09/02/22

Faláfel

Diz-se que a prática faz o mestre e é bem verdade, na maior parte dos casos. Normalmente, faz-se mal aquilo que não se praticou o suficiente. Polmes, por exemplo — não sei fazer bons polmes, mas acho que é só porque não pratiquei o suficiente… Às vezes, porém, também é questão de encontrar uma maneira de fazer as coisas que funcione para nós.

Queria falar-vos de faláfeles, aqueles pastelinhos médio-orientais que há. Experimentei muitas receitas e improvisei muito à volta delas, com grão cozido, meio cozido e cru, e nunca me saíram bem. De sabor sim, mas sem a consistência devida. Até que encontrei, no Comidista, a receita que funciona mesmo — para mim! — e que sabe melhor que as outras todas. A questão, afinal, era usar três quartos de favas secas para um quarto de grão e não demolhar nem triturar demasiado as leguminosas. Vejam aqui a receita:

Já agora, há um artigo do History Today que confirma o que se ouve no vídeo do Comidista: o faláfel original é egípcio e é de fava, cuja designação em árabe egípcio está, aliás, na origem do seu nome. Mas vários dicionários, alguns deles fiáveis, como o dicionário etimológico Etymology Online, propõem um étimo árabe, falafil, que segundo alguns significa «pimenta(s)» e segundo outros «crocante, estaladiço».

Parece que as primeiras referências ao faláfel datam do séc. XIX. Como tudo o que é tradicional — já era de esperar – o faláfel não é, pois, uma coisa assim tão antiga... Cabe agora a quem se interesse muito pelo assunto investigá-lo mais a fundo e descobrir se há outras versões da história do faláfel que sejam mais dignas de crédito que este artigo do History Today. A mim, interessam-se mais os faláfeles que a sua história... Bom proveito! 


Moral e mercado

[Este é daqueles textos que está há seis anos (!) para eu lhe dar forma definitiva. Mas eu não sei dar forma definitiva a nada, e isto também é só um blogue, não é verdade? De maneira que aqui vai como está sem mais, meio em esboço. Fala-se de mercado e liberalismo económico numa perspetiva moral.]

Estou em crer que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico defenderia, pelo menos às claras, que todo o comércio é sempre aceitável. Mas, para não se defender essa ideia tão pouco popular, há que ter como critério algo mais que o bom funcionamento da economia. E isto porque, como já uma vez aqui referi, de acordo com a teoria pura dos mercados, qualquer intervenção estatal, nem que para definir, com base nalgum critério moral (ou político, que neste caso é o mesmo), que comércio se pode ou não fazer reduz forçosamente a eficácia da economia. Por exemplo, se houver mercado para escravos não há razão nenhuma, numa perspetiva exclusivamente económica, para não se fazer comércio de escravos. Etc.

A verdade simples, de que nos esquecemos com demasiada frequência, é que o liberalismo económico é uma teoria económica, não uma teoria política, embora, como qualquer teoria económica, possa fazer parte de uma teoria política. É por isso que há uma tão grande divergência no plano propriamente político entre partidos que defendem o liberalismo económico (o grupo liberal do Parlamento Europeu é exemplo disso).

É claro que é perfeitamente possível a defesa de uma versão do liberalismo económico que não passe pela defesa de uma teoria pura dos mercados, avessa a toda e qualquer intervenção exterior e, por isso, completamente imoral. Saindo do louvor apenas do «bom funcionamento» dos mercados, pode definir-se alguma base moral do que é moralmente aceitável comerciar e defender, em seguida, que todas as transações moralmente aceitáveis se processem livremente, sem regulação do estado nem de entidade nenhuma que não sejam os agentes económicos nelas intervenientes*.

É extremamente difícil, porém definir as fronteiras do que é, em termos morais, suficientemente aceitável para poder ser comprado e vendido ou que tipo de transações comerciais devem estar sujeitas apenas à regulação do mercado. Por exemplo, se se aceita pagar muito dinheiro a uma pessoa pelos contactos e pela influência que tem (o valor dos salários de muitos gestores é nisso que assenta), então porque não aceitar o suborno e a corrupção, que são também a compra, num mercado autorregulado, do poder de uma pessoa? A questão dos monopólios é também interessante: uma lei antimonopólio é sempre contra o mercado, até porque, por muito que se afirme que os monopólios implicam o fim da concorrência (e a concorrência seria um motor de aumento da qualidade), o fim último de uma empresa a funcionar num mercado livre com o lucro apenas como telos é conseguir um monopólio.
Este são problemas da definição de mercado livre. Tem sido muitas vezes argumentado que a defesa de um mercado livre é, em última análise, contraditória, porque implica sempre a defesa de uma instância reguladora fora do mercado e não influenciável por ele que assegure o respeito da liberdade de transação e o respeito das regras comerciais. Porque um mercado realmente livre é um mercado em que manda mesmo e só a economia, mas isso é uma abstração do mesmo tipo que «o ser humano anterior à socialização»: é um conceito utilizável em exercícios de reflexão, mas que não corresponde a nada que tenha existido ou possa vir a existir.

Uma solução simples para estes dilemas é assentar que o comércio livre não deve ultrapassar os limites da lei, que a lei em vigor no lugar onde se comercia é a única instância reguladora aceite pelo mercado. Isto é, pelo menos em teoria, aceite pelos liberais, mas essa aceitação das leis vigentes é contraditória com o princípio do mercado livre, porque então devem também aceitar-se, sem protestar, as leis que regulam o mercado, até porque nunca ninguém defendeu a regulação do mercado per se, mas sempre esta regulação se deu para atingir fins políticos, que é outra maneira de dizer que a regulação do mercado se enquadra em programas éticos – pelo menos, quando não é determinada por uma parte poderosa dos participantes no mercado para se protegerem a si próprios**... Ora as forças do mercado não aceitam, precisamente, que as leis sejam como são quando as leis não são como elas as querem e tentam constantemente alterá-las, em função apenas da ideia de que «o mercado não deve ser regulado». O que nos traz de volta ao círculo da definição de limites morais essenciais a que os liberais não querem responder e que podiam resolver-se com a aceitação das leis vigentes, fossem elas quais fossem, porque são todas igualmente inimigas dos mercados – o que os liberais, afinal, não aceitam. E neste círculo giramos.

No fundo, o que não se diz, porque não convém, mas que determina em última análise a pressão do mercado sobre todos os regimes, é que se pretende que não haja mesmo nenhuma lei, nenhuma moral, que limite o funcionamento do mercado. O liberalismo económico acaba sempre por defender, opondo-se a toda a política, que o comércio é o único objetivo aceitável – o que, pelos vistos, é politicamente tão indefensável que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico ousa admiti-lo às claras…

_______________________

* Complica um pouco as coisas o poder julgar-se especificamente a moralidade de uma transação comercial enquanto tipo específico de ação – a compra e a venda de sexo, por exemplo, são passíveis de uma análise moral independente da análise moral da prática de sexo não transacionado. Mas deixemos isto para outra conversa.

** Isto também dava uma conversa à parte: muitos liberais não se coíbem de defender a regulação do mercado, se esta regulação defender os seus interesses – alguém defende comércio livre com o mundo inteiro, que é o mesmo que dizer a desregulação efetiva do comércio?

30/01/22

Silêncio

 

No meu conto «Silêncio» (que apresentei aqui), um músico do sul da Índia chamado Venmani Tirunal Patire conclui que a música de Deus, que ele tinha procurado em vão em várias formas de música religiosa, só pode, afinal, ser o silêncio, porque «[a] única matriz absoluta é uma matriz vazia, a que tudo pode conter». Decidido a «ouvir» o silêncio, Venmani Tirunal Patire suicida-se por inanição numa redoma de pedra o mais insonorizada possível, construída com ele lá dentro.

E então aqui fica um spoiler (mas não faz mal, porque vocês nunca hão de ler os meus contos…) – a história termina assim:

Mais versado nas ciências humanas do que nas ciências da natureza, Venmani Tirunal Patire não sabia que os processos mentais morrem antes das outras funções vitais. Não se consegue, por isso, deixar de ouvir o corpo no minuto ínfimo e extático que antecede a morte. E Venmani Tirunal Patire, tenho a certeza, morreu sem nunca ter ouvido a matriz sonora de Tudo – o mais perfeito de todos os sons, a sinfonia de todas as sinfonias, a música de Deus.
***

No outro dia, encontrei uma entrevista que o compositor e teórico da música John Cage deu em 1963 a Jack Hirschman na estação de rádio KPFK (podem descarregá-la aqui). Nessa entrevista, Cage conta como descobriu que o silêncio não existe, numa câmara anecoica da Universidade de Harvard, um espaço que é, em princípio, completamente insonorizado — como a redoma de Venmani Tirunal Patire (traduzo eu):

Nessa câmara, embora esperasse não ouvir nada, ouvi dois sons. Por isso, quando saí, perguntei ao engenheiro responsável que sons eram aqueles. Pensei que a câmara não devia estar a funcionar bem. E ele disse: «Descreva-os». E eu descrevi: um era agudo e o outro era grave. E ele disse: «Bem, o agudo era o seu sistema nervoso em funcionamento; e o grave era a circulação do seu sangue». Percebi então que, sem querer, eu produzia constantemente dois sons. Portanto, mesmo permanecendo em silêncio, eu era, em certas circunstâncias, musical.



