, porém, diz respeito a dados sobre economia e instituições económicas e políticas a níveis muito gerais, e não trata especificamente uma versão forte da democracia, assente na democracia local – que nem sequer é prevalecente nos países desenvolvidos. De facto, algumas vezes as propostas de democracia forte para os países em vias de desenvolvimento são tão avançadas que só existem nesses países em via de desenvolvimento e nunca nos países desenvolvidos. Também esta questão já aqui foi uma vez tratada. A democracia participativa local, por exemplo com conselhos consultivos aos níveis locais, que têm estatuto legal e capacidade de deliberar sobre a utilização de fundos locais de desenvolvimento, são uma dessas estruturas em que alguns países pobres se revelam mais “avançados” do que os países ricos. Isso contribui de facto para algum desenvolvimento ou se é uma forma de continuar a adiar a construção (lenta e difícil talvez, mas nem por isso menos necessária) de um estado suficientemente forte para assumir em todo o país as suas responsabilidades de fiscalização e prestação serviços? E que capacidade têm pessoas com pouca ou nenhuma educação formal de elaborar planos de desenvolvimento? Mesmo nos países com níveis mais elevados de educação, decisões desse tipo são deixadas aos técnicos dos sectores. [Se calhar, podemos congratular-nos por essas experiência de ultrademocracia na prática não funcionarem. Mas se calhar, não. Porque, não funcionando, são mais uma maneira torcida de legitimar o poder de quem o tem e que controla essas instâncias como controla tudo o resto.]

Profissionais do desenvolvimento? Desenvolver o quê, para quem?
E depois… Bom, depois há uma questão que eu me coloco a mim mesmo há muito tempo: a ajuda para o desenvolvimento não profissionalizada nunca deu resultados por aí além; cooperantes voluntários são pessoas normalmente com altos graus de empatia relativamente à população local e, seguramente, com as melhores intenções do mundo, mas nada disso resulta em grande eficácia. Os profissionais do desenvolvimento são, provavelmente, um pouco mais eficazes no seu trabalho. Mas, tanto uns como os outros, incluindo as elites educadas nacionais que vivem também da cooperação para o desenvolvimento, têm uma coisa em comum com as elites políticas que governam os países – estão completamente fora dos sistemas em cujo desenvolvimento trabalham: os seus filhos não usam as escolas do estado; as suas famílias não usam o sistema de saúde público; não têm farmas nem empresas comerciais, e, por conseguinte, nenhum dinheiro a ganhar nem a perder com o desenvolvimento agrícola e comercial, etc. Não têm, em resumo, interesse nenhum pessoal no desenvolvimento dos países em cujo desenvolvimento trabalham. O único interesse imediato que têm é manter bom-nome no meio das agências de desenvolvimento, para garantir trabalho futuro; e manter bom-nome significa, normalmente, não fazer muitas ondas… [Nesse sentido, pelo menos, não fazem grande sentido as críticas de neo-colonialismo aos profissionais da cooperação…]

Como terão sido as coisas nos países que se desenvolveram? Nunca arranjei nada nem ninguém que me conseguisse responder satisfatoriamente a esta pergunta simples, mas, com o que sei da história da Europa, por exemplo, sou tentado a pensar que o desenvolvimento veio sobretudo do investimento das pessoas na melhoria das estruturas que condicionavam as suas vidas. Não só, mas sobretudo. E não é isso que é natural?

