25/06/12

A vida em Slotsalleen [1]: Um post a bem dizer só para os amigos

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1. Soalho de pinho branco: sobre a etimologia de algumas expressões populares

Decidimos que paredes e portas haviam de ser brancas e que o soalho havia de ser o mais claro possível.

As paredes é o mais fácil, sempre a rolar. Mas nas portas não dá para usar rolo nas almofadas. Têm de ser pintadas à mão, a trincha e pincel, e há partes que há que pintar e voltar a pintar e ficar a observar com cuidado, não vá a tinta escorrer. Grande pincel!

Quanto ao chão, depois de afagado, dei-lhe um tratamento que impede que o uso e o tempo o escureçam. Mas são uns bons 80 metros quadrados no total e aquilo tem de ser aplicado à mão, com uma trincha graúda. Vi-me à brocha.

Em seguida, tem de se passar com uma espécie de lixa de plástico, para alisar a madeira, antes de a lavar três vezes com um sabão especial. “Pode alugar-se uma máquina para esse trabalho”, explicou-me alguém. «Que se lixe…», pensei eu, não há de ser assim tão difícil de fazer à mão. Mas era. Fazer faz-se, enfim, mas é trabalho lixado, digo-vos eu.

O sabão líquido não pinta propriamente a madeira, mas tem algum pigmento incorporado, dá um tom esbranquiçado ao chão. Uma grande trabalheira, em suma, mas fica com pinta.
 *
2. Há alguma coisa tão bonita como o verão dinamarquês?

Entre os decisores celestes, há pelos vistos quem leve demasiado a sério a expressão “regime de chuvas de verão”… Também não era preciso começar a chover logo a seguir ao solstício…

Quem, no Sul, louva o uso nórdico da bicicleta (que é, diga-se de passagem, efetivamente louvável) não deve esquecer-se que, em metade dos dias do ano, é à chuva que se vai de bicicleta para a escola e para o trabalho.

“A roupa para a chuva anda sempre, sempre connosco na mochila, esteja a chover ou a fazer sol”, explica a minha mulher à minha filha, que deixou na escola o casaco e as calças impermeáveis de vestir por cima da roupa quando chove. A Joaninha já não se lembrava de que não há tempo sem chuva nesta terra e que uns quantos dias de sol não significam que agora é que começou finalmente o bom tempo.

[E se fosse como a chuva de verão nos trópicos, onde o calor nos enxuga logo a roupa e a alma, mas aqui o calor é um bem raro, mesmo no verão…]


Henry Nielsen & Ib Schønberg, “Hvad er så skønt som den danske sommer?”, do filme Ved kongelunden, 1953
Há alguma coisa tão bonita como o verão dinamarquês,/ numa vala do caminho, quando o céu está azul?/ Está-se aqui tão bem como duas gemas de ovos / num leito de espinafres. Pois é, e isso merece um brinde. / O que é preciso, quando uma pessoa tem a garganta cheia de pó, / é uma bejeca e um fosso coberto de trevo. / Há alguma coisa tão bonita como o verão dinamarquês, / visto com estes óculos de sol?

19/05/12

Como estão? Passaram bem? Bem, obrigado!


Isto não é um texto de blogue, é só, como direi?, um post decorativo. É que não conto publicar aqui nada nas próximas semanas e achei que devia aparecer nas listas de blogues dos blogues dos amigos que têm a simpatia de aí incluir este blogue (se é que me faço entender...) um título mais convivial, mais afável, mais cortês, enfim, que o anterior a este. 
Como estão, então? Passaram bem? Bem, obrigado!
 

08/05/12

If I don’t do it, somebody else will

Tive de traduzir uma vez a expressão inglesa from gate to plate, que significa “desde a produção na quinta até à venda ao consumidor” e, depois de refletir um bocado sobre como manter ao mesmo tempo o significado e o jogo de sonoridades, inventei do prado ao prato. Não era uma tradução muito boa do significado, embora tivesse sobre a expressão traduzida a vantagem de não ter elementos omitidos*; mas era uma boa tradução do jogo fonético, melhor até do que o original, porque entre os dois termos do trocadilho se altera apenas um som e não dois como na expressão inglesa. O meu cliente gostou muito, achou que tinha sido uma boa invenção.

Passado pouco tempo, e por mero acaso, encontrei a expressão na Internet. Verifiquei, pela data de publicação do documento onde ela aparecia, que era anterior à minha tradução. Googlei “do prado ao prato” e descobri que aparecia milhares de vezes online. Não me lembro exatamente de quantas, mas eram muitas (isto foi há cerca de dois anos; hoje, essa pesquisa dá-me cerca de 30.000 ocorrências). Afinal, alguém tinha inventado a expressão antes de mim. Era até possível que tivesse havido várias pessoas a inventarem a expressão antes de mim. Bom, nem por isso eu deixava de a ter inventado também, não é verdade?, mas já não era a mesma coisa…

A expressão do prado ao prato não tem importância nenhuma, mas isto de ser inventado por várias pessoas já se deu com coisas efetivamente importantes. A escrita, por exemplo. Não se sabe se, quando começaram a usar os seus hieróglifos há cerca de 5200 anos, os egípcios os tinham criado a partir da escrita suméria, surgida pouco antes. A escrita chinesa, porém, que apareceu cerca de 2000 anos depois, tem, muito provavelmente, uma origem completamente autónoma. E independente é também, com toda a certeza, a invenção da escrita na região que hoje é o México, há cerca de 2500 anos. Outros exemplos conhecidos de invenções e descobertas independentes de uma mesma coisa são o cálculo diferencial e integral, desenvolvido separadamente por Newton e por Leibniz; e a descoberta do oxigénio, também feita por três pessoas que desconheciam o trabalho umas das outras, Joseph Priestley, Carl Wilhelm Scheele e Lavoisier**.  
Mas há muitas mais.

E então, onde quero eu chegar com isto tudo? Bom, não é que eu queira tirar o mérito a quem inventa ou descobre uma coisa qualquer, nada disso, porque para criar tem de haver alguma inspiração e algum trabalho individuais. Mas parece, sobretudo quando constatamos que as datas das invenções e descobertas paralelas são, muitas vezes, bastante próximas umas das outras***, que inventamos o que o nosso tempo, as nossas circunstâncias, enfim, nos põem à frente para inventarmos… Tenho muitas vezes a sensação de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.




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* Falta farm na expressão original, que se deve entender como from [farm] gate to plate, já que farm gate é a expressão normal para dizer “à saída do local de produção”. Price at farm gate, por exemplo, é o “preço no produtor”
** “Eh, pá, até parece que descobriste a pólvora!”, eis o que eu sempre ouvi dizer quando alguém se mostra muito excitado ao descobrir o que todos os outros estão fartos de saber. Mas é uma expressão pouco correta, se não lhe quisermos chamar disparatada: a pólvora não foi descoberta, porque não há pólvora no estado natural... E, se não distinguirmos entre inventar e descobrir, acabamos como o protagonista de uma anedota que há, que, ao ler que o oxigénio foi descoberto em 1774, se interroga sobre como respirariam as pessoas antes disso.
*** Um caso óbvio é o das manchas solares, descobertas independentemente por Thomas Harriot, em 1610; por Johannes e David Fabricius, em 1611; por Galileu, em 1612; e por Christoph Scheiner, também em 1612.

27/04/12

Gramsci, a escopa e o futebol

No texto “Futebol e desencontros” do seu blogue A Terceira Noite, Rui Bebiano refere que George Orwell e Albert Camus, que tinham tantos pontos comuns na sua maneira de ver o mundo e de estar nele, tinham opiniões muito diferentes sobre o futebol:
(…) [S]e Orwell chegou a escrever que já existem «suficientes motivos de conflito» entre as pessoas comuns, não precisando nós, portanto, «de lhes juntar mais um, incentivando alguns jovens a darem caneladas uns aos outros, por entre os urros dos espetadores em fúria», Camus, antigo guarda-redes de primeiro plano no futebol da sua Argélia natal, pensava rigorosamente o contrário. Insistiu aliás, por diversas vezes, em que devia «seguramente ao futebol» tudo aquilo que aprendera sobre a essência do sentido ético e do compromisso humano.
Lembrei-me, ao ler isto, de uma t-shirt que tive. Foi-me oferecida por um amigo que costumava dizer (já o mencionei aqui) que o mundo havia de ser um lugar melhor, se as pessoas dedicassem à política metade do tempo que dedicam ao futebol; mas, curiosamente, ostentava um louvor do chamado desporto-rei: «O futebol é um modelo de sociedade individualista. Exige iniciativa, competição e conflito. Mas é regulado pela regra não escrita do fair play. Antonio Gramsci.»

Descobri agora que a frase da minha t-shirt é uma adaptação de uma passagem de um texto (“Football e scopone”, in Avanti!, 27 de Agosto de 1918, traduzo eu da tradução inglesa) em que Gramsci critica a mentalidade de desconfiança e trapaça que crê ser a italiana através da comparação do “desporto” nacional de Itália, o  jogo de cartas scopone, com o futebol, que ele vê como expressão de uma mentalidade capitalista progressiva:
Observem um jogo de futebol: é um modelo de sociedade individualista. Exige iniciativa, mas uma iniciativa que se mantém dentro dos limites da lei. Os indivíduos são hierarquicamente diferenciados, mas diferenciados em função das suas competências específicas, não das suas carreiras passadas. Há movimento, competição, conflito, mas são regulados por uma regra não escrita –  a regra do fair play, que a presença do árbitro recorda constantemente.
Pode suspeitar-se, enfim, ao ler a tão bonita descrição que Gramsci dele faz (com partidas lealmente disputadas, que nunca acabam, ao contrário dos jogos de scopone, com “crânios fraturados” e “cadáveres pelo chão”), que o futebol era, em 1918, muito diferente do que é agora, mas isso é outra história… 

 

20/04/12

Crónica dinamarquesa da Primavera


Tanto o sol como o cotão
têm os seus cantos favoritos.
Isso torna-se claro agora
que estão ambos de volta,
saídos da invernosa clandestinidade.

