22/10/11

Dory Previn: A vida em canções?

[Publicado no dia em que Dory Previn faz 86 anos… ou 82? Sejam lá quantos forem, muitos parabéns!]

Dory Previn (Langdon antes de se ter casado com André Previn) é uma pessoa com uma vida no mínimo curiosa e tem sido afirmado muitas vezes que uma das suas características mais marcantes é expor-se completamente nas suas canções. Não só os factos da sua vida, mas também recantos mais obscuros da sua psique, tudo ela revela sem rodeios nas canções. Catarse, disse alguém. É verdade que, conhecendo um pouco da vida de Dory Previn, não podemos deixar de constatar que é a autora de carne e osso a protagonista de muitas das suas canções e de nos surpreender com a revelação de intimidades que não é muito comum tornar públicas em canções. Estou a falar, por exemplo, da relação doentia com um pai mentalmente perturbado (“amor de pai e demónios emaranhados na mente”) que descreve em várias canções [Com o meu pai no sótão / É aí que está a minha negra atração / Com a loucura em cima da mesinha de cabeceira / Ao lado da arma carregada / Na aterrorizadora proximidade do seu olhar (“With My Daddy in the Attic”)]; da sua crise conjugal quando o marido se apaixonou por Mia Farrow, com quem veio a casar [Cuidado com raparigas novas / Que te aparecem à porta / Melancólicas e pálidas / Com vinte e quatro anos / E te oferecem margaridas / Com mãos delicadas // Cuidado com essas meninas / Muitas vezes anseiam / Chorar num casamento / E dançar num enterro (“Beware of Young Girls”)]; dos problemas que a levaram a dois internamentos em hospitais psiquiátricos [Os meus botões azuis / Estão a ficar soltos / Soltos / Frouxos / Lucy Brown / A Lucy no céu / Luce / Luzente / Lúcida / Lucidez / Lúcifer / Luz / Enforquem a Luce / Mantém-te calma / Eu / Como é que eu fiquei assim / Eu ia / O que é que eu ia dizer? / Eu ia a / Como vim aqui parar? / Eu ia a caminho / Não estive aqui no ano passado? / Eu ia a caminho de / Porque me fecharam aqui? / Eu ia a caminho de onde? (“Mr. Whisper”)].



Este confessionalismo pode ser encarado tanto positivamente (prova de grande coragem) como negativamente (despudor, uma obsessão doentia consigo própria), mas, independentemente desses julgamentos, podemos perguntar-nos simplesmente se tem algum interesse como processo de criação artística. O que eu acho é que não é por ser autobiográfica como tal que uma obra de arte tem interesse, a não ser, precisamente, para quem se interesse pela vida do seu autor; mas que, se essa exposição de si próprio for um meio (como o é, no caso das canções de Dory Previn) de criar uma grande intensidade emocional, é bem vinda – e a obra de arte interessará também a quem não se interesse pela vida do autor.

04/10/11

Citius, altius, fortius

Correr é fixe. Tinha um amigo que dizia sempre que uma corrida é a melhor maneira de começar um dia e acho que tem razão. Bom, a questão da saúde é o único senão: às vezes, correr não é muito indicado para certas pessoas, e, no meu caso, por exemplo, não tenho ideia se me faz bem ou mal. Mas faz sentir‑me bem, o que já não está mal. E não é só a mim. Há até quem diga que correr é como uma droga, mas eu, pelo menos, nunca me viciei em corrida. Gosto só de correr.

Gosto de correr, mas nunca podia ter sido corredor. É verdade que comecei a correr já velho, com mais de quarenta anos, mas, mesmo assim… Corro seis quilómetros a cerca de metade da velocidade a que os maratonistas correm os 42 km e 195 m da maratona… Acho que, para ser corredor a sério, uma pessoa tem de nascer já corredor. E conto-vos duas histórias, famosas e divertidas, a apoiar a minha teoria:

Nos Jogos olímpicos de Londres, em 1948, Emil Zátopek tinha ganho a medalha de ouro dos 5 mil metros e a de prata dos 10 mil metros. Quatro anos depois, nas Olimpíadas de Helsínquia, fez ainda melhor. Depois de já ter ganho os 5 mil e os 10 mil, Zátopek decidiu inscrever‑se na maratona, uma prova que nunca tinha corrido. Precisamente por não conhecer a prova, achou por bem manter‑se junto do favorito, o inglês Jim Peters. Peters começou a prova a boa velocidade. Depois de seguir ao lado de Peters durante os primeiros quinze quilómetros, Zatopek perguntou‑lhe, em inglês:
 
«O ritmo, Jim, o ritmo está bom assim?»

«Está muito lento, Emil!», respondeu Peters, e deu um esticão.

 Zatopek não só o acompanhou como acabou por deixá‑lo para trás, acabando a corrida com menos dois minutos e meio que Peters e um novo record mundial!

Outra história boa, melhor ainda que a de Zátopek e que prova mesmo que existe o dom inato para correr, é a do cubano Andarín Carvajal nos Jogos Olímpicos de St. Louis em 1904:

Félix Carvajal era carteiro de Havana e tinha a paixão do atletismo. Sobretudo, da maratona. Treinava sozinho, pelas ruas de Havana e estava decidido a participar na próxima maratona olímpica, fosse lá como fosse. Quando chegou a altura das Olimpíadas, juntou as economias que tinha e lá foi ele. O dinheiro não chegou para a viagem toda e teve de fazer cerca de 1000 km a pé. Mas chegou a tempo. Um bocado antes de começar a maratona (que, como se sabe, é a última prova dos Jogos), Carvajal apresentou‑se ao juiz da prova e disse que queria participar.

«Mas você está inscrito?»

Que não, não estava, mas que se inscrevia agora, não havia problema.

«Ó senhor, eu vim de tão longe, gastei o meu dinheiro todo, fartei-me de andar a pé para aqui chegar, não me faça agora esta desfeita de não me deixar correr!»

E o juiz teve mesmo pena dele: pronto, estava bem, que corresse. Mas ia correr assim, como estava vestido?

«Não tenho outra roupa, ó senhor...»

O juiz mandou trazerem‑lhe uma tesoura e cortou ele mesmo as calças de Carvajal, para ele ir, ao menos, de calções. E assim foi, de calças cortadas à tesoura, de camisa e... de botas!

Durante os vinte primeiros quilómetros da prova, Carvajal manteve‑se em primeiro lugar, apesar de ter saído algumas vezes da estrada para apanhar maçãs – não tinha equipa de assistência e estava cheiínho de sede. A partir do vigésimo quilómetro, começaram os problemas: o Carvajal voltou a ter de sair várias vezes da estrada, só que, em vez de apanhar maçãs, ia agora desfazer‑se delas – as maçãs verdes tinham‑lhe dado a volta ao estômago e o pobre Carvajal, por causa das interrupções a que a diarreia o forçou, não conseguiu mais que um quarto lugar.

***
Para além de condições físicas que não sei quais são mas que imagino que sejam necessárias a um bom corredor (aliás, devem ser diferentes conforme o tipo de provas que corre), tenho a certeza que é também fundamental uma enorme capacidade de abnegação e resistência, e, sobretudo, uma enorme capacidade de concentração.