Ajuda ao desenvolvimento? Sim!, mas… qual? A ajuda como possível perpetuadora da falta de investimento no desenvolvimento
Um dos efeitos perversos da ajuda ao desenvolvimento é que as elites dos países pobres, que vivem dessa ajuda, não só não precisam de desenvolver o país para manterem os seus níveis de riqueza como até se pode argumentar que têm, em última análise, interesse em que essa ajuda se perpetue…

A tendência actual da ajuda ao desenvolvimento é fazer cada vez mais apoio orçamental, isto é, transferir cada vez mais os fundos directamente para o orçamento geral dos estados que se ajudam, de modo a que sejam os governos nacionais a fazer a gestão desses fundos. O princípio de sujeição da ajuda às estratégias e modelos de desenvolvimento definidas pelos governos dos países em desenvolvimento, tal como definido na Declaração de Paris, é correcto, na minha opinião, mas não vem, na prática, resolver em nada o problema já velho de uma enorme percentagem dos fundos ficar retida nos níveis mais altos do sistema estatal, em vez de ser aplicada onde devia – para criar desenvolvimento. Por outro lado, o acesso a essas quantidades de dinheiro leva, pelos vistos, à cobiça – e ao roubo (a que agora, não sei por quê, se chama corrupção). É certo que a contrapartida do apoio orçamental directo deveria ser, segundo o espírito e a letra da Conferência de Paris, um aumento da exigência de prestação de contas, mas entramos aqui num terreno delicado e o facto é que, por razões várias, não há grandes consequências para os casos de más contas.

É claro, pode-se sempre argumentar, como faz Joseph Hanlon no seu último livro sobre desenvolvimento em Moçambique Há mais bicicletas – mas há desenvolvimento?, que o lado menos mau da “corrupção” é que, apesar de tudo, gera algum dinamismo económico… e claro nem toda a elite política dos países em vias de desenvolvimento é predadora, que obviamente há políticos desses países genuinamente interessados no desenvolvimento. [Quero deixar claro que ainda não li o livro de Hanlon, e estou a dizer isto com base em vários resumos que vi das propostas que Hanlon faz na obra.] Ainda assim, acho que um exercício interessante de reflexão é colocar-se seriamente a questão: o que se passaria realmente, de negativo e de positivo, se se cortasse a ajuda ao desenvolvimento tal como ela actualmente existe? E que formas radicalmente novas poderia haver de utilizar esse dinheiro?

05/03/09

Ciência e bom senso: la vie en prose (2)

Num interessante comentário que fez a um post meu, Igor Lobão afirmava o seguinte:

A ciência é, igualmente, uma estrutura simbólica que confere uma leitura sobre o real e uma leitura que é revisível. Aliás, é nesse sentido que Popper propôs a falsificabilidade. Direi mais. A ciência em si mesma é uma ficção, parte de construções (teóricas) que podem ou não funcionar. Podemos explicitar o carácter de ficção através dos números negativos ou dos números imaginários. Eles não existem no real, mas são necessários para tentar-se produzir uma interpretação ou uma intervenção no real. O pressuposto de Galileu, de que o real pode ser transcrito em linguagem matemática, ou de Max Plank, de que real é o que se pode medir, são apenas pressupostos de ordem metafísica e que por sinal radicam numa estrutura simbólica.

Como esta discussão saía um bocadinho fora da discussão sobre religião que tinha originado o referido post e a polémica que ele gerou e como esta é uma discussão em que me tenho empenhado muitas vezes, prometi dar continuação ao textozinho singelo que aqui comecei no outro dia sobre ciência e bom senso. Quero também deixar claro que não tenho, de modo algum, intenções de perpetuar a polémica com Igor Lobão em particular e que, se cito aqui o seu texto, é só porque ele é um de muitos exemplos de uma maneira relativamente divulgada de entender a ciência com que eu não concordo.

Posso imaginar muita gente já a bocejar e a pensar que não fez mal nenhum à divindade da sua eleição para estar a levar com mais um episódio desta infindável discussão. Eu compreendo quem assim reaja e prometo que hei-de voltar com posts mais interessantes sobre receitas de peixe cru ou falares regionais. Para já, no entanto, até porque o prometido é devido, quero defender mais uma vez a minha muito chã (talvez demasiado chã...) opinião sobre a questão:

