27/05/09
Propriedade privada e domínio público
Reflexãozinha sobre o anonimato, tão sem graça como devidamente identificada
Muita gente tem criticado o anonimato na compilação ou sistematização de informação. A Wikipedia é o maior alvo destas críticas, mas há muitos outros casos semelhantes*. Sinceramente, não vejo perigo nenhum em projectos deste tipo. Uso regularmente informação a que tenho acesso em enciclopédias e fóruns anónimos, e não vejo necessidade de ser mais cuidadoso na filtragem dessa informação que na filtragem da que vou buscar a obras assinadas. Em princípio, os motivos para desconfiar de um texto têm pouco a ver com o facto de ele ter ou não um autor identificado (a não ser, claro, que se aceite a identidade do autor como garantia suficiente da sua credibilidade…).
É também praticamente irrelevante a questão da produção anónima de objectos artísticos, porque ela é mínima e normalmente de obras sem grande interesse – os produtores de obras de qualidade são normalmente ciosos da sua assinatura, online ou não. Independentemente da sua frequência, porém, não há nesse anonimato nada que seja passível de crítica, porque no domínio da arte, ninguém é obrigado a nenhum tipo de relação com as obras que cria, e certamente que não tem nenhum dever de se dar a conhecer como seu autor.
Na minha opinião, o domínio em que é mais interessante a discussão do anonimato é o da produção de opinião. A todos os níveis: principalmente sobre questões políticas, ou morais em geral, mas também sobre questões estéticas. A internet está cheia de opiniões anónimas – e nem sempre anódinas. E eu não percebo bem por quê. Provavelmente, as pessoas sentem-se mais expostas e de alguma forma mais vulneráveis online do que em relações não virtuais, mas, mesmo assim… Já não falo de páginas com conteúdo sexual ou de blogs de super-heróis (que gracinha, Vitinha…), em que as razões do anonimato são imediatamente compreensíveis, mas, desde blogues de opinião a fóruns vários de discussão, passando por comentários externos a artigos de jornais e revistas online e a posts de blogues, as criaturas mais activas na Internet são a Sra. Anónima, o Sr. Anónimo, a Sra. Pseudónima e o Sr. Pseudónimo. Pode argumentar-se que o facto é irrelevante, porque uma opinião tem o mesmo valor sendo assinada com um nome verdadeiro ou não, e é difícil rebater tal argumento. Como já disse, irrita-me às vezes um bocado o anonimato, mas é uma irritação sem grande motivo, reconheço… É uma coisa instintiva, visceral: quando vejo um comentário anónimo, seja neste meu blogue ou noutro sítio qualquer, pergunto-me a mim mesmo: “Será que, fora da Internet estas pessoas também reservam a sua identidade? Ou reservam antes, perante pessoas que sabem quem elas são, a sua opinião?” É estranho, tudo isto, mas enfim, apenas estranho. É-me difícil apontar aqui alguma imoralidade.
“E o que é que se passaria se não houvesse a possibilidade de anonimato”, interrogo-me eu, para ver se descubro algum perigo real no não dar a cara. Bom, é possível que alguns comentários apatetados desaparecessem, que desaparecesse alguma virulência (sei que há estudos que defendem que o anonimato online está na origem de tipos vários de comportamento anti-social); e talvez aumentasse a necessidade de justificar argumentos… Talvez tudo isto – ou talvez não…
Mas enfim, assumamos que agressividade, leviandade, e desrespeito de normas e de pessoas são alguns possíveis efeitos negativos do anonimato. E que efeitos positivos tem? Também não sei bem. Em princípio, o de dar, a quem não a tem, a coragem de se exprimir sobre determinados assuntos**, ou a coragem de se exprimir, tout court; e, claro, o mais óbvio de todos, maior facilidade na possibilidade de resistência activa a vários tipos de repressão***…
Agora, já repararam que, no meio de tantas opiniões anónimas, a esmagadora maioria das pessoas convictas do que escrevem se identifica devidamente? Da parte do autor dos textos, há alguma relação, estou em crer, entre assinar e levar “a sério” o que escreve. E a mesma relação entre identificação e “seriedade” é também estabelecida, penso eu, por muitos leitores: um texto devidamente assinado é considerado mais “sério” e merece, portanto, mais credibilidade. Não vos parece?
... O que não significa, claro está, que todos os que se identificam devidamente têm um alto grau de convicção e que ganham, por se identificarem, alguma credibilidade. Eu, por exemplo, apesar de devidamente identificado...
[Agora, entre parênteses, vou fazer uma pequena experiência: vou escrever aqui que prevejo comentários anónimos a este post, a ver quantos aparecem…]
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* As críticas não são só ao facto de os artigos terem autores anónimos, mas também ao facto de serem produzidos colectivamente. Não sei até que ponto se pode dizer que o anonimato é, nestes casos, uma componente do colectivismo...
** Também sei que há estudos que consideram o anonimato uma causa de hiperpersonalismo, o que faz todo o sentido, mas não sei se pode colocar esta abertura de si entre as consequências positivas do anonimato… Duvido, pelo menos, que seja um consequência abertamente negativa, ao nível das que referi atrás…
*** Que eu, confesso, não faço ideia de que importância tenha. A verdade é esta: nas minhas deambulações pela net, nunca fui parar, como vou parar a tantos outros tipos de páginas, a sites de resistência clandestina a regimes repressivos e nem sequer a páginas de resistência a algum chefe ou professor despótico. O que não quer dizer que os não haja, claro está. O facto de isso nunca me ter acontecido tem provavelmente tem mais a ver com o próprio carácter das minhas ciberdeambulações, não sei…
23/05/09
Morte ao som do disco sound
A primeira é um livro do montanhista Joe Simpson em que ele conta a escalada do monte Siula Grande, no Peru, com o seu colega Simon Yates. Joe Simpson é um narrador altamente competente e a sua escrita consegue seduzir mesmo quem, como eu, não se interesse especialmente por montanhismo – e também seguramente quem, ao contrário de mim, não se interesse por problemas morais (ia a escrever “e ainda a quem não se interesse pela questão dos limites do ser humano e da problemática da morte iminente”, mas não acredito que haja gente assim…). Haveria muito que dizer sobre o livro, mas não é aqui lugar para isso nem essa a intenção deste post, pelo que me limito a recomendá-lo. [Sei que existe uma tradução em português do Brasil chamada Tocando o vazio, não sei se existe alguma em português europeu.]
A segunda obra com o mesmo nome é o filme que Kevin MacDonald realizou em 2003, a partir do livro e com a colaboração de Joe Simpson e de Simon Yates. Trata-se de um documentário fabuloso, em que se misturam entrevistas aos protagonistas com uma reconstituição dos acontecimentos que é impressionante de beleza das imagens, realismo e drama. Uma obra também muito recomendável.
E chego ao que eu queria aqui contar: Joe Simpson está sozinho no meio da neve, tem uma perna estilhaçada, sofre dores horríveis, está enregelado, completamente desidratado, não consegue mover-se. Não tem dúvida de que chegou o fim. Só lhe resta esperar a morte.
“Não me lembro de ter pensado em ninguém… Em nenhuma das pessoas que me são queridas... Lembro-me de me ter vindo uma canção à cabeça… Dos Boney M… E eu não gosto de Boney M… Aquilo continuou… Durante horas e horas… Era horrível… Porque eu queria tirar a canção da cabeça e pensar noutras coisas… E comecei a pensar: Porra, pá, vou morrer ao som dos Boney M!...”
(Se tiverem a sorte de não conhecer a canção em questão, “Brown girl in a ring”, mas, roidinhos de curiosidade, quiserem ir ver qual é, pois bem, façam-no… por vossa conta e risco… Quanto ao título do post, leiam-no como quiserem...)
21/05/09
A cidade de Nimis e a floresta de Oma
Nimis fica no Sul da Suécia e é uma teimosia, uma coisa de amor e de obsessão. Vou contar o que me contaram.
Lars Vilks tinha uma tese para fazer e queria fazê la sobre os limites da arte: o que é uma obra de arte?; o que é que ainda é arte ou já não é arte, onde ficam as fronteiras?Foi a um parque natural, desses em que é tudo proibido, cortar as plantas, mexer nelas, construir seja o que for, e começou, num amontoado de rochas à beira-mar, a juntar paus que o mar trazia e troncos velhos, e a empilhá-los e a atá-los, e a ordená-los, enfim, na forma de uma cidade bizarra que trazia na cabeça.Soube-se da construção e começou a disputa com as autoridades, que oficialmente nunca acabou. O município dizia que ali não se podia construir. Lars Wilks respondia que aquilo não era construir, mas antes criar arte e que não havia lei contra isso. O município retorquia que era construir, sim senhor – um edifício muito esquisito, mas ainda assim um edifício. Et cetera.Uma vez, tentaram destruir Nimis, pegando-lhe fogo, mas Nimis não ardeu completamente e Lars Wilks começou logo a reconstruir as partes queimadas. A primeira coisa que fez depois do fogo para robustecer a sua obra foi encher de pregos os paus, para não poderem arder com facilidade. E Nimis foi sempre ficando e crescendo. Todos os dias, Lars Wilks ia juntando troncos e paus à cidade fantástica de troncos e paus. Começou a vir gente ver a obra de arte que nunca parava de crescer.Um dia, Lars Vilks fez uma venda simbólica de Nimis a um artista conceptual alemão, que morreu pouco depois. Foi uma venda simbólica, porque o artista alemão pagou por Nimis uma soma simbólica, mas foi uma verdadeira venda, no sentido em que foram cumpridos todos os requisitos legais que a venda de uma obra de arte implica. E foi outra polémica. A ideia era obrigar as autoridades locais a deixar Nimis em paz, porque a lei sueca diz que não se pode tocar na propriedade de um estrangeiro. O município, porém, insistia em que ele não tinha o direito de vender Nimis como se fosse um quadro ou uma escultura, porque não era uma coisa móvel, tinha alicerces num terreno que não lhe pertencia. Mas Lars Vilks argumentava que não havia alicerces de facto, que era só a estrutura mínima de que a obra precisava para se manter de pé, como muitas esculturas têm.A pouco e pouco, a teimosia de Lars Wilks acabou por se impor. As autoridades municipais foram-se cansando de tão grande luta sobre o que começaram a achar, afinal, tão pouco, e acabaram por aceitar Nimis como um facto consumado.Agora o que é engraçado é que, já passados a tese e o auge da grande discussão com as autoridades municipais sobre onde começa e onde acaba uma obra de arte, Lars Vilks apaixonou-se por Nimis. Febrilmente, obsessivamente. Nota-se-lhe essa febre na maneira ansiosa como os pregos torcidos e as tábuas tortas nunca são endireitados, na pressa desorganizada das formas, no espaço todo que é deixado a acasos. Já lá vão mais de 10 anos e Lars Vilks continua, impacientemente, o seu trabalho. Como já não lhe chegavam os troncos e a madeira velha, começou a usar pedras e cimento também. Começou a mobilar com restos de livros rasgados que prega à parede uma das salas da sua cidade: aqui é a biblioteca. Quem sabe, virá depois um asilo para velhos e uma estação de caminho de ferro.Toda a gente que se interessa por Nimis acredita que Lars Vilks há-de continuar sempre o seu trabalho, até morrer.