Digo isto porque sempre gostei muito de atletismo e vi muitas vezes na televisão, com muita atenção, campeonatos europeus, campeonatos mundiais, jogos olímpicos e outras provas avulsas, e sempre vi os bons corredores passarem as corridas todas extremamente concentrados no que se estava a passar à volta deles – jogadas estratégicas, sinais de cansaço, oportunidades casuais, tudo. O que eu digo de mim é que, mesmo que tivesse um físico são e adequado, e tivesse começado a treinar desde miúdo, essa capacidade de concentração nunca a havia de ter e nunca poderia, por isso, ser bom corredor. Quando corro, faço antes ao contrário: para a corrida me correr bem (sic!), não posso pensar que estou a correr, porque senão sinto-me cansado demais (pelo menos até começar a tal pedrada de endorfina) e só quero parar. E então perco-me em devaneios, que normalmente passo para o papel quando chego a casa. Alguns deram contos, outros pequenos textos de reflexão. Um desses devaneios, de que vos dou conta agora a seguir é sobre o fascínio especial (eu diria mesmo o aspeto místico, se não fosse o medo de levar roda de comentador desportivo...) que o atletismo tem:

O que é normal nos bichos é ver se arranjam comida e água, amor, calor ou fresco e pouco mais, e, direta ou indiretamente, mexerem‑se apenas para satisfazer essas necessidades baixamente vitais... O desporto, na sua essência, é como, por exemplo, o jejum e a castidade: é uma afirmação da diferença da nossa espécie, uma assunção extrema da nossa humanidade, uma tentativa de a purificar da animalidade que ela tem lá dentro, e é provavelmente por isso que o desporto é fascinante, como o são o jejum e a castidade...

Agora, se todo o desporto é fascinante, o atletismo é o que a mim mais me fascina. Porquê?

Bom, não é por ser um desporto muito democrático, embora essa seja também uma das suas virtudes: a corrida e o salto são dos desportos mais igualitários que existem, provavelmente porque requerem pouco ou nenhum equipamento para uma pessoa começar a dar provas do seu valor[1]. E também não é por ser um desporto básico, simples, primordial – essencial, diria eu –, embora essa seja outra das suas virtudes. Acho que é fundamentalmente por ser um desporto em que se batem recordes[2]. Eu explico:

Todos os desportos têm uma componente de luta contra os limites que o corpo de cada atleta lhe impõe: é necessário aguentar, não se ir abaixo, fazer melhor, superar‑se. E quase todos os desportos (já que os desportos solitários, não competitivos, são raros) têm também uma componente de luta contra um adversário: é preciso ganhar. O que é interessante nos desportos em que se batem recordes, que são poucos, é uma terceira componente de luta contra a humanidade inteira: há que ser a/o mais rápida/o, mais forte, mais ligeira/o – de todas/os, desde sempre... É isto que o atletismo tem mais que os outros desportos.

***
Agora, quem é que não deu consigo já a pensar, fascinado, na questão dos limites das capacidades físicas humanas? Quem não se perguntou já onde chegarão os limites do corpo desapetrechado ou que sofisticação técnica nas medições ou outros estratagemas se hão de ainda inventar para que se possa correr, saltar, ser citius, altius, fortius? Se há algum possível significado para a expressão “fim da História”, só pode ser o tempo em que já não se batam recordes de velocidade, arremesso e salto…

 _______________

[1]
Se é verdade que Zátopek era coronel do exército, já Haile Gebrselassie é um camponês que se tornou o que é à força de correr 20 km todos os dias para ir à escola... Já agora: talvez não saibam que, por ter apoiado a chamada Primavera de Praga do Dubček, Zatopek foi expulso do Partido e despromovido…
[2] A natação também, porque é, na essência, uma forma de atletismo – na água.

28/09/11

Bom e interessante

Karim, a personagem principal de The Buddha of Suburbia, de Hanif Kureishi, tem de escolher entre o pai e a mãe que se separam. E acaba por escolher o pai, porque o ambiente de atores, músicos, festas e sexo em que este vive com a sua namorada Eva é muito mais interessante do que o insípido universo doméstico da sua mãe. Traduzo eu:
Pensei na diferença entre as pessoas interessantes e as pessoas boas. E como não podem ser sempre as mesmas. As pessoas interessantes, queríamos estar com elas – tinham espíritos fora do vulgar; com elas, víamos coisas de uma forma nova e não era tudo morte e repetição. (…) E depois havia as pessoas boas, que eram desinteressantes e não queríamos saber o que elas pensavam, fosse lá do que fosse. Eram como a minha mãe, boas e simples, e mereciam mais amor. Mas eram as pessoas interessantes, como Eva com a sua personalidade bem definida, atraente, que acabavam por ficar com tudo (…).
Já antes, Karim, tinha confessado: “Comecei a considerar o charme, e não a cortesia nem a honestidade, e nem sequer a decência, o dom social de base. E até comecei a gostar de pessoas frias ou más, desde que fossem interessantes.”
Estas linhas ficaram-me sempre na cabeça; e surpreende-me, quando penso agora nisso, não me lembrar de outras reflexões sobre a questão, que é das mais fundamentais na vida de qualquer pessoa e sobre a qual, por isso mesmo, já todos refletimos muito, não é verdade?

Que, para seduzir os outros seres da espécie, exibamos sinais que nos saem caros, como diz Amotz Zahavi, isto é, que façamos coisas difíceis e por isso interessantes, eis a causa de muitas coisas bonitas – e de muitos problemas. Como seria tudo mais simples se a nossa estratégia primeira para seduzir os outros fosse sermos bons para eles… 
[Foto de Jebulon. Wikimedia Commons]


Chaudrées, chowders, caldeiradas

Em português moderno e corrente[1], a palavra caldeirada tem, como se sabe, dois sentidos distintos: 1. guisado com batatas, cebola, tomate e pimento e 2. Embrulhada, salsada, confusão, balbúrdia[2].
Parece provável que o sentido 2. do termo derive do sentido 1, mas esta deriva metafórica tem de ter origem na associação de caldeirada a miscelânea, passando-se daí ao sentido de confusão, porque se há ideia que não pode derivar de uma caldeirada é a de rebuliço – uma caldeirada não se mexe, numa caldeirada não se mexe.
Bom, é verdade que caldeiradas há muitas (muitas!), tantas que parece, à primeira vista, impossível encontrar traço comum a todas elas, que defina, portanto, a essência da caldeirada. Talvez se possa, porém, ir por esta ideia de que uma caldeirada não se mexe. É uma maneira de alargar o conceito de caldeirada de modo a incluir as chowders dos Estados Unidos e do Canadá, que também não se mexem, como bem explica a primeira receita impressa de chowder que se conhece[3]:
De cebola, uma camada, p’ra o toucinho não queimar,
Que depois, na caldeirada, já não se pode tocar;
E pronto, traduzi chowder por caldeirada. Porque ficava feia uma palavra inglesa ali e porque me deu jeito para rimar; e sobretudo porque, bem vistas as coisas, as chowders da América do Norte são mesmo caldeiradas de pleno direito. Até no nome: segundo o site Etymology online, que parece de confiança, a chowder (palavra atestada pela primeira vez em 1751, talvez na receita que acabo de referir e grafada ainda chouder nessa altura), foi “aparentemente nomeada pela panela em que se cozinhava: do francês chaudière, "caldeira", do latim tardio caldaria (de onde vem, claro está, a palavra caldeira)”. Segundo este mesmo site, “a palavra e a prática teriam sido introduzidas na Terra Nova por pescadores bretões, tendo daí chegado à Nova Inglaterra”.
Quando quiserem variar da caldeirada portuguesa, experimentem uma chowder. Já fiz e gostei. Podem experimentar, por exemplo, esta receita de Lydia Maria Child, no livro The American Frugal Housewife, de 1829[4]:
Quatro libras de peixe são suficientes para fazer uma chowder para quatro ou cinco pessoas; meia dúzia de fatias de carne de porco salgada no fundo do tacho; pendure o tacho alto, para a carne de porco não queimar; tire-o quando estiver muito tostado; ponha uma camada de peixe, cortado em tiras no sentido do comprimento, e depois uma camada de bolachas de água e sal, cebolinhas pequenas ou cortadas às rodelas, e batatas cortadas em rodelas com a espessura de uma moeda de quatro pence, misturadas com os bocados de carne de porco que fritou; em seguida, mais uma camada de peixe e assim sucessivamente. Seis bolachas são suficientes. Deite um pouco de sal e pimenta por cima de cada camada; por cima de tudo, deite uma tigela de farinha, e água, até ficar ao nível  dos ingredientes que tem no tacho. Um limão às rodelas dá mais sabor. Uma chávena de catsup de tomate é também excelente. Há quem ponha cerveja. Umas quantas amêijoas são também um agradável suplemento. Deve-se tapar de modo a não deixar sair nem uma partícula de vapor. Não destape, a não ser quando estiver quase pronto, para provar se está bom de temperos.
É uma receita difícil, eu sei, de tão vaga que é: Que carne de porco é esta? E estas bolachas? Bom, o porco salgado não sei que seria; as bolachas são as antigas bolachas muito duras que eram a base de alimentação da gente de mar e que creio que já não se encontram em lado nenhum; como também é agora praticamente impossível encontrar este ketchup à moda antiga… Simplifiquemos, então: uma camada de bacon, depois cebolas e batatas e peixe, como as nossas caldeiradas, com tomate e outros legumes, conforme se queira ou não ou não. E no fim juntar, dois minutinhos antes de tirar do lume, um bocadinho de nata? Há de também ficar bem, não vos parece[5]?

