30/03/09

Quem é que faz o arco-íris?

Até hoje, a Siri (a minha filha de 4 anos e meio, para quem não nos conheça) só tinha visto arco-íris em filmes. Ou, pelo menos, se alguma vez os tinha já visto no céu à sua frente, não se lembrava. Ficou fascinada.

“Eu não sabia que havia mesmo arco-íris a sério”, disse-me ela, “pensava que era só nos filmes. Quem é que faz aquilo?”

Tem sido várias vezes postulada uma tendência natural dos seres humanos para pressuporem, perante qualquer fenómeno anormal, um agente que seja o seu causador – um agente com características essencialmente humanas, como os deuses… Não é a primeira vez que a Siri me faz perguntas assim.

“Ninguém, Siri, o arco-íris não é ninguém que faz…”

Ela não insiste, mas não sei se a satisfaz a minha resposta, que choca obviamente com a sua intuição…

O que se leva desta vida

Raramente consigo dizer as coisas com poucas palavras. Quando me surge, como me surgiu agora, uma maneira de dizer com poucas palavras o que já uma vez disse com muitas, fico todo contente:

Em vez de dar tanta importância, como se costuma dar, ao que se leva desta vida, por que não importar-se antes com o que nela se deixa?

29/03/09

O que é e o que deve ser

Não são só as palavras que são como as cerejas. Os pensamentos também vêm todos agarrados uns aos outros, mesmo que não venham em forma de palavras. Quando, no outro dia, comecei um texto sobre os altos e baixos da vida com uma metáfora de atletismo, lembrei-me de que há quem ache mais do que apenas metafórica a relação entre as leis que regem o mundo físico e as leis que regem indivíduos e sociedades. Veio-me à cabeça um texto sobre dialéctica e transformações sociais – mais concretamente, sobre a necessidade de revoluções versus possibilidade de mudanças evolutivas – que traduzi há uns anos e em que se chamavam à conversa argumentos como a evaporação da água e os estados paradoxais dos fluidos supercríticos...

Não é minha intenção discutir aqui a utopia da universalidade das leis científicas e do querer aplicar-se à evolução das sociedades regras da física ou da química – ou, pelo menos, de se juntarem numa só discussão as duas coisas. A cereja que vinha agarrada a esse pensamento – e que é, essa sim, tema deste texto –, é que, para mim, o que importa discutir não é qual é a forma das mudanças sociais, se elas podem ou não ser assim ou assado. Não é sem interesse tentar saber se, ao longo da História, as revoluções têm trazido mudanças mais estáveis do que as transformações sociais menos bruscas, como não é sem interesse tentar saber, por exemplo, se temos ou não mecanismos inatos de reconhecimento de afinidade genética. Mas a moral (e a política, pelo menos para quem a encara, como eu, como uma parte da moral) não tem de se pronunciar sobre como o mundo é, mas sim como ele deve ser.

Pessoalmente, não tenho boas razões para acreditar que as transformações revolucionárias da sociedade trazem maiores e melhores mudanças do que as transformações menos bruscas. Pelo contrário, o que tenho visto do mundo leva-me a crer que as mudanças sociais mais sólidas foram sempre as que resultaram de evoluções mais graduais. Também não tenho razão nenhuma para crer que os mecanismos de reconhecimento de proximidade de parentesco e tipo físico, que é provável que existam, tenham uma força maior do que outros mecanismos igualmente naturais de criação de laços entre as pessoas. Mas, mesmo que uma pessoa, através de análises das mudanças de fase de uma substância ou de análises da História diferentes da minha, considere que tem boas razões para acreditar que as verdadeiras mudanças sociais acontecem sempre (leia-se, aconteceram sempre…) de forma brusca, ou mesmo que haja investigações que a convençam de que a discriminação dos que não são parecidos connosco é natural nos humanos, não decorre daí nenhuma necessidade de aprovar, por inelutáveis, as revoluções ou a discriminação racial. Essa pessoa pode sempre propor – e não seria a primeira a fazê-lo… – que se vá contra o que ela acredite ser a natureza das coisas; pode propor transformar a “natureza” das sociedades ou das pessoas, se achar que essa “natureza” não é como devia ser.

“Em vão”, dirão muitos, “porque, como explica a velha fábula, não se pode fazer com que um escorpião deixe de morder… O interesse de saber como é a estrutura da História, ou como é a natureza humana é que se escusa assim de propor o irrealizável…” Ao que eu respondo, antes de mais, que a estrutura da História está dentro da cabeça das pessoas, pelo que não há leis sociais exteriores aos seres humanos; e que a vantagem da natureza humana, seja lá ela qual for, em relação à natureza do escorpião é que ela é muitíssimo mais flexível. Se calhar, é mesmo por isso que nós temos moral e os escorpiões não, e é certamente por isso que não há nada “inevitável”, quando se fala do comportamento dos homens, e podemos sempre discutir o que devemos evitar – e também o que devemos cultivar.

Evidentemente, quando mais fundo for em nós o hábito ou a disposição inata que queremos alterar, mais difícil é essa mudança e mais há que ponderar a estratégia para lá chegar. Mas há quem recuse o sexo por decisão própria e quem aprenda a suicidar-se deixando de respirar – pelos vistos, o que é definitivamente natural no ser humano é não haver nele nada de tão definitivamente natural que não possa ser alterado. A famosa frase de Maio de 68 “Sejamos realistas, exijamos o impossível” não é tão desprovida de lógica como à partida parece, porque, como tem sido insistentemente defendido por aqueles que acham que o mundo pode ser melhorado, o que nos parece hoje impossível talvez não o pareça mesmo nada aos nossos netos. Quantas pessoas, mesmo as mais progressistas, não achariam há 100 anos que as relações entre os sexos ou as raças como elas existem hoje em certos grupos humanos seriam sempre impossíveis por violarem fundamentalmente a “natureza humana”?

É esta a beleza da política e do resto da moral: Podemos sempre propor, sem medo de estarmos a cair nalgum excesso de idealismo, aquilo que corresponde, nos comportamentos humanos, à ebulição da água a 50 ou a 150 graus. As mudanças sociais podem ser bruscas ou não, as relações entre raças, sexos e nações podem ser de todos os tipos, e as leis que regem o comércio também. Podem ser conforme nós as quisermos. Discutamos então não como são, mas sim como devem ser.

15/03/09

Tom & Jerry ou as vantagens de uma casa pequena

“Quando voltarmos para a Dinamarca, não havemos de ter uma casa assim tão grande como esta.”

“Mas também é bom, porque com uma casa pequenina só temos espaço para uma televisão pequenina e depois o Tom e o Jerry não cabem os dois na televisão ao mesmo tempo e assim não podem andar sempre à guerra um com o outro.”

12/03/09

De colinas e terras chãs: pesa mais o mau do que o bom

1. Quem se interesse por atletismo ou simplesmente goste de correr é capaz de já se ter perguntado a si mesmo: é a mesma coisa correr uma determinada distância num percurso plano e num percurso com subidas e descidas? À primeira vista, pode parecer que, se a partida e a chegada estiverem ao mesmo nível, o resto é capaz de não fazer grande diferença, porque, se as subidas nos esforçam e nos atrasam, as descidas repousam-nos e dão-nos maior velocidade, e são assim bem capazes de compensar as subidas. Na realidade, porém, não é assim que as coisas se passam: fazem-se sempre melhores tempos em percursos planos, precisamente porque uma descida não compensa o esforço despendido e o tempo perdido na subida que lhe corresponde (ver a regra de Jack Daniels e John Kellogs na penúltima secção deste artigo, por exemplo, ).

Não que eu queira encontrar nos estudos de motricidade humana confirmação de uma especulação filosófica, não é isso, mas acho que temos aqui uma boa metáfora da vida da gente. O que eu tenho muitas vezes pensado é que os altos e baixos da vida são exactamente como os altos e baixos da estrada: o negativo pesa sempre mais do que o positivo. Em Outubro de 2002 escrevi, a propósito da morte de um colega, um poema chamado “Poema de Inverno # 7, sem título absolutamente nenhum”:

Isto não é assim – as alegrias
não servem para anular
tristezas, para as compensar.
Não – as penas vêm só aumentar

uma tristeza única que há,
a de estar vivo, aquela
que nenhuma alegria cancela:

mil nascimentos não apagam
uma única morte; mil beijos

apaixonados não compensam
nenhuma pena de amar; e mil risos
cúmplices não anulam nunca

um minuto só que seja
de verdadeira solidão.

Exagero, em busca de efeito literário? É possível. Mas talvez não…

2. Compreendo bem, sinceramente, quem ache que a melhor maneira de viver a vida é escolher sempre as planícies e evitar todo o tipo de colinas. O louvor da regra e mesura, da repressão dos sentimentos efusivos e de toda a classe de excitações como receita para uma vida melhor é uma ideia muito forte em muitas tradições e em muitos períodos da nossa história, mas nós, românticos que somos todos, desabituámo-nos de ter esse ensinamento em conta no momento de fazer escolhas. Interiorizámos antes que plano é chato, prato que não nos serve. Fomos antes programados para valorizar a montanha russa, o dar livre curso ao entusiasmo, nem que com plena consciência de que há-de ser dura a ressaca.

Não faço propostas, longe de mim… Não vou aqui louvar nem a medida nem a paixão. Queria só chamar a atenção para um facto simples. É provável que, com algum treino, possamos condicionar-nos a nós próprios, em maior ou menor grau, para a escolha do comedimento, da temperança, tanto nas acções como no próprio sentir; mas temos de reconhecer que muitos dos altos e baixos da vida nos vêm de acontecimentos nos quais não intervém a nossa disciplina mental. As mortes dos outros, por exemplo, como lembra o poemazito lá atrás, e muitos mais... A mesura, louvável que possa ser, não chega para tornar plano o percurso de vida. Para terraplenar a estrada é necessário ir muito mais longe e deitar fora todos os laços, todos os sentimentos – e todo o raciocínio… Mas isso, mesmo que se queira, não se consegue, pois não?

08/03/09

Desenvolvimento: lista de dúvidas

Há mais de vinte anos que lido com as questões da ajuda para o desenvolvimento e vivo sobretudo entre profissionais de desenvolvimento; e cada vez tenho menos certezas relativamente a essa ajuda e à questão do desenvolvimento em geral. Sinceramente.

Como já disse aqui uma vez, tenho um certo medo de ser mal compreendido nas minhas críticas ao trabalho de desenvolvimento, porque tenho medo de que arrumem as minhas críticas num saco onde eu não as quero ver arrumadas, onde elas realmente não pertencem – o da crítica fácil e infundada à “inutilidade” desse trabalho. Tenho medo, sobretudo, de que as vejam como proposta de redução ou até de supressão da ajuda para o desenvolvimento, que não são de modo algum, e deixo claro que não é isso que eu defendo. Eu acho não só que a ajuda para o desenvolvimento deve continuar como até que ela deve aumentar.