19/05/09
Louvor de Paulino António Cabral e de uma vida boa
Os versos d[ele] não valem muito pela qualidade poética (…), mas não deixam de ser literatura cativante, injustamente obliterada.
A não ser que nos atenhamos a uma concepção altamente formal de “qualidade”, não percebo bem o que é preciso mais, para definir a qualidade poética de um texto, do que ele ser, precisamente, literatura cativante... Para mim, Paulino António Cabral é apenas um poeta sério e, nisso estou de acordo com Jacinto do Prado Coelho, injustamente esquecido. Acho que deve dedicar, quem não o conhece, algum tempinho que arranje a conhecê-lo; por exemplo, numa página que lhe é dedicada pelo senhor Arlindo Correia (onde eu fui buscar, precisamente, a citação de Jacinto do Prado Coelho que acabo de referir). E deixo-vos aqui um poema de Paulino António Cabral, para os que o não conhecem decidirem se têm ou não vontade de o conhecer. Em 1784, com 65 anos de idade e já doente, escreveu ele:
Eu, que junto à cabana, em que vivia,
Tive uma rica rrmida; e afortunado
Ovelhas tantas tive, que o montado
Com elas branquejar alegre via;
Eu, que tive prazer, tive alegria,
Tive nome entre os mais; eu desgraçado,
De quanto tive agora despojado,
Não tenho nada mais, que a noite, e dia;
Eu mesmo deixei tudo; e unicamente,
A saudade nos cofres da memória
Com desvelo guardei, mas imprudente;
Pois lendo nela a minha triste história,
Me fazem ser mais duro o mal presente
Doces lembranças da passada glória.
Tinha prometido já não falar aqui de literatura e não o faria se não trouxesse a literatura agarrada a ela outra coisa qualquer. É tão impossível como irrelevante saber o que há de expressão de uma convicção, neste poema, ou de procura apenas de efeito literário. O facto é que, entre outras coisas, o poema diz uma ideia e pode-se discuti-la (sou daquelas pessoas antiquadas que acham que a literatura serve para transmitir ideias e que é esse um dos seus aspectos interessantes; e que se podem discutir as ideias que se encontrem num poema, exactamente como as que se encontrem noutro texto qualquer...).
Poderia argumentar que o problema do sujeito do poema não é a “passada glória”, mas a fonte dessa glória; poderia repetir aqui que prazer e alegria não têm nunca satisfação e não trazem nunca satisfação; que de fortuna e nome pouco fica que nos valha quando deixamos de os ter; que, se fossem as doces lembranças de acções concluídas, se fosse a “passado glória” feita de obras feitas, não haveria saudade que o magoasse, até porque não haveria de que ter saudade. Mas não é por aí que quero ir, até porque isso já eu escrevi aqui uma vez. O que eu queria dizer é só que, independentemente do que se tenha feito na vida, é uma sorte, precisamente, poder lembrar-se de ter tido, pelo menos, alguma coisa de seu, prazer e alegria; porque terrível de facto há-de ser olhar para trás e não conseguir recordar senão o contrário de tudo isso... E há muita gente, estou eu convencido, que não encontra muitos prazeres de que ter saudade no fim da vida...
Mas claro, é mais fácil ser-se assim optimista em relação à velhice antes de lá chegar do que depois de lá ter chegado. Eu em lá chegando (já faltou mais...), depois digo-vos se mudei de opinião, sim?
Não me digam que não acham boa ideia…
Na frase dinamarquesa correspondente a “O poeta despede-se da musa no seu leito de morte”, o possessivo (seu) é diferente conforme se trate do leito do poeta ou do leito da musa, de maneira que nunca há ambiguidade.
Podia facilmente convencionar-se uma regra assim para o português escrito: escrever-se-ia “A Rita foi com a Rute no seu carro”, se fosse o carro da Rita, e “A Rita foi com a Rute no carro dela”, se fosse o carro da Rute. Ou ao contrário, era irrelevante, conquanto que se assentasse numa regra...
O quê? Não me digam que não acham boa ideia…
Erros, ponto e vírgula!... Preferências!
Uma função da pontuação é marcar certos traços da fala que são pertinentes na construção de sentido, mas que são de tipo diferente dos sons que formam palavras, e que, por isso, não se podem marcar com letras nem acentos. Assim, numa língua como o português, a distinção entre uma afirmação e uma pergunta é muitas vezes marcada apenas pela entoação. Na escrita, isto é marcado com um ponto de interrogação. Neste caso, nas línguas em que as interrogações têm sempre uma estrutura sintáctica diferente das afirmações (ou mesmo nas frases em português em que essa diferença é clara, como “onde foi a Rita?”), o ponto de interrogação é de facto dispensável – e, por muito que isso nunca faça parte das regras ortográfica das línguas que conheço, é de facto muitas vezes dispensado: tenho o Outlook Express cheio de provas disso.
A segunda função da pontuação é facilitar a leitura. As convenções sobre colocação de vírgulas, por exemplo, podem ser muito diferentes de tradição escrita para tradição escrita. Um exemplo é a diferença da tradição da “vírgula gramatical” (eu acho que devia ser antes vírgula sintáctica…) relativamente à tradição da vírgula “lógica” ou à da vírgula “de entoação”: na primeira usa-se um critério exclusivamente sintáctico; na segunda, um critério que se pretende semântico, ou lógico; na terceira, que coincide muitas vezes com a segunda, procura fazer-se corresponder a vírgula a pausas do discurso oral. Trocando isto em miúdos, numa frase como “A única coisa que temos de verificar é se as casas não estão alugadas no período em que vocês cá vêm, por isso digam-me quando têm planeada a vossa visita e eu pergunto à agência que aluga as casas se elas estão desocupadas nessa altura”, usando a regra dinamarquesa tradicional de “vírgula gramatical”, teríamos vírgulas a dividir todas as orações: “A única coisa, que temos de verificar, é, se as casas não estão alugadas no período, em que vocês cá vêm, por isso digam-me, quando têm planeada a vossa visita, e eu pergunto à agência, que aluga as casas, se elas estão desocupadas nessa altura”. A mim, que aprendi a ler com vírgulas à portuguesa, este sistema de vírgulas continua a dificultar-me a vida quando leio dinamarquês, a obrigar-me a ler as frases duas vezes para as perceber; a um dinamarquês, acontece exactamente o contrário – se as vírgulas não forem colocadas assim, custa-lhe mais a ler. Isto porque as vírgulas são muletas que usamos na leitura, conforme o sistema que aprendamos.
A terceira função da pontuação é desfazer determinadas ambiguidades que resultam da concisão da língua escrita. Costuma dizer-se que uma diferença da língua falada relativamente à língua escrita é ter um número muito maior de redundâncias. É verdade que a língua escrita é, no geral, muito mais concisa, mas muitas das “redundâncias” da oralidade não o são realmente, porque servem para evitar ambiguidades e incompreensões várias. No semi-artificialismo da língua escrita, há uma série de convenções de pontuação que permitem distinguir frases que, sem elas, seriam indistinguíveis. Estes casos são raros, mas têm às vezes alguma importância. Fiquei um bocado desiludido quando descobri que o exemplo que a Wikipedia dá é o mesmo de sempre, mas depois, pensando melhor, achei que é isso que compete a uma enciclopédia e acabei até por decidir usar também aqui o exemplo: “A woman, without her man, is nothing” é muito diferente de “A woman: without her, man is nothing.” [Notem, a propósito, e para ilustrar o que dizia atrás, que ambas as frases, e sobretudo a segunda, são altamente improváveis no discurso oral.]
No que respeita a desfazer equívocos e ambiguidades com pontuação, um dos casos que surge com mais frequência é a distinção entre sintagmas restritivos e apositivos. Para dar também um exemplo clássico, se eu escrever “A minha irmã que mora no Porto chega amanhã”, qualquer pessoa deverá compreender que eu tenho pelo menos duas irmãs e que só uma delas mora no Porto, ao passo que, se eu escrever “A minha irmã, que mora no Porto, chega amanhã”, compreende-se que só tenho uma irmã e que essa única irmã mora no Porto. A distinção pode ser significativa, como no caso de um relatório que eu traduzi no outro dia: “Os camponeses do distrito, que foram apoiados pelo projecto, melhoraram a sua produção em mais de 10%” é muito diferente de “Os camponeses do distrito que foram apoiados pelo projecto melhoraram a sua produção em mais de 10%” – a diferença é de milhares de pessoas e milhares de toneladas de produtos agrícolas… Mas só para quem não tenha ideia do que o projecto é, porque quem o conheça sabe bem que ele não abrange todos os camponeses do distrito…
É de notar que esta distinção não se aplica só a orações relativas, mas a outro tipo de sintagmas. Por exemplo, se eu escrever, referindo-me à escola dos meus filhos, que “A funcionária da secretaria Júlia Nhacumbe está de licença de parto”, há pelo menos outra funcionária; mas se eu escrever que “A funcionária da secretaria, Júlia Nhacumbe, está de licença de parto” ou a secretaria está fechada ou contrataram uma substituta.