Qualquer teoria, científica ou não, pode ter diversos graus de eficácia, mas não compreendo por que é que o facto de uma teoria científica poder não funcionar faz da ciência uma ficção. A ciência não é nenhuma ficção nem o contrário disso. A ciência é a designação comum de várias áreas de reflexão e actividade humana em que se procura descobrir qualquer coisa sobre o mundo. Não se distingue, provavelmente, em nenhum aspecto essencial, de qualquer investigação sobre o mundo, seja ela normalmente considerado “científica” ou não. Por exemplo, se eu perguntar como sai de uma mangueira enrolada um jacto de água (em curva ou a direito?), é uma pergunta de carácter científico que estou a fazer? O facto é que a resposta é só uma, e quem quer que alguma vez tenha regado um relvado com uma mangueira sabe bem qual é. Evidentemente, as leis que regem o fenómeno são passíveis de descrições científicas detalhadas, como tudo o que se passa no mundo, desde que haja conhecimentos para tal… Ficção? Estrutura simbólica? Talvez…

O que eu acho é que todo este discurso da ciência como quadro conceptual, como edifício simbólico, como uma “linguagem” criadora de uma realidade sua, este tipo de coisas, pura e simplesmente não se aplica ao trabalho que fazem os cientistas no seu dia-a-dia. É por isso que as pessoas que propõem estas elegantes definições do trabalho científico raramente – ou nunca… – fazem elas próprias trabalho científico e, para os cientistas, estas questões de facto não se põem.

“Meu amigo”, dirá a minha cara leitora, se for suficientemente paciente comigo para não me tratar de uma forma menos simpática, “mas isso já você disse aqui da outra vez, por favor não se repita…”

Repito, sim senhora, repito e repiso. E desenvolvo. O melhor que há neste caso são os exemplos. No post Ciência e bom-senso (1) dava meia dúzia de exemplos completamente ao acaso de questões passíveis de merecerem algum inquérito: Quais os efeitos do aumento ou da redução dos níveis de actividade dos receptores D2 de dopamina? Os dinossauros foram aniquilados por uma parte do asteróide Baptistina? Houve tribos célticas no Norte da Península Ibérica? As formas irregulares dos verbos são geradas através de regras computacionais? O Pedro entregou à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe entregou? Existem fadas? Para puxar um bocado a brasa à minha sardinha (têm de compreender que não me sinto muito à vontade com receptores D2 de dopamina, dinossauros e asteróides, migrações da antiguidades e seres de fantasia…) desenvolvo aqui o inquérito à produção das formas irregulares dos verbos, sim?

Esclareço, antes de mais, que o que eu quero dizer com isto de produção das formas irregulares dos verbos – e se são ou não geradas por regras computacionais – é o seguinte: “O que é que se passa no meu cérebro quando digo fiz em vez de fazi?” Quero também esclarecer que, muito provavelmente, não há nenhuma boa razão para distinguir a maneira como são tratadas pelo nosso cérebro as formas irregulares dos verbos da maneira como são tratadas pelo cérebro outras formas irregulares (plurais irregulares, por exemplo), mas como eu formulei dessa maneira a questão na primeira parte desta conversa, por puro acaso e sem pensar na altura que havia de aqui voltar a pegar nela, é assim que fica a questão…

Então? Podemos começar por deixar de lado o que não faz grande sentido, aquilo que não há nenhuma razão para supor que possa ser verdade. Assim, não consideramos que é o nosso anjo-da-guarda ou a nossa fada-madrinha que nos segreda ao ouvido as formas irregulares. Também podemos assumir, com relativo à-vontade, que se deve passar o mesmo na cabeça de toda a gente, ou seja, que não é provável que o cérebro de uns funcione de maneira diferente, no que respeita à forma irregular dos verbos, do cérebro de outros…

Em seguida, vamos ver que possibilidades há. Em princípio, podemos ver o que foi pensado sobre o assunto. Tanto quanto eu sei, há três hipóteses de base: há quem diga que todas as formas, tanto regulares como irregulares, estão armazenadas na memória e nós vamos lá buscá-las quando as queremos utilizar; há quem diga que todas são geradas a partir de regras interiorizadas e que há “regras menores” interiorizadas para as formas irregulares; e há quem diga que as formas regulares são geradas por uma regra de acrescentar um elemento (um sufixo, nas línguas como o português ou o inglês), quando não há uma forma irregular armazenada na memória – e que estão, precisamente, armazenadas na memória de cada pessoa, as formas verbais irregulares que ela conhece.