29/01/22

Vista de uma janela

1. 

Na sua recensão do álbum Music for Nine Postcards (1982), de Hiroshi Yoshimura (revista Pitchfork, 15.11.2017), diz Thea Ballard:

Associa-se muitas vezes a música ambiente a uma espécie de interioridade psíquica, mas Yoshimura (…) fez música inspirada em lugares físicos e concebida para existir nesses espaços: para estações de comboio, desfiles de moda, etc.
Em 1982, Music for Nine Postcards foi o primeiro lançamento da série Wave Notation, de Satoshi Ashikawa; Ashikawa e Yoshimura definiram e defenderam aquilo a que chamaram «música ambiental», música que, segundo Ashikawa, «muda o caráter e o significado do espaço, das coisas e das pessoas». «A música», defende ele, «não se destina apenas a ser algo que existe sozinho.»

Por invulgar que possa parecer, a ideia aceita-se com naturalidade: em vez de exprimir uma maneira de sentir o mundo (um mundo interior, digamos assim) ou de constituir ela própria um mundo à parte, sem relação direta com nenhuma realidade, porque não há de a música fazer parte de um pedaço de mundo — imiscuir‑se no meio, ser ambiente?

2. 

Segundo Thea Ballard, o álbum «inspirou-se numa série de vistas de janelas». Não consigo, noutras recensões do álbum, confirmar a fenestral inspiração, mas há no álbum um tema chamado «View from my window»:
Janelas%2001%20Blogue
Vista da janela do meu escritório
Publiquei uma vez no Facebook uma foto da janela do meu escritório e pedi aos meus amigos que publicassem nos comentários uma foto de uma das suas janelas. 

Não houve muita gente disposta a colaborar, mas ofereceram-me, ainda assim, três bonitas janelas.

Tamara Barile mandou‑me uma janela de S. Paulo.

Teresa Silva mandou-me uma janela do Dafundo/Cruz Quebrada.

Fernando Ramalho (Berlau) mandou-me uma janela sonora de Verderena, Barreiro, incluída numa compilação de janelas sonoras.

Maria Serrano mandou-me uma janela de Montreuil.

E J. J. Amarante Mandou-me uma janela dos Olivais, e eplica que a «casa amarela com uma pequena torre encimada por um telhado de 4 águas é a Bedeteca Municipal, adjacente à Quinta Pedagógica, da qual se vê o arvoredo e onde as crianças podem fazer pão, ver vários vegetais a sair da terra em vez de nas prateleiras dos supermercados e animais de quinta, ovelhas, vacas, cavalos, porcos, aves de capoeira, etc. A Bedeteca e a Quinta Pedagógica estão na antiga Quinta do Contador-Mor onde alegadamente o Eça de Queiroz escreveu Os Maias, no que seria um local de vilegiatura e agora é o Bairro dos Olivais.»

Recolher vistas de janelas não é uma coisa muito original. Há um grupo no Facebook, um site que deu dois livros e um site de repousantes filmes de 10 minutos. Mas não faz mal. Não têm uma vista de uma janela que queiram aqui pôr, por baixo das quatro iniciais? Se sim, mandem-ma por e-mail.

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São Paulo

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Dafundo/Cruz Quebrada

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Montreuil





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Olivais


19/11/21

É o inverno a chegar [Crónicas de Svendborg #42]

 [As fotos têm precisamente um ano. As quadras também. Eu, embora sendo do sul da Europa, não me queixo da escuridão; mas há muita gente daqui que se queixa...]

Está a doca já vazia, 
tem um outro azul o mar. 
Chega às quatro o fim do dia: 
é o inverno a chegar… 

Caem as folhas e o céu 
tem outro azul, como o mar. 
Às cinco, já escureceu: 
é o inverno a chegar…










30/10/21

Um pecado não muito original

 "Estavam ambos nus, o homem e sua mulher, sem terem vergonha um do outro.

Ora a serpente era o animal mais astuto dos campos que Deus Senhor fizera. Disse à mulher: 
– Deveras? Deus disse «Não comereis de todas as árvores do jardim»? 
Respondeu a mulher à serpente: 
– Do fruto das árvores do jardim podemos comer; mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: «Não comereis dele, nem nele tocareis, para não morrerdes». 
A serpente disse à mulher: 
– Não, não morrereis; mas Deus sabe que no dia em que comerdes do fruto, abrir-se-vos-ão os olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal. 
Viu, pois, a mulher que a árvore era boa para comer, que era uma delícia para os olhos, e que era árvore desejável para adquirir sabedoria; tirou dela um fruto e comeu dele; deu também o fruto a comer a seu marido, e ele comeu. E abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que estavam nus; coseram folhas de figueira, e delas fizeram tangas. Ouviram os passos de Deus Senhor que passeava pelo jardim na brisa do dia; e o homem e a mulher esconderam-se de Deus Senhor entre as árvores do jardim. 
E Deus Senhor chamou o homem e perguntou-lhe: 
– Onde estás? 
E o homem respondeu: 
– Ouvi a tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. 
Perguntou-lhe Deus: 
– Quem te revelou que estavas nu? Comeste da árvore de que te mandei não comer?"
[Livro da Génese, cap. 2 e 3]

Tommaso Masolino da Panicale: A tentação de Adão e Eva, 1426-1427. Fresco, Capela Brancacci, Florença. 
Por volta de 1670, os frescos foram pintados por cima, para tapar a nudez, tendo sido restaurados no fim do século XX. 

Masaccio (Tommaso di Ser Giovanni di Simone): A expulsão de Adão e Eva do Éden, 1426-1428. Fresco, Capela Brancacci, Florença 
As folhas de figo foram acrescentadas em 1680 e foram de novo retiradas numa restauração feita em 1980.

Hubert van Eyck, Retábulo de Gante ou Adoração do Cordeiro Místico, concluído em 1432. Pintura sobre painel, Catedral de São Bavão, Gante 
No século XIX, as representações originais de Adão e Eva nus foram consideradas inaceitáveis numa igreja e os painéis foram substituídos por reproduções vestidas (à esquerda).


22/10/21

Televisão: programação de 3 a 9 de outubro de 1965 [Crónicas de Svendborg #41]

Eis a programação da televisão dinamarquesa para a semana de domingo 3 de outubro até sábado 9 de outubro de 1965, tal como aparece na revista Billedbladet de 1 de outubro desse ano.

Eu tinha nessa altura seis anos. Tínhamos televisão lá em casa e tenho a impressão que a programação da televisão portuguesa era muito diferente da dinamarquesa, mas, é claro, não passa disso mesmo – uma impressão. Seria curioso encontrar uma revista com a programação da televisão portuguesa dessa altura (ou de outro país, porque não?), para verificar se era de facto assim tão diferente. 

Seja como for, surpreende-me a quantidade de programas informativos e educativos, a qualidade dos programas culturais, e o facto de, numa semana, haver apenas duas séries americanas, os Flintstones e The Defenders, uma série sobre advogados e tribunais que eu creio que nunca passou em Portugal.

DOMINGO
9:55 Missa de outono transmitida da igreja dinamarquesa de Glücksburg, na Alemanha. [Glücksburg fez já parte da Dinamarca e continua a haver na região muitos falantes do dinamarquês. Indica-se no programa o nome do pastor e os salmos que vão ser cantados.]
20:00 «Bactérias ao microscópio»: Ingvald Lieberkind fala de um filme científico russo sobre bactérias.
20:25 Ópera «O Barbeiro de Sevilha». Transmissão do Kornmarktteatret, em Bregenz, Áustria.
No intervalo:
22:05 Notícias, incluindo as notícias desportivas de domingo
23:05 Telejornal.

SEGUNDA FEIRA
9:15–9:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física».
17:15–18:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov.
20:00 Notícias.
20:20 «A criança deficiente que vive com os pais»: o apoio social oferece muito pouco aos pais que não têm seus filhos numa instituição?
21:20 Teleteatro: «A Aula», peça de Engene Ionesco.
22:15 Visita do Papa às Nações Unidas. Transmissão da mensagem do Papa Paulo IV à Assembleia Geral da ONU.
22:45 Telejornal.