Ainda assim, resolvi fazer uma pequena lista das dúvidas que tenho em relação a certos aspectos do trabalho de desenvolvimento tal como ele se faz agora. Ora, como é realmente uma lista de dúvidas, o texto toma às vezes a forma de diálogo comigo próprio, em que me recordo de que o assunto em questão se pode ver de várias maneiras, às vezes opostas. Acho que ainda não escrevi aqui na Travessa nenhum texto tão hesitante como este. Se o diálogo e as críticas são sempre desejados, em relação a este texto são-no dez vezes mais.

Evidentemente, quando uma pessoa se lança numa conversa assim, a primeira coisa a fazer é definir desenvolvimento. Para muita gente, é, aliás, esta a primeira problemática do desenvolvimento – se calhar, não falamos todos da mesma coisa quando falamos de desenvolvimento… A minha opinião é que, no geral, falamos todos da mesma coisa quando falamos de desenvolvimento e que não há grande necessidade de me lançar numa grande discussão do conceito. Quando se fala de países desenvolvidos e de países menos desenvolvidos, tem-se, normalmente, uma ideia relativamente clara do que os distingue. Ainda assim, e por via das dúvidas, podemos assentar que, quando falo aqui de desenvolvimento, falo essencialmente dos indicadores que usa, por exemplo, o PNUD no seu índice de desenvolvimento humano: saúde (incluindo esperança de vida), educação e dinheiro para gastos. Ou seja, acho que se pode definir desenvolvimento como uma vida mais longa, mais cómoda, mais desafogada…

Para terminar esta nota introdutória, quero também deixar claro que só tenho experiência concreta de dois países receptores de ajuda, Moçambique e a Bolívia, e é bem possível que algumas dúvidas que tenho digam mais directamente respeito a esses países do que à generalidade dos países em desenvolvimento. Pode bem ser…

Queimar etapas? O dinheiro e o tempo necessários ao desenvolvimento
Como já referi aqui uma vez, muito de fugida, um dos obstáculos ao desenvolvimento dos países pobres é a assustadora falta de dinheiro de que sofrem. É verdade que, muitas vezes, nem o pouco dinheiro que têm conseguem gastar, e muito menos ainda gastar bem gasto. É bem verdade que uma parte do dinheiro que se destina a melhorar a vida dos mais desfavorecidos não faz senão tornar mais confortável ainda, se não mesmo opulenta, a vida daqueles que não precisam para nada de ver a sua vida melhorada. É bem verdade isso tudo, mas também é bem verdade que o dinheiro todo, por mais bem gasto que seja, não chega para nada. Um dia gostava de ver contas bem feitas, com preços actualizados, do que custou o desenvolvimento dos países desenvolvidos. Foram muitas dezenas de anos, às vezes centenas, de investimento em várias coisas em que, em muitos países pobres, o investimento só agora começou há 30 ou 40 anos – ou, em países como Moçambique, ainda menos. Provavelmente, também nos países hoje desenvolvidos, uma grande parte do investimento se perdeu ou foi mal gasto. Mas, se foi, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra disso.

Além disso, como toda a gente sabe, tempo é dinheiro. Não é só dinheiro que falta, é tempo também, nem que seja para conseguir gastar o dinheiro que, bem gasto e mal gasto, é preciso gastar para se ver desenvolvimento… Um dos princípios do trabalho de desenvolvimento é que se podem queimar etapas, porque o mundo está numa fase de desenvolvimento, precisamente, diferente daquela em que estava quando se desenvolveram os países hoje ricos. Sei lá, já não é preciso passar pela mala-posta para distribuir o correio e nem sequer montar linhas de telefone em todo o país, quando há Internet e telemóveis. Mas a mentalidade e o saber tecnico de uma grande parte da população de Moçambique são provavelmente muito semelhantes aos de uma grande parte da população de França ou da Alemanha há já muito tempo. E é capaz de não se conseguirem queimar as etapas todas de uma vez. Como diz uma amiga minha, primeiro é preciso que haja uma ou duas gerações sem fome; depois, umas quantas gerações com escola; depois, começa o desenvolvimento. Não há milagres. Não é caso de baixar os braços e desistir, nada disso, mas, muito provavelmente, não é com pressa que se apressa o desenvolvimento.

[Numa entrevista publicada na última edição de Udvikling, o jornal da Danida/MNE da Dinamarca, Joseph Hanlon critica violentamente as ONGs internacionais por estarem constantemente a mudar de estratégia, de programas e de enfoque, de maneira que nada do que fazem dura muito tempo. Na minha opinião, a impaciência e a inconstância no trabalho de desenvolvimento não se limita, infelizmente, às ONGs internacionais, mas é também característica de muitas ONGs dos países em vias de desenvolvimento e de muita cooperação bilateral e multilateral.]

Os mais pobres dos pobres? Grupos-alvo e eixos do trabalho de desenvolvimento
Uma problemática que está ligada a esta (estas problemáticas estão, aliás, todas tão interligadas que esta separação em secções é bastante artificial…) é a questão de quem devem ser os beneficiários da ajuda ao desenvolvimento e de quem deve ser o motor e o eixo desse desenvolvimento. Até agora, e sob diversas designações, têm-se definido as camadas mais desfavorecidas da população como grupo-alvo da ajuda. Moralmente, não tenho nada contra, não posso ter nada contra. Mas duvido que seja uma boa estratégia de desenvolvimento. A classe média, no caso concreto dos países em vias de desenvolvimento, é mínima e é tão mais rica do que a classe pobre que parece, obviamente, imoral ajudá-la a ela, mas é muito provavelmente ela o único motor possível de desenvolvimento, porque é a classe com visão de futuro e mentalidade de investimento. Parece-me que desenvolvimento foi sempre sinónimo, onde se deu, de crescimento da classe média.

O mesmo em relação à questão do desenvolvimento assente na agricultura. Como mo recordava há relativamente pouco tempo um conhecido meu (agrónomo e técnico de desenvolvimento, para não pensarem que estava, com a afirmação, a defender algum interesse pessoal...) não há prova nenhuma de que possa haver algum desenvolvimento alicerçado no sector primário, sobretudo não industrializado – nunca houve, em lado nenhum do mundo… Desenvolvimento significou sempre, onde ele se deu, uma redução enorme da percentagem de pessoas a trabalhar no sector primário, com movimentações enormes de populações do campo para a cidade e com enormes problemas imediatos que depois se foram resolvendo… Voltamos ao mesmo: Num país como Moçambique, o chamado sector familiar (agricultura sobretudo de subsistência, com venda de alguns excedentes) abarca uns 80% da população, e é, precisamente, a população mais pobre – ou a esmagadora maioria da população mais pobre. Se a prioridade no apoio a esse sector se justificar com argumentos de ordem moral, é difícil não a aceitar. Mas daí a fazer desse sector o pólo de desenvolvimento, como é actualmente a estratégia oficial do governo, vai um passo de gigante… Agora, evidentemente, quando 80% da população vive da agricultura de subsistência, o desenvolvimento tem também forçosamente de passar pela melhoria efectiva das condições de vida de toda essa gente, mesmo que não se acredite nesse sector como “pólo de desenvolvimento”. Porque não deve haver verdadeiro desenvolvimento de um país sem haver melhoria das condições de vida da maioria da sua população. Além disso, há de facto possibilidade de melhorar os sectores primários dos países do terceiro mundo e de lhes dar um papel muito importante no desenvolvimento desses países, mas provavelmente não é essencialmente através de apoios directos a esses sectores, pelo menos nas formas mais tradicionais, mas antes desenvolvendo a educação, o ambiente de negócios e o sistema jurídico, tomando medidas proteccionistas, quando necessário, e, como cada vez mais gente vem defendendo, acabando com o proteccionismo nos países ricos e alterando algumas regras viciadas do jogo do comércio internacional.

Outra questão sobre a qual os estrategas do desenvolvimento se devem interrogar é se é a educação escolar mínima para todos que deve constituir a prioridade neste momento. Ao que sei, parece evidente à esmagadora maioria das pessoas que se interessam por desenvolvimento (e eu concordo completamente!) que a educação escolar é, no geral, uma condição essencial para o desenvolvimento. Provavelmente, é até a única condição essencial. A ideia de que o desenvolvimento pode assentar em recursos outros que não os recursos humanos nunca me convenceu muito, até porque alguns dos países mais desenvolvidos não têm nem nunca tiveram recursos naturais e alguns dos países mais ricos em recursos naturais continuam por desenvolver… A educação escolar, isso sim, parece ser um dos factores que melhor permite explicar o surgimento do desenvolvimento onde ele aconteceu. Mas não sei até que ponto a ânsia de dar imediatamente escolaridade primária a toda a gente é a melhor maneira de estabelecer as bases para um sistema de educação que venha efectivamente a funcionar e a gerar desenvolvimento sustentável. Talvez seja melhor pensar em menos e melhor educação, numa primeira fase, para que o sistema se possa reproduzir de uma forma mais sólida. Mas, é claro, insinua-se sempre a questão moral: a fazer-se como eu acabo de sugerir que talvez seja melhor, quem serão os eleitos e os preteridos – e com que critérios?

Sol na eira e chuva no nabal? Desenvolvimento com tradições, contradições de algum desenvolvimento
Já uma vez aflorei aqui o assunto. Há muito quem defenda que o desenvolvimento passa pela defesa de direitos colectivos, como o direito a conservar (ou mesmo a revitalizar) a sua cultura e as instituições tradicionais, mas eu duvido muito disto. O que a História me diz é que o desenvolvimento se deu, onde ele existe, sempre contra as tradições e as instituições tradicionais que são, na quase generalidade dos casos, retrógradas e preservadoras de desigualdades e de uma mentalidade antiprogresso. É contraditório, na minha opinião, defender ao mesmo tempo uma ideia moderna de cidadania e defender instituições não cidadãs como as instituições de base étnica. Casos há em que se vai contra os princípios democráticos que se diz defender ao pretender-se que a “democracia” seja tanta que se dê às comunidades o direito de resolverem elas próprias os seus problemas à revelia da lei do país. Desconfio muitas vezes que há debaixo desta defesa, para os outros, de algo que os países desenvolvidos nunca aceitariam para eles próprios, uma grande dose de paternalismo, assente, disso não tenho dúvidas, nas melhores intenções. Mas, como sugere o título desta secçãozinha, não se pode ter, ao mesmo tempo, a manteiga e o dinheiro que ela custou. Não quero dizer que deva ser à bruta o combate das tradições. Já se fez assim à bruta, e sempre com maus resultados. A estratégia tem de ser outra, mais comedida, talvez, porque as tradições têm, nestes países, força suficiente para serem encaradas como adversários de respeito. Mas não é aceitando que os curandeiros são “médicos tradicionais” que se aumenta a esperança de vida, nem aceitando que a justiça dos caciques tem o mesmo valor que a do Estado que se instaura um verdadeiro sistema jurídico. E et cetera, et cetera, que eu não quero maçar-vos muito com exemplos. O que eu digo é que a escolha é, em última análise, entre olhar para a frente ou olhar para trás.