Mais complicado é o caso em que o uso de uma vírgula tanto pode resolver ambiguidades como criá-las, como acontece com a vírgula a separar o último elemento de uma enumeração. Este uso da vírgula é típico do inglês e, mesmo nessa língua, é discutido. Não se costuma usar assim a vírgula em português, mas eu faço-o às vezes, quando e apenas quando é mesmo necessário para resolver ambiguidades, o que acontece normalmente com um elemento composto no fim na sequência. Por exemplo, escrevo “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, poesia e drama” se a escola propõe 4 actividades extracurriculares e “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, e poesia e drama” se a escola propõe 3 actividades extracurriculares e em caso nenhum “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática e poesia e drama”, porque acho confuso. Mas enfim…
Outra situação em que uso uma vírgula que nunca vi recomendada é antes da conjunção e, quando ela não liga sintagmas do mesmo tipo. Por exemplo, escrevo, como toda a gente, “estivemos a tarde toda à espera deles e a jogar xadrez” e escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles e a noite toda a conversar”, mas escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles, e eles não vieram”: se usasse um mas, punha vírgula, porque não hei-de pôr vírgula antes de um e com valor de mas?
Ainda outra pontuação “estranha” que uso frequentemente é o ponto de interrogação a delimitar as interrogativas no meio de períodos. Não gosto da forma canónica de, por exemplo, “O que é que tu achas que devíamos fazer, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo?”, e uso “O que é que tu achas que devíamos fazer?, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo”.
Já que estou em maré de interrogações, deixem-me acrescentar que sou apologista do uso dos pontos de interrogação e exclamação invertidos no início de interrogações e exclamações, como na tradição espanhola (embora os use pouco, porque não quero chocar muito quem me lê...). São um excelente auxiliar de leitura, sobretudo em voz alta (mas não só). Talvez não faça muito sentido usá-los em frases como “Onde foi a Rita?” ou “Vai-te já embora, pá!”, mas deviam usar-se pelo em frases longas em que a exclamação ou a interrogação aparece só a meio da frase: “Ao fim de dois anos de conversa de chacha aqui neste blogue, com temas que, ¡sejamos honestos!, não interessam nem ao menino Jesus, ¿não sente nunca que era melhor deixar em branco este espaço de leitura, para cada um poder ler no branco o que lhe aprouvesse?”
Mas enfim, tudo isto são manias minhas, que eu não quero impor aos outros (propor, posso sempre propor, não é?). O que é importante para mim é que ninguém me obrigue a pontuar como não quero aquilo que escrevo, sobretudo quando tenho razões para pontuar como pontuo.
Os bons, os maus e os outros (Belos, asseados e bons, parte II)
Quero desenvolver aqui um bocadinho uma parte dessa ideia, e insistir na necessidade de uma grande abstracção em todas as áreas morais – e, por conseguinte, também em política, que eu defendo que é apenas uma parte da moral. Para mim, o perigo maior de uma abstracção insuficiente neste domínio é a valorização a priori de determinadas pessoas e demonização das outras. Chamemos-lhe falta de focalização moral, julgar ao lado do que se pode e deve julgar...
Um exemplo simples: Mesmo numa perspectiva radicalmente antifascista como a minha, eu não me posso considerar, na totalidade das minhas acções, moralmente superior a uma pessoa que seja fascista. Uma pessoa pode ser fascista e ser, no geral, um pai mais dedicado aos seus filhos e aos seus amigos, e mais paciente com eles, do que eu sou; pode ser menos quezilento no trato em caso de discórdia; pode ser, em muitas coisas, “uma pessoa melhor do que eu” – mesmo na minha perspectiva moral. E pode depois, independentemente destas qualidades gerais de carácter, digamos assim, proceder bem em determinadas circunstâncias específicas em que eu procedi mal. É por isso, muito mais correcto disciplinar-me para pensar que sou inimigo das suas ideias e acções quando defende políticas autoritárias e repressivas, e que é só nessa condição que ele é meu inimigo, em vez de me convencer que ele é uma pessoa moralmente inferior, intrinsecamente má. Feliz ou infelizmente, anjos e demónios somos nós todos e não há pessoas intrinsecamente melhores do que outras, a não ser que sejam essas próprias pessoas a bitola pela qual medir a própria moralidade. Quando observamos à nossa volta, podemos verificar que cada pessoa se julga quase sempre do lado da verdade; e isso deveria ser prova suficiente de que esse lado é inexistente*.
Dito de outra maneira, cada indivíduo é um ponto de cruzamento de ideias, sentimentos e acções que existem, em abstracto, fora dele e que não desaparecerão quando ele desaparecer. Algumas das ideias, alguns dos sentimentos e algumas das acções de um indivíduo podem ser negativos, na nossa perspectiva, e podemos querer combatê los, mas isto não implica, como já defendi, que tudo seja negativo num indivíduo. A forma de combater essas ideias, sentimentos ou acções que consideramos negativos é erradicá-las dos indivíduos em que elas existem, porque não existem sem um suporte material. Tomar o indivíduo como inimigo, porém, é tomar como inimigo muito mais do que aquilo que queremos combater**.
O que digo sobre indivíduos aplica-se também a grupos de indivíduos. E o que digo sobre o combate aplica-se também à defesa. Quero sublinhar, no entanto, que é muito fácil desviar-se, sobretudo no trabalho político, da defesa dos princípios morais que deveriam orientar esse trabalho para a defesa dos grupos sociais que são vítima das injustiças que combatemos ou de outra forma beneficiários conjuntos dos objectivos que pretendemos alcançar. Ora, em sentido estrito, um grupo de pessoas não é objectivo de nenhum projecto moral, mas apenas o seu objecto conjuntural. O conjunto real das pessoas pobres, por exemplo, não é um projecto político; o combate à pobreza é que é. E o facto de se desviar da defesa de princípios abstractos para a defesa de pessoas ou grupos de pessoas concretas pode ter (e tem, muitas vezes) efeitos perversos acabando por desculpar ou inclusive apoiar, nessa pessoa ou nesse grupo, ideias, sentimentos ou acções que vão contra os princípios desse trabalho.
Agora, é fundamental sublinhar que há acções ou ideias em abstracto que são frequentemente louvados como ideais éticos e que nem sempre o são de facto; ou então, que podem ter esse estatuto numa determinada proposta moral e não o ter noutra. Vejamos, por exemplo, a obediência aos pais, que, segundo a notícia para a qual o meu amigo Nuno mandou um link no comentário já referido, é objecto de concurso na Arábia Saudita, como as dimensões e formas de pernas, cintura e seios o são em muitos outros países… A obediência aos pais é necessária, em certas idades e situações, por razões de ordem prática, que se prendem quer com a salvaguarda física das crianças quer com a preservação da saúde mental dos pais (smile!), mas não a vejo como um valor moral por si. Para mim, o valor moral de uma acção situa-se a outro nível e não valorizarei nem condenarei uma acção apenas por ela ser o resultado de uma obediência ou desobediência aos pais. Quando muito, e conforme eu julgue o grau de liberdade de acção da filha obediente, atribuirei ou não aos pais a responsabilidade do que, de bom ou de mau, possa resultar da acção. Vistas as coisas desta maneira, um concurso de respeito pelos pais não tem mais valor moral do que um concurso de beleza ou do que um concurso de ortografia…
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* No entanto, curiosamente, continua a discussão moral, incluindo a discussão política, a ser feita de delimitação de conjuntos de pessoas boas e de pessoas más. Mais ainda, facto verdadeiramente extraordinário!, continua a reservar-se para os partidários das suas ideias o terem ideais de melhoria do mundo, atribuindo-se quase sempre ao adversário o móbil único da defesa do interesse. É muito estranho! Custa muito a admitir que duas pessoas possam ter ideais completamente antagónicos, ambos perfeitamente sinceros?
** Evidentemente, por uma questão prática, tem de ser o indivíduo, como unidade física, a ser punido por aquilo que fez, pelo menos enquanto não aparecer melhor possibilidade, mas isso não invalida em nada o que fica dito.
09/05/09
Ligações sem perigo absolutamente nenhum
Eu aproveito a boleia, a ver se tem graça ler assim. Dracula é uma obra-prima, e por acaso, foi dos poucos livros que trouxe para Chimoio, não me lembro por quê (acho que o comprei em segunda mão, algures no caminho…)... Mas não me dá jeito ler agora a obra, nem assim ao bocadinhos pequeninos, de maneira que me inscrevi, se posso dizer assim, para Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos, e hei-de então “receber” a primeira carta de Cécile Volanges a Sophie Carnay a 3 de Agosto. Em Dezembro, há-de aparecer Lady Susan, de Jane Austen, mas não sei como é que a “editora” vai resolver o problema da data, porque as cartas que constituem a novela não têm data, sabe-se só que a primeira é de Dezembro e de antes do Natal. Para se começar a ler Gente Pobre de Dostoiévski, que também está agendado, há que esperar mais um ano, porque a primeira carta, de Makar Dievushkin a Barbara Alexievna, é de 8 de Abril.