TERÇA-FEIRA
9:15–9:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens.
11:55 Abertura do Parlamento. Transmissão do discurso de abertura do Primeiro-Ministro Jens Otto Krag no início do novo ano parlamentar.
17:30–18:00 «O que fazer?», programa sobre livros
19:30 «Walter e Connie»: 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 O novo ano parlamentar: entrevista com o primeiro-ministro Jens Otto Krag sobre os principais pontos do discurso de abertura do ano parlamentar.
20:45 «Do desporto à arte»: a dança dos séculos XVI e XVII. 1. episódio da série «História e estética do ballet».
21.15–22.00 Programa «Horizonte»: comentários sobre a actualidade política estrangeira.

QUARTA-FEIRA
13:15–13:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
19:30 «O corpo humano»: primeiro filme da série sobre o corpo humano.
20:00 Notícias.
20:20 «A natureza vista ao microscópio»: vamos de novo apanhar cogumelos com o Professor Morten Lange nas florestas de Sorø.
20:35 Teleteatro. «Ateljé Mia», uma peça de Lars Helgesson (Emissão da televisão sueca).
21:20 Jazz.
21:50 Programa escolar. Informação sobre uma série experimental sobre matemática.
22.30 Telejornal.

QUINTA-FEIRA
13:15–13:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens. (Retransmissão de 5/10 9.15).
15:15–16:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov. (Retransmissão)
19:30 Notícias desportivas.
20:00 Notícias.
20:20 «O lago»: documentários sobre uma reserva indígena na floresta virgem do Brasil (BBC).
20:50 Com 10 centavos no bolso. Estreia dinamarquesa. Fime americano de 1941 ("Sullivan's Travels").
22:20 Telejornal.

SEXTA-FEIRA
15:30–16:00 «O que fazer?», programa sobre livros (Retransmissão).
19:30 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
20:00 Notícias.
20:20 «Tons negros»: documentário sobre a vida numa fazenda branca sul–africana (BBC).
21:00 Actualidade cinematográfica («Note que esta emissão pode incluir excertos de filmes proibidos para crianças»).
21:20 Promenade Concert de Londres. Orquestra Sinfónica da BBC dirigida por Sir MaIcolm Sargent.
22:35 Telejornal.

SÁBADO
16:00 «Os Flinstones», desenhos animados
16:25 «Uma deficiência – e então?»: visitamos jovens desportistas com deficiências.
17:10–17:55 Jornal de sábado
19:30 «Walter e Connie». 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 «As famílias do concurso “Tétrade”»: apresentação dos participantes do concurso televisivo desta noite.
20:30 «Tétrade»: Concurso musical entre famílias nórdicas, esta noite de Oslo (Nordvision da Noruega).
21:30 Programa «Duelo»: Poul Trier Pedersen entrevista dois convidados.

21/10/21

Da boa educação


Há agora no Facebook uma moda de páginas que fazem perguntas às pessoas: «Destas capitais, quais é que já visitou?», «Qual foi a sua primeira viagem de avião?», etc. Quando uma pessoa nossa amiga responde a uma destas perguntas, vemos a resposta dessa pessoa e sentimo-nos tentados a responder também, muitas vezes até mais para dialogar com a amiga ou o amigo que respondeu, creio eu.

Enfim, não costumo responder a coisas dessas e às vezes até escolho a opção de nunca mais voltar a ver a página, mas já me aconteceu cair em tentação. Aqui há umas semanas, vi uma «pergunta» que era qualquer coisa como «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja…» E, em vez de escrever um prato qualquer que me desagrade, como escrevia toda a gente, escrevi apenas «…pouco»: «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja pouco.»
 
Por um lado, gosto de tudo (a sério!); por outro lado, aprendi com a minha avó, uma mulher muito sábia, que, quando nos convidam para comer, a gente deve mesmo encher a barriga! Mais concretamente, a expressão dela era esta:

«Ó filho, também a gente ficar em favores e ainda por cima passar fome…»

[Pelo traço, a ilustração é quase de certeza de Charles Dana Gibson (1867– 1944), mas não tenho a certeza absoluta. Não consigo encontrar nem título nem data da obra. Uso aqui uma parte apenas da imagem original e ligeiramente modificada por mim.] 

11/10/21

Reabilitação com guitarra

[Não é uma história de um lar, desta vez, mas sim uma história do hospital. Também ela acontecida, como quase todas as histórias que aqui conto.]

Reunião para combinar os passos e objetivos seguintes do processo de reabilitação neurológica de Jorge: estão presentes o Jorge, a mulher dele e o pessoal do serviço de reabilitação neurológica que mais diretamente trabalha com ela: uma fisioterapeuta, um ergoterapeuta, uma enfermeira e uma médica. Jorge teve um acidente vascular cerebral, de que resultou paralisia parcial do lado direito do corpo. Depois de um mês de reabilitação intensiva, os progressos são muitos: a afasia expressiva praticamente desapareceu e Jorge já consegue fazer sozinho muitas das suas atividades diárias, embora ainda mexa pouco o braço e a perna direita. Está muito satisfeito com os progressos que tem feito, em grande parte devido ao seu grande empenho na reabilitação, e isso vê-se-lhe bem na expressão do rosto.

«E que tal começar a tentar tocar guitarra outra vez? Não fazer dedilhados, claro está, que isso ainda não é possível, mas só palhetar, para treinar a mão direita», propõe a certa altura o ergoterapeuta. Antes do AVC, Jorge era um exímio guitarrista, além de que compunha e escrevia letras para canções.

A expressão de Jorge altera-se completamente. Fica de repente muito triste.

«Nem pensar nisso», diz ele. «A guitarra nunca pode fazer parte do treino. Nunca. Só lhe volto a tocar quando tiver o controlo perfeito da mão direita… Se alguma vez o recuperar, seja… Senão, nunca mais toco numa guitarra.»

04/10/21

Elogio da boa vida em forma de fado

 

Ele era um bom rapaz, trabalhador, 
Um operário leal cumprindo o bem. 
Vint'anos de ilusões brotando em flor 
E uma terna afeição por sua mãe. 
Mas um dia fatal, os companheiros 
Levaram-no à taberna onde parava 
A malta dos vadios e desordeiros, 
Dos quais um à guitarra assim cantava: 

Um fadinho a soluçar 
Faz de nós afugentar 
A ideia da própria morte; 
Mata a dor, mata a tristeza, 
Jacques Alfred Van Muyden (1918–1998): Três músicos romanos numa taberna, s. d.
O fado é bendita reza 
Dos desgraçados sem sorte, 
Tem tal dor e mágoa tanta,
Quando canta uma garganta
De quem vive amargurado,
Que o refúgio preferido
P’ra quem viver dolorido
Está na doçura do fado 

Esta triste canção foi mau agoiro 
Que a vida lhe viesse transtornar 
Tomou gosto à taberna, o matadoiro, 
E em breve deixou de trabalhar (…) 

Parecerá normal a equivalência que se estabelece neste «Fado maldito[1]» entre ser «um bom rapaz» e «cumprir o bem» e ser «trabalhador» e «um operário leal». O louvor — quando não o culto — do trabalho é transversal a quase todas as camadas e grupos sociais, e, pelo menos no mundo em que cresci, só nos estratos sociais mais baixas é que o louvor do trabalho convivia com a apologia da recusa de se deixar aprisionar no mercado laboral e tentar sobreviver doutra maneira, o mais das vezes dedicando-se a alguma atividade ilegal. 
A questão dá pano para mangas. Mas, se não se pode —pelo menos na praça pública — aceitar o elogio do não fazer nada como modo de vida, que vergonha!, pode-se certamente aceitá-lo como tema humorístico — até porque o humor resulta, em geral, de uma perturbação na normalidade das coisas, não é verdade? E então, se há fados como o que cito acima, que fazem corresponder à perdição a vida de boémia e o não querer trabalhar, também há outros em que desfilam simpáticos mandriões que suscitam no ouvinte mais simpatia que reprovação. 
Preguiça é a palavra que costuma definir este topos humorístico. Evidentemente, nestes fados, não há nunca uma tomada de posição política[2]: a recusa do trabalho é sempre apresentada como um (simpático) defeito de carácter. Um traço de personalidade, enfim. Pelo que nos canta Joaquim Cordeiro, em «Trabalho, vai-te embora[3]», a preguiça é até hereditária. Mas o mais curioso neste fado é que sugere que a profissão ideal para quem não quer fazer nada é a de ator — uma profissão, ainda assim, demasiado trabalhosa para um mandrião que se preze, como a personagem da canção.
Vejo pás e picaretas
Nos buracos da Avenida; 
E vejo a Rua das Pretas
Cada vez mais encardida;
Vejo a malta a protestar,
Porque o Benfica perdeu; 
Vejo tudo a trabalhar, 
Quem não trabalha sou eu

Trabalho, vai-te embora, 
Ai de mim, estou tão cansado. 
Isto de ser calão já é meu fado 
Ficou escrito no vento este dilema: 
Nem que me levem para o cinema 
 P’ra ser galã dos mais catitas, 
Ser um bijou bonito e fazer fitas... 
Ai de mim que não consigo fazer coisas tão esquisitas! 