As pessoas sabem o que querem e têm boas ideias? Democracia forte e desenvolvimentoUma ideia que está suficientemente na moda para servir de base teórica ao trabalho de muitas agências de desenvolvimento é que há uma relação positiva entre democracia local forte e desenvolvimento. É verdade que, embora a relação entre democracia e desenvolvimento continue a ser polémica, há cada vez mais trabalho teórico a confirmar uma relação positiva entre uma e a outra coisa. Esse trabalho, porém, diz respeito a dados sobre economia e instituições económicas e políticas a níveis muito gerais, e não trata especificamente uma versão forte da democracia, assente na democracia local – que nem sequer é prevalecente nos países desenvolvidos. De facto, algumas vezes as propostas de democracia forte para os países em vias de desenvolvimento são tão avançadas que só existem nesses países em via de desenvolvimento e nunca nos países desenvolvidos. Também esta questão já aqui foi uma vez tratada. A democracia participativa local, por exemplo com conselhos consultivos aos níveis locais, que têm estatuto legal e capacidade de deliberar sobre a utilização de fundos locais de desenvolvimento, são uma dessas estruturas em que alguns países pobres se revelam mais “avançados” do que os países ricos. Isso contribui de facto para algum desenvolvimento ou se é uma forma de continuar a adiar a construção (lenta e difícil talvez, mas nem por isso menos necessária) de um estado suficientemente forte para assumir em todo o país as suas responsabilidades de fiscalização e prestação serviços? E que capacidade têm pessoas com pouca ou nenhuma educação formal de elaborar planos de desenvolvimento? Mesmo nos países com níveis mais elevados de educação, decisões desse tipo são deixadas aos técnicos dos sectores. [Se calhar, podemos congratular-nos por essas experiência de ultrademocracia na prática não funcionarem. Mas se calhar, não. Porque, não funcionando, são mais uma maneira torcida de legitimar o poder de quem o tem e que controla essas instâncias como controla tudo o resto.]

Profissionais do desenvolvimento? Desenvolver o quê, para quem?
E depois… Bom, depois há uma questão que eu me coloco a mim mesmo há muito tempo: a ajuda para o desenvolvimento não profissionalizada nunca deu resultados por aí além; cooperantes voluntários são pessoas normalmente com altos graus de empatia relativamente à população local e, seguramente, com as melhores intenções do mundo, mas nada disso resulta em grande eficácia. Os profissionais do desenvolvimento são, provavelmente, um pouco mais eficazes no seu trabalho. Mas, tanto uns como os outros, incluindo as elites educadas nacionais que vivem também da cooperação para o desenvolvimento, têm uma coisa em comum com as elites políticas que governam os países – estão completamente fora dos sistemas em cujo desenvolvimento trabalham: os seus filhos não usam as escolas do estado; as suas famílias não usam o sistema de saúde público; não têm farmas nem empresas comerciais, e, por conseguinte, nenhum dinheiro a ganhar nem a perder com o desenvolvimento agrícola e comercial, etc. Não têm, em resumo, interesse nenhum pessoal no desenvolvimento dos países em cujo desenvolvimento trabalham. O único interesse imediato que têm é manter bom-nome no meio das agências de desenvolvimento, para garantir trabalho futuro; e manter bom-nome significa, normalmente, não fazer muitas ondas… [Nesse sentido, pelo menos, não fazem grande sentido as críticas de neo-colonialismo aos profissionais da cooperação…]

Como terão sido as coisas nos países que se desenvolveram? Nunca arranjei nada nem ninguém que me conseguisse responder satisfatoriamente a esta pergunta simples, mas, com o que sei da história da Europa, por exemplo, sou tentado a pensar que o desenvolvimento veio sobretudo do investimento das pessoas na melhoria das estruturas que condicionavam as suas vidas. Não só, mas sobretudo. E não é isso que é natural?

Ajuda ao desenvolvimento? Sim!, mas… qual? A ajuda como possível perpetuadora da falta de investimento no desenvolvimento
Um dos efeitos perversos da ajuda ao desenvolvimento é que as elites dos países pobres, que vivem dessa ajuda, não só não precisam de desenvolver o país para manterem os seus níveis de riqueza como até se pode argumentar que têm, em última análise, interesse em que essa ajuda se perpetue…

A tendência actual da ajuda ao desenvolvimento é fazer cada vez mais apoio orçamental, isto é, transferir cada vez mais os fundos directamente para o orçamento geral dos estados que se ajudam, de modo a que sejam os governos nacionais a fazer a gestão desses fundos. O princípio de sujeição da ajuda às estratégias e modelos de desenvolvimento definidas pelos governos dos países em desenvolvimento, tal como definido na Declaração de Paris, é correcto, na minha opinião, mas não vem, na prática, resolver em nada o problema já velho de uma enorme percentagem dos fundos ficar retida nos níveis mais altos do sistema estatal, em vez de ser aplicada onde devia – para criar desenvolvimento. Por outro lado, o acesso a essas quantidades de dinheiro leva, pelos vistos, à cobiça – e ao roubo (a que agora, não sei por quê, se chama corrupção). É certo que a contrapartida do apoio orçamental directo deveria ser, segundo o espírito e a letra da Conferência de Paris, um aumento da exigência de prestação de contas, mas entramos aqui num terreno delicado e o facto é que, por razões várias, não há grandes consequências para os casos de más contas.

É claro, pode-se sempre argumentar, como faz Joseph Hanlon no seu último livro sobre desenvolvimento em Moçambique Há mais bicicletas – mas há desenvolvimento?, que o lado menos mau da “corrupção” é que, apesar de tudo, gera algum dinamismo económico… e claro nem toda a elite política dos países em vias de desenvolvimento é predadora, que obviamente há políticos desses países genuinamente interessados no desenvolvimento. [Quero deixar claro que ainda não li o livro de Hanlon, e estou a dizer isto com base em vários resumos que vi das propostas que Hanlon faz na obra.] Ainda assim, acho que um exercício interessante de reflexão é colocar-se seriamente a questão: o que se passaria realmente, de negativo e de positivo, se se cortasse a ajuda ao desenvolvimento tal como ela actualmente existe? E que formas radicalmente novas poderia haver de utilizar esse dinheiro?

05/03/09

Ciência e bom senso: la vie en prose (2)

Num interessante comentário que fez a um post meu, Igor Lobão afirmava o seguinte:

A ciência é, igualmente, uma estrutura simbólica que confere uma leitura sobre o real e uma leitura que é revisível. Aliás, é nesse sentido que Popper propôs a falsificabilidade. Direi mais. A ciência em si mesma é uma ficção, parte de construções (teóricas) que podem ou não funcionar. Podemos explicitar o carácter de ficção através dos números negativos ou dos números imaginários. Eles não existem no real, mas são necessários para tentar-se produzir uma interpretação ou uma intervenção no real. O pressuposto de Galileu, de que o real pode ser transcrito em linguagem matemática, ou de Max Plank, de que real é o que se pode medir, são apenas pressupostos de ordem metafísica e que por sinal radicam numa estrutura simbólica.

Como esta discussão saía um bocadinho fora da discussão sobre religião que tinha originado o referido post e a polémica que ele gerou e como esta é uma discussão em que me tenho empenhado muitas vezes, prometi dar continuação ao textozinho singelo que aqui comecei no outro dia sobre ciência e bom senso. Quero também deixar claro que não tenho, de modo algum, intenções de perpetuar a polémica com Igor Lobão em particular e que, se cito aqui o seu texto, é só porque ele é um de muitos exemplos de uma maneira relativamente divulgada de entender a ciência com que eu não concordo.

Posso imaginar muita gente já a bocejar e a pensar que não fez mal nenhum à divindade da sua eleição para estar a levar com mais um episódio desta infindável discussão. Eu compreendo quem assim reaja e prometo que hei-de voltar com posts mais interessantes sobre receitas de peixe cru ou falares regionais. Para já, no entanto, até porque o prometido é devido, quero defender mais uma vez a minha muito chã (talvez demasiado chã...) opinião sobre a questão:

Qualquer teoria, científica ou não, pode ter diversos graus de eficácia, mas não compreendo por que é que o facto de uma teoria científica poder não funcionar faz da ciência uma ficção. A ciência não é nenhuma ficção nem o contrário disso. A ciência é a designação comum de várias áreas de reflexão e actividade humana em que se procura descobrir qualquer coisa sobre o mundo. Não se distingue, provavelmente, em nenhum aspecto essencial, de qualquer investigação sobre o mundo, seja ela normalmente considerado “científica” ou não. Por exemplo, se eu perguntar como sai de uma mangueira enrolada um jacto de água (em curva ou a direito?), é uma pergunta de carácter científico que estou a fazer? O facto é que a resposta é só uma, e quem quer que alguma vez tenha regado um relvado com uma mangueira sabe bem qual é. Evidentemente, as leis que regem o fenómeno são passíveis de descrições científicas detalhadas, como tudo o que se passa no mundo, desde que haja conhecimentos para tal… Ficção? Estrutura simbólica? Talvez…

O que eu acho é que todo este discurso da ciência como quadro conceptual, como edifício simbólico, como uma “linguagem” criadora de uma realidade sua, este tipo de coisas, pura e simplesmente não se aplica ao trabalho que fazem os cientistas no seu dia-a-dia. É por isso que as pessoas que propõem estas elegantes definições do trabalho científico raramente – ou nunca… – fazem elas próprias trabalho científico e, para os cientistas, estas questões de facto não se põem.

“Meu amigo”, dirá a minha cara leitora, se for suficientemente paciente comigo para não me tratar de uma forma menos simpática, “mas isso já você disse aqui da outra vez, por favor não se repita…”

Repito, sim senhora, repito e repiso. E desenvolvo. O melhor que há neste caso são os exemplos. No post Ciência e bom-senso (1) dava meia dúzia de exemplos completamente ao acaso de questões passíveis de merecerem algum inquérito: Quais os efeitos do aumento ou da redução dos níveis de actividade dos receptores D2 de dopamina? Os dinossauros foram aniquilados por uma parte do asteróide Baptistina? Houve tribos célticas no Norte da Península Ibérica? As formas irregulares dos verbos são geradas através de regras computacionais? O Pedro entregou à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe entregou? Existem fadas? Para puxar um bocado a brasa à minha sardinha (têm de compreender que não me sinto muito à vontade com receptores D2 de dopamina, dinossauros e asteróides, migrações da antiguidades e seres de fantasia…) desenvolvo aqui o inquérito à produção das formas irregulares dos verbos, sim?