__________

[1] Digo “em português moderno e corrente”, porque os dicionários registam outras aceções de caldeirada em que a palavra raramente ou nunca é usada: “conteúdo de uma caldeira”; “pancada de água, bátega, chuvarada.”, “grande porção de líquido que se despeja”... E é, evidentemente, do significado “conteúdo de uma caldeira” que derivam os outros. Em castelhano, a palavra calderada tem também este significado, tendo derivado dele um outro, o de “cantidad exagerada de algo, especialmente de comida”, que a palavra não tem em português.
[2] Jogando com os dois sentidos da palavra, mas sem nunca usar a palavra caldeirada no seu segundo sentido, Luís Miguel Oliveira fez este fabuloso fado que Raul Solnado cantou:
Fado Maravilhas
Fui no domingo a Cacilhas
Mais o Chico Maravilhas
Comer uma caldeirada.
A gente não nada em taco
Mas vai dando pr’ò tabaco
E p’ra regar a salada.

É po’que ist’ é me’mo assim
A gente morre e o pilim
Não vai para a cova c’a gente.
E antes gastá-lo no tacho
Que na farmácia, é que eu acho
Qu’isto é que é, principalmente.

Terminada a refeição
Ao entrar na embarcação
Começou a grande espiga.
Um mangas abriu o bico
Pôs-se a mandar vir c’o Chico
O Chico arriou a giga.

Eu, para acalmar a tormenta
Ainda disse ao Chico «Òguenta!»,
Mas o mangas insistiu.
E o Chico sem intenção
Deu-lhe um ligeiro encontrão
Atirou c’o tipo ao rio.

Um sócio do outro meco
Quis-se armar em malandreco
A gente já estava quentes.
Vei’ p’ra mim desnorteado
Eu dei-l’e c’o penteado
E pu-lo a cuspir os dentes.

Veio outro, eu dei outra ideia
Desarrumei-lhe a plateia
Mais outro, fui-lhe ao focinho.
E o Chico pelo seu lado
Só para não ficar parado
Aviou quatro sozinho.

Fez-se uma grande molhada
Desatou tudo à estalada
Eu e o Chico no centro.
Naquela calamidade
Apareceu a autoridade
E meteu-nos todos dentro.

Não tenho vida p’ra isto
E de futuro desisto
De me meter noutra alhada.
Nunca mais vou a Cacilhas
Mais o Chico Maravilhas
Comer outra caldeirada!


Quero agradecer a António Gameiro, que me informou da autoria do "Fado Maravilhas", que eu desconhecia quando aqui publiquei este texto.


Notem, já agora, que a caldeirada tem batatas e molho e que batatada e molho são, precisamente, sinónimo de caldeirada, quando, como neste caso, é estalo que a palavra refere.  

[3] Segundo Jasper White, no seu livro 50 Chowders. A receita, curiosamente em verso, é do Boston Evening Post de 23 de setembro de 1751. Eis o texto original dos dois primeiros versos que traduzi:
First lay some Onions to keep the Pork from burning
Because in Chouder there can be not turning; 
Encontrei esta informação na página "History of Chowder" do site What’s cooking America.

[4] O livro encontra-se, em edições mais recentes, na Amazon (por exemplo, esta de 1999); mas, como já prescreveram os direitos de autor, está também disponível, em versão eletrónica, no Projeto Gutenberg (versão revista de 1832). Descobri a receita não nesse livro, mas em Cod, de Mark Kurlansky (Londres: Vintage Books, 1999), que, além de contar a história da pesca e do consumo de bacalhau, traz muitas receitas do dito, de vários tempos e vários lugares.

[5] Numa versão bretã de caldeirada, referida também por Kurlansky em Cod, usa-se aipo e alho francês, por exemplo. Não pode senão ficar bem. Também se propõe, nessa receita, juntar crème fraîche à caldeirada, na altura de a comer. Quanto à ideia das natas, também não é minha: há várias receitas de chowder em que entram natas. Só mais uma palavra-como-as-cerejas: esta caldeirada bretã chama-se bouillabaisse de Fécamp (porque a palavra original chaudrée entretanto desapareceu, diz Kurlansky), mas não tem nada a ver com bouillabaisse no sentido normal da palavra. A verdadeira bouillabaisse, porém, embora seja muito mais complicada, porque implica a preparação prévia da sopa onde vão cozer os peixes, talvez se possa também considerar uma caldeirada… ou talvez não…

27/09/11

De Mary Read e outras três Marias

[I Introdução]
Beijo de Mulata publicou há coisa de duas semanas uma definição de loucura de António Cunha em D. Maria, a Louca:
«A loucura não é uma porta que se fecha mas muitas janelas que se abrem, só que todas ao mesmo tempo...»
Tem visos de verdade.
Agora, diz o dito que há mais Marias na terra. Na História também, há muitas Marias. E juntar muitas Marias da História num texto só é capaz de ser como demasiadas janelas abertas – uma loucura. Ou uma maluquice, seja, que a loucura é capaz de não chegar … Mas enfim, seja uma coisa ou outra, há de ser algo que não convém à História, que é, em princípio, assunto sério. As histórias que conto a seguir, porém, sobretudo porque são de rainhas, são História a reinar…
Tudo nasceu de um acaso, já lá vai uma dezena de anos:
Um dia, quando acabei de reler a Historia Universal de la Infamia, decidi ver o que dizia a minha enciclopédia eletrónica dos heróis desse livro de J. L. Borges. Dos dois primeiros contos, a enciclopédia não conhecia nem protagonistas nem personagens secundárias. Chegado ao terceiro conto, “La viuda Ching, pirata”, antes de escrever no motor de pesquisa da enciclopédia o nome do malogrado marido da pirata, resolvi procurar a Mary Read que aparece na introdução à história. E já não procurei mais, porque fiquei fascinado com o resultado da pesquisa.
O nome da capitã de piratas era referido apenas uma vez na entrada “Dame Flore Robson”, como título de uma peça levada à cena no West End de Londres em 1934. Sabendo que a Historia Universal de la Infamia foi escrita entre 1933 e 1934, pode especular-se se J. L. Borges terá ou não assistido à peça e se não será dela que lhe veio a ideia de que, traduzo, “a palavra corsárias corre o risco de despertar uma recordação que é vagamente incómoda: a de uma já descolorida zarzuela, com as suas teorias de evidentes criadas, que faziam de piratas coreográficas em mares de notável cartão”.
Quanto aos outros artigos propostos, nenhum deles continha, de facto, o nome Mary Read, mas sim uma série de outras estranhas associações do nome Marie ou Mary com uma série de palavras que têm em comum apenas o começarem por “read…”. É dessas associações – e de outras de que a enciclopédia não dá conta – que trata o texto que segue. 