A despropósito desta informação, como é meu hábito, uma pequena nota sobre leitura:
Já li uma vez Les Liaisons Dangereuses. (Lembro-me até de que li em fotocópias de uma edição muito antiga, com letras muito grandes e os ss quase iguais aos ff.) Tenho, por isso, uma ideia do que trata o livro, mas não me lembro de quase nada da história propriamente dita. E posso dizer o mesmo de muitos livros que li – de romances, seguramente da maior parte, senão mesmo de todos… E não é nenhum defeito meu. Pode ser que não aconteça o mesmo a toda a gente, mas sei, por muitas conversas que tive sobre a questão, que acontece a muita gente. De centenas de milhares de páginas que lemos ao longo da vida, além do prazer que a leitura nos dá, pouco mais nos fica…
Estou convencido de que o mesmo se passa com as obras que se querem informativas. Ler grandes cartapácios para a escola, por exemplo, é trabalho bastante vão. Talvez se consiga memorizar alguma coisa para um exame, mas fica muito pouco para além disso. Não é que não fique nada, mas o que fica não compensa o tempo investido. Para ficar a saber, é muito mais eficaz ler resumos, estudar listas ou quadros. A não ser que se goste do que se está a ler, porque, é claro, nem só a ficção dá prazer. As 700 e tal páginas de Sociology, de Anthony Giddens, por exemplo, podem ler-se com o mesmo prazer com que se lê Os irmãos Karamazov – a até é natural que nos fique mais da leitura do primeiro do que do segundo… Depende das pessoas, claro está…
Quando Borges afirma que é um “desvario laborioso e empobrecedor (…) compor vastos livros; (…) espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”, não pretende, muito provavelmente, depreciar as obras longas, mas dar antes conta do seu projecto literário; é bem possível que não esteja a falar do que pensa da literatura em geral, mas mais de como sente e quer a sua literatura. Seja como for, o que ele diz, independentemente do que pretende ao dizê-lo, é difícil de refutar. E se se aplica à escrita, também se aplica à leitura: para quê ler tanto de que vamos reter tão pouco? Mais vale ler apenas o pouco que conseguimos reter.
Há agora muito quem se inquiete com os hábitos que se estão a criar, sobretudo com a internet, de ler exclusivamente textos pequenos, mas talvez com a nova forma de leitura as pessoas retenham mais do que lêem…Talvez assim aprendam mais… Mais uma vez, não há provavelmente razão para catastrofismos, mas antes para optimismo...
08/05/09
Belos, asseados e bons
E então: Numa grande parte, senão na totalidade, das chamadas sociedades modernas, as capacidades de abstracção lógica ou de cálculo, por exemplo, são mais valorizadas do que as outras capacidades mentais – que nem sequer são assim consideradas –, e, por isso, as pessoas admiram muito a “inteligência” acima da média, que é rara. O pior da valorização da inteligência é que ela traz agarrada um negativo de si, uma depreciação. Acho curioso que muita gente que tão veementemente protesta contra outras formas de discriminação alinhe, sem grande pejo, na discriminação dos “burros”…
Mas é assim. O melhor que se pode ser é “inteligente”, “ter uma grande cabecinha”, E “porque sim” parece ser a justificação implícita – e suficiente. Ora tentemos sair do a priori e ver as coisas de outro ponto de vista. Primeiro, do ponto de vista pré-moral da satisfação de cada um: É-se mais feliz quando se é mais inteligente? Faz mais sentido a vida para quem é capaz de maior abstracção ou tem maior capacidade de resolver problemas? Ah… Pouca gente responderá com um sim redondo… Numa perspectiva moral, então, a outra pergunta que se impõe: É-se melhor para os outros quando se é mais inteligente? Assentemos que, se os outros forem as pesssoas mais próximas, a resposta também não pode ser sim. Acho que temos todos disso evidência sobeja. Agora, se os outros são a humanidade no seu todo, bom, talvez a afirmativa já seja de considerar: Muitas das grandes descobertas, das grandes invenções, muitas das ideias e inovações que beneficiaram a humanidade no seu todo vieram, efectivamente, de pessoas extremamente inteligentes. Nem sempre, porque muitas vezes os grandes pensadores eram apenas pessoas com mais conhecimentos, mas enfim, admitamos que sim, que essa pequena franja dos muito inteligentes contribuiu mais do que o grupo das pessoas normais para o bem-estar de toda a gente. Que cada um dê aos outros o que pode dar, eis a regra moral que faz, para mim, mais sentido; e houve muitos outros além desses muito inteligentes que também deram o mesmo que eles, porque deram o que tinham. Por outro lado, não nos esqueçamos de que foi a mesma inteligência que serviu, muitas vezes, de alicerce aos piores crimes da história. Aliás, é curioso, estou convencido de que as muitas pessoas que consideram a inteligência uma característica intrinsecamente mais meritória do que as outras sabem perfeitamente que essa inteligência que admiram e louvam tanto serve para o bem como para o mal – como a força, o conhecimento, a beleza e a determinação… E também devem saber que para o mundo funcionar bem – ele vai funcionando mais ou menos, mas é possível pô-lo a funcionar melhor do que funciona… – bastam as capacidades físicos e mentais medianas da esmagadora maioria das pessoas.
“Mas, então, se num dia dizes mal do louvor da força, no outro dia do louvor da inteligência – e referindo ainda, de passagem, que a beleza também não merece ser valorizada… –, que raio!, quais são as características das pessoas que merecem elogio, que podem ser tomadas, se não como ideais, pelo menos como mais desejáveis?”
Nenhumas. É nisso, precisamente, que me parece importante insistir.
Dois miniposts de cocktail #2
Agora, feliz ou infelizmente – risquem o que não vos interessar –, não faço parte do grupo de gente que se indigna (é muito estranho...) quando alguém com um bocadinho de bom senso chama a atenção para o óbvio: que mais importante do que estudar as grandes epopeias é, hoje em dia, adquirir noções minimamente sólidas de matemática, física, química ou biologia (e estatística e economia?), … que permitam, por exemplo, compreender a entrada “Teoria da relatividade” da Wikipedia…
É grave, o analfabetismo científico? Não sei se grave é a palavra certa… É um bocado triste, isso sim. Para mim, é. E digamos que dificulta a vida. Cria algumas incompetências, alguns desperdícios, algumas frustrações. Para mim, o importante nem é tanto sabermos todos discutir se o Grande Colisionador de Hadrões pode realmente criar buracos negros que nos suguem a todos, se bem que haja muitas questões técnicas de que era útil que houvesse maior entendimento por mais gente, numa altura em que andam por aí tantos debates interessantes e importantes sobre ambiente e bioética, entre outros… Para mim, o importante é mais termos todos uma ideia razoável de quando e como utilizar os serviços médicos, por exemplo, e de saber distinguir uma argumentação sólida, dentro da instabilidade própria de todo o conhecimento sério, de má ciência ou pseudociência…
Analfabetismo 2: Grande alogossilábico que o gajo me saíu…
É triste não saber ler, dizia uma cantiga da Banda do Casaco, e é bem verdade. Na China, se a taxa de alfabetização é atualmente muito elevada, a verdade é que, em sentido estrito nunca se colocou o problema do analfabetismo, porque os chineses não escrevem com alfabeto. Mas já houve muito mais alogossilábicos ou de assinogramáticos do que há agora, uma coisa assim…Gostaram? Fui eu que inventei.
Eu sei que não se brinca com coisas sérias, mas aonde eu quero chegar é que não é má ideia usar palavras mais gerais do que alfabetizar, alfabetização e analfabetismo. Literacia, por muito que alguns considerem a palavra um detestável anglicismo, é uma palavra bem formada (como numeracia, aliás) e, à primeira vista, mais abrangente…, pelo menos se se considerarem letras caracteres como os sinogramas...
[Atualizado a 2 de junho de 2023, sem atualização da grafia.]
06/05/09
Dois miniposts de cocktail #1
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| Vicunha (Vicugna vicugna) nas proximidades do lago Chungará a 4570 m de altitude, norte do Chile Foto: Luca Galuzzi, 12 April 2006 https://www.galuzzi.it/ Wikimedia Commons, from here. |
[A propósito de vicunhas: No planalto andino, chama-se vicunha a quem seja agarrado ao dinheiro. Para perceber o chiste, porque é chistoso o apodo, é preciso saber duas coisas: a primeira é que a vicunha tem uma lã muito apreciada, mas é difícil de tosquiar; a outra é que, em espanhol, se pode chamar, em calão, lã ao dinheiro. Então é por isso que um avarento é vicuña: porque es difícil sacarle la lana. E serve este delírio também para dar a conhecer a quem siga o link da palavra lã o Diccionario de la Real Academia Española, que é um exemplo de um bom dicionário online e que é fixe ter nos favoritos, ou não?]
A língua de madeira do desenvolvimento
Bom, muito tem sido dito sobre o bizarro jargão do desenvolvimento e não quero fazer aqui um apanhado geral da coisa, porque isto hoje é um cocktail de textos pequeninos, e meter-me por essa língua dentro dá pano para outras mangas [Aconselho-vos, a propósito, uma secção de um texto de Mia Couto que se chama (a secção) “Uma língua chamada desenvolvimentês. Mas é melhor lerem o texto todo, claro.]
Uma das palavras que me diverte (?) é ensure, “garantir, assegurar”. Tudo o que se faz num programa ou num programa, numa sessão de formação, num estudo ou numa avaliação, seja lá no que for, é para “garantir” alguma coisa: para garantir o respeito de direitos, para garantir aumento de rendimentos e melhoria da condições de vida, para garantir igualdade de género. Etc. Era bom que fosse assim, não era?, que as actividade de desenvolvimento garantissem essas coisas todas…
Outra palavra candidata ao prémio da amalgamagem (que palavra bonita que eu inventei!) é corrupção. Que se tente moralizar um bocadinho onde há falta de moral, está para mim muito bem, mas, por favor, importa-se de me dizer de que está a falar, que é para eu ver se percebo qual é o problema? Roubo, fraude, desvios, desfalques, proveitos ilícitos, compadrios, nepotismos, tráfico de influências, extorsão, abuso de poder e até mesmo corrupção mesmo corrupção, vejam lá, há tantas palavras mais precisas – e, como vêem, até as há a mais –, de maneira que não custa nada dizer, em cada caso, de que se trata.