Oiço gritos, correrias, 
Quando aparece um emprego.
Acordo todos os dias
E ainda não fui ao prego.
Já dizia a minha mãe: 
«Filho, não te dê cuidado, 
Que o teu paizinho também
Tinha nascido cansado». 
Outro fado de Joaquim Cordeiro sobre este tema da preguiça é «Bendito seja o descanso[4]». Trata-se aqui de uma anedota em verso, com um desfecho bem achado. Acho curioso que o Chico Malhado ponha a questão do trabalho em termos de gosto. Quase se pode descortinar nos dois patuscos mandriões uma postura aristocrática.
De corpinho estiraçado,
À sombra de uma figueira, 
Estava o Chico Malhado 
Mais o Baltazar Pintado 
Dois campeões da lazeira, 
O Malhado a bocejar, 
Passando as mãos pelo rosto.
Perguntou. «Ó Baltazar,
Quem gosta de trabalhar,
Não achas que tem mau gosto?»
«Camarada mandrião», 
Diz-lhe o outro com ripanço,
«Tens muita e muita razão,
Sou da tua opinião,
Bendito seja o descanso!!... 
Trago um projecto na mente 
Carrega-se unicamente 
Num botão e, de repente, 
Aparece tudo feito.»  
Diz o Malhado: «Isso, amigo,
É uma grande invenção,
Mas escuta o que te digo:
Não deves contar comigo
P'ra carregar no botão!»
Um outro fado que é também uma anedota versificada sobre o mesmo tema é «Os Preguiçosos[5]». Na minha opinião, o fado é notável pela frase «com dotes colossais p’ra descansar», um verdadeiro achado retórico, mas o desfecho da história assenta num jogo de palavras simples e conhecido.
Stock image. Autor, título e data desconhecidos.

O Chico Barnabé e o Zé Ramalho, 
Com dotes colossais p’ra descansar, 
Se um não gostava nada do trabalho, 
O outro tinha raiva em trabalhar.
E assim andavam neste rodopio, 
Dois amigos leais da boa vida
E, p’ra não aturarem senhorio, 
Pernoitavam nos bancos na Avenida.
Mas certa noite em que pernoitavam,
Um polícia de giro ali passou.
Por fim, enquanto os dois se espreguiçavam, 
O guarda ao Barnabé assim falou: 
«Diga-me qual a sua profissão 
E responda-me já, sem fantasia!» 
«Pois saiba que trabalho, pois então, 
Na firma Boavida & Companhia.» 
«E você?», diz o guarda ao Zé Ramalho,
«Diga-me sem mentir, responda já!» 
«Pois bem, fique sabendo que trabalho 
E estou na mesma casa onde este está!» 
A expressão boa vida é a chave deste meu breve devaneio. Geralmente, a anteposição do adjetivo ao nome fá-lo perder a sua função qualificativa: um grande homem não é um homem que é grande e por aí adiante. Não vou entrar aqui em pormenores — mais por preguiça que por outra razão qualquer. Uma vida boa pode significar uma vida sem problemas de saúde ou de dinheiro, uma vida interessante, folgada, com boas condições… de vida, precisamente, uma vida… boa, enfim; e uma vida má é o contrário disso: doença, miséria, problemas de toda a sorte. Já a boa vida não é o contrário da má vida. Muitas vezes, as expressões são quase sinónimas. A má vida é a vida da personagem decaída do primeiro fado deste texto. Mas essa má vida é, afinal — e pelo menos no que diz respeito a não trabalhar – a boa vida. Talvez não seja esse o caso do protagonista do «Fado maldito», não sei, mas, com alguma sorte, esta (má/boa) vida pode ser até ser uma vida boa.

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[1] Raúl Ferrão, sobre versos de Pedro Bandeira e Álvaro Leal. Mais aqui
[2] Quando digo «tomada de posição política », estou a pensar no célebre «direito à preguiça«, defendido por Paul Lafargue, na obra com esse nome de 1880, em que se defende que o natural da espécie humana é a procura do prazer e não o amor ao trabalho, que ele considera «um dogma desastroso» e uma «estranha loucura», quando vindo da classe trabalhadora, e que é, segundo ele, «a causa de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Ora, preguiça é uma palavra curiosa, porque não define, em princípio, a recusa de um trabalho formal, apenas o excesso de inércia e de falta de iniciativa. Na realidade, muitas das atividades dos «malandros« que vivem fora do trabalho formal não se prestam em absoluto para preguiçosos, mas isso é outra história. Note-se, a propósito, que a expressão «mulheres de vida fácil» que antigamente se usava para se designar as trabalhadoras sexuais — e que remete também para a «boa vida» que se discute neste texto — dá-nos conta de que o trabalho sexual estava também incluído no «não (querer) trabalhar». 
[3] Uma versão do célebre “Saudade, vai-te embora”, de Júlio de Sousa. Desconheço o autor da letra da versão humorística.
[4] Com versos de Armando Coutinho Dias e música do «Fado Patolas» (de Alcídia Rodrigues, ao que consigo descobrir).
[5] Com letra de Aureliano Lima da Silva e música do «Fado Margaridas», dos irmãos Casimiro e Miguel Ramos

02/10/21

Mais duas histórias de um lar

[São histórias verdadeiras, como as anteriores. A segunda é uma das histórias alegres que, como vos disse, também há nos lares.]

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– Era enfermeira, D. Maria Luísa? Vejo que lava muito bem as mãos, como uma profissional.

– Só aprendi a lavar bem as mãos agora com o COVID. Por acaso, quando era rapariga nova, queria ser enfermeira, mas nunca cheguei a ser. Com 17 anos, comecei a trabalhar num hospital, assim só como ajudante. Tinha um horário das 7 às 12 e das 13 às 17, todos os dias. Limpava, lavava, ia buscar coisas, fazia o que me pediam. Era para ganhar prática, para depois começar a estudar para enfermeira.

E depois, um dia, internaram um rapaz da minha idade. Estava muito doente. Não sei o que é que ele tinha. Nunca tive de tratar dele, nem de lhe dar nada, eram só as enfermeiras que tratavam dela. Mas passava às vezes pela cama dele e parava e ficava a olhar para ele. Acho que ele nem sequer me via, nem via ninguém, de tão mal que estava, coitado. Vi-o morrer. E a morte dele perturbou-me tanto que deixei o trabalho no hospital. E decidi que já não queria ser enfermeira.

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– Tem um minutinho para mim, D. Teresa?

– Claro, D. Amélia! Diga lá.

A D. Teresa é a diretora do lar e a D. Amélia é uma das pessoas que lá vive. Está lá a viver há dois anos, mas tem uma longa relação com o lar, que começou muito antes de a D. Amélia ser a diretora. Primeiro, trabalhou lá como enfermeira os últimos doze anos da sua carreira. Quando se reformou, ajudava no centro de dia dois dias por semana, como voluntária. Depois, passou ela própria a ser utente do centro de dia. Finalmente, quando a saúde se deteriorou ainda mais, foi viver para o lar. 

– Estive a falar com a minha filha e com o meu filho, que são os meus herdeiros naturais. Já os pus a par da minha decisão e eles acham muito bem: decidi dar ao lar a minha herança. Não é muito, não pense, mas ajuda. Para atividades extras que não estejam cobertas pelo orçamento normal. Sei lá, festas e espetáculos no lar, passeios, coisas assim. Mas, antes disso, queria já dar um dinheiro que eu tenho no banco e que não me faz falta para fazer uma festa este verão. Um almoço e depois um conjunto a tocar. Gostava que se servisse leitão. O que é que acha?


Cabeça de porco

Uma vez, no Alto Molócuè, em Moçambique, fiz uma cabeça de xara que ninguém conseguiu comer. A receita era boa. Tinha-ma mandado por carta um amigo meu, porque nessa altura ainda não havia telefone no Alto Molócuè, de maneira que nem pensar em e-mail — que ainda era, aliás, uma coisa rara nessa altura… A receita era boa, dizia eu, mas a carne de porco era tão má, tão má, com um sabor tão forte a bicho, que tivemos de deitar fora a cabeça de xara. Uma pena, enfim, depois do trabalho que me deu...

No ano passado, comprámos meio porco e eu, claro, tinha aproveitar a meia cabeça que ali tinha, mas pensei em fazer desta vez um fromage de tête ou pâté de tête, que é uma cabeça de xara francesa. Não há grande diferença no processo nem no aspeto – até porque o aspeto pode variar muito de uma cabeça de xara para a outra e de um pâté de tête para o outroOs temperos, porém, são diferentes. Aliás, este prato existe em toda a Europa e um pouco por todo o mundo, mas, claro, os ingredientes podem variar de sítio para sítio.