Dizem-me que a diferença entre estações do ano é mais marcada aqui no Norte da Europa que aí no Sul – talvez por as árvores serem aqui quase todas de folha caduca e por variar mais ao longo do ano a duração de dias e noites. Pode ser, mas nem por isso as pessoas do Norte conseguem demarcar com facilidade o início da Primavera. Para os portugueses é fácil: a Primavera começa no equinócio de Março, a 20 ou 21, e prolonga-se até ao solstício de 21 ou 22 de Junho. Para os dinamarqueses, que não têm esta tradição de se apoiar na astronomia, é normalmente o desabrochar de certas flores que marca o início da Primavera. O que não há é acordo sobre quais: uns indicam-me erantis, outros galanthus, flores pequeninas que suspeito que não têm nome vernáculo no Sul da Europa; e há quem me assegure que só os amentilhos das aveleiras marcam de facto o advento da Primavera. Todos, porém, celebram com grande alegria a sua imprecisa chegada.
George Orwell diz que o «culto da Primavera» surgiu de «condições físicas» concretas que «agora deixaram de existir»:
Na Idade Média, a Primavera não significava antes de mais andorinhas e flores campestres. Significava legumes frescos, leite e carne fresca ao fim de vários meses a viver de carne de porco salgada em enfumadas cabanas sem janelas. As cantigas da Primavera eram alegres (…), porque havia razão para estar assim tão alegre. Tinha acabado o Inverno, era esse o grande acontecimento*.
É certo que o ser humano sabe adaptar a sua natureza a todas as condições da Natureza. Quando o grande poeta e cantor quebequense Gilles Vigneault diz, numa canção famosa, que o seu país é o inverno e a neve, e que a sua casa é o frio, está a dar conta dum sentimento que não é, com certeza, só dele e da gente do seu país. Mas suspeito que nem o amor que aprendeu a ter pelas paisagens do Norte anula completamente no ser humano a sua origem tropical… Pode ser que, como propõe Orwell, agora que a vida é mais fácil, já não haja as razões que havia para celebrar o fim do Inverno. Mas pode ser que continue a haver, agora e sempre, alguma coisa a celebrar. Vejam: os nórdicos, que passam agora invernos mais quentes que os povos do Sul da Europa, se não celebram o fim do frio, celebram o fim da interminável escuridão. Como diz Henrik Nordbrandt, num famoso poema**,
O ano tem 16 meses: Novembro
Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril
Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro
Outubro, Novembro, Novembro, Novembro, Novembro.

Mas voltemos a Orwell. Noutro texto***, levanta ele uma questão, propriamente moral, sobre os prazeres da vida natural:
É mau ter prazer na Primavera e noutras mudanças sazonais? Para o dizer de forma mais precisa, é politicamente repreensível, enquanto gememos todos, ou, pelo menos devíamos gemer, sob os grilhões do sistema capitalista, destacar que a vida tem muitas vezes mais valor por causa do canto de um melro, de um ulmeiro amarelo em Outubro ou de outro fenómeno natural que não custa dinheiro e não tem o que os redactores de jornais de esquerda chamam uma perspectiva de classe?
E a quem ache irresponsável ou irrelevante esse prazer, porque incentiva «algum tipo de inércia política» ou porque o gosto da Natureza é «passadista, reaccionário e ligeiramente ridículo», Orwell diz que não. Pelo contrário. Afinal de contas, a sociedade ideal por que lutamos é, precisamente, uma sociedade onde possamos todos, libertos do excesso de trabalho, usufruir dos prazeres simples da Natureza. «Se dermos cabo de todo o prazer no próprio processo da vida», diz ele, «que tipo de futuro estamos a preparar para nós mesmos?» Preservar «o amor da nossa infância por coisas como árvores, peixes, borboletas e sapos» é viabilizar um futuro «pacífico e decente», diz Orwell. «Pregar a doutrina de que não se deve admirar nada a não ser aço e betão» é cultivar o escape último «no ódio e na adoração dos chefes».
É um grande salto retórico que Orwell dá, ao passar do prazer no retorno da Primavera ao prazer em «outras mudanças sazonais» – que acaba, afinal, por ser o prazer no desfrute da Natureza. Mas eu perdoo-lhe o truque e pego-lhe outra vez na palavra para a levar mais longe:
A natureza humana, ninguém sabe bem o que é. Eu compreendo que não se abandone apenas o conceito e que se continue antes a investigá-lo, porque essa natureza há-de existir. Mas do que ela é composta, insisto, ninguém sabe. Ainda assim, arrisco-me a propor que a Natureza, que é aquilo contra o qual se costuma definir o humano, é bem capaz de ocupar, afinal, um lugar fundo dentro de nós. É isso que Orwell quer dizer, não é?, quando diz «o amor da nossa infância por coisas como árvores, peixes, borboletas e sapos». É natural digo eu. Se foi nela que nos hominizámos e que vivemos durante centenas de milhares de anos, é natural que a Natureza faça parte da nossa natureza. É certo que, na formulação e construção de ideais morais e de sociedade, encontramos por vezes boas razões para contrariar o que cremos ser a nossa natureza: há instintos arcaicos, pensamos nós, que nos são inúteis hoje e prejudiciais, por egoístas e violentos; e achamos por bem renegá-los. Está muito bem. Mas não vejo que boa razão pode haver para deitar fora o nosso primitivo gosto pela Natureza – o gosto por algo de que não temos, aliás, alternativa senão cuidar.
Toca a roubar umas horinhas, vá lá então!, às muitas coisas importantes que temos de fazer e a recarregar de luz e verde a vontade de fazer uma vida melhor. Há-de haver não muito longe um pinheiral e algum charco onde mergulhe a rã de Bashô – que talvez, seja, afinal, o sapo de Orwell! Pode-se, como vi proposto, fotografar papoilas ou plantar sardinheiras. Um bucolismo qualquer, de fim-de-semana que seja, em vez de se render ao café ali em baixo. [E nas prateleiras, mais livros, para pequenos e graúdos, desses que ensinam os nomes e os hábitos de pássaros e outros animais vizinhos. Por exemplo.] Não importa muito o quê, conquanto que seja meter-se um bocadinho na vida de plantas, bichos e pedras e deixar que ela se meta em nós. Façamos de abrunheiros, cucos e sapos nossos aliados; e, como não há em Portugal nem erantis nem galanthus, com um bocadinho de imaginação pode fazer-se do cravo de Abril a flor portuguesa da Primavera.

Tåsinge, 20 de Março de 2012

[Texto publicado no número de Abril de 2012 de Le Monde diplomatique, Edição Portuguesa. Aqui como saiu no jornal, com a ortografia antiga.]
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* «Can Socialists Be Happy?», sob o pseudónimo John Freeman, Tribune, Londres, 20 de Dezembro de 1943. Traduzo eu.
** Håndens skælven i november, Gyldendal, Copenhaga, 1986. Traduzo eu.
*** “Some Thoughts on the Common Toad”, Tribune, Londres, 12 de Abril de 1946. Traduzo eu.

Árvores de chuchas [Crónicas de Svendborg #11]

As árvores de chuchas são uma tradição dinamarquesa. Quer dizer, não sei (nem ninguém sabe, pois não?) que alcance e idade precisa um fenómeno de ter para se lhe poder chamar tradição, mas digamos assim, para simplificar.
Quando chega a altura de deixar de chuchar, faz-se uma pequena cerimónia e pendura-se a chucha numa árvore. Às vezes, juntam-se várias chuchas num saquinho, depende, e é comum escrever uma cartinha de despedida, que se pendura também na árvore: “Adeus, minha amiga, minha fiel companheira de tantos anos, chegou a altura de me separar de ti…”, qualquer coisa assim.
A Wikipedia em dinamarquês tem, claro está, uma entrada “Árvore de chuchas”, mas é a página alemã "Schnullerbaum" que tem mais informação sobre esta estranha fruteira. E diz, curiosamente, que a primeira árvore de chuchas conhecida surgiu nos anos 20 do século passado aqui mesmo ao lado, na ilha de Thurø. Olhem lá tantas árvores de chuchas!

Foto: Wikimedia Commons



19/04/12

Últimas palavras

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Peço desculpa pelo atraso. Era na Páscoa que este texto ficava bem, não era?, e a Páscoa já foi há duas semanas na Europa e há 1 semana na Etiópia. Mas esta música fica bem em qualquer dia, acho eu…

A peça As Sete Últimas Palavras do Nosso Salvador na Cruz foi composta por Joseph Haydn em 1785 ou 1786. A obra foi-lhe encomendada para a missa de Sexta-Feira Santa na Catedral de Cádis. A interpretação da orquestra Le Concert des Nations dirigida por Jordi Savall, que vos proponho (vejam no Youtube, porque não tenho autorização para a mostrar no blogue), foi gravada nessa mesma catedral em 2009. Da génese da obra, disse Haydn (traduzo eu):
Há uns quinze anos, pediu-me um cónego de Cádis que compusesse música instrumental sobre as sete últimas palavras do nosso salvador na cruz. Era costume na Catedral de Cádis apresentar todos os anos um oratório pela Quaresma, sendo o efeito da apresentação muito ampliado pelas seguintes circunstâncias: as paredes, janelas e pilares da igreja era cobertos de pano negro e um candeeiro apenas, pendendo do meio do teto, quebrava a solene escuridão. Ao meio-dia, as portas eram fechadas e começava a cerimónia. Depois de um breve serviço, o bispo subia ao púlpito, pronunciava a primeira das sete palavras (ou frases) e fazia um discurso sobre ela. Chegado ao fim, saía do púlpito e ajoelhava-se diante do altar. O intervalo era preenchido com música. O bispo então pronunciava da mesma forma a segunda palavra, e a terceira e assim sucessivamente, entrando a orquestra após a conclusão de cada discurso. A minha composição estava sujeita a estas condições e não era tarefa nada fácil compor sete adágios de dez minutos cada um sem cansar os ouvintes. De facto, achei que era impossível ater-me aos limites que me eram dados.
Nelson Thorpes é um detetive de novelas de cordel, que tem, de vez em quando, ideias um pouco estranhas sobre música. A certo passo da sua primeira aventura, propõe uma atualização da obra:
O que se devia fazer era encomendar a um bom compositor contemporâneo, por exemplo a Bill Lee Bell, conhece, não conhece?, uma revisão de As últimas sete palavras de Cristo na cruz de Haydn em que, para as melodias iniciais de cada parte, se usassem, em vez da tradução latina das frases que o Cristo terá dito na crucifixação, essas mesmas frases em aramaico, que era a língua que Cristo falava. Por exemplo, o número de sílabas de Pater, Pater, dimitte illis, quia nesciunt, quid faciunt, “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem”, que é a frase a partir da qual Haydn constrói a primeira sonata, determina a frase melódica principal desse segundo andamento. Mas quantas sílabas terá “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem” em aramaico?
Enfim... Deixo-vos também um texto de José Saramago, que acompanha o disco e o DVD de Savall e que se chama “As sete palavras do homem”. É, com certeza, menos disparatado que as propostas de Thorpes e termina assim:
(...) Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espetáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?
O quadro de James Tissot que termina o post, pintado entre 1886 1894, chama-se O que o nosso salvador viu da cruz, o que me parece ter ecos haydnianos; mas podia também, muito saramagicamente*, chamar-se A crucifixação vista por Jesus Cristo.