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[Atualizado a 1 de junho de 2023]
01/05/09
A espada é a lei: os heróis arcaicos do séc. XXI
No início, era herói quem tinha muita força e a protecção de alguma divindade; que matava monstros e toda a classe de inimigos, conquistava terra e fêmea e fundava linhagens. Depois, começou a exigir-se do herói alguma moralidade (primeiro, a moralidade cristã que era a que havia…) e o herói tornou-se meio santo. Deixou de poder pecar, e o que se louvava nele já não era apenas a capacidade de conseguir o que queria, mas o aderir a princípios e saber resistir a tentações. Continuava, no entanto, a andar a cavalo e de espada na mão, e a dar cabo de quem se lhe atravessava no seu heróico percurso. Mais tarde, entre clássico e romântico, apareceram-lhe outras qualidades: o conhecimento, a inteligência, a dedicação a uma causa, por exemplo nacional, ou a pureza de sentimentos e a entrega obsessiva à paixão. Deixou, nalguns casos, de combater de armas na mão, mas, em muitos outros, lá continuou, fiel a si próprio, a sair vencedor de batalhas navais, trocas de tiros e cenas de simples bordoada.
Desde aí, pouco mudou a aventura. E esse pouco foi voltar-se atrás e fazer-se reviver a epopeia antiga e a gesta medieval: porradaria de três em pipa, ora aí está o que é! Falo sobretudo de filmes, a forma de ficção actualmente mais divulgada. É certo que aos heróis das aventuras de hoje não bastam a força, a agilidade, as competências especiais, a esperteza ou o brilhantismo do raciocínio lógico – é preciso também terem razão e estarem do lado da justiça, seja lá ela qual for, senão não ganham. Mas, em 90% dos casos, a vitória é conseguida, em última análise, no campo de batalha. O que as histórias dão a entender é, quase sempre, que a superioridade moral, para se impor, precisa de ser acompanhada de umas boas dúzias de sopapos, quando não de apocalípticos cenários de destruição. E eu pergunto a mim mesmo por que raio nunca mais nos livramos desta componente arcaica da ficção…
A resposta que me dão muitas vezes é que somos mesmos assim. Dizem-me que são modelos inscritos muito fundo em nós, que evoluímos algures na savana africana para sermos caçadores e guerreiros. Pois, está bem, mas isso não nos impede de termos deixado de passar a vida à batatada uns aos outros. Se na vida real desapareceu a necessidade de se afirmar pela força, não há com certeza nada que impeça que essa necessidade desapareça também na ficção. Será essa violência ficcional uma maneira de lidar, da forma menos violenta possível, com a violência natural que somos agora obrigados a reprimir*? Há quem diga que sim, mas há também quem diga que o resultado mais imediato da violência nas histórias que nos rodeiam é servir de modelo a uma violência menos ficcional do que ela. Se calhar – é uma experiência que se pode fazer, se houver vontade – ganhávamos alguma coisa com resolver de outra maneira os conflitos de ficção, como temos ganho com a instituição de maneiras de resolver os conflitos da nossa vida real que não sejam só ir da boca às mãos. Se calhar, digo eu, porque não posso ter a certeza…
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* Afinal, sou exactamente como os filmes que critico: irra, que é muita violência numa frase só!
27/04/09
Cultura, mais uma vez – dentro e fora de nós
Ora há muito quem considere que se passa o mesmo com o resto da nossa cultura. Que a informação cultural que vamos interiorizando configura de determinada maneira os programas que trazemos connosco à partida, de modo que ficamos condicionados a determinadas formas de perceber o mundo e de agir. E que, partir daí, o que pensamos, sentimos e fazemos é determinado por essa cultura, da mesma forma que a maneira como pronunciamos uma língua estrangeira é sempre determinada pela estrutura fonética da nossas línguas primeiras. Quer dizer, não posso agora citar nenhuma definição de cultura que seja exactamente coincidente com a que acabo de fazer, mas, pela maneira como oiço e vejo muitas pessoas falarem de cultura, não tenho dúvida nenhuma de que é assim que a concebem.
Uma concepção de cultura deste tipo é muito sedutora, de elegante que é, mas não é sem problemas. Há provavelmente uma parte da cultura que é assim, mas que parte? Uma parte grande ou uma parte pequena? Bom, eu estou convencido de que uma boa parte dos nossos comportamentos não é determinado, em sentido forte, por regras interiorizadas.
Vejam o caso das bichas[1], por exemplo. Muitas pessoas acham que fazer ou não fazer bicha varia de cultura para cultura. Pelo menos, afirma-se muitas vezes que, em X ou X lugar há ou não há “uma cultura de fazer bicha”. E é com certeza verdade que há lugares onde se faz bicha e outros onde toda a gente se está, em menor ou menor grau, nas tintas para a ordem de chegada e impera a lei do jacaré la bouche, como dizia um amigo meu – quem tem a boca maior é que se safa... Mas é problemática a relação deste facto com cultura, sobretudo se esta for concebida como o tal conjunto de regras fortes interiorizadas que determinam olhares e gestos. O que se constata facilmente é que, quando uma pessoa de uma “cultura sem bichas” se muda para um sítio onde haja uma “cultura de fazer bicha”, ela começa logo a fazer bicha, sem problema nenhum. E pode também observar-se que, de volta à “cultura sem bichas”, deixa outra vez de as respeitar. O contrário, o “relaxe moral” de quem venha de uma cultura “cultura com bichas” quando chega a uma cultura sem ela, também já o constatei várias vezes. Quer dizer que isto de fazer bicha, por exemplo, a ser um traço cultural, não é assim nenhum padrão de comportamento tão profundamente interiorizado que uma pessoa não o mude, se quiser ou precisar, de um momento para outro!...
O mesmo em relação a muitos outros padrões de comportamento. Por exemplo, sobre comportamentos demasiado relaxados, displicentes ou mesmo claramente desrespeitadores por parte de turistas, todos nós já ouvimos, quando não o pensámos nós próprios, que “ele faz isto aqui, mas lá na terra dele não fazia”. O que é interessante é que é, muitas vezes, a mais pura das verdades: no estrangeiro, as pessoas portam-se como não ousariam portar-se no seu país – ou simplesmente de maneira diferente, enfim. Não só turistas, claro está, mas todo o tipo de pessoas de fora. E, se o fazem, é com certeza porque não têm regras de comportamento interiorizadas como têm interiorizados a pronúncia dos sons linguísticos ou os gostos de comida, por exemplo, que não se alteram, esses, de um dia para o outro…
Podia alargar a conversa a muitos outros exemplos, e com especial facilidade a aspectos maioritariamente considerados negativos – como a falta de respeita da ordem da bicha, mas bem mais graves – mas acho que não vale agora a pena detalhar mais, porque se percebe bem aonde quero chegar: pelo menos nos casos que referi, o que parece contar mais do que um padrão de comportamento fortemente interiorizado é a consciência da regra em vigor em determinado local, ou da sua ausência, e o grau de controlo social a que se está sujeito (cujo reconhecimento varia, também é preciso ter isso em conta, de indivíduo para indivíduo…). E isto independentemente de estarmos “em casa” ou não.
Parece então que, para muitos dos nossos padrões de comportamento, a regra não está dentro, mas fora de nós[2]. Parece que dentro de nós o que está é um instinto que nos manda avançar, em busca do proveito próprio e da satisfação dos nossos desejos… até onde os outros nos deixarem ir. No outro dia defini esse egoísmo fundamental como o nosso “parâmetro por defeito”. Um Hobbes da época dos computadores, como vêem, este vosso amigo…
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[1] As filas, como se diz agora em português europeu moderno que se pretenda politicamente correcto. É um facto muito estranho: quando se constata que a palavra é usada também para referir, de forma depreciativa, os homossexuais masculinos, deixa-se de a usar para referir um conjunto de pessoas alinhadas por ordem de chegada, que não tem absolutamente nada ver com o outro uso, porque aqui se trata obviamente de uma metáfora em que se usa a lagarta como segundo termo, ao passo que a designação de bicha para um homossexual tem com toda a certeza outra origem. [Provavelmente, vem da expressão, “Ai uma bicha!”, dita num tom exageradamente efeminado, para estigmatizar uma pretensa falta de virilidade dos homossexuais, implicando que eles (como as mulheres, na visão de quem diz coisas assim…) até de uma inofensiva lagarta têm medo.] Ora, se efectivamente o termo bicha é sentido como ofensivo por quem, como eu, se ofende com a discriminação das pessoas em função das suas preferências sexuais, está muito bem que se deixe de o usar nessa acepção – mas porquê deixar de usar a metáfora da bicha para a fila de pessoas, que não tem nada a ver com este assunto? Esquisito…
[2] A questão é, obviamente, onde, ao certo?, porque aceitar que ela está apenas, sei lá, em todo o lado e em lado nenhum, é um bocado metafísico demais para o meu gosto… Mas eu não sei responder a esta pergunta que me faço.
21/04/09
Ele há verbos muito defectivozinhos, valha-os nossa senhora…
“Mas então isso são verbos?”, oiço eu os protestos, “Buiça, bom, talvez seja, sei lá…, mas sorry é um adjectivo! E um adjectivo inglês!”
É sim senhora – em inglês! Em português de Moçambique, I am very sorry, mas não é, é um verbo. Sorry lá, pá! É precisamente o lá de sorry lá que lhe trai a condição de forma verbal no imperativo, exactamente como o aí que às vezes acompanha o buíça: “Iá, eu vou lá comprar, mas buíça aí taco, que eu não tenho nem uma quinhenta…”
Como estes moçambicanismos são provavelmente muito estranhos para falantes de outras variantes do português, passo antes a outro verbo que também tem só uma forma e que é comum a todas as maneiras de falar esta língua: eis.