Esclareço, antes de mais, que o que eu quero dizer com isto de produção das formas irregulares dos verbos – e se são ou não geradas por regras computacionais – é o seguinte: “O que é que se passa no meu cérebro quando digo fiz em vez de fazi?” Quero também esclarecer que, muito provavelmente, não há nenhuma boa razão para distinguir a maneira como são tratadas pelo nosso cérebro as formas irregulares dos verbos da maneira como são tratadas pelo cérebro outras formas irregulares (plurais irregulares, por exemplo), mas como eu formulei dessa maneira a questão na primeira parte desta conversa, por puro acaso e sem pensar na altura que havia de aqui voltar a pegar nela, é assim que fica a questão…

Então? Podemos começar por deixar de lado o que não faz grande sentido, aquilo que não há nenhuma razão para supor que possa ser verdade. Assim, não consideramos que é o nosso anjo-da-guarda ou a nossa fada-madrinha que nos segreda ao ouvido as formas irregulares. Também podemos assumir, com relativo à-vontade, que se deve passar o mesmo na cabeça de toda a gente, ou seja, que não é provável que o cérebro de uns funcione de maneira diferente, no que respeita à forma irregular dos verbos, do cérebro de outros…

Em seguida, vamos ver que possibilidades há. Em princípio, podemos ver o que foi pensado sobre o assunto. Tanto quanto eu sei, há três hipóteses de base: há quem diga que todas as formas, tanto regulares como irregulares, estão armazenadas na memória e nós vamos lá buscá-las quando as queremos utilizar; há quem diga que todas são geradas a partir de regras interiorizadas e que há “regras menores” interiorizadas para as formas irregulares; e há quem diga que as formas regulares são geradas por uma regra de acrescentar um elemento (um sufixo, nas línguas como o português ou o inglês), quando não há uma forma irregular armazenada na memória – e que estão, precisamente, armazenadas na memória de cada pessoa, as formas verbais irregulares que ela conhece.

Agora, ou aceitamos estas três possibilidades, ou propomos outra. Depende um bocado da nossa criatividade que, por sua vez, depende muito, em princípio, da quantidade de conhecimentos sobre o assunto e dos hábitos de reflexão sobre esta área… [Mas, quem sabe, talvez um olhar ingénuo sobre a questão possa gerar uma ideia genial… Às vezes, acontece.]

A partir daqui é necessário começar a investigar para ver qual das hipóteses (as três existentes ou a(s) que tivermos proposto) tem mais cabimento – ou se são todas de desprezar. [Em princípio, um resultado negativo, uma pura refutação da(s) hipótese(s) é um resultado tão válido como qualquer outro, por muito que nem todas as tradições académicas aceitem conclusões desse tipo nos trabalhos que exigem ou patrocinam…] Pode ir buscar-se evidência à maneira como estas formas são aprendidas pelas crianças, por exemplo, ao facto de que formas irregulares antes bem utilizadas (a criança dizia “eu fiz”) começam, a determinada altura, a ser substituídas por formas regulares erradas (a criança começa a dizer “eu fazi”), para depois voltarem a ser corrigidas (a criança volta a dizer “eu fiz” e vai dizer “eu fiz” o resto da vida); pode ir buscar-se evidência à comparação da história de duas línguas e à regularização dos neologismos, ou seja, ao facto de os verbos importados serem sempre regularizados; pode tentar-se observar directamente o cérebro e ver se há partes diferentes que “acendem” quando se usa uma forma regular e uma irregular; et cetera. De facto – eu não me quero agora alargar – pode ir buscar-se evidência a qualquer domínio, a qualquer lado e a qualquer tempo, desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir.

E podem entrar paixões, pode entrar a nossa ânsia de provar que queremos ter razão? Bom, se tivermos consciência delas e não fizermos os possíveis para sermos honestos na investigação, há aí uma imoralidade – uma imoralidade do mesmo tipo de conscientemente mentirmos em tribunal. Mas, se não tivermos consciência de que estamos a ser parciais? Não se pode fazer nada. Ou antes sim. Porque, como sempre em ciência ou em qualquer outra investigação séria e sensata, vale tudo desde que seja lógico e baseado em observáveis, para poder ser discutido. Se houver parcialidades e batotas, elas hão-de notar-se, a não ser que toda a gente que discuta connosco os nossos resultados sofra da mesma parcialidade que nós, o que é altamente improvável.

Poder-se-ia ir mais longe e em vez de afirmar «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir», afirmar-se antes «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que seja passível de ser refutada.» É a famosa teoria popperiana a que Igor Lobão faz referência, no excerto que dele citei, como “falsificabilidade”. Não gosto muito de falsificabilidade como tradução do conceito de Popper, porque leva facilmente os falantes do português que não conheçam a teoria de Popper, a pensar que, para ele, é científico o que se pode falsificar, quando de facto é de refutabilidade que se trata: segundo Popper, é científico o que há maneira de mostrar que é falso. O problema é que falsificar em português (tanto no uso que eu lhe conheço, como na definição que encontro no meu dicionário) não significa “mostrar que é falso”, ao contrário do falsify inglês, de que costuma ser uma (má) tradução. Neste sentido, e voltando à citação de Igor Lobão, o que é revisível não é exactamente a “leitura” que a “estrutura simbólica” faz do real (embora não me choque que se diga a coisa desta maneira), mas antes o valor de verdade de uma proposição. O que se passa mais concretamente é que se descobre que o que se pensava ser uma verdade antes, afinal não o é, porque se descobriu algo mais* sobre o assunto. A ciência, como toda a procura séria da verdade, está sempre disposta a reconhecer que errou…

Mas enfim, perdoem-me a excursão. Poder-se-ia ir mais longe, dizia eu, e afirmar que o critério de refutabilidade seria essencial. Pode, de facto, usar-se um truque assim, no geral, para avaliar da dose de bom senso de uma hipótese ou de uma proposta explicativa**. Mas não sei se vale a pena. Mesmo no uso desta regra geral é saudável ser comedido. Há tantas afirmações plausíveis e interessantes para a investigação do mundo que não são refutáveis em sentido estrito; e há tantas que, sendo refutáveis, nem vale a pena considerar, porque não há nenhuma razão para as crer interessantes…

Agora, digam-me: O procedimento descrito atrás para tentar saber alguma coisa de como são produzidas na cabeça da gente as formas irregulares dos verbos assenta numa estrutura simbólica específica? Como é que se podia pensar no assunto de outra maneira? Qual seria outra estrutura simbólica possível, “não-cientifica”? É claro que podia não se pensar no assunto – essa é sempre a alternativa à procura de conhecimento… E tirando isso?

Não me compreendam mal: a maior parte das questões que se discutem naquilo que se designa normalmente como trabalho científico são altamente especializadas e algumas são de uma grande complexidade. [Mesmo a que acabo de referir é suficientemente complexa para não haver acordo nenhum sobre a resposta a dar-lhe…]. Há, muitas vezes, questões metodológicas essenciais que podem influenciar resultados e que variam muito de área do saber para área do saber. Há muitas questões da prática de investigação que são levantadas por investigadores e que merecem discussão atenta e aprofundada. Ainda assim, as críticas à possibilidade de “objectividade” da ciência que a apresentam como “mais um quadro mental” que “produz as suas realidades”, tiveram uma enorme fortuna entre não cientistas, mas não vieram afectar, ao que eu sei, a maneira de fazer ciência. E é extremamente improvável que isso se deva a outra coisa que não seja às suas próprias características, isto é, ao facto de que as questões que levantam serem irrelevantes para o trabalho que os cientistas na realidade fazem. Dito de outra maneira, «“método científico” é uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista»***. Porque quando são levantadas questões metodológicas directamente decorrentes do trabalho científico e com implicações sobre ele, há sempre quem as leve a sério e tenha em conta, no seu trabalho, essas mesmas implicações. Por exemplo, a questão da relação emotiva do cientista com a sua hipótese, de que eu falava atrás, é um problema real e constatado há muito tempo, para o qual também há já muito tempo que foram propostas soluções, como sejam a formulação à partida de várias hipóteses, se possível de maneira a que cada uma infirme as outras, e a análise das conclusões por um painel qualificado de advogados do diabo que não perfilhem a hipótese assumida pelo investigador. Mas não estamos aqui perante nada que seja verdade em ciência e não seja verdade fora dela. Os mesmos cuidados têm de se ter em qualquer inquérito para apurar a verdade, seja ele do domínio normalmente considerado científico ou não – embora, naturalmente, a própria natureza do que é investigado apele a problemas diferentes.

De uma forma talvez exageradamente poética, não sei, poder-se-ia até dizer que o facto de os problemas que se colocam ao investigador poderem variar em função do objecto de investigação é a prova mais concludente da dureza do real. Sim, porque o real é duro, para os cientistas e para as outras pessoas todas. Por isso é que não são só os cientistas a ter o cuidado de não ultrapassar em locais sem visibilidade…

Post Scriptum:
O real pode, em parte, ser transcrito em linguagem lógico-matemática. Mas é relativamente limitado o que se pode transcrever nessa linguagem – pelo menos enquanto não melhorarmos o método de transcrição… Também se calhar não vale a pena. A linguagem comum tem até agora chegado à investigação do mundo, se a acrescentarmos aqui e ali de termos novos, quando é necessário – como se faz, aliás, em todas as áreas de actividade humana – gastronomia, costura, serralharia…

O real também pode, em parte, ser medido. Mas há coisas do real que nós não sabemos medir e que não sabemos, por isso, se alguma vez haveremos de saber medir… Mas mesmo de medir coisas aparentemente tão imensuráveis como o sofrimento… já estivemos mais longe.

Não são só os números negativos e imaginários que não existem no real. Os números, como qualquer palavra (os números são palavras!), servem para dizer o real. Ou seja, na realidade o que há são seres contáveis e eu posso contá-los, positiva ou negativamente, da mesma forma que posso escolher uma lexicalização negativa ou positiva de uma proposição qualquer que descreva a realidade. Posso dizer “Não é verdade” ou “É falso”. Se tinha três maçãs e comi uma, posso transcrever “3-(+1)”, ou “3+(-1))”, quer dizer 3 menos uma maçã (que houve) ou 3 mais o desaparecimento de uma maçã… Evidentemente, pode ir-se muito longe na argumentação da exclusiva positividade do real. Nesse caso, não são só os números negativos que não existem, são todas as categorias negativas e afirmar que “ainda não comi” é uma descrição “desadequada” do real, porque não há ocorrências de “não-ingestão” de alimentos, apenas de ingestão de alimentos. Este facto simples tem às vezes implicações em discussões concretas (por exemplo, a impossibilidade de provar a não-existência de seres sobrenaturais) ou às vezes implicações metodológicas (por exemplo, na metodologia de identificação e resolução de problemas chamada Logical Framework Approach, exige-se a formulação positiva dos problemas, para não coincidir com a procura de soluções). Mas, na maior parte dos casos, este facto é sem interesse e determinado apenas pela escolha das palavras para dizer um estado de coisas – não há grande diferença entre dizer “o azul e o verde são cores diferentes” ou dizer “o azul e o verde não são a mesma cor”.