[II Maria Tudor]  
Como a maior parte de vocês saberá, Maria Tudor ou Maria I de Inglaterra, nasceu em 1516 e aos 37 anos tornou-se rainha de Inglaterra. No ano seguinte, casou-se com Filipe II de Espanha, que tinha 27 anos e tinha sido já casado com outra Maria. O casamento católico de Espanha com Inglaterra foi tão mal recebido pelos ingleses que houve logo quem armasse uma revolta para tentar pôr no trono, em lugar desta vendida Maria, a sua meia irmã Isabel. E não deixavam de ter alguma razão os revoltados: por causa da aliança de Maria I com Filipe II, a Inglaterra juntou-se a Espanha na guerra em que esta estava metida contra França, o que valeu àquela perder Calais, se é que me faço entender. 
Diz-se que, quando os generais da Tudor voltaram, desanimados, empoeirados e sedentos, da terrível batalha em que os franceses tinham recuperado o enclave inglês, a rainha perguntou, com voz gelada, cortante, a um dos chefes do seu exército: “Então, Calais?” E que, provavelmente para tentar aligeirar um pouco a atmosfera pesada do salão, este se teria rido, com um riso forçado, pateta, e teria respondido, abrindo os braços e virando para cima a palma das mãos, “Pas de Calais!”, o que lhe valeu, a partir de então, o cognome de O Belga (The Sprout) no seio do exército britânico. 
Maria Tudor respondeu séria, mas mais triste que despeitada, ignorando a idiotia do comandante das suas tropas: “Pois bem, quando eu morrer e me abrirdes o coração, aí encontrareis Calais!” Mas nem com a tirada teatral o povo inglês a desculpou… Não lhe perdoou Calais nem as perseguições religiosas que matrocinou. O vodka com sumo de tomate existe para no-lo recordar. 

[III Maria Rainha dos Escoceses]
A outra Maria a seguir é a Maria que os escoceses tiveram, que aos 16 anos e no ano da morte da Maria anterior, se casava, para cumprir um contrato que tinham feito por ela à nascença, com um Francisco de 14 anos que viria a ser Francisco II de França no ano seguinte..
“Father, dear father, you have done to me great wrong / You’ve married me to a boy who is too young…”
Assim conta uma canção que a jovem rainha se teria queixado, em inglês, a seu pai. E a mesma canção diz que o pai lhe respondeu como segue:
“Daughter, dear daughter, I have done to you no wrong / I married you to the French King’s son!”
A canção deve ter tido grande sucesso na época, a julgar por dois factos: um, o de ter chegado aos nossos dias, se bem que numa versão ligeiramente modificada; outro, o de serem conhecidas não apenas uma mas três versões portuguesas, com pequenas variações entre si, que não serão provavelmente muito posteriores ao original e das quais a mais famosa é a seguinte: 
“Pai, querido pai, tanto mal que me fizeste / Quando por esposo uma criança me deste… / Minha filha linda, sei quem por esposo te dei / Jovem será, mas também filho de um rei!”
Não se sabe se para contentamento de Maria ou não (é bem provável que se divertissem, apesar de tudo, a brincar um com o outro), Francisco II morreu no ano a seguir à coroação.
Sabe-se que foi feita na época outra canção, esta em francês, em que a rainha se queixa, mas agora da perda do seu jovem par. Esta canção não teve a fortuna da canção em inglês anteriormente referida e, ao contrário dela, não chegou aos nossos dias, fosse em que forma fosse. Se se sabe que ela existiu é porque existe uma tradução portuguesa dos finais do séc. XVI em que é referido um original francês com o título “Ballade de la Jeune Reyne Marie d’Escosse”. Além disso, o facto de esta canção portuguesa estar escrita num verso bem pouco comum entre nós, o de oito sílabas, parece confirmar que se trata de uma tradução de um original francês, língua em que essa medida é normal. A versão portuguesa, extensa demais para a transcrevermos aqui na íntegra, começa assim:
“Meu pai deu-me um rei por marido / Que me queria, mas que eu não quis / Mas agora que o hei perdido / Como sou, Deus meu, infeliz…”
Um famoso estudioso português da cultura portuguesa, que escuso de nomear aqui, recriou, a partir da tradução, o original francês. Era uma coisa que ele gostava muito de fazer (apesar de não conhecer bem a língua francesa...), sobretudo em ressacas de grandes bebedeiras que apanhava com os amigos, aos fins de semana, numa quinta que tinha ali para os lados da Várzea de Colares. Uma pessoa bem se pode perguntar como é que ele chegou dum texto ao outro, mas enfim, estranhos são os desígnios de alguns intelectuais…
“Mon père, vous m’avez fait grand tort / En me mariant à ce jeune roi / Dieu merci, le voilà qui est mort / Et je ris et chante de joie”
Quando lhe aconteceu essa desgraça de se ver assim viúva aos 18 anos, pobre Maria!, achou ela que o melhor era deixar aquela França onde tinha sido criada e voltar à Escócia de que era rainha desde o berço, mas a que nunca tinha dado muita importância… Depois de muitas voltas e reviravoltas – que dariam, como deram, textos bem mais interessantes do que este –, Maria foi, em 1567, presa e forçada a abdicar do trono. Podia ter tudo acabado aqui, mas ela era uma mulher de armas: fugiu da prisão e juntou um exército de 6.000 homens. Desafortunadamente, derrotada e obrigada a fugir para Inglaterra. E a Isabel que era lá rainha nesta altura – a que sucedeu à Maria da história anterior –, em vez de dar asilo à rainha dos escoceses, deu-lhe antes prisão perpétua. Maria dos Escoceses era maior do que ela própria, como acontece a muitas estrelas da música pop e a ídolos de outras áreas. Havia quem achasse que não devia ser só dos escoceses e que devia ser rainha dos ingleses também. É claro, perante isto, Isabel fez, como todos nós fazemos constantemente, o que as circunstâncias lhe mandavam fazer. Maria foi executada a 8 de fevereiro de 1587 em Inglaterra. Tinha 45 anos e uma exuberante cabeleira postiça vermelha, sobre a qual muito se tem especulado.