Agora, ou aceitamos estas três possibilidades, ou propomos outra. Depende um bocado da nossa criatividade que, por sua vez, depende muito, em princípio, da quantidade de conhecimentos sobre o assunto e dos hábitos de reflexão sobre esta área… [Mas, quem sabe, talvez um olhar ingénuo sobre a questão possa gerar uma ideia genial… Às vezes, acontece.]

A partir daqui é necessário começar a investigar para ver qual das hipóteses (as três existentes ou a(s) que tivermos proposto) tem mais cabimento – ou se são todas de desprezar. [Em princípio, um resultado negativo, uma pura refutação da(s) hipótese(s) é um resultado tão válido como qualquer outro, por muito que nem todas as tradições académicas aceitem conclusões desse tipo nos trabalhos que exigem ou patrocinam…] Pode ir buscar-se evidência à maneira como estas formas são aprendidas pelas crianças, por exemplo, ao facto de que formas irregulares antes bem utilizadas (a criança dizia “eu fiz”) começam, a determinada altura, a ser substituídas por formas regulares erradas (a criança começa a dizer “eu fazi”), para depois voltarem a ser corrigidas (a criança volta a dizer “eu fiz” e vai dizer “eu fiz” o resto da vida); pode ir buscar-se evidência à comparação da história de duas línguas e à regularização dos neologismos, ou seja, ao facto de os verbos importados serem sempre regularizados; pode tentar-se observar directamente o cérebro e ver se há partes diferentes que “acendem” quando se usa uma forma regular e uma irregular; et cetera. De facto – eu não me quero agora alargar – pode ir buscar-se evidência a qualquer domínio, a qualquer lado e a qualquer tempo, desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir.

E podem entrar paixões, pode entrar a nossa ânsia de provar que queremos ter razão? Bom, se tivermos consciência delas e não fizermos os possíveis para sermos honestos na investigação, há aí uma imoralidade – uma imoralidade do mesmo tipo de conscientemente mentirmos em tribunal. Mas, se não tivermos consciência de que estamos a ser parciais? Não se pode fazer nada. Ou antes sim. Porque, como sempre em ciência ou em qualquer outra investigação séria e sensata, vale tudo desde que seja lógico e baseado em observáveis, para poder ser discutido. Se houver parcialidades e batotas, elas hão-de notar-se, a não ser que toda a gente que discuta connosco os nossos resultados sofra da mesma parcialidade que nós, o que é altamente improvável.

Poder-se-ia ir mais longe e em vez de afirmar «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir», afirmar-se antes «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que seja passível de ser refutada.» É a famosa teoria popperiana a que Igor Lobão faz referência, no excerto que dele citei, como “falsificabilidade”. Não gosto muito de falsificabilidade como tradução do conceito de Popper, porque leva facilmente os falantes do português que não conheçam a teoria de Popper, a pensar que, para ele, é científico o que se pode falsificar, quando de facto é de refutabilidade que se trata: segundo Popper, é científico o que há maneira de mostrar que é falso. O problema é que falsificar em português (tanto no uso que eu lhe conheço, como na definição que encontro no meu dicionário) não significa “mostrar que é falso”, ao contrário do falsify inglês, de que costuma ser uma (má) tradução. Neste sentido, e voltando à citação de Igor Lobão, o que é revisível não é exactamente a “leitura” que a “estrutura simbólica” faz do real (embora não me choque que se diga a coisa desta maneira), mas antes o valor de verdade de uma proposição. O que se passa mais concretamente é que se descobre que o que se pensava ser uma verdade antes, afinal não o é, porque se descobriu algo mais* sobre o assunto. A ciência, como toda a procura séria da verdade, está sempre disposta a reconhecer que errou…