Dito isto, concordo que há uma grande ingenuidade nas definições de real de Galileu e Max Planck referidas. Mas é de perdoar-lhes essa ingenuidades. Afinal, Galileu e Max Planck, mesmo com as suas ingenuidades na definição do real, contribuíram muito mais, na minha modesta opinião, para o avanço do conhecimento humano do que muita gente com concepções talvez mais sofisticadas da realidade…
__________

* É difícil também aceitar a acusação que se faz à ciência de ser não-cumulativa – é óbvio que é cumulativa, porque quando as constatações anteriores relevantes para uma determinada investigação são suficientemente estáveis não se tenta verificá-las de novo, mas parte-se antes delas como pressupostos. Mais uma vez, a ciência não se distingue, nisto, de todo o conhecimento humano.

** Sim, porque é para avaliar o bom senso mais do que a cientificidade que serve a regra de Popper. Imaginem que, em vez da produção das formas irregulares dos verbos, o tema de investigação fosse outro: Foi a Siri que comeu o caju que estava em cima da casa de jantar? A minha “teoria”, por ter constatado que a Siri tinha sido a única pessoa a ir à sala depois de eu lá ter posto o caju e saber de antemão que a Siri é maluquinha por caju, era que sim. É refutável?? Claro que sim. Isso faz da minha teoria uma teoria científica? Talvez…

*** A frase é de Steven Pinker, na sua recensão do livro de divulgação científica The Canon, A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science, de Natalie Angier (NYTimes, 27 de Maio de 2007). A frase completa de Pinker é: «Thankfully, [Natalie Angier] does not try to render something called “the scientific method” (a phrase that never passes the lips of a real scientist) but conveys the idea that science is just the attempt to understand the world with a special effort to ensuring that the things you say about it are true». [«Ainda bem que [Natalie Angier] não tenta expor uma coisa chamada “o método científico” (uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista), mas transmite antes a ideia de que ciência é apenas a tentativa de compreender o mundo com um esforço especial para se certificar de que o que se diz sobre ele é verdade]. Ora aí está uma definição razoável do que fazem os cientistas.

26/02/09

Um paraíso liberal

Flora vai ao banco levantar o vencimento. Recebeu um cheque em dólares americanos. Quando chega à caixa, é informada de que o banco, infelizmente, está sem dólares naquele momento, mas que, se ela quiser, pode levantar o cheque em meticais. Flora quer saber qual é a taxa de câmbio do banco e o rapaz da caixa diz-lhe que é cerca de 25 meticais por dólar, e que depois tem de pagar mais uma taxa que o banco cobra pela operação.

“Você acha que eu vou aceitar esse preço, responde Flora, quando é só sair a porta e pagam-me 27 ou mais?”

É a pura verdade. No jardim em frente ao banco estão os rapazes todos que trocam dinheiro no mercado negro. Hoje em dia não há grande diferença entre o valor das divisas no banco e no mercado negro, mas 27 meticais por dólar ela consegue de certeza.

“Iá, tem razão, diz-lhe o caixa, mas se quiser a 27 meticais por dólar eu também lhe troco a esse preço.”

Uma história real e fresquinha, passada hoje. Não sei como não se mudaram para aqui todos os libertarianistas e outros liberais radicais: se há país onde o mercado impera e o estado não existe, como eles acham que deve ser, esse país é Moçambique.

25/02/09

Ciência e bom senso: la vie en prose (1)

Está bastante difundida a concepção de ciência como forma de conhecimento “à parte”. É, em certa medida, compreensível essa ideia, porque muito do trabalho científico exige um grau de especialização que o torna inacessível à maior parte das pessoas fora da área técnica a que ele diz respeito (inclusive, naturalmente, a cientistas de outras áreas); mas essa distância é característica da especialização, não da ciência como tal: para mim, é incompreensível o trabalho de um compositor, por exemplo...

Na realidade, estou eu em crer, não há nada de específico na maneira de pensar ou de agir de um cientista nem no objecto do seu trabalho que distingam a ciência de outras áreas da actividade humana. Coloca-se um problema e tenta-se encontrar uma resposta, é só isso. E, sobretudo, não há nenhuma maneira especial de confirmar ou infirmar as proposições a que o trabalho científico vai chegando. Quer se trate dos efeitos do aumento ou da redução dos níveis de receptores D2 de dopamina, da aniquilação dos dinossauros por uma parte do asteróide Baptistina, da presença de tribos célticas no Norte da Península Ibérica, da geração das formas irregulares dos verbos através de regras computacionais da nossa mente, de o Pedro ter devolvido à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe devolveu, ou da existência de fadas (deixo-vos decidir o que, desta lista, é ou não passível de ser estudado “cientificamente”…), as afirmações que se fazem são baseadas em observáveis e outras evidências ou não, lógicas ou não, e, em última análise, verdadeiras ou falsas [Em última análise, digo bem, o que não significa que seja óbvio saber o que é verdade e o que não é. A plausibilidade do valor de verdade e, sobretudo, a possibilidade do valor de verdade, no entanto, são normalmente mais óbvias do que muitos pretendem!].

Ser cuidadoso e sistemático, usar instâncias de controlo e duvidar de generalizações fáceis são características de todo o raciocínio rigoroso, mas não delineiam bem a fronteira (que eu digo que, no fundo, não há) entre ciência e não-ciência. Até porque muitas teorias que, numa determinada altura, são exclusivamente aceites pela comunidade científica – ou pela comunidade académica em geral –, passam, mais tarde a fazer parte do chamado senso comum.

18/02/09

Meditação em forma de pão

A seta já contém o alvo, mas só percorre a seta aquele que lhe conhece o alvo;
assim, é de olhos vendados que o grande atirador alveja.

António Maria Lisboa

Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... J. Guimarães Rosa
Desde que se inventou a agricultura que os cereais são a base da alimentação humana, mas a maneira de os preparar varia muito de sítio para sítio. Na Europa (e cá estou eu outra vez, sem querer, às voltas com a identidade europeia...), há muito tempo que é o pão a maneira mais comum de comer cereais. Como temos hoje, nos países ricos, uma alimentação muito variada, esquecemo-nos de que expressões como ganhar o pão de cada dia ou faltar a alguém o pão para a boca eram, antigamente, para serem literalmente entendidas. Aliás, há ainda algumas maneiras de designar o dinheiro que revelam bem que o pão era o mais fundamental dos bens de consumo: chama-se-lhe massa, por exemplo, e não é com certeza do macarrão que termo vem, mas da massa do pão, precisamente, como aliás o inglês dough, que é também massa (de pão) e também uma maneira normal de referir os carcanhóis. E pronto, para repositório de trivialidades, não está má a introdução. Mas vejam lá agora aonde eu quero chegar:

Lembro-me de ler, era eu rapaz, um livro de Robert M. Pirsig que estava na moda nessa altura e que se chamava Zen e a arte da manutenção de motocicletas. Não me lembro já bem do que dizia o livro, já lá vão muitos anos, mas lembro-me de o achar cheio de banalidades, exactamente como o meu parágrafo anterior, só que apresentadas como se tratasse da descoberta da pólvora. Há uma ideia forte do livro[1], porém, que me seduziu muito e que continuo a achar interessante: a ideia de que uma parte do nosso mal-estar quotidiano nos vem da incapacidade de lidarmos com os instrumentos de que nos servimos.

Em comunidades pequenas, não urbanas, sem especialização do trabalho e em que, por isso mesmo, se usa um número limitado de utensílios, toda a gente sabe mais ou menos construir ou reparar os instrumentos de que se serve. Mas nós hoje não. Nem um esquentador, nem um fogão, máquinas primitivas que são, nós sabemos arranjar…

Podemos levar mais longe a reflexão e passar dos instrumentos aos alimentos, que são, em última análise, um aspecto ainda mais fundamental da nossa vida. Continuamos a fazer comida, vá lá, mas no percurso do prado ao prato, como se diz, só lhe começamos a tocar a meio caminho, quando não só já perto da chegada. Vem-nos parar às mãos tudo já pronto, ou quase, a entrar para a panela[2]. Há muitas coisas que só compramos e que nunca fazemos, que não sabemos fazer nós próprios – conservas, enchidos, queijos, que sei eu?... E pão…

Ora, da mesma forma que é saudável esvaziar a cabeça em frente a um motor a dois tempos desafinado ou a um autoclismo com fuga de água, as chavinhas todas alinhadas, na posição do lótus (as chaves ou nós, tanto faz), também é saudável alinhar facas e recipientes vários de cozinha, na calma de um fim-de-semana, e preparar o seu próprio pâté de tête (pode ser cabeça de xara, para ser mais à portuguesa), as suas próprias salsichas ou as suas próprias conservas de beterraba. E mais repousante, mais saudável, mais gratificante, mais tudo isso e mais ainda, mais zen, enfim, … é fazer o seu próprio pão!

Zen e a arte de fazer pão, então. O que se pode dizer a isto? O que diz o zen do pão? É difícil dizer com certeza o que o zen diz seja lá do que for, porque o zen diz muita coisa e não diz nada, e nem sempre sabe bem o que diz, senão não seria zen; mas acho que não ofendo nenhum simpatizante de disciplina se disser que, no zen, é sempre individual o caminho que nos leva para além da nossa enganosa individualidade. Pois bem, assim é também com o pão: os mestres, incluindo os mestres padeiros, são sempre e só uma ilusão. Uma ilusão mais. Vou dar-vos uma receita, mas esta receita é uma receita que eu fui desenvolvendo ao longo dos anos e que, por isso mesmo, me serve mais a mim do que a qualquer outra pessoa. Cabe-vos agora a vocês pegar nela (ou noutra qualquer, para o caso tanto faz) e encontrar a receita de pão que seja realmente vossa, o vosso lugar único na panificação, o pão da vossa mais alta e perfeita iluminação…

Agarrem em 6 decilitros de água tépida (não se pode sentir quente, tem de estar abaixo da temperatura do corpo) e despejem-nos num recipiente grande. Deitem lá dentro duas colheres de sopa de sal fino e duas colheres de sopa de mel e, depois, 250 gramas de farinha de trigo. Mexam bem com uma colher de pau grande, grossa e resistente. Agora, juntem-lhe mais 600/700 gramas de ingredientes que vos pareçam que ficam bem no vosso pão. Eu ponho cerca de 350 gramas de grão de trigo cozido[3], uns 150 gramas de flocos de aveia, um bocado de linhaça, um punhado de gergelim, umas pevides e umas sementes de girassol e um bocado de caju triturado, mas nada vos obriga a seguir esta proposta. Mexam tudo bem e juntem agora a massa azeda.