[IV Maria de Médici] 
14 anos antes, mudando agora de assunto, tinha nascido outra Maria – florentina de nascimento, mas não de costumes, para usar uma fórmula com que Dante se apresentou uma vez... Esta Maria era da família Médici, que mandou em Florença durante séculos, e foi rainha consorte de Henrique IV de França. Foi ela a responsável da escalada política de Richelieu, esse cardeal que faz papel de mau nos filmes de capa e espada e que, um dia, virou de repente a casaca de cetim e veludo e deixou de ser amigo dos espanhóis amigos da Maria. Maria montou uma intentona para o afastar do poder, mas o golpe falhou e foi ela que acabou por ser deportada o resto da vida. Nos últimos anos de exílio, poderia ter pensado assim, um pouco como uma cortesã que recordo de um velho poema chinês:
“Florença estava magnífica no último verão que lá passei…
Há quanto tempo foi isso? Não sei, já não sei…
Sei que nessa altura não fazia ideia do que era ter poder,
nem de quanto poder viria a ter.
E para, Deus meu, o quê?, afinal, para acabar aqui
a imaginar o que não fiz e o que não vi
desse mundo que deixei passar ao meu
lado, na tonta ilusão que era eu
que o fazia girar, pelo menos em parte
pela minha – como o cri eu? – estratégia, arte?
Devia ter amado antes, que me cantassem
como à rainha escocesa, que se lembrassem
de mim, arrebatada e triunfante,
mais que como rainha como amante…
Mas perdi de meia vida o tempo, e agora
nem os prazeres me restam de outrora
com que enfeitar em sonho a solidão,
a velhice e o exílio… E tempo não
tenho já para transformar em tempo de vida
o tempo que me resta pouco… Ofendida,
é assim que me sinto, mas não p’lo cardeal,
ou p’lo meu filho… Porquê?, se o mal
que me fizeram é menor que o que me fiz
ao não querer da vida apenas ser feliz…
Não, se me sinto ofendida é só por mim
própria. E espero ofendida o meu fim.”
[V Remate] 
Do ponto de vista do estilo, esta última parte do texto é claramente de inspiração arcádica, o que é estranho porque o estilo arcádico há muito que não inspira ninguém… Chamam-se também Três Marias às três estrelas em linha que se encontram no centro da constelação de Orion, por muito que elas se chamem de facto Mintaka, Alnilan e Alnitaka…  
Mas Três Marias há muitas...

01/09/11

improvérbios (provérbios improváveis)








Mais vale cair na Graça do que ser um desgraçado.

Dia santo na loja, patrão fora. [A não ser que faça questão em ostentar, pela sua presença na loja em dia santo, o seu ateísmo.]

Pode levar-se a mula ao rio, mas não se a pode obrigar a beber aquela água toda.

Água mole em pedra dura mais tempo mole do que água fresca em barro dura fresca. [???]

Casa roubada, trancas à porta; marralhos, pés à parede.

Mais vale um mal só do que um mal acompanhado. [Só que um mal nunca vem só. E a morte, quando vem... Trás! ...Sempre uma desculpa!]
*

30/08/11

O rosto de Deus

Reciclo um excerto de um texto de há três anos, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):
Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hess e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia».
“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”
Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina…
***
Referia aqui no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme The crying game em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos.
É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.”
Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.
“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação in situ). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”
“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho*.
Que caraterística é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua.
***
Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista do meu conto “O silêncio”:
Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!
Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!
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* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., & Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes & L.A. Zebrowitz (Eds.), Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF no site da Universidade do Texas.

26/08/11

Crónicas de Svendborg #5: Mães e pais e trabalhadoras da construção civil

Os (pre)conceitos relativamente aos papéis dos géneros adquirem-se muito cedo. Quando o nosso filho Alexander veio da Colômbia para a Dinamarca, com três anos e meio de idade, tinha já uma ideia muito clara do que eram profissões para homens e profissões para mulheres: «As mulheres não podem conduzir autocarros!», afirmou ele, perentório, da primeira vez que viu uma motorista de autocarro.

Talvez por isso, esses preconceitos são muito fundos. Tenho a certeza de que, quando chegam à Dinamarca, muitos estrangeiros ficam surpreendidos por verem mulheres a trabalhar na construção civil. Podem, é claro, valorizar positiva ou negativamente esse facto, conforme a sua visão dos papéis femininos, mas ficam surpreendidos, porque trabalhadoras da construção civil* é coisa que não existe na grande maioria dos países**.

Aqui, há cada vez mais mulheres na construção civil, sobretudo na pintura. Segundo uma conhecida nossa, que é pintora da construção civil, a maior parte das firmas de pintura de construção civil são agora de mulheres, pelo menos aqui na zona.

Agora, na reunião de pais a que fui ontem na escola dos meus filhos, havia dezassete mulheres e quatro homens. E os quatro homens que havia estavam acompanhados pelas mulheres. Há, pelos vistos, áreas em que, na Dinamarca, os papéis de género se continuam a distribuir de maneira muito tradicional. 
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* José António Saraiva escreveu um texto muito e muito justamente criticado (por exemplo, aqui) em que parece defender que o facto de (segundo ele…) não existir uma palavra consolidada pelo tempo e pelo uso que defina a relação marital entre dois homens é um argumento contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. É bem capaz de haver quem seja contra as mulheres na construção civil por não haver palavra “consolidada” que designe uma mulher que faz paredes. «Pedreira? Ora…»
** Convém talvez explicar aqui que o trabalho de construção civil é, aqui, diferente do que se faz noutros países que eu conheço. A construção é um negócio exclusivamente dinamarquês, onde os dinamarqueses não deixam entrar os estrangeiros. É um trabalho muito bem pago, onde só há mestres, sem serventes para o trabalho pesado, porque se trabalha com máquinas e sempre com paredes pré-construídas. Para fazer um prédio, são necessári@s 2 ou 3 pedreir@s, 2 ou 3 eletricistas, 2 ou 3 canalizador@s, 2 ou 3 carpinteir@s, 2 ou 3 pintor@s…

24/08/11

Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha

Os campos recém ceifados perto da nossa casa estão cheios de vida. Hoje de manhã fui passear e vi uma ratazana e um coelho, além dos muitos corvos que debicavam os restos de cereais*. A ratazana, vi-a à beira da estrada, longe dos bandos de corvos. O coelho, esse, saltitava de um lado para o outro mesmo no meio dos corvos. Quer dizer, não sei se era um coelho ou uma lebre, porque não consigo distinguir coelhos de lebres...

Aliás, é uma confusão a distinção entre lebres e coelhos. Há até um género, Carolus, que às vezes é considerado lebre e outras coelho. Não convém nada, sobretudo, tentar esclarecer essa confusão recorrendo a outras línguas, porque não há correspondência biunívoca entre lebre e, por exemplo, hare em inglês… A Wikipédia, que muita gente diz que não é de fiar mas que até nem costuma ser má nestas coisas simples (?) de ciências da natureza, diz que “uma das diferenças entre lebres e coelhos é o fato de que os filhotes daquelas já nascem com pequena capacidade motora e visual, enquanto que os filhotes desses nascem completamente cegos e ficam no ninho por algumas semanas até poderem sair sozinhos”. Presumo que isto seja verdade para o género Lepus. Mas diz também, na entrada coelho, que “seu corpo também é sempre menor que o das lebres” e isso custa-me muito a acreditar…

Cruzaram-se comigo, durante o meu passeio matinal, várias pessoas de fato de treino e cão pela trela. Muita gente aproveita passear o cão para fazer exercício – ou vice-versa. E dei-me conta de uma coisa simples, daquelas que, de tão óbvias, talvez, tão banais, nunca nos suscitam reflexão: a grande distância, muito antes de ter possibilidade de distinguir as formas do corpo e muito menos ainda os traços do rosto, já sabia o sexo da pessoa que se aproximava. Pelo andar, está claro. E isto é interessante, acho eu. Temos um programa de reconhecimento de movimentos que sabe distinguir a marcha dos dois sexos, por muito que ninguém seja, nem de longe, capaz de descrever a diferença entre a maneira de andar dos homens e das mulheres**. As coisas complexas que nós sabemos sem muitas vezes saber que as sabemos e nem sonhar como as sabemos…
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* Ainda escrevi aqui que "os corvos andavam a pastar", mas resolvi refazer a frase, porque achei que o pastar era capaz de ser aqui mal recebido. Mas que estaria correto, isso sem dúvida.
** Há, isso sim, um estereótipo de andar feminino, que consiste basicamente em andar com um pé sempre diante do outro, a ponta do pé apontando sempre na direção que se segue, mas praticamente não há mulheres que andem dessa maneira.