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* Não sabia que adjetivo construir do nome Saramago, para dele fazer um advérbio, mas, de repente, saiu-me este – como que por magia…

09/02/12

A mercearia antiga e outros ideais

Há dias, uma amiga minha partilhou, no Facebook, uma fotografia – bonita, por sinal – de uma mercearia antiga, com os antigos armários de madeira, as antigas caixas para cereais e legumes secos, e as antigas bilhas de azeite, em metal; e, a acompanhar a foto, o também já muito antigo louvor bucolista da qualidade de vida e da autossuficiência dos tempos idos, destruídas pela terrível modernidade…
Quem não se lembra da mercearia da sua juventude? Eu cá, lembro-me perfeitamente da mercearia do Sr. Mário. Lembro-me bem de que escarafunchava, o sem vergonha, o narigão vermelho enquanto roubava no peso do flamengo. Do feijão cheio de bicho, que tinha de se escolher, também me lembro perfeitamente. E do toucinho sempre um bocadinho rançoso, ao gosto da altura, que remédio..., naquele alguidar de barro, dias, semanas a fio. Lembro-me das compras embrulhadas em papel de jornal, sem pagar mais pelas notícias – para quem soubesse ler... E lembro-me do carrascão do Bombarral e do azeite cheio de acidez, ambos diretamente do produtor… Mas vendiam-se bem, mais o tinto que o azeite, porque a mercearia também era tasca. E quando o Sr. Mário estava mal disposto, o melhor era nem se entrar lá, para não se levar roda do que calhasse. Mas isso era na mercearia do Sr. Mário, porque na outra que havia ao pé de minha casa, a do Sr. Manel... era ainda um bocadinho pior.
* * *
As mercearias antigas são o menos. Nem guardo rancor nenhum ao Sr. Mário, por muito trafulha e pouco asseado que fosse, e nem sequer à falta de controlo de qualidade da comida da altura. A questão é que o louvor da mercearia antiga é uma das inúmeras formas que reveste a ideologia do antigamente é que era bom. E combater a idealização do passado é uma das minhas ocupações favoritas – uma das minhas lutas, se posso dizer assim. O passado não foi tão bom como o pintam, digo eu. Digo e redigo, e continua a haver muito quem não acredite em mim…
Defendia uma vez o meu amigo Nuno, num comentário que aqui deixou, que “as nossas memórias do que foi são muito seletivas”. “Eu tenho tendência para lembrar-me das coisas boas”, dizia ele. Ele e muita gente. Toda a gente até, se calhar. Mas é bom lembrarmo-nos também do resto, para perspetivarmos melhor de onde vimos e para onde queremos ir; para repensarmos se é mesmo o passado que nos há de servir de mira quando apontamos ao futuro.
A mercearia do Sr. Mário: imagem artificialmente dourada de um passado não muito distante [Foto de Pedro Malaquias]
A verdade é que Portugal, que agora tem uma esperança de vida acima da média da OCDE, ganhou 15,6 anos de média de vida desde 1960 – é o 9º país da OCDE que mais anos de vida ganhou desde a altura em que eu era pequenino fazia compras na mercearia do Sr. Mário. A verdade é também que, quando eu era pequeno e fazia compras na mercearia do Sr. Mário, havia em Portugal 30% de analfabetos, um número muito pouco europeu, e agora há 5%, o que, sendo ainda alto, é um número bem mais apresentável. Podia dar-vos dezenas de indicadores de quanto a vida melhorou em Portugal desde o tempo da mercearia antiga, mas vocês também os podem encontrar com facilidade. É que é mesmo fácil verificar que o passado não era como a sua fácil idealização nos quer fazer crer… 
Agora, talvez o passado tivesse mesmo alguns aspetos louváveis, quem sabe?, mas quais seriam? E haverá quem queira trocar o que se ganhou em tempo de vida e de lazer, saúde, conforto, liberdade e saber por… sei lá… sardinha de barrica, bolacha americana e fava-rica?

16/01/12

Grassa a graça no paço, quando lá passo

Encontrei no YouTube um vídeo muito engraçado. É um excerto do filme de Tiago Pereira 11 burros caem no estômago vazio, de 2006. O vídeo tem interesse de muitos pontos de vista, mas, claro, para uma pessoa da área das línguas como eu, tem também interesse linguístico. Mostra-nos, por exemplo, a pronúncia de s, ç e z, ch e x no português antigo!...


Muitos reagirão imediatamente: «Mas não é português que esta gente fala!» Muito bem, assentemos que não. Não sei nada de mirandês e não consigo perceber se é mesmo mirandês que falam, ou uma mescla de mirandês e português, ou se é assim que se fala português na região, devido às interferências do mirandês. Para o que me interessa, porém, isso não importa: ouçam como estas pessoas pronunciam s, ç e z, ch e x no discurso que aqui lhes ouvimos e ficam a saber como se pronunciavam em português antigo.

Se ouvirem com a atenção necessária, verão que c e ç (pertenço, centeio, desgraçado) são pronunciados como em Lisboa (predorsodentais, chama-se em linguagem técnica) e que o s é pronunciado entre s e ch, como na Beira (ápico-alveolar). Reparem também que o z (por exemplo em fazer ou catorze), é também pronunciado como em Lisboa, ao passo que o s entre vogais (por exemplo em casa, marquesa ou ligando uma palavra à palavra seguinte, quando esta começa por vogal), tem uma pronúncia entre um z e um j do português standard moderno, como no sotaque beirão. Além disso, o x, que se pronuncia como em português standard (por exemplo, em baixo), é diferente do ch, que se pronuncia [tch] (por exemplo em chorar).

Não se sabe ao certo quando é que as diferenças que se preservam neste falar transmontano desapareceram no resto do país, mas há quem defenda que tinha começado a haver confusão entre estes sons já no século XIII e a maior parte dos estudiosos aceita que no século XVI s e c/ç, z e s intervocálico se pronunciavam já indistintamente em quase todo o país: na Beira, c/ç e z passaram a pronunciar-se como s; nos outros lugares, foi ao contrário, s passou a pronunciar-se como o ç/c e z. Como devem calcular, houve muito a gente a criticar a pronúncia das pessoas que já não distinguiam s de c nem x de ch, até que este empobrecimento se tornou norma e o que era antes pronúncia normal passou a ser exclusiva de um sotaque remoto lá atrás dos montes. É sempre assim.

07/01/12

Acordo ortográfico: quase sempre mais emoção do que observação

Encontrei no blogue Linguagista, de Helder Guégués, um excerto de um texto de José Soares sobre a nova ortografia*:
Neste Acordo Ortográfico, dito de 1990, aparecem normas e directivas que, por uma certa racionalidade conservadora, contesto. A razia que faz às letras que se não dizem ou lêem e o concomitante apagamento de alguns diacríticos produzem em mim um certo desconforto. É o caso de vocábulos até aqui terminados em -ecto, como directo, recto, tecto, etc., que agora se escrevem direto, reto, teto, etc. Ora, não conhecendo eu as novas regras ortográficas (e mesmo conhecendo-as), posso muito bem (ou muito mal) ler e dizer dirêto, rêto, têto, etc., que é assim que, predominantemente, se lêem ou dizem as palavras em -eto, como folheto, amuleto, esqueleto, etc. É que não foi revogado, nem por fundamentação pertinente da Academia nem muito menos pelo costume, a regra implícita tradicional e etimologicamente correcta do valor fonético daquela consoante c, que faz(ia) abrir a vogal precedente. Mas penso que são incontáveis as razões de reparo que o Acordo oferece. Ou será que passa a ser indiferente qualquer modo de acentuar a tónica como muito bem nos apetecer?
Surpreende-me que, havendo outras críticas que se podem fazer ao acordo, se critique sempre e apenas o desaparecimento das chamadas consoantes mudas e dos sinais que marcam aberturas de vogais. Surpreende-me ainda mais que se argumente sempre que o acordo torna mais ilógica a relação entre a escrita e a fonética, como se existisse uma relação lógica desse tipo na ortografia anterior. E surpreende-me que se argumente com base em impressões apenas. A verdade é que este tipo de argumentos é, quase sempre, tão pouco assente em reflexão cuidada e em observáveis que uma pessoa que, como eu, preze o rigor na discussão das coisas da língua tem de reagir. Senão, vejamos:

Diz José Soares que “é [com ê] que, predominantemente, se lêem ou dizem as palavras em eto, como folheto, amuleto, esqueleto, etc.”. Bom, é verdade que talvez haja uma ínfima predominância, mas tão ínfima que é falacioso apresentá-la como ele a apresenta. É que, dito assim, quem não tenha o cuidado de verificar a afirmação de José Soares (como ele próprio, pelos vistos, não teve) ainda acredita que é significativa essa predominância. E não é: fiz uma lista (forçosamente incompleta) de 133 palavras em -eto, e 65 têm o som [é] – o [ê] ganha por 3**!…

É impossível fazer uma lista definitiva de vocábulos em -eto, e, conforme a lista que se faça, a percentagem de palavras com [é] variará ligeiramente. Por outro lado, muitos falantes do português hesitam na pronúncia de algumas palavras em -eto, sobretudo as muito raras, e há, como sempre, variações socioletais e dialetais nas pronúncia desta palavras. O que é prudente afirmar, porém, não é o que José Soares afirma, mas sim que há sensivelmente o mesmo número de palavras terminadas em -eto com [ê] e com [é]. Além disso, alguns dicionários consideram [é] a pronúncia não marcada, porque assinalam as formas com [ê] e eu acho estranho que isto, por muito que nos pareça decisão discutível (a mim, parece-me), não mereça reparo de quem escreve sobre o tema…

Mas voltemos à suposta predominância de -[êto] relativamente a -[éto]. Na lista que fiz, o que faz pender ligeiramente a balança para o lado do [ê] são os nomes com o sufixo eto (28 na minha lista): brometo, cloreto, dueto, terceto, etc. Se analisarmos por categoria, vemos que os adjetivos têm maioritariamente [é] (as exceções são obsoleto, palheto e preto, e os raríssimos peto e careto) e, nas formas verbais, há também uma claríssima maioria de [é]. Não fossem os verbos da família de meter (prometer, submeter, remeter, etc.) e seriam uma esmagadora maioria.

Quanto a teto, é curioso, existem já duas formas, teto, a língua, e teto, forma rara, variante de teta, com pronúncias diferentes do e, pelo que tecto sem c apenas se torna igual a uma delas…

O que é estranho neste tipo de críticas*** é que há nelas implícita uma proposta de outro acordo ortográfico e surpreende-me que ninguém proponha explicitamente o que se deduz forçosamente do texto de José Soares: se a forma natural de ler a sequência -eto em final de palavra é [êto], e se directo não deve passar a ser direto, porque assim se passa a ler [dirêto], então completo, concreto, quieto, decreto e neto (e mais 60 palavras, na minha lista forçosamente incompleta) devem passar a escrever-se complecto, concrecto, quiecto, decrecto e necto, para se lerem como já se leem. Ou complepto, concrepto, quiepto, decrepto e nepto, não sei… E, de facto, uma destas forma justifica-se etimologicamente: nepto. É assim que, muito provavelmente, alguns acham que se deveria escrever, mesmo que nunca o digam – pelo menos, aqueles que acham que óptimo não deve perder o p etimológico…
_______________

*Situações incómodas em português”, in Público, 6.01.2012). Muito haveria a dizer sobre outras partes do texto de José Soares, mas limito-me aqui a comentar esta passagem.