“O quê? Eis também é um verbo?”
Bom, quem não quiser chamar-lhe assim tem todo o apoio dos dicionários. Quase todos, se não mesmo todos, classificam eis como advérbio. Nas “Dúvidas linguísticas”, e respondendo a uma pergunta de uma Sónia, de Portugal, a 7 de Março de 2007 (“Escreve-se ei-la ou hei-la?”, perguntava a tal Sónia), Helena Figueira escreve o seguinte:
A palavra eis é tradicionalmente classificada como um advérbio e parece ser o único caso, em português, de uma forma não verbal que se liga por hífen aos clíticos. Como termina em -s, quando se lhe segue o clítico o ou as flexões a, os e as, este apresenta a forma -lo, -la, -los, -las, com consequente supressão de -s (ei-lo, ei-la, ei-los, ei-las).
A forma hei-la poderia corresponder à flexão da segunda pessoa do plural do verbo haver no presente do indicativo (ex. vós heis uma propriedade > vós hei-la), mas esta forma, a par da forma hemos, já é desusada no português contemporâneo, sendo usadas, respectivamente, as formas haveis e havemos. Vestígios destas formas estão presentes na formação do futuro do indicativo (ex. nós ofereceremos, vós oferecereis, nós oferecê-la-emos, vós oferecê-la-eis (...)).
Pelo que acima foi dito, e apesar de a forma heis poder estar na origem da forma eis (o que pode explicar o facto de o clítico se ligar por hífen a uma forma não verbal e de ter um comportamento que se aproxima do de uma forma verbal), a grafia hei-la não pode ser considerada regular no português contemporâneo, pelo que o seu uso é desaconselhado.Helena Figueira faz muito bem o que faz. É assim que se responde num consultório aonde as pessoas vão à procura de uma norma. Mas, ao dar uma resposta tão completa, está a dar, a quem a queira receber, uma dica para uma reflexão. No fundo, o que Helena Figueira diz é que eis é um verbo que deixou de ser percebido como tal.
É claro, tive de lá deixar um comentário (entretanto desaparecido quando as “Dúvidas linguísticas” foram transferidas para novo site). E fi-lo, acho eu, no tom certo para comentário de consultório linguístico:
Não deixa de ser curioso que se considere eis um advérbio. A única explicação parece ser que o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras prateleiras (isto não é uma crítica a Helena Figueira, mas antes a toda uma tradição gramatical às vezes um pouco ligeira, digamos assim)...
O que eu defendo é que eis é uma forma verbal – uma forma verbal estranha, porque pertence a um verbo tão defectivo que não tem mais nenhuma forma, mas uma forma verbal ainda assim. Todos os testes empíricos parecem prová-lo: a) eis é núcleo de predicação. É verdade que nem só os verbos podem ser núcleos de predicação, mas os outros núcleos de predicação aparecem sempre em frases com uma cópula ou um verbo locativo. Ora b) eis parece nunca poder coexistir com um verbo, além de que c) eis atribui caso acusativo ao seu argumento, o que só um verbo pode fazer (eis a Rita = ei-la). Tudo isto são provas empíricas de que eis é uma forma verbal.
Talvez convenha explicar, a quem não esteja familiarizado com estas coisas, que núcleo de predicação é a parte mais abastracta do que se diz sobre alguma coisa. Por exemplo, em O gato comeu o carapau, comeu o carapau é o que se diz sobre o gato, a predicação, mas comeu é mais abstracto do que carapau, e é então o seu núcleo. Dito à pressa, é isto. O núcleo de predicação é quase sempre um verbo, mas há casos em que não: Sou professor ou Ele está entre a espada e a parede.
Acho que não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal. De um verbo muito defectivo, se considerarmos que é a única forma de um verbo que significa “estar aqui”, independentmente de qual seja a sua origem, ou menos defectivo (até nem nada defectivo...) se considerarmos que é de um uso peculiar do verbo haver que se trata. Não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal, dizia eu, mas posso acrescentar mais alguma coisa a propósito:
Escrever, como eu escrevi, que “o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras” é só outra maneira, mais apropriada (?) para comentário em consultório linguístico, de dizer que “a categoria advérbio é o caixote de lixo da gramática”, como dizia a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos, a quem devo, entre centenas de outras coisas, a problematização do conceito de advérbio. O seu a seu dono, portanto.Tal como é usado o conceito em gramáticas e dicionários, um advérbio é, basicamente, qualquer palavra invariável que não seja preposição ou conjunção, tenha ela que função tiver. Agora, para poder classificar-se como verbo, parece indispensável que uma unidade de base se possa flexionar em tempo, modo, etc. Está muito bem, mas, se todos estão de acordo que há muitos verbos a que faltam algumas formas, por que é que custa aceitar que a determinados verbos faltem muitas formas? Ninguém duvida de que buscar seja um verbo, mas, na minha variante do português, actualmente, o verbo buscar só tem de facto a forma do infinitivo e a da forma tu do imperativo, que se usa para cães. Eu sei bem que todas as outras formas existiram e existem ainda noutras variantes do português, mas no português lisboeta (pelo menos nesse dialecto), todas elas desapareceram…
Chega de verbos. Ou seja, não chega, mas demos agora (Esta forma ainda existe? Talvez não seja má ideia defectivizar um bocadinho o verbo dar, que demos é horrível!...) outro tom à conversa – o que se segue são dois excertos de um chat, devidamente corrigidos das muitas gralhas que sempre se infiltram nos chats todos, entre este vosso amigo e um amigo dele. Sobre verbos:
o meu amigo Pedro: eu tinha uma teoria sobre o verbo intervir
eu: intervém lá
o meu amigo Pedro: se a narração se passa no local do acontecimento, pode-se dizer que o sujeito interveio. se a narração se reporta a um acontecimento onde o receptor não está, deve dizer-se que o sujeito da acção interfoi! interveio aqui, interfoi lá
eu: iá, mas isso é o verbo interir
o meu amigo Pedro: interveio é interir?
eu: interfoi é que é o verbo interir
o meu amigo Pedro: sim, mas interir inventaste tu agora
eu: tu é que inventaste
o meu amigo Pedro: ah bom, ainda bem para ti. ainda tens esperança de salvação
eu: mas é bom verbo, vou passar a usar
o meu amigo Pedro: acho que sim, e faz sentido. a mim faz
eu: também se pode fazer com convir
o meu amigo Pedro: confoi… o que melhor lhe confosse. fez o que melhor lhe confoi
eu: desair-se também
o meu amigo Pedro: como queiras
eu: os gajos desaforam-se… mas isso é um desaforo
o meu amigo Pedro: também se podia pensar em lojas encerradas 24 horas por dia. eram as lojas de semveniência:
eu: para cá, porque vem de semvir, mas para lá, como seria?
o meu amigo Pedro: para lá que se lixe, se eu tenho uma loja fechada aqui ao pé da porta porque é que vou procurar outra mais longe?
eu: um verbo muito defectivo é nhemos! como é o infinitivo desse verbo? nhar, tem de ser
o meu amigo Pedro: anhar
eu: não se diz anhemos, diz-se “nhemos lá malabar o bèrredon do paílho”. anhar é mais verbo de anhuca, ou não?
o meu amigo Pedro: por aí
eu: também é bonito, faz lembrar borrego
o meu amigo Pedro: é lindo com batatas
Para que vocês vejam… É o sono que faz isto.
19/04/09
Iberia felix: o português e o castelhano
Quando se fala da dificuldade de comunicação entre dialetos muito diferentes de uma língua (por exemplos, as variedades americana e europeias do português, francês e inglês), muitas pessoas se interrogam sobre se se poderá dizer que duas pessoas falam a mesma mesma língua, quando não conseguem comunicar uma com a outra. A questão é interessante e pode bem ser que eu um dia escreva alguma coisa sobre ela. Hoje, porém, o que faço é apenas virá-la ao contrário: “Será que se falam duas línguas diferentes quando a comunicação oral é possível entre os falantes dessas línguas?”
Quantas línguas há no mundo? As respostas a esta questão aparentemente simples variam muito e eu já vi números entre 3000 e 6000. “Como é possível uma variação tão grande nas respostas?”, surpreender-se-ão muitos. Bom, é que não há acordo nenhum em relação a como dividir as línguas, a onde acaba uma e começa a outra. Essa divisão só é fácil quando se usa um critério político em vez de linguístico. Lembro-me de que uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar linguística foi que “uma língua é um dialecto com um exército”. Se Hamburgo e Munique não fossem na mesma nação, muito provavelmente não se consideraria que se fala a mesma língua nos dois sítios... Há mais diferença entre certos dialectos noruegueses do que entre o bokmål standard (uma das 2 línguas oficiais daquele maravilhoso país) e o dinamarquês, por exemplo. E milhares de etcs. Basicamente, tudo depende daquilo que queiramos destacar e usar como critérios de distinção entre duas línguas ou dois dialectos, mas, como eu não quero dar uma seca a ninguém (a quantidade de texto que acabo de apagar de um golpe de delete é um sinal claro, infelizmente invisível aos demais, das minhas boas intenções), passo-lhes por cima e vou directo onde queria, que é ao espanhol.
Sim, porque este texto é um texto sobre o espanhol e é o que se pode chamar um texto com óbvias intenções mediáticas (credo!). Depois de uns quantos posts de conversa esquisita, em que nem eu próprio sei aonde quero chegar, eis agora um texto limpinho e claro (?) sobre a maravilhosa língua que fica mesmo ao lado da nossa.