23/08/11

Crónicas de Svendborg #4 e Inventários #3: Da Dinamarca como país exótico

O exotismo é como a beleza de um célebre ditado inglês*: está nos olhos de quem acha exótico. No caso desta pequena selecção de coisas exóticas dinamarquesas, esses olhos são os meus, claro está. Mas não são os meus olhos de agora. A lista é de coisas que eu achava bastante exóticas quando aqui comecei a viver pela primeira vez, em 2001 – e que hoje já me parecem bastante normais…

- Amargermad, uma sandes de Amager. Não só é surpreendente existir uma sandes assim, uma fatia de pão escuro de centeio sobre um bocado de pão claro, com manteiga ou com um bocado de queijo no meio, como é surpreendente haver uma página da Wikipédia em dinamarquês dedicada a essa estranha sandes. A entrada da Wikipédia explica que “uma teoria proposta é que, a certa altura, era mal visto comer pão branco ao domingo, mas, estando o pão branco por baixo, Deus não o via”.
- Mellemlægspapir, papel para pôr no meio. É um papel absorvente que serve para se pôr entre as sandes (que são normalmente abertas, ou seja, um fatia de pão escuro com qualquer coisa lá em cima, donde a necessidade do papel) na caixinha de plástico que serve de lancheira!
A arte de “barrar merendas”, como se diz em dinamarquês. É entre estas sandes que se põe o tal papel…
- Rygeost, requeijão fumado,. Uma especialidade aqui desta zona. É fumado com palha de cereais e eu por acaso até gosto, mas é uma coisa um bocado especial… Exótica, enfim, com sabor a fumo… Também tem direito a página de Wikipédia. 

Rygeost, requeijão fumado
- Campeonato nacional de guitarra de ar, que é como quem diz, um campeonato para ver quem é o melhor a fingir que está a tocar guitarra.

 

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* Bom, eu conheço-o como provérbio inglês, “Beauty is in the eye of the beholder”, A beleza está nos olhos de quem olha”, mas, segundo Elizabeth Knowles, em The Oxford Dictionary of Phrase and Fable (OUP, 2005), o dito é muito mais antigo: “O provérbio está atestado em inglês a partir de meados do século XVIII, mas encontra-se nos Idílios de Teócrito (c. 300-260 a.C.), um dito grego do séc. III a.C. relacionado com ele: «Aos olhos do amor, o que não é belo parece muitas vezes que o é».” É claro, pode argumentar-se que é ir longe de mais relacionar a frase de Teócrito com o provérbio inglês, de tão diferentes que são. Agora, pode-se, isso sim (e deve-se, provavelmente), ver no aforismo de Teócrito a origem do provérbio português “Quem feio ama, bonito lhe parece”.

22/08/11

Inventários #2: Cassetes (um inventário com música e publicidade escondida)

Li há algum tempo, não me lembro onde, que os jovens consideram o disco rígido do computador o suporte físico natural da música. Já nem CDs conhecem, quanto mais discos de vinil ou cassetes. E nós, vejam lá, desfizemo-nos agora, primeiro ao sair de Moçambique e depois ao fazer a mudança de Copenhaga para Svendborg, de umas boas centenas de cassetes. Para que queríamos nós cassetes? Bom, em Moçambique usávamo-las para ouvir música no carro. Em muitas daquelas estradas não se consegue ouvir CDs, porque estão constantemente a saltar. E então, quando comprámos o carro, pedimos expressamente um antiquado leitor de cassetes em vez de leitor de CDs e passámos 5 anos a viajar ao som de cassetes. Agora, de volta à Dinamarca, duvidávamos que as cassetes voltassem a ter alguma utilidade e desfizemo-nos delas todas. Bom, de todas, não: ficámos com 5:

1. Paul Tracey’s songs and stories, que tem de um lado canções e do outro lado histórias, todas eles maravilhosas, e que não se encontra já em lado nenhum, nem na loja do autor… Já lhe escrevi a dizer que não tem o direito de deixar desaparecer assim da História a sua música e ele respondeu-me que a imortalidade lhe interessa pouco… Mas vejam e ouçam este vídeo, para ficarem com uma ideia de como é a música dela. É, ao que sei, o único que se encontra dele na internet e é um vídeo curioso: Pelo que percebo, Paul fez uma canção para a sua filha Sarah; e outra filha, Devon, fez um vídeo para a canção do pai.


2. L’organiste barbare, uma obra, que “infelizmente não parece estar legalmente disponível em lado nenhum”, do famoso (?) Claude Reboul. Podem vê-lo aqui em ação a partir do segundo minuto:


3. Um concerto gravado na mesa de mistura do Rock Rendez Vous a 9 de outubro de 1983, de uma banda que viria mais tarde a ser bastante conhecida. E eis o primeiro concurso da Travessa: quem adivinhar que banda é, ganha um prémio!...

4. Uma seleção sem título de música alegre, por uma grande banda alemã chamada Trio Bagatelli. Também já não existe e, se editou algum disco, não se o consegue encontrar em lado nenhum.

5. Desert voices I, do sul-africano Jason Armstrong e do moçambicano Gito Balói, infelizmente já falecido. E Desert Voices I, acho que só mesmo em cassete; de Desert Voices II, podem ouvir aqui 4 temas).
Agora, não é de ânimo leve que se deitam fora as cassetes, pelo menos as que têm histórias, e tínhamos muitas cassetes que tinham vindo de todos os lugares que ficam entre S. Francisco, nos EUA, Sucre, na Bolívia, e Medan, na Indonèsia, e que eram recordações de todo o tipo de pessoas, lugares e acontecimentos. Normalmente, o que de menos interessante tinham era a música; ou, se a música por acaso era interessante, já a tínhamos também em CD…     

[Post Post 1] Uma grande parte das nossas cassetes, como uma grande parte das cassetes de toda a gente, eram cópias ilegais, feitas em casa ou compradas já copiadas. Nunca autores nem executantes das músicas viram de direitos delas nem um tostão. É curioso, não se percebe bem porque é que, fazendo-se tanto barulho agora com os downloads e as cópias ilegais de música, nunca ninguém fez muito barulho em relação às cassetes…

[Post Post 2] Isto de só ter guardado 5 cassetes é mentira! Guardei mais, só que as outras não as quis pôr neste mini-inventário…

21/08/11

Cantar anedotas

Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.
Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:
“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”
“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”
Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa [1]. A canção é de Gustave Nadaud, que, segundo uma página do site Dialogus, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do communard Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».
Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.
Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979

Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão[2]. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas... 

Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.  Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum Lil’ Beethoven e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…

Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002

Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro:
«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»
«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»

Há temas de canções mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada[3] a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!
Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»
Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses[4], escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado “Lézard”, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»
Tirando isso, houve mais gente boa da chanson, como Henry Salvador (uma vez até em colaboração com Boris Vian) ou Georges Moustaki, a fazer, uns mais a sério  do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…
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[1] Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter prosaico, traduzi-a em prosa. Ou pensavam que era sem querer?
[2] Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho...
[3] Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um futuro perfeito passivo, como convém à conversa…
[4] De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!

17/08/11

Matriculomancia

A matriculomancia (inglês platomancy, francês placomancie) é a adivinhação do futuro a partir das matrículas dos carros. Este método divinatório assenta nos famosos princípios filosóficos de que nada acontece por acaso, porque Deus não joga aos dados, como se sabe; de que tudo está forçosamente interligado, porque senão o universo não faria sentido; e de que o que está em baixo é igual ao que está em cima, sendo o que está escrito nas chapas de matrícula, naturalmente, o mesmo que está escrito no grande livro do destino. Et cætera.

Nenhum carro passa perto de nós sem que haja uma razão para tal. Pensem bem: de todos os carros do mundo porque haveria aquele carro passar naquele lugar naquele momento? Mais do que razão, deve até falar-se de um sentido cósmico dessa passagem. E quem tiver olhos para ver verá. Se estivermos com atenção ao que se passa à nossa volta, todos temos – ou pelo menos eu tenho – várias possibilidades de comprovar na prática que as matrículas dos carros falam frequentemente connosco. Ainda no outro dia, por exemplo, o carro à frente do nosso tinha a matrícula FB 23 183 e era conduzido por uma amiga minha do Facebook. FB = FaceBook. Não vos parece que é demasiada coincidência? É evidente que aquela matrícula me queria dizer alguma coisa. Sabendo ler o significado oculto de letras e números, obtemos da matrícula de qualquer carro informações preciosas sobre o que o fado nos reserva.

Em cada chapa de matrícula, uma mensagem do divino
Como ler o significado oculto das matrículas? Uma entrada de blogue não é o lugar ideal para revelar tão complexo conhecimento, mas, agora que sou dele depositário, estou a pensar, precisamente, em organizar uns seminários e uns cursos por correspondência para o divulgar. E a preços por tal sinal bastante em conta. Manter-vos-ei informados.

O quê, não vos cheira? Bom, não sei porquê. Não é nem mais nem menos plausível do que qualquer outro método divinatório de que já tenham ouvido falar.

––––––––

 Atenção!

É frequente a confusão de matriculomancia com matriculomania, o vício de fazer apostas sobre as matrículas dos próximos carros a passar num determinado local. Tirando o facto de se centrarem as duas atividades nos carros que passam e de haver em ambas tentativa de adivinhação, não têm, claro está, nada a ver uma com a outra…

Muitos pensarão que a matriculomancia é uma forma de aritmancia ou numerologia (adivinhação pelos números), de nominomancia (adivinhação através de letras) ou até uma mistura das duas. Mas não. Pensar-se que letras e algarismos fazem sentido só por si ou como componentes de qualquer palavra ou número é, no mínimo, uma ideia abstrusa. Os números só fazem sentido quando reunidos numa placa de matrícula!

Medo das alturas

Acrofobia é o medo das alturas. É um medo de que eu sofro e que, de vez em quando, me causa problemas. Neste momento, causa-me mesmo um grande problema: Quando alugámos a casa aqui em Tåsinge, que é uma ilha, descurámos um pormenor: a ilha só está ligada à cidade mais próxima, Svendborg, por uma ponte; e eu, vim a constatá-lo depois, não sou capaz de a atravessar nem a pé nem de bicicleta. Dificulta-me, dificulta-nos muito a vida. E encarece-a, também, porque o autocarro custa 19 coroas dinamarquesas (2,5 €).

É claro, não me limito a aceitar isto como um facto, pronto, ponto. Sei que há terapias para isto e espero ultrapassar em breve esta patetice. Agora, quando vejo fotos como uma que Studiolum publicou no seu diário mesa revuelta, fico mesmo
sem palavras.   

O inferno

Todos ouvimos já muitas vezes falar de infernos de gelo de outras tradições e até de tradições onde coexistem infernos de fogo e de gelo; e se o nosso Inferno mais regular é de fogo, também há partes do inferno que são geladas em descrições cristãs do inferno (ou, se preferirem, descrições do inferno cristão).

Para a minha saudosa avó, o inferno era de chuva. Parece que a estou a ouvir, a conversar com a vizinha do lado:
 
«Olhe, fiz agora um tanque de roupa, mas esta chuva é um inferno para enxugar…»
 Gustave Doré, gravura para o canto 22, linha 19, do Inferno de Dante (Wikimedia commons)

16/08/11

Caligrafia, língua e cultura

A letra das pessoas é, creio eu, culturalmente determinada. É certo que a variação individual é muito maior que noutros componentes da cultura, como a língua, por exemplo. Na língua, a variação individual nunca se sobrepões ao que é comum a todos os falantes, mas na caligrafia isso é possível. Dito de outra maneira, ninguém fala português de uma forma não identificável como sendo de um determinado lugar (quanto mais não seja, europeu, brasileiro, moçambicano, etc.), mas é perfeitamente possível ter uma letra que ninguém saiba de onde é.
O que é mais normal, no entanto, é ter a letra da sua terra. Creio que isto é óbvio para pessoas que, como eu, tenham passado muitos anos a ver caligrafia de gente de muitas nacionalidades. Com um certo treino, consegue-se até adivinhar, em muitos casos, a nacionalidade de pessoa só pela sua letra – se ela tiver uma letra standard do seu país, claro está. Só à laia de exemplo, deixo-vos três bocadinhos de textos manuscritos de pessoas de nacionalidade alemã, todas elas nascidas por volta de 1960. Como podem ver, há um padrão comum a todas elas, que é diferente do padrão de caligrafia de portugueses ou franceses da mesma idade.  
Agora, a caligrafia, como muitos outros aspetos da cultura de cada um, deve levar-nos a refletir sobre aspetos da cultura que se costumam deixar de lado quando se fala das culturas étnico-nacionais – “a cultura portuguesa” ou “a cultura dinamarquesa”, etc.
Um aspeto fundamental muitas vezes esquecido é que nenhuma cultura é trans-histórica: uma caligrafia portuguesa do século passado é mais parecida com, ponhamos, uma caligrafia polaca do século passado do que com uma caligrafia portuguesa de hoje – e provavelmente passa-se o mesmo com a cultura no seu todo…
E o facto de os padrões de caligrafia variarem em função não só de nacionalidades mas também de gerações leva-nos forçosamente a questionarmo-nos sobre como se processa a transmissão de cultura. Não parece fazer sentido que ela se passe apenas (sob a forma de memes ou sob outra forma qualquer) de uma geração para a geração seguinte, como se costuma postular. O que se passa com a caligrafia é, aliás, observável de forma ainda mais evidente relativamente à língua. Judith Harris defende que, se os filhos falam com o sotaque do meio em que cresceram e não com o sotaque dos pais (a não ser claro, que os pais falem com o sotaque do meio em que as crianças cresceram...), devíamos tirar desse facto simples algumas ilações sobre como se transmite a cultura (e a personalidade, mas deixo agora de lado essa questão) – ou, no mínimo, interrogar-nos e rever as conceções dominantes sobre essa transmissão vertical. Independentemente do que se possa pensar da teoria de Harris relativamente à formação da personalidade, há que considerar seriamente a hipótese de a cultura, como a língua, ser transmitida essencialmente por pares e não pelas gerações anteriores.