** Eis a lista de palavras, feita a partir de uma lista obtida no site Poeta Vadio, Dicionário de Rimas: abeto, aboleto, acarreto, acolcheto, acometo, adieto, afreto, alfabeto, alfineto, amuleto, analfabeto, aquieto, arboreto, arremeto, arreto (n.), arreto (v.), asseto, atapeto, avioleto, beto, bisneto, breveto, brometo, calafeto, calceto, carapeto, carboneto, carbureto, careto (v.), careto (n.), carreto, cateto, cianeto, cloreto, cometo, completo (a.), completo (v.), comprometo, concreto, coreto, correto, decreto (n.), decreto (v.), derreto, descloreto, descomprometo, desinquieto, desinquieto, despoleto, discreto, dueto, embarreto, enceto, engaveto, espeto (v.), espeto (n.), espoleto, esqueleto, etiqueto, excreto (a.), excreto (v.), excreto (n.), faceto (n.), faceto (v.), feto, fileto, fluoreto, folheto, fosforeto, freto, garaveto, gaveto, gineto, graveto, greto, gueto, halogeneto, hidrocarboneto, incompleto, indiscreto, inquieto (a.), inquieto (v.), interpreto, intrometo, iodeto, irrequieto, jogueto, lanceto, largueto, libreto, maceto (v.), maceto (n.), magneto, marreto, meto, neto, neutreto, obsoleto, octeto, palheto (n.), palheto (a.), panfleto, paracleto, peto (n.), peto (a.), pirueto, poemeto, preto, prometo, quarteto, quieto, quinteto, reenceto, reinterpreto, remeto, repleto, retroceto, secreto, semianalfabeto, septeto, sexteto, soneto, submeto, sulfureto, telureto, terceto, teto (n. 1), teto (n. 2), tetraneto, vegeto, veto (v.), veto (n.), xereto.

*** Neste tipo de críticas, sublinho, isto é, nas críticas que assentam no pretenso desaparecimento de uma lógica fonética da ortografia pré-acordo. O que digo aqui não se aplica a uma crítica ao desaparecimento das consoantes mudas que se baseie na ideia de que só se deve legislar se houver necessidade de legislação e que, portanto, este acordo não deve existir, visto que não há necessidade de alterar a ortografia.

Cego pela luz que tudo ilumina

E eis que me decido a concretizar uma ideia que tenho há algum tempo anotada num ficheiro chamado Travessa do Fala-Só 6, um bloco de notas digital em permanente atualização: Apresento-vos aqui em contraste dois clássicos da canção popular americana, para ver se ganham sentidos novos pela justaposição. Ou para ver qual deles tem mais capacidade de ganhar sentidos novos consoante o contexto. Ou para se ver que há textos que ganham mais facilmente sentidos novos, enquanto outros tendem a exigir-nos leituras literais... E enriqueço a apresentação com uma passagem de Heterodoxia I de Eduardo Lourenço (Coimbra: Coimbra Editora, 1949), que lhe assenta que nem luva e que encontrei num dos meus blogues favoritos:
Os que se recusam à escolha, os eternos descobridores dum terceiro caminho que não existe em parte alguma (segundo as ortodoxias), os heterodoxos absolutos, devem ser destruídos quando o combate chegar. Assim pensava já o velho Sólon, a sabedoria laica de Atenas. Devem ser destruídos agora mesmo, que o combate, a luta pela verdade, está travada desde sempre. Não há lugar para os heterodoxos. Eles são incomensuráveis com Deus, com a Pátria, com o grupo, com a família, com o amor, com eles próprios. Abandonemo-los então à sua divisão tão amada e que pereçam, pois são o reino dividido em si mesmo de que fala o Evangelho. Inimigos do género humano.
Assim pensava Juliano dos cristãos e S. Domingos dos albigenses. Assim pensava Marx dos burgueses e os burgueses de Marx. Assim pensa Churchill dos comunistas e os comunistas de Churchill. Assim pensa todo o homem que possui certezas absolutas de outro homem que as nega (…).
A heterodoxia é a humildade do espírito, o respeito simples em face da divindade inesgotável do verdadeiro. Resistamos à ilusão de supor que tudo pode ser inundado de luz. Deixaríamos de ver.
Hank Williams, “I saw the light”, 1948
“Acabou-se a escuridão, a noite chegou ao fim. Agora sou tão feliz, sem a dor dentro de mim.”



Bruce Springsteen, “Blinded by the light”, 1973
“No sinal, tens de virar; depois, em frente, rapaz, até a noite chegar: é sozinho que tu estás"

25/12/11

Do topo verde da árvore, uma cantiga de Natal [Crónicas de Svendborg #10]

Peter Faber nasceu em Copenhaga a 7 de outubro de 1810 e morreu nesta mesma cidade a 25 de Abril de 1877. Foi diretor dos telégrafos, um dos primeiros fotógrafos da Dinamarca e poeta.

A primeira fotografia dinamarquesa, um daguerreótipo da Ulfeldts Plads, foi tirada por Peter Faber em 1840 (Wikimedia Commons)
Bem veem, para se ser poeta não é preciso ser-se mais alto, nem morder como quem beija, nem ter por elmo manhãs de oiro e de cetim, basta fazer versos – e podem perfeitamente ser versos despretensiosos, a falar da vida prática das pessoas normais, e serem até cantados em cantigas famosas. A cantiga mais famosa que Peter Faber escreveu é conhecida agora pelo primeiro verso, Højt fra træets grønne top, “Do topo verde da árvore”, e é uma canção que se canta em todas as consoadas sem exceção. É, aliás, uma cantiga tão importante que a casa onde Peter Faber a escreveu, no centro de Copenhaga, ostenta uma placa a anunciar precisamente isso, que foi ali que a cantiga foi escrita. Para não alongar demasiado este texto (ou por preguiça apenas, quem me conhecer decidirá, consoante a ideia que tenha de mim) traduzo apenas a primeira, a quarta, e a oitava e última estrofes da famosa canção, esperando não desvirtuar demasiado, pela omissão do resto, o seu conteúdo.
No topo verde da árvore / brilha o esplendor do Natal; / toca a tocar, tocador / que a dança começa agora! / Anda, dá-me a tua mão, / não mexas nas passas de uva – / primeiro, dança-se e canta-se, / só depois é que se come! // [...] Não descansa a Anna enquanto / as prendas não receber: / quatro varas de lã pura / para um casaco de inverno. / Que cara me sais, menina!... / Mas, como coses tão bem, / acabamos por poupar, / não é verdade, filhinha? // [...] Crianças, já estou cansado, / já não vos dou nada mais. / A mãe está ali na cozinha, / ela que vos sirva agora / que é para isso esta bolsa, / vejam que pesada está! / Tanto que dura o Natal, / e o dinheiro que ele custa!
A edição original de 1848 da canção tem o título “A árvore de Natal, canção infantil de P. Faber composta para pianoforte por E. Horneman”. O que eu acho interessante na canção é o seu espírito despudoradamente prático – alguns dirão até um bocado avarento...–, com esta insistência um pouco incomodativa no facto de a magia da quadra natalícia custar muito dinheiro. Uma verdade simples, que, ficamos então a saber, já o era em 1848.

Poul Reichhardt, "Højt fra træets grønne top", 1944

17/12/11

Conto de Natal

[Este texto é uma versão revista de uma passagem das minhas Crónicas do Alto Molócuè, umas cartas coletivas que escrevia aos amigos, quando morava na Alta Zambézia.]

A história passa-se no Alto Molócuè, em Moçambique, no ano de 1997. Estava combinado um jantar com uma malta lá da terra e a Karen queria fazer uma coisa típica dinamarquesa, com almôndegas e velas e tudo. Então, lembrou‑se que tinha ali uma caixa com uns enfeites de Natal, que uma cooperante dinamarquesa lhe tinha dado um ano antes, quando ela tinha chegado a Moçambique. A caixa tinha estado uns dois meses na sala de estar da guest‑house da organização para a qual a Karen trabalhava, em Quelimane, e depois ela tinha-a levado lá para casa e tinha-a posto no quarto que me servia de escritório, a um canto.

Agora vejam lá: quando abrimos a caixa, vimos que, além de bolinhas e coraçõezinhos brilhantes, estava lá também um envelope com 1508 dólares americanos, qualquer coisa como 1150 euros ao câmbio atual! De quem seria o dinheiro?

A Karen pegou no telefone de satélite que tínhamos para emergências (ainda não havia telefone no Alto Molócuè nessa altura) e telefonou para a Dinamarca, à rapariga que lhe tinha dado as decorações de Natal, para saber se lhe tinha desaparecido muito dinheiro. Mas não. Quando a Karen lhe contou a história, a rapariga explicou‑lhe que a caixa nem era dela. Tinha estado dois anos em casa dela, mas ela nem sequer a tinha aberto. Tinha-a recebido de um casal de dinamarqueses que tinha morado naquela casa antes dela, que, por sua vez, a tinha recebido de outro casal de dinamarqueses que tinha lá morado antes... Era impossível saber de quem era o dinheiro. De maneira que…

…um Natal cheio de caixas destas, ora aí está o que eu vos desejo!
*

De como as cantigas se podem entender ao contrário de como eram para ser entendidas – ou talvez não

Nas letras das canções portuguesas, predomina o lirismo e a língua padrão. Não são comuns as canções narrativas, que se encontram amiúde noutros países, e não se usam, no geral, os registos coloquiais e o calão, também ao contrário do que acontece noutras tradições que conheço. Houve, ainda assim, na canção humorística portuguesa, e sobretudo na canção de revista, algum uso do linguajar popular. É um estilo de cantigas que passou definitivamente à história, creio eu, como passaram à história os modismos usados nessas mesmas cantigas. Foi também recorrente na canção humorística o tema da traulitada – que, infelizmente, era também recorrente na vida de muita gente e que não sei até que ponto já terá também passado à história. E é precisamente de duas canções sobre porradaria e em linguagem pouco culta que vos quero aqui falar.

Uma canção que, na minha opinião, merece destaque dentro deste estilo e desta temática é o “Fado do Ganga”, um fado-canção com refrão que Estêvão Amarante cantou pela primeira vez em 1916, na revista O Novo Mundo*:
Meus amigos, esta vida, / p’ra quem lida / a moirejar cá na roça, / é uma grande assubida / que se leva de vencida / como quem puxa a carroça. / Quando a gente desanima / e a coisa vai a parar, / atão adeus ó vindima, / se não vai chicote acima, / semos uns home’s ao mar. / (…) No que respeita à sussistência, / a vocência / um inzemplo vou dar já: / quer a gente açúcar, pão, / bacalhau, arroz e grão, / dizem eles que não há. / Esta léria d’intiquetas / já não dá nem p’ò pitróleo! / Deixa-se a gente de tretas, / é sopapos e galhetas, / e acabou-se os manipólios! (…) Por isso eu digo, / ó meu amigo, / qu’este assistema / é inficaz: / é pruparar /p’a l’a pregar, / c’a mão no ar / e um pé atrás.
O refrão tem uma parte perfeitamente lamentável: “chego-me à besta e zás, / a traulitada inté fumega, / à companheira e pás, / vai dois borrachos para a sossega.” É claro, pode considerar-se que se trata apenas da denúncia realista de um facto da sociedade daquele tempo (que, não o esqueçamos, está infelizmente muito longe de ter passado à história). Mas o próprio facto de se usar a violência doméstica como situação humorística implica forçosamente que se espera de quem ouve a cantiga uma aceitação tal dessa realidade que não bloqueie o humor (já uma vez aqui falei disto).

A canção foi mais tarde gravada por Carlos Ramos e teve algum sucesso.