Ou será apenas outra variante dialectal da mesma língua que nós falamos? Bom, podem fazer a experiência que eu fiz um dia: abrir ao calhas um dicionário de espanhol e ver, das palavras da página onde foram parar, quais é que não existem em português. Não é uma experiência com validade científica (pode ser, se a repetirem muitas vezes...), mas dá-vos uma muito boa ideia da proximidade do castelhano e do português. Nas 147 palavras entre disconforme e distanciar do dicionário que eu consultei quando a fiz, só 9 (6,2%) é que não correspondem muito directamente a palavras portuguesas. Em francês e italiano, no entanto, já a percentagem de diferenças que constatei com o mesmo método era muito maior, de cerca de 28 e 29% respectivamente.... A verdade é que o vocabulário é todo tão parecido em toda a zona de fala ibérica que são só umas quantas palavras que definem a área de cada língua.
“Onde é que este tipo agora quer chegar com isto? Quer-nos ele convencer de que o espanhol e o português são iguais ou quê?” Qual o quê, longe de mim tal ideia. Não quero convencer ninguém nem disso nem do contrário, se bem que o que se segue possa fazer crer que quero precisamente provar o contrário. Eis uma parte (ínfima, que isto é um blogue…) de um compilação de diferenças que, no meio das semelhanças, existem entre o português e o castelhano [a quem quiser uma coisa mais completa, posso mandar-lhe, é só pedir por boca, como se costuma dizer]. Dito de outra maneira, o que eu quero mostrar é que o castelhano é uma língua muito traiçoeira e especialmente para os falantes do português. Se uma pessoa não se põe a pau quando se aventura pela língua vizinha, de vez em quando sai asneira. E só de, muito filialmente, se fiar na sua mãe língua…
Vejam as diferenças de género, por exemplo. Tenho registadas 92 palavras iguais ou quase iguais, mas com género diferentes nas duas línguas. Não se esqueçam, por exemplo, de que cume, lume e legume (cumbre, lumbre, legumbre) são, em espanhol, tão femininos como vislumbre pode ser; que há conductos e não condutas de água; e que, para ficar por palavras corriqueiras, são femininas, por exemplo, alerta, masacre, miel, nariz, sal, sangre e señal, já para não falar de nada – sim, do nada, o vazio, que não é *el nada que se diz, mas la nada. Ao contrário, isto é masculinas em espanhol e femininas em português, temos, para além das palavras em -aje que correspondem às nossas em -agem e das palavras em -or, como color ou dolor, por exemplo, origen e partido, mesmo que não seja político mas sim… de futebol. E são muitas vezes masculinas, se bem que não forçosamente, palavras como frente, lente, orden e arte, o que chocou muito o meu irmão quando o descobriu: “Arte, uma palavra masculina? Como pode ser isso?, se é óbvio que a arte é algo feminino”, dizia ele. A mim, surpreende-me mais que sejam masculinos un pétalo de uma flor e un vals de Strauss, mas enfim, isso sou eu... E bem vistas as coisas, se um esporo é una espora, quase como que para espicaçar cavalgaduras, porque não há-de uma pétala ser pétalo?
Também há diferenças no lugar do acento tónico em palavras que, tirando isso, são perfeitamente iguais, como herói, que em espanhol é héroe e polícía, que se diz policía, além de, por exemplo, maquinaria (pronunciado [maquinária]), democracia [democrácia], aristócrata e límite. Estas diferenças causam sempre alguma estranheza aos falantes da outra língua, mas não tanto como certas trocas de lugar de sons dentro da palavra que ocorreram num idioma ou no outro (mais em português...), que fazem com que se diga em espanhol, apio em vez de aipo, barrio em vez de bairro e, por exemplo, gaviota, novio, disfrazar, cocodrilo ou cangrejo.
Depois, claro, há os falsos amigos, que são muitos. Uns são bastante conhecidos, como experto (“perito”), exquisito (“requintado, delicioso”), largo (“comprido”), oficina (“escritório”), presunto (“presumido, presumível”), propina (“gorjeta”), rato (“momento”) e salsa (“molho”), mas outros menos. Só para vos dar um cheirinho da minha lista de falsos amigos, que nunca pára de crescer, tomem lá alguns outros exemplos de provável confusão:
Lembro‑me, por exemplo, de o meu amigo Cristovam voltar do supermercado com o que pensava ser um pacote de manteiga e que era, afinal, banha, e que, dada a nossa triste condição económica, tivemos de usar para barrar o pão, pois então… Era o nosso segundo dia em Espanha e ele não sabia que manteca quer dizer “banha”…
Também me lembro de ver uma vez , numa revista de música, um artigo sobre o Jimi Hendrix, obviamente (mal) traduzido do castelhano em que se dizia que ele tinha uma guitarra especial… porque era surdo (!). Isto porque o tradutor, se é que se pode usar tal designação, não sabia que zurdo quer dizer “canhoto”.
Lembro-me que a minha mulher, quando chegámos à Bolívia, ficou muito surpreendida quando alguém lhe disse que tinha ido ao médico para tratar uma moela – porque não sabia que muela quer dizer “queixal, molar”. E também haviam de ver a cara dela quando alguém a informou que Camargo, a vila onde nos íamos instalar, era uma terra com muito polvo. «Como é que isso pode ser, se fica a 700 km do mar?» Tive então de lhe explicar que polvo significa “pó”.
Bom, estas são situações reais. Mas é fácil imaginar outros possíveis desentendimentos. Numa sala de aula, por exemplo, imaginem o que é que se passa na cabeça de um aluno de língua portuguesa, se o professor lhe pergunta se pode borrar o que está escrito no quadro ou se diz que lhe vai dar uma tareia. Passados uns primeiros segundos de espanto (a propósito, espanto em espanhol, quer dizer “temor” ou “terror”…), o tal aluno provavelmente acaba por perceber que borrar quer dizer “apagar”, mas já lhe será mais difícil perceber que tarea quer dizer “tarefa” e que, portanto, o que o professor lhe quer dizer é que lhe vai dar um trabalho para casa…
Imaginem também que vos convidam para ir ao teatro, para ver a peça do palco, isto antes de saberem que palco quer dizer “camarote”…
Uma situação em que vale a pena não ser muito impulsivo é aquela em que um falante do espanhol vos ofereça uma galheta – em vez de responder logo com um murro ou um pontapé, agradeçam e aceitem ou não consoante a fome que tenham: galleta significa “bolacha, biscoito”.
Não digam nunca a ninguém (nem de ninguém) que é engraçado, porque engrasado quer dizer “engordurado” ou “lubrificado”.
Da mesma forma, numa loja de móveis, não digam à empregada que andam à procura de cadeiras, ou que gostam muito das cadeiras que ela ali tem, ou que queriam ver cadeiras, que é coisa para ela levar a mal: cadera quer dizer “anca” e refere‑se muitas vezes não só à anca propriamente dita mas também aos seus arredores.
Tenham ou não possibilidades de nos induzir em erro, estes falsos amigos não deixam nunca de nos surpreender ou de nos dar vontade de rir, como quando ouvimos falar de azeite a propósito de óleo de motor (aceite quer dizer “óleo”, qualquer, nem que seja lubrificante) ou chamar escoba a uma vassoura, tacho a um bidão ou a um balde grande, vaso a um copo, cremallera a um fecho éclair, estufa a um radiador ou prenda a uma peça de vestuário. Há, ainda assim, coisas que têm a sua lógica: por exemplo, não me surpreende por aí além que se chame ganancia (pronunciar como “ganância”) ao lucro, presupuesto a um orçamento ou logro a um resultado. O que é mais esquisito, pelo menos para mim, é saber que boato quer dizer “ostentação”, que brinco quer dizer “pulo, salto”, que cimiento quer dizer “alicerces”, que estafa quer dizer “fraude” e, sobretudo, que sótano quer dizer “cave”…
Felizmente, do castelhano vem-nos mais do que falsos amigos. Vêm-nos amigos de verdade. A quem preconceituosamente me diga que de Espanha não vem nem bom vento nem bom casamento, eu direi apenas que as palavras que de lá têm vindo são quase sempre deliciosas, como pecadilho e outras simpáticas palavras em -ilho e -ilha: a mantilha, por exemplo, e a baunilha (que, se tivesse tido de se aportuguesar, ou tinha ficado vagenzinha ou vaginha (vainilla é “vagem pequena”) ou se latinizava em vagina…). Mas também brio e chaval, duas palavras cheias de pinta … E hediondo, que não nos demos ao trabalho de adaptar para *fedondo e ainda bem!
Agora, para terminar, quero só recordar que, ao contrário do que pretende a minha mulher, pode não ser muito fácil mudar a sua configuração mental para compreender uma língua que, felix Iberia!, é quase igual à nossa. Lembro-me de que, da primeira vez que fui a Madrid, com o meu amigo Cristovam, chegámos à gare de Atocha por volta da uma da manhã e que, logo à saída da estação, o Cristovam perguntou a um tipo que ia a passar se ele sabia de algum sítio para dormir.
“Há aqui um sítio para dormir?”, perguntou ele, exactamente assim com estas palavras. Mas o rapaz não o percebia:
“No te entiendo!”
E o Cristovam repetiu a mesma frase, só um pouco mais devagar, “Há â-qui um sí-tiu pâ-râ dur-mir?”, mas sem melhores resultados – o rapaz continuava a no entender. Até que o Cristovam teve uma inspiração – é claro que o problema não era o débito, mas sim a abertura das vogais! E espanholou:
“Há àqui um sítiò párà dòrmir?”
O outro que sí, que ahora entendía: “Ah, si hay aquí un sitio para dormir...”