Ah, pois, tinha-me esquecido de dizer no início: é preciso ter massa azeda. Eu tenho a minha há tanto tempo, que já nem me lembro de a ter feito, mas sei que fui eu que a fiz e sei como se faz: junta-se 1,5 decilitros de iogurte, 2,5 dl de farinha de centeio e 1 colher de chá de sal numa tigela, mexe-se, tapa-se e deixa-se ficar assim uns dias à temperatura ambiente (o mais quente possível), até começar a borbulhar. A massa azeda está então pronta para usar. Guarda-se no frigorífico e quanto mais se a usa melhor vai ficando. E agora que já temos massa azeda, voltemos ao nosso pão:

Junta-se então a massa azeda à massa e mexe-se. Junta-se mais 3 decilitros de água tépida e mexe-se tudo bem outra vez. Agora, é juntar mais farinha – meio quilo para começar e depois logo se vê. Se gostarem de centeio e tiverem farinha de centeio, muito bem. Se não, podem usar farinha de trigo, que é o que faço, e também fica bom. Depois de mexer muito bem, tirem uns 300 gramas de massa e guardem no frigorífico – é a vossa massa azeda para a próxima vez.

Em seguida, há que verificar a consistência. Conforme o que lá tenham posto dentro e o tipo de farinha que utilizarem, a massa pode estar agora mais ou menos líquida. Devem ir acrescentando farinha até ela ser difícil de mexer com a colher de pau, até começarem a pensar que «isto de não fazer exercício nenhum não pode continuar…». Ou, dito de outra maneira, talvez mais zen, até a massa olhar assim para vocês mesmo com cara de massa de pão. Pronto.

Pega-se depois numa forma daquelas a que acho que se chama “de bolo inglês”[4] (vale a pena investir numa boa, que o barato sai caro…), barra-se a dita com manteiga abundante e despeja-se lá dentro a massa. Se a massa escorrer bem do recipiente onde a tinham para a forma, é porque está líquida demais: a massa deve ser renitente, cair muito devagarinho e pedir, no fim, para se lhe puxar o resto com a colher de pau...

Tapem o futuro pão com um pano e deixem ficar a levedar entre 10 e 12 horas, talvez até um bocadinho mais, conforme a temperatura do sítio onde o deixam, e conforme gostem do pão com um travo mais ou menos azedo: quanto mais tempo estiver a levedar e quanto mais alta for a temperatura, mais azedo fica, claro está.

Passado esse meio dia, forno com ele. Ponham-no no forno a 200 graus durante 70 minutos (a contar do momento em que ligam o forno já com a forma lá dentro) e depois subam para 250 graus durante 25 minutos. Tirem o pão do forno e barrem com a manteiga a parte de cima do pão (e as paredes laterais, se quiserem, mas sem desenformar, só espalhando a manteiga com uma faca entre a forma e o pão), que é para ficar a crosta tostada . Se não gostarem da crosta tostada, escusado será dizer, saltem esta etapa.

Só faltam agora mais uns 10 minutinhos no forno, ainda a 250 graus. Não se esqueçam de desenformar o pão mal o tirem do forno e de o deixar em cima de uma grelha (a grelha do fogão, por exemplo), de maneira a que apanhe ar de todos os lados. E bom proveito!

[P. S.: Música e pão são duas coisas que ligam sempre bem, e é quase certo que o pão fica melhor se o fizerem ao som de uma música que vos agrade e que achem adequada à panificação. Como se trata de um exercício zen, porém, não se aconselha nada de muito espiritual, porque a espiritualidade (penso que nisso também todos os simpatizante desta disciplina estarão de acordo comigo…) é mais uma armadilha da mente, uma das muitas formas que toma a ilusão que nos aprisiona. Como se trata de desfazer o espírito em massa, em vez de o elevar, talvez seja mais apropriada música com os pés solidamente assentes na terra, como, sei lá..., Béla Bartók, Digable Planets, Carlos Paredes ou Art Blakey & The Jazz Messengers.]
__________________

[1] De facto, como já não me lembro bem do livro, não posso garantir que isto lá seja dito assim. É capaz de ser um truque da minha memória, a impingir-me como sendo ideia do Pirsig uma fantasista interpretação minha de outra coisa que ele diga, mas isso agora não importa muito…

[2] Eu não podia dizer isto ali onde apareceu a chamada para esta nota de rodapé, porque estragava o texto todo, mas digo agora aqui (…muito baixinho…): Se, por um lado, perdemos a noção do trabalhão que dá cultivar cenouras e batatas e, sobretudo, da nossa própria animalidade (deixámos de matar), por outro, ainda bem que se compra a carninha já lavada e embalada. Contra calçar umas socas e meter os pés à lama para ir buscar uns legumes ao quintal, não tenho absolutamente nada, pelo contrário; mas sei bem o que é ter de tratar da carne de porcos e vacas desde o abate até à panela e há uma altura, digo-vos eu, em que aquele cheiro nauseabundo a carne morta não nos larga, nem nos sonhos, e começamos muito seriamente a considerar a possibilidade de nos tornarmos vegetarianos…

[3] Tem de se cozer primeiro o grão de trigo, senão, mesmo que se deixe de molho muito tempo, fica sempre duro demais. Uma pessoa arrisca-se depois a estalar um dente ao comer o pão.

[4] Eu nunca lavo a forma, porque aprendi o preceito clássico que formas de pão não se lavam, limpam-se só com papel ou com um pano, mas é mais mania do que outra coisa qualquer, porque eu conheço gente que faz pão excelente e lava as formas…

13/02/09

E onde mora, por favor, Dona Europa, essa cachopa, filha de D. Agenor?

… Pus-me então a especular: o que é que dá à Europa unidade, que já nem falo de união? E pensei: «Para me lançar na pesquisa de uma identidade europeia, o ideal seria aplicar o velho preceito que diz que “um gato é um gato, um cão é um cão, e uma coisa é aquilo que as outras não são”» – só devia considerar verdadeiramente europeu o que fosse comum a toda a Europa e não se achasse nunca fora dela!

Mas ‘tá quieto! Seguindo o princípio a rigor, não havia de ir muito longe...; e a conseguir chegar a algum lado, os poucos resultados seriam, provavelmente, bastante surpreendentes e ainda mais desinteressantes… De maneira que decidi antes adoptar outro método, comum, aliás, nas pesquisas de identidade, que consiste em fazer um bocadinho de batota; e, feita a batota necessária (pouco ou muita, não vos diz isso respeito), consegui descobrir os três itens que mais essencialmente definem a europeidade – apresentados aqui por ordem alfabética, que não de importância:

1. Barrete: De vários materiais, cores e feitios, mas mais iguais do que diferentes, acho que, da Tornedália ao Ribatejo, o barrete faz sempre parte de algum traje tradicional. Há alguns mais famosos do que outros, como as barretinas catalãs ou o barrete da Marianne, mas não haja dúvida de que é coisa que unifica a Europa!

2. Gaita de foles: Da Suécia a Portugal e de Portugal a Malta e de Malta à Polónia, o que para aí vai de gaitas de foles. Ora aí está, é bom de ver, mais um símbolo incontornável da unidade europeia.

3. Shawarma: Pensem bem: não é verdade que Portugal só começou a poder ser considerado um país europeu quando começou a coexistir com a bifana e o prego a shawarma que nos faltava? Não foi só nessa altura (pensem bem!...) que entrámos definitivamente na Europa ao mesmo tempo que – através desse petisco, precisamente – a Europa entrava em nós?


Prevejo inúmeras (e, nalguns casos, enraivecidas…) objecções: Os barretes podem bem ter vindo originalmente da Frígia, isto é, da Anatólia (ou de mais longe ainda)! As gaitas de foles podem ser de origem hitita, ou seja, também da Anatólia! Quanto à shawarma, essa, não há dúvida de que vem mesmo da Anatólia!

Mas... e depois? Mesmo que isso seja tudo verdade, o que é que vocês têm contra a Anatólia? A Europa começa, sempre começou, muito para lá do que são hoje os seus limites mais aceites. Geográfica e culturalmente, não há entre o Médio Oriente e a Europa barreira nenhuma, quanto mais ruptura… Do Crescente Fértil vieram-nos trigo, cevada, grão, ervilhas, lentilhas, vacas, cabras, ovelhas, porcos, roda, monoteísmo, estado, escrita, todos os alicerces do desenvolvimento que viria a resultar na imposição da Europa a grande parte do mundo*. Por quê insistir em fazer do Bósforo uma fronteira que ele nunca foi? Aliás, facto de um simbolismo fundamental!, até a Europa original, madrinha do continente, filha de Agenor e Telephassa, era fenícia, que é como quem diz libanesa!

André-Pierre Taguieff, no seu livro Résister au bougisme, diz a certa altura que “o interminável e vão debate sobre o “alargamento” da Europa, processo para o qual, a não ser que recorramos a critérios baseados no racismo biológico ou no neo-racismo cultural, parece impossível definir limites justificáveis, mostra que a utopia europeísta não é senão uma figura da utopia globalista, um momento na mundialização apresentada como inevitável.”

Discordo de Taguieff em muitas coisas, nomeadamente da sua obsessão nacionista**. Se pus aqui esta citação, no entanto, é porque me parece que ele faz nesta frase algo tão importante como incomum, que é chamar a atenção para a questão moral de base que subjaz não só à discussão do alargamento da União, mas, em última análise, à própria ideia de União Europeia: É que não há nenhuma justificação moral para o processo que tem até aqui sido de “alargamento da União Europeia” se ficar pela Europa. Posso entender (e concordar ou discordar, isso é outra história) argumentos estratégicos para que esse alargamento se faça gradualmente, mas todos os outros argumentos para reduzir as vantagens de se ser sócio desta colectividade apenas a alguns não podem senão radicar, como diz Taguieff, nalgum tipo de imoral discriminação. Mesmo quando se chegar ao limite do que é de alguma forma identificável com Europa, não há razão nenhuma para parar o alargamento – quando muito, haverá razão para mudar o nome à união…
_______________

* Concorde-se ou não com a tese nele desenvolvida, o polémico livro de Jared Diamond Guns, Germs, and Steel dá informação resumida e preciosa sobre a importância do Crescente Fértil para o desenvolvimento da Europa – e do mundo. Vale a pena ler.