Não consigo descobrir quando Carlos Ramos gravou e fez reviver o “Fado do Ganga”, mas foi provavelmente nos anos 50, ou até 60, e pergunto-me a mim mesmo como foi entendido na época aquele documento da Primeira República, em que, a brincar, a brincar, se fazia uma apologia clara da insurreição individual ou até mesmo da violência revolucionária. Não é impossível que tenha sido interpretado como testemunho de uma revolta contra a situação “provocada pela  anarquia da Primeira República” que o Estado Novo teria vindo “resolver”. Não sei. A terceira parte do fado, porém, que falava da primeira guerra mundial, não faço ideia se por ter sido censurada ou se por outra razão qualquer, não aparece na versão de Carlos Ramos. E praticamente desapareceu. Vi-a escrita uma vez, era eu rapaz novo, e depois, por muito que a tivesse procurado muitas vezes, nunca a consegui encontrar em lado nenhum, até, que em janeiro deste ano, apareceu finalmente na Internet, no blogue Fado Cravo, de uma senhora chamada Fadista. Diz assim a parte da letra que Carlos Ramos não canta:
Na guerra dos alimões / co’as nações, / tem um exemplo de estalo, / pois, no fim desta embrulhada, / o que der mais traulitada / é que há de cantar de galo. / E quando chegar o dia / em que a gente for p’rà guerra, / então, adeus ó Turquia/, a Alimanha mais a Austria / lá vão de ventas à terra. // Vai-se a Verdun e pum, / arma-se um grande trinta e um; / vai-se a Berlim e pim, / há banzanada até ao fim.
Beatriz Costa cantou em 1936, na revista Arre Burro, um curioso fado que tem a mesma nobre temática da traulitada, banzanada, chinfalhada e trolha, se se pode dizer assim, e que, à primeira vista, parece ser também uma música de propaganda da “paz salazarista”, mas que talvez não o seja de facto, não sei… O “Polícia 17”** refere o tempo anterior ao Estado Novo como um tempo de pancadaria, pancadaria essa que, segundo o fado, se perpetuava nos países que não tinham tido a sorte de ter um pacificador tão eficaz como o nosso. Depois de uma introdução declamada (em que Beatriz Costa incarna um polícia “de outros tempos” que diz que na República anterior a 1926 andava tudo à pera e a levar cachaporrada da polícia), a letra da cantiga propriamente dita explica que
desde a Abissínia ao Japão / aquilo hoje é pão, / só há trinta e um
e que o trinta e um
chegou à Rússia e à China / em Espanha domina / e chega a Irún (…) Vai-se a Pequim, / trinta e um, há chinfrim, / vai-se a Ceilão / trinta e um, revolução, / vai-se a Nanquim, / trinta e um, há motim, / vai-se a Aragão, trinta e um, cachação. / O trinta e um / hoje em dia é comum, / é tudo a dar, a cascar, a arrear! / Ai, Portugal, é que é só conversar, / falazar, falazar…
Sendo falazar uma palavra tão incomum, o ouvinte desprevenido ouve imediatamente «Salazar, Salazar», e era provavelmente isso que os autores queriam que se ouvisse. Era provavelmente essa a moral da cantiga: que em Portugal não havia trolha, só conversa, graças ao Salazar, Salazar.

Ainda assim, sempre pensei eu, que já conheci a canção fora do seu período histórico, a letra pode facilmente interpretar-se (independentemente da intenção dos autores) como sendo muito irónica e ouvir-se o fado como uma crítica à censura: a única conversa que se podia ter em Portugal era a conversa de chacha***. Que vos parece?


_______________

* O “Fado do ganga” é da autoria de João Bastos, Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes. Foi gravada em Nova Iorque, em 1919, uma versão deste fado por António Gomes.
** Às vezes também referido como “Fado do 17” ou “Fado do 31”, música de Fernando de Carvalho e letra de Alberto Barbosa, José Galhardo et al.
*** No texto “L’humour como vengeance”, Fernanda Menéndez realça o contraste entre Falazar = falar demais e Salazar = proibição de falar. («L’Humour comme Vengeance» in Marillaud, Pierre et Gauthier, R. La vengeance et ses discours (Actes du XXVIème Colloque d’Albi), CALS /CPST – Toulouse, Université de Toulouse-Le Mirail, 2006, pp. 197-206.

12/12/11

Amores fatais (incluindo o de Elvira Madigan e Sixten Sparre [Crónicas de Svendborg #9])

Quando Matteo Bandello, lá por meados do séc. XVI, contou pela primeira vez a história de Romeu e Julieta, não podia imaginar a fortuna que a história viria a ter, sobretudo depois de ter passado pela pena mágica de William Shakespeare, meio século depois; não podia saber que, pelo menos no chamado mundo ocidental, a história dos seus jovens amantes se tornaria o maior mito do amor – o que, se calhar, quer dizer (é o que defendem alguns) que o amor é tendencialmente assim, trágico, suicida, impossível…

Seja como for, o próprio dos mitos é serem exagerados para serem exemplares, de maneira que, na vida real, é raríssimo as coisas tomarem as proporções extremas que nos mitos têm. No entanto, por muito que raro, pode acontecer. Conheço um caso verdadeiro que é uma versão vivida da história de Romeu e Julieta. Ou quase. Eu conto-vos como as coisas se passaram, para julgarem vocês mesmos de semelhanças e diferenças:


Quando se conheceram, algures entre Alcântara, de onde ela era, e a Tapada da Ajuda, de onde era ele, a Verónica tinha de 16 para 17 anos e o Rodrigo 18 acabados de fazer. A Verónica tinha uma família normal, com pai, mãe e uma irmã dois anos mais nova que ela. O Rodrigo era órfão de pais e vivia, desde os 8 anos, com um avô viúvo. A Verónica e o Rodrigo eram adolescentes vulgares da classe média e tinham os dois, até se conhecerem, uma existência relativamente despreocupada. Agora, de repente, deram por si mais apaixonados do que aconselharia o bom senso, a vida prática. Para saberem o que eles sentiam, lembrem se do que sentiram nas alturas da vossa vida em que a paixão vos fez sentir que corriam perigo, pensem nas alturas em que a paixão vos inspirou o mesmo respeito que uma trovoada grande mesmo por cima de vocês, relâmpago e trovão coincidentes. Se nunca tiverem tido essa experiência, então paciência, não podem saber o que sentiam a Verónica e o Rodrigo.

Deixaram o mais possível de fazer fosse lá o que fosse que os impedisse de estar juntos: deixaram de ir à escola, de estudar, de chegar a horas a casa. No caso da Verónica, porque era menina e tinha a tal família normal, o amor deu bronca. Uma bronca que se tornou insustentável, com as negativas e as faltas do primeiro período: o pai normal que ela tinha proibiu-a, como era normal num pai assim, de ver o Rodrigo. A Verónica, muito normalmente também, não cumpriu:

“Temos de conversar muito bem os dois. As coisas não podem continuar assim. Temos de tomar grandes decisões, temos de deixar claro o que queremos um do outro e da nossa vida.”

As conclusões da longa conversa que tiveram uma tarde no quarto do Rodrigo, depois de fazerem amor, foram as que, cada um por seu lado, comunicaram com firmeza, ela à sua família normal, ele ao avô:

“Tomámos uma decisão e não há nada que nos possa fazer voltar atrás: vamos casar-nos e vamos viver juntos.”

O pai e a mãe da Verónica não deram consentimento para a filha menor se casar. As cenas sucederam-se entre o pai da Verónica e a filha, e também entre o pai da Verónica e o Rodrigo, mas eram cenas que impressionavam pouco aquela Alcântara tão habituada a cenas. E, por mais que a vigilância da família da Verónica aumentasse, continuavam a arranjar maneira de passar um no outro, se se pode dizer assim, longas tardes de amor.

O quarto do Rodrigo era num primeiro andar de uma casa de dois pisos que o avô tinha herdado do bisavô e que este tinha já herdado do tetravô. A mobília e a pintura do quarto eram antigas, já escamadas, e davam ao quarto um ar triste, pesado, tal e qual como se ia tornando, cada vez mais, o amor que lá viviam. Sentiam-se velhos com aquela idade. O quarto tinha uma porta para uma varanda pequena, que dava para um jardim muito bonito, com tamareiras e vários tipos de flores, mas nunca iam à varanda para não serem vistos e para não arranjarem, dessa maneira, mais problemas que os que já tinham, e então sentiam que a vida deles era assim, precisamente, com uma porta que dava para um jardim, mas que não se podia abrir. E um dia decidiram que era melhor matarem-se que continuar a viver assim.

Há muito tempo, antes de a Igreja ter imposto a sua condenação oficial do suicídio, que acabou por ter letra de lei em vários países, não era preciso ir ao longínquo Japão para ver o gesto da autoaniquilação encarado como sendo de honra e de coragem. Quando Zénon Ligre, personagem de um famoso romance de Margarida Yourcenar, chegou à conclusão, ao cabo da sua mística busca, que a única maneira de partilhar de alguma forma o poder divino era decidir, pelo menos, o fim da vida, já que no resto não tinha podido mandar, estava apenas a chegar uma conclusão a que Séneca tinha já chegado antes dele: o suicídio pode ser o último ato de liberdade do ser humano.

Imaginem como se deve ter sentido o avô do Rodrigo quando entrou no quarto dele e deu com o neto e a Verónica nus na cama, um ao lado do outro, de barriga para o ar, pernas e braços ligeiramente abertos e o rosto virado para cima, olhos fechados, ambos com o peito coberto de sangue, que lhes vinha de dois buracos grandes, abertos a facalhão de cozinha, à altura do coração. O Rodrigo tinha a faca espetada no peito, mas ainda estava vivo. A Verónica estava já fria.

O Rodrigo sobreviveu – a faca não lhe tinha atingido o coração. Mal lhe foi dada alta, foi julgado pelo assassinato da Verónica.

“Assassinato! Eles são doidos! Porque é que falam de assassinato?”

Foi, evidentemente, considerado culpado e passou cinco anos na prisão. Só o conheci depois disso. Era um rapaz afável e não se lhe notavam, no trato quotidiano, marcas nenhumas do drama por que tinha passado. Mas devia tê-las, porque não vejo que se possa passar por uma coisa assim sem ficar marcado na alma por cicatrizes gémeas das que a faca lhe deixou no peito.

***

Uma das atrações da ilha de Tåsinge, onde vivemos, é ter sido o cenário de uma famosa história de amor fatal. Esta não a conto eu, faço apenas uma adaptação resumida, da entrada Elvira Madigan da Wikipédia em dinamarquês:

Elvira Madigan era o nome artístico de Hedvig Antoinette Isabella Eleonore Jensen, nascida em 1867 em Flensburg, na Alemanha. A mãe de Elvira, Eleanora, era finlandesa e o pai, Frederik, dinamarquês. Conheceram-se no Cirque du Nord, onde ambos trabalhavam, ela como funâmbula e ele como acrobata. Frederik morreu quando Elvira tinha dois anos. Eleanor trabalhava nessa altura no circo François Loissset onde conheceu o americano John Madigan, com quem começou a viver. John era domador de cavalos e ensinou Elvira a montar. Elvira fez a sua estreia no circo aos cinco anos de idade.

Em 1879, John e Eleanora fundaram o seu próprio circo, o pequeno Circo Madigan, onde Elvira e uma meia irmã atuavam como "irmãs Elvira e Gisella Madigan", ambas dançando na corda bamba. O circo fez uma turnê na Escandinávia e, em 1886, deu um espetáculo no Tivoli, em Copenhaga, para o rei Christian IX, que premiou com uma cruz de ouro cada artista. O circo teve um grande sucesso com as suas duas bailarinas funâmbulas e deu espetáculos em várias cidades europeias: Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Amesterdão e até Odessa.