Mas enfim, perdoem-me a excursão. Poder-se-ia ir mais longe, dizia eu, e afirmar que o critério de refutabilidade seria essencial. Pode, de facto, usar-se um truque assim, no geral, para avaliar da dose de bom senso de uma hipótese ou de uma proposta explicativa**. Mas não sei se vale a pena. Mesmo no uso desta regra geral é saudável ser comedido. Há tantas afirmações plausíveis e interessantes para a investigação do mundo que não são refutáveis em sentido estrito; e há tantas que, sendo refutáveis, nem vale a pena considerar, porque não há nenhuma razão para as crer interessantes…

Agora, digam-me: O procedimento descrito atrás para tentar saber alguma coisa de como são produzidas na cabeça da gente as formas irregulares dos verbos assenta numa estrutura simbólica específica? Como é que se podia pensar no assunto de outra maneira? Qual seria outra estrutura simbólica possível, “não-cientifica”? É claro que podia não se pensar no assunto – essa é sempre a alternativa à procura de conhecimento… E tirando isso?

Não me compreendam mal: a maior parte das questões que se discutem naquilo que se designa normalmente como trabalho científico são altamente especializadas e algumas são de uma grande complexidade. [Mesmo a que acabo de referir é suficientemente complexa para não haver acordo nenhum sobre a resposta a dar-lhe…]. Há, muitas vezes, questões metodológicas essenciais que podem influenciar resultados e que variam muito de área do saber para área do saber. Há muitas questões da prática de investigação que são levantadas por investigadores e que merecem discussão atenta e aprofundada. Ainda assim, as críticas à possibilidade de “objectividade” da ciência que a apresentam como “mais um quadro mental” que “produz as suas realidades”, tiveram uma enorme fortuna entre não cientistas, mas não vieram afectar, ao que eu sei, a maneira de fazer ciência. E é extremamente improvável que isso se deva a outra coisa que não seja às suas próprias características, isto é, ao facto de que as questões que levantam serem irrelevantes para o trabalho que os cientistas na realidade fazem. Dito de outra maneira, «“método científico” é uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista»***. Porque quando são levantadas questões metodológicas directamente decorrentes do trabalho científico e com implicações sobre ele, há sempre quem as leve a sério e tenha em conta, no seu trabalho, essas mesmas implicações. Por exemplo, a questão da relação emotiva do cientista com a sua hipótese, de que eu falava atrás, é um problema real e constatado há muito tempo, para o qual também há já muito tempo que foram propostas soluções, como sejam a formulação à partida de várias hipóteses, se possível de maneira a que cada uma infirme as outras, e a análise das conclusões por um painel qualificado de advogados do diabo que não perfilhem a hipótese assumida pelo investigador. Mas não estamos aqui perante nada que seja verdade em ciência e não seja verdade fora dela. Os mesmos cuidados têm de se ter em qualquer inquérito para apurar a verdade, seja ele do domínio normalmente considerado científico ou não – embora, naturalmente, a própria natureza do que é investigado apele a problemas diferentes.

De uma forma talvez exageradamente poética, não sei, poder-se-ia até dizer que o facto de os problemas que se colocam ao investigador poderem variar em função do objecto de investigação é a prova mais concludente da dureza do real. Sim, porque o real é duro, para os cientistas e para as outras pessoas todas. Por isso é que não são só os cientistas a ter o cuidado de não ultrapassar em locais sem visibilidade…

Post Scriptum:
O real pode, em parte, ser transcrito em linguagem lógico-matemática. Mas é relativamente limitado o que se pode transcrever nessa linguagem – pelo menos enquanto não melhorarmos o método de transcrição… Também se calhar não vale a pena. A linguagem comum tem até agora chegado à investigação do mundo, se a acrescentarmos aqui e ali de termos novos, quando é necessário – como se faz, aliás, em todas as áreas de actividade humana – gastronomia, costura, serralharia…

O real também pode, em parte, ser medido. Mas há coisas do real que nós não sabemos medir e que não sabemos, por isso, se alguma vez haveremos de saber medir… Mas mesmo de medir coisas aparentemente tão imensuráveis como o sofrimento… já estivemos mais longe.