E o que eu digo é o mesmo: não pode ser com os professores que as pessoas aprendem a sua caligrafia, senão teriam a mesma caligrafia que eles. Tem de ser com os seus pares. Muitas vezes com os pares ligeiramente mais velhos, provavelmente, mas com os seus pares. Assim, já faz sentido haver caligrafias nacionais e geracionais.

[Para mais discussão do conceito de cultura neste blogue, vejam, por exemplo, aqui e aqui. Para mais discussão do papel dos pares na transmissão da língua, vejam aqui]

09/08/11

Crónicas de Svendborg #3: Muito azeite e muita manteiga


Costuma traçar-se linhas que unem zonas de, por exemplo, igual temperatura, as isotérmicas. Em dialetologia, traçam-se linhas que dividem zonas de pronúncia ou léxico diferentes, a que se chama isoglossas. Também é possível fazer o mesmo em relação à gastronomia (e alguém já o deve ter feito...), mas não sei como se poderia chamar a essas linhas. Aceito propostas – desde que não sejam isogástricas, isso está fora de questão.
Na Europa, por exemplo, uma linha fundamental que se pode traçar é a que separa a cozinha a azeite da cozinha a manteiga (tradicionalmente, note-se, porque hoje cozinha-se com todos os ingredientes em todo o lado)*. E a cultura do azeite e a cultura da manteiga têm, cada uma, marcas linguísticas surpreendentes, para quem venha da outra cultura: os dinamarqueses admiram-se quando eu lhes digo que temos uma expressão (ser coruja) para designar o hábito de pôr muito azeite na comida e os portugueses surpreendem-se quando lhes digo que existe em dinamarquês um nome, tandsmør, que designa o ato de pôr muita manteiga no pão. Muita mesmo, assim uma camada com meio centímetro ou mais de espessura…
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* É uma divisão diferente da que assinalam as isotérmicas ou as isoglossas, note-se, porque também há manteiga na zona de cozinha a azeite, mas não há azeite na zona de cozinha a manteiga...

Algumas notas sobre conservadorismo

George Orwell escreveu uma vez sobre Rudyard Kipling: «Embora não estivesse diretamente ligado a nenhum partido político, Kipling era um Conservador, uma coisa que não existe hoje em dia». O texto que cito é de fevereiro de 1942, e é isto que acho interessante: Segundo Orwell, já não havia conservadores naquela altura.

É bem possível que já não houvesse muitos, como hoje, muito provavelmente (isto são tudo impressões apenas, de Orwell e minhas…), também não há muitos. Pelo menos, nos programas políticos e no discurso político. Conservador é alguém que quer conservar as coisas como elas estão e, mesmo nos partidos que se dizem conservadores, estou convencido que não há muita gente assim. Encontro com muito mais frequência conservadorismo na conversa de autocarro ou de café do que no discurso político, que propõe quase sempre alterações – nem que seja, como diz o conhecido aforismo, para no fundo tudo continuar exatamente na mesma…
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Muitas vezes me lembro da frase célebre de Paul Valéry Le monde ne vaut que par les extrêmes et ne dure que par les moyens Il ne vaut que par les ultras et ne dure que par les modérés[1], “O mundo só vale pelos extremos e só dura pelos médios. Só vale pelos radicais e só dura pelos moderados”. E muitas vezes a reinterpreto substituindo moderados por conservadores, dando a estes últimos um papel afinal importante na História do mundo: ser um dos pólos da sua tensão, resistir às mudanças. Acho até que, de alguma forma, toda a gente acaba por ser conservadora nalguma coisa, de se acomodar no conforto do que já é, do que não precisa de ser inventado e construído. Mas, no geral, surpreende-me a posição conservadora: ser conservador só faz sentido num mundo que se considera suficientemente bom para não se o querer alterar – e não é nada assim que eu considero o mundo em que vivo.
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Se se associa normalmente conservadorismo à direita, a verdade é que o conservadorismo não tem de ser, nem é de facto, exclusivamente de direita. Não só há gente de esquerda conservadora, como há até módulos conservadores em certas ideias de esquerda, nomeadamente no que toca ao respeito de tradições e identidades, e também à preservação da natureza [2]. Pierre-André Taguieff, por exemplo, propõe um conservadorismo de esquerda: «Perante o imperativo único de “andar para a frente” (reforma perpétua e revolução interminável”, a resistência tem de apoiar‑se num projeto de conservação ou de preservação», diz ele em Résister au bougisme[3]. «Se o termo “conservadorismo” não se tivesse tornado difícil de usar devido à acumulação de maus usos que dele foram feitos (…), poderia desempenhar o papel de indicador, e até mesmo de bandeira, da nova postura “resistencial”. Porque, na conjuntura atual, é apenas com base em exigências conservadoras que pode redefinir‑se a resistência à desumanização técnico‑mercantil do mundo.» E cita, a propósito, o «filósofo e militante antinuclear» Günther Anders («Sou um “conservador” em questões de ontologia, porque o que me importa hoje, pela primeira vez, é conservar o mundo tal como ele é.»), o filósofo Jean-Claude Michéa (“um certo grau de conservadorismo crítico constitui agora um dos alicerces indispensáveis de toda a crítica radical da modernidade capitalista”. ) e o «liberal lúcido» Pascal Bruckner (“O conservadorismo inteligente deveria tornar‑se um valor de esquerda: a vontade de salvaguardar o mundo, de preservar para as gerações futuras as possibilidades de uma vida humana”).
Ora, se, por um lado, não considero o estado do mundo suficientemente perfeito para o querer conservar, tenho, por outro lado, uma visão da evolução do mundo muito mais otimista do que estes senhores e do que a maior parte dos conservadores; e, não receio, ao contrário de Camus, que “o mundo se desfaça[4]”. É certo que as mudanças não são desejáveis só por si e que nem todas as mudanças são positivas, mas acho que, no geral, tudo tem mudado mais para melhor do que para pior e o mundo é hoje, com as suas muitas injustiças, mais justo do que em qualquer outro período da História humana; e a vida das pessoas, com os muitos sofrimentos que persistem, alguns desnecessariamente, é mais longa, mais saudável e mais fácil do que alguma vez foi para a maioria dos seres humanos.
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Parece-me que uma das razões do sucesso da extrema-direita atual vem de ela ter incorporado a ideologia conservadora das conversas de autocarro e de café que o resto da direita já não ostenta no discurso político. De facto, os neofascismos de hoje assumem-se como conservadores, coisa que os fascismos originais, digamos assim, o nacional-socialismo e o fascismo italiano, em princípio não eram[5].
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[1] Tel quel I, 1941, p. 192.
[2] Relativamente a isto de conservar, podem dar-se casos curiosos, como aquele que foi motivação direta deste texto: O Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita, apoiou a resistência dos ecologistas à instalação de moinhos de vento em Østerild Klitplantage, em Thy. Mas, claro, pode discutir-se até que ponto é que o Partido Popular Dinamarquês, que é, em muitos aspetos, extremamente conservador, neste caso não o é apenas por estratégia política…
[3] Esta citação e as citações de Günther Anders, Jean-Claude Michéa e Pascal Bruckner por Taguieff, que aparecem a seguir, são de Resistir ao Para-a-frentismo, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 132.
[5] Foram-no muito outros fascismos, é certo, como o fascismo espanhol e o fascismo português; mas talvez um pouco menos do que pode parecer à primeira vista, porque uma parte do que se propunham “conservar” tinha sido, afinal, inventado por eles…