Em 1888, o circo chegou a Kristianstad, na Escânia, Sul da Suécia, onde Sixten Sparre, nobre sueco e tenente do Regimento de Dragões da Escânia,  assistiu ao espetáculo. Ficou imediatamente tão fascinado com a jovem Elvira que voltou quase todas as noites, e outra vez no verão seguinte, quando o circo estava em Ljungbyhed. Elvira e Sixten começaram uma relação, que tiveram de manter secreta: Sixten era casado e tinha dois filhos.

Continuaram em contacto por carta até 22 de junho de 1889, quando o circo chegou a Sundsvall, no Norte da Suécia. Elvira tinha à sua espera uma carta de Sixten em que ele lhe dizia que se tinha divorciado e que esperava por ela na estação de Bollnäs. Elvira empenhou as joias e fugiu. Sixten também tinha desertado do regimento. Foram para Estocolmo, donde seguiram, de comboio, para Copenhaga e depois para Svendborg. Alojaram-se aí num hotel, apresentando-se como um casal em lua de mel.

A 15 de julho de 1889, chegou a Svendborg o Circo Bergman. Com medo que os reconhecessem, Elvira e Sixten foram para Troense, um aldeia na ilha de Tåsinge, onde ficaram numa pensão. Entretanto, acabou-se-lhes o dinheiro. Sixten enviou um telegrama à família a pedir mais dinheiro, mas a família não acedeu ao pedido. A 20 de julho, Elvira e Sixten disseram que iam dar uma volta pelo bosque e levaram consigo uma cesta de piquenique. Em Nørreskoven, no meio da floresta, Sixten matou Elvira a tiro, matando-se a si próprio a seguir.

O jornal Øresundsposten de 25 de julho de 1889 descreveu desta forma os últimos momentos do casal:
Depois d[e saírem da pensão], só foram vistos em vida num casa de Nørreskov, onde pediram um copo de água. Daí, continuaram por um terreno pantanoso, até chegarem a uma clareira onde merendaram sob as faias. O cesto da comida estava vazio. Estavam deitados numa manta e tinham com eles um guarda-chuva e um guarda-sol. Sixten estava à esquerda de Elvira e o tiro tinha-lhe atingido a têmpora direita. Elvira tinha sido atingida por um tiro do mesmo revólver na têmpora esquerda. Era óbvio que Sixten tinha disparado sobre ela e depois sobre si mesmo, porque ela tinha os braços cruzados sobre o peito e ele estava deitado de braços estendidos ao lado dela, com a arma. Tinham ambos uma expressão bastante calma no rosto.
O casal está sepultado no cemitério de Landet.

Uma maneira de descrever com bastante rigor os sentimentos de Verónica e Rodrigo, e Elvira e Sixten é esta que usa o grupo de teatro Baggårdteatret, de Svenbdborg, na apresentação em video da sua peça Elvira Madigan.



A história de Elvira Madigan e Sixten Sparre não é, pelos vistos, conhecida apenas na Escandinávia: descobri na Wikipedia que o grupo britânico Mr. Fox a pôs em rima e lhe deu uma melodia.

Mr. Fox, “Elvira Madigan”, 1971


Elvira was a circus girl who walked the tightrope bravely.
She travelled through Europe, and she knew what men were for.
He was in the cavalry, wore braid upon his tunic;
A handsome bearded horseman, who had never been to war.

CHORUS
You would say, if you met them, they were golden eyed children,
For the one thing they wanted they gave up health and fame.
God help Elvira, and God help her lover,
And God help anyone who tries to do the same.

He left his wife and children in the regiment behind him,
Stripped the braid from his tunic, tossed his buttons on the ground.
She left the roaring crowds and the lights of the circus
To go with a deserter and run from town to town.

And many's the time they thought they'd found their safety,
A room to love and shelter from the wind and the rain.
But a knock on the door, a face at the window,
And many's the time they were on the move again.

CHORUS

She sold her last possessions and bought a loaf and butter.
He robbed a henhouse, and they left once more to roam.
In the middle of a meadow they both sat down to picnic,
When he touched Elvira she was cold as a stone.

Elvira knew that the pistol was hidden in the basket.
She whispered to her lover, “Make it soon, make it soon,”
Elvira chased the butterfly and caught it in her fingers,
She fell from the tightrope and the audience went home.

CHORUS

07/12/11

Um bocadinho de publicidade

[Isto é um re-post sem querer. Corrigi umas coisas num post antigo e ei-lo que me aparece aqui de repente. Bom, já que aqui está, pois que fique...]

Deixo-vos aqui as primeiras 1500 palavras do primeiro conto do meu livro de contos faz de conta que histórias, a ver se acham alguma graça e ficam com vontade de ler mais. Se não, comprem na mesma...
Lindegaard, Vítor, faz de conta que histórias. Lisboa: Campo da Comunicação, 2010. ISBN: 978-972-8610-94-4

“Silêncio” (excerto)
Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança e que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais, toda a terra e todos os pequenos animais que se movem sobre a terra!»
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou.
Estes versículos 26 e 27 do livro da Génese, que a tradição atribui a Moisés, tratam um mistério tão fundamental que não podem senão abrir-se generosamente a qualquer proposta de interpretação. Eis a de Venmani Tirunal Patire, o protagonista da curiosa história que vos quero dar a conhecer:
Tudo o que é exclusivamente humano foi directamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina! E a quem me peça que explique o que quero com isto dizer, respondo da forma mais clara que sei: isto quer dizer, por exemplo, que Deus sabe construir vasos e fortificações, mas não compreende as línguas da serpente ou do leopardo.
Noutros tempos e noutros espaços, esta heresia teria sido ferozmente combatida tanto pela espada como pela pena, como o foram outras semelhantes, mas as notas em que Venmani Tirunal Patire dá conta das crenças de base da sua fé foram escritas em 1732, na ecuménica cidade de Trivandrum, onde não chegou nunca a fúria da Roma, e, muito provavelmente, nunca foram sequer dadas a conhecer a ninguém.
De Venmani Tirunal Patire, pouco se sabe, e nada com absoluta certeza. Tudo leva a crer que tenha sido cristão da antiga igreja de Malabar, diz a lenda que fundada pelo apóstolo Tomás, e que, na altura em que Venmani Tirunal Patire viveu, estava oficialmente unida com o rito sírio, embora as suas notas revelem uma completa dissidência relativamente aos dogmas dos cristãos do Sul da Índia. Sabemos, porque no-lo diz, que foi estudante de música, e isso leva-nos a concluir que deve ter estudado a tradição musical carnática, que, mesmo para um cristão, era, naquele tempo, a única música que se podia estudar na região. Terá também sido, como todas as pessoas cultas daquela época e daquele lugar, senhor de alguma fortuna pessoal, pelo menos se foi mandado construir por ele o mausoléu onde foram encontradas as notas que aqui refiro e que são tudo o que dele nos chegou. O estranho mausoléu, recentemente descoberto e escavado por arqueólogos ingleses, é completamente atípico na região. Não tem, aliás, parecenças com os mausoléus de nenhuma outra tradição: é constituído por três cúpulas de pedra, semiesféricas, concêntricas e muito estanques, que se sobrepõem e que, provavelmente, eram subterrâneas quando foram construídas. Os textos, escritos numa forma ligeiramente arcaica de malaialame, encontravam-se dentro de uma caixa bem selada de madeira dura, como se lhes tivesse sido destinada a sorte que realmente tiveram, a de virem a ser achados séculos mais tarde. Junto da caixa, um esqueleto com três séculos de um homem que se supõe ser o autor das notas, o próprio Venmani Tirunal Patire. São os próprios textos que, como verão, levam a essa suposição.
Ao contrário do que possa fazer-nos esperar a nota introdutória que transcrevi acima, o resto do texto de Venmani Tirunal Patire é mais narrativo do que ensaístico. E, também ao contrário do que acontece na primeira nota, ao pé da qual há a menção clara «cidade de Trivandrum, no ano de 1732», na segunda parte do texto, que parece ter sido escrita toda na mesma altura, não há qualquer referência à data da sua redacção. Quanto ao local em que foi escrito, o texto indicia, como verão, que terá sido o próprio mausoléu em que foi encontrado. E cumprida que é a minha função de apresentador, dou a palavra a Venmani Tirunal Patire:
"Quando me surgiu pela primeira vez a questão a cuja resposta havia de dedicar o resto dos meus dias – Qual é a música de Deus? –, antes de me preocupar em clarificar a questão que se me punha, enveredei pelo caminho mais óbvio para o estudante de música que eu era: embrenhar-me nas obras dos grandes músicos, as obras escritas com Deus na alma e no coração. Tinha já a certeza, que conservo, de ser a Música um dos atributos divinos que, como a Mente, a Palavra e a Sabedoria, Deus tinha directamente oferecido aos homens para eles serem à Sua imagem e semelhança. Toda a música é, então, em certa medida, de Deus, mas, pensava eu, devia haver uma música mais divina do que todas as outras, uma música mais próxima da sua origem celestial, e essa não podia ser senão a música dos grandes mestres. Vim a decidir, no entanto, ao fim de algum tempo de intenso estudo, que assim não era – por bela que fosse, essa música era demasiado humana, sentia eu, para ser a música de Deus.
Confesso que me senti algo desesperado: a música que eu conhecia, apesar de ser a melhor de todos os tempos, era uma imagem tão distorcida do atributo divino original que o seu conhecimento me era totalmente insatisfatório. Sentia que era preciso ir mais longe, mas não sabia como. Durante muitos anos não atinei com vislumbre que fosse de resposta à questão que me obcecava. Em vez de resposta, foram mais questões que se me vieram colocar. Eu procurava a música de Deus, mas o que queria eu dizer com «a música de Deus»? Música de Deus é a música, inacessível aos ouvidos dos mortais, que d’Ele emana, como, para alguns, d’Ele emana o excedente da sua superabundante grandeza?; ou música de Deus é a música por Ele inspirada aos homens, como, para outros, foi inspirada por Ele, em sonhos ou em fugazes materializações do Seu inconhecível Ser, a palavra dos livros sagrados?; ou a música de Deus é a música que, produto de esforçados anos de estudo e entrega dos mais sábios humanos, embora de humana origem, nos dê do Ser Divino a compreensão mais exacta que a criatura possa ter do seu criador? Não sabia e não sabia a quem perguntar. O meu mais querido amigo, única pessoa com quem eu partilhava a excitação e o fracasso da minha busca, aconselhava-me a desistir dessa tarefa que, dizia ele, não estava ao alcance de nenhum ser humano. Pensar que se podia aceder à música de Deus não era, só por si, uma blasfémia? Talvez, mas eu não era suficientemente forte nem para desistir nem para encontrar uma via plausível. Pensei, como alguns correm o mundo à procura do rio que lava todos os pecados ou da fonte cuja água serve de remédio para todas as doenças, percorrer os caminhos da terra à procura de outras músicas mais divinas, que talvez existissem para além das montanhas ou do outro lado dos mares. Mas no fundo de mim duvidava, sem saber bem porquê, que pudesse vir a encontrar, noutra parte do mundo, essa música que satisfizesse a minha ânsia de perfeição, e acabei, assim, por nunca empreender tal viagem.
Foi, no entanto, uma viagem que veio revelar-me o que hoje me parece tão óbvio que custa a perceber como demorei tanto tempo a descobri-lo. Um dia recebi em minha casa dois velhos conhecidos, meus conterrâneos, que acabavam de regressar de uma viagem de vários anos aos países do Norte. Entre as várias aventuras que me contaram, prendeu-me a atenção a descrição que me fizeram da travessia do Grande Deserto de Thar.
«O que é mais difícil de imaginar a quem não tenha atravessado nunca essas infindáveis extensões de areia, mais do que o calor sufocante do dia ou a fúria assassina das tempestades de areia», explicou-me um deles no tom grave de quem recorda um perigo mortal ou uma inexplicável traição, «é o silêncio de certas noites em certos lugares.»
«Um silêncio aterrador», confirmou o outro, «um silêncio tão completo que se ouve em pormenor os ruídos todos do nosso corpo – o coração a bater, o sangue a correr, o ar a descer-nos pela garganta, os alimentos a serem digeridos no estômago. Acho que é isso, precisamente, que assusta no silêncio, essa repentina consciência de nós…»
O silêncio, é claro! De repente, como numa revelação, percebi que, fosse qual fosse a interpretação dada à expressão música de Deus, essa música tinha de ser o silêncio! (...)"