Mais uma excursão, peço desculpa. Voltemos à vaca fria. Ou ao porco frio, seja... Decidi então fazer um fromage de tête, mas apeteceu-me cortar na gordura e à gelatina, e fiz uma coisa praticamente só com carninha. Ficou bem bom, por tal sinal, mas, de aspeto, em vez de pâté de tête, parecia mais rillettes — que não se fazem da cabeça... Com base numa receita do blogue La Bonne Bouffe à Sam, fiz assim: 

Agarrei em meia cabeça de porco limpa e escaldada, salguei-a bem salgada e deixei-a um dia com sal no frigorífico. Depois, passei-a por água para lhe tirar o sal que não tinha sido absorvido, e fervi-a com pouca água, só o suficiente para cobrir a cabeça e os temperos que lhe juntei: uma cenoura, uma cebola, um bocado de rama de alho francês, um talo de aipo, um bolbo de funcho, tudo cortado aos bocados grosseiramente, cerca de um decilitro de vinagre (normalmente, põe-se mais, mas o resto da a malta cá de casa não gosta de coisas avinagradas…) e pimenta, uns cravinhos, salsa e três estrelas de anis – ou três anises-estrelados, que deve ser mais correto. Gostei mesmo muito do conspícuo sabor anisado do pâté, se é que conspícuo de pode usar para sabores, mas também percebe que pode desagradar a muita gente. Vocês verão que temperos querem pôr no caldo…

Depois é deixar cozer muito tempo, juntando água se se tiver evaporado demasiado líquido. Está pronto quando a carne se separar dos ossos. E pronto, passa-se tudo pelo passador, escolhe-se que carne, gorduras e cartilagens se quer aproveitar, cortam-se aos bocados (o tamanho é ao gosto de cada um) e depois põe-se num recipiente e cobre-se com o caldo de cozer, que, entretanto, se reduziu, fervendo-o, pelo menos para metade do que tinha ficado. Este caldo há-se tornar-se geleia depois de arrefecer umas horas num lugar frio (o frigorífico, creio, para a maior parte das pessoas que me leem). Há muitas receitas em que, em vez de se envolver apenas a carne com geleia, se a comprime com um pano. Também fica ao critério de cada um.

Na Dinamarca, o que corresponde à cabeça de xara e ao fromage de tête é uma coisa que se chama sylte. É também parecido no aspeto com as variantes latinas, mas é normalmente mais avinagrado. Aqui perto, há um talho que faz uma sylte deliciosa, que em 2015 ganhou o prémio de melhor sylte da Dinamarca. A sylte deles, curiosamente, também é só carninha, como o meu pâté.

15/09/21

A Suécia ali do outro lado — um compositor, um cantor e uma cantiga

O grande poeta e compositor de canções dinamarquês Benny Andersen disse várias vezes que tinha escolhido Povl Dissing para cantar as suas maravilhosas canções, porque toda a gente cantava canções alegres de uma forma alegre e canções tristes de uma forma triste, mas só Dissing cantava de tal forma que não se sabia se a canção era para rir ou para chorar. De tanto que o repetiu e de tanto que isso foi notado, creio que não pode haver dúvidas: o projeto de Benny Andersen era mesmo que o público não conseguisse bem decidir se as suas canções eram «para rir» ou «para chorar». E encontrou, de facto, o cantor ideal para esse projeto.

A minha ideia é fazer aqui uma brevíssima apresentação de Benny Andersen e de Povl Dissing[1]. Se vos não incomodar demasiado a barreira da língua (a mim, nunca me incomodou, porque sempre ouvi música popular em inglês, mesmo muito antes de perceber o que estavam a cantar...), talvez queiram explorar o trabalho do duo. E escolho, para a apresentação, uma famosa canção em que Svante, a personagem da canção, sonha com a Suécia do outro lado do Øresund.

O álbum em que a canção aparece chama-se Svantes viser, «As canções de Svante» (pode ouvir-se aqui), e faz parte do Cânone Cultural da Dinamarca, uma lista oficial de 108 obras, elaborada em 2004, sob a égide do Ministério da Cultura: «uma recolha e apresentação das melhores e mais importantes obras do património cultural da Dinamarca», ou seja, basicamente as obras que todos os dinamarqueses deviam conhecer. Uma ideia estranha não é verdade?

Como o nome do álbum indica, todas as canções têm um mesmo protagonista, o escritor de canções Svante Svendsen. Svante nasceu na Suécia, mas perdeu-se dos pais aos nove anos, no barco de Malmö para Copenhaga, e vive desde essa altura na Dinamarca, onde teve de «desenrascar-se sozinho com a ajuda dos outros». Não há, porém, uma narrativa no ciclo de canções. Quando muito, o eu lírico das várias canções mantém, de umas para as outras, alguma coerência psicológica, se se pode dizer assim. Aparece também nalgumas canções (nesta não) uma personagem feminina: Nina, a musa de Svante. Creio que há aqui um piscar de olho a Carl Michael Bellman, um famoso poeta e cantautor sueco do século XVIII, cujas canções se continuam a cantar até hoje. Bellman também tinha uma personagem recorrente, o relojoeiro Jean Fredman, nos seus ciclos de canções Epístolas de Fredman e Canções de Fredman[2].

Tanta digressão! Eis então a canção e a letra traduzida A tradução, bastante livre e prosificada, é minha e é extremamente empobrecedora do texto original, que, como tudo o que Benny Andersen escreveu, é rico em imagens e trocadilhos completamente intraduzíveis:

Aqui estou eu, de olhos fixos na costa da Suécia e a sonhar com montanhas mais altas[3]. Tenho o coração aos pulos no peito – que vontade de apanhar o primeiro ferry e esquecer todo o mal do mudo em bosques claros de bétulas e raparigas risonhas! Mas tenho de ficar, porque eu enjoo quando ando de barco…

É como ver a terra prometida, repleta de dádivas, onde o tempo parece não passar e onde as pessoas cantam canções de Bellman com a boca cheia de bagas silvestres! E eu tenho de aqui ficar a viajar só com os olhos, porque eu enjoo quando ando de barco…

E aqui estou, num paisinho neurótico, habitado por loucos sorridentes. Os suecos sabem fazer muitas coisas que nós não sabemos fazer: mantêm-se corajosamente neutros[4] e são tão saudáveis – em bosques claros de bétulas – e têm sempre tantas ideias! E eu tenho de aqui ficar a definhar, porque eu enjoo quando ando de barco.

As minhas cinzas serão enviadas para a Suécia e espalhadas aos quatro ventos, para eu ser assim levado de praia em praia. Sim, talvez encontre finalmente um lugar onde possa ficar, em bosques claros de bétulas... Mas, até lá, acho que vou ter de viver aqui nesta terra, porque eu enjoo quando ando de barco…

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[2] Povl Dissing gravou em 1991 um disco de versões dinamarquesas de algumas canções de Bellman, que se pode ouvir aqui

[3] A Dinamarca é o quarto ou quinto país mais baixo do mundo, com uma altitude média de 34 metros e a elevação natural mais alta com 170 metros.

[4] Referência clara à tão discutida neutralidade sueca durante várias guerras, nomeadamente as duas guerras mundiais.

14/09/21

Duas histórias de um lar


[São histórias que me emocionaram. Pode ser que volte a contar aqui outras histórias de lares, porque sei muitas. Talvez alegres, porque também há muitas histórias alegres nos lares.]

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O Sr. Jorge tem graves problemas de disfagia. É alimentado por sonda já há uns meses.
A Sra. Isabel, irmã do Sr. Jorge, vem visitá-lo ao lar onde ele vive.
A enfermeira entra no quarto e cumprimenta-a. Desliga a máquina que acaba de dar ao Sr. Jorge a sua segunda refeição do dia e dá-lhe, também por sonda, mas à mão, os 150 ml de água que se dão sempre antes e depois das refeições.
– Hoje que está aqui a minha irmã, eu não podia comer ao menos um iogurte? – pergunta o Sr. Jorge à enfermeira.
– Sr. Jorge, já falámos disso muito vezes, não falámos? Não lhe posso dar iogurte, não lhe posso dar nada a não ser a alimentação por sonda. É perigoso, sabe bem, e para quê habituar-se a comer outra vez, agora que já se conseguiu desabituar? Depois, amanhã pede-me outro iogurte e depois uma sopa e depois… Não pode ser, Sr. Jorge. Lamento, mas não pode ser.
A Sra. Isabel está visivelmente emocionada. Quando a enfermeira acaba de falar, começa a chorar.
– Mas quando ele vier a casa pelo Natal, tem de comer alguma coisa – diz ela. – A ceia de Natal não pode ser alimentação por sonda…
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– Não viu o meu marido? – pergunta a D. Lurdes a uma empregada nova do lar. – Estive lá em baixo no jardim, não sei se ele andou à minha procura.
Não o conheço, minha senhora, sou nova aqui e ainda não tive o prazer de conhecer seu marido. Mas ninguém me perguntou por si.
A enfermeira aparece e aperta com as duas mãos a mão direita da D. Lurdes.
– D. Lurdes, o seu marido faleceu em março.
– Faleceu em março… – repete a D. Lurdes. – Oh, minha menina, e eu a perguntar-lhe por ele, tanto disparate. Peço-lhe muita desculpa! Tanto disparate…
– Não tem nada que pedir desculpa, D. Lurdes. Não sabia que o seu marido tinha falecido. Lamento muito.
– Vou escrever um papel e pôr na parede do quarto, para não me esquecer mais e não voltar a fazer estas figuras – diz a Dona Lurdes.
– Já escreveu um papel a dizer que o Sr. Lionel faleceu, D. Lurdes – diz a enfermeira. – Há pelo menos três meses que o tem pendurado na parede do quarto. Logo à entrada, do lado esquerdo.