Não são só os números negativos e imaginários que não existem no real. Os números, como qualquer palavra (os números são palavras!), servem para dizer o real. Ou seja, na realidade o que há são seres contáveis e eu posso contá-los, positiva ou negativamente, da mesma forma que posso escolher uma lexicalização negativa ou positiva de uma proposição qualquer que descreva a realidade. Posso dizer “Não é verdade” ou “É falso”. Se tinha três maçãs e comi uma, posso transcrever “3-(+1)”, ou “3+(-1))”, quer dizer 3 menos uma maçã (que houve) ou 3 mais o desaparecimento de uma maçã… Evidentemente, pode ir-se muito longe na argumentação da exclusiva positividade do real. Nesse caso, não são só os números negativos que não existem, são todas as categorias negativas e afirmar que “ainda não comi” é uma descrição “desadequada” do real, porque não há ocorrências de “não-ingestão” de alimentos, apenas de ingestão de alimentos. Este facto simples tem às vezes implicações em discussões concretas (por exemplo, a impossibilidade de provar a não-existência de seres sobrenaturais) ou às vezes implicações metodológicas (por exemplo, na metodologia de identificação e resolução de problemas chamada Logical Framework Approach, exige-se a formulação positiva dos problemas, para não coincidir com a procura de soluções). Mas, na maior parte dos casos, este facto é sem interesse e determinado apenas pela escolha das palavras para dizer um estado de coisas – não há grande diferença entre dizer “o azul e o verde são cores diferentes” ou dizer “o azul e o verde não são a mesma cor”.

Dito isto, concordo que há uma grande ingenuidade nas definições de real de Galileu e Max Planck referidas. Mas é de perdoar-lhes essa ingenuidades. Afinal, Galileu e Max Planck, mesmo com as suas ingenuidades na definição do real, contribuíram muito mais, na minha modesta opinião, para o avanço do conhecimento humano do que muita gente com concepções talvez mais sofisticadas da realidade…
__________

* É difícil também aceitar a acusação que se faz à ciência de ser não-cumulativa – é óbvio que é cumulativa, porque quando as constatações anteriores relevantes para uma determinada investigação são suficientemente estáveis não se tenta verificá-las de novo, mas parte-se antes delas como pressupostos. Mais uma vez, a ciência não se distingue, nisto, de todo o conhecimento humano.

** Sim, porque é para avaliar o bom senso mais do que a cientificidade que serve a regra de Popper. Imaginem que, em vez da produção das formas irregulares dos verbos, o tema de investigação fosse outro: Foi a Siri que comeu o caju que estava em cima da casa de jantar? A minha “teoria”, por ter constatado que a Siri tinha sido a única pessoa a ir à sala depois de eu lá ter posto o caju e saber de antemão que a Siri é maluquinha por caju, era que sim. É refutável?? Claro que sim. Isso faz da minha teoria uma teoria científica? Talvez…

*** A frase é de Steven Pinker, na sua recensão do livro de divulgação científica The Canon, A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science, de Natalie Angier (NYTimes, 27 de Maio de 2007). A frase completa de Pinker é: «Thankfully, [Natalie Angier] does not try to render something called “the scientific method” (a phrase that never passes the lips of a real scientist) but conveys the idea that science is just the attempt to understand the world with a special effort to ensuring that the things you say about it are true». [«Ainda bem que [Natalie Angier] não tenta expor uma coisa chamada “o método científico” (uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista), mas transmite antes a ideia de que ciência é apenas a tentativa de compreender o mundo com um esforço especial para se certificar de que o que se diz sobre ele é verdade]. Ora aí está uma definição razoável do que fazem os cientistas.