26/11/11

[Crónicas de Svendborg #8] Sábado de novembro em Taasinge, um quase haiku

*
Hoje está suave, como dizem os franceses.
O sol brilha frio, mas, a desafiar os 10 graus,
dlim dlim, dlim, a carrinha dos gelados!

*

25/11/11

2 histórias da 1ª guerra mundial

1. Soldados belgas e franceses no Cemitério Auxiliar de Copenhaga [Crónicas de Svendborg #7]
Todas as histórias de guerra são tristes e cruéis, porque a guerra é sempre triste e cruel. E nem sequer deixa de ser cruel quando não é ela a causadora direta da morte dos que, por ela, tiveram de deixar a sua terra.

Na parte católica do bucólico Assistens Kirkegård, o Cemitério Auxiliar de Copenhaga, reparei uma vez em túmulos de soldados belgas e franceses, e surpreendeu-me ver que tinham datas de 1919. Eram soldados, explicou-me alguém, que tinham sido prisioneiros algures na costa norte da Alemanha e que, quando a guerra acabou em novembro de 1918, vieram de barco para a Dinamarca, para daqui seguirem para casa. Isto foi no início de 1919. Havia nessa altura na Europa uma epidemia de uma gripe violenta conhecida como gripe espanhola. Foi a gripe que matou aqueles soldados. Depois dos horrores da guerra e do cativeiro no país inimigo, quando o cansaço se começava a diluir, seguramente, na euforia do retorno a casa, veio um vírus, que não uma bala alemã, cortar-lhes a vida aos vinte e poucos anos.

Em memória dos soldados franceses e belgas mortos de gripe em 1919. Wikimedia Commons. 
2. A guerra em Moçambique
Aproveito ser hoje aniversário da batalha de Ngomano para lembrar aqui que a Primeira Grande Guerra chegou à África Austral e houve combates entre tropas portuguesas e alemãs em Moçambique. Há algumas páginas online onde podem ler mais sobre o assunto (por exemplo, as que indicarei a seguir) e não é minha intenção desenvolvê-lo aqui, mas tão-só referir aqui um facto que seria apenas surrealista se não fosse trágico e revoltante.

Francisco Proença Garcia [Moçambique na 1ª Guerra Mundial - do Rovuma ao Nhamacurra (1)] cita Azambuja Martins, que escreve:
Portugal mobilizou para aquele território, ao longo dos vários anos, 19.438 militares da metrópole, 985 portugueses recrutados localmente e 10.278 africanos, e recrutou 90.000 carregadores, 60.000 fornecidos ao Exército português e 30.000 às forças britânicas ["A campanha de Moçambique", in Martins, Ferreira, Portugal na Grande Guerra, Vol. II, Lisboa, 1938, p. 186.]. 
Os números são confirmados por outras fontes em A guerra em Moçambique. 5. última fase da campanha, de Manuel Amaral (negrito meu):
As forças portuguesas vindas sucessivamente da Metrópole atingiram 18.613 praças, enquadradas por 825 oficiais.
As 30 companhias indígenas e as 6 baterias indígenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indígenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Lourenço Marques. As forças de marinha mobilizaram um batalhão de duas companhias. Mobilizaram-se também 8.000 auxiliares indígenas das capitanias mores de Moçambique [Livro de Ouro da Infantaria, pág. 100. Artigo de Álvaro de Castro].
Assim as nossas forças mobilizadas atingiram nesta colónia um total de 39.201 homens.
Os carregadores portugueses fornecidos às tropas inglesas elevaram-se a 30.000 10 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; as perdas totais na nossa população indígena de Moçambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas [Dr. Egas Moniz, Um ano de política, 1919. (Apontamentos da Delegação à conferência da paz)]. 
Se já não devia ser fácil, para alguns soldados portugueses, compreender que guerra era aquela e por que combatiam, imaginem o que significaria a guerra para todos aqueles moçambicanos, que pouco ou nenhum contacto tinham tido com europeus e que eram recrutados à força e obrigados a lutar e a morrer por nações que não tinham, para eles, o mínimo significado.

"General Smuts inspecionando uma unidade nativa sul-africana em França", provavelmente por John Warwick Brooke. http://digital.nls.uk/74548224.

10/11/11

Homenagem a Carl Stalling, no dia do 120º aniversário do seu nascimento

Quando eu era rapaz, pensei muitas vezes que devia ser giro ouvir só a música dos desenhos animados sem ver os bonecos, mas nunca me dei mesmo ao trabalho de gravar as bandas sonoras da televisão. Houve, porém, quem tivesse pensado o mesmo que eu sem se ficar pela ideia. John Zorn, por exemplo. John Zorn considera Carl Stalling, o compositor das bandas sonoras dos cartoons da Warner Bros., uma das suas grandes influências e um dos grandes inovadores da música do século XX e de todos os tempos. Segundo ele, Carl Stalling é inovador sobretudo a nível do tempo; mas também na conceção de que não há estilos de música melhores que outros e que, portanto, todas as músicas se podem juntar; e na substituição da regras tradicionais da música (“desenvolvimento, tema e variações, etc.”) por “um caleidoscópio em constante transformação de estilos, formas, melodias, citações e […] descrições sónicas de eventos visuais”*.
John Zorn foi o consultor de produção de The Carl Stalling Project, music from Warner Bros. cartoons 1936-1958, o primeiro disco de música de Stalling, que foi publicado em 1990 (Volume II em 1995), mas que, como Zorn diz, devia ter sido publicado muito antes. Mas enfim, mais vale tarde que nunca e eu fiquei, quando conheci o disco, muito contente de ter visto finalmente realizado um projeto de juventude. A música de Carl Stalling é um delírio, seja qual for o sentido que se dê à palavra.

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* Traduzo eu das notas do CD The Carl Stalling Project, music from Warner Bros. cartoons 1936-1958.

09/11/11

Crónicas de Svendborg #6: Novembro

Em 1986, Henrik Nordbrandt escreveu um dos mais famosos poemas dinamarqueses, provavelmente o poema que mais dinamarqueses sabem de cor*:

O ano tem 16 meses: Novembro
Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril
Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro
Outubro, Novembro, Novembro, Novembro, Novembro.

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* O poema nr. 2 de Håndens skælven i november (Copenhaga: Gyldendal, 1986): “Året har 16 måneder: november / december, januar, februar, marts, april / maj, juni, juli, august, september / oktober, november, november, november, november”

Avós

Há pouco mais de uma semana, uma amiga minha publicou, no seu mural do Facebook, o seguinte texto:
Definição de avó – artigo redigido por uma menina de 8 anos no Jornal do Cartaxo, Portugal…
Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem «Despacha-te!». Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.
Perante um texto assim, o mais natural é reagir, estou eu em crer, como reagiu João Soares Barros no seu blogue Perguntas sobre…
Este artigo circula na Internet como sendo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo. Provavelmente a história não será bem esta, até porque creio que nem existe um jornal exatamente com este nome, mas sim um Jornal O Povo do Cartaxo. Mas tudo isto são pormenores, perante a verdadeira delícia que é este texto.
Agora eu, embora concordando completamente que a origem do texto não afeta em nada o seu conteúdo e a sua graça, reagi de uma maneira um pouco diferente, porque aquele texto não era novo para mim. Foi-me oferecida em 1993 uma cassete do cantautor Paul Tracey. Chama-se Songs & Stories e inclui uma canção chamada “Grandmothers” [“Avós”], cuja letra não sabia toda de cor, mas de que me lembrava que começava com a grandmother is a woman with no children of her own… [“uma avó é uma mulher que não tem filhos seus…]” e terminava com …everybody should have one, especially if your living room has no television [“…toda a gente devia ter uma, sobretudo se a sala de jantar não tiver televisão]”. A minha reação foi, então: “Ah, mas que curioso – isto é uma tradução adaptada da canção de Paul Tracey!”