13/09/21

Chalado

E a palavra chalado, que origem tem? 

Conheço desde miúdo o termo de calão chalar-se, com o sentido de «ir-se embora» e tinha há já muitos anos a hipótese de que chalado viesse dessa palavra: chalado seria originalmente «ido» – uma pessoa que perdeu o tino «foi-se». E tinha também outra hipótese: a de que chalar fosse um cognato do castelhano jalar, «puxar», porque entre «puxar» e «ir» a distância semântica não é longa, sobretudo se pensarmos nas ideias intermédias de «tirar» e «sair» – puxar(-se) => tirar(-se)=> sair=> ir(-se), movimentos espaciais básicos. Veja-se, por exemplo que o francês tirer, «puxar», se usa reflexivamente como forma popular para «ir-se embora». Enfim, tinha estas hipóteses todas, mas nunca tinha investigado a sua plausibilidade.

Um dia destes, porém, fui ao parar à entrada chalado do Dicionário da Porto Editora em linha, que define o termo como «1. coloquial amalucado, adoidado; 2. coloquial sem graça; pouco interessante; 3. (água) misturado com infusão de chá» e que propõe para o termo uma etimologia bastante estranha: «Do alemão schal, “insípido” +-ado».

Uma etimologia assim precisa de uma explicação muito detalhada: se o significado 2. de «sem graça; pouco interessante» decorre bem da ideia de insipidez, já o significado 1. de «amalucado, adoidado» não decorre diretamente da mesma noção. Com alguma boa vontade, porém, consegue encontrar-se alguma relação – sobretudo se se tiver em conta (se não é ir longe demais…) o significado de «secar» do étimo proto-indo-europeu (s)kelh₁, que dá, por exemplo em sueco, o adjetivo skäll, «delgado, débil». O que é mais difícil é explicar como é que uma palavra alemã entra assim no português. Por um termo intermédio numa língua intermédia? Mas qual?

Quanto ao significado 3 (que bem pode derivar apenas de chá, com influência de chalado 1.), se temos água chalada com o significado de «chá muito diluído com água» talvez seja melhor procurar aí a origem do significado 2. de «sem graça; pouco interessante» que num termo alemão.

Achei também estranho que o mesmo dicionário, embora registe chalar com o significado de «fugir», dê o termo como «intransitivo» e «popular», quando eu sempre o ouvi reflexivo («chala-te, pá!» e não «chala, pá!») e apenas como termo do calão restrito da malandragem.
Enfim, tudo isto me incitou a aprofundar a questão. E eis os resultados da minha pesquisa:
Segundo o DRAE (Dicionário da Real Academia Espanhola), jalar vem de halar, que vem, por sua vez, do francês haler – a minha hipótese de relação entre o português chalar e o castelhano jalar não presta.
Chalar também existe em castelhano, mas com o sentido de «adoidar, enlouquecer». Está assim explicada a origem natural de chalado como «amalucado», tanto em castelhano como em português. A minha primeira conclusão foi que ou o termo português foi importado do castelhano ou o verbo chalar existiu também em português com o mesmo significado do chalar espanhol. E encontrei, nessa mesma entrada do DRAE, uma etimologia para o termo de calão português chalar: o dicionário dá o caló chalar («ir; andar») como origem do chalar castelhano. Que um termo de calão português tenha origem num termo caló é perfeitamente normal, há várias nessas condições[1]. Não é por acaso, aliás, que a palavrão calão vem da palavra caló (sorriso). E a minha hipótese de que chalado como «amalucado» decorre de chalar no sentido de «ir» parecia boa.
Diz o mesmo Valentín Anders no seu site, que, pelo menos no que toca a etimologias (nunca explorei o resto), é sempre sensato (escuso-me a traduzir o castelhano, que creio que os meus leitores compreendem sem problemas):
La palabra chalado es término caló, la lengua patrimonial de los gitanos españoles. Viene del verbo chalar, que en caló significa “ir”, como ilustra esta copla flamenca en este peculiar idioma, que tiene la estructura gramatical morfológica y sintáctica del español pero está enjoyado de léxico de procedencia romaní:
Chalo para mi quer,
[Yendo para mi casa,]
me topé con el meripé;
[me topé con la muerte;]
me penó, “¿a dónde chalas?”,
[me dijo: “¿a dónde vas?”,]
le pené “para mi quer”.
[le dije: “para mi casa'] 
Del significado de “ir” viene el sentido de “loco”, pues al loco se le llama “ido”, como si dijéramos que se le ha ido la cabeza y no está en sus cabales. Así es como se han aceptado en español los tres gitanismos chalado, sinónimo de “ido” y participio del verbo chalar, y el nombre de la acción chaladura. Luego en español las tres palabras han derivado hasta significar “enamorado”, “enamorar” y “enamoramiento”, pues ya se sabe que el amor y la locura no andan lejos.
E dizem o mesmo vários outros estudiosos (as citações que faço a seguir vêm de uma longa e interessante discussão no fórum do Word Reference sobre o uso e a etimologia de chalado em castelhano):
María Inés Chamorro  defende que chalar, proveniente «[d]e la germanía chalán, que viene del fr[ancés] chaland “que trata en compra y venta”, ha pasado a la jerga actual. En gitano chalar “ir, andar, caminar” > cat[alán] atxalar “ir”, xalar “huir, ir deprisa”; en Andalucía “hacer huir a otro” y chalárselas “huir, desaparecer de un sitio”. Hubo un cambio semántico y pasó de “ido” a “enajenado, loco”.[2]»
O mesmo diz Joan Coromines, apoiando-se em Carlos Clavería[3] e Max Leopold Wagner[4], que «[recuerda] que guillarse y pirar (propiamente “marcharse”) también tomaron el sentido de “volverse loco” (…) . El transitivo chalar “enloquecer” [...] debe de ser una creación secundaria; también lo es el paso de “enloquecer” a “enamorar”. No es cierto que tengan igual origen jalar y chalar “enamorar”, como sugiere G[arcía] de Diego.[5]»
O que não é certo, e me parece até improvável, é a complicada origem franco-germânica do termo caló chalar, de que derivam as formas de calão nas línguas peninsulares. É que Géraldine Moureau indica antes a forma do sânscrito džala como origem do chalado caló, o que faz mais sentido, já que o romani, fonte do léxico caló, é uma língua de origem indiana. Javier Fuentes Cañizares refere, aliás, o termo romaní džal, «ir» como origem imediata do caló chalar[6]. A origem indiana é também defendida por Francisco Coelho[7], citando Franz von Miklosich[8].
Quando aqui chegamos, parece-me que reunimos boas e suficientes explicações para a etimologia de chalar e chalado e termos relacionados, nas várias aceções que têm nos falares ibéricos. Quero só fazer três comentários finais.
Achei curiosa a referência de Coromines ao pirar castelhano, que também tem os mesmos significados em português: «ir-se embora» e «enlouquecer». É certo que com o significado de «ir-se embora», o pirar português é sempre reflexivo, mas isso explica-se pela analogia com «ir-se embora», precisamente. É provavelmente a mesma analogia, aliás, que está na origem da reflexivização de chalar com esse mesmo significado em português.
Achei também curioso que Vicente García de Diego tenha tido a mesma intuição que eu, a da origem comum de jalar e chalar – que, como já referido acima, a Academia Espanhola desqualifica – e de que Coromines duvida[9].
Finalmente, há que dar conta dos desacordos. Como sempre nestas coisas, não há consenso entre filólogos. Eis duas propostas etimológicas alternativas, ambas com mais de um século: Adolfo de Castro[10] e Luis Montotoy Rautenstrauch[11]  propõem uma origem hebraica, respetivamente chisla e chirla, variações apenas de um mesmo termo com o significado de «estultícia ou insensatez»; e, para Matías Calandrelli[12], chalado é uma corruptela de chiflado. Cabe a cada um analisar os argumentos apresentados e decidir depois, destas propostas, quais as plausíveis e quais as… chaladas.