** É claro que não cabe aqui discutir a posição política de Taguieff no seu todo, mas quero, ainda assim, fazer um pequeno comentário àquilo de que discordo na frase citada: Taguieff erra, na minha opinião, ao fazer uma amálgama de todas as propostas políticas que valorizem instâncias supranacionais – sempre houve e ainda há quem defenda utopias mundialistas sem as apresentar como resultado inevitável de uma globalização “natural”, mas antes como o possível resultado da vontade das pessoas de alargar a toda a humanidade os privilégios (e os deveres, claro está) de que hoje apenas goza uma parte relativamente pequena dessa humanidade. Se, para Taguieff, o debate sobre o alargamento da Europa é vão, é porque, para ele, não deveria haver espaços de solidariedade mais amplos do que as nações que actualmente existem. Para mim, o círculo de solidariedade tem de continuar sempre a alargar-se.

05/02/09

O autocarro ateísta e outras histórias

(Escolham, dos dois subtítulos que proponho, o que mais vos agradar:)
Não batas mais na velhinha ou Ele a dar-l’e a burra a fugir

1. O nome e a coisa:Diz Filipe Pereirinha[1], a propósito da primeira campanha publicitária ateísta[2], que «Saramago – um ateu, por sinal – [disse] que Deus não desaparecerá enquanto não desaparecer o nome de Deus. Mesmo que Deus não exista, que seja um puro vazio, enquanto a linguagem o fizer ex-sistir, Deus ex-sistirá. Certainly! A frase escrita no autocarro [da campanha, “there’s probably no god”] é uma prova da existência de Deus». É uma retórica conhecida e, a julgar pela fortuna que tem, sedutora, mas é só mesmo isso. Se não… eu amanhã vou começar a dizer a toda a gente que não fale mais de malária. Se nunca mais o nomearmos, havemos de erradicar o parasita.

É um abuso, eu sei, o que eu estou a fazer, mas também é um abuso reduzir a existência de Deus (ou dos gnomos, das fadas, dos unicórnios ou dos leprechauns, para o caso tanto faz…) à sua nomeação, sobretudo porque quem acredita na existência de deus não é na existência dele como nome que acredita. Aliás, há até quem acredite na coisa-deus sem acreditar na possibilidade da sua nomeação. Por outras palavras, a discussão entre ateístas e teístas é uma discussão sobre a existência de facto de uma entidade com as características que estes últimos atribuem aos seus deuses.

2. Mais vale ignorá-los do que dar-lhes importância
Há, porém, outra leitura (mais interessante, talvez…) que se pode fazer das palavras de Saramago citadas por Pereirinha: é que é má estratégia da parte dos ateístas passar a vida a discutir a existência de Deus. Há muitos ateus que insistem nisso: «Deixem estar isso, não batam mais na velhinha, é vocês a darem-lhe e a burra a fugir…», dizem eles, «A única coisa que conseguem assim é dar a deus uma importância que ele não tem». A discussão aqui é, pois, de estratégia política. Tenho visto nos últimos tempos acusações a Richard Dawkins, a Sam Harris, ao falecido George Carlin e outros proeminentes ateístas militantes de, pela sua “intolerância” ou pela sua “agressividade”, terem contribuído mais para a causa religiosa do que os próprios religiosos. Mas não concordo. Vi seguirem-se estratégias de abstenção da discussão em relação a outras questões e com maus resultados. Estou convencido, por exemplo, de que uma das razões para o crescimento da extrema-direita racista na Europa, nos anos 90, foi a recusa dos não-racistas de se “rebaixarem” ao ponto de discutir em público com ela...

3. Orgulho ateu?
Pereirinha diz também que “vivemos na época da marcha e do orgulho; coube, desta vez, ao orgulho ateu fazer também a sua marcha”. Orgulho? Mas orgulho por quê ou em quê? A história da campanha publicitária ateísta, explica o seu site, é a seguinte (traduzo eu):

A campanha começou quando a escritora de comédia Ariane Sherine viu um anúncio, num autocarro londrino, em que se citava uma frase da Bíblia, “Quando o Filho do Homem vier, será que encontra Fé nesta Terra?” [sic]. Abaixo da citação, havia um URL, e quando Sherine visitou o respectivo site ficou a saber que, não sendo crente, seria “condenada à eterna separação de Deus e passaria toda a eternidade em tormento no inferno”.

Orgulho ateu? Então uma pessoa estar sempre a levar com estas e outras campanhas de terrorismo mental não é razão mais do que suficiente para reagir? Toda a gente refere agora (porque é, como dizer?, giro… pois, fora do vulgar, divertido até...) a campanha ateísta, mas não me lembro de haver muita gente a referir os milhares de campanhas publicitárias religiosas que houve e há por esse mundo fora. Um dos méritos desta campanha é precisamente fazer notar às pessoas o estranho que é para elas alguém fazer o contrário daquilo a que estão habituadas, que é evangelização a torto e a direito.

Mostra de orgulho? E por que não legítima defesa? Uma verdade simples e demasiado ignorada é que os ateus são sistematicamente discriminados. Fala-se muito hoje da liberdade de crença e culto, como se fosse a crença e o culto a única opção possível, mas ninguém fala da liberdade de cultivar activamente a negação da existência de deuses e toda a classe de superstições. A constituição e as leis de diversas nações reconhecem a todas as religiões os mesmos direitos, em termos de educação, por exemplo, mas nunca mencionam os direitos dos ateus (nos países onde se pode escolher para os filhos educação moral e religiosa, posso requisitar para o meu filho um professor de ateísmo?). Os parágrafos sobre blasfémia (que presumo que incluam a asserção simples de que “Deus não existe”, como é que isso pode não ser blasfémia?) existem nas leis de vários países muito democráticos e muito progressistas; mas eu não posso levar ninguém a tribunal por ter afirmado que deus há-de punir o meu racionalismo com eterno sofrimento, uma asserção que me ofende profundamente… A esmagadora maioria dos atlas e das páginas de factos sobre os diversos países e áreas geográficas menciona a percentagem de praticantes das várias religiões, mas muito raramente se menciona o número de ateus e agnósticos – mesmo quando, como no caso de Moçambique, um quarto dos cidadãos declararam, no último censo, não terem nenhuma religião. Há muitos estados oficialmente religiosos e vários estados laicos, mas não conheço nenhum estado oficialmente ateu ou agnóstico [3]. Orgulho ateu? Nós estamos é fartos, muito sinceramente.

4. Ciência, racionalismo, religião e democracia: a questão moral
Outra discussão interessante, aflorada também por Pereirinha no seu texto, é a da palavra probably no anúncio inglês. «Para quem leu Nietzsche ou Dostoiévski», diz ele, «este “probably” está a mais.» Bom, de certeza que não é só para quem tenha lido Nietzsche ou Dostoiévski que o probably pode estar a mais. Mas o facto é que ele não está a mais para muitos ateístas. A palavra é um indicador claro de uma atitude que o racionalismo ateísta não partilha com as crenças religiosas – uma diferença moral. Na já referida página FAQ do site da campanha, uma das “perguntas frequentes” a que se responde é «Por que é que só “provavelmente” não há deus?». A resposta:

Tal como acontece nos famosos anúncios da Carlsberg («provavelmente a melhor cerveja do mundo»), “provavelmente” contribui para garantir que os nossos anúncios não infrinjam regras de publicidade. A Comissão da Prática Publicitária informou a campanha de que «a inclusão da palavra “provavelmente” torna a campanha menos susceptível de ofender, e, portanto, de quebrar o Código da Publicidade».

Disse Ariane Sherine: «Também gosto de “provavelmente” por outra razão: significa que o slogan é mais rigoroso, uma vez que, embora não exista prova científica da existência de Deus, também é impossível provar que Deus não exista (ou que outra coisa qualquer, seja ela qual for, não existe). Como Richard Dawkins diz em The God Delusion, dizer que “Deus não existe” é assumir uma posição de “fé”. Escreve ele: “Os ateus não têm fé; e a razão apenas não pode dar a ninguém a perfeita convicção de que uma coisa definitivamente não existe”. As palavras que ele usa no livro são “almost certainly [quase de certeza]”; mas, embora isto reflicta mais directamente aquilo em que crê a maior parte dos ateus, “probably” é mais curto e soa melhor, o que ajuda em publicidade”.

Aliás, acrescento agora eu, é evidente que provar a existência de Deus, altamente improvável à luz do que se pode verificar do funcionamento do mundo, nem sequer compete a quem dela duvide, mas antes a quem nela creia. O que muitos ateístas dizem é que, porque têm uma atitude permanentemente aberta a tudo o que é verificável ou de qualquer forma demonstrável, estão dispostos a mudar de opinião, se alguém lhes der uma boa razão para acreditarem na existência de algum deus.. Mas nenhum religioso a dá, porque a prova que cada crente tem do seu deus não é observável por ninguém que não partilhe a sua crença e chama-se fé… Evidentemente, os religiosos não acreditam na boa-fé (credo!) dos ateístas. Não conseguem imaginar uma mente menos fechada do que a sua [4]

É curioso: discute-se mais a oposição entre o racionalismo científico e a religião enquanto formas de conhecer e explicar o mundo do que enquanto sistemas morais. Ora, para um moralista como eu, por muito que seja importante discutir o valor de verdade das propostas de explicação do mundo, interessa também sempre, e muito, discutir a justeza das propostas de códigos de comportamentos – porque elas afectam directamente a vida da gente, não é?

E creio que há, de facto, uma grande diferença moral entre quem acredita na racionalidade e quem acredita na fé: os racionalistas acreditam que o conhecimento da verdade é algo perecível e frágil, que se vai acumulando devagarinho, muito devagarinho, com paciência e trabalho de rigor, e têm sempre o cuidado de o procurar no que pode ser partilhado por todos os seres humanos. Para eles, o valor de verdade de uma afirmação pode sempre ser discutido e pode-se sempre provar que, afinal, a verdade proposta não o era. E isto aplica-se tanto às descrições dos fenómenos do mundo como aos conjuntos de normas de comportamento de uma sociedade. Para um religioso (lato sensu), não há nada a discutir: o mundo está explicado a priori e estão definidas à partida as maneiras correctas e incorrectas de agir, que lhe foram reveladas por entidades sobre-humanas.

Uma diferença moral, dizia eu: quem acredite que todos os seres humanos têm o mesmo direito a participar na discussão do mundo e das linhas com que ele se cose não pode deixar de constatar que, à religião, lhe faltam modéstia e democraticidade.



5. Um sonho:
Isto não tem nada a ver com o texto de Filipe Pereirinha, é só para terminar num tom mais alegre. Como a discussão da compatibilidade do conhecimento científico com a crença religiosa não só não acabou como parece estar cada vez na ordem do dia (vejam, por exemplo, a recensão de Jerry Coyne no New Republic de Saving Darwin: How to be a Christian and Believe in Evolution, de Karl W. Giberson e Only A Theory: Evolution and the Battle for America's Soul, de Kenneth R. Miller), conto-vos um sonho que tive:

Era um tipo qualquer com uma cara diferente da minha, mas que eu reconhecia como sendo eu próprio, a falar com outro tipo com outra cara diferente, tanto da do primeiro tipo como da minha, mas que eu continuava a reconhecer como sendo eu próprio (os sonhos têm destas coisas…). E perguntava a primeira à segunda cara:

Mas afinal, pode um cientista crer em deus?