Por via das dúvidas, meti-me a pesquisar na Internet. Cheguei relativamente depressa à conclusão de que o texto é muito popular, circula em muitas línguas[1], e atribuem-se-lhe origens várias: nalguns casos, diz-se que foi escrito por uma menina, cuja idade varia entre os 4 e os 9 anos; noutros, que foi escrito por um rapaz de 8 anos e encontrado numa igreja galesa; noutros, que foi compilado de trabalhos de uma turma de crianças de 8 anos, etc. 
No blogue de Raquel Moura, de Mogi Mirim, São Paulo, encontrei uma primeira referência concreta à origem da frase[2]:
Li isto num livro chamado Lar Doce Lar de um dos meus autores prediletos, o Dr. James Dobson. Ele conta que "há muitos anos, uma menina de 4 anos, chamada Sandra Louise Doty, sentou-se numa banqueta numa floricultura, enquanto sua avó atendia os compradores. Quando a avó e a neta conversaram, a menina começou a descrever o que ela achava ser uma avó. A idosa senhora anotou as palavras de Sandra, que têm sido citadas em todos o mundo. Sandra é atualmente a Sra Andrew De Mattia, e deu-nos permissão para transmitir a você sua composição original, intitulada “O que é uma avó”.
O texto que se seguia tinha, em parte, o mesmo conteúdo que o texto publicado pela minha amiga no Facebook, mas acrescentava-lhe alguns pontos: acrescentava referência ao avô (“Um avô é um homem avó” [que] sai para passear com os meninos e eles falam sobre pescaria, tratores e outras coisas semelhantes”) e acrescentava à descrição das avôs que “são velhas, por isso não devem brincar muito nem correr”; que “já fazem muito quando nos levam de carro até as lojas, onde está o cavalo de mentira, e levam uma porção de moedinhas separadas”; que, além de óculos, usam também “roupas de baixo esquisitas”; que não sabem tirar só os dentes, mas também as gengivas”; que “não têm de ser muito inteligentes, somente responder a perguntas como «Por que os cachorros odeiam os gatos e Deus não é casado?»; e que “não falam como os bebés falam, como fazem os visitantes, porque é difícil de entender”.
Ao princípio, pensei que se tratasse de uma referência ficcional, sobretudo porque não encontrei nenhum livro de James Dobson chamado Home sweet home e porque, juntando numa única pesquisa “James Dobson” e “Sandra Louise Doty”, só me apareceram páginas em português e espanhol[3]. Mas descobri que a referida edição de James Donson em português existe mesmo: é de 2000 e é a tradução de um livro chamado Home with a Heart (Living Books, 1999). Mais recente, portanto, que a cassete de Paul Tracey, pensei eu.
No dia seguinte, depois da grande limpeza de sábado de manhã, fui buscar a cassete de Paul Tracey (uma das poucas cassetes que conservo), para tirar a letra. E dei-me conta de que acabávamos de deitar fora o único leitor de cassetes que havia cá em casa. Era uma aparelhagenzinha que estava na cozinha e que estava funcionar tão mal que decidíramos, nessa mesma manhã, deitá-la para o lixo. Mas fui buscar a aparelhagem ao lixo e tirei a letra da canção [traduzo eu]:
Uma avó é uma senhora que não tem filhos seus, / mantém-se sempre ocupada a coser coisas que precisam de ser cosidas. / Gostam das meninas dos outros e dos meninos também, / mas tens de ter cuidado, senão tropeça-te nos brinquedos. / Não tem de fazer muito, a não ser só estar ali, / nunca tem de dizer «Despacha-te lá» nem de olhar quando estás nu. / As avós usam todas óculos e roupa interior esquisita, / e conseguem tirar dentes e gengivas e depois levá-los a consertar. / Não têm de ser espertas, mas têm de saber, as avós, / por que Deus não é casado e que altura tem o céu. / Nunca falam à bebé, como as outras visitas, / e são incrivelmente justas a fazer coisas à vez – agora és tu, agora é ela. / Um avô é um homem-avó; traz o carvão para dentro, / vai pôr o lixo lá fora, depois acha que vai dar uma voltinha… / As avós leem-te histórias, todos deviam ter uma, / sobretudo se na sala de estar não houver televisão[4].
Agora, como podia ter a certeza de que era este texto que tinha dado origem a todos os outros? O melhor, pensei eu, era perguntar ao autor se eram dele estas ideias. E foi o que eu fiz: “O texto é inteiramente seu, como eu parto do princípio que é”, escrevi eu a Paul Tracey, “ou baseou a sua canção em textos, anedotas ou aforismos preexistentes sobre as avós?”
Continuei a pesquisar na Internet. E encontrei uma referência bibliográfica clara num texto de Steven J. Cole: Adoro esta perspicaz redação de uma menina da terceira classe, chamada “O que é uma avó?” (James Dobson, What Wives Wish Their Husbands Knew About Women [Tyndale], pp. 47-48).
A lista de livros de James Dobson da Wikipedia diz que o livro é de 1995, mas verifiquei que há pelo menos duas edições mais antigas deste livro, uma de 1981 (Living Books) e uma de 1982 (Tyndale House Publishers). A cassete de Paul Tracey, essa, não fazia ideia de quando seria, porque não tem qualquer data… Aliás, o próprio autor também não sabe quando gravou a música, como me explicou na resposta ao meu e-mail. Paul Tracey foi extremamente amável e respondeu-me imediatamente, contando-me a história da canção:
A minha mãe vivia em Inglaterra e há muito tempo – anos antes de haver Internet – encontrou as ideias de base para a canção sobre as avós, apresentadas como se tivessem sido criadas algures por uma criança. A minha mãe mandou-me o texto. Não faço ideia de quem o terá escrito de facto, mas fiquei desconfiado e duvidei de que tivesse realmente sido uma criança.
Transformei o texto na minha canção, tirando alguma coisas que não conseguia encaixar e fazer rimar, e acrescentado alguns bocados meus.
Tenho de admitir, porém, que é uma das minhas canções de que gosto menos! Talvez seja porque sou agora tão egocêntrico que só canto canções que tenha escrito eu próprio! Não é bem verdade, mas quase. Decididamente, roubei as ideias do original e não é nada o meu estilo!
E acrescentava que ele próprio tinha conhecimento de que o texto circula por aí:
Para o seu blogue, sugiro que esta obra em particular de facto não viajou nada depressa. Se, como me diz, anda agora a circular, isto demorou muito tempo a acontecer. Acho que, pessoalmente, já topei com ela 3 vezes desde que escrevi a canção há cerca de 40 anos
Fiquei assim a saber que, ao contrário do que eu pensara inicialmente, o conteúdo do texto não foi criado por Paul Tracey. Provavelmente, devia simplesmente partir do princípio que a autora era mesmo a tal Sandra que James Dobson referira. Mas, enquanto não me decidia a dar por terminada a pesquisa, ia displicentemente variando um pouco as pesquisas em Google. E tive de repente novos resultados: Há no site Jokes from the Web, de Richard Lowe, uma carta de uma senhora chamada Sandra L. DeMattia, que reclama a autoria do texto [traduzo eu]:
A obra que publicou chamada “O que é uma avó?” não foi escrita por uma turma de crianças de oitos anos nem por uma menina da terceira classe. Foi uma conversa que uma menina de 3 anos teve com a avó em 1952. Foi publicada pelo primeira vez em meados dos anos setenta pelo Dr. James Dobson e depois noutro livro seu de 1996 chamado Home with a Heart. Esta entrada aparece nas páginas 20 e 21. Se for possível, poderia corrigir a autoria? Como já disse a outros administradores de sites da Internet, sei que sou um bocadinho forte – como a minha avó – mas não tanto que se me possa considerar um grupo ou uma turma. Continue, por favor, a usar o texto, já que ele parece fazer sorrir avós em todo o mundo. Como já deve ter adivinhado, sou eu a menina de três anos – 53 anos mais tarde. Se quiser mais alguma informação sobre o assunto, sinta-se à vontade para me contactar[5].
É fácil verificar que James Dobson publicou de facto livros nos anos 70. O facto de a referência ser mais uma vez vaga (só a referência à edição de 1996 é que dá páginas) e de não haver uma identificação mais concreta desta Sra. DeMattia não ajuda muito a acreditar que estejamos finalmente perante a verdadeira autora do texto original[6]. Bom, podia ter escrito a Richard Lowe a perguntar, podia ter encomendado um ou mais livros de James Dobson, ou até ter-lhe escrito também, para tentar descobrir mais alguma coisa, mas não – prefiro desistir desta história e dedicar-me antes a outras… como direi?... atividade mais proveitosas.

Um texto – ou uma canção, ou qualquer outro objeto intelectual, artístico ou não tem sempre um autor concreto. Mesmo que seja uma variação sobre um objeto anterior, essa variação tem um autor, como o tem o objeto sobre o qual foi feita. Quando se fala de objetos artísticos “tradicionais”, por exemplo, aquilo de que se está a falar de facto é de objetos de autoria(s) desconhecida(s). A história do texto das avós ilustra bem, acho eu, o processo, ora voluntário ora involuntário, de apagamento ou ficcionalização da autoria de um objeto literário – e da sua transformação ao passar de mão em mão. Agora, se as coisas se passam assim no séc. XXI, imaginem como se passavam antes, quando a ideia de autor tinha muito menos importância do que agora e ninguém tinha aprendido a fazer referências bibliográfica – nem que se as deve fazer… Lembro-me de um documentário muito interessante de Adela Peeva chamado Whose song is this?, sobre uma canção que gregos, macedónios, turcos, sérvios e búlgaros acreditam todos ser uma canção tradicional da sua terra. Há centenas de casos assim. A “Raspa”, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça, de que país acham que é?

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[1] Eis os resultados das minhas pesquisas em francês, português e inglês: uma pesquisa fechada com aspas de "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfants" deu-me 17.200 ocorrências em Google; "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfant" (é preciso contar com este pormenor, veem?, quando se faz pesquisas de frases específicas em francês…) tinha 18.600 ocorrências; “uma avó é uma mulher que não tem filhos” deu-me 10.400 ocorrências; e “grandmother is a lady who has no children” deu-me 12.800. Também se encontram versões com dame, senhora e lady em vez de femme, mulher e woman, respetivamente, mas têm muito poucas ocorrências. Evidentemente, nem todas as frases fazem parte de variações do texto em causa, mas a esmagadora maioria faz, como qualquer verificação aleatória rapidamente nos indica… O texto tem especial popularidade em setores religiosos do ciberspaço. 
[2] Publicado a 30 setembro 2007. Edite Esteves, de Lisboa, publicou no seu blogue, o mesmo texto, a 26 de julho de 2011, mas com uma referência bibliográfica (quase) completa: James Dobson, Lar, Doce Lar, Editora United Press Ltda, 2000
[3] A Sandra Louise Doty mais fácil de encontrar é uma esposa de um diplomata, que veio a tornar-se agente da CIA e que faleceu a 8 de abril 8 de 2010 com 69 anos. Não se pode tratar desta Sandra Louise Doty, porém, porque esta nunca se tornou DeMattia. Pelo contrário, ganhou pelo casamento o apelido Doty. O site Census Data Online diz que há 11 pessoas com o nome Sandra DeMattia nos EUA. E diz também que, para saber mais, há que pagar, imaginem vocês…
[4] A grandmother is a lady with no children of her own, / She’s always keeping busy sewing things that should be sewn. / She likes other people’s little girls and also little boys, / But you’ve got to be so careful or she’ll trip up on you toys, / She doesn’t have to do much except for just be there, / She should never say “Now, hurry up!” or look when you are bare. / Grandmothers all wear spectacles and funny underwear, / They can take their teeth and gums off and then take them for repair. / They don’t have to be clever, but grandmothers should know why / Why God isn’t married and how high up is the sky. / They never talk baby talk like others visitors, / They’re awfully fair at taking turns – it’s yours and then it’s hers. / A grandfather is a man grandmother; he brings in the coal, / He takes out the garbage, then he thinks he’ll take a stroll… / Grandmothers read you stories, everybody should have one,  / Especially if your living room has no television. Television é pronunciado de maneira a rimar com one, para obter efeito humorístico.
[5] A versão do texto apresentada neste blogue era ligeiramente diferente das que tinha visto até essa altura. Além de estar apresentada por pontos (15 pontos numerados), aparecem algumas ideia diferentes das que se encontram na maior parte das outras versões. Há sobretudo, mais perguntas a que as avós têm de responder: “As minhocas bocejam?”, “Porque é que os cães perseguem os gatos?", "A vaca saltou mesmo por cima da lua [referência a uma lengalenga infantil inglesa]?" e "Porque é que as pessoas se beijam debaixo do visgo [referência a uma velha tradição do Norte da Europa]”?"
[6] Além de que a riqueza retórica do texto é tal – e assente, ainda por cima, numa lista cuidadosamente elaborada dos clichés associados à imagem da avó na cultura ocidental – que só por ingenuidade, digo eu, se o atribui a uma menina de três anos. Mas isto é só uma impressão, não o posso provar.