Notas:
[1] Ver, por exemplo, a dissertação de Mestrado em Estudos Ibéricos de Géraldine Chantal Moureau, Influência do calão cigano nas línguas portuguesa e castelhana em contextos de comunicação de massa, Universidade da Beira Interior, 2010, disponível em linha aqui 
[2] Chamorro Fernández, María Inés. Tesoro de villanos. Lengua de jacarandina: rufos, mandiles, galloferos, viltrotonas, zurrapas, carcaveras, murcios, floraineros y otras gentes de la carda. Barcelona: Herder, 2002
[3] Clavería, Carlos. “Estudios sobre los gitanismos del español” in Revista de Filología Española, anejo LIII. Madrid, 1951
[4] Wagner, Max Leopold. Notes linguistiques sur l’argot barcelonais. Barcelona: Institut d’estudis catalans, 1924 
[5] Coromines, Joan. Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana. Berna: Editorial Francke, 1954
[6] Fuentes Cañizares, Javier. “Fuentes literarias para el estudio del caló en el siglo XVIII” (in Ivo Buzek (coord.).Interacciones entre el caló y el español : historia, relaciones y fuentes. Brno : Filozofická fakulta, Masarykova univerzita, 2016, disponível em linha aqui 
[7] Coelho, Francisco Adolfo. Os ciganos de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1892, disponível em linha aqui 
[8] Miklosich, Franz von. Über die Mundarten und die Wanderungen der Zigeuner Europa’s. Viena, 1872, disponível em linha aqui 
[9] García de Diego, Vicente. “Dialectalismos” in Revista de Filología Española, tomo III, 1916, disponível em linha aqui
[10] Castro, Adolfo de. Estudios prácticos de buen decir y de arcanidades del habla española. Cádiz: Imp. de la Revista Médica, de D. Federico Joly, 1880, disponível em linha aqui
[11] Montoto y Rautenstrauch, Luis. Un paquete de cartas: de modismos, locuciones, frases hechas, frases proverbiales y frases familiares. Sevilha: [Oficina Tipográfica,] 1888, disponível em linha aqui
[12] Calandrelli, Matías. Diccionario filológico-comparado de la lengua castellana. Buenos Aires: Impr. de M. Biedma é hijo, 1907, disponível em linha aqui

11/09/21

«Os verbos foram mudados, / Não ficou um só de pé !»

Joaquim Pinto de Sousa Macário é escritor seguramente desconhecido da maior parte dos leitores deste blogue. Também eu o desconhecia, até topar um dia, já nem me lembro nem como nem porquê, com esta digitalização da sua obra Satyras e galhofas: livro de versos alegres, publicada em 1899 por uma editora de Lamego, a Minerva da Loja Vermelha. 

Como amante que sou das coisas da língua, da sua história e das suas histórias, chamou-me muito a atenção esta “Resposta a uma carta que Nicolau Tolentino dirigiu do outro mundo ao auctor deste livro”, que vos quero dar a conhecer. E deixo-a tal como vem no original, em parte por preguiça de lhe atualizar grafia e corrigir pontuação, e em parte porque acho que o documento da história das palavras que o texto é ganha com documentar também uma fase da história da sua escrita.

Notem agora que Nicolau Tolentino, a quem Joaquim Pinto de Sousa Macário dedica as Satyras e galhofas e que é o explícito destinatário da carta em verso de que aqui se trata, morreu em 1811. Macário lista, portanto, expressões que ele crê que Tolentino não conheceria, ou seja, surgidas ao longo do século XIX. Se tem razão ou se se engana a avaliar a idade dos termos que refere como novidade é discussão que aqui não vou ter agora, embora, nalguns casos, tenha quase a certeza de que se engana: pança, por exemplo, muito provavelmente existiu sempre, em português, como aliás nas outras línguas latinas. Mas vejam que a maior parte deles se mantém até hoje, uns ainda como gíria, outros já como termos standard. Também é difícil perceber, no texto de Macário, em que registos se usavam na altura os diferentes termos, mas parece provável que se incluam na lista desde modismos finos (como fauteuil), até termos do registo informal, como carraspana, ou mesmo calão, como guita. É também de notar que se mantiveram até hoje os termos importados do francês que eram na altura novidade*. Mas chega de comentários. Desfrutai, como costuma dizer-se.

Lisboa, 1º–2º–89.

Nicolau:

Recebi a tua carta
E vejo o que me dizes do outro mundo,
Confessas que de ti se não aparta
O teu fado cruel, sempre iracundo.
Nunca a pança por cá tiveste farta.
Mas lá que o teu martyrio é mais profundo,
Lamento, meu amigo, que assim seja,
Mas, dos que estão por cá, não haja inveja.

Dizes que és lampianista logo á entrada
Do céo, e que S. Pedro é teu amigo;
Mas, que por teres cá lingua damnada,
Embirram lá no céu muito comtigo !
Dizes q’ereres voltar á Lísbia amada
P'ra viveres aqui junto co’migo.
Mal sabes tu, meu velho Tolentino,
Quanto fôra isso em ti um desatino !

Isto por cá, não é o que foi d'antes,
E hoje um purgatório ! uma inferneira !
A cidade já chega quasi a Abrantes !
E, por ter muita gente, ha já lazeira !
E abundam de tal forma os meliantes
Dos que sabem metter mãos na algibeira,
Que é preciso um policia, bem armado,
Pra cada cidadão andar guardado.

Isto está tudo torto ! Transformado !
Todos se tratam já por excellencia;
Com ares, cada qual, d'afidalgado,
Soffrem por este mal triste demencia!
Qualquer, p'ra ser ministro ou deputado,
Se julga com saber, e competência !
Todos, mettendo á Pátria gorda espiga,
Só tratam bem da bolsa e ... da barriga !

Pelas ruas, em carros estofados,
Sentados os lacaios, vão gozando I
Emquanto que, em cocheiros transformados,
Os fidalgos os carros vão guiando !
Ha homens já com homens namorados,
Tudo n'uma balburdia, e alto desmando !
Ha-de custar-te a crer! ha até senhoras
Mais homens que mulheres, e doutoras !

E todas, noite e dia, pelas ruas
Navegam, já sosinhas, á vontade,
E aos homens, graçolinhas lá das suas,
Apresentam com toda a liberdade !
E os donos de taes náus, de taes faluas,
Dos naufragios não temem a impiedade,
De forma que os naufrágios, meu amigo,
são tantos ! ! e óra adeus ! chamam-lhe um figo !

As egrejas já estão quasi desertas,
Só ás moscas entregues, e ás baratas,
E quando, aos domingos, são abertas,
Chamam ás que lá vão, tolas, beatas !
Ao passo que mui anchas, mui espertas,
Com mira no casório, as taes fragatas,
Aos cardumes passando alegre vida,
Innundam os theatros, e a Avenida. ( )

Qualquer fedelho, apenas de dez annos.
Já fuma, e joga as cartas e namora;
Se vão, por troça, ao templo taes insanos,
Precisa o enxota-cães pôl-os lá fora;
E assim vão caminhando nos enganos
Da podre educação que o céo deplora;
Depois, já pódes vêr, por taes assômos
Quem póde ser juiz com taes mordomos ! ?

Fazem-se hoje viagens em vapores
Que, voando pela terra e pelos mares,
Vão em sete minutos aos Açores
E em menos d'um minuto a Valladares.
A guerra! Santo Deus! ergue terrores.
Que fazem tiritar os militares!
É tanta, e de tal forma, a artilheria,
Que alcança já d'aqui á Alexandria !

Usa cada soldado uma espingarda
Que dá sete mil tiros por minuto !
E só deixam agora vestir farda
A quem fôr mais membrudo e féro bruto !
E cada general, gordo, bojarda,
No seu officio ou arte, é tão astuto
De forma que, se cá tivermos guerra,
Ninguém fica de pé ! Vae tudo a terra !

Isto por cá, mudou completamente !
Nem tu nada já d'isto conhecias;
As mulheres nem teem cara de gente,
São figuras de gesso ! e muito esguias !
Até mesmo o idioma está diff’rente
De forma que já nada percebias !
E se julgas que minto no que digo,
Eu passo a bem provar-t'o, meu amigo :

Os verbos foram mudados,
Não ficou um só de pé !
São hoje assim consid'rados:
Gritar, é fazer banzé !
Chama-se ao fugir raspar,
Liscar, safar e pisgar,
’Té mesmo passar o pé.

O morrer é arrefecer
É o calar, engulir.
Namorar, é padecer,
Chama-se ao comer murquir !
Espreitar, diz-se cocar,
Bater, zurzir e zupar,
Olhar p’ra dentro, é dormir !

Chama-sa ao roubar, arranjo !
Ou inglezar e chiprar !
Não sei porque desarranjo
É fazer o passeiar;
O ignorante, é ser cego !
Empenhar, é pôr no prego !
O tremer, é tiritar.

Ninguém falla como d'antes;
Tudo assim, tudo mudou !
'Té mesmo a palha d' Abrantes
De letria o nome achou !
Nem mesmo julgam ser erro
A um cão chamarem-lhe pêrro,
E os calotes serem cães,
E o caloteiro, cãoseiro,
E chelpa qualquer dinheiro,
E cheta os próprios vintens.