Por estas e por outras é que há muitos portugueses que se insurgem contra a “falta de jeito” para as línguas, senão contra a “má-vontade”, de espanhóis, ou brasileiros, que “não nos querem entender”. Então, se nós os entendemos a eles!... A verdade é que uma pessoa de língua materna castelhana, ou um brasileiro, tem interiorizado um sistema de vogais que é, em abstracto, praticamente igual ao do português europeu: A, E, I, O, U. Mas, no plano fonético, é tudo muito diferente, sobretudo porque o português europeu tem uma pronúncia muito relaxada das vogais átonas, quer dizer, as que não estão na sílaba acentuada. Um brasileiro ou um hispanófono não têm a mínima possibilidade de ouvir as vogais átonas, ao passo que, para um português, não dificulta em nada a compreensão que elas sejam pronunciadas mais abertas do que nós as pronunciamos. Como exemplo, tomemos desesperar que é composto das mesmas unidades em castelhano e em todo o português: /DESESPERAR/. No entanto, a redução das vogais átonas faz desaparecer, na fala portuguesa europeia, os três /E/ átonos. Como é que alguém que ouve [dzšprar], quer dizer, cinco (!) consoantes seguidas, pode reconstruir as unidades não pronunciadas? A única coisa que essa pessoa pode fazer é mesmo desesperar perante o “eslavismo” de uma língua que não deveria, em princípio, ser muito diferente da sua – para ela, se não é chinês, aquilo, pelo menos é russo…
[Ligeiramente atualizado a 30 de maio de 2023]
15/04/09
Brancos, patrões, identidades e uma velha canção anarquista
Em lómuè, que é a língua que se fala na Alta Zambézia, onde nós vivemos antes, chama-se aos brancos mucunhas. Mucunha, curiosamente, não tem nada a ver com a cor branca, que em lómuè se diz otchela, mas quer antes dizer “patrão” ‒ que é, como presumo que saibam, uma forma normal de tratar um branco em Moçambique*. Ora, porque não quer dizer “branco” mas sim “patrão”, a palavra mucunha não se aplica só a pessoas de pele clara, e eu sei de casos de moçambicanos negros que, pelo seu estilo de vida, eram tratados por mucunha ‒ e não gostavam. E eu compreendo, porque eu também não gostava nada, quando cheguei a Moçambique, que me tratassem por patrão e arriava sempre a giga quando alguém o fazia. Quer dizer, continuo a não gostar, mas há muito que desisti de barafustar por causa disso. Para quê?, se é uma guerra perdida à partida:
“Patrão, não! Eu não sou seu patrão, porque o senhor não trabalha para mim…”
“Patrão?...”
“Estou a dizer que não sou seu patrão. Pago-lhe algum salário? Patrão é quem lhe paga salário.”
“Está bem, patrão.”
Se eu desisti ao fim de pouco tempo, conheci quem, ao fim de cinco décadas e tal de vida em Moçambique (toda a vida, entenda-se), tivesse firmeza ideológica ‒ ou teimosia... ‒ suficiente para continuar a recusar ser tratado por patrão: houve a certa altura em Molócuè um senhor, branco de pele e frelimista dos antigos (“eu sou da Frelimo do Samora, não é desta que há agora”, dizia ele a rimar sem querer…), que, enquanto foi gerente de uma pensão que havia lá onde nós morávamos, proibiu expressamente os empregados de lhe chamarem patrão a ele, “porque [ele] era só o gerente da pensão, o patrão estava em Maputo e eles nem sequer o conheciam e, além disso, nem era patrão nenhum, era uma patroa”, e também de chamarem patrão fosse lá a quem fosse, pronto! Se essa proibição era, aos meus olhos, bastante louvável, havia quem pensasse de outra maneira e o administrador do distrito, quando lhe vieram queixar-se do excesso de ideologia do gerente da pensão, quis falar com ele, para lhe explicar que, bom, enfim, algumas pessoas não levavam a bem aquela proibição, e que era normal em todo o lado chamar patrão às pessoas, e que não valia a pena insistir numa coisa daquelas… Frelimista que era, à antiga, e por isso incapaz de desrespeitar uma autoridade estatal, o tal senhor gerente retirou, muito contrariado, muito zangado mesmo, a proibição e tudo voltou ao normal: “sim, patrão”, “não, patrão”, “diga, patrão”…
II
Tenho uma t-shirt preta com a palavra mzungu escrita a letras brancas. Foi uma prenda da minha mulher, que a comprou numa das suas últimas viagens de trabalho, penso que num qualquer aeroporto no Quénia ou na Tanzânia. Mzungu é a palavra suaíli que se usa para designar os brancos**, de maneira que quase nunca uso fora de casa essa t-shirt, porque não me sinto à vontade em ostentar assim a minha condição de branco, mas, no domingo passado, por descuido, levei-a vestida quando saí com a família e um amigo para almoçar fora. Fomos a um restaurante que há ali à saída da cidade, que é de um português e que, ao que me dizem, costuma ser frequentado por uma parte da comunidade portuguesa de Chimoio. É certo que a maioria dos portugueses são mzungus, mas a t-shirt não era, obviamente, a mais apropriada para a ocasião. Naquela situação, melhor do que uma camisola a dizer mzungu, pensei eu, era ter uma camisola do Leixões, como um tipo que eu conheci há muitos anos em Bordéus, que se surpreendeu muito quando, em plena rua de Ste. Catherine, me dirigi a ele em português: “Eh pá, mas como é que tu sabias que eu era português?” As palavras são como as cerejas, é bem verdade, e onde eu já vou!… Com camisola de mzungu ou sem ela, os meus pruridos identitários, chamemos-lhe assim, não me impediram, quando chegou a altura de escolher o almoço, de optar por um cozidinho à portuguesa, que é uma coisa que nem todos os dias se pode comer em Chimoio…
Quando se vive fora do seu país, a nacionalidade pode ser, às vezes, uma armadilha. Outras vezes é um peso. É uma armadilha quando uma pessoa começa a relacionar-se com outra porque tem em comum com ela a nacionalidade ‒ e só isso ‒ e se arrepende depois de o ter feito… E é um peso quando não queremos identificar-nos com o comportamento da maioria dos nossos compatriotas no lugar onde estamos… Mas enfim, não há nada fazer. Quando me perguntam qual é a minha nacionalidade, tenho de responder que sou português, porque é português que eu sou. Mas costumo acrescentar: “Ninguém é perfeito, sabe?…”
Já o meu amigo que estava a almoçar connosco tem mais dificuldade em atribuir-se a si próprio uma identidade nacional. “Os meus pais são belgas”, costuma ele dizer, “e eu também tenho um passaporte belga, mas não sei bem o que sou…”. Conheço muitas pessoas como ele. Eu próprio, que não tenho dúvidas de que sou português, não me sinto seguramente tão português como outros portugueses que há. Provavelmente, não sou mesmo tão português como outros portugueses que há. E se digo provavelmente é só porque não sei ao certo como se define a propriedade ser português. Há o passaporte, pois, e deve haver mais do que isso, mas o quê?
Numa coisa estamos de acordo, o meu amigo belga e eu, na conversa que surge durante o cozido (ele também escolheu cozido, se calhar por não haver carbonade…): fazem-nos falta a todos nós amigos e companhia, porque a solidão é a mais terrível doença de que pode padecer um ser humano, mas a necessidade de raízes e de identidade, nacional ou outra, é um mito. Há muito quem apregoe a importância da consciência das “raízes” e do fazer-se parte de uma comunidade, há muito quem queira convencer-nos de que o que é natural, e por isso, indispensável, é fazer parte de uma nação, um clã, uma tribo ou uma religião, há muito quem passe a vida a publicitar o sofrimento daqueles a quem a vida nega a possibilidade de viver entre “os seus”, mas, é curioso!, conheço gente “desenraizada” e “apátrida” em maior e menor grau e nos “desenraizados” e “apátridas” que conheço não noto nem nunca notei problema nenhum ‒ contanto que, claro está, assumam a sua condição de não serem portadores de uma identidade clássica. Evidentemente, se um português insistir em sentir-se exclusivamente português (entenda ele como entender a sua portugalidade) e em fazer do que é característico do seu Portugal condição indispensável de felicidade, há-de passar uma vida contrariada em qualquer sítio que não seja esse seu Portugal. Mas a quem se disponha apenas a viver a vida que tem ‒ como ela é ou mesmo contra o que ela é, não importa ‒ sem se deixar aprisionar em ilusões identitárias, o pretenso desenraizamento e a falta de um sentimento de identidade étnica ou nacional não causam sofrimento nenhum.
Até porque, é aqui que eu queria chegar, a condição mais ou menos desenraizada, mais ou menos apátrida, mais ou menos isso tudo que lhe queiram chamar, de quem não se deixa prender em identidades simples e tradicionais pode ser uma abertura a identidades novas, que, conforme o seu grau de abrangência, podem ir desde não serem nem melhores nem piores do que as restantes até fazerem mais sentido do que quaisquer outras: se a identidade a que se acede é a dos portugueses ou dos belgas emigrantes, a queixarem-se em conjunto tanto da vida no seu país de origem como dos defeitos do país onde vivem, pouco se saiu, ou nada, do estado mais primário e mais comum de identidade; se a identificação for sobretudo com os outros “desenraizados” ou “apátridas” (por exemplo, entretidos à volta de um cozido à portuguesa a discutir o mito da necessidade de identidade...), também não se avançou muito mais; mas se se conseguir deitar às urtigas essas e outras identidades de grupo restritas, passa-se a fazer parte, sem ter sequer de se pensar nisso, do único círculo de identidade que parecer fazer verdadeiro sentido ‒ o que inclui toda a gente sem excepção.
Ou, como diz a velha cantiga de Pietro Gori, “Nostra patria è il mondo intero / nostra legge è la libertà...”
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* Se bem que agora a forma boss ou boiss (mais, como direi?, globalizada…) comece a competir muito com patrão…
** A informação que me deram é que a palavra deriva de um verbo que significa “andar às voltas” e usava-se originalmente para descrever os comerciantes brancos… que andavam de um lado para o outro. A wikipédia em inglês concorda com esta proposta etimológica.