E respondia a segunda cara à primeira:

Pode, pois claro que pode. Um cientista é como as outras pessoas, acho eu, pode fazer tudo o que lhe apetecer, desde que não prejudique mais ninguém. Até pode comer sardinhas assadas com doce de groselha. O problema é dele…

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[1] Embora não o veja já há muito tempo, é um rapaz que eu conheço e por quem tenho simpatia. Este texto é só a saudável expressão de um desacordo.

[2] Explico a distinção que faço entre ateísta e ateu: chamo ateu a quem não acredite em deuses, sem mais; mas chamo ateísta a alguém que professa o ateísmo como filosofia e, sobretudo, que tem uma posição proactiva, como agora se diz, na discussão entre religião e racionalismo não religioso. A distinção dá jeito, até porque permite estabelecer a oposição simples teísta vs ateísta, que não funciona com a palavra ateu.

[3] Talvez o Butão, o Camboja e a Tailândia, porque são oficialmente budistas e, para os budistas, não existe propriamente um deus… Seja como for, não acho que deva haver estados ateus, prefiro a noção de estado laico, mas é só para vocês verem como as coisas andam.

[4] Se bem que, como tem sido frequentemente argumentado, todos os seres humanos sejam ateus: todos duvidam de existência de alguns deuses, mesmo que acreditem noutros. Mas isso é uma questão que deixamos os religiosos discutirem entre eles; nós, ateus, já demos um passo em frente, e passámos a duvidar de um deus mais (ou de um grupo de deuses mais) do que cada religioso…

28/01/09

Tenho muito orgulho em só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa

Quando estive no Acre, há já alguns anos, ouvi várias vezes a acreanos que eram “os únicos brasileiros por opção”. O Acre fazia parte da Bolívia até ao início do séc. XX e um dia os acreanos fizeram uma revolução para se tornarem brasileiros (a história não é exactamente assim, mas admitamos, para simplificar, que foi assim que as coisas se passaram). Nem por isso os acreanos são brasileiros por opção. Quer dizer, os que fizeram a revolução e tomaram o poder na região, para se juntarem ao Brasil, foram, de facto, brasileiros por opção. Mas isso foi há 100 anos. A partir daí, mais nenhum acreano foi brasileiro por opção.

O que acabo de dizer dos acreanos, posso também dizer da gente de Bornholm (que, a determinada altura, fez uma revolução para deixar de ser sueca e se tornar dinamarquesa) e dos suíços dos diversos cantões (que foram progressivamente aderindo à Confederação Helvética). E dos povos de todas as nações que se libertaram do jugo colonial. Houve moçambicanos que o foram por opção: os que fizeram a luta de libertação, sobretudo, mas também aqueles que, não participando nela directamente, concordavam com ela e, na altura de escolher, preferiram ser moçambicanos a continuarem a ser portugueses. A partir daí, já não houve moçambicanos por opção. O facto é que muito pouca gente escolhe a sua nacionalidade. Quantos portugueses é que o são por opção?

Isto vem a propósito de orgulho. As identidades étnico-nacionais, regionais, etc., parecem ser aquilo em que mais comummente se tem orgulho. Pelo menos, se googlarem “tenho orgulho em ser” vão deparar com uma maioria de ocorrências de um gentílico depois do ser. Mas o que é isso de ter orgulho numa identidade? Ou pode até fazer-se uma pergunta mais abrangente, para começar: o que é que significa, ao certo, ter orgulho nalguma coisa?

O meu dicionário não ajuda nada: diz que orgulho (excluindo as acepções de “conceito exagerado que alguém faz de si próprio”, “vaidade” ou “soberba, altivez”, que obviamente não são as que tem a palavra quando se afirma, por exemplo, o orgulho na sua identidade) é “dignidade, brio, pundonor”. É óbvio que não é verdade, porque não se pode dizer “tenho dignidade/brio/pundonor em ser rinchoense”. Se procurar orgulhar-se, que é o mesmo que ter orgulho no sentido que aqui me interessa, encontro “envaidecer-se”, “ufanar-se”, “gloriar-se”. Não me serve, fico na mesma... Já o Concise Oxford dá uma definição de pride (“orgulho”, em inglês) muito mais interessante. A tradução não é perfeita, mas é qualquer coisa como “um sentimento de exaltação ou satisfação perante realizações ou qualidades ou posses, etc., que dão bom nome a alguém”.

Muito bem, não há dúvida de que é isso. E o que me incomoda é precisamente que coexistam na mesma definição “realizações” e “qualidades”; que o orgulho possa resultar tanto da percepção de se ter realizado uma acção positiva como da percepção de se ser depositário de uma característica que se considera positiva; porque, se geralmente há mérito nas boas realizações, nas boas características não há quase nunca mérito nenhum. Que mérito há em ser bonito, elegante ou inteligente? Que mérito tem uma vaca em dar leite? Mérito implica controlo e temos, no geral, muito pouco controlo sobre o que somos – e nenhum sobre a nossa nacionalidade.

Sempre tive muita dificuldade em compreender que alguém possa ter orgulho em ser português ou moçambicano ou dinamarquês (ou em ter olhos azuis, ou em ser alto, ou em ser dotado para a matemática, ou em “viver a mocidade / dentro desta geração*”…). Em última análise (em última análise…), posso admitir que uma pessoa tenha orgulho nas coisas que ela própria considera louváveis e que ela própria decidiu fazer ou ser. Agora daquelas em que a sua vontade não foi chamada para nada (acasos, acidentes…), digam-me lá, que orgulho é que se pode ter?

Soa apatetado o título deste texto, não soa? Ora, bem vistas as coisas, entre só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa e eu ter nascido num determinado lugar, num determinado tempo ou com determinadas características, que diferença é que há em termos do controlo que tenho desses factos? Absolutamente nenhuma. E é assim, exactamente como o título deste texto, que me soam as afirmações de orgulho numa identidade qualquer.


P.S.: Uma das evoluções naturais da democracia deveria ser – talvez venha a ser, espero que seja – a possibilidade de se escolher cada vez mais a sua nacionalidade. Chama-se a isso empowerment**, no jargão do desenvolvimento: capacidade de decidir mais sobre a sua vida.
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* A famosa cantiga não diz orgulho mas sim vaidade: «(…) mas tenho grande vaidade / em viver a mocidade / dentro desta geração». É óbvio, no entanto, que vaidade, de que os dicionários que consultei dão apenas uma definição claramente negativa, é aqui sinónimo perfeito do orgulho de que aqui trato.
** Empoderamento, eis como a palavra inglesa se traduz normalmente aqui em Moçambique. Bem formada ou mal formada, a palavra é já um facto – nada a fazer contra ela…

14/01/09

«Coco não, manga não?» e outras anedotas linguísticas


“Coco não? Manga não?”

O vendedor de cocos e mangas que passa por mim e me pergunta se não quero comprar os seus produtos não sonha, claro está, que a palavra magano existe em português, e muito menos o seu aumentativo. E muito menos ainda, provavelmente, que há muita gente a pronunciar a palavra “incorrectamente” com o primeiro a nasal, forma que os dicionários nunca registam, mas que não deixa, por isso, de ser muito comum. 
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Uma vez, já há uns bons anos, dizia-me um amigo meu português que vive em França que a situação dos emigrantes, segundas e terceiras gerações incluídas, estava cada mais difícil, que cada vez havia mais xenofobia. Mas pronunciou o início da palavra à francesa, dizendo [gzenofobia] em vez de [chenofobia].

“Eh, pá”, disse-lhe eu, “em português não se pronuncia [gzenofobia], isso é em francês; em português, pronuncia-se [chenofobia].

“Ah, bom?”, surpreendeu-se ele.

“Pois claro!”, insisti eu. “Aliás, em português nem sequer existe essa sequência de sons [gz].

Ele ficou um bocado calado, a matutar, mas pelos vistos não se convenceu:

“Em português não existe [gz]?”, disse ele ao fim de um bocado, com ar triunfante e o seu forte sotaque da Cova da Piedade. “Dev’s ‘tá’ a g’z’á’ c’migo!”
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Estava uma vez com dois amigos, um sueco e uma irlandesa, e estava a explicar-lhes, já não sei a que propósito, a expressão “que venha o diabo e escolha”. O sueco disse-me então que tinham, na língua dele, uma expressão que significava o mesmo: “é como escolher entre peste e cólera”. E disse a expressão em sueco: “det är som att välja mellan pest och kolera”.

E disse logo a amiga irlandesa:

“Ah, essa eu percebi: é como escolher entre pepsi e coca-cola!”
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Uma vez, em Vitória, no estado de Espírito Santo, no Brasil, entrei num autocarro, comprei o meu bilhete e pedi à cobradora para fazer o favor de me avisar quando chegássemos ao centro, porque eu não conhecia a cidade. Falei muito devagarinho, consciente da dificuldade que têm os brasileiros em compreender o meu português. Ela ia fazendo que sim com a cabeça enquanto eu falava, e depois disse-me assim, com um sorriso enorme no rosto:

“É fantástico: eu entendi tudo o que você disse! Eu não faço nem idéia de qual é essa língua que você fala, mas eu entendi tudo direitinho!”
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A última não se passou comigo, mas é uma anedota linguística de que eu gosto muito. É muitas vezes contada como tendo realmente acontecido com J. L. Austin e Sydney Morgenbesser, e é referida como exemplo do espírito deste último filósofo, mas não sei até que ponto isso não será um “mito urbano”, como agora se diz.

Austin, numa palestra:

“Há línguas em que uma dupla negativa resulta numa afirmação positiva, e há línguas em que a dupla negativa reforça a negação. Não conheço, porém, nenhuma língua em que uma dupla positiva produza uma negação.

E Morgenbesser, no público:

“Yeah, yeah…”

Morros de muchém

Muchém é térmite. Morro é morro. E morro de muchém é um castelo de fadas-bichos.
Moçambique é um museu de arquitectura, e não só de arquitectura humana. Obras-primas da arquitectura deste país são também os morros de muchém. Os que aqui vos mostro são apenas os que calhou ter fotografado, sem nenhum critério especial. Não são especialmente grandes (nanais que não, há-os muito maiores!), nem têm formas especialmente invulgares. São morros de muchém vulgares. Sólidos que nem cimento armado, o que é que pensam?


Morro de muchém no meio de uma machamba, sem mais


Morro de muchém integrado na paisagem humana


Morro de muchém armado em obelisco


Morro de muchém camuflado


Morro de muchém de perfil discreto e ajustado à forma da cabeleira das casas


Morro de muchém de praia, a namorar com uma árvore