Amantes, são padecentes !
A officina, atelier !
Mestres d'escolas, são lentes !
É a carruagem, coupé !
Pernas magras, são varetas !
Botas tortas, são palhetas !
São os narizes, fungões !
A desordem, zaragata!
E cara, figura ou lata !
E as mentiras, são palões !

Chama-se á cabeça, pinha !
Chama-se ao janota, pão !
Ter azar, é ter gallinha !
Mentir, é ser intrujão !
O ser máu, é ser má rolha !
Não ter juizo, é ter bolha !
Chamam ao vinho briól !
E toucado á bebedeira,
Carraspana, e capoteira,
E á barriga, pança e fól !

Sâo as creadas, sopeiras !
Ser gentil, é ser liró !
Aos olhos, chamam setteiras !
Ser limpo, é quite de pó !
N'um jardim um charco é lago !
Dinheiro em geral, é bago!
Um puding, é um poré !
Mulher esguia é fanéca!
Cavallo magro, é pilléca !
Chama-se ao suor chulé !

Jogar, é fazer batota !
É café o botequim !
Perder, é levar derrota !
É um barulho, chinfrim !
O sobscripto, enveloppe!
Chamam-se as valsas galope !
A um ramalhete, bouquet !
E hoteis ás hospedarias !
As medianeiras sâo tias !
O ter gosto, é ter filé !

A vara d'outr’ora, é metro!
Decilitro o quarteirão !
Trocou-se em bandurra o plectro,
Bom cavalleiro, é calção !
Chama-se ás libras piratas !
Pômo de terra ás batatas !
Ao valentão Fcrra-Braz!
Ao municipal, um guita !
A mulher alta, guarita!
Ao homem alto, lambaz !

É fauteuil, uma cadeira!
É sofá, um canapé !
É pandega, a brincadeira !
Ao povo chamam-lhe Zé !
Chama-se instituto, a escola !
Banza e bandurra, a viola!
As gazetas, são jornaes !
Ser peralta, é ser penetra !
Edecetra, e édecetra,
E assim muitas coisas mais.

Já vês d'esta maneira, meu amigo,
Que vinhas tu fazer cá por Lisboa?!
Teus versos não valiam hoje um figo,
Nem rimas encontravas p'ra uma lôa;
Sem saberes fallar, feito um mendigo,
Sem te intender sequer, uma pessoa,
Ai ! amigo, não venhas, tem juizo,
Não troques pelo inferno o teu p'raizo.



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Atelierbouquetcanapécoupéenveloppefauteuil; e jornal e  pomo de terra, já na altura com formas aportuguesadas. Só pomo de terra desapareceu completamente e provavelmente fauteuil, que os dicionários de português ainda registam como galicismo para «poltrona», mas que nunca me lembro de ter ouvido. Filé é provavelmente também um empréstimo ao francês, mas não consigo atestar nesta língua o significado que Macário aqui descreve, nem o de «empenho», que registam os dicionários. 

08/09/21

Um passeio com Kai [Crónicas de Svendborg #40]


Os nomes são falsos, a história é verdadeira.

O Kai foi marinheiro, mas já está reformado há muito anos, Vou dar uma volta com ele.
– Então e não tens saudades de Portugal? – pergunta-me ele.
– Bom, tenho saudades de muitas pessoas que lá estão, claro... 
– Eu tenho! – diz ele. – Muitas! Tenho muitas saudades de Portugal.

Encontramos um casal de amigos dele, o Jens e a Lotte. O Kai tem idade para ser meu pai, o Jens e a Lotte devem ser da minha idade, pouco mais ou menos. Não se veem há algum tempo, percebo eu pela conversa, mas, curiosamente, vão estar juntos numa festa no próximo sábado: o 80º aniversário da mãe do Jens. 
 – Que tal a vida, Kai? 
– Uma merda. Estou velho e a velhice é uma merda. E vocês? 
– Nós estamos bem. 
– Sempre venderam a casa? 
– Vendemos, pois. 
 – E a vossa vida sexual, que tal? 
O Jens e a Lotte ficam muito surpreendidos, claro está. Eu também. E vocês também, não é verdade? Quem é que espera uma pergunta assim? 
 – Está boa, acho eu – sorri o Jens e interroga a Lotte: – Está boa, não está? 
A Lotte sorri também e assente com a cabeça. 
 – E a tua vida sexual, Kai? 
 – Ah, mais ou menos… Mas estou velho e a velhice é uma merda. 

Foto: Tim Webb, Svenborgsund & Tarquence, 1981 (pormenor), daqui. (Wikimedia Commons)

22/05/21

Da fortuna e das viagens de um poema [Crónicas de Svendborg #39]

Se há poema português com grande fortuna internacional, descobri há pouco tempo, é o poema «Oração da árvore», muitas vezes referido como «Ao viandante», escrito por Alberto da Veiga Simões em 1914.
 Oração da Árvore 
Tu que passas e ergues para mim o teu braço, 
Antes que me faças mal, olha-me bem. 
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno; 
Eu sou a sombra amiga que tu encontras 
Quando caminhas sob o sol de Agosto; 
E os meus frutos são a frescura apetitosa 
Que te sacia a sede nos caminhos. 
Eu sou a trave amiga da tua casa, 
A tábua da tua mesa, a cama em que tu descansas 
E o lenho do teu barco. 
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada, 
A madeira o teu berço e o aconchego do teu caixão. 
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza. 
Tu que passas, olha-me e não me faças mal. 
Conheci o poema em miúdo, no Castelo de S. Jorge, e sei que o fui reencontrar mais tarde noutros lugares, mas não me lembro ao certo onde. Na placa do Castelo, um verso inicial, «Ao viandante», especifica o destinatário da árvore que é o sujeito lírico do poema, mas, ao que consigo perceber, «Ao viandante» não faz parte do texto original. 
Das muitas vezes que li o poema em Lisboa, nunca reparei na autoria, confesso. Até há pouco tempo, não fazia ideia, sequer, de que fosse um poema português. Agora, há coisa de três meses, encontrei aqui em Svendborg, uma tradução dinamarquesa do texto e, claro, fiquei surpreendido: «Ah, também aqui é conhecido? Deve ser algum poema clássico que está traduzido para todas as línguas.» 
Fiquei curioso e fui pesquisar na Internet. E foi aí que fiquei a saber de quem é o poema. É claro que nem sempre se refere o autor, e encontrei também versões adulteradas do texto ou autorias fantasiosas; mas, um muitas das páginas que encontrei, menciona-se de facto a autoria de Veiga Simões. 
O poema é, pelos vistos, conhecido em todo o mundo. Encontrei mais que uma tradução do poema para inglês, não só na Internet, mas também em parques e em jardins, na Escócia, na Flórida, em todo o lado. E uma dessas traduções inglesas foi até musicada por Tony Dekker em 2013. 
   
Em conversa com amigos dinamarqueses, a quem contei a minha descoberta em Svendborg, fiquei a saber que o poema era referido e traduzido por Christian Yde Frostholm, numa sua obra de 2018, Træmuseet, “O museu das árvores”. É um livro que fala de árvores — de arvores em Inglaterra, na Dinamarca, em França e nos Estados Unidos, mas, sobretudo em Portugal; e sobretudo em Lisboa. «Então é isso», pensei eu, «foi assim que o poema aqui chegou a Svendborg, pela mão de Christian Yde Frostholm. Bom, lembrava-me de que a poema que tinha visto estava escrita à antiga, com aa em vez de å, como se escrevia antes da reforma de 1948, mas, pensei eu, era de certeza só para dar algum estilo à folha plastificada a fazer de placa. Até porque os nomes não estavam escritos com maiúscula, como mandava a regra antiga. 
Só no fim de semana passado pude cotejar a tradução de Christian Yde Frostholm com a tradução da árvore de Svendborg. São diferentes. Afinal, o texto que eu tinha visto não é a tradução de Christian Yde Frostholm. 
Havia que voltar à Internet. Num minuto, encontrei o que buscava. A tradução que está na árvore de Svendborg aparece em dois documentos online: uma página de uma associação de moradores e um jornal paroquial. Neste último, diz-se que «o poema pode ler-se numa placa de bronze numa grande corticeira da Plaza Lavalles, em Buenos Aires» e que «foi depois traduzido e pode agora também ler-se na Quinta de Tranekær», em Langeland. Nada sobre a sua autoria, nem sobre a autoria da tradução. Na outra página, porém, diz-se da mesma tradução que se trata de «um velho texto português traduzido do inglês por Frank Jæger». 
O poeta Frank Jæger (1926-1977), foi viver para Tranekær em 1969. Se foi nessa altura que traduziu o poema de Veiga Simões de uma versão inglesa, o que parece o mais provável, já não se escrevia com aa há 20 anos. Muito provavelmente, quem pendurou a folha de A4 plastificada no bonito cedro do nº 31 de Strandvej queria mesmo dar ao poema um toque antigo...